Читать книгу: «Mundos aparte - Mundos aparte»

Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 109 - fevereiro 2021
© 2009 Maggie Cox
Mundos aparte
Título original: The Buenos Aires Marriage Deal
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2009 Cathy Williams
De ama a esposa
Título original: Hired for the Boss’s Bedroom
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2010
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1375-275-4
Índice
Créditos
Sumário
Mundos aparte
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
De ama a esposa
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
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Capítulo 1
De regresso do seu passeio a cavalo, sob o deslumbrante sol de Palermo, Pascual Domínguez entrou a trotar nos estábulos e desmontou. Deu uma palmada na garupa do cavalo e ordenou ao rapaz das cavalariças que o soltasse no prado, depois de se ocupar dele.
Estava de bom humor. Na noite anterior, houvera uma festa familiar em honra do seu noivado e desejava passar algumas horas a sós com a noiva, Briana, quando ela saísse do trabalho.
A festa fora tão concorrida que não tinham conseguido falar nem um momento. No entanto, naquela noite, iam jantar ao seu restaurante favorito e, depois, esperava que passasse a noite com ele, antes de irem passar alguns dias juntos. Sozinhos e longe da sua bem-intencionada família e amigos.
Briana virara o seu mundo organizado ao contrário, era indubitável. Nem em sonhos pensara que chegaria a sentir uma ligação tão instantânea e poderosa com uma mulher e agradecia-lhe, diariamente, por isso.
Desde que pusera os olhos na jovem ama inglesa, que os seus amigos Marisa e Diego de la Cruz tinham contratado para cuidar da filha, Briana Douglas transformara-se no centro das suas esperanças e sonhos. Aceitara tornar-se sua esposa e ele contava os dias que faltavam para o casamento.
Assobiando, entredentes, atravessou a porta dupla da casa e encontrou a sua governanta, que o esperava. Uma ruga ensombrecia o seu rosto de pele lisa e morena.
– O que se passa, Sofía? – Pascual arqueou uma sobrancelha e sentiu um calafrio de apreensão inexplicável.
– A menina Douglas veio aqui quando estava a cavalgar… – começou por dizer a mulher de meia-idade.
– Onde está? – interrompeu ele, olhando com impaciência para a fantástica entrada de mármore.
– Não ficou, senhor.
A governanta pôs a mão no bolso da saia preta e comprida, tirou um envelope branco e ofereceu-o a Pascual. Ele sentiu que o sangue lhe gelava nas veias.
– Disse-me para lhe entregar isto.
– Obrigado – arrancou-lhe o envelope da mão, dirigiu-se para a escada e subiu os degraus, dois a dois.
Na sua suíte privada, rasgou o envelope. Odiava o pressentimento de desgraça, que o fazia sentir um nó no estômago. Aproximou-se da varanda da sala de estar e a brisa perfumada, com cheiro a jasmim e madressilva, agitou a folha de papel creme que a sua mão agarrava com avidez.
Começou a ler e a sensação gelada que o invadira intensificou-se.
Querido Pascual,
Por onde hei-de começar? É muito difícil dizer-te isto, mas decidi que não posso seguir em frente com os nossos planos de casamento. Não porque deixei de te amar ou algo do género. Os meus sentimentos por ti continuam a ser tão intensos como sempre. Contudo, comecei a perceber que o nosso casamento nunca poderia funcionar. A diferença de classes e do que somos como pessoas é demasiado grande. Tentei falar contigo, mas dizes-me sempre que não há razões para preocupações e que invento problemas onde não há.
Receio que estejas enganado. No fim, essas divergências exercerão um efeito negativo na nossa relação. Já houve repercussões no teu ambiente familiar, por quereres casar com uma estranha. Claro que a tua família significa tudo para ti e não quero interpor-me entre vocês. Com o tempo, sentirias ressentimento por mim. Portanto, em vez de provocar mais dor ficando e vendo como o que agora temos se desintegrará, decidi regressar a Inglaterra e retomar a minha vida lá.
Compreendo que esta notícia seja uma tremenda surpresa para ti e lamento imenso a dor que possa causar-te, mas penso que, a longo prazo, é o melhor, para o bem de ambos. Foste muito bondoso comigo e nunca o esquecerei, Pascual. Penses o que pensares enquanto lês esta carta. Também lamento que tenhas de ser tu a dizer a todos que o casamento não se celebrará, mas depois de ter conhecido um pouco a tua família, tenho a certeza de que a notícia confirmará a sua convicção de que eu era totalmente inadequada para ti desde o começo.
Por favor, não tentes voltar a entrar em contacto comigo. É a única coisa que te peço. Só prolongaria a dor de ambos e penso que é melhor voltarmos a começar do zero. Cuida de ti, desejo-te o melhor, agora e sempre.
Com todo o meu amor,
Briana
Dios mío!
Pascual, assolado por uma onda desumana de incredulidade, de dor e de desilusão, voltou a ler a carta, incapaz de assimilar o seu conteúdo devastador. Abandonara-o. Briana, a mulher da sua alma, a bela jovem por quem se apaixonara à primeira vista e, com quem ia casar, voltara para Inglaterra. Nem sequer tivera a coragem de lhe comunicar a sua decisão pessoalmente.
Na noite anterior, parecera muito feliz na festa. Ou talvez não. Ao pensar melhor, lembrou-se que, no fim da noite em casa dos seus pais, ela parecera estar um pouco cansada e tensa. Desejara ficar a sós com ela e perguntar-lhe o que a preocupava. Mas, no fim, visto que os seus amigos não tinham querido que deixasse a festa demasiado cedo, pedira ao seu motorista para levar Briana a casa, supondo que a veria naquela noite e poderia descobrir o motivo da sua inquietação.
Era demasiado cruel perceber que a sua intenção não chegaria a materializar-se, porque ela decidira ir-se embora sem esperar para falar com ele. «Porque não ouviste antes o que tentava dizer-te?», recriminou-se, angustiado. Era óbvio que Briana estava convencida de que havia problemas, embora ele não o achasse. No entanto, não tinha o direito de supor que sabia «o que era melhor para ambos a longo prazo». Falava em relação a si própria… E não dele!
Começou a sentir que a divisão ampla se transformava numa prisão. A necessidade de sair e respirar ar puro estimulou-o. Atirou a carta para cima da secretária e saiu de casa. Praguejou enquanto saía novamente para o sol do meio-dia. Os saltos das suas botas de montar ecoavam nas pedras da calçada, branqueadas pelo sol.
Pela segunda vez, nos seus trinta e seis anos de vida, sentira a dor amarga da perda e isso desestabilizara-o por completo. No ano em que Pascual fizera trinta anos, Fidel, o seu melhor amigo, falecera num horrível acidente de viação, deixando para trás a esposa e o filho. Isso fizera-o entender, de forma brutal, que a vida era breve e não servia de nada dispor de uma grande riqueza, quando não se tinha alguém para a partilhar. Reflectira sobre o futuro e compreendera que desejava ter uma esposa, a sua família. Mas a sua esperançada busca de uma companheira levara-o a entregar o seu coração a uma mulher que, obviamente, valorizava tão pouco os seus sentimentos, que era capaz de se ir embora sem aviso prévio e sem lhe dar uma explicação digna desse nome.
Pascual voltou a sentir o impacto da carta de Briana e a sua agonia e desespero foram tais, que esteve prestes a cair de joelhos. Perguntou a si mesmo porque não confiara o suficiente nele para lhe confessar as suas dúvidas sobre o futuro. Se as dúvidas eram o problema. Tal como ele o via naquele momento, as suas acções transformavam-na num ser desprezível. O seu único consolo era a esperança de que se arrependesse amargamente de o ter abandonado e sofresse as consequências.
Porque não iria atrás dela. Não ia dar-lhe a oportunidade de o rejeitar uma segunda vez, por muito desesperado que estivesse por vê-la nos dias, semanas ou anos seguintes. E, se descobrisse que o abandonara por causa do impensável, porque se apaixonara por outro, amaldiçoá-la-ia até ao fim dos seus dias.
Cinco anos depois,
Londres, Inglaterra
– Era o carteiro, querida?
– Sim, mãe.
Briana olhou para o fino envelope castanho que fora buscar e sentiu que o seu coração começava a pesar como chumbo no seu peito. Se não se enganava, era outra missiva do banco e havia a possibilidade de ameaça de um processo judicial, que passara semanas a rondá-la e parecia se ter transformado numa horrível realidade.
Há dezoito meses, a empresa que criara, de serviços administrativos e turísticos para executivos em viagens de negócios, florescia a um ritmo que superava todos os seus sonhos. Contudo, desde que a recessão global começara a criar raízes, caíra a pique. As pessoas não estavam dispostas a usar uma empresa pouco conhecida, quando havia outras de mais renome, que podiam arriscar-se a reduzir o preço dos seus serviços, minando assim a competição.
Tinha um filho para criar e uma renda para pagar. Não sabia como ia fazê-lo, quando mal tinha ganhos suficientes para comprar comida e pagar as contas básicas.
– Briana? Vais tomar o pequeno-almoço com Adán e comigo antes de ires de fim-de-semana?
– Claro. Dá-me um minuto, pode ser?
Briana, com um suspiro, guardou o envelope fechado na mala. Não ia partilhar com a sua mãe a notícia de que acabara de receber outra carta preocupante sobre a sua dívida. Frances Douglas venderia a roupa que tinha vestida, se com isso pudesse ajudar a filha e o neto a chegarem ao fim do mês. Já hipotecara a sua casa para os ajudar. Fizera mais do que o suficiente. Sem a sua ajuda, Briana nem sequer teria conseguido criar a empresa. Era ela que tinha de conseguir sair do abismo em que caíra.
Passou uma mão pelo cabelo castanho, sedoso e rebelde, e voltou à cozinha com um sorriso forçado. O filho estava sentado num banco alto, a dar conta de uma taça de cereais e a mãe estava a pôr duas fatias de pão integral na torradeira.
A criança sorriu de orelha a orelha ao ver Briana.
– Mãe, estou a repetir! – anunciou com alegria. Uma gota de leite brilhava na covinha do seu queixo.
– A sério, meu anjo? Não é de estranhar que estejas a crescer tanto! – depositou um beijo carinhoso na sua cabeça morena e dirigiu-se para o fervedor da água que estava sobre a bancada. – Queres uma chávena de chá, mãe?
– Porque não te sentas com Adán e me deixas tratar disso? Não deixarei que saias de casa sem comer pelo menos umas torradas! Com tantas preocupações, estás muito pálida e magra. Ficar doente não servirá de nada.
– Não é porque não como – Briana pôs o cabelo atrás das orelhas, suspirou e pôs duas saquetas de chá nas chávenas. – Tenho andado um pouco absorta, mais nada. Este fim-de-semana tem de correr bem, mãe. Tenho três empresários que vão receber um milionário estrangeiro e tenho de os atender numa mansão Tudor, com a qual nem sequer estou familiarizada. Tenho de chegar cedo e pôr-me em dia para os receber como merecem ou será um desastre! Ainda bem que Tina foi ontem, para começar a organizar tudo. Se ficarem com uma boa impressão, é provável que me dêem mais trabalho, portanto, faz figas por mim, está bem?
– Não devias precisar que fizesse figas! – anunciou Frances Douglas, franzindo a testa. – És a melhor no que fazes, Briana Douglas, não o esqueças! A dívida que ameaça a empresa deve-se à tua natureza ingénua, não à tua falta de capacidade.
– Obrigada, mãe. Precisava de um pouco de ânimo esta manhã. És um anjo!
– Não te preocupes com Adán. Organizei um fim-de-semana fantástico para os dois. Quero que vás trabalhar e te concentres no que tens de fazer sem te preocupares connosco.
– Prometo não vos falhar.
Os olhos cinzentos da mãe humedeceram-se.
– Nunca me falhaste em vinte e sete anos de vida, nem penses que há essa possibilidade!
Briana, com os olhos também húmidos, assoou o nariz e deu-lhe um abraço forte. Era muito sortuda. Tinha a melhor mãe que uma rapariga podia desejar e um filho encantador que era a luz da sua vida. Deixando de lado os problemas financeiros, não estava nada mal. No entanto, assim que decidiu olhar para as coisas pelo lado positivo, a imagem do pai do seu filho cintilou na sua mente e a pontada que sentiu no coração quase a deixou com falta de ar.
A casa era impressionante. Situada no meio do verde aveludado das colinas suaves de Warwickshire, denominada a terra de Shakespeare, era uma bela relíquia da época tumultuosa dos Tudor. Qualquer pessoa que se interessasse por História teria olhado para ela com admiração.
Pascual fê-lo durante vários minutos, depois de o motorista abrir a porta do Rolls-Royce, que o trouxera do aeroporto. Admirou a fachada branca com vigas de madeira, as pequenas janelas em forma de arco e os painéis de vidro chumbado do edifício de três andares. O ambiente também era espectacular. A caminho dali, depois de transpor um portão metálico, tinham atravessado um lindo parque com árvores centenárias. Começou a cair chuva miudinha, como se tudo quisesse recordar-lhe que estava no campo, em Inglaterra, longe da vida colorida e do calor de Buenos Aires. Quando a chuva piorou, correu para procurar abrigo.
Esteve prestes a chocar com uma jovenzinha loira e magra que disse chamar-se Tina e que trabalhava para os homens de negócios que tinham organizado aquela estadia de fim-de-semana de Pascual. Depois de lhe mostrar a sua suíte, disse-lhe que voltaria com café e que, mais tarde, a sua colega o levaria a conhecer os seus anfitriões.
