Читать книгу: «Vida de sombras - Sombras no coração»
Editado por HARLEQUIN IBÉRICA, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 73 - Fevereiro 2021
© 2013 Sarah Morgan
Vida de sombras
Título original: Sold to the Enemy
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2013 Sarah Morgan
Sombras no coração
Título original: Playing by the Greek’s Rules
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2014 e 2015
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimentos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Shutterstock.
I.S.B.N.:978-84-1375-279-2
Table of Content
Créditos
Vida de sombras
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Sombras no coração
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
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Capítulo 1
– Ninguém vai emprestar-te dinheiro, Selene. Temem demasiado o teu pai.
– Nem toda a gente – Selene sentou-se na cama e acariciou o cabelo da sua mãe, sempre tão bem cortado para manter as aparências. – Para de te preocupar. Vou tirar-te daqui.
A sua mãe ficou imóvel. Ambas sabiam que quando diziam «daqui» se referiam a «ele».
– Deveria ser eu a dizer isso. Deveria ter-me ido embora há anos. Quando conheci o teu pai, era encantador. Todas as mulheres gostavam muito dele, mas os seus olhos não se desviavam de mim. Imaginas o que senti?
Selene ia dizer-lhe que não, que só recordava sentir-se presa naquela ilha, mas calou-se.
– Claro que sim. Era rico e poderoso – ela não cometeria esse erro. O amor nunca a cegaria ao ponto de não se dar conta de como era o homem que se escondia sob a superfície.
– Não sei porque falamos de partir quando sabemos que nunca o permitirá. Para o mundo, somos uma família perfeita e não permitirá que essa imagem seja desfeita – a sua mãe virou-se para a parede.
Selene soprou, frustrada. Era como ver alguém a afastar-se numa balsa sem fazer o mínimo esforço para alcançar a margem.
– Não vamos pedir-lhe permissão. Talvez esteja na altura de que o mundo saiba que não somos uma família perfeita.
A apatia da sua mãe não a apanhava de surpresa. O seu pai regia as suas vidas e controlava-as há tanto tempo, que tinha perdido toda a esperança. Apesar do calor e de na fortaleza onde residiam não haver ar condicionado, Selene sentiu que a percorria um calafrio.
Quanto tempo era necessário para que alguém perdesse a vontade de lutar? Quantos anos antes de perder a esperança, antes de se dar por vencido? Quando se viraria também ela para a parede em vez de se levantar?
Do outro lado das portadas, o sol arrancava brilhos ao Mediterrânico, criando um resplendor que contrastava dramaticamente com a escuridão do quarto.
Para muitos, as ilhas gregas eram um paraíso e talvez alguma o fosse. Selene só conhecia uma, Antaxos, e não tinha nada de paradisíaco. Separada das ilhas vizinhas por um braço de mar violento e rochoso, e comandada por um homem temido, a sua reputação aproximava-a mais do inferno do que do Paraíso.
Selene cobriu os ombros da sua mãe com o lençol e disse:
– Eu trato disso.
O comentário insuflou uma nova energia à sua mãe.
– Não o zangues.
Selene passara toda a vida a ouvir aquelas palavras e a andar nas pontas dos pés para não zangar o seu pai.
– Não tens de viver assim, controlando tudo o que fazes e dizes.
Selene sentia pena ao olhar para a sua mãe e pensar em como fora bonita, uma beldade nórdica que chamara a atenção do playboy milionário Stavros Antaxos. Ele encantara-a com o poder e a riqueza, e ela tinha-se derretido como cera, impedindo que visse a pessoa que se escondia sob uma camada de sofisticação. Assim, tomara uma decisão errada e a vida e a alma dela tinham sido esmagadas por um homem sem compaixão.
– Não falemos dele. Recebi um e-mail esta semana do Hot Spa de Atenas – guardava a notícia há dias. – Recordas que te disse que era uma cadeia muito exclusiva e que têm hotéis spa em Giz, Corfu e Santorini? Mandei-lhes amostras das minhas velas e dos meus sabonetes, e entusiasmaram-se. Usaram-nos nos seus tratamentos e vários clientes insistiram em comprá-los por um dinheirão. Agora, querem fazer-me uma encomenda. É a minha grande oportunidade
Estava tão empolgada com a notícia, que a reação da sua mãe a dececionou.
– O teu pai nunca deixará que o faças.
– Não tenho de lhe pedir permissão para viver a minha vida como quero.
– E como vais fazê-lo? Necessitas de dinheiro para montar o negócio e ele não to dará.
– Eu sei. Por isso, tenho um plano alternativo – apesar de Selene só costumar falar depois de se assegurar de que ninguém a ouvia, olhou para a porta, que ela mesma tinha fechado, mesmo sabendo que ele nem sequer estava na ilha. – Vou-me embora esta noite. Não poderei telefonar-te durante vários dias e não quero que te preocupes comigo. Toda a gente pensará que fui passar uma das minhas semanas de reclusão e meditação no convento.
– Como vais fazê-lo? Os seguranças impedir-te-ão. Avisá-lo-ão.
– Uma das vantagens de ser a filha isolada e tímida de um homem temido é que ninguém esperará ver-me, mas, mesmo assim, tenho um disfarce.
A sua mãe olhou para ela, aterrorizada.
– E se não chegares ao continente, o que farás?
Selene tinha tudo planeado, mas não pensava partilhar o seu plano nem sequer com a sua mãe.
– Calma, pensei em tudo. Confia em mim e virei buscar-te. Por agora, deves ficar para manter as aparências e não levantar suspeitas. Assim que tiver o dinheiro, virei buscar-te.
A sua mãe agarrou-lhe o braço com força.
– Se conseguires fugir, não voltes. É demasiado tarde para mim.
– Não fales assim – Selene abraçou-a. – Voltarei e partiremos juntas.
– Oxalá pudesse dar-te o dinheiro de que necessitas...
Selene pensava o mesmo. Se a sua mãe tivesse mantido a independência, não se encontrariam naquela situação, mas a primeira e mais sagaz manobra do seu pai fora assegurar-se de que a esposa não tivesse rendimentos próprios. Ao princípio, a sua mãe vira-o como uma prova de amor. Só mais tarde se apercebera de que não queria tanto cuidar dela como controlá-la.
– Tenho o suficiente para chegar a Atenas. Lá, pedirei um empréstimo para montar o negócio.
– O teu pai tem contactos. Nenhum banco te dará dinheiro, Selene.
– Eu sei. Por isso mesmo, não penso ir a um banco.
A sua mãe abanou a cabeça.
– Quem vai ser capaz de enfrentar o teu pai? Ninguém.
– Enganas-te. Há um homem que não o teme – disse Selene, sentindo que o coração lhe acelerava.
– Quem?
– Stefanos Ziakas – disse Selene, fingindo uma indiferença que não sentia.
A sua mãe empalideceu.
– Ziakas é igual ao teu pai: egoísta e cruel. Não te deixes enganar pelo seu carisma e pela sua beleza. É perigoso.
– Não é verdade. Conheci-o há anos, naquela festa que deu num iate e em que interpretámos o nosso papel de família ideal. Foi muito amável comigo – disse Selene, ruborizando-se.
– Foi para irritar o teu pai. Odeiam-se.
– Quando falou comigo, não sabia quem era.
– Eras a única rapariga de dezassete anos na festa e não duvides de que sabia quem eras – disse a sua mãe, intranquila. – Senão, porque achas que te dedicou tanto tempo quando estava acompanhado da atriz Anouk Blaire?
– Disse-me que era aborrecida, que só estava com ele para potenciar a sua carreira e que só se preocupava com o seu aspeto. Disse que eu era muito mais interessante e conversámos toda a noite.
Selene recordava ter-lhe contado coisas sobre os seus sonhos e os seus projetos de futuro que não tinha partilhado com ninguém e ele levara-a a sério. Ao ponto de que, quando lhe perguntara se a achava capaz de ter um negócio próprio, lhe dissera algo que não tinha esquecido: «Podes fazer o que quiseres se realmente o desejares».
E esse momento tinha chegado.
A sua mãe suspirou.
– A menina e o milionário. E, por essa conversa, achas que te ajudará?
«Volta daqui a cinco anos, Selene Antaxos, e falaremos.»
Selene quisera fazer mais do que falar com ele. Intuíra que se dera conta de que a sua vida era uma grande mentira e tinha sentido uma maior cumplicidade com ele do que com qualquer outra pessoa no mundo. Fora a primeira vez que alguém a ouvira e, desde então, sempre que necessitava de consolo pensava no que lhe dissera.
– De certeza que me ajudará.
– Temo que, mais do que ajudar-te, te faça mal. Não tens experiência com homens como ele. Tu mereces alguém amável e bondoso.
– Não é o que necessito neste momento. Necessito de alguém com coragem para enfrentar o meu pai. Quero montar o meu próprio negócio e Ziakas saberá orientar-me. Ninguém o ajudou e antes de fazer trinta anos já era milionário.
Selene encontrava inspiração na história de Ziakas. Se ele o conseguira, porque não o conseguiria ela?
Tirando energia da angústia, a sua mãe endireitou-se.
– Achas mesmo que podes recorrer a Ziakas e pedir-lhe dinheiro? Mesmo que conseguisses fugir da ilha, não acederá a ver-te.
– Estou convencida de que estás enganada. E sei como sair da ilha – Selene não queria revelar o seu plano, nem deixar que a sua mãe debilitasse a sua autoconfiança, portanto, levantou-se. – Voltarei amanhã. Tenho tempo de sobra antes de o pai voltar... da sua viagem.
Era assim que se referiam às ausências do seu pai, embora ele não se esforçasse minimamente para disfarçar as infidelidades.
Não queria pensar no que faria se a sua mãe, como noutras ocasiões, se recusasse a ir-se embora. Só sabia que queria escapar da prisão que Antaxos representava e os acontecimentos da semana anterior tinham confirmado a sua decisão.
Inclinou-se para beijar a sua mãe.
– Sonha com a tua nova vida. Poderás rir-te novamente, voltarás a pintar e os teus quadros voltarão a vender-se.
– Não pinto há anos. Já não tenho o impulso.
– Porque te tiraram a vontade de viver, mas recuperá-la-ás.
– E se o teu pai voltar antes do esperado e descobrir que te foste embora?
Selene sentiu-se à beira de um abismo e percebeu que necessitava de um ponto de apoio.
– Isso não vai acontecer – disse, com determinação.
Stefan pôs os pés sobre a secretária.
