Читать книгу: «O humor da minha vida»

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Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

Citações nas páginas 176, 177, 178, 184, 188, 189, 190, 191, 193, 207, 208, 209 e 212 da edição em papel, correspondente aos capítulos 12 e 13, reproduzidas sob autorização © Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano da Vida e da Morte, Editorial Presença, 7.ª edição, tradução de Isabel Andrade.

The Tibetan Book of Living and Dying, edição revista de Sogyal Rinpoche. Copyright (c) 1993 de Rigpa Fellowship. Autorização concedida pela HarperCollins Publishers.

As citações da AECC (Asociación Española Contra el Cáncer) foram tiradas de www.aecc.es.

As menções a Rafael Santandreu foram autorizadas pelo próprio autor.

As menções a Enric Benito e a www.alfinaldelavida.org foram autorizadas pelo próprio autor.

Título em português: O humor da minha vida

Título original: El humor de mi vida

Tradutora: Fátima Tomás da Silva

© 2021, Paz Padilla Díaz

© 2021, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.

© 2021 do prólogo «Viver, rir e aprender a morrer», Enric Benito

© 2021 do prólogo «Transformar a nossa mente num Ferrari», Rafael Santandreu

© 2021 do prólogo «Caminha com o coração», Verónica Cantero

Todos os direitos estão reservados, incluindo os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.

Revisão editorial: Paco Gómez Padilla

Desenho da capa: CalderónStudio

Desenho de interiores e paginação: Raquel Cañas Hernández

Fotografia da autora: Iván Martín

ISBN: 978-84-9139-664-2

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Índice

Créditos

Dedicatória

Prólogo: Viver, rir e aprender a morrer, por ENRIC BENITO

Prólogo: Transformar a nossa mente num Ferrari, por RAFAEL SANTANDREU

Prólogo: Caminha com o coração, por VERÓNICA CANTERO

O humor da minha vida

Introdução. Amor, morte e humor

1. O Largo e a Larga

2. Vinte anos não são nada

3. Sodoma e Maldivas

4. Com papéis

5. Ouviste o mesmo que eu?

6. Não estamos preparados para morrer

7. Primeiros contactos

8. Só sei que nada sei

9. Mzungu

10. Tarzan

11. Negacionismo

12. A arte de morrer bem

13. A nova perceção

14. Dona Lola

15. Que pena dela!

16. Tes quiero may lof

Agradecimentos

Ao meu Antonio,

pela sua generosidade, a sua bondade,

a sua honestidade, a sua integridade,

a sua força e a sua luz,

por me fazer sentir única,

por me amar tanto.

Contigo, não faltava nenhuma peça ao puzzle,

eras perfeito.


A vida é uma caixinha de surpresas. Em julho de 2020 ligaram-me da Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos a pedir permissão para dar o meu número de telefone a alguém que insistia em querer falar comigo. Tratava-se de uma atriz que, há poucos dias, acabara de perder o marido e conhecia os meus vídeos no YouTube. A intermediária acrescentou a sua opinião, dizendo que a pobre devia estar muito afetada e queria pedir apoio para o seu desconsolo.

Tratava-se da Paz, que me ligou ao fim de algumas horas e, desde o começo, desmontou o falso alarme de «possível viúva desconsolada a pedir apoio para um luto complicado». Com a sua voz cantarina, cheia de energia e entusiasmo, a primeira coisa que me disse — acentuando e prolongando o «i» — foi:

— ENRÍÍÍÍC! Estava desejosa de te agradecer por me teres ajudado tanto com os teus vídeos para poder acompanhar o meu Antonio.

Surpreendi-me com a sua maturidade, a sua vitalidade e a sua coragem e alegrei-me com a troca de perspetiva de «ajudar alguém que estava a sofrer» pela de poder partilhar a experiência que se dá nestes momentos e que poucos chegam a descobrir.

Tivemos uma conversa longa em que descobri que a Paz, acompanhando o seu amor até à beira do mistério que é morrer, fizera um processo pessoal que mudara o seu olhar sobre a vida. Estava comovida com isso e interessada em falar com alguém que conseguisse entendê-lo.

Depois de anos a viver estas experiências ao lado da cama, alguns de nós comprovaram que o amor é mais forte do que a morte e que quem se aproxima, sem medo e com amor, a acompanhar o processo de alguém amado, com frequência, descobre o presente de aprender diretamente que a morte não existe e sai transformado. Sofre o que se chama uma metanoia, uma mudança de perspetiva.

Quando a pessoa que morre vai em paz, na medida em que estamos ligados a ela, podemos receber esta herança de sentir a continuidade do importante, da solidez do subtil e da inefabilidade do transcendente e esta experiência muda-nos a vida.

Pareceu-me uma maravilha que alguém com a energia, sensibilidade e potencial impacto social da Paz pudesse ter vivido este processo. E alegrei-me por ter podido ser de alguma ajuda.

Desde o princípio, a Paz soube que o que viveu e aprendeu com esta experiência não era algo que queria só para ela e que queria partilhá-lo, talvez por perceber o sofrimento que se associa à ignorância tão grande de algo tão importante como a vida não ter fim.

Depois desta primeira conversa, tivemos outras e, numa delas, pediu-me algo que voltou a tirar-me da minha zona de conforto: Convidou-me para a acompanhar num programa de televisão que nunca vejo e tentei escapulir-me, dizendo-lhe que a minha filha não me perdoaria, pois, em casa, somos do âmbito académico e os programas de telerrealidade não têm prestígio. A sua perseverança fez-me ver que havia algo em que ambos, a Paz e eu, concordávamos: A necessidade de mostrar às pessoas uma nova perspetiva do morrer que nos levará a uma compreensão maior do viver. E, ignorando as minhas reservas, acabei por aparecer em Sálvame Deluxe para apoiar esta mulher — já amiga —, cuja coragem a levou a mostrar publicamente, poucos meses depois do falecimento do marido, uma forma saudável, realista, construtiva e sem hesitações — apesar do ambiente em que vivia — de enfrentar uma perda e sair com mais sabedoria.

Noutra das nossas conversas, a Paz disse:

— Quero escrever um livro sobre a minha experiência.

E soube logo — a intuição é a forma como a verdade me chega — que seria algo que valeria a pena e decidi fazer o prólogo. E aqui estou.

Vamos ao livro. Em primeiro lugar, obrigado, Paz, pela tua generosidade e pela tua coragem para mostrar ao mundo as tuas lembranças, reflexões e experiências, frequentemente íntimas e sempre próximas, autênticas e, com frequência, comovedoras. Li-o quase de uma assentada e comovi-me, senti ternura — teria adorado conhecer a tua mãe! — e, às vezes, senti um nó na garganta, mas, sobretudo, ri-me muitíssimo.