Agradecendo a oportunidade de tomar um duche e familiarizar-se com o ambiente antes de almoçar e entregar-se aos negócios, Pascual levou o seu tempo a preparar-se para a reunião. A chuva não parava de cair, batendo nos vidros da janela do quarto. Olhou lá para fora e, ao ver que as árvores se dobravam quase até ao chão, compreendeu que o vento adquirira a intensidade de uma tempestade. Contudo, dentro de casa, o ambiente era quente e agradável. Sentiu uma espécie de paz, que quase nunca experimentava em sua casa, a descer sobre ele como uma suave manta de penas que o isolava do resto do mundo.
Deixou escapar um suspiro de satisfação. Ao fim e ao cabo, não tinha de se preocupar. Por mais que fizesse esperar os seus anfitriões, nunca pensariam em emitir uma só queixa. Tinham a oportunidade de comprar os cavalos de pura raça mais procurados do mundo, a elite da elite, portanto, controlariam a sua impaciência, independentemente do tempo que Pascual demorasse.
Estava absorto a pôr os botões de punho de diamante nos punhos da camisa azul de Savile Row, quando ouviu uma pancadinha na porta. Supôs que seria a pequena loira e pensou que lhe saberia bem uma chávena de café bem forte.
Do outro lado da porta de carvalho, no corredor comprido e de tecto baixo, Briana tentava controlar o ritmo da sua respiração. Chegara atrasada, apesar dos seus esforços, mas a tempo de pegar na bandeja de café que Tina levava para a suíte do convidado importante. Passou uma mão pelo cabelo e desejou que a pressa e o facto de não ter tido tempo de retocar a maquilhagem não diminuíssem o profissionalismo, que era a sua marca de qualidade. Nem sequer perguntara a Tina como se chamava o convidado. Com um pouco de sorte, estaria tão agradecido pelo café que não repararia que não o chamava pelo seu nome.
A cafeteira de prata, o prato, a chávena e a jarrinha de porcelana branca tremeram sobre a bandeja que Briana segurava. Concentrou-se e respirou fundo outra vez.
– Mesmo a tempo! Ia… Meu Deus!
Uns olhos de cor tão intensa como a do melhor cacau, num rosto atraente de traços duros, com maçãs do rosto altas e uma boca incrivelmente sensual e viril, fixaram-se nela como se o seu proprietário não conseguisse acreditar no que via.
– O que fazes aqui?
Briana agarrou a bandeja, que estivera prestes a deixar cair. Achou que estava a sonhar. O seu coração batia no peito a ritmo infernal. Pascual era o convidado importante! Era imperdoável não o ter sabido. O seu equilíbrio e profissionalismo desapareceram de repente. Sentia-se tão vulnerável, exposta e inadequada, que as lágrimas começaram a queimar-lhe a garganta.
– Ouviste o que disse?
Durante um momento, o seu sotaque pareceu-lhe mais marcado do que o recordava. Briana descobriu, para sua tristeza, que o tom sensual da sua voz continuava a ter o poder de fazer com que as suas pernas tremessem como gelatina.
– Estou a trabalhar… E trouxe-te o café – conseguiu dizer, oferecendo-lhe um sorriso trémulo. – Importas-te que pouse a bandeja? Tenho medo de a deixar cair.
Pascual abriu a porta para que entrasse. Os seus olhos seguiram-na, acusadores, enquanto atravessava o quarto para deixar a bandeja numa mesa de carvalho esculpido.
– O que significa isto?
Estava a observá-la como se fosse uma brincadeira de mau gosto… Uma brincadeira que detestava.
– Já te disse, estou a trabalhar. Os teus anfitriões contrataram a minha empresa de serviços para que se encarregasse da recepção e da hospitalidade durante a tua estadia. Não sabia que o convidado VIP eras tu. Lamento, Pascual…
Mordeu o lábio inferior e corou, arrependendo-se de ter usado o seu nome. Sobretudo, porque o belo rosto não revelava nenhum prazer em voltar a vê-la, mas sim o contrário!
– Isto devia ser a última coisa de que precisavas. Ver-me outra vez, quero dizer – murmurou. A sua autoconfiança desapareceu por completo enquanto ele observava o seu corpo de cima abaixo, como se quisesse queixar-se do fato simples, mas profissional, de cor preta.
Ficou sem saber o que fazer. Se rejeitasse a sua assistência e a impedisse de fazer o seu trabalho, seria a última gota que destruiria as suas finanças e a sua reputação profissional. Briana rezou para que não chegasse tão longe. Enquanto se preocupava com a perda do trabalho e tentava não pensar na dor do passado, os seus olhos famintos desejavam chorar de júbilo ao verem o homem que amara e que sonhara voltar a ver algum dia.
Estava impressionante. «Um presente para os olhos», teria dito a sua mãe. Mal mudara, embora a sua estatura lhe parecesse mais imponente do que nunca. Continuava a ser esbelto, musculado e não duvidava que a roupa sublime, feita à medida, escondia um físico invejável, em plena forma. Se a isso se juntasse a beleza do seu rosto, teria de admitir que Pascual Domínguez, não era o tipo de homem que uma rapariga via diariamente. Pelo menos, não ao pé de Briana.
Deslumbrara-a desde o princípio e não demorara a apaixonar-se loucamente por ele. Quando descobrira que ele sentia o mesmo por ela, custara-lhe a acreditar na sua boa sorte. Mas isso fora há cinco anos. Cinco anos em que tivera de assumir a sua condição de mãe solteira, porque Pascual não fazia ideia que tinham concebido um filho antes de ela se ir embora. Não passava um dia sem sentir o peso do remorso, ao lidar com essa realidade…
Ele continuava sem falar, olhando-a como se não soubesse se devia sacudi-la até lhe tirar os sentidos ou gritar até lhe apitarem os ouvidos. Briana retorceu as mãos geladas e olhou para a bandeja que deixara sobre a mesa.
– Queres que te sirva um café?
– Esquece o maldito café! O que achas que estás a fazer? – gritou ele, num tom de voz amargo.
– Não estou a fazer nada – murmurou. – Esta situação é tão inesperada e surpreendente para mim como para ti.
– Mas brincaste comigo, como se fosse um parvo, não foi, Briana? – semicerrou os olhos escuros. – Ainda me custa a acreditar que tenhas feito o que fizeste… Por muito tempo que tenha passado!
– Nunca tive a intenção de fazer com que te sentisses um parvo.
Ao perceber que começavam a tremer-lhe os lábios, Briana tentou controlar os nervos, para não perder a força à frente dele e confessar tudo. De que serviria explicar porque o deixara realmente? Tinham passado cinco anos. Não quisera ouvi-la então, não tinha razão para o fazer naquele momento. Além disso, não queria remexer as coisas e acabar por discutir com ele como, sem dúvida, aconteceria. Também não podia falar da existência de Adán. Precisava de mais tempo…
– Lamento muito que as coisas tenham acabado daquela maneira, mas não foi para o bem?
Era um comentário estúpido e banal de que Briana se arrependeu imediatamente.
– Para o bem? – gritou ele.
As palavras ecoaram pelo quarto e, para Briana, foi um grande golpe captar as emoções que expressavam: Confusão, raiva, frustração… Estava tudo ali.
Ele passou os dedos pelo cabelo escuro e espesso, e mexeu a cabeça, olhando para ela fixamente.
– Posso superar o facto de ter parecido um parvo com a minha família e amigos, mas o que não posso aceitar, nem perdoar é que não me tenhas dado nenhuma pista de que os teus sentimentos por mim eram tão frágeis. Nem que não me darias a oportunidade de ouvir a razão dos teus próprios lábios. Tive de a ler numa carta fria e carente de emoção! Deves ser uma actriz consumada, Briana… Parecias feliz e apaixonada e eu acreditava. Que idiota!
Capítulo 2
O coração batia com a força e rapidez de um expresso. Era difícil aceitar que a mulher que amara, que o abandonara alguns dias antes do casamento, estava ali de pé, diante dele.
Pascual descobriu que a lembrança que tinha dela não lhe fazia justiça. Em carne e osso, Briana Douglas era muito mais bela do que a imagem que conservava na sua mente. Nesse momento, fazia-o pensar num vinho do Porto intenso e exótico, e por mais que deplorasse a forma como o tratara, continuava a desejar beber cada centímetro da sua pele até se embriagar. Sempre tivera um corpo que lhe acelerava o coração. O fato de saia estreita fazia honra à sua figura perfeita. A sua simples presença exsudava uma sexualidade que fazia o seu sangue ferver. Faria bulir o sangue de qualquer homem! Mas era o rosto que mais chamava a sua atenção.
Com aqueles olhos cinzentos, quase felinos, faces rosadas como uma maçã e lábios carnudos e sedutores, era uma mulher que exacerbava as suas fantasias sensuais mais secretas. Com aquela cara e aquele corpo pararia o trânsito em qualquer cidade do mundo, sem se esforçar. De repente, Pascual sentiu uns ciúmes terríveis ao imaginá-la com alguém, ao pensar que poderia tê-lo deixado porque preferia outro homem. Demorou um momento a controlar essa sensação, assim como uma onda de luxúria súbita e inconveniente.
– Teve de haver outra razão para me deixares, para além do que escreveste. Foi por causa de outro homem? Foi isso? – não conseguiu evitar fazer a pergunta que andava há anos a consumi-lo. Ao ver que Briana tremia, estudou-a com o olhar, tenso como uma corda de violino, com medo da sua resposta.
– É claro que não! Lamento se pensaste isso, mas não havia mais ninguém… Continua sem haver.
Ele deixou escapar um longo suspiro de alívio. Mesmo assim, enfurecia-o que parecesse tão serena quando ele trovejava por dentro como um vulcão em ebulição.
– E tu? – aventurou ela. – Voltaste para a tua ex?
– A minha ex?
Nesse momento, Pascual recordou um incidente que tivera lugar na noite antes de Briana se ir embora. A modelo brasileira com quem saíra antes de conhecer Briana aparecera inesperadamente na festa familiar, de braço dado com o seu primo Rafa. A sua mãe, a perfeita anfitriã, deixara-os entrar. Claudia bebera em excesso durante a noite e, quando Briana estava no terraço, a falar com Marisa e Diego, apanhara-o desprevenido. Rodeara o seu pescoço com os braços, apertara-se contra ele e beijara-o na boca…
Pascual ficou tenso, com raiva e desdém renovados, ao recordar o incidente. Não tivera o mínimo interesse em voltar para Claudia, nem então, nem depois. Amava Briana. Mas era óbvio que ela não correspondia ou não teria sido tão fácil deixá-lo sem mais nem menos. Isso destruía-lhe a alma. Nenhum homem gostava de descobrir que a relação que achava real se baseava numa mentira. Uma mentira que implicava que a sua amada não sentia tanto amor por ele como lhe dissera. Uma nova onda de dor e cólera sulcou as suas veias ao pensar no abominável comportamento da mulher que tinha à sua frente.
Ela levantou os seus olhos feiticeiros e tentou esboçar um sorriso. Não teve demasiado sucesso e ele percebeu a preocupação e a dor que reflectia o seu olhar. Alegrou-se por a ter incomodado. Deus sabia o quanto ela o incomodara.
– Quando apareceu na festa… Pensei que tu e ela…
– Enganaste-te. Saía com o meu primo e ele levou-a como acompanhante. Fim da história!
– Bom, então… Será melhor ir-me embora e deixar-te beber o café – disse. – Os teus anfitriões estão à espera na sala do andar de baixo. Queres que lhes diga que estarás pronto em vinte minutos ou assim? Esperarei no hall para te acompanhar.
– Estarei pronto quando estiver, não antes! – gritou Pascual. Virou-lhe as costas e dirigiu-se para a bandeja.
Em silêncio, serviu-se de uma chávena do café aromático e bebeu um gole. Embora tivesse gostos muito definidos a respeito do café que bebia, não encontrou nenhum defeito na mistura escolhida.
Virou-se novamente para Briana, que estava levemente corada.
– Estarás aqui todo o fim-de-semana? – perguntou, consciente de que a conversa que tinham iniciado não podia acabar assim.
– Sim, o meu trabalho exige-mo.
– Há quanto tempo trabalhas para esta empresa?
– Há três anos. Sou a dona.
– Agora és uma mulher de negócios? Conseguiste surpreender-me outra vez!
Embora não tivesse conseguido evitar o tom cínico da sua voz, Pascual estava realmente surpreendido. A Briana que conhecera não dera a impressão de ter interesse em criar a sua própria empresa. Na altura, alegara que só era feliz a trabalhar com crianças e animais. Quando chegara a Buenos Aires, encontrara trabalho a passear cães e depois como ama. No entanto, ele tivera de aceitar que não fora totalmente franca com ele e a sua desonestidade continuava a magoá-lo profundamente.
– Deixarei que desfrutes do café em paz. Espero-te lá em baixo.
Briana dirigiu-se para a porta, sem conseguir disfarçar a sua ansiedade por sair dali. Pascual irritou-se por ela querer manter distância entre eles outra vez.
– Antes de fugires a correr, quero que me dês dados sobre os empresários com que vou reunir-me. Terás alguma informação útil para mim, não é? – olhou para ela fixamente. Desejava testá-la, descobrir se era competente no negócio que escolhera. Se ele se dedicasse a algo parecido, teria querido saber que tipo de gente contratava os seus serviços.
– O que queres saber? – perguntou ela, obviamente incomodada por não poder fugir.
– Quero saber o que não revelaram na sua oferta para comprar os meus cavalos. Entendes a que tipo de informação me refiro? É importante que os meus cavalos estejam nos melhores lares. Como sabes, não faço estas transacções só por dinheiro.
