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A Illustre Casa de Ramires


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066407223

Índice de conteúdo

PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1900

A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES

Obras do mesmo auctor

No prelo

A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

XI

XII

FIM



PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900

Índice de conteúdo





Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.º da mesma Lei.



Porto—Imprensa Moderna




A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES

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Obras do mesmo auctor:

Índice de conteúdo



Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12$000
As Minas de Salomão, 1 volume 600
Os Maias. 2 grossos volumes 2$000
O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva, 1 grosso volume 600
O Primo Bazilio. Terceira edição, 1 grosso volume. 1$000
A Reliquia, 1 grosso volume 1$000
O Mandarim. Quarta edição, 1 volume 500
Correspondencia de Fradique Mendes, 1 volume 600

No prelo:

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A Cidade e as Serras.





A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES

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I

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Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires (que n'aquella sua velha aldêa de Santa Ireneia, e na villa visinha, a aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre») trabalhava n'uma Novella Historica, A Torre de D. Ramires, destinada ao primeiro numero dos Annaes de Litteratura e de Historia, Revista nova, fundada por José Lucio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenaculo Patriotico, em casa das Severinas. A livraria, clara e larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava para o pomar por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra almofadados de velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa varanda, na claridade forte, pousava a mesa—mesa immensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada n'essa tarde pelos rijos volumes da Historia Genealogica, todo o Vocabulario de Bluteau, tomos soltos do Panorama, e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarellos. E d'ahi, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo deante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da penna de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novella,—a Torre, a antiquissima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivencia do Paço acastellado, da fallada Honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X. Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e antigo fidalgo de Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua ascendencia, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos Senhores que entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada quando os barões francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquelle agigantado Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo o Gottoso, Rei de Leão. Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como elle, crescera e se afamára o Solar de Santa Ireneia—resistente como elle ás fortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da Historia de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o Cortador, collaço de Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas na Sé de Zamora), apparece logo na batalha d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo sobre finas nuvens d'ouro, pregado n'uma cruz de dez covados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire de San-Thiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos, e surde na quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente ao Mestre:—«D. Payo Peres, Tavira é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadiça erguida, as barbacans erriçadas de frecheiros, nega acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que corriam o Norte em folgares e caçadas—para que a presença da adultera não macule a pureza extreme do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um troço de bésteiros, mata o Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao fim da lide seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada, se embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre d'Aviz. Sob os muros d'Arzilla combatem magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu neto Fernão, e deante do cadaver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pateo da Alcaçova ao lado do corpo do Conde de Marialva—Affonso V arma juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão Ramires, murmurando entre lagrimas: «Deus vos queira tão bons como esses que ahi jazem!...» Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas e os combates de Oriente em que se não esforce um Ramires—ficando na lenda tragico-maritima aquelle nobre capitão do Golpho Persico, Balthazar Ramires, que, no naufragio da Santa Barbara, reveste a sua pesada armadura, e no castello de prôa, hirto, se afunda em silencio com a náu que se afunda, encostado á sua grande espada. Em Alcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pagem do Guião, nem lezo nem ferido, mas não querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto, apanha uma acha d'armas, e gritando:—«Vai-te, alma, que já tardas, servir a de teu senhor!»—entra na chusma mourisca e para sempre desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas suas terras. Reapparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente, Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D. João IV, mette a Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de Venavente, e toma Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda d'um Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. Já, porém, como a nação, degenera a nobre raça... Alvaro Ramires, valido de D. Pedro II, brigão façanhudo, atordôa Lisboa com arruaças, furta a mulher d'um Védor da Fazenda que mandára matar a pauladas por pretos, incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões uma casa de tavolagem, e termina por commandar uma urca de piratas na frota de Murad o Maltrapilho. No reinado do Sr. D. João V Nuno Ramires brilha na Côrte, ferra as suas mulas de prata, e arruina a casa celebrando sumptuosas festes de Egreja, em que canta no côro vestido com o habito de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires, Christovam, Presidente da Mesa de Consciencia e Ordem, alcovita os amores d'el-rei D. José I com a filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua chalaça, as suas proezas de glutão no Paço da Bemposta com o arcebispo de Thessalonica. Ignacio Ramires acompanha D. João VI ao Brazil como Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um bahú carregado de peças d'ouro que lhe rouba um administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar da cornada de um boi. O avô de Gonçalo, Damião, doutor liberal dado ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello, compõe as empoladas proclamações do Partido, funda um jornal, o Anti-Frade, e depois das Guerras Civis arrasta uma existencia rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo para vernaculo, com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de Valerius Flaccus. O pae de Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico, vivia em Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco Hypothecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do Reino, cuja concubina, corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou, (para o afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, esse, era bacharel formado com um R no terceiro anno. E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo Mendes Ramires. Um seu companheiro de casa, José Lucio Castanheiro, algarvio muito magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem Simão Craveiro chamava o «Castanheiro Patriotinheiro», fundára um Semanario, a Patria—«com o alevantado intento (affirmava sonoramente o Prospecto) de despertar, não só na mocidade Academica, mas em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido das bellezas, das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado por essa idéa, «a sua Idéa», sentindo n'ella uma carreira, quasi uma missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de Apostolo, clamava pelos botequins da Sophia, pelos claustros da Universidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos cigarros,—«a necessidade, caramba, de reatar a tradição! de desatulhar, caramba, Portugal da alluvião do estrangeirismo!»—Como o Semanario appareceu regularmente durante tres Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de griphos e citações sobre as Capellas da Batalha, a Tomada d'Ormuz, a Embaixada de Tristão da Cunha, começou logo a ser considerado uma aurora, ainda pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E alguns bons espiritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa do Castanheiro, os tres que se occupavam das cousas do saber e da intelligencia (porque dos tres restantes um era homem de cacete e forças, o outro guitarrista, e o outro «premiado»), passaram, aquecidos por aquella chamma patriotica, a esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos nunca d'antes visitados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara, proezas e lendas—«só portuguezas, só nossas (como supplicava o Castanheiro), que refizessem á nação abatida uma consciencia da sua heroicidade!» Assim crescia o Cenaculo Patriotico da casa das Severinas. E foi então que Gonçalo Mendes Ramires, moço muito affavel, esvelto e loiro, d'uma brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que facilmente se enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos sapatos—apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do almoço, onze tiras de papel intituladas D. Guiomar. N'ellas se contava a velhissima historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do Ultra-mar o castellão barbudo e cingido de ferro atira a acha-d'armas ás portas de Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os braços nús, por noite de Maio e de lua, o pagem de annellados cabellos... Depois ruge o inverno, o castellão volta, mais barbudo, com um bordão de romeiro. Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a traição, a macula no seu nome tão puro, honrado em todas as Hespanhas! E ai do pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. Já no patim da Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado ao machado, entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no final choroso da D. Guiomar, como em todas essas historias do Romanceiro d'Amor, tambem brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no êrmo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava os aromas e as rosas. De sorte que (como notou José Lucio Castanheiro, coçando pensativamente o queixo) não resaltava n'esta D. Guiomar nada que fosse «só portuguez, só nosso, abrolhando do sólo e da raça!» Mas esses amores lamentosos passavam n'um solar de Riba-Côa: os nomes dos cavalleiros, Remarigues, Ordonho, Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada tira resoavam bravamente os genuinos: «Bofé!... Mentes pela gorja!... Pagem, o meu murzello!...»: e através de toda esta vernaculidade circulava uma sufficiente turba de cavallariços com saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cugulas, ovençaes sopezando fartas bolsas de couro, uchões espostejando nedios lombos de cêrdo... A Novella portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento nacional. —E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do Gonçalinho surde com um estylo terso, masculo, de boa côr archaica... D'optima côr archaica! Lembra até o Bobo, o Monge de Cister!... A Guiomar, realmente, é uma castellã vaga, da Bretanha ou da Aquitania. Mas no villico, mesmo no castellão, já transparecem portuguezes, bons portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e Cavado... Sim senhor! Quando o Gonçalinho se enfronhar dentro do nosso passado, das nossas chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o torrão, sente bem a raça! D. Guiomar encheu tres paginas da Patria. N'esse Domingo, para celebrar a sua entrada na Litteratura, Gonçalo Mendes Ramires pagou aos camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma ceia—onde foi acclamado, logo depois do frango com ervilhas, quando os moços do Camolino, esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como «o nosso Walter Scott!» Elle, de resto, annunciára já com simplicidade um Romance em dois volumes, fundado nos annaes da sua Casa, n'um rude feito de sublime orgulho de Tructesindo Mendes Ramires, o amigo e Alferes-mór de D. Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes e alfaias que revelára na D. Guiomar, até pela antiguidade da sua linhagem, Gonçalinho parecia gloriosamente votado a restaurar em Portugal o Romance Historico. Possuia uma missão—e começou logo a passear pela Calçada, pensativo, com o gorro sobre os olhos, como quem anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R. Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno já não refervia na rua da Mathematica o Cenaculo ardente dos Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava em Villa Real de Santo Antonio: com elle desapparecera a Patria: e os moços zelosos que na Bibliotheca esquadrinhavam as Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados por aquelle Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de Georges Ohnet e retomaram á noite o taco nos bilhares da Sophia. Gonçalo voltava tambem mudado, de luto pelo pae que morrera em Agosto, com a barba crescida, sempre affavel e suave, porém mais grave, averso a ceias e a noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de gravata branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:—e os seus companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam para a Politica, folheavam attentamente o Diario das Camaras, conheciam alguns enredos da Côrte, proclamavam a necessidade d'uma «Orientação positiva» e d'um «largo fomento rural», consideravam como leviandade reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e, mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam com ardor sobre os dous Chefes de Partido—o Braz Victorino, o homem novo dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgencio, chefe classico dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que a Regeneração lhe representava tradicionalmente idéas de conservantismo, de elegancia culta e de generosidade, Gonçalo frequentou então o Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava á noite, tomando chá preto, «o fortalecimento da auctoridade da Corôa», e «uma forte expansão colonial!» Depois, logo na Primavera, desmanchou alegremente esta gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas não alludio mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou recuára ou se esquecera da sua missão d'Arte Historica. Realmente só na Paschoa do Quinto-Anno retomou a penna—para lançar, na Gazeta do Porto, contra um seu patricio, o Dr. André Cavalleiro, que o Ministerio do S. Fulgencio nomeára Governador civil de Oliveira, duas correspondencias muito acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear «a feroz bigodeira negra de S. Ex.a»). Assignara Juvenal, como outr'ora o pae, quando publicava communicados politicos d'Oliveira n'essa mesma Gazeta do Porto, jornal amigo, onde um Villar Mendes, seu remoto parente, redigia a Revista Estrangeira. Mas lêra aos amigos no Centro—«os dous botes decisivos que atirariam o Sr. Cavalleiro abaixo do seu Cavallo!» E um d'esses moços serios, sobrinho do Bispo de Oliveira, não disfarçou o seu assombro: —Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o Cavalleiro eram intimos! Se bem me lembro quando você chegou a Coimbra, para os Preparatorios, viveu na casa do Cavalleiro, na rua de S. João... Pois não ha uma amizade tradicional, quasi historica, entre Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco conheço Oliveira, nunca andei para os vossos sitios; mas até creio que Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com Santa Ireneia! E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar seccamente que Corinde não pegava com Santa Ireneia: que entre as duas terras corria muito justificadamente a ribeira do Coice: e que o Sr. André Cavalleiro, e sobre tudo Cavallo, era um animal detestavel que pastava na outra margem!—O sobrinho do Bispo saudou e exclamou: —Sim senhor, boa piada! Um anno depois da Formatura, Gonçalo foi a Lisboa por causa da hypotheca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo fôro annual de dez réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga, andava empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;—e tambem para conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar lealdade e submissão partidaria, colher algum fino conselho de conducta Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marqueza de Louredo, a «tia Louredo», que morava a Santa Clara, esbarrou no Rocio com José Lucio Castanheiro; então empregado no Ministerio da Fazenda, na repartição dos Proprios Nacionaes. Mais defecado, mais macilento, com uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, como em Coimbra, na chamma da sua Idéa—«a resurreição do sentimento portuguez!» E agora, alargando a proporções condignas da Capital o plano da Patria, labutava devoradoramente na creação d'uma Revista quinzenal de setenta paginas, com capa azul, os Annaes de Litteratura e de Historia. Era uma noite de Maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que sobraçava um rolo de papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a falta de intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio—voltou soffregamente á sua Idéa, e supplicou a Gonçalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os Annaes esse Romance que elle annunciára em Coimbra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I. Gonçalo, rindo, confessou que ainda não começára essa grande obra! —Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre elle, duros e desconsolados. Então você não persistio?... Não permaneceu fiel á Idéa?... Encolheu os hombros, resignadamente, já acostumado, atravez da sua missão, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem consentio que Gonçalo, humilhado perante aquella Fé que se mantivera tão pura e servidôra—alludisse, como desculpa, ao inventario laborioso da Casa, depois da morte do papá... —Bem, bem! Acabou! Proscratinare luzitanum est. Trabalha agora no verão... Para Portuguezes, menino, o verão é o tempo das bellas fortunas e dos rijos feitos. No verão nasce Nun'Alvares no Bomjardim! No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega o Gama á India!... E no verão vae o nosso Gonçalo escrever uma novellasinha sublime!... De resto os Annaes só apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de Dezembro. E você em tres mezes resuscita um mundo. Serio, Gonçalo Mendes!... É um dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos Annaes. Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional! Nós estamos immundamente morrendo do mal de não ser Portuguezes! Parou—ondeou o braço magro, como a correia d'um latego, n'um gesto que açoutava o Rocio, a Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Portuguezes, os peores despresavam a Patria—e os melhores ignoravam a Patria. O remedio?... Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam—ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de James, hein? E que todos o adoptem—ao menos como se adoptou o sabão do Congo, hein? E conhecido, adoptado, que todos o amem emfim, nos seus heróes, nos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para esse fim, o maior a emprehender n'este apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os Annaes. Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que outr'ora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso de o refazer... Como? Reatando a tradição, caramba! —Assim, vocês! Por essa historia de Portugal fóra, vocês são uma enfiada de Ramires de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu n'uma ceia de Natal dois leitões!... É apenas uma barriga. Mas que barriga! Ha n'ella uma pujança heroica que prova raça, a raça mais forte do que promette a força humana, como diz Camões. Dois leitões, caramba! Até enternece!... E os outros Ramires, o de Silves, o de Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de quem você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem, resuscitar estes varões, e mostrar n'elles a alma façanhuda, o querer sublime que nada verga, é uma soberba lição aos novos... Tonifica, caramba! Pela consciencia que renova de termos sido tão grandes sacode este chocho consentimento nosso em permanecermos pequenos! É o que eu chamo reatar a tradição... E depois feito por você proprio, Ramires, que chic! Caramba, que chic! É um fidalgo, o maior fidalgo de Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente, sem sahir do seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil annos. É de rachar!... E você não precisa fazer um grosso romance... Nem um romance muito desenvolvido está na indole militante da Revista. Basta um conto, de vinte ou trinta paginas... Está claro, os Annaes por ora não podem pagar. Tambem, você não precisa! E que diabo! não se trata de pecunia, mas d'uma grande renovação social... E depois, menino, a litteratura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gonçalo em Coimbra, ultimamente, frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim em folhetim, se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada outr'ora, edifica reinos... Pense você n'isto! E adeus! que ainda hoje tenho de copiar, para lettra christã, este estudo do Henriques sobre Ceylão... Você não conhece o Henriques?... Não conhece. Ninguem conhece. Pois quando na Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida sobre a Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá, para o Henriques! Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo—e Gonçalo ainda o avistou, na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o braço esguio d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco, que recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso charuto e da doce noite de Maio. O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando a idéa do Patriota. Tudo n'ella o seduzia—e lhe convinha: a sua collaboração n'uma Revista consideravel, de setenta paginas, em companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros, até Conselheiros d'Estado: a antiguidade da sua raça, mais antiga que o Reino, popularisada por uma historia d'heroica belleza, em que com tanto fulgor resaltavam a bravura e a soberba d'alma dos Ramires; e emfim a seriedade academica do seu espirito, o seu nobre gosto pelas investigações eruditas, apparecendo no momento em que tentava a carreira do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a composição moral dos vetustos Ramires, a resurreição archeologica do viver Affonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa forte—não o assustavam... Não! porque felizmente já possuia a «sua obra»—e cortada em bom panno, alinhavada com linha habil. Seu tio Duarte, irmão de sua mãe (uma senhora de Guimarães, da casa das Balsas), nos seus annos de ociosidade e imaginação, de 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu Alvará de Delegado, fôra poeta—e publicára no Bardo, semanario de Guimarães, um Poemeto em verso solto, o Castello de Santa Ireneia, que assignára com duas iniciaes D.B. esse castello era o seu, o Paço antiquissimo de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance de altivez feudal em que se sublimára Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I, durante as contendas de Affonso II e das senhoras Infantas. Esse volume do Bardo, encadernado em marroquim, com o brazão dos Ramires, o açor negro em campo escarlate, ficára no Archivo da Casa como um trecho da Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno Goncalo recitára, ensinados pela mamã, os primeiros versos do Poema, de tão harmoniosa melancolia:

