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EU SOU SEU BICHO PAPÃO
UM CONTO DO CONDADO DE SARDIS
Por
T. M. Bilderback
Traduzido por
Lucas Dias
Copyright © 2018 por T. M. Bilderback
Fotos da capa Copyright © Can Stock Photo / winnond
Design da capa por Christi L. Bilderback
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas reais é uma invenção da sua imaginação.
Todos os direitos reservados.
Sumário
Página do Título
Página dos Direitos Autorais
ÍNDICE
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
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ÍNDICE

Direitos Autorais
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Sobre o Autor
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Capítulo 1

A mulher corria.
O corredor da escola era longo, e cada passo de sua corrida ecoava alto. Sua respiração estava tensa e pesada.
Já corria há vários minutos, e a escola era enorme.
A mulher precisava encontrar um lugar para se esconder, e precisava encontrar rápido.
O laboratório de biologia estava logo à frente! Ela poderia se esconder lá!
Ela abriu a porta do laboratório, entrou e fechou-a silenciosamente. Correu os olhos pelo laboratório, mas não encontrou bancadas atrás das quais pudesse se esconder. Havia, no entanto, algumas escrivaninhas, projetadas para alunos trabalharem em duplas. Ela se escondeu atrás da que ficava mais ao fundo, em frente a um grande armário de duas portas.
À medida em que ela conseguiu acalmar sua respiração, seus batimentos cardíacos diminuíram para o ritmo normal. Tentou detectar algum barulho, mas não ouviu nada. Nenhum passo traía seu perseguidor... nenhuma respiração entregava sua posição.
A mulher soubera a respeito do Maníaco de Sardis da mesma forma que todas as outras informações circulavam naquela cidadezinha rural... por boatos e sussurros. Coisas como "A sogra da minha prima disse pra ela..." ou "Alguém na Mackie's estava falando que...". Fofocas sem sentido nenhum.
Ao menos foi o que ela pensou.
Agora ela entendia.
Eu o despistei!
Então a porta esquerda do armário se abriu, e dela saltou o perseguidor. Ele a agarrou pelos cabelos e a ergueu, fazendo-a ficar em pé. O perseguidor então puxou os cabelos dela para trás, virando seu rosto para cima, e fixou seus olhos nos dela. Seu coração parecia querer explodir em seu peito, e seu medo tinha vida própria.
Com uma voz gutural e grave, o assassino disse: "Eu sou seu bicho papão, querida, e você vai me enlouquecer!"
O Maníaco então começou a realizar seu trabalho.
***

O XERIFE DO CONDADO de Sardis, William "Billy" Napier, entrou com a viatura no estacionamento da Escola Técnica Nathaniel Sardis. Vários policiais municipais de Perry, o médico legista do condado e duas ambulâncias com paramédicos já haviam chegado. Para encontrar a cena do crime bastou seguir as luzes vermelhas e azuis.
No Condado de Sardis (Onde VOCÊ Faz a Mágica!), a sede é Perry. Das três “cidades” oficiais do condado de Sardis, Perry era a única que possuía uma força policial municipal. Por decreto dos comissários do condado, porém, o xerife era encarregado de aplicar a lei dentro de todo o condado, incluindo a cidade de Perry. Billy costumava permitir que a Polícia Municipal de Perry lidasse com a maioria das ocorrências dentro dos limites da cidade, mas um assassinato era grande demais para Godfrey Malcolm, o delegado alcoólatra.
Godfrey Malcolm era bêbado, incompetente e babaca. Costumava emitir mandados conflitantes e depois não se lembrava das ordens que havia dado. Outro costume era exigir aos presos da cidade que o chamassem de "Deus", o que seria demasiadamente pretensioso se ele não tivesse desenvolvido um ego grande o suficiente para fazer valer o apelido. Ter de dar satisfações a Napier irritava Malcolm. Napier era um policial honesto e tratava todos com justiça, inclusive os prisioneiros. Malcolm, pelo contrário, costumava passar a mão em qualquer dinheiro que os criminosos deixassem para trás, e muitas vezes pegava tudo que os detentos da cidade pudessem ter em suas carteiras, bolsos ou bolsas, depois os desafiava a contar para alguém. Havia rumores a respeito de espancamentos noturnos, mas nenhum preso jamais havia apresentado queixa ou admitido que Malcolm tivesse alguma relação com os fatos.
Alguns chegaram a contar... para Billy. Mas, como o dinheiro desaparece facilmente, Billy nunca conseguiu encontrar outra evidência além da palavra da pessoa que apresentou a queixa. Qualquer pedra que estivesse sobre o local em que Malcolm enterrara seu tesouro roubado ainda não se revelara ao mundo, mas Billy era um homem paciente. Como Malcolm era contratado pelo Município de Perry, Billy não podia demiti-lo, e isso o irritava, pois havia poucas coisas que ele odiava mais do que um policial desonesto, brutal e bêbado.
Billy não viu o carro de Malcolm estacionado no campus. Deve estar dormindo em algum lugar.
Billy saiu do carro e ajustou seu coldre. Fechou e trancou a porta da viatura. Todo cuidado é pouco. Esses ladrões malditos estão por toda parte.
Billy caminhou até a porta de entrada, onde dois policiais municipais faziam a guarda.
— Bom dia, rapazes — disse o xerife ao acenar para eles.
— Bom dia, Xerife — disseram os dois policiais, quase em uníssono.
Um dos policiais abriu a porta para Billy.
— Obrigado — disse o xerife ao adentrar o prédio.
Ao caminhar pelo longo corredor, Billy notou como seus passos faziam um barulho oco. Som esse que foi suprimido pelo das vozes conforme se aproximava da cena. Mais dois policiais estavam de guarda do lado de fora do laboratório de biologia.
— Bom dia, Xerife — disse um policial. O outro cumprimentou com a cabeça.
— Bom dia — respondeu Billy.
Ele interrompeu a caminhada logo antes da porta.
— Muito feio?
O policial que havia falado assentiu.
— Sim. Mais um picadinho do Maníaco de Sardis.
— Ei, parem com isso! Não quero que a imprensa comece a publicar apelidos, muito menos vindos da própria polícia! Estamos entendidos?
O policial calado assentiu, e o outro disse timidamente:
— Sim, xerife.
— Obrigado — disse Billy, e passou pela porta do laboratório de biologia.