– As suas qualificações são de primeira, mas se precisares de algum dado específico, pergunta. Garanto-te que fiz os meus trabalhos de casa nesse sentido.
– A sério? No entanto, ignoravas que eu era o convidado VIP do fim-de-semana, não era? Não te parece um descuido digno de menção?
– Não é um erro habitual em mim, garanto-te – as suas faces tingiram-se de vermelho. – Ultimamente, tenho tido muitas coisas na cabeça e…
– Os teus problemas pessoais nunca deviam incapacitar-te para fazeres bem o teu trabalho.
– Talvez seja assim num mundo perfeito, mas se por acaso não reparaste, este mundo não é perfeito. De vez em quando, as pessoas têm preocupações que influenciam o seu trabalho.
– Que coisas te preocupam hoje em dia, Briana? – perguntou Pascual, num tom amargo. – Supostamente, devias estar feliz e contente. Ao fim e ao cabo, escapaste de um homem e de um casamento que não desejavas. Imaginava que me tinhas deixado plantado, porque tinhas encontrado exactamente o que procuravas.
– Podemos parar com isto? Já é bastante doloroso encontrarmo-nos novamente de surpresa para, ainda por cima, discutirmos. Ambos estamos aqui por razões mais importantes do que o nosso vínculo pessoal. Sei que temos de falar, mas não me parece que este seja o melhor momento.
Pascual não podia argumentar, embora gostasse de o fazer. Bebeu outro gole de café e deixou a chávena na bandeja.
– Vou ter contigo dentro de cinco minutos – disse. – Sem dúvida, teremos oportunidade de falar de assuntos pessoais durante o fim-de-semana. E, se parecer que não será possível, criaremos uma oportunidade. Posso garantir-te uma coisa: Não vais sair daqui antes de me contares porque fugiste de mim e do casamento. Não te deixarei ir até estar convencido de que me contaste a verdade!
Enquanto tentava conversar com Tina no hall, depois do seu encontro com Pascual, Briana continuava a tremer por dentro. Apercebeu-se de que a sua colega reparava na sua distracção. Briana orgulhava-se da sua capacidade para manter a calma na maioria das situações e, sobretudo, em assuntos de trabalho, mas ia ter de procurar no mais profundo de si mesma para encontrar recursos que a ajudassem a aguentar o resto do fim-de-semana.
Quando, segundos depois, Pascual desceu a escada, ficou com falta de ar. Se queria deixar claro que ele era o convidado VIP daquele fim-de-semana, conseguira. Vestia um casaco preto feito à medida, calças bem cortadas e uma camisa azul. Os joelhos de Briana tremeram ao vê-lo. Sempre parecera incrível com fato. Elegante, muito masculino, elegante sem esforço, tão bonito e sexy que uma mulher esquecia tudo assim que punha os olhos nele, fosse qual fosse a sua idade ou o estado civil!
Não a surpreendeu que Tina se inclinasse para ela para lhe sussurrar ao ouvido.
– Meu Deus! É o homem mais fantástico que vi em toda a minha vida. Temos sorte por ser o cliente VIP.
«Sorte?» Briana não teria descrito assim o que sentia, quando Pascual lhe lançou um olhar desdenhoso, avisando-a de que ainda não acabara com ela.
– Senhor… Domínguez… A sua reunião é por aqui. Por favor, siga-me.
Conduziu-o até à sala elegante onde esperavam três homens de negócios. Levantaram-se em uníssono ao vê-lo. Num tom de voz trémulo, Briana fez as apresentações. Foi óbvio o alívio dos três homens ao verem Pascual e percebeu imediatamente a deferência com que o tratavam. O seu ex-noivo sempre conseguira essa reacção das pessoas. A sua atitude, quase aristocrática, aliada à sua beleza sensacional, garantia-lhe atenção imediata em qualquer lugar que fosse.
Briana descobriu que o impacto que exercia ao entrar numa divisão não diminuíra um ápice naqueles cinco anos. Perguntou o que Tina diria se descobrisse que o argentino bonito e rico era o pai de Adán. Ela própria achava difícil de acreditar. Parecia-lhe que passara uma eternidade desde que o seu romance intenso e apaixonado acontecera. Uma eternidade solitária e manchada de dor.
– Pode trazer-nos mais café e talvez brande, querida? – disse Steve Nichols a Briana, levando-a para um canto. Era director de uma agência publicitária, com sede em Soho e, há pouco tempo, co-proprietário, com os seus dois colegas, de um picadeiro situado em Windsor.
Ela, olhando para os seus olhos azul-claros, a pele pálida e brilhante, sentiu um calafrio de desagrado. Infelizmente, conhecia os do seu tipo. Embora estivesse numa viagem de negócios, considerava que podia seduzir qualquer mulher razoavelmente atraente entre os dezasseis e os quarenta anos de idade. Briana teria de ter muito cuidado. O facto de as suas qualificações empresariais serem impecáveis, não significava que as suas maneiras e comportamento com as mulheres seguissem a mesma pauta.
Com Pascual, um empresário de alto nível que vendia uma coisa que ele desejava, seria lisonjeiro e diferente. Mas podia transformar-se num problema para Tina e para ela.
– É claro. Desejam mais alguma coisa? – perguntou Briana. Esperou até que todos dissessem que café e brande bastariam no momento.
– Volta depressa, querida – sussurrou Steve Nichols, piscando-lhe um olho. Ela percebeu o olhar desaprovador de Pascual e corou. Rogou a Deus para que não pensasse que estava a dar azo à sedução.
A reunião durou três horas, quase até à hora do jantar. Os anfitriões tinham pedido que o jantar fosse proporcionado por um excelente restaurante local. Briana e Tina atenderam os supervisores do catering na enorme cozinha, enquanto os empresários se retiravam para os seus aposentos para se refrescarem.
Briana agradeceu o facto de poder concentrar-se nos aspectos práticos do seu trabalho e livrar-se assim da maré de ansiedade e emoção que a assolava desde que vira Pascual. «Não poderás evitá-lo o tempo todo», pensou. Mais cedo ou mais tarde, exigiria explicações pela sua forma inesperada e abrupta de sair da Argentina.
Exigiria um relato completo da razão por que se fora embora.
A verdade era que as suas razões para se ir embora continuavam a causar-lhe dor, apesar do passar dos anos. Na verdade, às vezes pensava que a perseguiriam para sempre, arruinando qualquer possibilidade de ser feliz com outro homem… Embora nem sequer quisesse estar com outro homem. Pascual não podia ter nenhuma confiança nela, depois do que se passara. Perguntou a si mesma se acreditaria quando lhe explicasse toda a verdade.
Já a meio da noite, depois de o sol se pôr, Tina saiu da sala de jantar privada, com vista para os jardins já escondidos por trás das pesadas cortinas de veludo. Briana levantou-se da poltrona ao vê-la.
– Como estão a correr as coisas lá dentro? Todos contentes? – perguntou.
– A comida tem um aspecto fantástico! Estão a gostar muito. Mas o nosso argentino deslumbrante parece aborrecido. Na verdade, parece que preferiria estar noutro lugar.
Briana sentiu um nó no estômago. Assuntos pessoais à parte, se Pascual parecia aborrecido, os empresários que tinham contratado os serviços da sua empresa deviam estar incomodados e sentia-se responsável. De alguma forma, tinha de salvar a situação.
– Estava a pensar que talvez queiram sair depois. Na cidade, há um clube privado com casino. Telefonei e adorariam receber os nossos clientes.
– Boa ideia! Porque não entras para lhes dizer? – perguntou Tina, piscando-lhe um olho. – Certamente, preferirão ouvir a notícia dos teus lábios. Percebi que não tiram os olhos de cima de ti, sobretudo, o divino senhor Domínguez!
– É imaginação tua.
– Só sei que se tivesse metade da beleza que tu tens, Briana Douglas, tiraria o maior partido possível. Todos os homens que estão a jantar ali dentro são milionários e o senhor Domínguez, o mais bonito de todos, é multimilionário! Nunca sonhaste que um homem vergonhosamente rico e bonito se apaixonaria por ti e se casaria contigo?
Briana ter-se-ia rido se a ironia do comentário da colega não a magoasse tanto. Levou a mão à face com um ar de indiferença. Depois, esticou o casaco de veludo preto, que vestia sobre uma blusa de seda branca e alinhou-o com a cintura da saia a condizer.
– Irei falar com eles. Enquanto isso, Tina, podes ir buscar-me uma chávena de café e uma sandes à cozinha? Não me apetece jantar esta noite. Importas-te?
– Estás louca, não vais provar a comida fantástica do catering? Trouxeram também para nós, suponho que sabes.
– Podes comer a minha parte.
Briana dirigiu-se para a sala de jantar, pensando que já ia custar-lhe muito comer uma sandes. Tinha um nó no estômago, que se apertava cada vez que pensava em manter uma conversa privada com Pascual. Inquietava-a ainda mais pensar no filho, a criança que ele não tinha consciência de ter concebido antes de ela abandonar a Argentina a toda pressa. Um homem com a riqueza e o estatuto social de Pascual poderia tirar-lhe Adán num abrir e fechar de olhos, se essa fosse a sua vontade.
– Um casino? Uma ideia muito inspirada, menina Douglas! – Steve Nichols recostou-se na cadeira grandiosa de estilo Tudor. Enquanto os seus colegas corroboravam a sua opinião, piscou-lhe o olho novamente.
Briana cerrou os dentes, irritada. Olhou para os outros e tentou captar a sua atenção com um sorriso. Mas encontrou o olhar de Pascual. Não parecia aborrecido, tal como Tina dissera, estava irritado! Perguntou-se se se devia ao facto de ela ter entrado na sala de jantar.
Noutros tempos, o seu rosto iluminava-se sempre vez que a via entrar. Briana não conseguiu evitar ter saudades daqueles tempos felizes. Ser jovem e estar apaixonada pelo homem dos seus sonhos. Viver numa cidade vibrante e espantosa como Buenos Aires fora incrível. Às vezes, tinha de se beliscar para recordar que aquilo fora real. Parecia-lhe que tudo fora um sonho, porque se sentia agora muito sozinha. Mas bastava-lhe olhar para o rosto doce do seu filho para ver a semelhança com o seu pai carismático. Então, agradecia a Deus. Adán recordava-lhe que não perdera tudo. Tinha o seu adorado filho.
– E o senhor Domínguez? – obrigou-se a perguntar. – Gostaria de ir ao casino?
– Só se aceder a acompanhar-me, menina Douglas – respondeu ele, num tom de voz suave, arqueando uma sobrancelha. – Eu gosto de levar uma rapariga bonita quando vou ao casino… Para dar sorte, sabe.
– Eu… Receio que tenha trabalho.
Todos os olhos pousaram nela e Briana desejou que o chão se abrisse sob os seus pés. O que é que Pascual quereria ao convidá-la a ir com eles? Sem dúvida, sabia que era inapropriado e que a poria numa situação comprometedora.
– Vá lá, menina Douglas – disse Mike Daniels, outro dos empresários. – O senhor Domínguez é o nosso convidado desta noite. Veio da Argentina para vir à reunião, o mínimo que podemos fazer é conceder-lhe o seu desejo, não acha? Considere-o um trabalho extra. Os meus colegas e eu pagaremos qualquer gasto.
Ainda hesitante, Briana adivinhou que Pascual estava a divertir-se com o seu desconforto e vergonha. Desejou poder dizer a Mike Daniels, que fazer de acompanhante do seu convidado VIP não estava incluído nos serviços que a sua empresa prestava. Mas tinha a sensação de que o ex-noivo podia tornar a vida difícil a todos, se se recusasse a acompanhá-lo.
– Não trouxe roupa apropriada para ir a um casino.
– Essa roupa serve perfeitamente – o sorriso do seu torturador ampliou-se e os seus olhos escuros faiscaram, maliciosos, enquanto percorria o seu corpo de cima a baixo. O seu olhar parou na curva generosa dos seus seios, sob o casaco de veludo.
Briana percebeu que tencionava envergonhá-la e humilhá-la o máximo possível. Teria deixado a sua raiva clara se estivessem sozinhos. Contudo, dadas as circunstâncias, via-se obrigada a conter-se. Fazer uma cena arruinaria a reputação de boa profissional que tanto lhe custara conquistar.
– Está bem, então. Telefonarei para o casino para lhes dizer quantos somos.
Capítulo 3
O clube privado estava situado numa elegante casa georgiana, numa rua tranquila, e receberam-nos de braços abertos. Habituado ao facto de o seu nome e a sua riqueza lhe abrirem todas as portas, Pascual encostou-se às costas esbeltas de Briana enquanto os conduziam para o casino privado, ao qual só alguns tinham acesso.
Estava a anunciar a quem se incomodasse em olhar para eles, que ele era o seu acompanhante dessa noite, mas não parou para analisar porque se sentia tão possessivo a respeito de uma mulher que o tratara com um desdém imperdoável. Pascual só sabia que precisava de estar perto de Briana e também gostava de a incomodar. Magoara-o muito e, por puro instinto animal, queria encontrar uma forma de se vingar… De fazer com que pensasse duas vezes antes de voltar a agir assim.
Quando o gerente do casino lhe perguntou o que lhe interessava, respondeu sem hesitar que era a roleta americana. Segundos depois, estavam sentados à volta de uma mesa redonda de mogno, com uma roleta no meio e pediam as bebidas a uma bonita empregada que usava um vestido lilás. Pascual assegurara-se de que Briana se sentava ao seu lado no banco estofado com veludo vermelho. Aproximou a sua coxa da dela e sorriu, satisfeito, ao perceber como tremia. Ele também estava a sentir-se afectado pelo cheiro sedutor do seu perfume e pelo calor do seu corpo. Praguejou entredentes. Custava-lhe a acreditar que, tantos anos depois, continuasse a atraí-lo daquela forma.