Dito isto, que é o mais importante, passando de leitor a prefaciador, devo dizer algo menos pessoal ou mais profissional sobre o livro e acrescentarei algumas coisas neste sentido.

Mari Paz: O relato é uma das formas de libertação da tensão e a descrição elaborada de uma experiência como esta, para além de dar sentido ao vivido, também mostra um caminho — o que transitaste através da dor, do amor e do humor — que pode servir de guia para que os outros aproveitem a tua vivência e que os alcançará fácil e profundamente.

No morrer, como noutras situações graves da vida, há duas coisas que são úteis: A sensatez e o sentido de humor. O humor ajuda a aliviar a atmosfera, a situar o processo de morrer na sua verdadeira perspetiva e a desmontar a seriedade intensa da situação.

Acho que o humor, quando é sábio e surge do amor, nos transporta para um nível de consciência que relativiza a realidade e supõe uma forma de inteligência amorosa que nos liga rapidamente com o mais íntimo de nós e nos abre para, suavemente, integrar a dor, aceitar a perda e manter a perspetiva de que somos mais do que o nosso sofrimento. Através do humor, nos momentos difíceis, este ajuda-nos a perceber que a vida que nos sustenta não se fecha com o que, agora, parece que nos arrasta ou nos atinge, há outra forma de ver e este olhar abre-se com a porta da gargalhada, da alegria, que não é incompatível, como bem diz a Paz, com a tristeza própria do luto.

Entre gargalhadas, piadas e brincadeiras, a Paz vai dando pistas de como manter a coragem e a confiança no meio do caos aparente. Mostra como o sentido comum e o sentido de humor são importantes, mas não os únicos, e explica-nos a sua atração e interesse pela meditação ou deixa-nos pérolas de sabedoria como: «A tristeza não é um antónimo de felicidade. Não são incompatíveis, não é por estarmos tristes que não podemos ser felizes. A tristeza é parte natural do processo de luto e, como parte natural, devemos aceitá-la, parar de resistir.»

Há capítulos que me pareceram sublimes. Não percam o discurso maravilhoso da Paz no funeral do Antonio. Não é de estranhar que, do outro lado, lhe mande o seu perfume! — Entenderão quando lerem!

E partilha coisas que, de uma perspetiva padrão, quer dizer, da de alguém que não sofreu ou que não soube integrar e transcender o sofrimento, podem parecer afirmações insólitas, como quando diz: «E este ano, aprendi a celebrar a morte. A não ter o menor medo dela. A aceitar o curso inevitável da vida. A acompanhar os entes queridos na sua viagem com amor. Um amor puro, branco e inesgotável. A amar-me e cuidar de mim. A desfrutar de qualquer detalhe de beleza e de bondade do presente imediato. E o que a experiência me ensinou foi que, para aprender tanto, a única coisa que não podemos esquecer é de rir.»

Têm isto garantido se começarem o livro, espero, como a Paz deseja, que também vos sirva para «refletir sobre a importância de viver, sobre a nossa passagem efémera por este mundo»; aceitar «que devemos preparar-nos para as nossas mortes vindouras.»

Com frequência, pedem-me algum livro para alguém que sofreu uma perda recente sobre como lidar com o luto e o que conheço e costumava recomendar era do estilo de autoajuda que, apesar de servirem, não cumprem realmente as minhas expectativas. Agora, sei que livro vou recomendar: ESTE!!

OBRIGADO, PAZ, em nome de todos os que vão desfrutar e aprender com esta experiência que nos ofereces!

DR. ENRIC BENITO


Desde criança, quis ser cientista. Pelo menos, desde que li A origem das espécies, de Charles Darwin, com catorze anos de idade. E nunca acreditei em superstições, fantasmas ou milagres. Só no que os meus olhos conseguem ver e os meus sentidos, verificar. No entanto, na minha vida, tive a oportunidade incrível de saber que a magia existe. Ou algo muito parecido com a magia: O poder do pensamento para modelar a nossa mente, a nossa vida emocional e a nossa felicidade.

O filósofo Epicteto, no século I desta era, nasceu escravo. Os seus pais eram escravos e ele foi vendido, ainda bebé, a um amo novo que o levou para longe, para a capital do império, Roma.

Depressa se constatou que o pequeno era sobredotado. Aprendeu a ler e a escrever, sozinho, antes dos quatro anos e nunca parou de demonstrar a sua genialidade. Mas a sua maior façanha foi que, embora escravo, ele estava decidido a ser feliz.

E, assim, o pequeno Epicteto descobriu que a felicidade está na mente e não nos factos que nos acontecem. A frase dele é: «Não é o que nos acontece que afeta, mas o que dizemos a respeito do que nos acontece.» Há mais de vinte anos, dedico-me a ajudar as pessoas a fazer essa mesma descoberta. A perceber que se a esposa o deixar e se sentir deprimido não é porque foi deixado, mas pelo que disse depois: «Meu Deus, nunca mais voltarei a ser feliz! Que horror, estou sozinho!», etc.

Embora pareça mentira, vi várias vezes que tudo depende do nosso diálogo interno, da nossa avaliação do que nos acontece. E as pessoas mais fortes e felizes, como Epicteto, sabem que, aconteça o que acontecer, poderão fazer coisas valiosas por si mesmas e pelos outros. A sua filosofia torna-as imensamente fortes; muito harmoniosas; extremamente capazes de amar.

Quando era jovem, eu também — como muitos — me incomodava com ninharias, tinha medos irracionais e queixava-me sem parar. Mas tive a sorte de descobrir a psicologia cognitiva — ou do pensamento — e, depois disso, a minha vida emocional não parou de melhorar.

No ano passado, como a Paz, tive uma perda importante. O meu pai faleceu depois de uma doença prolongada. E, durante três dias, senti uma tristeza enorme: A maior tristeza que alguma vez experimentei. Mas, ao mesmo tempo, foi uma experiência bonita. Os meus quatro irmãos, eu e a minha mãe estivemos especialmente unidos. Os meus amigos e familiares estiveram lá. E, dentro do meu coração, sabia que não tinha acontecido nada de mal ao meu pai. Juntos, honrámos a sua memória e encontrámo-nos para nos amar com o mesmo amor que aprendemos com ele. E dissemos um «até breve», porque sabíamos que a vida passa tão depressa que, dentro de pouco, estaríamos todos juntos outra vez.

Passaram esses dias e o meu coração ficou novamente em forma e plenamente feliz. Penso no meu pai muitas vezes, falo com ele e não sinto nenhuma tristeza. Antes pelo contrário, sinto alegria por o ter tido por perto durante tanto tempo. Sei que, se não fosse pela minha autoeducação emocional com psicologia cognitiva, não teria lidado tão bem com a sua perda. E essa é apenas uma das maravilhas que se consegue com esta magia chamada inteligência emocional.