Atenas, a cidade em crise que o mundo observava com inquietação, despertava em torno do edifício dos seus escritórios centrais. Tentavam convencê-lo a levar o seu negócio para outra cidade, Nova Iorque ou Londres, para qualquer sítio desde que deixasse para trás a traumatizada capital da Grécia, mas Stefan ignorava-os.
Não estava disposto a abandonar o lugar que lhe tinha permitido chegar a ser quem era. Ele sabia o que significava perder tudo, passar da prosperidade à pobreza. Conhecia o medo e a insegurança, e o quanto era preciso lutar para recuperar. Essa era uma vitória incontestável e que proporcionava muito mais satisfação do que uma batalha fácil. E vencera-a com mérito. Tinha poder e dinheiro.
Surpreenderia as pessoas saber o pouco que lhe importava o dinheiro. No entanto, o poder era outra coisa. Desde muito pequeno, tinha aprendido o seu valor. Abria portas, convertia os «nãos» em «sins», as dificuldades em facilidades. O poder era afrodisíaco e, quando era necessário, uma arma perfeita que usava sem que lhe tremesse a mão.
O telefone tocou pela enésima vez em dez minutos e ignorou-o mais uma vez.
Uma pancada na porta tirou-o da sua abstração. Tratava-se de Maria, a sua assistente pessoal.
Stefan olhou para ela, arqueando um sobrolho irritado.
– Não me olhes assim. Sei que não queres que te incomode, mas não estás a atender a tua linha pessoal – ao não obter resposta, Maria soprou. – Sonya já te ligou várias vezes.
– Quer dizer-me que está zangada e não tenho o mínimo interesse em falar com ela.
– Deixou uma mensagem, não pensa fazer de anfitriã da tua festa desta noite enquanto não tomares uma decisão a respeito da vossa relação. Literalmente, disse: «Diz-lhe que ou se compromete ou acabámos».
– Então, acabámos. Eu disse-lho, mas não quer entendê-lo – Stefan levantou bruscamente o auricular e apagou as mensagens sem se incomodar em ouvi-las, diante do olhar reprovador de Maria. – Trabalhas para mim há doze anos. Porque me olhas assim?
– Nunca te importará acabar uma relação?
– Não.
– Isso diz muito de ti, Stefan.
– Sim, que lido bem com os fins das relações.
– Não, que as mulheres com quem sais te são indiferentes.
– Tanto como eu a elas.
Abanando a cabeça, Maria recolheu duas chávenas vazias da secretária de Stefan.
– Tens todas as mulheres que queres e não há uma única com que queiras assentar. És um homem com sucesso em todos os campos, exceto no pessoal.
– Enganas-te.
– Não acredito que não queiras mais de uma relação.
– Quero sexo frequente, apaixonado e sem complicações – Stefan respondeu com um sorriso ao olhar de desaprovação da assistente. – Por isso, escolho mulheres que querem o mesmo.
– O amor transformar-te-ia.
Amor? Só de ouvir a palavra algo bloqueava no interior de Stefan. Baixou os pés da secretária.
– Desde quando faz parte do teu trabalho ocupares-te da minha vida privada?
– Como queiras, não sei porque me incomodo – disse Maria. E saiu, mas voltou imediatamente. – Há uma pessoa que quer ver-te. Talvez ela te ajude a recordar que és humano.
– Uma mulher? Pensava que a minha primeira reunião era às dez.
– Veio sem hora marcada, mas não tive coragem de lhe dizer que se fosse embora. É uma freira e diz que tem de falar urgentemente contigo.
– Uma freira? – perguntou Stefan, espantado. – Se veio salvar a minha alma, chega tarde. Diz-lhe que se vá embora.
Maria endireitou os ombros.
– Não vou expulsar uma freira.
Stefan soprou de exasperação.
– Como podes ser tão inocente? Não ponderaste que pudesse ser uma stripper?
– Sei quando um hábito é verdadeiro. E não és nada atraente quando és tão cínico.
– Mas sempre me serviu de escudo protetor. E agora que amoleceste, vou necessitá-lo mais do que nunca.
– Recuso-me a dizer a uma freira que se vá embora. Além disso, tem um sorriso muito doce – Maria suavizou a sua expressão antes de olhar para ele com determinação. – Se queres expulsá-la, terás de o fazer tu mesmo.
– Está bem, manda-a entrar. Vais ver como é fácil alugar um fato de freira.
Maria foi-se embora, evidentemente aliviada, e Stefan esperou por uma visita da qual não esperava obter nenhum benefício.
A sua irritação aumentou ao ver a freira a entrar com a cabeça coberta inclinada. A atitude pia dela não afetou Stefan, que a observou da poltrona sem se alterar.
– Se espera que admita os meus pecados, advirto-lhe que tenho uma reunião daqui a uma hora e não é tempo suficiente para os resumir. Se o que quer é dinheiro, os meus advogados encarregam-se das minhas obras de caridade. Eu ganho o dinheiro, mas gastam-no outros.
O tom de voz que usou teria afugentado muitos, mas a freira limitou-se a fechar a porta atrás dela.
– Não se incomode – disse ele, com frieza. – Sairá dentro de segundos. Não compreendo o que pretende com... – emudeceu ao ver que a mulher tirava o toucado e um cabelo loiro-prateado caía em cascata pelas suas costas.
– Não sou uma freira, Stefan – a sua voz suave e agitada pareceu mais própria de uma alcova do que de um convento.
– É evidente – disse ele, irritando-se com Maria por se ter deixado enganar. – Estou habituado a que as mulheres recorram a qualquer artimanha para conseguirem um encontro comigo, mas nenhuma tinha caído tão baixo ao fazer-se passar por freira.
– Tinha de passar despercebida.
– Receio que uma freira não passe precisamente despercebida no bairro financeiro de Atenas. Da próxima vez, veste um fato.
– Não podia arriscar-me a ser reconhecida – a mulher olhou para a janela e, para exasperação de Stefan, aproximou-se para contemplar a vista.
Quem era? Havia algo vagamente familiar no seu rosto. Stefan tentou despi-la mentalmente para ver se o ajudava a recordar, mas era difícil pensar numa freira nua.
– Dado que não me deito com mulheres casadas, não entendo a necessidade do disfarce. Esclarece-me, por favor – Stefan arqueou um sobrolho. – Onde? Quando? Tenho uma memória péssima para os nomes.
Selene desviou o olhar da janela e cravou os seus penetrantes olhos verdes nele.
– Onde e quando, o quê?
Stefan, que odiava mistérios e não se caracterizava pelo seu tato, perguntou:
– Onde e quando nos deitámos? De certeza que foi fantástico, mas vais ter de me dar detalhes.
Ela pigarreou.
– Não me deitei contigo.
– Tens a certeza?
– Segundo os rumores – disse ela com frieza, – o sexo contigo é inesquecível, portanto, suponho que o recordasse.
Mais intrigado do que teria estado disposto a admitir, Stefan recostou-se na poltrona.
– Vê-se que sabes mais de mim do que eu de ti. Portanto, a questão é o que fazes aqui.
– Disseste-me que voltasse quando passassem cinco anos e acabaram na semana passada. Foste a única pessoa que foi atenciosa comigo em toda a minha vida.
O tom emotivo dela disparou os alarmes na mente de Stefan. Habituado a detetar a vulnerabilidade para a usar em proveito próprio, suavizou a sua atitude.
– Deve tratar-se de um engano, porque eu nunca sou atencioso com as mulheres. De facto, esforço-me para não o ser para evitar que comecem com insinuações sobre anéis, casamentos e casinhas no campo. E isso não é o meu estilo.
Selene sorriu.
– Garanto-te que foste muito amável comigo. Se não fosses tu, acho que me teria atirado ao mar naquela festa. Conversaste comigo toda a noite e deste-me esperança.
Stefan arqueou os sobrolhos, surpreso, ao mesmo tempo que tentava recordar onde conhecera aquela mulher de cabelo espetacular.
– Definitivamente, deves ter-te enganado na pessoa. Duvido que tivesse conversado contigo em vez de te levar para a cama.
– Disseste-me que voltasse dentro de cinco anos.
Stefan semicerrou os olhos.
– Surpreende-me que tivesse tanto autocontrolo.
– O meu pai ter-te-ia matado.
Stefan olhou fixamente para ela e, de repente, ficou paralisado. Aqueles olhos tinham um tom verde peculiar que só recordava ter visto numa ocasião, atrás de uns óculos desfavorecedores.
– Selene? Selene Antaxos?
– Vejo que afinal me reconheces.
– Com dificuldade – Stefan percorreu-a com o olhar. – Meu Deus, já não és nenhuma menina!
Recordava uma rapariga desajeitada, uma adolescente dominada pelo pai demasiado protetor, uma princesa cativa.
«Não te aproximes da minha filha, Ziakas.»
Aquela fora a ameaça velada que o tinha impulsionado a conversar com ela.
Bastava-lhe pensar no nome Antaxos para que o seu dia se estragasse e naquele instante tinha a filha daquele homem diante dele. Os sentimentos que essa noção lhe despertou obrigaram-no a recordar que ela não era responsável pelos pecados do pai.
– Porque estás disfarçada de freira?
– Tinha de enganar os seguranças do meu pai.
– De certeza que não foi fácil. Claro que, se o teu pai não tivesse tantos inimigos, não necessitaria de uma proteção tão férrea – contendo os sentimentos que o inundavam, Stefan levantou-se e contornou a secretária. – O que fazes aqui?
A única lembrança que tinha daquela noite era ter sentido pena dela, um sentimento tão alheio a ele que era por isso mesmo que o recordava. Acreditava que as pessoas tomavam as suas próprias decisões, mas ao vê-la, tão gorducha e desconfortável, pensara que ser a filha de Stavros Antaxos era uma desgraça imerecida.
– Já te explico – disse ela, mas, agachando-se para agarrar a saia do hábito, perguntou: – Importas-te que tire isto? Estou a assar.
– Onde o compraste?
– Fui educada pelas freiras da ilha vizinha, Poulos, que sempre me apoiaram. Elas emprestaram-mo, mas, agora que estou a salvo contigo, já não o necessito.
Considerando que poucas mulheres se sentiam a salvo junto dele, Stefan olhou-a desconcertado, enquanto ela se contorcia até tirar o hábito e ficar totalmente despenteada. Por baixo usava uma blusa branca e uma saia preta justa que abraçava umas pernas espetaculares.
– Quase morria de calor no ferribote. É por isso que não tenho o casaco.
– Que casaco?
– O do fato.