A cena que vislumbrou era grotesca, mas de certa forma organizada. A vítima fora empalada, provavelmente pelo assassino, em uma série de ganchos de pendurar jalecos que estavam parafusados em uma parede. Suas mãos estavam estendidas e também espetadas nos ganchos, e seus pés haviam sido pregados à parede de tijolos com um pitão de escalada. Os pés da vítima estavam descalços e haviam sido pregados um por cima do outro, de modo que a cena se assemelhasse a uma crucificação. A cabeça da mulher estava presa com fita adesiva na parede, com uma tira que passava sobre a testa. Espinhos foram colados ou presos de alguma outra forma à fita adesiva, incrementando ainda mais a imagem da crucificação. Claramente foi do outro lado da sala que a sua garganta fora cortada, ao lado de um armário de duas portas, embora não houvesse tanto sangue em frente a ele. Parecia que, uma vez que a vítima havia sido empalada nos ganchos, seu abdome e peito foram abertos com um instrumento cortante. Seus órgãos foram dispostos em um padrão circular no chão, envolvidos por um coração moldado com o intestino. Escritas acima de sua cabeça, na parede branca, estavam as palavras: "Eu so seu bixo papao". As palavras com erros ortográficos foram escritas com o que parecia ser o sangue da vítima. A vítima perdera tanto sangue que seu corpo adquirira um tom cinza fantasmagórico. O coração, no entanto, estava faltando.
O fotógrafo que trabalhava para o Instituto de Criminalística do Condado de Sardis, Ted Baker, também era fotógrafo da equipe do Sentinela de Sardis. Há muito tempo, Billy o advertira sobre o conflito entre os empregos.
— Teddy, se você decidir aceitar os dois trabalhos, terá que aprender a calar a boca de vez em quando. Você tirar fotos para a polícia e para o jornal do condado não significa que você tenha exclusividades. Na maioria das vezes, não haverá problemas. De vez em quando, porém, você terá acesso a informações que não serão liberadas ao público... até que eu dê a permissão. Combinado?
— Combinado — respondeu Ted, obviamente omitindo sua disposição a quebrar esse acordo, se isso pudesse alavancar sua carreira jornalística.
Ted agora tirava fotos da cena do crime. O médico legista, Kenneth Pirtle, instruía Baker sobre quais ângulos ele queria. A equipe de perícia aguardava a aprovação de Pirtle, mas Billy não confiava muito neles. Este era o terceiro assassinato atribuído ao Maníaco, e o xerife ainda não tinha recebido nenhuma informação relevante. Nos três assassinatos, cada uma das vítimas havia sido exibida da mesma maneira, com os órgãos no centro de um coração feito a partir do intestino. A maior parte do sangue de cada vítima havia sido drenada e o coração de todas estava faltando.
E, nos três assassinatos, as mesmas palavras incorretas, escritas na parede com o sangue da vítima.
Billy se perguntava se o erro de ortografia era intencional.
Billy chamou Pirtle:
— Ei, Kenny!
Pirtle cumprimentou o xerife com um aceno enquanto passava ao fotógrafo os últimos ângulos que queria para as fotos da cena do crime. Quando terminou de explicar, Pirtle se aproximou de Billy.
— Muito macabro, Billy — disse Pirtle.
— Você não tem nada para mim ainda, por acaso?
— Claro que sim, Billy, temos um sacão cheio de porcaria nenhuma para você. Não tem DNA, nem cabelo, nem pele sob as unhas da vítima. Nada. Talvez o laboratório encontre alguma coisa, mas se for como os dois últimos... — Pirtle deu de ombros.
Billy balançou a cabeça, com os lábios apertados.
— Kenny, você tem que encontrar algo que eu possa usar. Uma hora isso vai vazar pra imprensa, e as pessoas vão querer a minha cabeça se eu não descobrir quem é o responsável.
— E você acha que eu não sei disso? Não houve nada que a perícia pudesse nos dar, e quando digo nada, é nada mesmo. Eu já trouxe o pessoal do laboratório estadual aqui, e mesmo assim ainda não tive sorte — ele balançou a cabeça em desgosto — é quase como se assassino fosse um fantasma, ou algo assim.
Billy manteve a boca fechada. Ele sabia muito bem que poderia realmente ser algo sobrenatural ou relacionado a magia, mas ele mantinha suas opções em aberto. E sua boca fechada.
Billy tinha visto em primeira mão o que acontece quando há magia envolvida, e nem sempre é bonito. Sua enteada, Mary, e Carol Grace, enteada de Alan (seu melhor amigo), tinham algum tipo de poder místico, e Alan era casado com Katie Ballantine Montgomery. Katie era descendente da família Sardis e era uma bruxa. Sua tia-avó, Margo Sardis, era uma bruxa igualmente poderosa. Katie dissera a Alan que Margo uma vez vendera um feitiço ao velho Ricky Jackson, e esse feitiço havia conjurado um Cão do Inferno. O pentagrama que restringia o Cão havia sido acidentalmente quebrado, o soltando... e deixando aberto um portal para o Inferno. De acordo com o que Margo dissera a Katie, muitos seres do Inferno cruzaram aquele portal e agora moravam no Condado de Sardis.
E desde então ninguém viu o velho Ricky Jackson.
Billy tinha visto Mary e Carol Grace unirem seus poderes contra os gângsteres da família criminosa Giambini quando estes invadiram a Fazenda Junior Ballantine, e achou incrível que essas coisas existissem neste mundo... sem que ninguém soubesse.
Ninguém com um pingo de credibilidade, pelo menos.
Mas Billy acreditava com todas as suas forças. Não tinha escolha, afinal convivia com isso.
Phoebe insistiu para que Mary seguisse os ensinamentos de Margo Sardis sobre como controlar a magia que residia dentro dela e da amiga, e Bill teve que concordar. Mary precisava aprender como manter a magia confinada dentro de si.
Agora, era possível que ele estivesse lidando com magia novamente... desta vez, no trabalho.
E não era coisa boa. Não dessa vez. Pessoas estavam morrendo. Pessoas honestas que não mereciam tão terrível destino.
Quando seus pensamentos saltaram de um assunto para outro, Billy percebeu que ele poderia ligar para Alan e pedir que viesse até o local. Era extremamente necessário.
***

— CAROL Grace! Você vai perder o ônibus, mocinha!
— Sim, mamãe!
— Desça já aqui, mocinha!
Alan sentou-se à mesa da cozinha e sorriu diante da frustração de sua nova esposa.
— Se tivermos que levar essa garota para a escola mais uma vez este mês, eu vou colocá-la de castigo, ou não me chamo Katie Blake!
— Katie Blake. Eu definitivamente gosto do som desse nome — Alan sorriu — onde você o encontrou, Katie?
Katie sorriu ao olhar para o marido.
— Um policial me deu. Ele disse que não estava sendo usado corretamente e queria ver se eu poderia tomar conta dele.
Ela se sentou à mesa, em sua cadeira.
— Hmmm... e você está tomando conta dele direitinho?
Katie sorriu.
— Ainda não tive nenhuma reclamação.
Alan se inclinou em direção ao rosto de Katie.
— Nenhuma.