Entre eles havia uma química irresistível, isso era inegável.
Ao captar um brilho ciumento no olhar de Steve Nichols, o argentino, pensou, irónico, que tudo era válido no amor e na guerra, e aproximou-se mais de Briana. Ela levantou o olhos cinzentos e corou violentamente.
– Escolherás os meus números esta noite – disse ele, num tom de voz suave, enquanto o croupier distribuía as fichas.
– Não sei se o jogo me convence – replicou ela. – E se perderes tudo por minha causa?
Como se tivesse compreendido que esse comentário também podia aplicar-se à maneira como acabara a sua relação, mordeu o lábio inferior com força, sem conseguir esconder a sua inquietação.
– Lamento – murmurou.
Por um instante, Pascual esqueceu que não estavam sozinhos, mas num lugar público, embora supostamente discreto e frequentado por pessoas importantes em busca de privacidade. Teve de lutar com o impulso selvagem de reclamar a sua boca e beijá-la com paixão.
Pensando que talvez isso fosse possível depois, incapaz de deixar de olhar para ela, esforçou-se por controlar o ritmo do seu coração. A ideia cresceu no seu interior, excitando-o.
– Façam as vossas apostas – convidou o croupier.
– O que vai ser? – perguntou Pascual à sua acompanhante, arqueando uma sobrancelha.
Sem desejo de participar, mas consciente de que não podia negar-se, Briana franziu o sobrolho.
– Seis vermelho – disse.
– Porquê o seis?
– Sempre me trouxe sorte – respondeu.
Enquanto a pequena bola branca saltava pela roda, todos a seguiram com o olhar, como se estivessem hipnotizados. Pascual, que não se importava de ganhar ou perder, sentiu um aperto no coração quando a bola caiu no seis vermelho. Acabara de multiplicar a importância da sua aposta por trinta e cinco.
Os seus anfitriões e outros dois casais aplaudiram com cortesia. Quando o croupier lhe entregou as fichas, Pascual pô-las à frente de Briana.
– Volta a apostar – incitou, com um sorriso. – Tens outros números que te dêem sorte? O que ganhares será para ti.
– Preferia não o fazer, se não te importares – com aspecto agitado, levantou-se. Vermelha como um tomate, parou uma empregada. – Podia dizer-me onde é a casa de banho, por favor? – pediu.
Pascual, um pouco preocupado, levantou-se também. Agarrou Briana pelo cotovelo quando começava a afastar-se.
– O que se passa? Sentes-te mal?
– Não devia ter vindo aqui! – gritou ela. Os seus olhos prateados cintilaram sob a luz do lustre opulento que pendia do tecto. – Vim e arrependo-me de o ter feito.
– Porquê? Incomoda-te tanto ganhar dinheiro?
– Não estou a ganhar nada, Pascual! É o teu dinheiro que estás a arriscar à sorte e não quero saber mais do assunto.
– Que princípios tão elevados! É uma pena que não fossem evidentes quando fugiste de mim há cinco anos, sem sequer me explicares porque tinhas decidido que não era suficientemente bom para ser o teu marido!
– Vi-te a beijar outra mulher! – os ciúmes e a dor embargaram Briana com tanta força como no momento do incidente.
Recordando onde estavam, olhou para trás de si e verificou que tinham audiência. Abanou a cabeça com angústia. Não tencionara reagir assim, mas a lembrança embargara-a desde que voltara a ver Pascual e já não conseguia ocultá-lo mais tempo. Deu um puxão para libertar o seu braço, tentando recuperar o equilíbrio perdido e restaurar a sua dignidade.
– Quem? – perguntou ele, atónito. – Quem era essa mulher que me viste beijar?
– Sabes muito bem! – exclamou Briana, num tom de voz baixo e trémulo.
– Referes-te a Claudia, na noite da festa? Uma Claudia tão bêbada, que não sabia o que fazia!
– Oh, sabia muito bem o que fazia, Pascual… E tu também, a julgar pelo que vi.
– Porque não me disseste que tinhas visto isso? Foi por isso que te foste embora? Meu Deus!
– Será melhor não montarmos uma cena aqui, à frente de todos. Daria muito má impressão aos teus anfitriões e também não faria nenhum bem à minha empresa.
– No entanto, não pensaste na impressão que a minha família e amigos receberiam quando me abandonaste uma semana antes do nosso casamento.
O coração de Pascual estava acelerado e quase não se importava de armar uma cena. A lembrança da traição de Briana continuava a magoá-lo muito. Além disso, horrorizara-o descobrir que fora testemunha do incidente desagradável com Claudia e que isso a fizera ir-se embora. Não entendia porque não o enfrentara, exigindo uma explicação e dando-lhe a oportunidade de lhe dizer que a ex-namorada estava bêbada e que detestara que se precipitasse sobre ele.
Consciente de que não estavam sozinhos, preferiu não oferecer um espectáculo a todos os presentes. Falariam do assunto em privado. Inclinou a cabeça levemente, sem esconder a sua impaciência e irritação.
– Vai à casa de banho. Quando voltares, direi ao motorista para nos levar para casa. Perdi todo o interesse em apostar esta noite!
Briana tirou a escova da mala de couro e fez uma tentativa para arranjar o cabelo. A parede de espelho da casa de banho luxuosa impedia-a de esconder a sua tristeza. Sabia que devia ter controlado as suas emoções, mas não conseguira. Quando Pascual, tentador e indiferente, pusera o monte de fichas à frente dela, o facto de pensar que conseguiria pagar a renda de três meses com uma ficha, fora a gota de água. Enquanto ela estava doente de preocupação com a ameaça da bancarrota, Pascual agia como se o dinheiro não significasse nada para ele. Na verdade, dada a sua fortuna enorme, podia esbanjar sem limite.
Se fosse honesta consigo própria, tinha de admitir que, naquele momento, as finanças não eram o que mais a preocupava. O belo rosto do seu filho, uma versão em miniatura do pai, não abandonava a sua mente nem um segundo. Como iria dar a notícia da sua existência a um homem que depois a desdenharia ainda mais. Escondera que ele era o pai de Adán. Pascual tinha o direito de a recriminar por isso.
No entanto, Briana ficara devastada ao ver Claudia nos seus braços naquela noite. A sua atitude fora uma tentativa de se proteger, e também ao seu filho, de futuros sofrimentos… Pela primeira vez, o medo de ter tomado a decisão errada fê-la sentir um nó no estômago. Segundo ele, Claudia estava bêbada. Seria verdade?
Suspirou com resignação e voltou para a sala de jogo. Pascual esperava-a, tal como prometera.
– Estás pronta para voltar para casa? – perguntou, percorrendo-a de cima a baixo com o olhar.
– E os outros? – perguntou ela, nervosa. Olhou para a mesa da roleta, onde jogavam os três homens que os tinham acompanhado.
– Darei instruções ao motorista para voltar e vir buscá-los. Não te preocupes, não os deixaremos aqui abandonados!
A viagem de regresso a casa decorreu em silêncio. Ambos estavam dolorosamente conscientes do passado que se interpunha entre eles e não se atreviam a retomar o assunto. Seria como andar sobre vidros, com os pés descalços.
Indevidamente, a tensão foi crescendo no banco traseiro do luxuoso Rolls, como uma tempestade pequena, mas letal, prestes a rebentar. Briana recordou a cena na sala de jogo, quando Pascual perdera a paciência, e soube que se aproximava o confronto.
Cruzou os braços sobre a barriga, num gesto protector. O cheiro e o calor que emanava do corpo de Pascual estavam a inquietá-la ainda mais. Tudo o que sabia desse homem imponente enfatizava as diferenças que os separavam. Era rico, bonito, poderoso e inalcançável. Embora tivesse dito que a amava, sempre reservara alguma coisa… Isso confirmara o que Briana já pensava: Que não era suficientemente boa para ele. Quando o vira a beijar a modelo elegante, a ex-namorada, o seu medo de que a relação entre eles fracassasse aumentara.
De volta a casa, Briana rezou para que o eminente confronto não tivesse lugar naquela noite. Sabia que era adiar o inevitável, mas sentia-se demasiado vulnerável para discutir com Pascual nesse momento. As acusações voariam como mísseis letais e algumas acertariam no alvo. Uma boa noite de descanso talvez lhe desse forças para suportar um confronto com ele no dia seguinte.
Estavam junto da impressionante escadaria de estilo Tudor. Ela esticou o braço para o corrimão de carvalho, indicando a sua intenção de se retirar. Mas o olhar carrancudo e pensativo que Pascual lhe lançou confirmou que não ia deixá-la ir-se embora sem mais nem menos.
– Quando saí de Buenos Aires, tive a sensação de que ia acontecer alguma coisa inesperada – comentou ele, num tom fraco.
Briana sentiu um calafrio e esfregou os braços.
– Não quero arruinar a tua viagem, Pascual, a sério. Sei que ainda te sentes muito magoado e ressentido comigo, mas…
– Não duvides! – os seus olhos escuros cintilaram, como se as emoções que sentia fossem um fogo escondido por detrás de um véu fino. A qualquer momento, as faíscas acenderiam e começaria o inferno.
– Escuta – continuou ela, rezando para que acedesse ao seu pedido, – amanhã, depois do jogo de pólo que organizaram para ti, terás tempo livre. Eu estarei aqui, a fiscalizar os preparativos para o jantar. Se quiseres falar comigo, prometo estar à tua disposição, durante o tempo que quiseres. Por favor, Pascual… Foi um dia muito longo e estou cansada.
– Sempre conseguiste levar a tua avante, quando olhavas assim para mim.
– Assim, como?
– Como uma menina triste e perdida – os seus lábios curvaram-se com uma careta irónica, mas também amarga. Esticou o braço e pousou os dedos na face de Briana. – Podias fazer o que quisesses comigo, essa é a verdade!
– A sério? – murmurou Briana. Sentiu que lhe gelava o sangue nas veias e um formigueiro estranho na barriga.
– És parva se não sabias! – exclamou ele, com dureza. Mas, um momento depois, os seus traços suavizaram-se, enfeitiçando-a com a sua beleza. – Deixar-te-ei ir para a cama se me deres um beijo – disse, num tom rouco. – Pelos velhos tempos.
Briana não teve tempo para responder. De repente, a boca de Pascual estava sobre a dela e sentiu a sua língua aveludada a introduzir-se dentro da sua boca e a iniciar uma dança erótica com a dela. Teve a sensação de que o seu sangue se transformava em fogo líquido e as suas pernas em gelatina.
Ele agarrou as suas ancas, possessivo, e apertou-a contra o seu corpo. Afastou os lábios da sua boca e deslizou-os por um lado do seu pescoço. Quando Briana sentiu o toque dos seus dentes a mordiscarem a pele, emitiu um gemido. Sabia que estava a perder-se num mar erótico, que lhe despertava o desejo de nadar e não de se afastar. Se não pusesse fim àquela loucura, imediatamente, era indubitável que não passaria a noite sozinha.
A ideia de partilhar a sua cama com ele aterrorizou-a. Pascual Domínguez era uma força da Natureza, a que não conseguia resistir, mas não podia ir para a cama com ele antes de lhe confessar que tinham um filho em comum. Se o fizesse, o seu pecado da omissão multiplicar-se-ia sem remédio.
– Tens de parar! – ela ofegou. Pôs as mãos no peito dele, duro como o aço, e empurrou com tanta força quanto pôde.
– Porquê? – uma madeixa sedosa de cabelo preto caía sobre a sua testa e a expressão do seu rosto era brincalhona, desafiante e sexy. – Assusta-te que te deixe acordada toda a noite, a fazer-te aquelas coisas que, segundo dizias, te deixavam louca de paixão, minha querida?
Briana agarrou o corrimão à procura de apoio, com o rosto avermelhado. Todo o seu corpo ardia com a lembrança das imagens que as palavras de Pascual tinham conjurado. Na hora de fazer amor, a sua paixão e ardor sempre a tinham deixado sem respiração e louca de desejo. Tinha saudades daqueles momentos, mas tinha de ser forte!
– Estou aqui para trabalhar, não para proporcionar diversão nocturna aos meus clientes! – exclamou, num tom indignado.
– Alegra-me ouvir isso. Porque não duvido que o lisonjeiro senhor Nichols fosse o primeiro a fazer fila à tua porta.
Briana tremeu.
– Mesmo que tivesses razão, garanto-te que não sinto o mínimo interesse por esse homem.
– Melhor.
– Não gostas dele?
– Até agora, não vi muito que me agrade – confessou Pascual. – Este acordo não está fechado, mesmo que isso te surpreenda. Como disse antes, não é só uma questão de dinheiro. Tenho de me certificar de que os meus cavalos estarão em boas mãos e receberão o tratamento e cuidados que merecem, dado a sua raça e treino excelentes.
– A julgar pelo que ouvi, os seus estábulos em Windsor têm uma reputação impressionante.
– Talvez… Mas os nossos três amigos adquiriram-nos recentemente. Acabaram de descobrir a sua paixão pelo pólo. Isso não é garantia de que saibam administrar um picadeiro com sucesso ou cuidar dos cavalos.
– Mas haverá pessoas que se ocuparão de o fazer por eles, não é?
– Mesmo assim… – Pascual encolheu os ombros. – Já chega de falar de negócios por esta noite.