Stefan desviou o olhar das suas pernas, sentindo-se como se lhe tivessem batido na cabeça com um taco de beisebol, e esquadrinhou os olhos de Selene à procura da jovem insegura do passado.
– Estás mudada.
– Espero que sim. De facto, espero parecer a mulher de negócios que sou – Selene vestiu um casaco a combinar com a saia que tirou da mala e apanhou o cabelo com um travessão. – Quando me conheceste, tinha borbulhas e aparelho. Era horrível.
Mas já não tinha nada de feia, pensou Stefan.
– O teu pai sabe que estás aqui?
– O que achas? – disse ela, com um sorriso pícaro que reclamou a atenção de Stefan para os seus lábios voluptuosos.
– Suspeito que o teu pai já deva ter passado várias noites em branco – disse, fazendo um esforço sobre-humano para pensar nela como a menina do passado e não como a mulher em que se transformara. – Deveria oferecer-te alguma coisa. Queres um... Um copo de leite?
Selene afastou uma madeixa de cabelo da cara, entre tímida e sedutora.
– Não tenho seis anos. Costumas oferecer leite às tuas visitas?
– Não, mas não costumo receber menores.
– Não sou menor. Sou uma adulta.
– Isso é evidente – disse Stefan. E, ao desabotoar o colarinho para aliviar o calor que sentia, descobriu que já estava desabotoado. Estaria o ar condicionado avariado? – Vais dizer-me porque estás aqui?
Se o que pretendesse fosse arruinar o seu pai, poderiam chegar a um acordo.
– Vim propor-te um negócio.
Os olhos enormes de Selene transmitiram-lhe tanto desejo, que Stefan sentiu um calor súbito e poderoso, completamente inapropriado, dadas as circunstâncias.
Além das mudanças físicas óbvias, ela era tão inocente como na noite do iate e nem sequer ele era capaz de cair tão baixo.
– Não tenho fama de ajudar as pessoas.
– Eu sei. E não espero um favor. Sei muitas coisas de ti, como que mudas constantemente de mulher porque não queres ter uma relação. Sei que no mundo dos negócios te chamam todo o tipo de coisas, incluindo desalmado e cruel.
– São boas características para fazer negócios.
– E sei que não te importas que te descrevam como um lobo feroz.
– Mesmo assim, vieste.
– Não tenho medo de ti. Passaste sete horas a falar comigo quando ninguém me prestava a mínima atenção – Selene dobrou cuidadosamente o hábito e guardou-o na mala, sem se dar conta de que ao inclinar-se Stefan pôde ver o perfil dos seus seios.
Stefan fracassou na tentativa de desviar o olhar.
– Eras muito doce.
Usou aquela palavra de propósito porque era a mais apropriada para matar a sua libido, mas naquela ocasião não serviu de nada. Porque o olhava ela com aquela expressão de confiar plenamente nele em vez de com precaução?
«Entra, Capuchinho Vermelho, e fecha a porta.»
Selene dedicou-lhe um amplo sorriso.
– A verdade é que me dá uma certa vergonha recordá-lo. Estava tão zangada, que teria feito qualquer coisa para irritar o meu pai, mas tu, apesar de o odiares, não te aproveitaste da situação. Não te riste de mim quando te disse que queria montar o meu próprio negócio, nem quando namorisquei contigo. Com um tato delicioso, disseste-me que voltasse dentro de cinco anos.
Selene falou precipitadamente, com a respiração agitada e Stefan observou-a em silêncio, pensando que lhe escapava algo. O que havia na sua atitude: desespero ou entusiasmo?
– Tens a certeza de que não queres beber nada? – perguntou para ganhar tempo.
– Eu adoraria um copo de champanhe.
– São dez da manhã.
– Eu sei, mas nunca o provei e esta seria a ocasião perfeita. Segundo a internet, vives uma vida cheia de champanhe.
Stefan reparou numa nota de melancolia que o desconcertou. Sempre pensara que os Antaxos tomariam banho em champanhe. Tinham todo o dinheiro do mundo.
– Embora te custe a acreditar, restrinjo as minhas horas de champanhe ao fim do dia – cerrou os dentes e chamou Maria pelo intercomunicador: – Maria, traz-nos um jarro de água ou de limonada bem fresca e qualquer coisa para comer.
– Muito obrigada. Estou morta de fome – disse Selene.
Stefan apoiou-se na secretária, assegurando-se de manter uma distância prudencial.
– Portanto, queres propor-me um negócio. Diz-me o que é e dir-te-ei se posso ajudar-te.
Aquelas palavras pareceram-lhe estranhas. Nunca se oferecia para ajudar ninguém. Tinha aprendido desde muito pequeno a cuidar de si mesmo e a ser autónomo.
– Naquela noite no iate, inspiraste-me. Contaste-me que tinhas começado do zero e como era maravilhoso ser independente. É o que eu quero – Selene tirou uma pasta da mala. – Este é o meu plano de negócio. Trabalhei muito nele. Acho que vai impressionar-te.
Stefan, a quem raramente impressionavam planos alheios, pegou na pasta com indiferença.
– Não tens uma versão digital?
– Não quis guardá-lo no computador, caso o meu pai o encontrasse. O que importa são os números, não a apresentação.
Portanto, o seu pai não sabia nada do projeto. Isso explicava os nervos que tinha detetado sob o tom animado e otimista.
Certamente, tratava-se de um projeto de fim de curso, ao qual teria dedicado as horas mortas próprias de uma herdeira protegida, e ele era o afortunado recetor do seu trabalho.
Tentando ignorar a sensação de que algo não estava bem, Stefan deu uma olhadela à primeira página e surpreendeu-o considerá-la muito profissional.
– Velas? – perguntou, incrédulo. – É essa a tua ideia?
– Velas perfumadas – disse ela, com entusiasmo. – No colégio de freiras onde andei, aprendi a fazer velas e experimentei com diferentes essências. Tenho três.
«Velas, o produto mais aborrecido do planeta», pensou Stefan.
Como poderia livrar-se dela com delicadeza? Ele costumava atirar pessoas de uma grande altura e em seguida espezinhava os seus restos.
Pigarreou enquanto se esforçava para parecer interessado.
– Podes explicar-me o que as torna especiais? – perguntou, rezando para que não se excedesse nos detalhes. Falar de velas era tão interessante como falar do tempo.
– Chamei Descontração a uma, Energia a outra e a terceira é... – Selene ruborizou-se – a Sedução.
A hesitação dela fez Stefan levantar o olhar e bastou-lhe uma olhadela para decidir que a sua primeira intuição fora acertada, era uma herdeira entediada a brincar aos negócios.
E uma vez posto em marcha o seu cérebro, recordou com toda a nitidez a noite em que se tinham conhecido.
Selene era uma adolescente triste, desorientada e tímida. Um patinho feio rodeado de cisnes, do qual o seu pai não tirava os olhos de cima. Nenhum outro homem se incomodara em falar com ela e as mulheres tinham-na ignorado, portanto, ficara sozinha, tão incomodada que era quase doloroso observá-la.
Mas já não era aquela menina, senão uma mulher. E sabia-o.
Stavros Antaxos devia estar a passar as noites em branco. E Stefan pôde imaginar como teria reagido se visse a entrega e a confiança com que a sua filha o olhava naquele momento.
Só ele sabia até que ponto não merecia aquela confiança.
A questão era se Selene sabia qual era a relação entre o seu pai e ele.
A sua atitude e, em consequência, a atmosfera mudaram radicalmente. Com lentidão, Stefan fechou a pasta e olhou fixamente para Selene.
– Portanto, as tuas velas chamam-se Descontração, Energia e Sedução...
– Sim.
– E o que sabes tu de sedução? – perguntou Stefan, insinuante.
Capítulo 2
Fantástico... Em vez de perguntar pela situação do mercado ou pelas previsões de crescimento, Stefan queria falar de sedução.
Selene manteve o sorriso de mulher de negócios que andava a praticar há algum tempo.
O que sabia ela de sedução? Nada. Só sabia que sem a ajuda de Stefan jamais conseguiria tirar a sua mãe da ilha. Por isso, tinha de demonstrar que o seu negócio era viável.
– O que sei de sedução? Não muito, mas, como costuma dizer-se, não é preciso ter percorrido o mundo para saber de geografia.
Selene guardou para si que, além disso, tinha muita imaginação.
Perguntara-se com frequência se a sua insegurança e que Stefan tivesse sido amável com ela naquela noite teriam contribuído para que a sua mente de menina o convertesse num deus, mas a verdade era que era espetacularmente bonito, poderoso, forte e com uma masculinidade primária que a aturdia.
No entanto, não era o seu físico, apesar da sua altura e dos seus ombros largos, o que lhe parecia irresistível, senão algo muito mais indefinido. A suspeita de que sob aquele fato perfeito e a atitude cortês se escondia um homem que podia ser perigoso.
Selene tentou recordá-lo como o vira há cinco anos, mas foi-lhe impossível identificar o desconhecido amável com o homem de negócios frio e sofisticado que tinha diante de si.
Por outro lado, dada a velocidade a que estava a ver o seu plano de negócio, era evidente que lhe parecia muito fraco. A sua mãe tinha razão, não conseguiria que Stefan a ajudasse. Pelo que tinha lido sobre ele, era um homem no topo, rodeado de gente que lhe pedia conselho e que raramente ajudava. Porque ajudaria alguém como ela, sem nenhuma experiência?
Depois de beber um pouco de limonada, Selene não conseguiu aguentar mais a incerteza.
– Honestamente, achas que...? – ia perguntar-lhe se o projeto lhe parecia uma porcaria, mas conteve-se. – Considerarias investir neste negócio?
Selene sentia-se como uma impostora. Stefan devia ter-se dado conta imediatamente de que era a primeira vez que tinha uma reunião daquele tipo.
Ele fechou a pasta e deixou-a sobre a secretária. Com o movimento, a camisa colou-se aos seus braços musculosos e o coração de Selene acelerou. Sonhava constantemente com ele, há cinco anos que pensava diariamente nele.
– Selene? – a voz de Stefan tirou-a da sua abstração, sobressaltando-a.
– Diz.
Pela forma como Stefan a olhava, soube que conseguia ler a mente e tinha a certeza de que a sua era mais fácil de interpretar do que a média. A boca secou-lhe imediatamente. Se Stefan adivinhasse no que estava a pensar, seria melhor que o chão a engolisse.
As pesquisas na internet tinham-lhe acelerado o coração ao saber da sua vida social e da sua relação com as mulheres, as festas, as noites de estreia, a ópera, o balé. A lista era tão interminável como a dos nomes das suas acompanhantes.