Ele começou a beijá-la. Ao tocar de suas línguas, ele sentiu uma leve nota do sabor do pedacinho de bacon que Katie comera enquanto cozinhava, e sentiu também o sabor de menta da pasta de dente. Mais do que tudo, ele sentiu o sabor de Katie, e então eles perderam a noção do tempo.
— Meu Deus, vocês dois podem parar com essa pegação na cozinha? É tão nojento!
Alan se afastou e olhou nos olhos de Katie novamente.
— Só uma, talvez...
Ele olhou para Carol Grace.
O pai de Carol Grace, Mark Montgomery, morrera alguns anos atrás por conta de um aneurisma cerebral. Ele deixara o dinheiro de um seguro de vida, e o rendimento desse dinheiro ajudou Katie a cuidar de Carol Grace. Mas, quando Katie foi demitida da empresa em que trabalhava, sua mente voltou-se à fazenda deixada para ela por sua avó, Nebbie Ballantine. Seu avô se chamava Arthur "Junior" Ballantine, e a fazenda recebera o nome dele. Ela manteve a Fazenda Junior todos esses anos e pagou todos os impostos. Era dela, e estava pronta para morar. Então, quando a demissão aconteceu, Katie empacotou suas coisas e as de Carol Grace e voltou para o Condado de Sardis.
Após sua mudança, Alan Blake, ex-capitão do time de futebol americano da antiga escola de Katie, também se mudou de volta para o Condado de Sardis. No entanto, ele não teve escolha... ele era policial na cidade grande e prendera Moses Turley, o membro da família mafiosa Giambini encarregado de organizar jogos ilegais de pôquer, e seus homens por atentarem contra a vida dele e de outro policial. Mickey Giambini não queria ser vinculado a ele no julgamento, então ordenou que Turley e seus homens encontrassem e eliminassem os dois policiais. Os capangas de Giambini encontraram o parceiro de Alan, James Winstead, e o mataram... mas não antes que o homem revelasse aos criminosos que Alan poderia ser encontrado no Condado de Sardis.
Velho amigo de Alan, o xerife Billy Napier também participara do time de futebol americano do Colégio de Perry e convencera Katie a dar a Alan um lugar para se esconder em troca de trabalho na fazenda.
Nessa mesma época, Katie conhecera a velha bruxa, Margo Sardis. Margo dissera que Katie e Carol Grace eram descendentes da família Sardis e que possuíam magia dentro delas. Katie começou então a aprender a manifestar sua magia.
Carol Grace também estava mostrando sinais de poderes mágicos crescentes, mas os poderes se multiplicavam quando estava próxima de sua colega de escola e melhor amiga, Mary Smalls. Mary aparentemente tinha magia dentro dela também... mas ninguém sabia de onde vinha. Sua mãe, ex-colega de escola de Katie, Phoebe Smalls, não tinha poderes mágicos... mas ninguém, incluindo Phoebe, tinha ideia alguma de quem poderia ser o pai de Mary. Phoebe era uma alcoólatra em reabilitação.
Katie e Alan se apaixonaram profundamente e, juntos, reacenderam o amor de Billy Napier e Phoebe Smalls.
Durante uma reunião das duas famílias, Moses Turley atacou a casa da fazenda utilizando um túnel que passava por baixo da propriedade. Carol Grace e Mary chegaram bem a tempo de impedir que os mafiosos matassem Alan e todos os outros. Elas estavam inconscientemente de mãos dadas e pareciam estar sob domínio por alguma força sobrenatural. Usaram o poder mental para expulsar os bandidos da casa. Do lado de fora da casa, uma legião de demônios esperava pronta para devorar os quatro criminosos. A terra se abriu e engoliu o carro deles. Depois disso, as duas meninas caíram no chão, talvez desmaiadas ou em profundo sono.
No dia seguinte, ocorreu um casamento duplo. Xerife Napier e Phoebe Smalls haviam se casado, assim como Katie e Alan.
Desde então, a velha Margo Sardis ensinava Katie mais e mais sobre magia, e também as duas meninas. Margo era muito cautelosa com as duas garotas, e não falava muito com Katie sobre elas... mas Katie podia dizer que algo nas duas preocupava Margo. Katie pensou em perguntar à velha tia, mas percebeu que Margo diria a ela quando fosse a hora... e nem um minuto antes.
Alan já havia entrado em contato com um advogado em Perry para registrar Carol Grace como filha adotiva. Katie aceitara com todo coração, pois Carol Grace amava muito Alan, e Alan amava Carol Grace. Parecia a coisa certa a se fazer.
A audiência de adoção seria no final do mês, dali apenas uma semana.
Katie virou-se para a filha.
— Onde fica o “ambiente de pegação aprovado por Carol Grace”? Alan e eu iremos para lá, se isso te alegrar.
— Eeeca!
Carol Grace colocou no prato uma colherada de ovos mexidos e cobriu com um pouco de manteiga e pimenta. Serviu-se também de um pedaço de torrada e duas fatias de bacon.
— Talvez lá fora, no chiqueiro?
Ela deu uma risadinha.
— Acho que não — Alan enrugou o nariz — O fedor lá é quase tão forte quanto no armário da Carol Grace.
Ele simulou ânsia de vômito.
Tiquinha, a cadela da raça Boston Terrier que Billy Napier dera a Carol Grace, desceu as escadas e entrou na cozinha. Ela deu um latido e Carol Grace jogou-lhe um pedaço de bacon.
A menina devorou o café da manhã e limpou a boca com o guardanapo. Pulou bruscamente e anunciou:
— Tenho que correr. O ônibus vai chegar em um minuto.
Ela deu um beijo na bochecha da mãe e um no topo da cabeça de Alan.
— Tchau! Amo vocês!
Quando chegou na porta dos fundos, ela gritou:
— Tchau, Tiquinha! Fique boazinha!
Tiquinha latiu como se reconhecesse o comando.
A porta de tela da varanda dos fundos bateu com força e Alan estremeceu.
— Após realizar seus pronunciamentos, o arauto real parte.
Katie riu.
Alan tinha acabado de encher a boca com ovos mexidos e torradas quando o celular tocou. Ele olhou para o identificador de chamadas e disse:
— É o Billy.
Atendeu à ligação:
— Oi, Bill! Espero que Phoebe tenha preparado um café da manhã tão bom quanto o que a Katie fez para mim!
— Não acho que eu conseguiria tomar café da manhã agora, Alan. Escute, preciso que você venha me encontrar.
Alan captou o tom sério na voz de seu amigo e entendeu no mesmo instante.
— Mais um?
— Sim.
— Onde?
— Na Escola Técnica.
— Logo estarei aí.
— Obrigado, velho amigo.
Alan desligou o telefone.
Pelo que ouviu da conversa, Katie percebeu que Alan precisava ir.