E não é só algo que me aconteceu. Recebi centenas de cartas de leitores dos meus livros que me relataram experiências semelhantes; pessoas que, depois de se educarem mentalmente, viram, um pouco espantadas, como enfrentavam a vida — e a morte — de outra forma.

Com a filosofia pessoal correta, a vida é muito fácil. Com os pensamentos adequados, só vemos abundância e oportunidades. Com a atitude própria dos mais fortes e felizes, tudo é um jogo apaixonante. Mas, primeiro, temos de estudar, de conhecer bem a mente e de a treinar para que funcione como um Ferrari.

A Paz é uma dessas pessoas que tem um motor Ferrari na cabeça. Teve uma grande professora, a mãe, que lhe deu a sua primeira licenciatura em inteligência emocional. No entanto, depois, soube inscrever-se em todos os mestrados que a vida lhe ofereceu.

Agora, nesta nova etapa que teve de viver, a Paz não ficou para trás. E aproveitou o que o universo lhe enviou para aprender a amar ainda mais.

Adoro a Paz. É inteligente, divertida, positiva, amorosa, bela e, acima de tudo, generosa. Tanto que não consegue impedir-se de querer transmitir a sua alegria de viver aos quatro ventos. E, há um tempo, não para de partilhar o melhor presente que podemos dar aos outros: Uma visão pletórica e radiante da vida, uma filosofia maravilhosa do bom viver.

Brindo a ela.

RAFAEL SANTANDREU

Psicólogo e autor de Nada é assim tão grave


A Mari Paz Padilla está a oferecer-nos um tesouro maravilhoso, a sua experiência de conexão profunda com o amor desde um dos graus mais elevados, o humor e a compaixão.

Quando conheci o Antonio no meu consultório, era um homem incrédulo e cheio de dúvidas a respeito do que se passava com ele; isso sim, sabia perfeitamente que, apesar de não estar muito convencido de que essas sessões poderiam influenciá-lo, estava disposto a fazer o que a Mari Paz lhe pedira e, por esse amor que sentiam um pelo outro, aceitou começar comigo uma viagem que não sabíamos onde chegaria e até quando seria.

Depois de passar algum tempo comigo a tratar da sua experiência de vida, disse-me:

— Verónica, não sei muito bem como vai isto, mas sei que me sinto em paz, sinto-me tranquilo. — Esse foi um presente bonito, isso e o sorriso que o acompanhava.

A Mari Paz Padilla conheceu a dor de ver como «o amor da sua vida» se ia embora sem prévio aviso, e também conheceu a dor de se despedir de uma mãe. Respeitou essa dor e aceitou-a da forma mais bonita: Abraçando o momento sem julgamentos, temores, comparações ou vontade de que acabasse, simplesmente, permitiu que essa dor, ao ser aceite e ouvida, ganhasse a forma mais elevada, AMOR, um amor que não pode explicar-se, mas que nos convida a celebrar a vida, nos convida a rir-nos, nos convida a entender, nos convida a partilhar com os outros para podermos ajudá-los com a sua experiência, nos convida à calma, mas, sobretudo, nos convida a transformar-nos e a continuar a vida com uma visão diferente, uma visão mais amorosa e plena, uma visão de gratidão e paz.

Para mim, é uma honra e um presente ter estado na vida do Antonio. Para mim, é uma bênção estar a partilhar o caminho com a Mari Paz e ter sido testemunha, no palco principal, de todo o processo que viveu.

O que vão encontrar aqui são lágrimas de amor, humor e valentia, portanto, preparem a melhor poltrona de casa para desfrutar de cada página deste livro.

VERÓNICA CANTERO



Isabel Allende deixou-nos, para a posteridade, uma entrevista realizada na primavera de 2020, no início da voragem pandémica. Nela, reconhecia que vimos para o mundo para perder tudo e que, quanto mais se vivia, mais se perdia. Perdia-se o medo de ver morrer os pais e as pessoas queridas. Também garantia que era um erro viver com receio de algo que ainda não acontecera e que o que devíamos fazer era gozar do que temos e viver o presente.

A escritora chilena afirmou que, quando a sua filha Paula faleceu, há vinte e sete anos, perdeu o medo da morte para sempre. Ao vê-la a morrer nos seus braços, apercebeu-se de que era como o nascimento, uma transição.

Algo tão óbvio como difícil de aceitar. Diz a letra do famoso bolero que vinte anos não são nada; no entanto, dois mil e vinte anos — depois de ver como foi 2020 — sempre é qualquer coisa.

O ano de 2020 foi um ano de perdas. Sem prévio aviso, perdemos contacto físico, sofremos perdas económicas, perdemos liberdades de algum modo, perdemos empregos, sem nos aperceber, perdemos direitos, perdemos tempo, perdemos vidas humanas e quase perdemos as estribeiras. Tudo menos o medo. Este não só não se perdeu, como parece ter-se transformado numa epidemia paralela com uma curva em pleno crescimento exponencial, para a qual não existe uma vacina antimedo nem se espera que exista.

Em qualquer meio de comunicação social ou reunião, ouvimos como se catalogou o ano de 2020, como um «ano bisagra». Um ano de mudanças profundas nas nossas vidas. No meu caso, se tenho de lhe chamar ano bisagra, a bisagra é do tamanho das que articulam a porta da catedral de Santiago de Compostela. Faz-se referência constante à importância deste «ponto de inflexão» nas nossas vidas. No entanto, não paramos para pensar na utilidade nula de um ponto de inflexão se não vier acompanhado de um ponto de reflexão. De uma pausa, de uma análise e de uma introspeção.

Ao princípio, não parava de ouvir «sairemos melhores desta». A pandemia mostrou o desejo latente generalizado de modificar um modelo socioeconómico injusto e insustentável, que mostrou as poucas-vergonhas com as primeiras mudanças. Se sair melhores desta como sociedade significa desenvolver uma maior consciência coletiva e solidariedade com o próximo, por enquanto, estamos atrasados. Uma coisa é o desejo de mudança e, outra, a vontade de mudança. Para que se produza uma mudança, deve existir uma vontade de mudança real. Para além da tentativa de anulação que o sistema convenientemente exerce sobre nós por sistema — apesar da redundância —, o principal impedimento para a mudança individual continua a ser o medo. Vivemos com medo.

Como algumas e alguns saberão, num breve espaço de tempo desse ano maldito, tive de aceitar duas perdas enormes e impossíveis de substituir: A minha mãe e o amor da minha vida, o Antonio. Não sei se por azar do destino ou pela graça de Deus — pois os dados já estão lançados — tive de enfrentar o medo mais ancestral do ser humano: O medo da morte.