– Tens uma amostra das velas? – perguntou ele.
– Sim – Selene mexeu na mala com mãos trémulas. A atração que Stefan exercia sobre ela era tão poderosa que a fazia perder o controlo. A culpa era do seu pai por a ter mantido encerrada. A consequência era que se convertera numa ninfomaníaca.
Stefan Ziakas teria sorte se acabasse aquela reunião com roupa.
Selene olhou-o de soslaio e foi consciente de ter cometido um erro quando viu que ele cravava nela os seus olhos dourados sob as pestanas densas e que a sua boca sensual se curvava num sorriso com o qual qualquer mulher teria perdido a cabeça. E assustou-a descobrir que não se importaria de ser uma delas.
– Estou convencida de que é um negócio com futuro – disse, com o estilo direto e eficiente que tinha praticado tantas vezes diante do espelho. – Também tenho algumas amostras de caixas. Vivemos tempos acelerados e stressantes. As velas perfumadas são um luxo acessível e o mercado já aumentou quarenta por cento.
Enquanto falava, pensou, tal como cinco anos antes, que Stefan tinha uns lábios perfeitos. Já então pensara por uma fração de segundo que ia beijá-la, mas enganara-se.
Stefan tirou-lhe a vela das mãos e observou-a.
– Queres fazer-me acreditar que isto é o negócio do futuro?
– Porque não? Não gostas de velas?
– Queres que te responda sinceramente? – perguntou ele, com um sorriso insinuante.
– Claro – disse ela, recordando que devia agir com profissionalismo.
– Sou um homem e, como tal, a única razão pela qual usaria velas seria no caso de uma falha de eletricidade.
– Mas as velas são muito mais do que isso – disse. – Por exemplo, a Sedução é ideal para criar a atmosfera perfeita para... para...
– Para? – incitou-a Stefan, com expressão risonha.
– Para seduzir – concluiu Selene, arrependendo-se de lhe ter dado aquele nome.
– Tens provas de que funciona? – perguntou Stefan, com um tom perturbadoramente doce, ao mesmo tempo que a olhava com intensidade.
– Contaram-mo.
– Mas tu não o verificaste por ti mesma – afirmou, mais do que perguntou.
E Selene sentiu que o seu olhar a queimava.
– Experimentei a Descontração e a Energia.
– Mas não fizeste uma pesquisa de mercado da Sedução?
– Sim, mas não a nível pessoal.
Produziu-se um longo silêncio. Stefan pousou a vela e apoiou-se na secretária.
– Deixa-me explicar-te uma coisa sobre a sedução, Selene – disse, com uma sensualidade mais poderosa do que qualquer vela. – É muito mais do que uma palavra. Consiste em provocar e persuadir até enlouquecer alguém. É verdade que o aroma é importante, mas o da pessoa seduzida, combinado com o toque e o som.
Selene ficou sem fôlego.
– O som?
– Quando estou com uma mulher, gosto de ouvir os sons que emite. Gosto de ouvir o seu prazer, assim como de o sentir com os meus lábios e os meus dedos. Além disso, há o gosto... – a sua voz era cada vez mais sussurrante e os seus olhos cobriram-se de um véu aveludado enquanto acrescentava: – Gosto de saborear cada milímetro de uma mulher e de a incitar a saborear-me.
– A sério?
– Olfato, tato, audição, paladar... A sedução usa todos os sentidos. Consiste em apoderar-se do corpo e da mente de alguém até que perca os sentidos e fique reduzido a um estado elementar no qual só importe o presente.
Selene sentiu que a cabeça lhe andava à roda.
– Talvez devesse mudar o nome da vela.
– Tenho a certeza de que há muitos homens que recorrem a uma vela como complemento. Só que eu não sou um deles.
Selene tinha a certeza de que Stefan não necessitava de mais do que as suas mãos e a sua boca para seduzir uma mulher.
Ao dar-se conta de que lhe tremiam as mãos, entrelaçou-as com firmeza no regaço.
– Que tu não sejas meu potencial cliente não significa que o produto não tenha valor – satisfeita por ter encontrado um comentário apropriado, acrescentou: – Ensinar-me-ás o que preciso de saber? – ao ver que Stefan arqueava os sobrolhos, explicou precipitadamente: – Refiro a como gerir uma empresa.
– Tenho de te fazer uma pergunta.
– Claro. Queres detalhes do produto? São de uma qualidade excelente, feitas com cera de abelha, quase não produzem fumo, nem gotejam. O suporte é...
– Que interessante... – disse ele, com ironia. – Mas essa não era a minha pergunta.
– Suponho que queiras saber a minha projeção de lucro. O Hot Spa acaba de me encomendar cinco mil. Uma vez que és o seu dono, sabes que é a cadeia de hotéis mais exclusiva da Grécia.
Stefan pegou na vela e devolveu-lha.
– Também não era essa a minha pergunta.
Selene humedeceu os lábios.
– Desculpa, estou a falar demasiado. Costuma acontecer quando estou... – Selene pensou em «desesperada», mas disse: – animada.
– A minha primeira pergunta é porque queres montar um negócio. Estás entediada?
Selene teve de conter uma gargalhada histérica.
– Não.
– És uma princesa. Não necessitas de um negócio.
– Quero provar a mim mesma que posso fazê-lo.
Stefan olhou prolongadamente para Selene.
– O que me leva à minha segunda pergunta. Porque recorreste a mim em vez de ao teu pai?
Selene obrigou-se a manter o sorriso.
– Quero que seja o meu projeto, não do meu pai. E prefiro não ter de pedir favores – disse, embora a sua presença ali demonstrasse o contrário. – Não posso ir a nenhum banco sem que peçam permissão ao meu pai. Pensei em ti porque és a única pessoa que não domina. E porque me disseste que voltasse dentro de cinco anos.
Produziu-se um novo silêncio, durante o qual Selene temeu ter cometido um erro grave ao recorrer a Stefan. Levantou-se rapidamente e disse:
– Obrigada por me teres ouvido.
Stefan cruzou os braços.
– Não queres saber a minha resposta?
– Pensava que necessitarias de tempo.
– Já tive todo o necessário – disse Stefan, sem desviar o olhar dela.
Selene assumiu que a resposta era que não e sentiu-se abatida.
– Muito bem. Então...
– A resposta é que sim.
As palavras foram tão inesperadas, que Selene demorou a assimilá-las.
– A sério? Dize-lo a sério ou porque te dou pena?
– Absolutamente – disse ele, olhando-a fixamente. Em seguida, caminhou até à janela e acrescentou, olhando para o exterior: – És consciente de que o teu pai vai ficar furioso?
Óbvio que era. E o seu receio era pôr em perigo a segurança da sua mãe.
Selene sentiu o impulso de lhe contar a verdade, mas guardou silêncio. Duvidava que Stefan quisesse que lhe falasse da sua vida. Portanto, optou por dizer:
– Terá de aprender que sou uma pessoa independente.
– Portanto, é um caso de rebelião adolescente tardia?
Selene optou por não o contradizer.
– Sei que não tens medo dele e que a simples menção do teu nome o enfurece.
Selene achou notar uma certa tensão nos ombros de Stefan.
– Alguma vez te contou porquê? – perguntou ele.
– Claro que não. O meu pai não fala de negócios com mulheres. Terá de se habituar à ideia – a dor que sentia no braço recordou-lhe até que ponto se enfureceria com ela. – Não pensei que isto pudesse prejudicar-te, mas se te incomodar...
– Absolutamente – disse Stefan. E, voltando para a sua secretária, fez uma chamada e deu instruções ao seu departamento legal para que se fizesse o necessário para proporcionar um empréstimo a Selene.
Ela observou-o sem poder acreditar no que ouvia. Ia ser assim tão simples? O nó que sentia há tanto tempo no estômago começou a afrouxar e a ansiedade transformou-se numa euforia que gostaria de lhe mostrar dando saltos de alegria.
Alheio ao impacto que a sua decisão tivera, Stefan desligou e disse:
– Já está. A minha única condição é que trabalhes com um dos nossos assessores para que te ajude a negociar com os fornecedores e a calcular o investimento necessário.
Stefan olhava-a através das pestanas compridas e Selene pensou mais uma vez em como era bonito. Além disso, as pessoas estavam enganadas. Não era o ser cruel e frio que retratavam, senão um ser humano capaz de compreender e ajudar os outros. Gostaria de lhe dar um abraço, mas temeu que não fosse profissional.
– Eu... Muito obrigada. Não te arrependerás – disse. E aproximou-se dele com a mão estendida.
Ele apertou-lha com firmeza, mas o que não deveria ter sido mais do que a forma de selar um acordo transformou-se em algo mais e Selene pensou que lhe bastaria inclinar-se ligeiramente para o beijar. Horrorizada, baixou o olhar para as suas mãos, ainda unidas.
– Agora que a decisão está tomada – disse ele com doçura, – a questão é até onde estás disposta a chegar na tua busca de independência.
Selene, cuja imaginação estava ocupada com o que sentiria se aquelas mãos magníficas lhe percorressem o corpo, sentiu que o coração lhe disparava no peito.
– Porque o perguntas?
– Porque organizei uma festa esta noite e fiquei sem acompanhante. Queres celebrar o teu novo estatuto?
Selene olhou-o nos olhos e viu que brilhavam com um resplendor perigoso que lhe tirou o fôlego.
– Estás a convidar-me a ir contigo? – jamais tinha ido a uma festa por pura diversão, em que pudesse agir espontaneamente. Selene perguntou-se porque a convidava. – Se te dissesse que não, significaria que...?
– O empréstimo está concedido. Não mudaria nada.
Selene disse a si mesma que devia recusar-se, que teria tempo depois para celebrar. Humedeceu os lábios.
– Que tipo de festa é?
– De adultos. Não haverá gelados, nem presentes – disse ele, sorrindo.
– Estás a convidar-me a ser a tua acompanhante?
– Sim.
Selene sentiu-se ainda mais entusiasmada do que quando Stefan tinha acedido a ajudá-la. Assistir a uma festa com ele, como a sua acompanhante?
Devia dizer que não. Depois de conseguir a ajuda dele, o plano era voltar para Antaxos e persuadir a sua mãe a ir-se embora com ela antes que o seu pai voltasse. Não podia aceitá-lo, embora fosse o que mais desejava no mundo.
Por outro lado, porque não o aceitar?