— É outro daqueles assassinatos?
Alan fitou os olhos de sua esposa.
— Sim. Deve estar muito feio. Billy parecia consternado.
Katie assentiu, mas sentiu um calafrio.
— Tudo bem. Vá. Mas tenha cuidado, Alan.
Alan começou a pegar mais uma colherada de ovos, mas mudou de ideia. Melhor não. Se revira o estômago do Bill, provavelmente também revirará o meu. Levantou-se para subir e vestir seu uniforme. Quando ele se virou para sair da mesa, viu uma mulher muito velha atrás dele. Ele deu um pulo de susto e disse:
— Uooou!
Katie começou a rir. Com gosto.
Alan colocou a mão no peito. A outra mão estava no encosto da cadeira.
— Caramba, Tia Margo, você precisava entrar tão sorrateira assim?
A mulher velha, também conhecida como Margo Sardis, riu. Sua risada soou como uma gargalhada.
— Não fui sorrateira, Alan. Acabei de entrar pela porta dos fundos, mas talvez não tenha feito barulho suficiente.
Katie, ainda rindo, disse:
— Ela fez sim, Alan. Eu a vi entrar.
Alan, balançando a cabeça em reprovação a si mesmo e a seu nervosismo, estendeu os braços e abraçou a velha bruxa.
— Bom dia para você também, Tia Margo — Então a soltou — Agora, se as duas maravilhosas senhoras bruxas me dão licença, eu tenho que ajudar Billy a pegar um assassino.
— Assassino? — Margo falou abruptamente — Mais uma vítima?
Alan assentiu.
— Sim, Senhora.
Os olhos de Margo se estreitaram.
— Tenha cuidado, Alan Blake. Este assassino pode não ser humano.
Alan parou na porta que dava para a sala e as escadas.
— Você tem certeza disso, Tia Margo?
A idosa balançou a cabeça.
— Não. Mas minha incerteza não é por falta de investigação. Se eu descobrir alguma coisa, aviso você imediatamente.
Alan concordou com a cabeça.
— Por favor. Precisamos acabar logo com isso.
Ele começou a subir as escadas, mas parou e se inclinou de volta em direção à cozinha.
— Margo?
A velha senhora olhou para ele.
— Você tem sequer alguma ideia de quantas criaturas do Inferno entraram pelo portal sobre o qual você nos falou?
O rosto de Margo amoleceu e Alan pensou ter visto uma pequena pitada de medo ali. Ela balançou a cabeça e disse:
— Deus me ajude, Alan, eu não sei. Podem ter sido algumas, ou algumas centenas. Infelizmente não sei dizer.
Alan compartilhou um olhar com Katie, e então olhou de volta para Margo.
— Eu me sentiria melhor se você ficasse aqui conosco, Tia Margo. É melhor do que estar sozinha na floresta, mesmo que sua casa esteja camuflada com espelhos. Pelo menos, eu teria a ilusão de que estaria mais segura.
Margo abriu a boca para recusar educadamente a oferta, mas parou. Finalmente, ela disse:
— Vou pensar no caso, sobrinho, se a oferta for de coração.
Alan encontrou os olhos da anciã.
— Sim, ela é. Fique, por favor — então mudou o assunto — Ok, eu tenho que ir.
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Capítulo 2

Em algumas manhãs, Phoebe Smalls Napier achava realmente difícil organizar as crianças para que saíssem de casa em segurança a tempo de seu turno na Mackie's.
Quando Phoebe e Billy se casaram, Billy tentou convencer Phoebe a deixar o emprego de operadora de caixa. Como xerife, Billy ganhava dinheiro suficiente para manter a família alimentada, vestida e com uma casa para morar. Sua criação de Boston Terriers também era uma renda extra... mais do que suficiente para sustentar a família.
Phoebe se recusou a deixar o emprego. Ela explicou a Billy os reais motivos, para que ele não pensasse que se tratava de dinheiro.
— Bill, o trabalho me mantém sã e sóbria. Se eu não tivesse esse emprego, o que eu faria nos dias em que você estivesse no trabalho e as crianças na escola? Eu teria intermináveis horas vazias para preencher... e um alcoólatra em recuperação não precisa de tempo para ficar sozinho com seus pensamentos. Geralmente, é o que os faz voltar a beber.
Ela abraçou o marido e continuou:
— Então, ao invés de dar chance à tentação, vou trabalhar na Mackie's. Isso vai me manter com os pés no chão, e eu estarei logo ali na cidade se você precisar de mim.
Billy, descontente, concordou.
Mas ele também conversou com Martin Mackie, neto do fundador da loja, e pediu que ele mantivesse Phoebe livre nos fins de semana e apenas com escalas diurnas. Martin concordou, e assim todos ficaram felizes.
A menos que as coisas virassem uma completa confusão em uma manhã de dia de semana. Quando isso acontecia, ninguém ficava feliz.
— Pam! Larga esse telefone e me ajude com os pequenos!
Phoebe estava tentando fritar alguns ovos para Mary.
Pamela, a mais velha de Phoebe, estava no último ano do ensino médio. Seu cabelo era castanho com mechas loiras. Seus olhos eram azuis, quase como gelo. Seus lábios não eram muito grossos, mas não chegavam a ser finos. Ela era uma jovem muito bonita aos dezoito anos, e sua semelhança à sua irmã Mary era impressionante. Quase como se Mary fosse uma mini Pamela. Muitas pessoas comentavam isso.
Mary era a segunda mais velha, com treze anos.
Catherine, a terceira mais nova, lembrava Phoebe e as meninas mais velhas, mas algumas diferenças na aparência denunciavam que Catherine tinha outro pai. Ela tinha dez anos.
Derek, o caçula de oito anos, tinha uma ligeira semelhança com sua mãe e com sua irmã Catherine.
O homem que os dois filhos mais novos chamavam de "papai" era um ex-namorado de Phoebe, um viciado em drogas chamado John Clark. John estava em um laboratório de metanfetamina do outro lado da cidade e experimentou um pouco do produto que ele e seu irmão inútil haviam recém preparado. A droga estava muito forte, e os dois irmãos morreram quase instantaneamente por overdose.
Ao menos foi o que disseram. Billy não conduzira esta investigação. Ele estava de férias na época e as mortes ficaram sob jurisdição da polícia do município. Isso significava que Godfrey Malcolm estava no comando.
Isso também significava que as mortes poderiam ter sido qualquer coisa.
As duas meninas mais velhas não sabiam quem eram seus pais.
Phoebe também não.
Quando as duas filhas mais velhas foram concebidas, Phoebe estava desmaiada por beber demais... ou tomar muitos analgésicos... algo assim. O fato é que não conseguia se lembrar, e isso provavelmente não faria diferença. Pam fora concebida durante o último ano de Phoebe no ensino médio. Apesar das brigas diárias com a mãe, Phoebe vencera e manteve o bebê.