Na pallidez da tarde, entre a folhagem

Que o outomno amarellece...


Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo Mendes Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da Patria e das ceias o acclamavam «o nosso Walter Scott», compôr um Romance moderno, d'um realismo épico, em dous robustos volumes, formando um estudo ricamente colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e com deliciosa facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta paginas, que convinha aos Annaes. No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da noite de Maio, ante a magestade silenciosa do rio e da lua, pensava regaladamente que nem teria a canceira d'esmiuçar as chronicas e os folios massudos... Com effeito! toda a reconstruccão Historica a realisára, e solidamente, com um saber destro, o tio Duarte. O Paço acastellado de Santa Ireneia, com as fundas carcovas, a torre albarran, a alcaçova, a masmorra, o pharol e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de cabellos e barbas ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros da horta; os oblatos resmungando á lareira as Vidas dos Santos; os pagens jogando no campo do tavolado—tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão açoutado; o festim e os uchões que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada de Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão...

Junto à fonte mourisca, entre os ulmeiros,

A cavalgada pára...


O enrêdo todo com a sua paixão de grandeza barbara, os recontros bravios em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heroico fallar despedido de labios de ferro—lá estavam nos versos do titi, sonoros e bem balançados...


Monge, escuta! O solar de D. Ramires

Por si, e pedra a pedra se aluira,

Se jámais um bastardo lhe pisasse,

Com sapato aviltado, as lages puras!


Na realidade só lhe restava transpôr as formas fluidas do Romantismo de1846 para a sua prosa tersa e mascula (como confessava o Castanheiro), de optima côr archaica, lembrando o Bobo. E era um plagio? Não! A quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires, pertencia a memoria dos Ramires historicos? A resurreição do velho Portugal, tão bella no Castello de Santa Ireneia, não era obra individual do tio Duarte—mas dos Herculanos, dos Rebellos, das Academias, da erudição esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o Bardo, delgado semanario que perpassára, durante cinco mezes, ha cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! Não hesitou mais, seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um copo d'agua com bicarbonato de soda, já martellava a primeira linha do conto, á maneira lapidaria da Salammbô:—«Era nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite d'inverno, na sala alta da Alcaçova...» Ao outro dia, procurou José Lucio Castanheiro na repartição dos Proprios Nacionaes, á pressa,—por que, depois d'uma conferencia no Banco Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma Exposição de Bordados na livraria Gomes. E annunciou ao Patriota que, positivamente, lhe assegurava para o primeiro numero dos Annaes a Novella, a que já decidira o titulo—a Torre de D. Ramires: —Que lhe parece? Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magrissimos braços, resguardados pelas mangas d'alpaca, até á abobada do esguio corredor em que o recebera: —Sublime!... A Torre de D. Ramires!... O grande feito de Tructesindo Mendes Ramires contado por Gonçalo Mendes Ramires!... E tudo na mesma Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito! Caramba, menino, carambissima! isso é que é reatar a tradição!

Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonçalo mandou um creado da quinta, com uma carroça, a Oliveira, a casa de seu cunhado José Barrôlo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer da rica livraria classica que o Barrôlo herdára do tio Deão da Sé todos os volumes da Historia Genealogica—«e (accrescentava n'uma carta) todos os cartapacios que por lá encontrares com o titulo de «Chronicas do Rei Fulano...» Depois, do pó das suas estantes, desenterrou as obras de Walter Scott, volumes desirmanados do Panorama, a Historia de Herculano, o Bobo, o Monge de Cistér. E assim abastecido, com uma farta rêsma de tiras d'almaço sobre a banca, começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpôr para a aspereza d'uma manhã de Dezembro, como mais congenere com a rudeza feudal dos seus avós, aquella lusida cavalgada de donas, monges e homens d'armas que o tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia outomnal, pelas veigas do Mondêgo...

Na pallidez da tarde, entre a folhagem

Que o outomno amarellece...

Mas, como era então Junho e a lua crescia, Gonçalo determinou por fim aproveitar as sensações de calor, luar e arvoredos, que lhe fornecia a aldeia—para levantar, logo á entrada da sua Novella, o negro e immenso Paço de Santa Ireneia, no silencio d'uma noite d'Agosto, sob o resplendor da lua cheia.

E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo Bardo, duas tiras, quando uma desavença com o seu caseiro, o Manoel Relho, que amanhava a quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na fresca e noviça inspiração do seu trabalho, o Fidalgo da Torre. Desde o Natal o Relho, que durante annos de compostura e ordem se emborrachava sempre aos domingos com alegria e com pachorra, começára a tomar, tres e quatro vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava a mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado, de varapáu, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite em que Gonçalo, á banca, depois do chá, laboriosamente escavava os fossos do Paço de Santa Ireneia—de repente a Rosa cozinheira rompeu a gritar «Aqui d'El-rei contra o Relho!» E, atravez dos seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois outra, bateram na varanda veneravel da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes Ramires pensou no revólver... Mas justamente n'essa tarde o creado, o Bento, descêra aquella sua velha e unica arma á cozinha para a desenferrujar e arear! Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou á chave, empurrando contra a porta a commoda com tão desesperada anciedade que frascos de crystal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e se partiram. Depois gritos e latidos findaram no pateo—mas Gonçalo não se arredou n'essa noite d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros, ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto perdoára, sempre tão affavelmente tratára, e que apedrejava as vidraças da Torre! Cêdo, de manhã convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo arrendamento findava em Outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca e o catre. Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o José Casco, respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e força espantosa, propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo Mendes Ramires porém, já desde a morte do pae, decidira elevar a renda a novecentos e cincoenta mil réis:—e o Casco desceu as escadas, de cabeça descahida. Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarellou a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras e as cêpas: e n'um esforço, em que lhe arfaram todas as costellas, offereceu novecentos e dez mil réis! Gonçalo não cedia, certo da sua equidade. O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, n'um domingo, com a mulher e um compadre,—e era um coçar lento do queixo rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquella manhã de Junho intoleravelmente longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do jardim, debaixo d'uma mimosa, com a Gazeta do Porto. Quando o Casco, pallido, lhe veio offerecer novecentos e trinta mil réis—Gonçalo Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão rico, tratado pelo saber moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes, então, arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis. Á maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao lavrador—que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho, esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor anciado que o alagava. Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gonçalo estancou—não foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando n'essa tarde se accomodou á banca, para contar a sala d'armas do Paço de Santa Ireneia por uma noite de lua—só conseguiu converter servilmente n'uma prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relêvo que os modernisasse, désse magestade senhorial ou bellesa saudosa áquelles macissos muros onde o luar, deslisando atravez das rexas, salpicava scentelhas pelas pontas das lanças altas, e pela cimeira dos morriões... E desde as quatro horas, no calor e silencio do domingo de Junho, labutava, empurrando a penna como lento arado em chão pedregoso, riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante e molle, ora n'um reboliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa os chinellos de marroquim, ora immovel e abandonado á esterilidade que o travava, com os olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre, negra entre os limoeiros e o azul, toda envolta no piar e esvoaçar das andorinhas. Por fim, descorçoado, arrojou a penna que tão desastrosamente emperrára. E fechando na gavêta, com uma pancada, o volume precioso do Bardo: —Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois aquelle animal do Casco, toda a manhã!... Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha rabiscada e suja: —«...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos raios da lua...» Larga, largos!... E os pallidos raios, os eternos pallidos raios!... Tambem este maldito castello, tão complicado!... E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!... Emfim, um horror! Atirou, n'um repellão, a cadeira de couro; cravou, com furor, um charuto nos dentes;—e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta, n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles confusos e enredados Paços de Santa Ireneia, e dos seus avós, enormes, resoantes, chapeados de ferro, e mais vagos que fumos.

II

Índice de conteúdo

Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de seda que lhe escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante todo o dia preguiçára, estirado no divan de damasco azul, com uma vaga dôr nos rins, atravessou languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo relogio de charão. Cinco horas e meia!... Para desannuviar, pensou n'uma caminhada pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita (devida já desde a Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas Eleições Geraes de Abril, pelo circulo de Villa Clara. Mas a jornada á Feitosa, á quinta do Sanches Lucena, demandava uma hora a cavallo, desagradavel com aquella teimosa dôr nos rins que o filára na vespera á noite, depois do chá, na Assembleia da Villa. E, indeciso, arrastava os passos no corredor, para gritar ao Bento ou á Rosa que lhe subissem uma limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um vozeirão de grosso metal, que gracejando mais se engrossava, rolava pelo pateo, n'uma cadencia cava de malho malhando:

—Oh sô Gonçalo! Oh sô Gonçalão! Oh sô Gonçalissimo Mendes Ramires!...

Reconheceu logo o Titó, o Antonio Villalobos, seu vago parente, e seu companheiro de Villa Clara, onde aquelle homenzarrão excellente, de velha raça Alemtejana, se estabelecera sem motivo, só por affeição bucolica á villa. E havia onze annos que a atulhava com os seus possantes membros, o lento rebombo do seu vozeirão, e a sua ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sachristias a caturrar com os padres, até pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era um irmão do velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe estabelecêra uma mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe—e do seu sujo serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que agora se atrellára, a Veridica Inquirição, uma Inquirição sobre as bastardias, crimes e titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E Gonçalo, desde estudante, amára sempre aquelle Hercules bonacheirão, que o seduzia pela prodigiosa força, a incomparavel potencia em beber todo um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela independencia, uma suprema independencia, que, apoiada ao bengalão terrifico e com as suas oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava nem da Terra nem do Céo.—Logo debruçado na varanda, gritou:

—Oh Titó, sóbe!... Sóbe emquanto eu me visto. Tomas um calice de genebra... Vamos depois passear até aos Bravaes...

Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo, erguendo para o casarão a sua franca e larga face requeimada, cheia de barba ruiva, o Titó movia lentamente como um leque um velho chapéo de palha:

—Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje á noite cear no Gago, commigo e com o João Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o violão. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei esta manhã a uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago!... Entendido, hein? O Gago abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu conheço o vinho. É d'aqui, da ponta fina.

E Titó, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle da orelha. Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:

—Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem á noite uma dôr nos rins, ou no figado, ou no baço, não sei bem, n'uma d'essas entranhas!... Até hoje, para o jantar, só caldo de gallinha e gallinha cosida... Emfim! vá! Mas, á cautela, recommenda ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado... Onde nos encontramos? Na Assembléa? O Titó despegára logo do tanque, pousando na nuca o chapéo de palha:

—Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho senhora. Das dez para as dez e meia, no Chafariz... Vae tambem o Videirinha com a viola. Viva!... Das dez para as dez e meia! Entendido... E franguinho assado para S. Ex.a, que se queixa do rim!

E atravessou o pateo, com lentidão bovina, parando a colher n'uma roseira, junto ao portão, uma rosa com que florio a quinzena de velludilho côr d'azeitona.

Immediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo dos beneficios d'aquelle jejum até ás dez horas, depois de um passeio pelos Bravaes e pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir, empurrou a porta envidraçada sobre a escura escada da cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem tambem berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em que jaziam, como abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de grande abobada que restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D. José I. Então Gonçalo desceu dous degráos da gasta escadaria de pedra e atirou outro dos longos brados com que atroava a Torre—desde que as campainhas andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a cozinha quando a Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha da Crispola! não sentira o Snr. Doutor!...

—Pois estou a berrar ha uma hora! E nem você nem Bento!... É por que não janto. Vou cear a Villa Clara com os amigos.

A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr. Doutor ficava assim em jejum até horas da noite?—Filha d'um antigo hortelão da Torre, crescida na Torre, já cozinheira da Torre quando Gonçalo nascêra, sempre o tratára por «menino», e mesmo por «seu riquinho» até que elle partio para Coimbra e começou a ser, para ella e para o Bento, o «Sr. Doutor».—E o Sr. Doutor, ao menos, devia tomar o caldinho de gallinha, que apurára desde o meio dia, cheirava que nem feito no céo!

Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentio—e já subia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Crispola, uma desgraçada viuva que, com um rancho faminto de crianças, adoecera pela Paschoa de febres perniciosas.

—A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a pequena que já se levanta... Mas muito derreadinha...

Gonçalo desceu logo outro degráo, debruçado na escada, para mergulhar mais confidencialmente n'aquellas tristezas:

—Olhe, oh Rosa, então se a pequena ahi está, coitada, que leve para casa á mãe a gallinha que eu tinha para jantar. E o caldo... Que leve a panella! Eu tomo uma chavena de chá com biscoitos. E olhe! Mande tambem dez tostões á Crispola... Mande dois mil réis. Escute! Mas não lhe mande a gallinha e o dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras, e que lá passarei por casa para saber. E esse animal do Bento que me suba agua quente!

No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a amarellidão de bilis solta. E terminou por se contemplar na sua feição nova, agora que rapára a barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e uma môsca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina, sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabello, bem ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas, necessitando já risca mais elevada, quasi ao meio da testa clara.

—É infernal! Aos trinta annos estou calvo...