No comovente romance Paula, onde Isabel Allende relata a sua vivência ao acompanhar a filha na sua doença até à morte nos braços dela, escreveu que o que não deixava escrito para a eternidade no papel se diluía nas suas lembranças. Partilho com ela uma desconfiança idêntica na memória. Bastaram apenas mais de quarenta anos de constantes desorientações. Portanto, devido ao desejo, ou melhor dizendo, à necessidade de salvaguardar este fragmento da minha vida, decidi aplicar a mesma terapia e protegê-lo do passar do tempo no papel. Para sempre, para mim e para quem o quiser.

Amor, morte e humor. É disso que este livro trata. Três palavras que escapam das cercas de arame farpado que os seres humanos se esforçam para construir à volta delas. Três palavras destinadas a coexistir. Não morremos de amor, como costuma dizer-se, morremos se não amarmos e, para podermos morrer sem medo, é necessário amar a vida.

Também ninguém pode negar que a arma de sedução maciça mais potente é a comédia. Nada gera um vínculo tão forte entre duas pessoas como rir-se juntas de alguma coisa, por muito estúpida que seja. Da mesma forma que não se faz humor sem amar o ser humano, sem querer fazer as outras pessoas felizes, nem é possível fazê-lo com medo. Não podemos rir-nos com medo. A manifestação do humor é uma consequência direta da inteligência. Parte de uma ideia ou ocorrência do cérebro que causa prazer ao mesmo. Um sofisticado mecanismo evolutivo que o homem desenvolveu para esquivar os medos instintivos. Quando conseguimos rir-nos racionalmente dos nossos medos, estes desaparecem. Portanto, amor e humor são os dois únicos mecanismos que conheço para perder o medo da morte e, sem a morte, quem sabe se tudo o resto valeria a pena. Para crescer, precisamos de conhecer, investigar, aprofundar e falar sem tabus e com mais frequência sobre estas três palavras na nossa vida diária.

Nas páginas seguintes que, no momento em que escrevi isto não sei quantas serão no fim, não esperem encontrar, queridas e queridos leitores, uma tragédia romântica mórbida de sofrimento e dor. Se era o desejado, parem imediatamente. Shakespeare está ao fundo do terceiro corredor, na segunda prateleira do lado direito. Aqui, encontrarão uma história de amor contada com humor, sem papas na língua, sem disfarces e, o mais importante, sem medo. Uma viagem em que aprendi mais sobre a vida, o amor, o acompanhamento de um paciente moribundo, a morte e sobre mim mesma do que alguma vez imaginei. Espero que desfrutem e que, chegado o caso, vos sirva de ajuda.


Tinha catorze anos, a idade em que as meninas contemplam como acontecem uma série de mudanças nos nossos corpos pueris para nos transformarmos nas mulheres bonitas, finas, corretas e complacentes que seremos no dia de amanhã. A idade em que só pensamos em encontrar um príncipe encantado que nos faça felizes e nos complete, porque as mulheres vêm de fábrica como um puzzle da feira a que falta uma peça quando o compramos. Ou era o que, para meu espanto, me inculcavam que devíamos ser. Digo para meu espanto porque era totalmente o contrário do estereótipo antiquado de adolescente. Era uma criança em processo de colonização por uma legião de hormonas, sem dó nem piedade, que gostava de se rir à gargalhada impetuosa e ruidosa, com palmas incluídas, e de jogar às escondidas, ao mata ou a qualquer outro jogo que implicasse uma certa probabilidade de acabar lesionada ou com os óculos partidos. Era o que, na minha Cádis natal, se conhece como um “molho de nervos” ou “um cu inquieto”: Fugi de casa com pão e mortadela e quase matei a minha mãe de susto, peguei fogo à minha casa a brincar com uma caixa de fósforos por baixo da cama. Coisas de crianças.

A respeito da minha aparência física, basta comentar que, apesar dos óculos redondos e enormes que repousavam no meu nariz pronunciado, me chamavam a “Larga”[1]. Devia ser realmente alta para que essa alcunha prevalecesse sobre as outras peculiaridades aspirantes ao trono.

Eram os anos oitenta. Uma década que se recorda pelos seus avanços e mudanças importantes, tanto sociais como culturais, mas também pela chegada ao país de novas drogas que foram acompanhadas de um aumento no índice da delinquência. O meu irmão mais velho, o Luis, vendo que passava as horas a brincar na rua e pensando na minha propensão para me meter em confusões, tentava proteger-me.

— Paz, tens de te inscrever connosco nos escuteiros ou vais perder-te. Lá, as pessoas são saudáveis, não fumam e não há nada de bom na rua…

O Luis era tão desordeiro como eu, ou pior. Era eu, mas com mais dois anos de experiência. Não obstante, sentia uma certa obrigação de me proteger como irmão mais velho e repetia-se como um mantra budista «tenho de salvar a minha irmã, tenho de salvar a minha irmã…» E como diz um ditado, que se não for budista, está perto: «Não é a força do gotejar da água que fura a pedra, mas sim a persistência incansável desta ação.» Inscrevi-me nos escuteiros só para não ter de o ouvir.

No primeiro dia em que o acompanhei à sede do seu grupo Cruz del Sur, puseram-nos num círculo para começar uma ronda de apresentações ao mais puro estilo dos Alcoólicos Anónimos. Surpreendeu-me ver algumas caras conhecidas que não sabia que estavam lá — como nos Alcoólicos Anónimos — e decidi ficar ao lado de uma amiga da escola. Inspecionei, de soslaio, todas e todos, mas o meu olhar parou nele. Um rapaz moreno com umas calças de ganga justas e uma camisa aos quadrados posta por dentro das calças. «Que bonito. Que alto. Que forte», pensei. Se não era a minha alma gémea, era irmã, porque até se parecia um pouco comigo com os óculos e a cara longa. Mas que bonito. E que alto. E que forte. O “Largo” e a “Larga”[2]. Combinávamos imenso!

— Esse é para mim — disse à minha amiga.

Com o passar dos anos, o Antonio confessou-me, um dia, que se lembrava perfeitamente desse momento porque, ao ver-me, pensou: «Meu Deus! Quem é essa louca?»

Durante os meses de verão, os grupos de escuteiros costumam fazer um acampamento no bosque onde se fazem caminhadas, jogos, oficinas e todo o tipo de atividades coletivas. Numa das noites do meu primeiro acampamento, os monitores programaram um jogo que simulava o programa de televisão da época All you need is love. Nele, uma concorrente com os olhos vendados tinha de fazer várias provas às cegas a cinco candidatos e escolher um no fim. E adivinham quem foi a escolhida como concorrente de todo o acampamento? Melhor dizendo, adivinhem quem azucrinou o monitor até ser escolhida como concorrente de todo o acampamento, por ser chata? E vocês não são capazes de adivinhar quem pressionou insistentemente o monitor até conseguir fazer com que um dos candidatos fosse o Antonio, dizendo:

— Por favor, que seja ele. O resto, tanto faz, mas que seja ele.