Cinco anos depois, veio Mary.
As duas vieram de situações idênticas. Embora as meninas tivessem nascido com cinco anos de diferença, seus aniversários se separavam por apenas alguns dias.
E Mary possuía magia.
Quando Mary estava com Carol Grace Montgomery, emanava uma magia poderosa.
Já Pam não possuía poderes. Pelo menos até onde Phoebe sabia.
Às vezes, ao pensar sobre isso, Phoebe lembrava que as duas concepções eram muito parecidas entre si, mas com intervalo de cinco anos... como se Mary fosse uma segunda versão de Pam. Uma nova tentativa.
Mas, se isso fosse verdade, isso significaria que alguém... algo... havia estuprado Phoebe duas vezes para tentar produzir uma criança com poderes mágicos.
Isso significaria que Phoebe fora escolhida, por algum motivo, para carregar uma filha da magia.
E isso a assustava até o âmago.
Mas, nesta manhã, seu medo era duplo. Um deles era colocar as quatro crianças no ônibus escolar a tempo.
O outro era o Maníaco de Sardis.
Billy não tinha contado muito a Phoebe sobre os assassinatos. Ela sabia que ele não queria preocupá-la.
Outras pessoas, no entanto, falavam, e a fofoca corria solta em cidades pequenas. Phoebe trabalhava no Centro Oficial de Fofocas do município. Seu cargo como caixa na Mackie's lhe permitia ouvir todo tipo de coisa.
Alguns diziam que o assassino era o velho Ricky Jackson, o homem que estava desaparecido há algum tempo e cuja casa havia queimado. Outros diziam que pensavam ser Margo Sardis, o que Phoebe sabia de fato que não era verdade. E alguns sussurravam que poderia ser obra de demônios, e Phoebe achava que essa poderia realmente ser uma possibilidade.
Quem ou o que quer que fosse o assassino, Phoebe estava assustada. Ela estava com medo por seus filhos, por Billy e Alan e por todos que viviam no Condado de Sardis.
— Mãe, eu tenho que trabalhar esta noite. Das cinco às nove.
Pam trabalhava em uma loja enorme que era franquia de uma multinacional, mas que não podia contar ninguém no Condado de Sardis como cliente. Ou melhor, ninguém do Condado de Sardis. Visitantes no município costumavam fazer compras lá, principalmente porque estavam acostumados a comprar coisas de lojas cujos nomes terminavam com "Mart". Mesmo que a grande franquia oferecesse descontos em tudo, vendendo de mantimentos a ferramentas e pneus muito abaixo dos concorrentes locais, eles não conseguiram atrair os moradores para a loja. As pessoas que trabalhavam lá tiravam bastante poeira e empurravam coisas de um lado para o outro. Ninguém se incomodava ao trabalhar lá — eles ficariam felizes em receber dinheiro para nada — e ninguém devolvia o dinheiro.
— Vou dizer a Billy para buscá-la às nove — disse Phoebe, colocando os ovos de Mary em um prato.
— Posso pedir a Jeff que me traga para casa.
— Vou me sentir melhor se Billy for te buscar, querida. Não tenho nada contra o Jeff, mas até Billy pegar esse assassino, quero que venha com ele.
Phoebe olhou para a filha mais velha.
— Faça as vontades dessa velha senhora, tá bom?
Pam sorriu.
— Tudo bem, mãe. Diga a Billy que estarei na porta da frente às nove.
Mary colocou uma grande colherada de ovo na boca e disse:
— E não se esqueça de que vou à casa de Carol Grace esta tarde depois da escola. Tia Margo tem mais lições para nós.
— Não fale com a boca cheia, Mary. Me ligue quando chegarem lá, ouviu? E diga a Kate que combinaremos algo para este fim de semana.
— Sim, Senhora.
— Mamãe? — disse Derek.
— Sim, bebê?
— Catherine e eu vamos à casa da Vovó novamente depois da escola?
— Sim, garotão, vocês vão.
Pam cutucou os dois pequenos, que tinham acabado de comer.
— Vamos, seus pirralhos! Vamos para fora esperar o ônibus.
Mary enfiou a última colherada de seus ovos na boca e disse:
— Ei! Esperem!
— Se cuidem! — gritou Phoebe — Amo vocês! Não fale com a boca cheia, Mary!
Phoebe percebeu então que estava conversando com uma porta fechada. As crianças já haviam saído.
Um sentimento de pavor fez cócegas no fundo de sua mente enquanto ela fritava um ovo para seu próprio café da manhã. Ela comeu em silêncio. Quando terminou, colocou o prato na pia, pegou a bolsa, suas chaves e foi trabalhar.
***

ENQUANTO ALAN DIRIGIA pela estrada a caminho da Escola Técnica Nathaniel Sardis, passou pelo que parecia ser um enorme canteiro de obras. Equipamentos de transporte de terra, escavadeiras, guindastes, caminhões basculantes e homens com capacetes de segurança estavam espalhados pelo local de vinte acres. Parecia que eles estavam cavando um buraco enorme no chão, ou já o haviam concluído. Ao passar pelo local, não conseguiu decidir se haviam ou não terminado.
Interessante. Isto é novidade. Eu passei aqui há três dias e não havia nada além de um campo. Me pergunto o que isso vai ser...
Ele fez uma anotação mental para perguntar a Billy mais tarde. Talvez o xerife soubesse algo a respeito.
Fosse o que fosse, parecia ocupar uma enorme porção do campo que lá estivera. E, por causa das árvores ao longo da estrada, o local de trabalho era visível apenas em uma pequena área ao longo da estrada, a qual era usada como acesso de veículos ao campo.
Ao continuar seu caminho, Alan voltou a pensar nos assassinatos.
Precisamos pegar este cara. Espero que não seja um ataque pessoal a nenhum de nós desta vez. Não quero reviver a noite em que Moses Turley invadiu a casa da fazenda. Não sei qual poder as garotas possuem ou se é o poder que as possui, mas não quero me arriscar a desencadeá-lo novamente.
***

CLIFF ANDERSON ABRIA seu escritório imobiliário prontamente às oito horas da manhã e hoje não era exceção.
Cliff possuía e administrava a Anderson Imóveis e Leilões (A MELHOR do Condado, gritava a placa acima da porta) e comandava uma equipe de dez funcionários. Com exceção de sua secretária, nenhum outro empregado chegava antes das nove. Cliff aproveitava o tempo sozinho pela manhã e gostava de lidar pessoalmente com os clientes ansiosos que às vezes chegavam bem cedo.