Aproximou-se mais e pôs as suas mãos esbeltas nos antebraços de Briana.
– Sabes que me interessa muito mais convencer-te a passares a noite comigo.
– Porquê? – olhou para ele, serena e controlada, embora tivesse o coração acelerado. – Pelos velhos tempos? Ou para demonstrar que podes? No caso de teres dúvidas, Pascual, dir-te-ei que continuo a achar-te atraente e que poderia deixar que me seduzisses. Mas, no fundo, ambos sabemos que não seria boa ideia e, provavelmente, acabaríamos por nos sentir mal. Não física, mas psicologicamente. O que tivemos faz parte do passado e, mesmo que tudo tenha acabado mal, penso que devia continuar a ser assim.
– E deixar as coisas como estão? – fez uma careta de amargura. – Talvez isso seja bom para ti, Briana, mas para mim não. Já tive de esperar cinco anos para ouvir dos teus lábios uma explicação, saber a razão por que te foste embora. O facto de me teres visto a beijar a minha ex-namorada nessa festa é apenas a ponta do icebergue, tenho a certeza!
– Prometi falar contigo amanhã, não foi?
– Sim. Mas como sei por experiência que as tuas promessas não são duradouras. Entenderás que tenha as minhas dúvidas a respeito disso.
Briana engoliu em seco, sentiu culpa, remorso e angústia em partes iguais. Se Pascual já duvidava da sua honestidade, não imaginava como reagiria no dia seguinte, quando lhe falasse do filho cuja existência lhe escondera. Tremiam-lhe tanto as pernas que estranhava que conseguisse continuar de pé.
– Está bem – aceitou ele, com um certo desinteresse. – Continuaremos esta conversa amanhã, quando regressar do jogo de pólo. Agora, vou servir-me de uma bebida e ficarei um momento na sala, a imaginar-te na cama e a fantasiar com o que tens vestido. Sei que sempre resistias a dormir nua, continua a ser o caso?
Briana, ao recordar como costumava gozar com a sua «modéstia encantadora», agarrou-se ao corrimão com mais força. Independentemente do que usava na cama, Pascual sempre conseguira fazer com que acabasse nua.
– Boa noite, Pascual… – murmurou, optando por ignorar a pergunta.
– Boa noite, Briana!
Esboçou um sorriso e virou-se bruscamente, dirigindo-se para a sala. Briana observou-o até abrir a porta e as costas largas desaparecerem da sua vista. Ainda sentia o seu sabor intoxicante na boca, como um néctar embriagador que a fazia desejar que a sua noite juntos tivesse acabado de forma muito diferente…
Capítulo 4
Parecia que alguém tentara atirar a porta abaixo. Briana, com o coração acelerado, esperou que os seus olhos se adaptassem à escuridão. Depois, inclinou-se para o candeeiro e acendeu-o. Levantou-se da cama e correu para a porta, para ver quem batia com tanta urgência. Pensou, aterrorizada, que talvez tivesse acontecido alguma coisa ao seu filho.
A imagem que se ergueu à frente ela, na escuridão do corredor, era a de Pascual. Os seus olhos cintilavam como os de um louco prestes a perder o controlo. A sua expressão de fúria e raiva deixou-a cravada no lugar.
– Ordinária egoísta e sem coração! – gritou ele.
– O que se passa? – perguntou ela, num tom fraco, levando a mão ao decote da camisa de dormir de algodão. Receava conhecer a resposta.
Ele entrou no quarto, fechou a porta com um pontapé e dirigiu-se para Briana como uma pantera prestes a precipitar-se sobre a sua presa. Ela recuou, assustada, mas Pascual agarrou-a e puxou-a para si. O seu peito duro agiu como um muro impenetrável que impediria a sua fuga.
– Tens um filho! Um filho de quatro anos! É meu, não é? Tem de ser meu! Nem sequer tu me terias enganado com outro homem enquanto estivemos juntos… Certifiquei-me de que passavas quase todas as noites ocupada na minha cama!
Durante uns segundos intermináveis, Briana ficou sem fala. Ao ver a tempestade de dor e de ódio que o rosto de Pascual reflectia, sentiu um nó no estômago, de medo e arrependimento.
– Como…? – gaguejou, quase sem sentir a pressão férrea dos seus dedos no pulso. – Como descobriste?
– A tua colega, Tina, esclareceu muitas coisas – respondeu ele, num tom venenoso. – Encontrei-a na sala, a ler e sugeri que bebesse alguma coisa comigo. Sentados à frente da lareira, o álcool não demorou a fazê-la falar. Antes de dar por isso, estava a contar-me a história da tua vida!
– Ela… Não faria isso!
– Sabes muito pouco sobre a natureza humana – Pascual soltou-lhe o braço, como se fosse uma serpente venenosa. – Não é de estranhar que a tua empresa esteja à beira da ruína! Não sabias que todos têm um preço? No caso da tua colega, bastou um copo de xerez para que pusesse todos os teus segredos a meus pés.
Novamente sem palavras, Briana passou a mão pelo cabelo despenteado. Desejou que Tina não tivesse sido tão liberal na sua conversa ou que tivesse ido dormir ao mesmo tempo que ela, em vez de se deixar baralhar pelo encanto incrível de Pascual. O que mais a incomodava era que tivesse descoberto a existência do seu filho não por ela, mas por uma colega dada ao mexerico. Era lógico que estivesse furioso. E, sem dúvida, era inevitável que ela assumisse a sua culpa, apesar de continuar a pensar que tivera uma boa razão para o abandonar.
– Sim… Adán é teu filho – tinha a boca tão seca que lhe custou dizer as palavras. Com um ar de dor, levantou o olhar para receber a resposta dolorosa daquele homem que parecia encher o quarto com a sua presença imponente, fazendo com que se sentisse relegada a um canto minúsculo.
– Adán? – o seu tom de voz era rouco, como se também lhe custasse falar. – Tiveste a temeridade de lhe dar um nome espanhol e de esconder de mim, o seu pai, a sua existência… Porquê?
Pascual, abanando a cabeça, foi incapaz de esconder a sua tortura. Briana sentiu um aperto no coração por ele, embora soubesse que rejeitaria e odiaria qualquer demonstração de compaixão.
– Porque lhe dei um nome espanhol?
– Não! Porque me escondeste que estavas grávida e ignoraste os meus sentimentos como se não tivessem a menor importância? Pensei que era impossível que me ferisses mais do que quando te foste embora, sem sequer me dares a menor indicação de que tencionavas fazer uma coisa tão incrível. Mas acabei de descobrir que és capaz de crimes muito piores. Enganei-me ao pensar que te conhecia, Briana. O teu comportamento está para além da minha compreensão. És uma estranha para mim!
Pascual viu as emoções a sucederem-se no seu rosto pálido e ensonado. Mas desejou ver mais do que a prova de sentimentos. Teria gostado de dispor de um microscópio mental para observar o mais profundo do seu coração e tentar entender o que a motivara a dar-lhe um golpe tão cruel, mas ao mesmo tempo, perversamente maravilhoso.
Saber que era pai virara o seu mundo ao contrário. Fora a notícia mais importante que recebera em toda a sua vida. No entanto, nesse momento, a raiva e o desespero eram as emoções predominantes que o atingiam como um ciclone violento. Não suportava pensar que perdera quatro anos da vida do filho por causa da mulher que tinha à frente dele.
«Será que a trataste tão mal, que provocaste essa maldade?», perguntou a si mesmo. Achava que não o fizera. Desde o princípio, tratara-a com respeito e cuidado, «ou não?» Dada a gravidade do que lhe fizera, pela primeira vez sentiu um vestígio de dúvida. Talvez lhe tivesse escapado alguma coisa importante. Rebuscou na sua memória com tanta honestidade como pôde, mas não encontrou nada que tivesse dito ou feito para a magoar. Para além da desafortunada cena instigada pela ex-namorada, bêbada, na festa. Um incidente de que ele, como já lhe dissera, fora vítima. Concluiu que essa não podia ser a única razão para lhe esconder a existência do seu filho. Tinha de haver outros motivos pessoais, inerentes a Briana, e jurou que não desistiria até chegar ao fundo da questão.
Ela, com aspecto desanimado, afastou o cabelo do rosto com uma mão trémula. Pascual não conseguiu evitar fixar-se na curta camisa azul que tinha vestida. Pelo seu aspecto, de t-shirt larga, adivinhou que procedia de uma loja normal e não fora desenhada para seduzir. Noutro tempo, a falta de sofisticação e atrevimento de Briana tinha-lhe parecido encantadora. Mesmo naquele momento, enquanto se debatia entre a incredulidade e o desespero devido ao que lhe fizera e apesar da roupa simples que cobria o seu corpo, a sua libido traiçoeira começava a descontrolar-se. Admirou os seios, redondos e firmes, que se apertavam contra o tecido fino, os mamilos provocantemente erectos, a curva perfeita e angélica das suas ancas e coxas nuas bem torneadas.
– Passei muito tempo angustiada a pensar em como te contar. Quando descobri que eras o convidado VIP do fim-de-semana foi um grande golpe para mim. Não é que quisesse evitar que falássemos sobre o que aconteceu no passado, mas precisava de me habituar à ideia da tua presença aqui.
– Já tiveste tempo suficiente para te habituares e deves-me uma explicação… Para o dizer de alguma forma!
– Porque não te sentas? – dirigiu-se, com graciosidade, até à banqueta estofada em cor-de-rosa e creme, sobre a qual deixara o robe. Agarrou a peça de roupa azul e vestiu-a, deixando a banqueta vazia.
Pascual, sem saber como conter a sua impaciência e frustração face ao que percebia como meras tácticas de atraso, abanou os braços com raiva.
– Não me digas o que fazer! – praguejou violentamente e captou uma faísca de receio nas pupilas cinzentas. Mas recusou-se a preocupar-se com o facto de estar a intimidá-la. – Só quero uma explicação sincera das tuas acções. Depois…
– Depois… O quê?
– Meu Deus! Pára de perder tempo e explica-me tudo!
– Está bem. Quis dizer-te depois de que te declarares… Não é fácil suavizar a verdade, mas já então tinha começado a compreender que estava a enganar-me ao pensar que o nosso casamento poderia funcionar.
A sensação de rejeição e dor que o embargara desde que Briana se fora embora, transformou-se numa banda de aço que se curvou à volta do seu peito e começou a oprimi-lo com tanta força como uma cobra.
– Basta considerar os nossos antecedentes – continuou ela, sem esconder a sua apreensão. – Tu nasceste entre riquezas e privilégios, com todas as expectativas que isso traz, enquanto a minha origem era… Vulgar? Nunca teria encaixado no estilo de vida de elite a que estavas habituado, Pascual! A tua família fez-me ver isso muito cedo. Viam-me como uma vagabunda. Alguém carente de propósito e rumo, porque tinha deixado a minha rotina habitual para viajar e não me importava de desempenhar trabalhos pouco prestigiosos para ganhar dinheiro.
– Porque envolves a minha família nisto? Só estás a usá-los como desculpa. Está claro que os teus sentimentos por mim não eram equiparáveis ao que sentia por ti e foste demasiado cobarde para te justificares e dizê-lo!
– Não! Não foi assim.
– Então, porque não me disseste que estavas grávida? Como pudeste ir-te embora sabendo que tinhas o meu filho dentro de ti? Que tipo de homem consideras que sou, para pensares que não me interessaria por essa notícia? Não pensaste que eu gostaria de conhecer o meu próprio filho e participar na sua educação? Ou perdeste a cabeça temporariamente ou és ainda mais desumana do que eu pensava!
O belo rosto que tinha à frente dele enrugou-se um pouco, mas Briana não demorou a recuperar e a olhá-lo novamente. Enquanto a estudava, o seu coração acelerou como um cavalo na recta final, galopando para a linha da meta. Anos de angústia e tristeza devido ao seu abandono acabavam de chegar ao clímax e não estava disposto a controlar as suas emoções. Especialmente, depois de descobrir que Briana tivera um filho dele e lho escondera.
– Não sabia que estava grávida quando me fui embora – Briana levou a mão ao peito. – Descobri-o algumas semanas depois de chegar a casa. Pascual…
A dor intensa que Pascual viu nos seus olhos cinzentos, juntamente com o leve tremor da sua voz, conseguiu atravessar a couraça que erguera à volta do seu coração. Sentiu uma pontada de dor.
– Vou contar-te a verdade. Sabia, por experiência própria, o que era ter pais oriundos de mundos diferentes. Isso fez da minha infância uma batalha esquizofrénica e também dolorosa. A minha mãe era de uma família operária, mas o meu pai foi educado numa escola privada e estava a preparar-se para ser advogado quando se conheceram. Ao contrário de nós – ela corou intensamente, – eles casaram-se. Mas a forte atracção que sentiam um pelo outro não conseguiu superar o abismo social e cultural que os separava e a relação não demorou a ressentir-se. Discutiam muito e a minha mãe diz que o meu pai começou a sentir a falta do seu mundo e a gozar com as origens dela e a sua falta de educação. Contudo, apesar da sua crueldade, ela continuava a amá-lo. Então, ele piorou as coisas tendo uma aventura… A primeira de muitas.
Briana afastou o cabelo despenteado da face avermelhada e o seu olhar perdeu-se no horizonte, obviamente a reviver o que se passara.