Correto. Não é preciso dizer o nome da escolhida infeliz. Enquanto me punham a venda, perguntava ao monitor:

— Que número é? — sussurrava, quase sem mexer os lábios.

— Quem? — perguntou, no mesmo tom.

— O Antonio, quem haveria de ser?

— Ah, o três.

— Muito obrigada, muito obrigada, a sério.

E começou o jogo. Usei os meus dotes interpretativos, fingindo não saber as identidades durante as provas, embora aproveitasse a informação para fazer coincidir os meus gostos com os do número três ou para o apalpar mais do que devia.

— Afinal, que candidato vais escolher, Paz? — perguntou o monitor que servia de apresentador.

— O terceiro!

— Escolheste o Antonio!

— Ena, não estava à espera disso! Que bom!

O prémio que com tanto esforço ganhei era um jantar numa mesinha ligeiramente afastada do resto do grupo, enfeitada com flores silvestres e velas. Claro, para jantar, tínhamos o mesmo menu que os outros: Esparguete com tomate de frasco. Mas sentia-me como a protagonista de A dama e o vagabundo. Estava louca para que fôssemos comendo, sem nos apercebermos, o mesmo esparguete até acabarmos por nos beijar. Mesmo que me enchesse a cara de tomate. Para disfarçar, dizia:

— Olha como é o destino… É claro que o destino nos uniu…

E, de certo modo, quem sabe se não há um pouco de verdade nessa frase. Quem sabe se o destino nos uniu ou se o que chamamos destino é apenas uma expressão da vontade própria que não conseguimos compreender. A manifestação de que desejamos tanto alguma coisa que fazemos a nossa parte para a conseguir de forma inconsciente. Ou consciente, neste caso, pois sou uma trapaceira. Portanto, vários dias depois, procurei-o, ou encurralei-o, como preferirem, e perguntei:

— Olha lá, queres sair comigo?

— Bom… Está bem — respondeu, hesitando uns segundos.

Fez-me a pessoa mais feliz do mundo. De repente, estava a flutuar numa nuvem. Tinha namorado! E que bonito, que alto, que forte! Hoje, ainda lhe agradeço por, nesse momento, me ter escondido o que pensou. Seria também anos mais tarde que me contaria que, ao ouvir a minha pergunta, o seu pensamento foi: «Ufa… Temos de começar por algum lado. Não posso querer começar pela Michelle Pfeiffer.»

Pensando bem, se tivesse de realçar alguma coisa do início da nossa relação, não seria precisamente os passeios pela praia a ver o pôr do sol agarrados. A imagem que me vem à cabeça é a dos dois na marmelada durante horas e horas. No parque, na casa, num autocarro e na rua. Fosse onde fosse. Que dor nas mandíbulas no dia seguinte. Não tínhamos duas bocas, eram duas máquinas de lavar roupa a centrifugar. Não estou a exagerar. Uma vez, estivemos a enrolar-nos com ferocidade na Alameda, em Cádis, um passeio belo com jardins rodeado pelo mar da baía. Como, entre os óculos e o tamanho dos nossos narizes, aquilo se transformava num desporto perigoso com risco de nos causar cortes e feridas, deixámos os dois pares de óculos na balaustrada com vista para o mar. Depois de horas, quando apalpámos a balaustrada tateando, apercebemo-nos de que devíamos tê-los atirado à água com uma cotovelada apaixonada. Entre as minhas vinte dioptrias e as poucas que ele tinha naquela época, conseguem imaginar o tempo que demorámos a chegar a casa a apalpar as calçadas, os lancis, as paredes, as montras e todos os obstáculos que existem numa cidade. Consolávamo-nos pensando que tínhamos curado a miopia de dois peixes.

Crescemos juntos. Descobrimos juntos a sexualidade da forma mais sã que existe. Com muitíssimo amor, carinho e respeito. Aprendemos tudo, de mão dada um com o outro. De mão dada ou com qualquer outra parte do corpo, não sei se me explico bem.

O Antonio começou a estudar Direito alguns anos depois. Disse-me que estudara em Direito Canónico que, há séculos, para unir duas pessoas em matrimónio — de sexo diferente, é claro, não podia ser outra coisa! — só era necessário fazer o casamento aos olhos de Deus. Mais tarde, foi a igreja católica que se encarregou de realizar o censo do número de casamentos e de regularizar o procedimento para controlar as pessoas. Ou, pelo menos, foi o que eu entendi. Entendê-lo quando falava das cadeiras ou de algum problema que lhe rondasse a cabeça relacionado com a sua carreira era tão difícil como decifrar, à primeira, um discurso de Mariano Rajoy. Quando soubemos que havia uma opção de nos casarmos sem necessidade de consentimentos paternos, papéis ou dinheiro, não pensámos duas vezes.

No domingo seguinte de manhã, fomos à missa na igreja de Santo António, em missão secreta especial como dois espiões do KGB, dispostos a casar-nos em segredo. Ajoelhámo-nos nos bancos, demos a mão e, com cuidado para não sermos expulsos da igreja, sussurrámos:

— Antonio, aceitas receber a Mari Paz Padilla Díaz como esposa e prometes ser-lhe fiel na prosperidade e na adversidade, na saúde e na doença e, assim, amá-la e respeitá-la todos os dias da tua vida?

— Sim, quero. E tu, Mari Paz, aceitas receber o Antonio Juan Vidal Agarrado como esposo e prometes ser-lhe fiel na prosperidade e na adversidade, na saúde e na doença e, assim, amá-lo e respeitá-lo todos os dias da tua vida?

— Sim, quero. Já está?

— Acho que sim… Ah, não. Podes beijar a noiva.

E beijámo-nos às escondidas.

[1] Alcunha a “Alta”. (Nota da T.)

[2] Alcunha o “Alto” e a “Alta”. (Nota da T.)


Esse foi o primeiro dos nossos quatro casamentos. Perante Deus. Quem diria? O Antonio fora criado numa família crente, de estilo conservador. Os seus pais eram bastante mais religiosos do que os meus e imensamente mais religiosos do que eu. De facto, não sei se, naquela época, viam com bons olhos que o filho saísse comigo: Um redemoinho desbocado, sem nenhum tipo de vergonha ou pudor, a fazer palhaçadas, fosse onde fosse.