Arlene Looper, secretária de Cliff, trabalhava para ele há quinze anos. Ela era muito boa em seu trabalho. Chegava um pouco antes das oito da manhã para fazer café e preparar seu dia.
Cliff ficava de olho nas pernas de Arlene. Eram belas pernas, e ele sonhava em um dia vê-las em volta de sua cintura. Ocasionalmente, ele lançava um olhar para os peitos de Arlene, apenas para se certificar de que eles se mantinham da maneira que os peitos de uma mulher linda deveriam se manter, mas as pernas em volta da cintura comandavam a maior parte de seus devaneios. Ele sonhara acordado com isso todos os dias em que Arlene trabalhou para ele. Só uma coisa o impedia de perseguir esse sonho, e não era o medo de assédio sexual ou uma acusação de comportamento inadequado no local de trabalho.
Arlene morava em Londres, a cidade mais ao sul do Condado de Sardis.
Cliff tinha um medo mortal de Londres.
Nada que ele realmente pudesse identificar. Algo naquela cidade de fim de mundo o fazia borrar as calças. Ele podia sentir a respiração acelerar quando se aproximava do pequeno município, e arrepios saltitavam em sua pele. Uma vez que ele passasse pela placa que anunciava os limites da cidade, seus pelos eriçavam e ele começava a suar profusamente, um suor nervoso e fedorento. Cliff um dia decidiu que nunca mais iria voluntariamente a Londres, por motivo nenhum. Quaisquer negócios imobiliários em Londres agora eram delegados a um de seus funcionários.
O pensamento de ir a Londres buscar Arlene para um encontro, ou levá-la para casa depois, não era um pensamento divertido na cabeça de Cliff.
Se Arlene tinha ideia da maneira como Cliff a desejava, não dava nenhum sinal.
Mas...
Às vezes, quando Cliff não estava olhando, Arlene olhava para ele. Ela abria um largo sorriso, como se estivesse se divertindo... ou olhando para uma presa.
Então um brilho amarelado parecia atravessar suas íris... um brilho amarelado quase selvagem.
Mas naquela manhã, antes que Cliff se sentasse em sua mesa para iniciar o ritual diário de observação do andar quase furtivo de Arlene, o sino sobre a porta da frente tocou e um cliente apareceu.
A cliente era uma mulher bela e de baixa estatura, com cabelos loiros e um leve toque de sardas através do dorso do nariz.
Cliff se afastou da cafeteira com um sorriso no rosto e atravessou o escritório em encontro à mulher.
— Bom dia! Meu nome é Cliff Anderson. O que posso fazer por você esta manhã?
Cliff esperava que a jovem perguntasse sobre aluguel de apartamentos, ou talvez uma casa barata que pudesse ser alugada por algumas semanas. Ele nunca a tinha visto antes e, por causa disso, achava que devia ser uma funcionária da loja multinacional.
Quando ela lhe disse o que estava procurando, a curiosidade de Cliff despertou.
— Olá. Estou procurando uma fazenda. Ela precisa ter no mínimo cem acres de pasto, uma grande casa e celeiro. Trarei, muito em breve, gado de Carson City, Nevada, e preciso de um lar para eles. Pagarei em dinheiro, se isso ajudar a acelerar o processo.
Em nome de sua credibilidade, Cliff segurou seu queixo para que não caísse até o peito.
***

— AH, ISSO É ruim — disse Alan. Ele tentava manter o café da manhã no estômago enquanto olhava a cena do crime.
Billy assentiu.
— Você já viu algo ruim assim na cidade grande?
Alan pensou por um minuto. Então, assentiu.
— Uma vez. Ajudei a limpar uma casa de fazenda usada por Esteban Fernandez. Tinha sido queimada, mas havia dois caras da DENARC mortos no porão. Eles tinham virado picadinho. Atribuímos a autoria a Fernandez, mas os federais silenciaram tudo. A cena era com certeza tão feia quanto essa.
Nada fora removido. Billy queria que Alan visse a coisa toda na vida real, não em fotos. Billy pensou que ele poderia ver algo que todos tinham deixado passar batido.
Alan respirou fundo três vezes para se acalmar e então começou a estudar minuciosamente a cena. Metodicamente, ele examinava cada detalhe antes de seguir em frente. Quando decidiu que estava pronto, colocou chinelos de papel sobre os sapatos para não contaminar nenhuma evidência microscópica. Gradualmente, foi em direção aos restos da jovem. Estudou a colocação de cada órgão. Estudou a forma de coração de namorados feita com o intestino dela. Interrompeu a caminhada, analisando cuidadosamente. Ele voltou-se para Billy.
— Não há lesões no intestino. Percebeu isso?
Billy balançou a cabeça.
— Não.
— Olha — Alan apontou para uma parte do intestino — Aqui é onde o intestino delgado foi desconectado do estômago — Então apontou para a parte do intestino que repousava ao lado da parte anterior — E esta é a parte que foi desconectada do intestino grosso.
Alan olhou para o médico legista.
— Estou certo?
O legista concordou.
— Então, não houve rasgo. Nem separação. Nem torção.
Billy ficou confuso.
— E daí?
Alan olhou para ele.
— Isso significa que quem fez isso retirou os intestinos aos poucos enquanto moldava o coração. Os intestinos não estavam emaranhados, nem rasgados ou cortados. Isso demanda muita concentração ou então muita sorte. E levou tempo. As duas metades do coração são idênticas. Não são nem um pouco desiguais. Deve ser muito complicado conseguir isso numa situação dessas.
— O que você acha do padrão dos órgãos?
Alan os estudou por algum tempo. Ele balançou a cabeça.
— Não faço idéia, Billy.
— Ok, quem diabos decidiu não me chamar para um maldito caso de assassinato? — bradou da porta uma voz.
Billy e Alan se viraram para ver o recém-chegado.
Era Godfrey Malcolm, o delegado da Polícia Municipal de Perry.
Billy estendeu a mão.
— Pare, seu idiota! Se for entrar aqui, coloque os calçados de papel!
— Por que diabos? — berrou Malcolm.
— Para você não contaminar a cena do crime! Como conseguiu esse emprego, afinal? Chupou alguns membros da Câmara?
Malcolm fuzilou o xerife com o olhar, mas sem dizer nada. Seus olhos estavam injetados e seu nariz estava vermelho vivo por causa da bebedeira contínua.
Finalmente, Malcolm apoiou-se bêbado na moldura da porta, mal conseguindo se equilibrar enquanto colocava um par de chinelos de papel e entrava na sala.
Quando o delegado de polícia viu o que havia sido feito, vomitou por todo o chão.
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Capítulo 3

— Você acha que isso finalmente fará com que a Câmara Municipal de Perry o demita? — perguntou Alan, sentado no escritório de Billy.
— Com certeza espero que sim!