– Eu tinha cinco anos quando se separaram. Cresci a passar dois fins-de-semana por mês com o meu pai, na mansão ancestral da sua família, em Dorset, e o resto do tempo com a minha mãe, numa casa minúscula em Camberwell. Quando estava com o meu pai, ele encarregava a sua governanta de se ocupar de mim. Costumava chamar-me o seu «erro lamentável». Depois do divórcio, não demorou a voltar a casar-se com uma mulher da sua classe social. Nenhum membro da sua família me queria, nem me fazia sentir bem-vinda, e passava cada segundo a desejar voltar para a minha mãe! Não mantive o contacto com eles, no caso de quereres saber.
Deixou escapar um suspiro profundo.
– Quando te conheci, Pascual, realmente queria acreditar que a nossa diferença de classe social não sabotaria o nosso futuro em comum. No entanto, depois, comecei a ter dúvidas terríveis, que não conseguia desprezar. Os jantares e os jogos de pólo a que me levavas com os teus amigos ricos, o desdém que via nos olhos da tua família, porque não me consideravam à tua altura… No final, isso venceu. Tinha visto o que tinha acontecido com os meus pais e soube que me enganava ao pensar que a nossa relação podia funcionar. Quando te vi com a tua ex-namorada, nessa noite, de repente, entendi o inferno por que a minha mãe devia ter passado quando o homem que amava teve uma aventura. Isso convenceu-me de que nunca poderia estar com alguém que tinha a capacidade de me ser infiel, porque me devastaria.
– Meu Deus! Já te disse o que aconteceu realmente! – interveio Pascual, com frustração. – Ela bebera demasiado e só queria criar problemas. Estava ciumenta porque queria casar-me contigo e não com ela. Achava que te tinha demonstrado de mil e uma maneiras que te amava a sério e não desejava nenhuma outra. E mesmo assim, julgaste-me e declaraste-me culpado por esse estúpido incidente. Nem sequer me deste a oportunidade de me defender antes de te ires embora!
– Vi o que vi e fiquei devastada. Dado o meu passado, é compreensível, não achas? Simplesmente, não podia arriscar-me a, uma vez casados, deixar que te aborrecesses de mim e começasses a ter aventuras. Não queria que o que tínhamos se transformasse em algo feio e doloroso. Também não queria transformar-me no «erro lamentável» de outra pessoa! Quanto a Adán… Quando descobri que estava grávida, passei muito tempo a decidir o que fazer. Era óbvio que tinha de tomar decisões a respeito do seu futuro. Pensei que significaria, para efeitos práticos, que teria de viajar para a Argentina para te ver todos os meses. Teria sido uma situação impossível. O maior desejo de um progenitor é que o seu filho cresça a sentir-se querido e a salvo. Cheguei à conclusão de que só poderia dar-lhe isso se ficasse comigo. Sei que, pensando friamente, parece desprezível que tenha tomado essa decisão sem te envolver. Mas, depois de te ter abandonado, não tive outro remédio senão tomá-la.
– Não deixas de te referir à criança como se fosse só tua, mas eu também participei na sua concepção, não foi? – Pascual tinha um nó na garganta e custava-lhe falar. – Porque não me contaste, na altura, como a tua experiência passada te afectava? Nunca devias ter ido embora sem falar comigo. Receber um bilhete no dia após a festa de celebração do nosso noivado e ler que te tinhas ido embora, foi mais do que terrível. Achei que estava a ter um pesadelo!
Pascual fixou o olhar no chão, recordando a dor que o perdera num abismo de desespero pela primeira vez na sua vida. Abanou a cabeça.
– Eu… Naquele momento, era-me difícil pensar bem – disse Briana. – Os preparativos do casamento tinham começado e cada dia tinha mais medo de estar a cometer um erro terrível… E para piorar tudo, houve o incidente com a tua ex-namorada.
– E não podias falar comigo sobre essas coisas? Não era um desconhecido, que não se importava. Supostamente, era o homem que amavas!
– Eras! Quer dizer, tu…
– Receio que as tuas explicações cheguem demasiado tarde, querida – estudou-a com o olhar. – Nada do que possas dizer-me agora fará com que recuperes a minha confiança e o meu respeito. O que fizeste esmagou todos os sentimentos que alguma vez tive por ti, transformando-os em pó e cinzas.
Pascual atravessou o quarto, tentando limpar a cabeça. A chuva batia com força nos vidros antiquados, como o eco da pressão que crescia no seu interior. Pensamentos, lamentações e sensações dolorosas assolavam a sua mente e o seu coração, ao ponto de mal conseguir suportá-lo. Mas entre todo esse tumulto, uma coisa dominava tudo o resto: Tinha um filho.
Ao recordar a paixão que o seu amigo Fidel sentira pelo seu único filho, dominou-o a determinação de resolver as coisas, pelo menos nesse sentido. Não estivera presente durante os primeiros quatro anos de vida do filho, mas estaria presente a partir daquele momento!
Virando-se para a figura solitária e esbelta que continuava parada no meio do quarto, rejeitou qualquer fugaz sentimento de piedade ou empatia. O que Briana dissera era verdade: As explicações tinham chegado demasiado tarde. O que acontecesse agora, seria causado por ela.
– Não quero continuar a falar do assunto esta noite. Preciso de tempo para pensar. Para mim, foi um grande choque descobrir que tenho um filho. E também o facto de saber que a sua mãe fria e egoísta decidiu que eu não tinha o direito de saber da sua existência. Falaremos novamente amanhã, depois do jogo de pólo. Tomarei então decisões importantes.
– As decisões sobre o futuro não dependem só de ti, Pascual!
– Se eu fosse a ti, Briana – disse, lançando-lhe um olhar furioso, – não me arriscaria a dizer nada sobre o assunto esta noite. Já fizeste as coisas à tua maneira durante demasiado tempo. Não permitirei que essa situação se prolongue e mais vale acreditares nisso!
Consciente de que, se continuasse no quarto com ela mais um segundo, se entregaria a uma explosão de raiva incontrolável, Pascual dirigiu-se para a porta. Saiu para o corredor escuro e não olhou para trás.
– Tiveste uma má noite?
O tom sempre risonho de Tina quase fez com que Briana desse um salto. Tinham-se encontrado para tomar o pequeno-almoço na cozinha, na manhã seguinte. Com os nervos em franja, serviu-se de uma chávena de café e lançou um olhar irónico à colega.
– Pode dizer-se que sim.
Levou a chávena para a robusta mesa de carvalho, afastou uma cadeira e sentou-se. Com ar ausente, acrescentou leite e açúcar à bebida. As suas olheiras revelavam que não dormira durante toda a noite. Que mulher teria conseguido dormir depois de Pascual a acordar, irritado, a meio da noite? Não conseguia parar de se perguntar, com ansiedade, que decisões importantes a respeito de Adán e dela é que Pascual tomaria.
Na noite anterior, estivera mais do que furioso e, em grande medida, ela aceitava merecer a sua condenação. Nunca devia ter-lhe escondido a existência de Adán, por muito que a assustasse que a sua vida futura se transformasse numa réplica da sua infância. A grande tragédia era que amara esse homem com toda a sua alma e, ao vê-lo novamente, compreendera que o seu amor por ele continuava vivo. Estivera adormecido, à espera de voltar a acordar.
Em alguns momentos, durante o confronto desagradável da noite anterior, Briana desejara aproximar-se de Pascual, suplicar-lhe perdão e perguntar-lhe o que podia fazer para o compensar. Mas não o fizera por medo do que ele pudesse exigir. Angustiava-a a ideia de ele pensar seriamente em tirar-lhe a custódia do filho e esse sentimento oprimia-a. Dada a sua riqueza e o poder da sua família, Pascual contava com os meios necessários para lhe tirar Adán. Briana não conseguiria evitá-lo de maneira nenhuma. Comparada com essa ideia inquietante, a ameaça de um julgamento por dívidas da sua empresa carecia de toda a importância.
Sem saber o que fazer, olhou para a chávena de café, observando as espirais de vapor que se elevavam da porcelana delicada. Sentia-se como se estivesse num túnel escuro, sem possibilidade de encontrar a luz no fim. Se o seu pai tivesse tido a capacidade de ser fiel à mãe, se tivesse posto o bem-estar da esposa e da filha acima do snobismo da classe e do dinheiro com que crescera, talvez Briana não tivesse acabado perdida na situação penosa que estava a viver com Pascual.
– O que se passa contigo, Bri? – Tina sentou-se à frente dela. O seu bonito rosto expressava preocupação genuína.
Briana, consciente do que a sua jovem amiga, involuntariamente, revelara a Pascual na noite anterior, sentia-se muito renitente a falar de assuntos pessoais. Tinha a certeza de que Tina não quisera fazer nenhum mal, mas mesmo assim não devia ter falado dela tão alegremente.
– Estou bem. Passei uma má noite, foi só isso.
– O nosso impressionante senhor Domínguez esteve a fazer-me perguntas sobre ti ontem à noite. Na verdade, cada vez que tentava mudar de assunto, dava-me a volta para falar de ti! Penso que gosta mesmo de ti, Bri.
– Tanto faz se gosta ou não. Estou aqui para fazer o meu trabalho, mais nada. E, no futuro, agradecer-te-ia se não falasses livremente das minhas circunstâncias pessoais. Sobretudo, com pessoas para as quais estou a trabalhar.
Tina, sinceramente surpreendida com a explosão de mau humor da sua chefe, nada habitual, encolheu os ombros com ar compungido.
– Lamento muito. Mas é um homem tão encantador… Antes de dar por isso, tinha-me sacado coisas que, normalmente, não contaria. Refiro aos problemas financeiros da empresa e à tua condição de mãe solteira…
– Aceito o teu pedido de desculpas. Mas, acredita em mim, se queres triunfar nesta empresa e na tua vida, terás de aprender a ser muito mais discreta! Vou acabar o café e depois começaremos a trabalhar. Se o senhor Domínguez te fizer mais perguntas sobre mim, diz-lhe para falar comigo, está bem?
Capítulo 5
Passara toda a noite a dar voltas à cabeça, pensando no que fazer. Finalmente, precisando de um pouco de ar fresco, saiu da casa que continuava silenciosa e, com as mãos nos bolsos, seguiu um dos caminhos serpenteantes. Começava a amanhecer e a névoa prateada cobria as árvores e sebes como um manto diáfano. O ar era tão frio que Pascual tremeu. Admitiu que o campo inglês, no Outono, era um presente para a vista. Os seus pés esmagavam as folhas douradas e húmidas contra o cascalho. Era o primeiro prazer verdadeiro que experimentava desde a sua chegada.
Na sua casa, em Buenos Aires, a temperatura seria de vinte e dois graus, e o dia seria ensolarado e quente. Contudo, naquele momento, não sentia nenhuma saudade do seu país natal. Compreendeu que ao saber que estava no mesmo país em que o seu filho estava, era suficiente para se sentir bem. Pensou no aspecto teria a criança. Se se parecia fisicamente com ele e se tinham outros traços em comum. Pigarreou com impaciência, para soltar o nó que tinha na garganta.
«Como foi capaz de me fazer isto?». Não entendia porque é que Briana lhe escondera a existência do filho, de propósito. Mesmo que a tivesse traído com Claudia, coisa que não fizera, não merecia que o tratasse assim. O facto de o pai dela ter tido aventuras com outras mulheres, não lhe dava o direito de supor que Pascual faria o mesmo. Ele era um homem de outro tipo. Era um homem honrado e leal. Desejou que ela o tivesse visto assim. Teria sido ainda mais improvável ter uma aventura, sabendo que tinha um filho em que pensar. Parecia-lhe impossível ter amado uma mulher tão desconfiada, uma mulher que preferira abandoná-lo a pedir-lhe explicações e ouvir a sua versão da história.
Preferia dedicar a sua atenção às soluções, em vez de se lamentar, deixou o passado de lado e reviu algumas das decisões a respeito do futuro, que tomara na noite anterior. Quando regressasse a Buenos Aires, dali a alguns dias, o filho iria com ele. Isso era indiscutível. «Quando te tornas pai», dissera-lhe o amigo Fidel uma vez, «tudo muda. De certa forma, o caminho torna-se mais claro. Preocupas-te menos com as tuas necessidades e ambições. Dedicas quase cada momento do dia à criança amada, que ajudaste a trazer a este mundo.»
Infelizmente, o amigo não vivera para ver o seu filho crescer. Visto que já tinha perdido os primeiros anos de infância de Adán, Pascual não queria que lhe acontecesse o mesmo. Se Briana criasse algum tipo de dificuldades, não hesitaria em empreender acções legais para reclamar os seus direitos. Mas tinha a esperança de que não chegasse a tal ponto. Seria muito melhor que compreendesse que tinha cometido uma grave injustiça com o filho e com ele, ao mantê-los afastados, e que estivesse disposta a rectificar o seu erro em vez de o piorar ao interpor-se no seu caminho.
Parou um momento, emitiu um longo suspiro e retomou a subida pelo caminho serpenteante. Quase tropeçou ao recordar o beijo que lhe roubara na noite anterior, antes de descobrir a existência do filho. Uma onda de calor queimou-lhe o ventre, perturbando-o. Não entendia que, depois de cinco longos anos de separação, ainda conseguisse despertar nele uma luxúria e um desejo tão intensos. Sentindo-se traído pelo seu próprio corpo, Pascual começou a andar mais depressa. Decidiu, com amargura, acelerar o passo para queimar a energia nervosa que vibrava no seu corpo. Se não o fizesse, o desejo inconveniente e traiçoeiro que sentia não lhe daria um momento de paz.
Tomara mais uma decisão. A ideia de assistir a um jogo num dos campos de pólo mais elitistas do Reino Unido já não o atraía, mesmo que fosse o final da época. Tinha coisas muito mais importantes na cabeça. A primeira, era pôr Briana ao corrente dos seus planos, depois, visitaria o seu filho.