Pela primeira vez na sua vida, era livre de tomar a decisão que quisesse. Por uma vez, o seu pai não podia ditar o que devia fazer ou pensar. Se queria ir a uma festa, nada a impedia. Não era esse o objetivo final de tudo aquilo? Viver a sua vida tal como queria?
Sentindo-se liberta, comentou:
– Não tenho o que vestir.
– Isso não é nenhum problema.
– Sempre tive a fantasia de ir a uma festa com um vestido vermelho e beber champanhe acompanhada de um homem bonito de smoking. Beberemos champanhe?
Os lábios de Stefan curvaram-se num sorriso tão sensual que Selene pensou que deveria ser proibido.
– Toda a noite – sussurrou.
– E também...?
Com um olhar de picardia nos olhos, Stefan aproximou a sua boca da dela.
– Se vais perguntar-me o que acho, a resposta é que sim, garanto-te.
Capítulo 3
– Como conseguiste estes vestidos com tanta rapidez? E como adivinhaste o meu tamanho? – perguntou Selene ao encontrar-se diante de um cabide com os vestidos mais bonitos que vira na sua vida. Tinha conseguido sossegar a parte da sua mente que lhe dizia que estava a cometer uma imprudência e queria desfrutar do momento.
Maria tirou uma mala do embrulho de papel de seda.
– As pessoas reagem rapidamente às ordens de Stefan. É muito importante – disse. – Que tal escolheres um?
– Foi muito amável ao deixar que me ajudasses – disse Selene, mas, ao ver a cara que Maria fez, acrescentou: – Não te parece amável?
Maria tirou uns sapatos de uma caixa.
– Não é um adjetivo que alguma vez tenha usado para o descrever.
– Como homem de negócios, é lógico que tenha de ser severo, mas foi muito amável comigo.
Maria deixou os sapatos no chão, diante de Selene.
– Ainda bem. Qual vais provar primeiro? Stefan está numa reunião, mas, assim que acabe, quererá que se vão embora.
– O vermelho – disse Selene, sem hesitar. – É lindo – acrescentou, acariciando o corpete com lentejoulas escarlates. – Parece-te excessivo?
– Não. É uma festa muito elegante – Maria olhou prolongadamente para ele e perguntou: – De certeza que não queres provar o azul?
– Receias que o vermelho não seja do agrado de Stefan?
– Pelo contrário, receio que goste demasiado – depois de uma breve hesitação, Maria acrescentou: – Selene, tens a certeza de que queres ir à festa?
– Se quero ir? Estou desejosa! Não tens ideia de como a minha vida é aborrecida. No entanto, hoje vou usar um vestido lindo e beber champanhe com Stefan.
– Desde que saibas que é só isso... – Maria pigarreou suavemente. – Stefan é o sonho de qualquer mulher, mas depressa pode converter-se num pesadelo. Não tem a mínima intenção de se comprometer. Sabes isso, não sabes? És uma rapariga encantadora e eu não gostaria que sofresses.
Selene ficou paralisada. Ela sabia bem o que era sofrer e não se parecia em nada com o que sentia naquele momento.
– Não te preocupes. Só vou divertir-me por uma vez na vida.
– Porque não costumas ir a festas?
– Tenho um pai muito controlador – Selene apercebeu-se de que dissera mais do que devia. Pegando no vestido, perguntou: – Onde posso prová-lo?
– Aqui tens roupa interior – disse Maria, dando-lhe duas caixas. – Vai para o meu escritório e chama-me quando precisares de mim.
Uma hora mais tarde, Selene era dona de um vestido de noite lindo, assim como de uma muda de roupa, para passar a noite numa villa exclusiva numa ilha grega. Pela frente tinha a noite mais empolgante da sua vida.
E ainda teria tempo para voltar e convencer a sua mãe a ir-se embora com ela antes que o seu pai regressasse a Antaxos.
– Não podes levá-la à festa. É imoral.
Stefan levantou o olhar e descobriu Maria diante da sua secretária.
– Lembras-te de que foste tu quem a deixou entrar? – perguntou ele, pousando alguns papéis.
– Falo a sério, Stefan. Leva alguém mais do teu tipo.
– Mas esta manhã disseste-me que devia mudar. Vê se te decides.
– Não te disse para seduzir uma rapariga inocente.
– É adulta e sabe o que faz – Stefan pegou numa caneta e continuou a ler documentos.
– É uma idealista. Acha que és amável.
– Eu sei – disse Stefan, sorrindo, enquanto assinava na última página. – Por uma vez, sou um bom homem. Trata-se de um papel novo para mim e não imaginas como me agrada.
– Estás a brincar com ela como se fosse uma boneca – Maria apertou os lábios. – Manda-a para junto do seu pai.
Stefan esforçou-se para que o seu rosto não refletisse as emoções que se agitavam no seu interior à mera menção daquele homem. Pousou devagar a caneta.
– Sabes quem é o seu pai?
– Não, embora tenha dito que é muito controlador.
– É uma maneira de dizer que é um tirano. O seu pai, Maria, é Stavros Antaxos – Stefan viu que Maria empalidecia. – Sim – Stefan notou a tensão da sua voz e incomodou-o mostrar-se alterado apesar de praticar há duas décadas para controlar aquela reação.
– Como pode um homem como aquele ter uma filha tão encantadora como Selene?
Stefan perguntava-se o mesmo.
– Deve sair à sua mãe.
Maria parecia preocupada.
– E porque recorreu a ti, se vem de uma família rica?
Stefan também se perguntava o mesmo.
– Não sabias que sou o primeiro homem em que as mulheres pensam quando têm problemas?
– Tu és o homem que os causa.
– Ai, isso doeu... – Stefan recostou-se e esticou as pernas. – Aqui me tens, de espada em riste, disposto a matar o dragão para salvar a donzela, e só te ocorre afetar a minha confiança em mim mesmo.
Maria não sorriu.
– É o que estás a fazer? Porque o que me parece é que estás a usar a donzela para provocar o dragão.
Stefan manteve o sorriso.
– Quando fizemos as distribuições de papéis na empresa, o de cínico calhou-me a mim, não a ti.
– Tudo se contagia. Selene sabe como o seu pai te odeia? Conhece a história?
Ninguém a conhecia. Nem sequer Maria, que só tinha uma versão parcial e pensava que se tratava de uma rivalidade puramente empresarial. Não tinha ideia de como a inimizade era antiga, nem da profundidade das cicatrizes.
– Foi precisamente por isso que me escolheu a mim, pela minha relação com o seu pai.
Maria olhou para ele com desaprovação.
– E não está a ir de mal a pior?
– Insinuas que sou pior do que Antaxos? Não parece que tenhas uma boa imagem do teu chefe.
– Não estamos a falar de trabalho. Como empresário, és magnífico, mas és deplorável com as mulheres. O que pensas fazer com ela, Stefan?
– Tu deverias saber que não faço planos no que diz respeito às mulheres. Planear implica um futuro e ambos sabemos que só penso no presente. Acedi a apoiá-la no seu negócio e vou levá-la a uma festa onde pretendo conseguir que se divirta como nunca em toda a sua vida. Tem vinte e dois anos e quer ser independente. Pode tomar as suas próprias decisões.
– Não tem nenhuma experiência. Não será que queres ajudá-la precisamente para enfurecer o seu pai?
Stefan sorriu.
– Tenho de admitir que é um benefício acrescentado.
– Selene preocupa-me, Stefan.
– Ela recorreu a mim e eu limito-me a ajudá-la. Não me lembro de alguma vez te teres preocupado tanto com uma mulher da minha vida.
– Porque normalmente se bastam por si só.
– Talvez tenha chegado a altura de mudar – Stefan pôs-se de pé para dar a conversa por terminada. – Quando estará pronta? Suponho que esteja a provar todos os vestidos.
– Não demorou nem cinco minutos a decidir-se.
Dado que estava habituado a mulheres que demoravam horas a escolher o que vestir, Stefan surpreendeu-se.
– Cada vez gosto mais dela – disse.
– Tem uma excelente opinião de ti.
– Eu sei – Stefan dirigiu-se para a porta e Maria seguiu-o com um sopro de frustração.
– Não tens consciência?
– Não – limitou-se a dizer, enquanto vestia o casaco.
Quando Stefan tinha mencionado a sua villa, Selene não tinha imaginado uma mansão espaçosa rodeada de relvados perfeitos. Tratava-se de uma peça de arquitetura moderna, de tetos altos e espaços amplos, onde o chão de mármore refletia as cores quentes mediterrânicas, convertendo o interior num luxuoso, mas elegantemente sóbrio santuário.
Um alpendre emparrado dava acesso a um jardim profusamente colorido que descia até uma praia de águas calmas e cristalinas.
– Agora entendo porque as ilhas gregas são um destino turístico – comentou Selene.
Stefan olhou para ela com curiosidade.
– Por acaso, duvidavas?
Selene contemplou as águas turquesas e pensou que tinha passado de uma vida a preto e branco a outra em tecnicolor.
– Antaxos não tem nada a ver com isto. A sua costa é rochosa e quase não há praias – disse, recordando o rumor de que uma mulher local se apaixonara pelo seu pai e se suicidara saltando de uma das escarpas. – A casa do meu pai é de pedra e tem janelas pequenas. Supõe-se que para a proteger do calor, mas o facto é que é sombria. É por isso que gosto de como esta é luminosa e alegre.
– Alegre? – Stefan olhou para a villa. – Achas que as casas têm estados de espírito?
– Claro, tu não?
– Eu penso que um edifício é um edifício.
– Que ideia! Um edifício pode mudar o ânimo de quem o habita – Selene estendeu os braços. – Todo este espaço faz sentir-me livre. Sinto-me como se pudesse voar – acrescentou, mexendo os braços e girando.
Stefan segurou-a ao ver que perdia o equilíbrio.
– Pelas fotografias que vi, a casa de Antaxos é um castelo – comentou.
Selene sentiu a força dos seus dedos no braço.
– Mas não se parece em nada com esta. O meu pai não gosta de gastar dinheiro em coisas materiais.
– Há alguma coisa de que o teu pai goste?
«De magoar as pessoas», pensou Selene, mas procurou outra maneira de o expressar.
– De ganhar – disse.
– Isso é verdade – disse Stefan, largando-lhe bruscamente o braço.
Stefan sabia-o porque era um dos seus adversários, mas Selene viu algo obscuro nos seus olhos, que indicava uma coisa mais profunda.
– Odeias o meu pai, não é verdade?
– Digamos que não é uma das minhas pessoas favoritas.