Lembro-me de que a comunicação com o pai dele não se prolongava para além de uns cordiais «bons-dias», «boas-tardes», «adeus» ou um «quer ler o jornal?». Eu, para fazer tempo até o Antonio acabar de se arranjar, pegava num exemplar da camilha e dedicava-me a virar as páginas, assentindo com a cabeça ou usando expressões genéricas em voz baixa como «argh, sempre a mesma coisa…», «já era de esperar…»

Naquela época, embora não o expressasse, mais de uma vez, senti-o inibido com a minha forma louca de ser, até um pouco envergonhado à frente de amigos ou familiares. Com os conhecimentos atuais, compreendo — mas não justifico — que fomos educadas e educados com os valores de uma sociedade heteropatriarcal. Valores gravados desde o berço que requerem uma educação, vontade de melhorar e autoavaliação constante. Valores com os quais a minha forma de ser chocava várias vezes. Se começasse a chover, eu abria o guarda-chuva e dançava à sua volta, cantando uma versão macarrónica de I´m singing in the rain sem me importar que todos olhassem para mim no meio da rua. Dedicava-me a ser feliz sem me deixar afetar muito com o que os outros pudessem pensar. Explico isto para que possa compreender-se melhor o motivo principal do fim da nossa relação após doze anos de amor puro.

Como já esclareci algumas vezes, o meu salto para a fama aconteceu por acaso. Em 1994, selecionaram-me para participar em Genio y figura, um programa de humor de televisão recém-criado que se emitiria na Antena 3. Naquela época, trabalhava como auxiliar de enfermagem no Hospital Puerta del Mar de Cádis e, numa tarde de folga, acompanhei o meu cunhado, o Grande Malakatín, mágico de profissão, a um casting em Sevilha. Para fazer tempo, inscrevi-me no casting do lado. Tratava-se de contar algumas anedotas e eu sabia milhões.

Passado algumas semanas, comunicaram-me que fora escolhida entre não sei quantos participantes e decidi testar a minha sorte, mais para viver a experiência do que por ter intenção de acabar por me dedicar ao mundo do espetáculo. Quem ia imaginar que o programa acabaria por ser um sucesso terminante de audiências e que o meu sentido de humor criaria uma ligação com centenas de milhares de espetadores todas as noites. Começaram a ligar-me para aparecer noutros programas e fazer atuações por todo o país. De um trabalho saía outro e assim sucessivamente. Sabia melhor o trajeto de comboio entre Cádis e Madrid do que o maquinista.

Para além de enfrentar o maior desafio pessoal e profissional da minha vida e as barreiras que existiam no mundo do espetáculo para a mulher — e as que ainda existem —, tive de lidar com uma que nunca esperei encontrar: A desaprovação do meu parceiro. Não queria vir comigo para Madrid porque não entrava nos seus planos de futuro, algo totalmente compreensível. No entanto, também não queria que eu o fizesse porque «essa profissão é pão para hoje e fome para amanhã». Não sei em que proporção se misturavam a tentativa de proteção e o egoísmo. Como qualquer relação prestes a acabar, as chamadas telefónicas e o tempo que passávamos juntos começaram a transformar-se numa sucessão de discussões em torno do tema central. O resultado foi que me vi obrigada a decidir: Ficar em Cádis por amor e renunciar a uma oportunidade profissional arriscada, mas atraente, ou ganhar coragem, atirar-me de cabeça e dedicar-me exclusivamente ao que a minha mãe chamava «a artistiquice».

Com toda a dor dos nossos corações e o sentimento mútuo de incompreensão da outra parte, os nossos caminhos separaram-se. A rutura era inevitável. Não obstante, apesar de quase perder o contacto por completo, depois da separação, sempre houve cordialidade e carinho. Às vezes, ligávamos para saber como estava tudo e até para nos felicitarmos quando descobríamos que o outro se casava ou que tivera uma filha. Tínhamos refeito as nossas vidas. Ambos nos tínhamos casado e divorciado posteriormente. Iguaizinhos em tudo. O “Largo” e a “Larga”.

Vinte anos mais tarde, recebi uma chamada dele. Não sei se sob os efeitos da anestesia porque estava a sair do dentista, perguntou-me:

— O que fiz de mal na nossa relação?

Contou-me que se divorciara e que não conseguia compreender o que falhara no seu casamento. Queria saber se cometia algum tipo de erro sistematicamente. Pensava que, se descobrisse onde se enganara na nossa relação, talvez compreendesse o que correra mal na atual. Logicamente, a minha resposta foi que não entendia que tipo de vínculo havia entre as duas. Eram idades diferentes, pessoas diferentes… Como se pudéssemos pôr tudo no mesmo saco…

A partir daí, começámos a ligar um ao outro e a querer saber um do outro com mais frequência. Como estás? Como está tudo? Tudo bem? Até que, certo dia, algum tempo depois, lhe contei que ia a Cádis e me convidou para jantar para «falar pessoalmente, que é melhor do que pelo telemóvel». O clássico. Não há ninguém na história breve do telemóvel que não tenha dito essa frase sem intenção de seduzir. De certeza que, se tivessem telemóveis, Isabel de Castela teria dito a Fernando:

— Hey, Fer, tanto tempoooo! Podíamos combinar alguma coisa, não? Não me ligas nenhumaaaa (ícone da carinha sorridente, ícone de piscar de olho, ícone da carinha com beijinho).

— Apetece-te sair amanhã e beber um café — ah, não, não havia —, bom, não sei, hummm… ir à missa, que é o que está na moda (ícone da igreja, ícone das mãozinhas a rezar, ícone do padre careca).

— Sim, claro… Dizes-me sempre o mesmo e insistes em ajoelhar-te no banco para rezar primeiro e acabar por insistir… Por insistir em unificar os reinos de Castela e Aragão (ícone da carinha vermelha zangada).

— Claro que não, não sejas tonta!! Somos primos em segundo grau, como vou fazer isso??? Só quero que falemos pessoalmente, que é melhor do que pelo telemóvel (carinha sorridente).

— Claro, está bem, vem buscar-me depois do meu banho. Só tomo um a cada nove meses e, por isso, não vou falhar (ícone do banho, ícone da carinha prestes a vomitar).

Em suma, havia uma sedução prévia por ambas as partes e decidimos conversar ou fosse o que fosse. Tinha sido direta com a minha irmã há alguns dias.

— Sole, tu não viste o Antonio. Está bom como o milho e, se puder, vou para a cama com ele antes de voltar a Madrid. Não te preocupes, será apenas uma aventura rápida para recordar os velhos tempos e acabou.

Convidou-me para um sítio fixe na praia que conhecia e eu fiz-lhe uma contraproposta que não pôde rejeitar.

— Está bem, mas pagas tu.

Dificilmente poderei esquecer aquela noite por vários motivos. O primeiro, o sítio. Um lugar asqueroso com candeeiros de luz branca que pareciam servir para dois ou três blocos operatórios, gordura até na argola do guardanapo e um empregado com mais gordura do que a argola do guardanapo e com o cabelo cortado à tigela. Não era um gastrobar era uma imundice. Sim, era junto de uma praia da costa de Cádis, cujo nome não quero lembrar-me para não ferir sensibilidades. Hoje, com duas palavrinhas, encontra-se no Google Maps até quem comeu a sopa de morcego com Coronavírus.