Atónita, Briana olhou para a colega.
– Decidiu não ir ao jogo de pólo? Os outros estão lá fora, à espera no carro! Que razão te deu?
Tina, incomodada e também perturbada, franziu o sobrolho.
– Só disse que mudou que opinião, que tinha surgido uma coisa mais importante e que devia transmitir-lhes o seu pedido de desculpas. Disse que os veria no jantar, esta noite. Enquanto isso…
A jovem hesitou e Briana sentiu uma pontada de apreensão que lhe acelerou o coração.
– Enquanto isso, o quê? – exigiu saber, com um laivo impaciente provocado pelo medo.
– Enquanto isso, o senhor Domínguez gostaria de falar contigo em privado… No seu quarto.
A expressão de curiosidade da loira era uma pergunta e Briana resmungou mentalmente. Aquilo era a última coisa de que precisava. Tina a tecer conjunturas se havia alguma coisa entre o bonito argentino e a sua chefe! Ao recordar a pequena mancha rosada que tinha no pescoço, o presente de despedida de Pascual na noite anterior, uma labareda de vergonha e culpa assolou o seu corpo. Automaticamente, levou a mão ao colarinho da camisa de seda, para o subir um pouco.
– Bom. Então, terás de sair e transmitir a mensagem aos nossos clientes. E, claro, não menciones que Pas… O senhor Domínguez quer ver-me no seu quarto.
Briana, sentiu-se a corar por ter estado prestes a dizer o nome próprio dele, virou-se e, lentamente, como se tivesse chumbo nos sapatos, subiu as escadas e encaminhou-se para o patamar onde se encontrava a suíte de Pascual.
Mordiscando o lábio, bateu com os nós dos dedos na porta de carvalho.
– Entre!
Pascual lançou-lhe um frio olhar, crispou os lábios sensuais com desagrado e abriu a porta para a deixar passar. Vestido de preto dos pés à cabeça, projectava a imagem de um homem de virilidade indomável, habituado a dar ordens. Que Deus ajudasse quem se atrevia a opor-se a ele!
A ansiedade de Briana aumentou só de o ver. Pascual fechou a porta atrás de si e seguiu-a para o meio do quarto. A empregada enchera de flores frescas uma enorme jarra branca que estava sobre a secretária e, o seu cheiro, sobretudo o dos lilases, pairava no ar como um perfume exótico e embriagador. Briana só teve de dar uma olhadela aos olhos escuros como a noite, para saber que a esperavam problemas.
– Porque… Porque não queres ir ao jogo de pólo? – atreveu-se a perguntar.
– Porque as minhas prioridades mudaram, como tenho a certeza de que sabes muito bem porquê.
Ela não respondeu. O ambiente era tão eléctrico e perigoso como seria a chama de uma vela a titilar junto de um monte de palha.
– Fazes bem em guardar silêncio! – um músculo do seu queixo ficou tenso. – Porque aviso-te de que nada do que disseres mudará o rumo que decidi seguir. Quando voltar para Buenos Aires, dentro de dois dias, o meu filho e tu acompanhar-me-ão e passarão lá uma longa temporada de férias. Umas férias em que se celebrará o nosso casamento. O casamento que devia ter sido celebrado há cinco anos!
– O quê?
– Ouviste-me. E, quando regressares ao Reino Unido, será para pores a tua empresa em ordem e fechá-la.
– Fechá-la?
– Sim. Tem problemas, não tem? Será um alívio para ti deixá-la para trás. Quando estiveres de volta a Buenos Aires, em vez de gerires um negócio, terás de te habituar a desempenhar as funções que se esperam da minha esposa. Não te preocupes, Briana… – o olhar escuro de Pascual foi provocador em extremo. – Estarás mais do que ocupada a cumprir esse papel. E isso inclui partilhar a minha cama, cuidar do nosso filho, agir como anfitriã dos jantares e festas que celebrar, e ser uma acompanhante impecável em todas as funções sociais. Tenho a intenção de te integrar no meu mundo. Esse mundo que desprezas, ao ponto de não teres conseguido suportar a ideia de fazer parte dele! Podes esquecer a tua intenção de criar o nosso filho em Inglaterra, como mãe solteira. Isso é coisa do passado. Hoje é um novo dia e as coisas mudarão muito para ti. Podes contar com isso!
Sentindo-se como se uma tempestade acabasse de arrancar o telhado da sua casa, Briana perdeu o dom da palavra. Era como se o impacto do que acabava de ouvir a tivesse deixado muda.
– Não tens nada para dizer? – Pascual ergueu o queixo, particularizando a sua irritação.
– Sim… Claro – olhou para ele, inquieta. – Tenho muito para dizer. Mas tenho a certeza de que não me ouvirás.
– Ouvirei. Isso não significa que fique de acordo contigo ou mude de opinião.
– Entendo que queiras fazer parte da vida de Adán, é o teu direito como pai. Mas não podes querer que voltemos para Buenos Aires contigo ou que tu e eu nos casemos. Que necessidade tens de chegar tão longe? Além disso, custa-me acreditar que queiras casar comigo depois do que se passou entre nós. Não faz nenhum sentido.
– Bom, certamente, não é porque tenha descoberto que não posso viver sem ti, nem nada assim tão estúpido! – Pascual fez uma careta. – Não. Faço isto pelo bem do meu filho. O filho que me negaste nos últimos quatro anos. És a sua mãe e, embora não me tenhas demonstrado respeito, eu respeitar-te-ei a ti para não lhe falhar a ele. Quero ser o pai que Adán merecia ter desde o primeiro dia e, se isso significa casar-me com a traidora da sua mãe, então…
– Traidora? – os olhos cinzentos de Briana arredondaram-se, expressando o seu protesto. – Nunca te enganei… Nunca! Se alguém demonstrou sentir atracção por outras pessoas, foste tu!
– Continuas a dar voltas a essa cena ridícula com Claudia? – Pascual suspirou com impaciência. – O que posso dizer para te convencer da verdade? Juro-te que estava bêbada. Como estava zangada porque tinha acabado com ela, queria magoar-te, Nem sequer percebi que estavas a ver o que se passava! Se soubesse, teria falado contigo para te explicar a situação. Mas não me deste essa oportunidade, pois não?
– Estava demasiado magoada e incomodada!
– E, pelos vistos, achaste que eu era como o teu pai! Chamei-te traidora porque me prometeste que serias minha esposa, Briana. Não cumpriste a tua promessa. Em vez de o fazeres, foste embora, fizeste-me ficar como um estúpido à frente de toda a gente e, ainda por cima, escondeste que estavas grávida do meu filho. Desleal, falsa… Traidora é uma palavra tão válida como qualquer outra para descrever as tuas acções, não te parece?
– Não podes esperar que aceite os teus planos sem protestar, que ceda às tuas ordens, Pascual. Não vivemos na Idade Média e não vou estar de acordo com tudo o que disseres só porque me sinto culpada devido ao que aconteceu há cinco anos.
– Então, sentes-te culpada. Finalmente! Uma demonstração de arrependimento!
– Claro que me sinto mal em relação ao que se passou. Dia após dia, ao ver Adán crescer, pensei no que estava a perder por não ter o seu pai por perto. Arrependo-me sinceramente da minha atitude nesse sentido. Mas não queria ser vingativa ou cruel quando decidi não entrar em contacto contigo. Nesse momento, considerando a tensão a que me via submetida, fiz o que achei ser correcto.
– Do meu ponto de vista, nem sequer pensaste um momento. Reagiste! Sabia que podias ser impulsiva e gostava disso em ti, mas não teria imaginado, nem num milhão de anos, que a tua impulsividade te levaria a fazer o que fizeste – semicerrou os olhos. – Tenho uma pergunta para ti. Tencionavas falar-me de Adán? E se os negócios não me tivessem trazido aqui este fim-de-semana? E se não tivessem contratado os serviços da tua empresa para me atender? Terias deixado passar mais tempo? Terias esperado até o nosso filho ser um homem, para entrares em contacto comigo? Ou talvez fosses capaz de nunca o fazer?
Era, sem dúvida, uma possibilidade devastadora. E fez com que Briana se sentisse como se tivesse cometido um crime merecedor de prisão perpétua. Não era a primeira vez que se sentia esmagada pela gravidade da decisão que tomara ao sair de Buenos Aires, há cinco anos. Mas nunca a ressaca da onda de dor e arrependimento fora tão intensa como naquele momento. Enfrentar a vitalidade e a beleza do homem que tinha à sua frente, fizera-a compreender o mal que lhe causara. Fora a culpada da sua humilhação e tortura no passado e, mais ainda, no presente. Em vez de seguir em frente com o casamento e comprometer-se com o homem que amava, deixara que o medo e a dúvida ganhassem o jogo. E a consequência era a cena que estava a viver, equivalente a uma tortura.
Voltou a desejar ter tido uma referência masculina melhor do que o pai, sempre cruel e infiel. Independentemente do ponto de vista, a verdade era que negara a Pascual a oportunidade de ter uma relação com o filho. Mesmo se tivesse chegado a ser infiel no casamento, e Briana não podia esquecer como se sentira magoada ao vê-lo nos braços da ex-namorada, não teria merecido tal castigo. Briana suspirou com desalento e deu alguns passos na direcção dele. Desejava com todo o seu coração poder resolver as coisas, mas sabia que era impossível recuar no tempo e apagar o que se passara.
– Sempre estiveste na minha mente, Pascual. Suponho que me perdi no dia-a-dia, nas exigências de tentar criar uma empresa e de ganhar o suficiente para que Adán e eu pudéssemos viver – explicou. – No fim, tinha passado tanto tempo sem falarmos, que tinha medo de te telefonar, de me desligares o telefone, e receava que, se fosse a Buenos Aires, me fechasses a porta na cara.
– Sabendo que tinha um filho? Achas mesmo que teria sido capaz disso? – Pascual, incrédulo, deixou cair as mãos sobre as ancas estreitas e masculinas. – Cada vez tenho mais certezas de que não fazes ideia do tipo de homem que sou, Briana. O facto de pensares que não me interessaria saber que tinha concebido um filho contigo deixa-me sem fala!
Briana encolheu os ombros, hesitante. Incomodava-a perceber que, na verdade, não conhecera Pascual tão bem como pensara. Envergonhou-se de si própria.
– O que posso fazer para corrigir a situação?
Pascual fixou nela o seu olhar de veludo preto e não hesitou antes de responder.
– Para além de vires comigo para Buenos Aires, como disse antes, agora, podes pedir um carro com motorista para nos levar a tua casa. Assim, finalmente, poderei conhecer o meu filho!
– Mas são três horas de viagem de ida e três de volta. Não chegarás a tempo para o jantar com os meus clientes, se fizermos isso.
Ao ver como Pascual reagia face a essa informação, Briana arrependeu-se de ter expressado em voz alta os seus pensamentos. Mas a verdade é que não pensava apenas naquilo que os seus clientes diriam quando lhes comunicasse que Pascual não jantaria com eles. Acima de tudo, preocupava-se com o filho. Não sabia como reagiria se aparecesse em casa, de repente, com um homem desconhecido para ele e que afirmava ser o seu pai.
– Achas que estou mais preocupado com um jantar de negócios do com que em ver o meu filho pela primeira vez? – gritou Pascual, com fúria. – Diz-lhes que nos veremos em Londres, amanhã… Onde eles quiserem. Podes alegar que me surgiu um assunto de suma importância. Porque não? – encolheu os ombros largos com indiferença. – É a verdade.
– Então, terei de telefonar à minha mãe para lhe dizer que vamos. Está a cuidar de Adán enquanto estou fora.
– Telefona e depois pede um carro. Quero partir o mais depressa possível.
– Tenho o carro aqui. Posso conduzir.
– Muito bem. Vai fazer a tua chamada e não percamos mais tempo, está bem?
Dando o assunto por concluído, Pascual esticou o braço para o jarro de água que estava em cima da mesa do café e serviu-se de um copo. Briana, com a sensação de que as suas pernas se transformavam em água, dirigiu-se para a porta e saiu do quarto.
Uma vez lá fora, no silêncio do corredor, apoiou-se na parede e tentou controlar a onda de medo e inquietação que a assaltara ao pensar em ir a sua casa. Sentia inquietação para saber o que aconteceria quando pai e filho se vissem pela primeira vez. O filho podia ser tímido e pouco comunicativo, mesmo com pessoas que conhecia e muito mais com os estranhos. Não sabia como Pascual reagiria se tivesse a sensação de que a criança o rejeitava.
Preocupada com ambos, sentiu que as lágrimas se amontoavam nos seus olhos e começavam a sulcar suas faces. Limpou-as com a mão, afastou-se da parede e voltou para o seu quarto, para telefonar.
A casa estava situada numa rua agradável, num dos distritos mais tranquilos de Londres. Estava pintada de branco e mais bem cuidada do que as casas vizinhas. Enquanto Pascual seguia a silenciosa Briana pelo caminho que levava à porta de entrada, que tinha uma bonita vidraça, a ideia de ver o seu filho causou-lhe uma descarga de adrenalina.
Fizera-lhe perguntas sobre ele pelo caminho, mas mostrara-se renitente nas suas respostas, como se tivesse medo de que, se Pascual soubesse demasiado, fosse mais difícil reservar a criança para ela. Irritava-o profundamente que Briana continuasse a resistir a deixá-lo fazer parte das suas vidas, quando ele só queria ter a oportunidade de ser pai. Não restava confiança entre eles. Destruíra-se há cinco anos. Naquele momento, eram como dois guerreiros a defenderem o seu campo de batalha, dispostos a lutar, em vez de serem os amantes apaixonados que tinham sido.