O sorriso e o tom ligeiro do comentário não enganaram Selene. Stefan era tão implacável como o seu pai e, embora sabê-lo lhe produzisse inquietação, tentou ignorar a voz interior que questionava a decisão de ter recorrido a ele.
Seguiu Stefan através de várias divisões, todas brancas e com vista do mar, até chegar a um quarto.
Selene olhou à sua volta, extasiada.
– Que maravilha! Tem acesso à piscina e vê-se o mar da cama! É o meu quarto?
Stefan virou-se para ela com um sorriso felino.
– É o meu quarto – disse com doçura, ao mesmo tempo que afastava uma madeixa de cabelo do rosto de Selene, – mas vais partilhá-lo comigo, koukla mou.
Selene sentiu que o coração lhe acelerava, tanto pelo roçar dos dedos de Stefan, como pela antecipação do que ia acontecer.
– A cama parece muito cómoda.
– É. Infelizmente, só poderás verificá-lo mais tarde.
– Não me referia a isso.
– Eu sei. Adoro a tendência que tens a falar sem pensar.
O surpreendente para Selene era que o seu comportamento habitual era o oposto. Em sua casa, tinha atenção a cada palavra que dizia e não o fazer era libertador.
– A partir de agora, fecharei a boca.
– Não o faças – disse ele, fixando o olhar nos seus lábios.
Selene sentiu o coração a bater-lhe com força no peito e viu que ele curvava os lábios num sorriso tentador.
– Não – disse Stefan, com doçura. E perante o olhar interrogador de Selene, acrescentou: – Não vou beijar-te ainda. Há coisas que não devem fazer-se precipitadamente e a tua primeira vez é uma delas.
Selene não se sentiu intimidada por saber que era virgem e não se incomodou em negá-lo. Sentia uma corrente elétrica a percorrer-lhe o corpo e calor na pélvis. Ansiava tanto que Stefan a beijasse, que não sabia como conseguiria esperar toda a noite até que o fizesse.
– Talvez não me importe a precipitação – disse.
– Tens de ter mais cuidado com os homens – disse ele, olhando-a fixamente e acariciando-lhe os lábios com o polegar.
– Não sinto que precise de ser precavida contigo. Confio em ti.
– Não o faças.
– Porque não? – perguntou Selene, com firmeza. – És o único homem que não teme o meu pai.
Produziu-se uma longa pausa. Stefan inclinou a cabeça até apoiar a sua testa na de Selene.
– Ainda estás a tempo de mudar de ideias – disse, acariciando-lhe o rosto com o seu fôlego.
– Não penso mudar de ideias.
– Talvez devesse cancelar a festa e organizar uma privada só para nós os dois – disse Stefan, com o olhar velado.
Selene sentiu um aperto no estômago. Estava à beira de uma escarpa e devia decidir se saltava, mesmo correndo o risco de se afogar.
– Se não for à festa, não poderei usar o vestido.
– Poderias vesti-lo para mim – disse Stefan, com um sorriso provocador. – E eu tirar-to-ia.
– Não te parece que seria um desperdício?
– O vestido é só uma embalagem. Interessa-me mais o conteúdo – Stefan acariciou o pescoço de Selene com delicadeza. Naquele momento, o seu telemóvel tocou e, com um sorriso, disse: – Talvez seja melhor assim. Os convidados chegarão daqui a duas horas e, como a Cinderela, tens de te arranjar.
– Quanto tempo achas que necessito? – perguntou Selene, surpreendida.
– Pela minha experiência, as mulheres demoram anos a arranjar-se. Por isso, como uma boa fada-madrinha, pedi que viessem ajudar-te – o telefone continuava a tocar e Stefan tirou-o do bolso. – Desculpa, mas tenho de atender – disse e saiu.
Selene ficou sozinha, no meio do quarto. Abraçando-se, olhou, trémula, para a cama. Era enorme e luxuosa. Do dossel pendiam cortinas de gaze que lhe davam um ar de conto de fadas. Tirou os sapatos e deitou-se, recostando-se nas almofadas. Era como estar numa nuvem. Nunca se tinha sentido tão livre como naquele instante. Ninguém a observava, ninguém lhe dizia o que devia fazer.
Exultante de felicidade, levantou-se para explorar o quarto e descobriu uma casa de banho espetacular, com uma parede de vidro que permitia ver o mar da banheira.
Decidida a satisfazer um capricho, tirou as suas velas e o sabonete da mala e tomou um banho.
Não era ingénua ao ponto de não saber o que ia acontecer. De facto, andava há anos a fantasiar com Stefan e que fosse o seu primeiro homem era perfeito.
«Em breve, vou aprender tudo o que devo saber sobre a sedução», disse a si mesma.
Acabava de se enrolar numa toalha quando bateram à porta e duas mulheres carregadas com várias maletas entraram energicamente.
– Olá, Selene, sou Dana, a tua cabeleireira. E esta é Helena, a maquilhadora – disse uma delas, enquanto fechava a porta.
– Não tenho maquilhagem – disse Selene. O seu pai desprezava tudo o que tivesse a ver com vaidade. Só tinha acedido a pôr-lhe o aparelho porque o dentista lhe dissera que a longo prazo seria mais económico.
– Fica descansada. Nós temos tudo o que é necessário – disse Dana, abrindo uma das maletas.
– Podem fazer alguma coisa pelas minhas sardas e pelas minhas pestanas?
– Estás a brincar? – disse Helena, observando-a de perto. – Tens umas pestanas compridas e densas...
– Sim, mas tão claras que mal se veem. E sou muito sardenta.
– Foi para isso que se inventou o rímel – disse Helena. – E não tens nada de sardenta.
– Mas, primeiro, o cabelo – Dana colocou uma cadeira no meio do quarto. – Não deves olhar-te ao espelho até que acabemos. Eu não gosto de estragar o fator surpresa.
Selene estremeceu ao ver uma madeixa de cabelo a cair ao chão.
– Vais cortar-mo!
– Não, só vou cortar as pontas e escadeá-lo. Stefan proibiu-me de to cortar porque diz que o adora.
Selene ficou vermelha. Stefan gostava do seu cabelo!
– Está muito saudável – acrescentou Dana, enquanto trabalhava com habilidade e se desviava de Helena, que começara a fazer-lhe a manicura.
Depois de lhe secar o cabelo, Dana fez-lhe um penteado com o qual pareceu ficar muito satisfeita.
– E, agora, a maquilhagem.
– Apagar-me-á as sardas? – insistiu Selene.
– Para quê? Dão-te um toque encantador – Helena passou-lhe os dedos pelo rosto. – Tens uma pele maravilhosa – comentou. E abriu vários frascos. – Que produto de limpeza usas?
– O sabonete que faço eu mesma – disse Selene, tirando um da sua mala. – Experimenta-o. Também faço velas, mas Stefan não acredita que haja gente interessada.
– Como vai sabê-lo se é um homem?
Selene sorriu enquanto Helena cheirava o sabonete.
– Cheira maravilhosamente. E a tua pele é a melhor publicidade – Helena guardou-o na mala. – Vou experimentá-lo – em seguida, virou-se para Selene e acrescentou: – Não vou maquilhar-te muito. Tens um ar fresco e natural que não quero estragar.
Selene teve a sensação de que passavam horas e começou a impacientar-se. Até que, finalmente, Helena retrocedeu para a observar.
– Meu Deus, que bem que faço o meu trabalho! Estás espetacular, mas, antes de te veres ao espelho, veste-te, assim o efeito será completo – com um sorriso, acrescentou: – Quase sinto pena de Stefan.
Capítulo 4
Stefan circulava entre os seus convidados.
– Vá lá, Stefan, quem é? – uma atriz de Hollywood com quem tinha namoriscado durante meses não escondeu a sua irritação ao saber que tinha uma convidada especial. – Espero que não seja Sonya.
– Não.
– Porquê tanto mistério? E porque continua no quarto em vez de vir?
– Deve estar exausta – resmungou alguém próximo.
Stefan limitou-se a sorrir, ao mesmo tempo que tirava um copo de champanhe que lhe oferecia um empregado.
– É uma mulher discreta e tudo isto é novo para ela – disse, seguindo o seu hábito de se aproximar o máximo possível da verdade.
Carys Bergen, uma modelo com quem tinha saído algum tempo, aproximou-se.
– És perverso. Quem é a mulher que vai aparecer como um coelho que tirasses da cartola?
Stefan foi à procura de Selene, deixando os seus convidados expetantes e pegando noutro copo de champanhe pelo caminho.
Quando entrou e não a viu, franziu o sobrolho.
– Selene?
– Estou aqui.
Ao virar-se, Stefan viu uma mulher vestida de escarlate que não tinha nada a ver com a jovem que deixara horas antes.
– Esse vestido fez-se com o propósito de que um pobre homem queira arrancar-to – sussurrou, reparando nas curvas deliciosas da sua cintura e dos seus seios que o vestido abraçava como uma luva.
Selene sorriu, encantada com a boa impressão que claramente lhe tinha causado.
– Ninguém te descreveria como um «pobre homem». E sei que andas sempre acompanhado de mulheres com vestidos espetaculares. Portanto, o que tem este de especial?
– A pessoa que o usa.
– Oh, senhor Ziakas, que galante!
Desconcertado por o seu galanteio ser recebido com uma brincadeira, Stefan deu-lhe o champanhe.
– Champanhe, um vestido vermelho e um homem de smoking. Penso que é a primeira vez que consigo tornar realidade os sonhos de uma mulher – comentou.
– Assim é. Obrigada – Selene provou o champanhe, fechando os olhos. – Sabe a festa – bebeu outro gole, seguido de outro.
Stefan arqueou os sobrolhos.
– Se quiseres recordar a noite, é melhor que bebas devagar.
– É delicioso. Adoro sentir as bolhas na língua. E a vantagem de ser independente é que posso decidir o que bebo.
– Como queiras, mas, embora adore que gostes do champanhe, não gostaria que a minha acompanhante acabasse inconsciente.
Ofereceu-lhe o braço e Selene, pousando o copo vazio, aceitou-o.
– Obrigada.
O seu sorriso amplo e sincero desconcertou Stefan, que estava habituado a um estilo mais manipulador e coquete. Selene não parecia ter nenhuma cautela, nenhuma proteção contra o mundo. Como se defenderia quando abandonasse o círculo protetor do seu pai?
– Porque me agradeces?