E todavia não se despegava do espelho, n'uma contemplação agradada, recordando mesmo a recommendação da tia Louredo, em Lisboa:—«Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, não se enterre na provincia! Lisboa está sem rapazes. Precisamos cá um bom Ramires!»—Não! não se enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira melancolica das cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante em Lisboa, entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o conto e oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas do papá? E depois realmente vida em Lisboa só a desejava com uma posição politica,—cadeira em S. Bento, influencia intellectual no seu Partido, lentas e seguras avançadas para o Poder. E essa, tão docemente sonhada em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do Hotel Mondego,—muito remota a entrevia! Quasi inconquistavel, para além de um muro alto e aspero, sem porta e sem fenda!... Deputado—como? Agora, com o horrendo S. Fulgencio e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos, não voltariam Eleições Geraes. E mesmo n'alguma Eleição Supplementar que possibilidade lograria elle, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegancia de tradições, se manifestára sempre Regenerador, no «Centro» da Couraça, nas correspondencias para a Gazeta do Porto, nas verrinas ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro detestavel?... Agora só lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistencia social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu immenso nome historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e estendendo a malha preciosa das amizades partidarias desde Santa Ireneia até ao Terreiro do Paço... Sim! eis a theoria explendida:—mas consistencia, nomeada, affeições politicas, como se conquistam? «Advogue, escreva nos jornaes!» fôra o conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia, com aquelle seu horror ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense. Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha facil para o neto adorado da Snr.a D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de vinho nos barracões de Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas semanas de Capital, sempre pelo Banco Hypothecario, sempre com as «primas», nem formára relações duraveis e uteis nos dous grandes Diarios Regeneradores, a Manhã e a Verdade... De sorte que, realmente, n'esse muro que o separava da fortuna só descobria um buraquinho, bem apertado mas serviçal—os Annaes de Litteratura e d'Historia, com a sua collaboração de Professores, de Politicos, até d'um Ministro, até de um Almirante, o Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria pois nos Annaes com a sua Torre, revelando imaginação e um saber rico. Depois, trepando da Invenção para o terreno mais respeitavel da Erudição, daria um estudo (que até lhe lembrára no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre as «Origens Visigothicas do Direito Publico em Portugal...» Oh, nada conhecia, é certo, d'essas Origens, d'esses Visigodos. Mas, com a bella historia da Administração Publica em Portugal que lhe emprestára o Castanheiro, comporia corrediamente um resumo elegante... Depois, saltando da Erudição ás Sciencias Sociaes e Pedagogicas—por que não amassaria uma boa «Reforma do Ensino Juridico em Portugal» em dous artigos massudos, de Homem d'Estado?... Assim avançava, bem chegado aos Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal litterario, até que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro se escancarasse a desejada porta triumphal.—E no meio do quarto, em ceroulas, com as mãos nas ilhargas, Gonçalo Mendes Ramires concluio pela necessidade de apressar a sua Novella. —Mas, quando acabarei eu essa Torre? assim emperrado, sem veia, com o figado combalido?... O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo encarapinhado, muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrára vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente. —Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um pó branco? É um remedio inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um rotulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê, fruit salt... Quer dizer sal de fructas... O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no quarto de lavar, em cima do bahú vermelho, ficára um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os do Archivo. —É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em Lisboa uns documentos por causa d'aquelle malvado fôro de Praga. E por engano, na balburdia, levo do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco! O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões d'agatha nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para elle vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de cheviote leve. E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos para os Annaes, folheava, rente á janella, a Historia da Administração Publica em Portugal, quando Bento voltou com um rolo de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um sello de chumbo. —Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr. Dr. Mattos aconselhou que o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece que ferve. E limpa o sangue, desannuvia a cabeça... Pois eu muito necessitado ando de desannuviar a cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize á Rosa que tome. Todos tomam agora, até o Papa! Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre o marmore da commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se encarquilhava amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho: —Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o fôro de Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebastião... E só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não, mil quinhentos e setenta e sete. Nas vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar o frasco. O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco, relanceou de lado o pergaminho veneravel: —Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a algum avosinho do Sr. Doutor... —Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante do espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma cousa gorda... Antigamente ter rei era ter renda. Agora... Não apertes tanto essa fivella, homem! Trago ha dias o estomago inchado... Agora, com effeito, esta instituição de Rei anda muito safada, Bento! —Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o Seculo affiança que os Reis estão a acabar, e por dias. Ainda hontem affiançava. E o Seculo é jornal bem informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos annos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na Feitosa... Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os pés ao Bento que lhe laçava as botas brancas: —Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta annos, ser deputado, passar mezes em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquella linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando «apoiado!» Antes elle me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanhã que me tenha a egoa prompta, a esta hora, para eu ir á Feitosa visitar esse animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas altas... Ha mais de dois annos que não vejo a D. Anna Lucena. É uma linda mulher! —Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo d'oiro... —Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era uma jornaleira, uma moça do campo, de Corinde? Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo: —Não senhor! A Snr.a D. Anna Lucena é de gente muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar... E o irmão andou a monte por ter morto o ferrador d'Ilhavo. —Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro, irmão a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Merece fato novo!

Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia—que era o Administrador do Concelho da Villa. Ambos se abanavam com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da Camara, quando Gonçalo, que se retardára na Assembléa n'um voltarete enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome historica dos Ramires», e apressando a marcha para o Gago—sem mesmo consentir que o Titó descesse á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»

—Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro um de Vocês, com esta furiosa fome Ramirica!

Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do Concelho pelo estupendo feito do seu Governo... Então o seu Governo, os seus amigos Historicos, o seu honradissimo S. Fulgencio—nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio Moreno! O Antonio Moreno, tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena! Não, realmente, era a derradeira degradação a que podia rolar um paiz! Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação, e urgente—a da Joanna Salgadeira, Procuradora Geral da Corôa!

E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito secco, de bigode mais duro que piassaba, esticado n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial ironia as nomeações de bachareis novos, Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos. Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes encontrára no quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta de pó de arroz!...—E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão, muito bebedo, de cartola e com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino, tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Titó, que esperava, floreando o bengalão, declarou áquelles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Politica e d'indecencias—então voltava elle ao Brito, buscar a aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo um cavallo que se desboca.

E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos Bravaes e pelas emoções do voltarete em que ganhára desenove tostões ao Manoel Duarte—começou por uma pratada d'ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu «frango de doente», clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmellada: e atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó, amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á sobremesa appareceu o Videirinha, «o Videirinha do violão», tocador afamado de Villa Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de patriotismo já impressos no Independente d'Oliveira. Jantára n'essa tarde, com o violão, em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua commenda: e só acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmellada «para adocicar a goella». Depois, á meia noite, Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um café «muito forte, um café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir talento no Sr. Commendador Barros!» Era essa a hora divina do violão e do «fadinho». E já o Videirinha recuára para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões, pousado com melancolia á borda d'um banco alto. —A Soledad, Videirinha! pediu o bom Titó, pensativo, enrolando um grosso cigarro. Videirinha gemeu deliciosamente a Soledad:

Quando fôres ao cemiterio

Ai Soledad, Soledad!...

Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovellos na mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam, arripiados de horror, os jornaes da Opposição) pelo Governo do S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não com a alienação da Colonia—mas com a impudencia do S. Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se manter mais dois annos no Poder, um pedaço de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Athaydes, os Castros, os seus proprios avós—era para elle uma abominação que justificava todas as violencias, mesmo uma revolta, e a casa de Bragança enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas, João Gouveia observou:

—Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores...

O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem essa grandiosa operação—bem! Esses, primeiramente, nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos, raças fraternas... E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao fomento do Paiz, com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do S. Fulgencio!...—E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!

O Titó encolheu os hombros, resignado:

—Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender... Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia prohibir estas conversas...

Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa Oriental! E ás talhadas! Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça, apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos porquê? Pelo são principio de forte administração—(estendia o braço, meio alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo são principio de que todo o proprietario de terras distantes, que não póde valorisar por falta de dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torrão que pisa com os pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia a amanhar, a regar, a lavrar, a semear—o Alemtejo!

O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má qualidade, que, fóra umas legoas de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravetada, logo mostrava o granito...

—O mano João tem lá uma herdade immensa, immensissima, que rende trezentos mil réis!

O Administrador, que advogára em Mertola, protestou, encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquissima, fertilissima!

—Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o Freitas Galvão me contava...

Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a genebra com uma carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo como uma desgraçada illusão!

Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:

—Você já esteve no Alemtejo?

—Tambem nunca estive na China, e...

—Então não falle! Só a vinha espantosa que plantou o João Maria...

—Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios, legoas e legoas sem...

—Um celleiro!

—Uma charneca!

E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor, levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa, soluçava contra uns olhos negros, donos do seu coração:

Ai! que dos teus negros olhos

Me vem hoje a perdição...

O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador, que detestava noitadas, nocivas á sua garganta (de amygdalas loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais tombado á banda, apressou o lento Titó, por que ambos moravam no alto da Villa—elle defronte do Correio, o outro na viella das Therezas, n'uma casa onde outr'ora habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.

O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta da taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil de Oliveira—o André Cavalleiro!

Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco chagas de Christo, a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, mandão burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito teso, muito secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a inteligencia superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e ordem, como Hercules, nas cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos que recolhessem á taberna, para não alvorotar a rua...

—Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio está desde hontem com a pontada!

—Pois então, berrou Gonçalo, não venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador Civil como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O papá já lá vae ha trez annos, infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois homens!... Mas este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira condição para a auctoridade superior d'um Districto é não ser burlesca. E o Cavalleiro é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o pó-pó-poh! É d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem contar que é malandro.

Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade cortante:

—Você acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não ha ninguem, absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura politica!

O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:

—Isso são as opiniões d'um subalterno!

—E isso são as expressões d'um malcreado! uivou o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.

Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:

—Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão borrachos?... Pois tu, Gonçalo...

Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:

—Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você defende o Cavalleiro por amizade, não por dependencia... Mas que quer, homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei, é por contagio da besta, orneio, atiro coice!