Briana abriu a porta e entraram. Pascual, embora muito excitado com a ideia de conhecer o filho, voltou a sentir-se golpeado pela enorme magnitude da traição de Briana, que lhe magoara a alma.
Capítulo 6
Foi a mãe dela que os recebeu. Frances Douglas olhou para o homem alto e bonito que estava atrás da sua filha e franziu o sobrolho. O seu rosto, normalmente sereno e atraente, estava tenso. Quando Briana lhe dissera que voltava para casa antes do esperado, acompanhada pelo pai de Adán, deixara escapar uma exclamação de espanto que valia mais do que mil palavras.
Briana sabia que a mãe nunca julgaria injustamente as decisões que tomasse. Na verdade, nunca a julgara por abandonar Buenos Aires, cancelar o casamento e voltar para casa grávida. No entanto, compreendia que a visita inesperada de Pascual a enchesse de ansiedade a respeito do futuro da filha e do neto, tal como acontecia com ela própria. Briana, consciente de que Adán podia sair a correr para o corredor de um momento para o outro e ver o pai pela primeira vez, tinha o coração acelerado.
– Olá, mãe – beijou a face da mãe. – Onde está Adán?
– Está deitado no sofá. Levei-o à natação. Havia imensos brinquedos insufláveis na piscina e, quando chegámos a casa, estava cansado. Está a dormir há meia hora – Frances levantou o olhar, inquieta, para o Adónis de cabelo escuro, cujo tamanho fazia com que o corredor minúsculo parecesse a entrada de uma casa de bonecas. – Suponho que deve ser…
– Pascual Domínguez – desviando-se para fazer as apresentações, Briana conseguiu esboçar um leve sorriso. – O pai de Adán. Pascual, esta é a minha mãe, Frances.
Ele estendeu o braço para lhe apertar a mão. Briana teve a sensação de que a informalidade da apresentação o aborrecera.
– Senhora Douglas… É um prazer conhecê-la, finalmente – disse Pascual, confirmando com as suas palavras o que Briana intuíra.
– Como acabei de dizer a Briana – respondeu ela, – Adán está a dormir e pode demorar algum tempo a acordar.
– Não importa. Já esperei muito tempo para ver o meu filho. Esperarei o que for preciso até acordar – dessa vez, Pascual lançou um olhar frio e pensativo para Briana, expressando claramente a sua tristeza com ela.
– Bom, vamos para a sala? Lá estará Adán, se ficou a dormir no sofá – disse Briana.
– E, enquanto isso, querem que faça um chá para todos? – sugeriu Frances. A sua voz meiga e serena foi como um bálsamo que aliviou a tensão que os envolvera a todos.
– Saber-me-ia muito bem uma chávena de café, simples e sem açúcar, obrigado – aceitou Pascual.
– E tu, querida? – a mãe de Briana dirigiu-se para a longa cozinha que havia ao fundo do corredor, com alegres cortinas aos quadrados brancos e vermelhos.
– Um chá, sim, obrigada – respondeu Briana, com ar ausente. A emoção que a embargava impedia-a de pensar.
Ao perceber que olhava para a porta do que devia ser a sala, Pascual desviou-se para a deixar passar.
– Tu primeiro – disse.
Na pequena sala quadrada, havia estantes de pinho cheias de livros e CDs, uma televisão, uma aparelhagem e vários brinquedos infantis espalhados no chão alcatifado. A criança dormia no mais pequeno dos dois sofás dourados. Estava coberto com uma manta alegre, que Briana tecera no Inverno anterior. Tinha a cabeça apoiada numa almofada e o seu cabelo encaracolado e escuro emoldurava um rosto em forma de coração, digno de um anjo. Briana sentiu uma onda de ternura ao olhar para ele.
Ao sentir que Pascual se aproximava, levantou o olhar e o seu coração acelerou ao ver que o observava com tanta ternura como ela. Parecia comovido. Adán era uma criança linda e não era estranho que as pessoas parassem na rua para lho dizerem. Briana pensava que teria sido impossível não ser tão bonito, tendo um pai como Pascual.
Percebeu imediatamente que ele não tinha nenhuma dúvida de que Adán era dele. Pensou, com alívio, que pelo menos não teria de enfrentar especulações degradantes sobre a sua paternidade, para além do resto das acusações que lhe fizera.
– Parece-se comigo quando era criança – comentou ele, num tom emocionado e quente.
– Por vezes, confundem-no com uma menina por causa destes caracóis! – Briana sorriu. – Mas não fui capaz de os cortar.
– A minha mãe entenderia perfeitamente se o visse. Teve o mesmo dilema comigo.
– A sério?
Quase receando falar para não estragar o agradável momento de intimidade, Briana cruzou os braços e mordiscou o lábio inferior. Recordava bem Paloma Domínguez. Era tão alta e espectacular como o filho, e podia ser igualmente intimidante. Em tempos, fora uma das modelos de passarela mais famosas do mundo. Era difícil imaginá-la como uma jovem mãe, a mimar o seu lindo filhinho…
– Quanto tempo achas que dormirá? – Pascual ajoelhou-se junto do sofá e inclinou-se para afastar os caracóis sedosos da testa da criança.
Briana, observando-o, susteve a respiração. Sabendo, por experiência, que as carícias daquele homem podiam ser ternas e também apaixonadas. Desejou que a acariciasse com tanta gentileza e reverência. Tudo o que amara nele estava a voltar à sua memória, derrubando as suas defesas e deixando-a aberta e vulnerável. Ao vê-lo com o filho, Briana sentia-se ainda mais exposta e isso aterrorizava-a.
– Acordará em breve. Terá fome – respondeu.
Pascual levantou-se e estudou o seu rosto.
– Como pudeste esconder-me a sua existência?
Ela viu a dor que os seus olhos pretos como o ébano manifestavam e o arrependimento e a tristeza embargaram-na.
– Agora vejo que fiz mal – murmurou, num tom quase inaudível.
– Sim… Muito mal. Independentemente do que pensavas que tinha feito, não merecia isto!
– Mãe?
Adán mexeu-se e ambos concentraram a sua atenção nele. Briana secou rapidamente os olhos húmidos, sentou-se na beira do sofá e puxou a criança para os seus braços.
– Olá, meu anjo! A avó disse-me que te levou à natação. Divertiste-te?
– Sim… – a voz de Adán parecia ensonada. Encostou a cabeça de caracóis escuros no peito da mãe. Depois, levantou o olhar para o alto homem moreno que o observava.
Briana deu-lhe um beijo na face e apertou o seu corpinho quente.
– Querido, trouxe alguém para te conhecer. Chama-se Pascual e é…
– Um amigo.
Para sua surpresa, Pascual baixou-se e segurou numa mão de Adán.
– A tua mãe falou-me muito de ti, Adán. E desejava conhecer-te. Espero que não te importes.
Briana olhou para ele com agradecimento. Sentira-se perturbada com a sua sensibilidade ao não declarar imediatamente quem era na verdade. Ele tinha razão no que dissera. Não o conhecia. Tinha permitido que o medo de ser rejeitada a consumisse e toldasse o seu julgamento.
Para sua surpresa, Adán sorriu para Pascual como se não fosse um desconhecido e tentava endireitar-se para falar com o homem que continuava a segurar a sua mãozinha.
– Tenho imensos carros! – exclamou. – Queres que tos mostre?
– Claro. Eu adoraria vê-los.
Sorrindo, Pascual levantou-se rapidamente e desviou-se quando, como um redemoinho, a criança saltou do sofá e correu para uma caixa de plástico azul que estava à frente da televisão. Adán, tirou vários carros em miniatura e, um a um, fê-los rodar para Pascual.
– Olha! – exclamou, com olhos brilhantes. – Tenho um Ferrari!
– Eu também tenho um desses – disse Pascual, com toda a seriedade. Ajoelhou-se no tapete, levantou o brinquedo e examinou-o com interesse.
– De que cor?
– Prateado.
– Eu gosto mais deste preto.
– Tens razão. É uma cor muito melhor do que o prateado.
Adán sorriu de orelha a orelha.
A mãe de Briana chegou com o chá e o café. Deixou a bandeja numa mesa de apoio e olhou para a filha.
– Está tudo bem, querida? Queres que fique ou preferes que vos deixe a sós por um momento?
Olhou para Pascual, que estava sentado no chão com o seu neto. Parecia sentir-se tão confortável com ele como se o conhecesse desde o dia do seu nascimento.
Pascual levantou o olhar e esboçou um sorriso deslumbrante.
– Não se preocupe, senhora Douglas. Só vim para visitar Adán. Não tenciono fazer nenhuma cena, tem a minha palavra.
– Briana educou-o muito bem… Depressa o verá – disse Frances, num tom de voz emocionado. E olhou para a filha.
– Vais passar a noite aqui ou tens de voltar?
– Vamos voltar – afirmou Pascual. Os seus olhos, de expressão indecifrável, procuraram os de Briana. – Infelizmente, tenho de ir a uma reunião. Mas amanhã regressarei para ver Adán outra vez.
– Importas-te de ficar com Adán esta noite, como tínhamos planeado? – perguntou Briana à mãe. O significado de voltar para Warwickshire com Pascual fazia com que a sua cabeça desse voltas. No entanto, sentiu um grande alívio ao compreender que não se veria obrigada a falhar com os seus clientes.
Tinham organizado um jantar muito especial para aquela noite, em honra de Pascual, e custara muito trabalho e organização conseguir com que tudo fosse perfeito. Embora ele achasse que a sua empresa estava a fracassar e que seria um alívio deixá-la para trás, Briana sentia-se obrigada a cumprir o seu compromisso até ao fim e dar aos seus clientes o serviço que tinham pedido. Era uma questão de orgulho.
– Claro que não me importo! Sabes que adoro cuidar dele. Voltarei dentro de… – olhou para o relógio de pulso. – Uma hora?
– Isso seria fantástico. Obrigada, mãe.
– Até mais tarde, então.
– Vive nesta rua – explicou Briana a Pascual, quando fechou a porta.
– Deve ser uma grande ajuda para ti.
Pascual voltou a concentrar a atenção no filho, que continuava a remexer na grande caixa para lhe mostrar a sua impressionante colecção de carrinhos.
– É, sim.
Briana agarrou na sua chávena de chá e, pensativa, bebeu um gole do líquido fumegante. Quanto tempo duraria essa paz momentânea e quanto tempo é que Pascual demoraria a recomeçar as suas recriminações e a manifestar a sua desilusão com ela? Mas, deslumbrada ao ver pai e filho juntos, fez um esforço para deixar de lado os seus medos e concentrou-se em relaxar e desfrutar da cena.
Pascual atou a gravata, depois desfez o nó e recomeçou. Parecia ter mãos de trapo, coisa pouco habitual nele. Mas era impossível agir com normalidade quando acabara de passar a tarde com o filho, pela primeira vez na sua vida. A criança era incrível, maravilhosa, carne da sua carne.
Mudara tudo para Pascual. A sua vida nunca voltaria a ser a mesma depois de conhecer a existência de Adán. As suas emoções oscilavam entre querer gritar o seu júbilo ao mundo inteiro e a devastação de ter perdido quatro lindos anos da vida do filho, que nunca recuperaria.
Observou a sua imagem no espelho de mogno e captou o brilho febril dos seus olhos, numa mistura de excitação e desconsolo. A última coisa que lhe apetecia fazer naquela noite era assistir a um entediante jantar de negócios, por muito sublime que fosse o menu. Conversar com três homens com quem não tinha nada em comum, à excepção do seu amor pelo pólo, não o atraía. Além disso, continuava sem saber se queria vender-lhes os cavalos ou não.
O único consolo era que Briana estaria ali, a atender todos os seus desejos, disposta a impressionar os seus clientes e a fazer um bom trabalho, com a esperança de salvar a sua empresa da ruína. Embora continuasse irado com ela, por lhe ter escondido a existência de Adán, não tinha nenhuma dúvida de que as suas curvas deliciosas e belos traços o compensariam por ter de falar de negócios, em vez de passar a noite com o filho, começando a conhecê-lo.
Em algum momento das duas horas maravilhosas que passara com eles, Pascual percebera que a empresa permitia que Briana pagasse a renda e pusesse comida na mesa. Consciente disso, não podia exigir que virasse as costas ao evento daquela noite. Mesmo que fosse o último que organizava, dado que tinha a intenção de a levar, juntamente com Adán, de volta para Buenos Aires.
Pascual, depois de se desculpar para sair da mesa, deixou os outros a fumar charutos e a desfrutar do terceiro copo de vinho, e foi procurar Briana. Há cerca de uma hora que não aparecia na sala de jantar e, uma vez tomada a decisão de seguir em frente com a venda dos cavalos e selado o pacto, estava ansioso por vê-la novamente. O seu perfume pairava no ar, mesmo depois de ela os deixar, torturando-o subtilmente durante o jantar.
Espreitou pela porta da enorme cozinha Tudor onde, novamente, o pessoal do restaurante trabalhava em excesso a arrumar e a empacotar as suas coisas. Tina estava à frente da mesa, a beber uma chávena de café e a mordiscar um biscoito.
O seu rosto iluminou-se com prazer genuíno ao vê-lo. Levantou-se rapidamente e atravessou a divisão para ir cumprimentá-lo.
– Olá! Como correu o jantar? – perguntou, num tom de voz agudo, corando levemente.
Pascual ofereceu-lhe um sorriso educado, mas comedido.
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