Quando Malcolm vomitou na cena do crime, Billy prendeu o delegado de polícia por embriaguez pública. Ele havia submetido o policial a todo o processo de prisão, incluindo inspeção de orifícios... para o caso de Malcolm ter algum contrabando, é claro.
Malcolm, por sua vez, percebeu que havia estragado uma cena de assassinato e estava arrependido... até a inspeção de orifícios começar.
— Ninguém vai enfiar nada na minha bunda! — rugiu Malcolm.
Vários policiais contiveram o delegado de polícia, e o carcereiro conduziu o exame conforme as instruções e com bruto entusiasmo.
O xerife então ordenou que Malcolm fosse colocado em uma cela particular.
Billy disse a ele:
— Fique contente por eu colocar você em uma cela particular, e não na ala geral! Agora cale a boca e deite na cama!
Godfrey Malcolm, manso e submisso, sentou-se na cama da cela.
— Quanto tempo você planeja deixá-lo lá, Billy?
Alan sorria.
— Dez anos!
Billy estava com raiva.
Alan riu alto.
Billy olhou para o velho amigo e começou a rir também.
— Ah, merda, provavelmente apenas vinte e quatro horas. Mas eu prestarei queixa. O nível de álcool no sangue era de zero ponto doze, e isso é considerado estar bêbado em qualquer estado.
***

— KATIE, QUERO QUE VOCÊ e eu tentemos entrar em contato com algumas... outras inteligências. Precisamos descobrir se esse assassino é sobrenatural ou humano.
Margo Sardis estava sentada à mesa da cozinha de Kate. Sua bengala com detalhes em prata estava plantada firmemente entre as pernas amplas, suas mãos enrugadas descansavam sobre o pegador. Katie mexia no forno, colocando para assar um bolo de morango. Ela olhou para a tia.
Margo Sardis era tia-bisavó de Katie Ballantine Blake. A irmã de Margo tinha sido bisavó de Katie, o que fazia de Katie uma Sardis... e uma bruxa, assim como a filha de Katie, Carol Grace. Katie havia descoberto recentemente esse fato, e Margo ficou encantada por finalmente compartilhar seu conhecimento com membros da família, que colocariam a magia em bom uso.
— Bruxas não são boas nem más — Margo disse uma vez — Eu tenho um certo relacionamento com Deus, e com seu inimigo também. Sou simplesmente... uma bruxa. Nem mais, nem menos. Katie, as bruxas são definidas por suas personalidades... assim como todo mundo.
Quando disse que precisava entrar em contato com outras "inteligências", Katie não tinha certeza se Margo se referia a boas inteligências... ou más.
— Que outras inteligências, Tia?
A boca de Margo se tornou uma linha sombria.
— Ambas.
Katie virou-se para Margo.
— Tem certeza?
Margo assentiu.
— E talvez precisemos... questioná-los.
Katie parecia alarmada.
— Tem certeza de que deveríamos?
— Somente se for necessário. Não quero acordar essa coisa em particular sem necessidade. Mas continua sendo uma possibilidade, Katie.
Margo balançou a cabeça em desgosto.
— Se eu não tivesse dado a Ricky Jackson o que ele pediu... e sim o que eu sabia que ele queria... Aquela porta para o Inferno nunca teria sido aberta!
Katie foi até a mesa, sentou-se e colocou uma caneca de café na frente de cada uma delas.
— Você não me disse que as coisas do Inferno costumam vir ao nosso plano de existência o tempo todo? Eles não teriam chegado aqui de qualquer maneira?
Margo balançou a cabeça.
— Sim, elas costumam, doce sobrinha. Mas não em tal quantidade! Ainda não acredito que deixei o orgulho me cegar dessa maneira!
Katie deu um tapinha na mão da idosa.
— Águas passadas, Tia. Não podemos fazer nada a respeito agora.
Margo murmurou:
— É, acho que não.
As duas mulheres ficaram em silêncio por alguns momentos, bebendo seu café.
Com uma voz baixa e ansiosa, Katie perguntou:
— O que eu preciso para o feitiço de chamar outras inteligências, Tia?
Margo sorriu e contou a ela.
***

O TURNO DE PHOEBE NA Mackie's começara havia uma hora.
Os clientes eram poucos e dispersos nesta manhã de dia útil. As coisas acelerariam mais tarde, mas Phoebe aproveitou esse tempo para espanar as caixas registradoras, estocar as sacolas e colocar novos estoques para compras por impulso nas prateleiras próximas às filas do caixa.
Phoebe estava tão absorta em seus pensamentos enquanto estocava as prateleiras de doces e impulsos, que um cliente precisou pigarrear alto para chamar sua atenção.
Assustada, Phoebe se virou e viu Tom Selleck parado na fila do seu caixa. Ou melhor, um Tom Selleck jovem .
— Ah, eu sinto muito! Eu estava perdida em meus pensamentos e não te vi! — disse Phoebe, enquanto corria para o caixa.
O homem abriu um grande sorriso que clareou o ambiente como uma lâmpada de 100 Watts, pelo brilho de seus dentes brancos. Phoebe até pensou ter realmente visto um brilho de luz refletido neles.
— Sem problemas. Não tenho pressa alguma.
Phoebe começou a passar as compras.
— Nunca te vi por aqui. Está só de passagem?
O homem sorriu.
— Não, planejo ficar por um tempo. Na verdade, estou procurando uma casa com um preço justo para comprar.
Phoebe, ainda passando as comprar, disse:
— Ah, não posso ajudá-lo com isso. Mas temos uma imobiliária na cidade, a Anderson Imóveis. Fica alguns quarteirões a leste da Praça do Fórum.
O homem assentiu.
— Obrigado. Talvez um dos meus funcionários já esteja lá.
Phoebe verificou os números exibidos em azul na tela.
— Cinquenta e sete dólares e trinta e dois centavos, senhor.
O homem deu a ela três notas de vinte e Phoebe contou o troco. Ao entregá-lo ao homem, ela disse:
— Obrigado, senhor. Volte sempre à Mackie's!
— Com certeza voltarei. Muito obrigado novamente!
O homem pegou suas sacolas com uma mão e acenou com a outra.
Phoebe se pegou imaginando quem seria aquele homem.
***

— VOCÊ TROUXE?
Mary Smalls estava quase pulando de emoção.
Carol Grace Montgomery, que logo será Carol Grace Blake, assentiu.
— Eu trouxe.
— Aaaaa, deixa eu ver!
As meninas estavam em um intervalo entre aulas no Colégio de Perry. Ambas eram calouras da nona série e ambas tinham treze anos.
— Eu não sei. Talvez devêssemos esperar até o almoço.
— Ah, pelo amor de Deus, Carol Grace!
Mary estava quase esmagando as mãos de tanta emoção.