O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte á sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho era uma flôr, mas picava...» Depois, aproveitando a emoção submissa de Gonçalo, recomeçou a glorificação do Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito, aquelle modo impertigado... Mas que coração!—E o Gonçalinho devia considerar...

O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:

—Escute você, oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima, á ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina, até o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Por que você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha raciocinios, não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá dentro o pepino. Você não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente de bem o adora: mas você não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como você para o pepino. Não posso! Não ha molhos, nem razões, que m'o disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora ouça...

Então Titó, que bocejava, interveio, já farto:

—Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse de Cavalleiro, e valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a madrugada, que vergonha!

O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da manhã, com commissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o acompanhava sempre pela estrada até ao portão da Torre), João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de não sei que philosopho»:

—«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má politica...» Creio que é d'Aristoteles!

E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados harpejos:

—Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, por que em Politica hoje é branco, ámanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!

O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira—quando injuriava o Sr. André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que detestava era o homem—o falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos senhoriaes...—E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de Valverde, em quanto no violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella historia que tanto enchera a sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino—a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu, André Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já o tratava como um amigo serio. Durante as férias, como a mãe lhe dera um cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde, lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas ambições politicas, as suas idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flôr dos seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a «flôr da Torre». Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa Miss Rhodes—que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo André Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de André com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na Torre:—e o velho procurador Rebello já preparára, com esforço e resmungando, um conto de reis para o enxoval da «menina». O pae de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e em dividas, amanhecendo só na Torre aos Domingos, approvava esta collocação de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, creava na sua vida, já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem representar como elle uma familia de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos Chefes Historicos, já filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a sua carreira andava marcada com segurança e brilho na Politica e na Administração. E emfim Maria da Graça amava enlevadamente aquelles reluzentes bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos pés, em que se podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre em «Marte cheio de força amando Psyché cheia de graça.» E mesmo os criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!» Só a Snr.a D. Joaquina Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, só por «desconfiar da pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...» Felizmente, quando André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo recebeu a chave do caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo, companheiro de casa do Cavalleiro na rua de S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga da batina. Logo em Santa Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da pêca opposição da mamã, pediria a «Flôr da Torre» depois do Acto de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para Lisboa—por que se preparavam Eleições em Outubro, e elle recebera do tio Reis Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de «ser deputado» por Bragança.

E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra, onde o negro langor dos seus olhos humidos amollecia corações; depois n'uma jornada quasi triumphal a Bragança com foguetes e «vivas ao sobrinho do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro Bragança «confiou ao dr. André Cavalleiro (como escreveu o Echo de Traz-os-Montes) o direito de a representar em Côrtes com os seus brilhantes conhecimentos litterarios e a sua formosissima presença de orador...» Recolheu então a Corinde; mas nas suas visitas á Torre, onde o pae de Gonçalo convalescia d'uma febre gastrica que exacerbára a sua antiga diabetes, André já não arrastava sofregamente Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da quinta, permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre Politica com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona, embrulhado n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a Gonçalo, já se carpia de não correrem tão doces nem tão intimas as visitas do André á Torre, «occupado, como andava sempre agora, a estudar para deputado...» Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma linda egua que comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e dous caixotes de livros. E a boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um heróe, só reclamaria Psyché depois d'um nobre feito, uma estreia nas Camaras, «n'um discurso lindo, todo flôres...» Quando Gonçalo, nas férias de Paschoa, appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e descorada. As cartas do seu André, que se estreára «e n'um discurso lindo, todo flôres...», eram cada semana mais curtas, mais calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara, contava em tres linhas mal rabiscadas «que tivera muito que trabalhar em commissões, que o tempo se pozera lindo, que n'essa noite era o baile dos condes de Villaverde, e que elle continuava com muitas saudades o seu fiel André...» Gonçalo Mendes Ramires, logo n'essa tarde, desabafou com o pae, que definhava na sua poltrona:

—Eu acho que o André se está portando muito mal com a Gracinha... O papá não lhe parece?

Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a mão descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel d'armas.

Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou—essa sessão que tanto interessára Gracinha, anciosa «que elles accabassem de discutir e tivessem férias.» E quasi immediatamente ella em Santa Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes que «o talentoso deputado André Cavalleiro partira para Italia e França n'uma longa viagem de recreio e d'estudo.» E nem uma carta á sua escolhida, quasi sua noiva!... Era um ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo XII, lançaria todos os Ramires, com homens de cavallo e peonagem, sobre o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela chamma, cada servo pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado e mortal, murmurou simplesmente: «Que traste!» Elle em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar, desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa Ireneia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha, durante semanas, tão desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob as olaias do Mirante.

E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas da irmã, um rancor invadiu Gonçalo, tão redivivo que atirou para o lado, para sobre as sebes da valla, uma bengallada, como se fossem ás costas do Cavalleiro!—Caminhavam então junto á ponte da Portella, onde os campos se alargam, e da estrada se avista Villa-Clara, que a lua branqueava toda, desde o convento de Santa Thereza, rente ao Chafariz, até ao muro novo do cemiterio, no alto, com os seus finos cyprestes. Para o fundo do valle, clara tambem no luar, era a egrejinha de Craquêde, Santa Maria de Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que ainda jaziam, nos seus rudes tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Affonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio e suavidade saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:

Baldadas são tuas queixas,

Escusados são teus ais,

Que é como se eu morto fôra.

E não me verás nunca mais!...

E Gonçalo retomára as suas recordações, repassava tristezas que depois cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto, sem soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os olhos cravados na velha Torre, murmurando para o padre Soeiro:—«Quantos Ramires verá ella ainda, n'esta casa, e á sua sombra?...» Todas essas ferias as consumiu Gonçalo no escuro cartorio, desajudado (por que o procurador, o bom Rebello, tambem Deus o chamára), revolvendo papeis, apurando o estado da casa—reduzida aos dois contos e trezentos mil reis que rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e as duas quintas historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no Terreiro da Louça um immenso casarão cheio de retratos d'avoengos e de arvores de costado, onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um camapé de damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de Cavallaria, o Amadis, Leandro o Bello, Tristão e Brancaflôr, as Chronicas do Imperador Clarimundo... Foi ahi que José Barrôlo (senhor d'uma das mais ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quasi religiosa—estranha n'aquelle moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma maçã, e tão escasso d'espirito que os amigos lhe chamavam «o José Bacôco». O bom Barrolo residira sempre em Amarante com a mãe, não conhecia o trahido romance da «Flôr da Torre»—que nunca se espalhára para além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido e romanesco patrocinio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se apressaram, em tres mezes, depois d'uma carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires jurando—«que a affeição pura que sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras qualidades respeitaveis, era tão grande que nem achava no Diccionario termos para a explicar...» Houve uma bôda luxuosa: e os noivos (por desejo de Gracinha, para se não affastar da querida Torre), depois d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu ninho» em Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua das Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco herdára, com largas terras, do seu tio Melchior, Deão da Sé. Dois annos correram, mansos e sem historia. E Gonçalo Mendes Ramires passava justamente em Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa quando André Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto, tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philarmonicas, o Governo civil e o Paço do Bispo illuminados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no café da Arcada e na Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi intimamente, admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho Politico. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava soberanamente o bom Bacôco, logo o intimou a não visitar o Sr. Governador Civil, a não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever d'alliança, os rancores que existiam entre Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo cedeu, submisso, espantado, sem comprehender. Depois uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou a Gracinha «a exquisitice de Gonçalo»:

—E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!... Ora, vê tu! Um bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer um ranchinho tão agradavel!...

Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparavel infamia! O impertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André Cavalleiro, recomeçára com soberba impudencia a cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadellas fundas, carregadas de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquella grande fidalga, aquella Ramires, que desdenhára como esposa!

Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou no portão da Torre, nem na portinha verde, á esquina da casa, sobre tres degráos. E seguia, rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacára com os dedos mudos nos bordões do violão, o avisou, rindo:

—Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de corrida para os Bravaes?

Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:

—Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha! Com lua, depois de ceia, não ha companheiro mais poetico... Realmente você é o derradeiro trovador portuguez!

Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a mão na botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante das Auctoridades, constituia uma gloria, quasi uma coroação, e sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os bordões rijamente:

—Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr. Doutor!

Era a sua famosa cantiga, o Fado dos Ramires, rosario de heroicas Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre—que elle desde mezes apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre Soeiro, capellão e archivista da Torre.

Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da estrada, com um «dlindlon» ardente, fitára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias, o negro miradoiro, no luminoso silencio do ceu de verão. Depois para ella e para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia d'um fado de Coimbra, rico em ais:

Quem te v'rá sem que estremeça,

Torre de Santa Ireneia,

Assim tão negra e callada,

Por noites de lua cheia...

Ai! Assim callada, tão negra,

Torre de Santa Ireneia!

Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante, ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos, pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo desapparecia—com folgazãs desculpas ao Trovador «por cerrar a portinha do Castello...»

Ai! ahi estás, forte e soberba,

Com uma historia em cada ameia,

Torre mais velha que o reino,

Torre de Santa Ireneia!...

E começára a quadra a Muncio Ramires, Dente de Lobo, quando em cima uma sala, aberta á frescura da noite, se allumiou—e o Fidalgo da Torre, com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a serenada. Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do Videirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante dos Barões que o acclamavam com as espadas nuas, recusando o Ducado de Galiléa e o senhorio das Terras d'Além-Jordão.—Que não podia, em verdade, acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa...

Quem já tinha em Portugal

Terras de Santa Ireneia!

—Boa piada! murmurou Gonçalo.

Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa semana—a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa Aldonça, trazida do mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que morrera, aos hombros de quatro Reis!

—Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é famosa, oh Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!

Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante da Pharmacia lançou outra, já antiga—a d'aquelle terrivel Lopo Ramires que, morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde, montára um ginete morto, e toda a noite galopára atravez da Hespanha para se bater nas Navas de Tolosa! Pigarreou—e, mais chorosamente, atacou a do Descabeçado:

Lá passa a negra figura...

Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos—despegou da varanda, deteve a Chronica immensa:

—Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo. Appareça tambem, com o violão e cantiga nova: mas menos sinistra... Bona sera! Que linda noite!

Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala—a «sala velha,» toda revestida d'esses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que elle desde pequeno chamava as carantonhas dos vovós. E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:

Ai! lá na grande batalha...

El-Rei Dom Sebastião...

O mais moço dos Ramires

Que era pagem do guião...

Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras, começou para elle uma noite revôlta e pavorosa. André Cavalleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cótas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho máo, arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Affonso tão rijo murro lhe despedia aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e d'armas. E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro Reis!...—Por fim, moido, sem socêgo, já com a madrugada clareando nas fendas das janellas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro repellão aos lençoes, saltou ao soalho, abrio a vidraça—e respirou deliciosamente o silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que sêde! uma sêde desesperada que lhe encortiçava os labios! Recordou então o famoso fruit salt que lhe recommendára o Dr. Mattos,—arrebatou o frasco, correu á sala de jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua da Bica-Velha, que esvasiou d'um trago, na fervura picante.

—Ah! que consolo, que rico consolo!...

Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de coqueiros susurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio dia, inquieto com «aquelle tardar do Sr. Doutor.»

—É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal fruit salt, e estou optimo, homem!... Estou optimissimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma chavena de chá verde, muito forte... Leva tambem torradas.

E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá, Gonçalo relia junto da varanda essa derradeira linha da Novella, tão rabiscada e molle, em que «os largos raios da lua se estiravam pela larga sala d'armas...» De repente, n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu detalhes expressivos para aquella noite de Castello e de verão—as pontas das lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha, e o coaxar triste das rans nas bordas lodosas dos fossos...

—Bons traços!

Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do Bardo o Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou esse lance do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala d'armas de Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço e seu primo D. Garcia Viegas, o Sabedor, de aprestos de guerra... Guerra! Porque? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o arvoredo, almogavares mouros? Não! Mas desgraçadamente, «n'aquella terra já remida e christã, em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças portuguezas!...» Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento ás paginas marcadas n'um tomo da Historia d'Herculano, esboçou com segurança a Epocha da sua Novella—que abria entre as discordias de Affonso II e de seus irmãos por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho I. N'esse começo do Capitulo já os Infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam por França e Leão. Já com elles abandonára o Reino o forte primo dos Ramires, Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa dos Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e de Esgueira, as senhoras Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o senhorio real sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que tão copiosamente lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer no Alcaçar de Coimbra, o senhor D. Sancho supplicára a Tructesindo Mendes Ramires, seu collaço e Alferes-Mór, por elle armado cavalleiro em Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada entre todas, a infanta D. Sancha, senhora de Aveyras. Assim o jurára o leal Rico-Homem junto do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do Hospital sustentando a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o vencedor de Silves... Mas eis que rompe a féra contenda entre Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de Rei—e as Infantas, orgulhosas, impellidas á resistencia pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem D. Sancho legára tão vastos pedaços do Reino! Immediatamente Alemquer e os arredores d'outros castellos são devastados pela hoste real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. Thereza appellam para El-rei de Leão, que entra com seu filho D. Fernando por terras de Portugal a soccorrer as «Donas opprimidas.»—E n'este lance o tio Duarte, no seu Castello de Santa Ireneia, interpellava com soberbo garbo o Alferes-Mór de Sancho I:

Que farás tu, mais velho dos Ramires?

Se ao pendão leonez juntas o teu

Trahes o preito que deves ao rei vivo!

Mas se as Infantas deixas indefezas

Trahes a jura que déstes ao rei morto!...

Esta duvida, porém, não angustiára a alma d'esse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rijamente modelava. N'essa noite, apenas recebera pelo irmão do Alcaide d'Aveyras, disfarçado em beguino, um afflicto recado da senhora D. Sancha—ordenava a seu filho Lourenço que, ao primeiro arreból, com quinze lanças, cincoenta homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros, corresse sobre Monte-mór. Elle no emtanto daria alarido—e em dous dias entraria a campo com os parentes de solar, um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de frecheiros, para se juntar a seu primo, o Souzão, que na vanguarda dos leonezes descia d'Alva-do-Douro.

Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o Açor negro em campo escarlate, se plantára deante das barreiras gateadas: e ao lado, no chão, amarrado á haste por uma tira de couro, reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo caldeirão polido. Por todo o Castello se apressavam os serviçaes, despendurando as cervilheiras, arrastando com fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro. Nos pateos os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia, arrolára as rações de vianda para os dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos, abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cabeços, ratatam! ratatam! convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da mesnada dos Ramires.

No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com a boa nova de prestes soccorros, transpunha ligeiramente a levadiça da carcova... E aqui, para alegrar tão sombrias vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastára uma sorte galante:

Á moça, que na fonte enchia a bilha,

O frade rouba um beijo e diz Amen!

Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a pompa d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a rama da penna—quando a porta da livraria rangeu.

—O correio...

Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo—repellindo a outra em que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E immediatamente, com uma palmada na mesa:

—Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?

O Bento esperava com a mão no fecho da porta.

—É que não tardam os annos da mana Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter um presentinho engraçado... Que secca, hein?

Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa, á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa por tres dias, para tratar do emprego do sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho de sêda branca com rendas...

—O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E então o Joaquim que não selle a egoa; já não vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Ha tres mezes!... Emfim, por dous dias mais a bella D. Anna não envelhece; e o velho Lucena tambem não morre.

E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazão, retomou a penna, arredondou o seu final com elegante harmonia:

«A moça, furiosa, gritou: Fu! Fu! villão! E o beguino, assobiando, aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias, emquanto que por todo o fresco valle, até Santa Maria de Craquêde, os atambores mouriscos, tararam! ratamtam! convocavam á mesnada dos Ramires, na doçura da tarde...»

III

Índice de conteúdo

Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de repicar a sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da livraria, avisando o snr. Doutor «que o almocinho, assim á espera, certamente se estragava.» Mas de sobre a tira d'almaço Gonçalo rosnava «já vou!»—sem despegar a penna, que corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almoço, o seu Capitulo I.

Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse copioso Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de Santa Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse uma ração nos alforges, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera, já movera para fóra do Castello o troço de Lourenço Ramires, em soccorro de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e lanças em torno ao pendão tendido.

E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e Tructesindo Ramires descera á sala terrea da Alcaçova para ceiar—quando fóra, deante da carcova, com tres toques fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que o villico tomasse permissão do Senhor, o alçapão da levadiça rangeu nas correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Theresa—aquella que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo pisar mais leve que um vôo, os Ramires chamavam a Garça Real. O Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para acolher, n'um abraço, o genro amado—«membrudo cavalleiro, com os cabellos ruivos, a alvissima pelle da raça germanica dos visigodos...» E, de mãos enlaçadas, ambos penetraram n'essa sala de abobada, allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados aos muros.

Ao meio pousava a massiça meza de carvalho, rodeada de escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a cadeira senhorial com o Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas suspensa, pelo cinturão tauxeado de prata, a espada de Tructesindo. Por traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o d'Ultramar. Rente a um esteio da chaminé, um falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois alões enormes dormiam tambem, com o focinho nas patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gonçalo adornára a soturna sala Affonsina com alfaias tiradas do Tio Duarte, de Walter Scott, de narrativas do Panorama. Mas que esforço!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell, desmanchára toda essa linha tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se não inventára em tempos de seu avô Tructesindo, e que ao monge lettrado apenas competia «um pergaminho de amarellada escripta...»

E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava Mendo Paes, que, na confiança de parente e amigo, jornadeára sem homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de lã cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de pó correra Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos preitos jurados, que se não bandeasse com os de Leão e com as senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho todos os fundamentos invocados contra ellas pelos doutos Notarios da Curia—as resoluções do Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho fóro dos Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras Infantas seu real irmão para assim chamarem hostes Leonezas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da doação de D. Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de chão portuguez, baldio ou murado, jazesse fóra de seu senhorio real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não entregára elle á senhora D. Sancha oito mil morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã fôra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho da casa dos Souzas, Gonçalo Mendes, não se encontrára ao lado dos cavalleiros da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das Infantas, como moiro, talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E já pelos cerros d'Além-Douro apparecera o pendão renegado das treze arruellas—e por traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e de armas christãs, opprimindo o Reino—quando ainda Moabitas e Agarenos corriam á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Ireneia, que tão rijamente ajudára a fazer o Reino, não o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os pedaços melhores para monges e para donas rebeldes!—Assim, com arremessados passos, exclamára Mendo Paes, tão acalorado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou. Depois, limpando a bocca ás costas da mão tremula:

—Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. Sancha e as senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pae e seu Rei!

O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sarças em manhã de geada:

—Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o dos meus para que justiça logre quem justiça tem.

Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:

—Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens vertido por más desfórras... Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem lanças!

Tructesindo ergueu a vasta face—com um riso tão soberbo e claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o falcão esticou a aza lenta:

—Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor Mordomo-mór da Curia, tão de feição e certa assim m'a trazeis para me intimidar?

—Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que n'esta lide não sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejaes bem avisado.

O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:

—Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E vós, Mendo Paes, deixai receios.

—Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a caminho.

E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa—Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cinturão da espada:

—Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.

—Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!

Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a penna, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:

—Caramba! Aqui ha talento!

Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magnificas dos seus fortes avós! Numerou as tiras—fechou na gaveta á chave o volume do Bardo. Depois á janella, com o collete desabotoado, ainda lançou o brado genial n'um grave e rouco tom, como o lançaria Tructesindo:—...«de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!...» E sentia n'elle realmente toda a alma de um Ramires, como elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais presos á sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens, contentamento e vida! O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria: —É o Pereira... Está lá em baixo no pateo o Pereira que quer fallar ao Sr. Doutor. Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim repuxado d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua raça: —Que massada!... O Pereira... Que Pereira? —O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro. Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brazileiro por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no Pará. Comprára então terras, trazia arrendada a Cortiga, a fallada propriedade dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de panno fino, e dispunha de sessenta votos na Freguezia. —Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto almóço... E põe outro talher. A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião, (o traductor de Valerius Flaccus) dous formosos pannos d'Arraz representando a Expedição dos Argonautas. Louças da India e do Japão, desirmanadas e preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E sobre o marmore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio-muro por finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto, para as preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de damasco. Quando lá entrou, com os jornaes da manhã que não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de panninho escarlate, considerando pensativamente a quinta que, d'alli, se abrangia até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dous enormes collarinhos presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado á Cidade e ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a mão ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem embaraço, a cadeira que elle lhe empurrára para a mesa—onde dominavam, com os seus ricos lavores duas altas enfusas de crystal antigo, uma cheia d'açucenas e a outra de vinho verde. —Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? Não o vejo desde Abril! —É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a grande trovoada, na vespera da eleição! confirmou o Pereira affagando o cabo do guarda-sol que conservára entre os joelhos. Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço, repicou a campainha de prata. Depois rindo: —E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios vão para o mar! O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os máos dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, serviçal... E então, quando lhe calhava como em Abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Christo que voltasse á terra e se propuzesse por Villa-Clara desalojava o patrão da Feitosa! O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente, entrava com um prato d'ovos estrellados, quando o Fidalgo, que desdobrára o guardanapo, o amarrotou, arremessou comnojo: —Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. Não me importa guardanapo rôto, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema! E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira: —O quê! Você não almoça, Pereira?... Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as sopas com o genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho. —Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu ao netinho... Mas então ao menos um copo de vinho verde. —Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho. Gonçalo farejára, arredára os ovos. E reclamou o «jantar da familia», sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que elle desde creança adorava e chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha: —Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz honra ao circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel, obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo! O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas cabelludas o lenço vermelho,enrolado em bóla: —Sabe as cousas, pensa com acêrto... —Sim! mas pensamento e acêrto não lhe sahem de dentro do craneo! Depois está muito velho, Pereira! Que edade terá elle? Sessenta? —Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O avô durou até aos cem annos. E ainda o conheci na loja... —Como, na loja? Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estranhou que o Fidalgo não soubesse a historia do Sanches Lucena. Pois o avô, o Manoel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem com uma moça muito vistosa, muito farfalhuda... —Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches Lucena. Gente que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o circulo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso que seja tambem homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questões, nas crises, se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo, em Politica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros a chiar. O Pereira abanou a cabeça, com tristeza: —Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte! Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma caçoila nova, com raminhos de hortelã. E então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio seculo de trabalho na terra tornára negras e duras como raizes—e declarou que se atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas horas do almocinho, porque n'essa semana começava um córte de madeiras para os lados de Sandim, e desejava, antes que surdissem outros arranjos, conversar com S. Ex.a sobre o arrendamento da Torre... Gonçalo reteve a colhér, num pasmo risonho: —Você queria arrendar a Torre, Pereira? —Queria conversar com V. Ex.a. Como o Relho está despedido... —Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana. O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande pena... Elle só no sabbado s'inteirára da desavença com o Relho. E, se o Fidalgo não resalvava o segredo, por quanto ficára o arrendamento? —Não resalvo, não, homem! Novecentos e cincoenta mil réis. O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra trocada... Mas era pena, porque elle gostava da propriedade; já pelo S. João pensára em abeirar o Fidalgo; e, apezar dos tempos correrem escassos, não andaria longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo um conto cento e cincoenta! Gonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção que lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de renda—e a excellencia de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas as cercanias! —Isso é sério, oh Pereira? O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão: —Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar com V. Ex.a! Proposta a valer, escriptura a fazer... Mas se o arrendamento está tratado... Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na meza para se erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato: —Escute, homem!... Eu, não contei por miudo o caso do Casco. Você comprehende, sabe como essas cousas passam... O Casco veiu, conversamos; eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou ahi pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquellas rabulices do Casco!... Por fim, uma tarde, lá gemeu, lá acceitou os novecentos e cincoenta mil reis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de apparecer para combinar, tratar da escriptura. Não o avistei mais, ha quasi duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contracto firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem! Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Elle, em negocios, gostava de lisura. Sempre se entendêra bem com o Casco. Nem por um condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que desejava as cousas claras, para não surdir desgosto rijo. Não se lavrára escriptura, bem! Mas ficára, ou não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco? Gonçalo Mendes Ramires, que findára apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se calmar, fitou o lavrador, quasi severamente: —Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre? O Pereira baixou a cabeça. Tambem era verdade!... Pois, n'esse caso, elle abria a sua tenção, claramente. E, como conhecia a propriedade, e apurára o seu calculo—offerecia ao Fidalgo um conto cento e cincoenta mil réis, sem porco. Mas não dava para a familia nem leite, nem hortaliça, nem fructa. O Fidalgo, homem só, pouco se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de gentes e d'adherentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu principio. E de resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados, bastava o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo luziria... Emquanto ás outras condições, acceitava as do antigo arrendamento. E escriptura assignada para a outra semana, no sabbado... Estava feito? Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira: —Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada! —E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no immenso guarda-sol para se erguer. Então no sabbado, em Oliveira, para a escriptura... Assigna V. Ex.a ou o Sr. padre Soeiro? Mas o fidalgo calculava: —Não, homem, não póde ser! No sabbado, com effeito, estou em Oliveira, mas são os annos da mana Maria da Graça... O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima: —Ah! e como vae a snr.a D. Maria da Graça? Ha que edades a não vejo! Desde o anno passado, na procissão de Passos, em Oliveira... Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José Barrôlo? Pessoa excellente tambem, a valer, o Sr. José Barrôlo... E que terra a d'elle, a Ribeirinha! A melhor propriedade d'estas vinte leguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavalleiro que lhe está pegada, a Biscaia, não se lhe compára—é como cardo ao pé de couve. O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo: —Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem alma! O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o Cavalleiro continuavam chegados e amigos... Não em Politica! Mas particularmente, como cavalheiros... —O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que elle nem é cavalheiro nem politico. É apenas cavallo, e resabiado. O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo: —Então está entendido, no sabbado, na cidade. E, se não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo tabellião Guedes, e fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua mana... —Sempre. Appareça você ás trez horas. Lá conversamos com o padre Soeiro. —Tambem ha que edades não encontro o Sr. padre Soeiro! —Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em Oliveira, com a mana Graça, que é a menina dos seus encantos... Então nem um calice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sabbado. Não esqueça o beijinho para o neto. —Cá me vae no coração, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que V. Ex.a se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do paesinho de V. Ex.a, que Deus haja, conheço bem a Torre!... E sempre m'esperancei de trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar! Durante o café, esquecido dos jornaes, Gonçalo gozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre tratada pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra que transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha de seára, vinha e horta!... Além d'isso, homem abastado, capaz de um adeantamento. E eis ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse affinco do Pereira em a arrendar, elle tão apertado, tão seguro... Quasi se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos. Emfim, a manhã fôra fecunda! E, realmente, nenhum accordo firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas s'esboçára uma conversa, sobre um arrendamento possivel da Torre, a debater depois miudamente, n'uma base nova de novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez se elle, por escrupuloso respeito d'essa conversa esboçada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina—dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada anno deperecendo, mais cançada e chupada!... —Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco para as cinco e meia. Sempre vou á Feitosa... Hoje é o dia! Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente releu o final magnifico: «De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e commigo!»—Ah! como alli gritava a alma inteira do velho portuguez, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira d'almasso entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas... Quantas manhãs, ás frescas horas d'alva, o velho Tructesindo se encostára áquellas ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-Homem. E o Pereira, n'esse tempo colono ou servo, só abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas não lhe pagava um conto cento e cincoenta mil réis de sonora moeda do Reino. Tambem, que diabo, o vôvô Tructesindo não precisava... Quando os saccos rareavam nas arcas, e os acostados rosnavam por tardança de soldo, o leal Rico-Homem, para se prover, tinha as tulhas e as adégas dos Concelhos mal defendidos—ou então, n'uma volta de estrada, o ovençal voltando de recolher as rendas reaes, o bufarinheiro genovez com os machos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contára o papá) ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos pilares, e na abobada a argola d'onde pendia a polé, e no lagedo os buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida cova, ovençal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de fôro uivavam sob o açoite ou no torniquete, até largarem agonizando o derradeiro morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada tão meigamente ao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafára!... E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra o tronco de uma faia. É que descortinára o gato da Rosa cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.

Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a egua ao portão da Feitosa—um velho todo esfarrapado, com longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas de chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sr.a D. Anna andavam por fóra, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E entregando um cartão ao moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um S e um L entrelaçados, sob uma corôa de conde:

—O Sr. Sanches Lucena, bem?

O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...

—O que? Esteve doente?

—Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito agoniado...

—Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!

Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com um tostão. E, interessado por aquellas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:

—Vocemecê pede esmola por estes sitios?

O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do sol, mas risonhos, quasi contentes:

—Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, lá me fazem muito bem.

—Então quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?

Se conhecia! E a Snr.a Rosa...

—Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você assim, com essas calças, não anda decente.

O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando com gosto os sordidos farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que galhos de inverno:

—Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre me tira o retrato na machina. Ainda na semana passada... Até com uns pedaços de grilhões dependurados do pulso, e uma espada erguida na mão... Parece que para mostrar ao Governo.

Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o Gouvêa a partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar a «Cruz das Almas», onde a estrada de Corinde, tão linda, com as suas filas d'alamos, crusa a ladeira de Valverde, parou—notando ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola d'açougue, e uma mulher de lenço escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e dous lavradores de enxada ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou—a mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro avançando para a «Cruz das Almas» a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã atravez das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:

—Que foi?... Vocemecê que tem?

O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:

—Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o que hade ser? Desgraças d'esta vida!

E, gemendo, contou a sua historia.—Desde mezes padecia d'uma chaga n'um tornozello, que não seccára, nem com emplastos, nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco, para ajudar um compadre tambem doente com maleitas—e, zás, desaba um pedregulho, que tópa na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... Até rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o lenço.

—Mas assim não póde andar, homem! D'onde é vocemecê?

—De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta. Até lá, sempre me hei-de arrastar.

—E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latagões...

Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, arrancou um grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga do burro promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle comprára pela Paschoa—e que, por desgraça, tambem mancava!...

Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:

—Bem! Então, egua por egua, já vocemecê tem aqui esta...

O Sôlha embasbacou para Gonçalo:

—Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V. Ex.a a pé?