– Por acederes a ajudar-me, por me convidares para a festa e por te encarregares de que tivesse este vestido lindo. És o meu herói – Selene levantou a cabeça para o observar e acrescentou: – Já agora, estás muito bonito. Os dragões da Grécia devem estar encerrados nas suas cavernas para evitarem encontrar-se contigo.
– Os heróis não existem e é evidente que bebeste demasiado depressa – disse Stefan, enquanto pensava em pedir que o pessoal preparasse uma bebida sem álcool para que Selene não acabasse em coma alcoólico.
Ela deslizou o olhar para os seus lábios.
– És muito modesto – sussurrou. – As pessoas estão muito enganadas.
– E tu és muito inocente. E se estivessem certas?
Ignorando o comentário, Selene segurou-o pela lapela e puxou-o para si.
– Sabes o que acho? Que projetas essa imagem de mau para afastar as pessoas. Sobretudo as mulheres. Acho que receias a intimidade.
Stefan ficou estupefacto. Selene acabava de encontrar a única fresta por onde podia atravessar-se a sua armadura e tinha-lhe cravado uma adaga. Só podia ser uma casualidade. Nem ela nem ninguém conheciam o seu passado.
– Isso não é verdade, como penso demonstrar-te mais tarde. Portanto, não bebas demasiado ou adormecerás antes de chegar o melhor da noite – disse ele, com aspereza. E conduziu-a para a porta.
– Perdoa-me se te ofendi – disse ela.
– O que te faz pensar isso?
– Mudaste de tom de voz.
Stefan, que se vangloriava de não deixar transparecer nenhum sentimento, começou a suar. Por acaso, Selene tinha poderes?
– Não me ofendeste. Só que os convidados estão à nossa espera. Estás pronta?
– Sim, embora não saiba se pronta para que me odeiem.
– Porque dizes isso?
– Porque estou com o homem mais bonito da Terra. Todas as mulheres vão odiar-me, mas não te preocupes, sendo filha de Stavros Antaxos, habituei-me a não ter amigos.
Embora falasse com tom animado, Stefan recordou a noite no iate, quando a tinha encontrado quase escondida num canto, e como não soubera disfarçar a sua alegria quando ele se sentara ao seu lado.
– A amizade é um sentimento sobrevalorizado. Quando alguém quer ser teu amigo, costuma ser porque quer alguma coisa de ti.
– Isso não é verdade.
– Não queres acreditar nisso porque és uma idealista – Stefan abriu-lhe a porta.
– Queres dizer que a verdadeira amizade é impossível? – perguntou ela, dececionada.
– O que digo é que a tentação do dinheiro costuma ser muito poderosa e muda tudo – disse Stefan, sentindo que a cicatriz do seu coração se ressentia ao recordar até que ponto eram verdadeiras as suas palavras. – É melhor que não o esqueças.
– É o que tu fazes? Proteges-te para não sofrer?
Stefan, que mantinha sempre as conversas a um nível superficial, perguntou-se porque com Selene tendiam a adquirir uma nova profundidade.
– Eu vivo como quero. Neste momento, o que quero é ir para a minha festa. Vamos?
Toda a gente olhava disfarçadamente, por cima dos seus copos de champanhe, mas a expressão geral era a mesma: surpresa.
Sentindo-se como um pássaro recém-libertado da sua gaiola, Selene pegou noutro copo.
– Tens a certeza de que deves continuar a beber? – perguntou Stefan, franzindo o sobrolho.
– O lado bom desta noite é que posso tomar as minhas próprias decisões. Decidi vir à festa, vestir este vestido e beber champanhe.
– Fica sabendo que também estás a escolher ter uma terrível dor de cabeça amanhã.
– Não me importa – disse Selene, sorrindo. – O champanhe faz com que tudo seja mais interessante.
– O segundo copo, sim. A partir do terceiro, esquecerás como tudo foi interessante. Devias passar para o sumo de laranja.
– Quero verificar por mim mesma se me dará dor de cabeça ou não.
– Recordar-to-ei quando te sentires mal.
Selene riu-se animadamente.
– De quantos copos precisas para me beijar?
– Para isso não preciso de estar ébrio, koukla mou – disse Stefan, com olhos brilhantes.
– Então, porque não me beijas? – disse Selene, agarrando-o pelas lapelas e fechando os olhos.
Selene esperou com ansiedade o contacto dos lábios de Stefan nos seus, mas, em vez de a beijar, Stefan acariciou-lhe a face. Ela abriu os olhos, com o coração acelerado. Stefan agarrou-a então pela nuca e puxou-a para si.
– O que tens para que me seja impossível afastar-me de ti embora devesse fazê-lo? – perguntou ele, a milímetros do seu rosto.
Selene sentiu o desejo a explodir no seu ventre.
– Talvez isso aconteça porque estou a agarrar-te pelas lapelas? – brincou.
Mas Stefan não sorriu.
Expetante, Selene viu um brilho nos seus olhos e descobriu que um olhar bastava para provocar uma reação física quando o de Stefan lhe percorreu o corpo, convertendo-lhe o sangue em lava. O desejo de receber aquele beijo ameaçou sufocá-la. Até que finalmente sentiu o roçar dos lábios de Stefan, ao mesmo tempo que ele lhe deslizava a mão pelas costas e a puxava para si.
Selene sentiu o calor e a tensão que emanava dele e subitamente soube que atravessara a fronteira entre a fantasia e a realidade. Os olhos de Stefan perderam todo o brilho de diversão e refletiram uma pura e primária sexualidade masculina. E Selene soube que era ele quem controlava cada segundo daquele encontro: o tempo, a intensidade, inclusive as reações que queria conseguir dela.
Simultaneamente, soube que ter decidido explorar a sua sexualidade com aquele homem era como ter comprado um gato e descobrir que se tratava de um tigre. Em Stefan não havia rasto de mansidão. Todo ele era perigo. E representava tudo com que ela tinha sonhado todos aqueles anos quando imaginava a sua nova vida.
Rebobinando mentalmente, tentou afastar-se de Stefan, mas ele segurou-a com firmeza.
– Fecha os olhos, esponja de champanhe.
A ordem sussurrada penetrou nos ossos de Selene, que se sentiu como se tivesse saltado de uma prancha para águas turbulentas.
Então, sentiu o beijo de Stefan, experiente e sensual, a sua língua a acariciar-lhe os lábios, e entregou-se plenamente às sensações, até que a cabeça lhe andou à roda e a capacidade de pensar se diluiu.
Foi o momento mais excitante e perfeito da sua vida, e, ao abraçar-se ao pescoço de Stefan e sentir a evidência física de que estava excitado, o seu corpo tremeu. Saber que a desejava era tão embriagador como o champanhe.
– Porque não vão para um quarto? De certeza que o dono da villa vos emprestaria um.
Uma voz feminina atravessou a nebulosa em que Selene se encontrava. Ter-se-ia afastado de Stefan, sobressaltada, se ele não a tivesse segurado contra si.
– Carys, és muito inoportuna...
– Achas? – disse a mulher, sarcástica.
Desiludida pela interrupção, Selene olhou para a mulher, que era de uma beleza espetacular. Ela estendeu-lhe a mão.
– Sou Carys. E suponho que tu sejas Selene.
Desconcertou-o que a reconhecessem. Era uma possibilidade que nem considerara.
– Conhecemo-nos?
– Claro! O que estranho é que não estejas com os teus pais. São uma família tão unida...
Selene sorriu, impertérrita. Tinha muita prática naquele tipo de conversa.
– Prazer em conhecer-te.
– Igualmente – Carys levou o copo aos lábios, olhando Stefan com admiração. – Tenho de admitir que tens a genialidade de Maquiavel. Partida, largada, fugida, Stefan.
Selene, que intuiu que aquela conversa tivesse a ver com a sua relação, permaneceu em silêncio. Carys tirou dois copos da bandeja que um empregado lhe estendeu e deu-lhe um.
– A ti!
Selene recordou o conselho de Stefan, mas não conseguiu suportar a ideia de pedir um sumo de laranja diante de uma mulher tão sofisticada como aquela, portanto, aceitou o copo, brindou com Carys e bebeu. O álcool aqueceu-lhe o sangue e encorajou-a imediatamente. Queria dançar, mas, ao ver que a pista estava vazia, perguntou porque ninguém dançava. Carys olhou para ela com ironia.
– Dançar... acalora – disse em jeito de explicação.
– E isso é mau? – perguntou Selene, ao mesmo tempo que começava a mexer-se ao ritmo da música.
– Isso depende de ti, mas, se conseguires arrastar Stefan até à pista de dança, terás triunfado onde as demais fracassaram – disse Carys. E afastou-se.
– Odeia-me porque está louca por ti – disse Selene, seguindo-a com o olhar.
– Não és tão inocente como pareces – disse Stefan.
– Sou boa psicóloga.
Era uma das consequências de ter vivido a ler entrelinhas, interpretando emoções e intenções para poder antecipar as consequências. Abstraída, acabou o copo, que Stefan lhe tirou da mão e substituiu por um sumo.
– Aprende isto. O álcool faz sentir-te bem por cinco minutos, mas, se continuares, acabarás a chorar no meu ombro.
– Eu só choro de felicidade. E como me sinto extremamente feliz, deverias ter uns quantos lenços à mão – rindo-se ao ver a cara que Stefan fazia, Selene soltou-se dele e foi para a pista de dança.
Ele segurou-a pelos braços.
– Acabou-se o champanhe – disse.
– Chato...
– Faço-o pelo teu cérebro.
– Quero começar a minha nova vida – disse ela, mexendo-se ao ritmo da música.
Stefan continuou a agarrá-la.
– Mas não é preciso que a vivas numa noite.
Começou a tocar uma música mais lenta e Stefan agarrou Selene pela cintura. Ela suspirou e passou-lhe o braço pelo pescoço.
– Sabes quando um sonho se cumpre e a realidade supera todas as tuas expetativas?
Stefan acariciou-lhe os lábios.
– Não sei o que pensas acrescentar, mas está na altura de fechares a boca.
– Não admira que enlouqueças as mulheres, porque és verdadeiramente sensual.
Stefan abanou a cabeça com incredulidade.
– O que fizeste à rapariga tímida que chegou ao meu escritório?
– Acho que este é o meu verdadeiro eu, mas até agora não se manifestara.
Stefan sorriu com uma mistura de diversão e impaciência.
– Deveria temer-te?
– Tu não tens medo de nada. Foi por isso que recorri a ti. Sei que não é politicamente correto admiti-lo, mas acho que os homens fortes me excitam – sentindo-se enjoada pelo ambiente de festa e pelo champanhe, Selene apoiou a testa no peito de Stefan. – E, ainda por cima, cheiras maravilhosamente – acrescentou.