Carol Grace pareceu considerar até que, finalmente, deu de ombros.
— Por que não? Provavelmente nem funciona mesmo.
A adolescente enfiou a mão na mochila. Quando ela retirou a mão, segurava um pequeno graveto com as dimensões aproximadas de uma baqueta. No entanto, parecia mais uma longa cavilha de madeira que uma baqueta, pois as duas extremidades eram retas.
Mary olhou para o graveto, quase com decepção.
— É isso aí?
Carol Grace assentiu.
— Essa é a varinha que a Tia Margo lhe deu?
— É sim.
— Posso segurar?
Carol Grace entregou a varinha para Mary.
Os olhos de Mary se arregalaram quando sentiu um forte formigamento correr por sua mão e braço.
— Uau! Essa coisa é forte, né?
— É sim. Me assustei na primeira vez que a segurei, mas Tia Margo disse que ela reage à magia dentro de cada um. Ela disse que é quase como um choque elétrico.
Mary assentiu vigorosamente.
— Foi o que imaginei no começo! Parecia que eu tinha agarrado uma cerca elétrica!
Ela examinou a varinha em todos os ângulos. Então olhou para Carol Grace.
— E agora? O que a gente faz com isso?
Carol Grace lançou um olhar exasperado para a amiga.
— Nada! Credo, Mary, você vai nos causar problemas!
Mary abriu um sorriso malicioso.
— Não precisaríamos fazer nada grande... apenas alguma coisinha para ver se funciona.
Carol Grace balançou a cabeça.
— Não, Mary, lembra o que aconteceu da última vez que usei magia na escola?
— Sim, mas na época você nem sabia que tinha poderes.
— Não importa. Eu me senti mal depois, e me sentirei mal contrariando a Tia Margo.
Mary cruzou os braços, ainda segurando a varinha. Ao fazê-lo, enviou um desejo ao longo da varinha, despercebido por Carol Grace. Em voz alta, Mary disse:
— Você é irritante, Carol Grace!
Ela descruzou os braços e devolveu a varinha. Carol Grace colocou a varinha de volta na mochila.
— Eu sei - é para isso que fui feita, eu acho.
Gostaria de saber se, com meu desejo, dei a Pam algum poder, Mary pensou.
As meninas foram para a aula, conversando durante todo o percurso.
***

BILLY E ALAN TINHAM acabado de se sentar em uma cabine na Lanchonete da Ethel. Billy ergueu os olhos e acenou para William Lewis, o agente literário que morava em Perry.
O homem parece assombrado, pensou Billy. Como se não houvesse amanhã.
Ethel Hess, a dona da lanchonete, era uma mulher alegre e muito enrugada, na casa dos setenta anos. Ela ainda podia, no entanto, atender a uma série de mesas mais rápido do que alguém cinquenta anos mais jovem, e veio até a mesa deles. De sua bandeja, ela colocou um copo de água gelada e um guardanapo enrolado com talheres na frente de cada um dos homens.
— Oi, Ethel! — disse Billy — Você se lembra deste policial aqui, não?
Ethel ajeitou os óculos para poder ver Alan melhor. — Hmmm... você não era o capitão quando Billy jogava futebol americano?
Alan sorriu.
— Sim, senhora.
Ethel sorriu e apontou para Alan.
— Você é Alan Blake. Você costumava vir aqui às vezes com uma garota... não lembro o nome dela. Mas você se casou com Katie Ballantine, não? Da Fazenda Junior?
Alan assentiu.
— Ela é uma boa mulher, Alan. Você deve ser um bom homem para ter conquistado o coração dela.
— Tento ser, senhora.
Ethel sorriu.
— O que os cavalheiros vão querer hoje?
Pediram hambúrgueres e batatas fritas, e Ethel levou o pedido para a cozinha.
— Billy, eu vou ser honesto. Esses assassinatos me assustam. Demais.
Billy respirou fundo.
— A mim também, Alan — tomou um gole de água — mas não podemos deixar ninguém saber que estamos com medo.
A porta do restaurante se abriu e Billy olhou para o recém-chegado. Era um jovem de terno, seus olhos varreram brevemente o ambiente. Billy teve a impressão de que o jovem não deixara escapar o mínimo detalhe.
De repente, uma ideia surgiu na cabeça de Billy.
— Alan, por que você acha que os federais estariam em Perry?
O homem de terno se aproximou deles.
— Federais? — perguntou Alan — Aqui?
O homem chegou à mesa deles e olhou para Billy.
— Xerife Napier?
— É assim que me chamam.
O homem enfiou a mão no bolso do paletó e tirou uma pequena carteira de couro. Ele abriu e exibiu suas credenciais.
— Eu sou Tory Masterson. Estou com o FBI.
Alan ergueu as sobrancelhas para Billy.
Billy estendeu a mão e Tory a segurou. Eles apertaram as mãos.
— Prazer em conhecê-lo, Agente Masterson. Estamos prestes a almoçar... você se juntaria a nós?
Tory sorriu.
— Não, obrigado, Xerife, vim aqui encontrar algumas pessoas para o almoço. Só queria me apresentar a você. Fui designado para o Condado de Sardis.
Billy deixou sua surpresa aparecer, quando um calafrio repentino desceu por seu ombro.
— Designado? Você quer dizer que o Condado de Sardis é um alvo constante dos criminosos?
Tory riu.
— Não, nada disso! Na verdade, sou uma conexão do governo, mas fico feliz em lhe oferecer minha assistência, conforme minha agenda permitir.
Ele entregou um cartão para Billy.
— Este é o meu número de telefone celular. O outro número é para o escritório do FBI na cidade. Eles podem me enviar uma mensagem, se eu não atender meu celular.
Billy olhou para o cartão e o enfiou no bolso da camisa.
— Obrigado.
— Oh, de nada, Xerife.
A porta da lanchonete se abriu e outras três pessoas entraram. Um jovem que se assemelhava a um jovem Tom Selleck, uma loira bonita com uma pitada de sardas no dorso do nariz e uma mulher com aparência de caxias na casa dos trinta anos. O homem que parecia Tom Selleck viu Tory, deu um sorriso de 100 Watts, e acenou. Tory acenou de volta.
— Ali estão as pessoas com quem combinei de almoçar. Por favor, com licença, senhores — disse Tory.
— Claro — disse Billy.
Tory apertou as mãos de Alan e de Billy, e foi até o grupo.
— Conhece algum deles, Alan?
Alan os estudou. Tom Selleck parecia familiar, e a loira bonita também, mas os nomes lhe escaparam, e foi exatamente isso que disse a Billy.
— Será que algum deles tem alguma coisa a ver com os assassinatos?
Alan estudou o grupo novamente. Finalmente, ele balançou a cabeça.
Бесплатный фрагмент закончился.