Gonçalo ria:

—Homem, com essas discussões de «eu a pé» e «você a cavallo», e «faz favôr» e «não senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!

O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:

—Isso é que não, meu senhor, isso é que não! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a chaga em bolor!

Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:

—Monte, que mando eu! Vocemecê é um lavrador de enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!

E o Sôlha, logo submisso ante aquella força deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua, enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de sangue.

Depois, quando elle repousou no sellim com um ah! consolado:

—Então que tal?

O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratidão e no assombro d'aquella caridade:

—Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!

Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e plantações de vinha. Depois, como o Manoel Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da Cortiga. Já sem embaraço, direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o Sôlha esquecia a chaga, a dôr que adormentára. E á estribeira do Sôlha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.

Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos sitios decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado terraço, d'onde se abrange todo o valle de Corinde, tão rico em casaes, em arvoredos, em seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei D. João V curava males d'entranhas—e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um tanque de marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. É um suave retiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.

Antes porém de desembocar na Bica-Santa, e perto do logar do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:—e, ahi, de repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da pericia do Sôlha, a deitar a mão á caimba do freio. Fôra o encontro inesperado d'uma carruagem—uma caleche forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra a môsca, e na almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla escarlate e chapéo de tópe amarello. E Gonçalo mantinha ainda a egua pelo freio, como arrieiro serviçal em trilho perigoso—quando avistou, sentado n'um dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, esfregava com um mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia, apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra mão, sem luva, na cinta vergada e fina.

A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre, puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle repousado e dormente recanto da Bica. Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um arremesso de curiosidade que o levantára, com o pescoço esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da senhora da Feitosa, retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa por um cordão d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o Sôlha.

Mas já, com o seu desembaraço elegante, Gonçalo, n'um relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a mão espantada do Sanches Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! Pois vinha justamente da Feitosa! E ahi soubera com desgosto, por um moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas ultimas semanas andára doente... E, então como estava? como estava?—Oh! a physionomia era excellente!

—Pois não é verdade, Sr.a D. Anna? O aspecto é excellente!

Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha vermelha, ella volveu n'uma voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:

—O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...

—Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.a, Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos o chale-manta.

E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada, mais amarella que um cirio:

—Mas, com perdão de V. Ex.a! como é que V. Ex.a anda por aqui, pela estrada de Corinde, n'este estado, a pé, trazendo á rédea um lavrador de enxada?...

Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados, Gonçalo contou o desastre do bom homem, que encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada...

—De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V. Ex.a me permitte, minha senhora, é necessario que eu combine com elle o resto da jornada...

Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os senhores da Feitosa, com o chapeu na mão, encolhido sobre o sellim, como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a Finta—e lhe mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa, onde elle se demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou, saudando desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recomeçou:

—Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonçalo Mendes Ramires a trazer á rédea, pela estrada de Corinde, um cavador d'enxada! É a repetição do Bom Samaritano... Mas para melhor!

Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena.—Oh! o Bom Samaritano não merecera uma pagina tão amavel no Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente: decerto mostrára virtudes mais bellas...—E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa, pelas arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:

—Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...

Mas Sanches Lucena despediu um grito:

—Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.a traz sangue na mão!

O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca resaltavam duas manchas arroxeadas:

—Não é sangue meu! foi naturalmente quando o Sôlha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...

Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do banco de pedra. E continuando o sorriso:

—Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.a, minha senhora, desde o baile do barão das Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me recordo que V. Ex.a estava vestida esplendidamente de Catharina da Russia...

E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava:—«Formosa creatura! mas ordinaria! e que voz!...» D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:

—O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não fui de Russa, fui de Imperatriz...

—Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto! com um luxo!

Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:

—Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.a D. Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso... E desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.a em intimidade. Apenas de longe, na missa...

De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada, creadagem e cocheira—porque, ou culpa do ar ou culpa da agua, não se dava bem na Cidade.

Gonçalo acalorou mais o seu interesse:

—Mas então, realmente, V. Ex.a o que tem tido?

Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, não se entendiam. Uns attribuiam ao estomago—outros attribuiam ao coração. Portanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E soffria crises—más crises... Emfim, com a graça de Deus, e regimen, e leite, e descanço, ainda esperava arrastar uns annos.

—Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.a não pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...

Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa. Melhor mesmo que na Feitosa! Depois, gostava d'aquella distracção das Camaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...

—Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.a decerto conhece. Elle é parente de V. Ex.a... O D. João da Pedrosa.

Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:

—Sim, o D. João, decerto...

E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de saphira:

—E não sómente o D. João... Outro dos nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.a, e chegado. Muitas vezes temos fallado de V. Ex.a, e da sua casa. Que elle pertence tambem á primeira nobreza... É o Arronches Manrique.

—Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma convicção que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a força viçosa e a perfeição.

A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome sonóro. Mas não hesitou:

—Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.a, Sr.a D. Anna...

Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de parentescos fidalgos:

—V. Ex.a, naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.a é primo do Duque de Lourençal... O Duarte Lourençal! Elle não usa o titulo, por Miguelismo, ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de Lourençal. É quem representa a casa de Lourençal.

Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.

—Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos primos. E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de costado!... De facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, não só pelo lado d'Adão, mas pelos Godos... E V. Ex.a, Sr.a D. Anna, prefere a estada em Lisboa?

Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o trincára:

—Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Ex.a...

Ella saudou, descendo as longas pestanas:

—O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o cheiro.

Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, aquelles horrendos «cavalheiro, o cavalheiro!...» Mas pensava:—«que linda pelle! que bella creatura!...» E Sanches Lucena, inexoravel, estendera o dedo agudo:

—Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte Lourençal, não tenho essa subida honra por ora, mas seu irmão, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.a decerto sabe... E depois, que talento... Que talento, no cornetim!

—Ah!

—O quê! V. Ex.a não ouviu seu primo, o Sr. D. Philippe Lourençal, tocar cornetim?

E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes pequeninos:

—Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu tambem... Mas, como V. Ex.a comprehende, qui na aldéa, com a falta de recursos...

Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára logo, n'um sincero interesse:

—Então, queria que V. Ex.a ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente sublime no violão, o Videirinha!...

Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:

—É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O José Videira, ajudante da Pharmacia...

Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:

—Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!

Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha passava as ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da casa. Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no violão, um genio!

—Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o Fado dos Ramires. A musica é com effeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os versos são d'elle, umas quadras engraçadas sobre cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo e com o Titó...

E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:

—O Titó?

O Fidalgo ria:

—É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao Antonio Villalobos.

Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como se alguem muito querido apparecesse na estrada:

—O Antonio Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz o favor de apparecer pela Feitosa...

E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!

—Ah V. Ex.a conhece...

Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, debruçada, recolhia a luva e a sombrinha—lembrou ao marido o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella hora do valle aquecido:

—Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem á parelha, assim parada, ha tanto tempo.

Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira um espesso lenço de sêda branca para abafar o pescoço. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cançado ao trintanario para apanhar o chale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era, nos arredores da Feitosa, o seu passeio preferido. Não só pela belleza do sitio, já cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;—mas porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado no banco, avistava n'uma largueza terras suas:

—Olhe V. Ex.a... Para além d'aquelle souto, até á chã e ao comoro onde está a casota amarella e por traz o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda é meu... Acolá, do renque d'álamos para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá, passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!

O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta, cresciam por sobre o valle.—Além os pastos... Adeante os centeios... Depois o bravio...—Tudo d'elle! E, por traz da magra figura alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda subido até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D. Anna, esvelta, clara e sã como um marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa, affincava a luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo já—tudo d'ella!

—E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes Ramires...

—Meu?...

—De V. Ex.a, quero dizer, ligado á casa de V. Ex.a. Pois não reconhece?... Além, por traz do moinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquêde. São os tumulos dos seus antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes faço, e com gosto. Ainda ha um mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei impressionado! Aquelle bocado de claustro tão antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada á abobada por cima do tumulo do meio... É de commover! E achei muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.a, o ter sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...

Gonçalo engrolou um murmurio risonho—porque não se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas Sanches Lucena, agora, supplicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires. E era que S. Ex.a lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem á Torre... Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia! combinára com o homem da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.

—Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.a á Torre.

—Não, não, se V. Ex.a me permitte, eu espero... Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito horas na Torre, á minha espera para jantar, o Titó.

D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a ameaça renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a Gonçalo, com a descarnada mão sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe ficava celebre...

—Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde, levando á rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!

Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. Anna já se enterrára nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os braços: e a caleche apparatosa, com as manchas brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.

«Que massada!» exclamou Gonçalo. E não se consolava de tarde tão linda assim desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de «róda fina», e «tudo d'elle» por collina e valle! A mulher, explendida péça de carne, como filha de carniceiro,—mas sem migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...—E agora só desejava recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da Feitosa! o seu ásco por toda aquella Sancharia.

A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo filho do Sôlha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou á estrada, de chapeu na mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae chegára bem, pedia a Nosso Senhor lhe pagasse a caridade...

—Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá mandarei saber.

N'um pulo montára—galopava pelo facil atalho da Crassa. Mas, deante do portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete do Titó, annunciando que não podia jantar na Torre porque partia n'essa semana para Oliveira!

—Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D. Antonio?

O rapaz coçou pensativamente a cabeça:

—O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...

Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma immensa inveja:

—E onde é a festa, sabes?

—Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é cousa rija, porque o Snr. João Gouvêa encommendou lá ao patrão dous grandes pratos de bolos de bacalhau.

Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amargura de uma traição:

—Oh! que animaes!

E de repente ideou uma vingança alegre:

—Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. João Gouvêa não te esqueças de lhes dizer que sinto muito... Que eu tambem cá tinha á noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Snr.a D. Anna Lucena... Não te esqueças, hein?

Gonçalo galgou as escadas rindo da sua invenção. Mas, n'essa noite, ás nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo lampeão dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente, atravez da janella aberta, reparou n'um homem que, em baixo, rente da sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais attento, imaginou reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do Titó. Mas não, com certesa! o homem trasia jaqueta e carapuço de lã. Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada, logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras casas de Villa-Clara.

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0+
Дата выхода на Литрес:
15 января 2025
Объем:
401 стр. 2 иллюстрации
ISBN:
4064066407223
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