– Selene...
– E beijas como um deus. Deves ter praticado durante horas. Fico feliz por ter riscado uma das coisas da minha lista de desejos.
– Tens uma lista de desejos?
– Sim, dez coisas que queria que acontecessem quando deixasse a ilha para viver a minha vida. Ser beijada era uma delas e graças a ti cumpri-o com nota máxima. Outra é acordar junto de um homem verdadeiramente sensual – concluiu Selene, olhando para Stefan de soslaio e recebendo dele outro olhar de perplexidade.
– Isto é o que acontece quando uma filha demasiado protegida deixa o ninho. O que mais há na tua lista?
Selene apercebeu-se de que estava demasiado confusa para o recordar com precisão.
– Ser capaz de tomar as minhas próprias decisões. Sexo, é óbvio. Quero ter sexo selvagem e apaixonado.
– Com alguém em particular? – perguntou ele com ironia.
Selene sorriu.
– Sim, contigo. Sempre quis que fosses o meu primeiro homem – disse Selene, que não via a necessidade de mentir. – Espero não estar a pôr-te nervoso.
Stefan olhou-a com olhos brilhantes, mas o sorriso apagou-se dos seus lábios. A atmosfera mudara subtilmente.
– Acho que o champanhe está a falar por ti.
– Não. O champanhe só me ajudou. Vê-se que é bom para desinibir.
– Parece que sim – disse Stefan. Com um suspiro, agarrou-lhe a mão e, tirando-a da pista, levou-a por um caminho estreito que conduzia à praia.
– Onde vamos? Não andes tão depressa!
– Estou a tirar-te da festa antes que faças alguma coisa da qual possas arrepender-te – Stefan soprou quando Selene tropeçou e caiu em cima dele. – Não devia ter-te deixado beber aquele terceiro copo! – disse com aspereza. Em seguida, pegou-lhe ao colo e, como se fosse leve como uma pluma, desceu umas escadas. – Aqui vai outro conselho. Da próxima vez, para de beber enquanto conseguires andar em linha reta.
– Talvez não haja uma próxima vez. É por isso que quero aproveitar esta ao máximo. Quero viver o presente ou, pelo menos, estou a tentá-lo, mas não é fácil quando a pessoa que me acompanha não faz o mesmo.
– Theé mou... – com os dentes apertados, Stefan deixou-a na areia, onde ela se deixou cair.
Abanando a cabeça para focar a visão, ela tirou os sapatos.
– Sinto a cabeça a andar à roda. Da próxima vez, beberei mais devagar. E, se te atreveres a dizer-me «eu avisei-te», dou-te um murro.
Stefan soprou.
– És consciente do que poderia ter acontecido? Praticamente, ofereceste-te a mim.
– Eu sei e vê-se que não o fiz bem, porque estás a olhar-me com desaprovação. Não achas que uma mulher tem tanto direito como um homem a desfrutar do sexo?
Stefan suspirou lentamente.
– Certamente – disse.
– Então, porque me olhas com essa cara de zangado? E eu que esperava que fosses tão mau como dizem... – disse ela, deitando-se na areia.
Stefan soprou mais uma vez.
– Devias agradecer que uma das minhas regras seja não ter relações com uma mulher bêbada! Endireita-te. Não posso falar contigo se estiveres deitada como se fosses uma estrela-do-mar!
– Porque é que todos os homens me comparam a animais? O meu pai chamava-me girafa. Agora, tu chamas-me estrela-do-mar. No dia em que me chamarem baleia, suicido-me.
Com um gemido de exasperação, Stefan inclinou-se e, agarrando-a pelos braços, obrigou-a a pôr-se de pé. Ela caiu contra o seu peito.
– Isto não está a correr como pensava – disse Stefan, depois de um momento de silêncio em que só se pôde ouvir o marulhar das ondas e a respiração de ambos.
– A quem o dizes... Com todas as coisas que pensava que podiam acontecer a uma rapariga com um vestido como este, afinal só recebi um beijo espetacular e um sermão.
Stefan agarrou-a com força.
– Deverias estar agradecida pelo controlo que estou a exercer sobre mim mesmo.
– Pois, não estou. De facto, daria qualquer coisa para que te deixasses levar pelos teus instintos mais primários.
Stefan resmungou algo entredentes e em seguida, agarrando-lhe o rosto com ambas as mãos, beijou-a. Ela sentiu uma corrente elétrica a percorrer-lhe o corpo, a penetrar os seus ossos e a deixá-la sem forças. Quando Stefan lhe abriu os lábios com a língua e explorou a sua boca, no seu baixo-ventre explodiu uma bola de fogo. Stefan continuou a beijá-la lentamente, até que Selene perdeu a noção de tudo, inclusive de si mesma.
No preciso instante em que pensava que o seu sonho por fim se tornaria realidade, Stefan interrompeu o beijo e ela sentiu-se perdida. Olhou para Stefan na penumbra e foi plenamente consciente do contraste que havia entre eles. Ele era força e virilidade, enquanto ela, embora sendo alta, mal lhe chegava ao ombro. Sem pensar, estendeu a mão e acariciou-lhe a face, o que arrancou um suspiro profundo a Stefan.
– Vou levar-te para o quarto – disse ele.
– Sim. Leva-me para que possamos experimentar aquela cama gigantesca. Despe-me e faz-me coisas perversas – sussurrou ela, enquanto lhe acariciava os braços. – És muito forte.
– O suficiente para impedir que faças alguma coisa da qual te arrependerás amanhã.
– Vês? Supõe-se que és mau, mas és bom. Lamento dizê-lo, mas eu avisei-te. No fundo, és uma boa pessoa. Embora neste momento... – Selene conteve um bocejo. – Neste momento, desejaria que não fosses.
– Cala-te, Selene. Para de dizer tudo o que pensas.
– Passei toda a vida a calar o que penso – disse ela e conteve uma exclamação quando Stefan se inclinou e lhe pegou ao colo.
Com expressão severa, Stefan levou-a por um caminho privado para a villa.
Quando passaram junto da piscina, ela sussurrou:
– Este sítio é tão romântico... – olhou para a superfície espelhante da água e pensou que era um lugar mágico. O muro que a rodeava estava coberto de plantas exóticas e ouvia-se o murmúrio de uma fonte. – Desde quando vives aqui?
– Há muito tempo – resmungou ele, com aspereza. – Consegues andar ou levo-te ao colo?
– Prefiro continuar nos teus braços – disse ela, agarrando-se com força ao seu pescoço. – Quero que me leves para a cama e que me ensines tudo sobre a sedução. Podemos considerá-lo pesquisa de mercado.
– Como estás, amanhã não te lembrarás de nada.
– Se preferires, tomarei notas. Prometo concentrar-me e aprender alguma coisa. Não terás de me repetir nada.
– A primeira coisa que tens de aprender é que nunca deves beber demasiado. Da próxima vez que te oferecerem uma bebida, escolhe uma sem álcool – olhando-a com desaprovação, Stefan deixou-a no meio da cama e deu instruções em grego a uma mulher que entrou com eles.
Selene virou-se de lado e murmurou:
– Passas o tempo a dar ordens. Alguém te diz alguma vez que não?
– Trabalham para mim. Pedi que te trouxessem um café.
– Se beber café tão tarde, não conseguirei dormir. Também dás ordens na cama? – Selene endireitou-se e apoiou o queixo nos joelhos. – Tira a roupa... Deita-te assim... – acrescentou, imitando uma voz grave.
– Cala-te – disse Stefan, com tom severo.
Selene observou-o com aberta admiração.
– Posso perguntar-te uma coisa?
– Não.
– Alguma vez estiveste apaixonado?
– Selene, fecha essa boca linda e cala-te – disse Stefan. E, tirando o casaco, pendurou-o na cadeira mais próxima.
– Deduzo que não – Selene deixou-se cair sobre as almofadas. A cabeça andava-lhe à roda. – Eu quero estar apaixonada, mas quero que ele também me ame. Nunca estaria com alguém que não me amasse.
– Qual é o objetivo dessa conversa?
– Que me conheças melhor.
– Não preciso. Já sei tudo o que necessito.
– Portanto, és um homem que não acredita no amor... Certamente, para ti é só um mito, como o minotauro ou a lenda da Atlântida.
– Selene, para de falar – Stefan tirou o laço com impaciência. – Vai à casa de banho e toma um duche frio. De certeza que te ajudará.
Selene deitou-se de barriga para baixo e apoiou o queixo nas mãos.
– Sabes o que falta a este quarto? Velas perfumadas. Os estudos demonstram que um homem tem muito mais hipóteses de se deitar com uma mulher se tiver velas perfumadas.
Stefan apertou os lábios.
– Tu não sabes nada disso.
– Estou a fazer o possível para aprender, mas tu não me ajudas – tentando ignorar o enjoo que sentia, Selene disse, insinuante: – Beija-me. E desta vez não pares.
Stefan ficou paralisado e o seu olhar velou-se.
– Estás a brincar com o fogo.
– Preferia brincar contigo... – ao ver a cara de exasperação de Stefan, Selene riu-se. – Para um homem sofisticado com uma reputação terrível, és muito comedido.
– É o que costuma acontecer-me quando uma mulher bêbeda me diz que quer amor – disse Stefan, desabotoando o primeiro botão da camisa sem desviar o olhar de Selene.
– Não estou bêbada e não quero amor. Só quero sexo – disse Selene veementemente. – Sexo selvagem. Não te preocupes. A seguir, podes ir-te embora e não voltar a falar disso. Será o nosso segredo.
A atmosfera transformou-se bruscamente. Por um instante, Selene pensou que Stefan ia sair do quarto, mas, em vez disso, ficou a olhá-la fixamente, como se estivesse a tomar uma decisão.
Justamente quando Selene pensou que não ia fazer nada, ele caminhou para a cama com passo firme. Ela sentiu um aperto no estômago e o mais delicioso nervosismo.
– Diz alguma coisa... – sussurrou, endireitando-se.
– Já dissemos tudo o que era preciso – disse Stefan com voz grave, ao mesmo tempo que desabotoava a camisa com determinação.
Surpreendida, Selene deslizou o olhar pelo seu peito, pelos seus braços, pelo seu ventre...
– Eu... Eu...
– Selene, fizeste-me um convite e estou aqui para o aceitar. Não era o que querias? – disse Stefan.
E, sem desviar o olhar dela, levou a mão ao fecho das calças.
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