Como sabíamos que faríamos, quando acabámos de jantar no restaurante imundo, onde não comemos sopa de morcego por pouco, fomos até à praia para dar um passeio. Ao sentir o cheiro penetrante do mar e das rochas com verdete do quebra-mar, recordei como sentia a falta da minha terra e pensei em como podia ter-me enchido de marisco nessa noite se eu tivesse escolhido o restaurante.

O Antonio parou-me por um instante para me mostrar uma aplicação no seu telemóvel que, ao apontar para o céu, distinguia as constelações, suspeito que por algum sistema de GPS. Aproveitando a sua envergadura, pôs-se atrás de mim e rodeou-me com os braços para se gabar, mostrando-me no ecrã, onde estavam a Ursa Maior, Orion e Vénus. Eu não percebi nada. Dizia:

— Ai, Antonio, que coisa tão bonita.

Mas porque olhava para os bíceps dele. De repente, uma rajada ténue de ar deixou-me petrificada, sem fala. O cheiro dele passou-me por cima como um camião. O cheiro dele, não o seu perfume. Voltava a ter catorze anos. Essas horas e horas a beijar-nos na Alameda sucediam-se a toda a velocidade à frente dos meus olhos como fotogramas de um filme romântico do cinema clássico. O relógio perfeitamente engrenado de lábios, dentes e línguas voltava a funcionar vinte anos depois. Desta vez, sem óculos para atirar aos peixes com uma cotovelada. Em vinte anos, tivemos tempo para nos habituar às lentes de contacto. A minha mente estava ocupada por um único pensamento: Estou em casa.


As coisas nunca correm como as planeamos. Nem para mal nem para bem. Aquilo não foi uma rapidinha e bola para a frente. Sentíamo-nos em casa, sabem como é difícil encontrar isso? Como custa encontrar uma pessoa da minha idade, solteira como eu e que não tenha alguma tara mental grande? Uma pessoa com conversa, que te divirta, que te faça sentir confortável, calma e que, enquanto fala contigo, só estejas a pensar em arrancar-lhe a roupa como se fosse um presente de Natal embrulhado? Que te faça sentir em casa! Talvez se fores jovem — e, portanto, ingénua e ao mesmo tempo descrente — minimizes a importância da façanha épica que tínhamos acabado de conseguir sem querer.

Não te preocupes, como disse o dramaturgo George Bernard Shaw, «a juventude é uma doença que se cura com os anos». Talvez numa altura em que, quando, provavelmente, tiveres de emigrar para encontrar trabalho, comeces a entender o que significa «sentir-se em casa» e como nos sentimos bem nela. É como diz uma estrofe de Carnaval «como se caga em casa, não se caga em mais lado nenhum».

Começámos a ver-nos cada vez com mais frequência, em Cádis, em Madrid ou onde pudéssemos. Acontecia-nos o que acontece sempre quando se inicia uma relação, isso em que todas e todos estão a pensar… Exato. Não parávamos de falar das experiências vividas durante os vinte anos em que as nossas vidas tinham percorrido caminhos diferentes. Que mentes porcas que vocês têm! De certeza que esperavam que falasse de outra coisa.

Bom, como escrevo um livro e tenho de parecer fina, direi que sim, que é verdade que me sentia prisioneira de uma incessante libidinosidade desmedida. Ora, era como a tocha da chama olímpica. Por causa do fogo e do tamanho. Contribuí mais para o degelo dos polos em alguns meses do que os quatro anos de mandato de Donald Trump.

Como podem verificar, continuo a ser tão refinada como sempre. Não acho que a fama me tenha mudado. Penso que sou como era antes de ser conhecida, igualmente simples, igualmente poupada. Por exemplo, em casa, reutilizo sempre a água usada do meu jacuzzi para regar algum dos buracos do meu campo de golfe privado.

O Antonio continuava a detestar as câmaras que me rodeiam todos os dias, mas encontrar uma Paz tão louca como há vinte anos pesou na balança a favor de uma segunda tentativa de relação com uma artista. Descobriu em primeira mão que, no meu ambiente, nem todos snifavam cocaína como se suspeitava. Refiro-me a que, quando me mudei para Madrid, me interpretou mal quando lhe disse que eu aspirava ao mais alto. Isto sim. Antonio, se eu alguma vez tivesse experimentado cocaína, terias descoberto, garanto-te. Com o nariz que tenho, com uma linha, deixo Wall Street sem cocaína, o que teria causado uma queda da Bolsa mundial.

Semana a semana, foi derrubando aquela pilha de medos que enchiam a sua cabeça em torno da ideia que criara sobre mim. Nesses primeiros meses de nos conhecermos — ou reconhecer-nos — surpreendeu-me saber que viajara pouco. Particularizo, gostava pouco de viajar. Dizia que, simplesmente, não gostava, mas eu sabia que era por medo. Do desconhecido, de não controlar a situação. No entanto, ouvia, com o entusiasmo de uma criança, as minhas histórias de viagens exóticas. Como quando uns piratas nos perseguiram de metralhadora na mão por uma praia de Cabo Verde, sabe-se lá com que intenção. Ou quando, por engano, apareceu um senhor a gritar que a água quente onde estava a tomar banho não era quente porque tinha feito chichi, mas porque se tratava da cratera de um vulcão que cuspia lava, de tempos a tempos, sem avisar. As histórias típicas. Eu percebia tal assombro em cada história que contava que descobrir o mundo com ele se transformou no meu maior desejo. Sem prévio aviso, disse:

— Antonio, não trabalho de tal a tal dia, consegues tirar uns dias livres? Sim? Faz a mala, vou convidar-te para ir às ilhas Maldivas.

Não foi uma ideia surgida do nada. Sofrera uma lavagem cerebral cuidadosa durante anos. Quando uma pessoa entra no submundo do espetáculo, nas entranhas do show business, para além de suportar o peso pesado da fama, deve suportar chatos de diversas índoles. Chatos com a obrigação moral de dizer o que devemos fazer, de comunicar o que é melhor para a nossa carreira artística e a decisão que marcará a nossa vida pessoal in aeternum. Este espécime que habita em qualquer canto do ecossistema artístico não retrocederá no seu empenho de fazer com que sigamos os seus conselhos sábios cada vez que os encontrarmos, como se se tratasse de uma missão divina. Para enumerar exemplos, acabaria a escrever uma saga mais comprida do que a do Harry Potter: Paz Padilla e o que pensam do seu físico, Paz Padilla e devias perder o sotaque andaluz, etc.

Muitos desses conselhos altruístas são fruto de uma tentativa vã de te demonstrar que «estão na moda» para que nos sintamos antiquados por não estar. São agentes comerciais vocacionais. Querem fazer-nos ver que estamos enganados por não ter o iPhone que saiu hoje e que estará ultrapassado antes de acabar esta frase; ou se não usarmos a roupa que foi «o último grito» na passerella di Milano — chateiam-me até ao tutano.

No meu caso, quando, graças ao meu trabalho, dispus de dinheiro para o poder fazer, comecei a percorrer o mundo. Viajar transformou-se no meu vício principal e adorava. Mesmo na época em que se viajava pelo prazer de descobrir uma cultura diferente em vez de para pôr uma fotografia para conseguir likes. Tinha o passaporte com mais tinta do que o corpo de Sergio Ramos. Isso sim, quando regressava do destino escolhido e acabava de fazer o pequeno resumo obrigatório, todas as colegas me diziam o mesmo:

— Ai, Paz, tens de ir às Maldivas.

É claro, para ser cool, não podemos dizer às ilhas Maldivas, temos de dizer Maldivas. Sem determinante nem nada, para que se note já que há familiaridade, como quem vai um fim de semana sim e outro não. Não sei porque é que isso acontece apenas com as «Maldivas», talvez seja porque inclui a palavra «divas» e as faz sentir especiais. Porque, quando vão aos Estados Unidos, não dizem «venho de avião dos Unidos» ou no caso de visitarem uma povoação com menos glamour como “Despeñapiedras de Arriba”, «venho de Arriba», e parece que viemos da açoteia depois de estender a roupa.

Não estou a dizer que não me parecesse um lugar atrativo, antes pelo contrário, quando via fotografias desse paraíso de cabanas de madeira construídas diretamente sobre um mar de águas turquesas, só conseguia pensar numa coisa: «Se for às ilhas Maldivas algum dia, vou apaixonada.» Ou seja, para o fazer a todas as horas como os coelhos. Não vou gastar um dinheirão para estar numa praia debaixo do chapéu a fazer um sudoku.

E esse dia chegara. Não o fiz mais vezes na minha vida. Peço desculpa pela imagem grotesca que vos possa causar. Desde que acordávamos. Antes de pôr um pé no chão, já estava a pô-lo no roupeiro para me precipitar para ele como uma tigresa. Molhávamos o biscoito ao pequeno-almoço e não era no leite. E em qualquer lado, até no duche. Apesar de ser incómodo e supervalorizado fazê-lo no duche… Enquanto a mulher está debaixo de água, o homem está a passar frio, com aquilo encolhido. Se me mexer, magoo o corpo. Se abrir a boca, afogo-me literalmente com a água; se a fechar, não faço nada. Passamos metade do tempo a tirar a água dos olhos para ver alguma coisa e, por último, depois de meia hora sem conseguir abraçar a outra pessoa porque escorrega como um sabonete, quando conseguimos começar, só pensas que terás de limpar o charco que formámos com a esfregona.

Essas ilhas parecem desenhadas para a fornicação. Em Sodoma e Gomorra era vício, ali, é necessidade. O corpo pede-to. É possível que o pôr do sol nem sequer seja real, que se trate de uma projeção digital de algum tipo de algoritmo informático criado para ficarmos imediatamente com vontade.

— Por favor, senhores, comportem-se, este não é o lugar apropriado para fornicar.

— Oh, desculpe, deixámo-nos levar por esse pôr do sol tão bonito e…

— Sim, sim, eu sei, mas o avião está prestes a aterrar no aeroporto e devem permanecer nos vossos lugares e com o cinto posto. Terão tempo para o fazer durante os próximos dias na ilha…

De certeza que os nativos o aceitam como mais uma característica autóctone do seu país. Interiorizam-no desde pequenos. Imagino os guias a fazer as rotas turísticas e a explicar às famílias:

— A seguir, se olharem para a vossa direita, pousados no ramo da árvore, poderão observar uns exemplares de araras endémicas e, em baixo, mesmo ao pé da árvore, o casal típico de quarentões europeus a praticar o coito no primeiro canto que encontraram. Oh, meu Deus! Estamos com sorte. Chegámos a tempo para ver um espetáculo maravilhoso da natureza que só pode ver-se nas ilhas Maldivas. Olhem para as dezenas de mulheres que andam como caranguejos a remolhar na margem as suas partes baixas ardentes depois de um dia intenso de sexo. É um fenómeno que está a destruir o nosso recife de coral porque causa uma mudança drástica de vários graus de temperatura na água entre a noite e o dia.

Lembro-me especialmente de uma tarde em que estivemos a debater sobre a crítica ímpia de Kierkegaard à metafísica hegeliana como uma ciência que descreve a realidade por completo, não por causa do seu caráter ideal e abstrato, mas por causa do seu encobrimento do ético. Está bem, talvez não tenha sido realmente assim, talvez estivéssemos deitados na praia perdidos entre apalpões excitados para variar. Seja como for, vimos, ao longe, um grupo numeroso de pessoas a andar — demasiado arranjadas para irem voluntariamente assim vestidas para a praia — que se dirigiam para uma estrutura de madeira com flores que havia na margem a cerca de cem metros de nós.

— Oh, olha, Antonio, há tantos pinguins nas Maldivas — brinquei.

— O que é isso? Um casamento? Com este calor?

— Sim, parece que sim, não é? Oh, homem, o sítio é lindo… Imaginas-te a casar-te aqui?

O casamento que celebrámos na nossa adolescência, aos olhos de Deus, não tinha nenhum tipo de validade. Bom, sim, era uma desculpa para podermos ter sexo sem pecar. A única coisa que nos importava e que importa ao mundo. Às vezes, penso que é o instinto de copular que o move de forma literal: Que a Terra gira sobre si mesma porque alguém corre à procura de outro alguém para ter sexo e essa pessoa corre para outra pessoa, fazendo com que nunca pare de dar voltas. Sendo o coito o motor central de tudo, a teoria coitocêntrica. Imagino que, quando se escreveu a Bíblia, deixaram esses pequenos vazios legais de propósito para o pecado como o «não levantarás falsos testemunhos, não mentirás… exceto para proteger outro eclesiástico acusado de pederastia num julgamento.»

Durante alguns segundos, fantasiámos com um casamento naquele altar florido num desses perfeitos pôr do sol algorítmicos, mas a realidade depressa penetrou nos nossos sonhos. Em primeiro lugar, era demasiado caro. Se a viagem fora um dinheirão, nem quero imaginar qual seria a conta se nos casássemos. Nem tanto por causa do aluguer do espaço, mas por convidar a minha família, que são os que mais comem e bebem no mundo. Pode dizer-se que a minha família, literalmente, tem muito bom fundo. Já não conseguia imaginar a cerimónia elegante sem pensar no meu irmão a dizer a um empregado que acabou o barril de cerveja, que trouxessem outro e que ele podia mudá-lo se fosse preciso.

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0+
Дата выхода на Литрес:
23 октября 2024
Объем:
184 стр. 24 иллюстрации
ISBN:
9788491396642
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Правообладатель:
Bookwire
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