Читать книгу: «Raptada por um príncipe»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2020 Maya Blake

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Raptada por um príncipe, n.º 1871 - outubro 2021

Título original: Kidnapped for His Royal Heir

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1105-051-7

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

Violet Barringhall pegou na carta, contrariada, embora conseguisse esboçar um sorriso forçado para o mensageiro antes de fechar a porta.

Não precisava de a abrir para saber quem a enviara. A ligeireza e qualidade do papel indicavam que o remetente era uma pessoa importante e o emblema dourado que decorava o canto superior direito teria falado por si só, mesmo que ela não conhecesse a família que o usava com a arrogância de vários séculos de história. E o mais arrogante de todos eles era Sua Alteza Real, o príncipe Zakary Philippe Montegova, o autor da missiva.

Mas não era um convite.

Era uma intimação.

Violet sabia porque enviara muitas cartas semelhantes durante os três meses que passara a trabalhar como mensageira de Sua Alteza Real. Três meses infernais. Três meses de ordens constantes e expectativas impossíveis, porque o príncipe esperava dos outros o mesmo que se exigia, a perfeição absoluta.

Como diretor da House of Montegova Trust, uma fundação que se encarregava de coisas tão díspares como a gestão dos negócios internacionais dos Montegova, das suas obras de caridade e do seu trabalho para ajudar o meio ambiente, Zak conseguira fazer com que o reino mediterrânico pequeno, mas imensamente rico, fosse famoso em todo o lado.

Além disso, e com a ajuda da rainha e do irmão, o príncipe Remi Montegova, levara o país mais longe do que o falecido rei, que estava morto há mais de uma década.

Se fosse outro, talvez se tivesse contentado com desfrutar do seu estatuto de multimilionário e da veneração que despertava, mas Zak não era capaz de dormir à sombra da bananeira. Trabalhava muito e de forma absolutamente vertiginosa, quer dizer, do mesmo modo como vivia. E a sua forma de entender o amor não era diferente.

No entanto, Violet não queria pensar nas suas muitas amantes. De facto, teria dado tudo para parar de pensar nele, mesmo que fosse apenas por algumas horas.

Contudo, não podia, porque se comprometera a estar à sua inteira disposição, como dizia uma das cláusulas do seu contrato. E, embora tivesse reservas sobre o patrão, também não podia negar que o trabalho na fundação nova-iorquina melhoraria substancialmente o seu currículo de especialista em desenvolvimento e conservacionismo.

Fora por isso que aceitara o emprego quando recebera a oferta. Custara-lhe muito, mas não podia rejeitá-lo. E não lhe custara porque a mãe estava empenhada em encontrar-lhe marido, embora tivesse sido motivo suficiente, mas por algo mais grave: Porque tivera uma aventura com ele.

Apesar de se repetir mil vezes que o incidente em questão fazia parte do passado, Violet não o tirava da cabeça. Voltava como um pesadelo recorrente e a sua imaginação projetava-o em tecnicolor quando estava na presença do príncipe, algo que acontecia todos os dias e durante várias horas.

Três meses. Passara três meses a suportar aquela situação e ainda faltavam mais três.

A cara de Zak apareceu na sua mente como se fosse um espetro. Era um homem formidável, insuportavelmente atraente e aristocraticamente carismático. Um homem que a desprezara com toda a crueldade da sua arrogância.

Como podia esquecer o que acontecera há seis anos, no jardim da sua mãe? Porém, já não era uma jovenzinha de dezoito anos. Amadurecera muito desde aquela festa, por causa do enfarte inesperado do pai e da descoberta de que a vida luxuosa que tinham dependia de uma trama escondida de falsidades, humilhações e de uma tentativa descarada e, em última instância, fútil de roubar a uns para pagar a outros.

A revelação chocante de que o conde e a condessa de Barringhall não eram tão ricos como tentavam mostrar e que, na verdade, estavam arruinados, transformou-se num segredo muito conhecido. E embora Violet continuasse na universidade, muito longe do seu país, foi vítima de todo o tipo de brincadeiras e rumores mal-intencionados, porque a imprensa cor-de-rosa falou bastante sobre a situação verdadeira da sua família.

Devastada, concentrou-se no seu trabalho na International Conservation Trust. E, quando surgiu a oportunidade de se afastar de Barringhall e das tentativas da mãe de a casar com um homem rico, agarrou-se a ela e foi para Oxford.

Pouco depois, descobriu que a sua carreira na universidade britânica estava condenada a fracassar. Os empregos importantes acabavam nas mãos de pessoas com experiência e, como a dela era bastante limitada, decidiu melhorar o seu currículo para conseguir algo melhor e fugir completamente da órbita da condessa, o que passava por aceitar o trabalho na House of Montegova Trust.

Infelizmente, a mãe era muito amiga da rainha de Montegova e aproveitou a circunstância para insistir na sua cruzada matrimonial.

Violet considerou a possibilidade de lhe dizer que não valia a pena incomodar-se, mas teria sido inútil. A mãe não sabia que Zak Montegova a rejeitara há seis anos, nem que continuava a rejeitá-la todos os dias, desde que trabalhavam juntos.

Para ele, ela não era nada.

Mas, se não era nada, de onde vinha a carta que tinha na mão, embora ardesse de vontade de a atirar para o lixo? Sobretudo, tendo em conta que acabara de voltar do escritório, onde estivera submetida a dez horas de extravagâncias principescas.

Violet suspirou, abriu o envelope e leu o bilhete breve e brusco que continha:

«A minha assistente adoeceu. Vai substituí-la e acompanhar-me ao baile de gala de angariação de fundos da Conservation Society, que começa dentro de uma hora.

Envio-lhe um carro. Não me dececione.

S.A.R.Z.»

A ameaça intrínseca dessa forma de assinar, usando a sigla de Sua Alteza Real Zakary, mantivera-a acordada durante mais noites naqueles três últimos meses do que em toda a sua vida anterior.

Além disso, Violet sentia-se obrigada a ser exemplar em todos os aspetos porque as maldades dos pais a tornavam suspeita de ser como eles e os meios de comunicação social encarregavam-se de manter o escândalo vivo, quando não era a mãe que piorava as coisas com a sua obsessão com o estatuto social.

No entanto, só tinha de aguentar um pouco mais. Só um pouco mais para ser independente e fazer o que gostava. Só um pouco mais para demonstrar aos céticos como Zakary Montegova que estavam errados com ela. E se isso passasse por substituir a assistente do príncipe, substitui-la-ia. No pior dos casos, poderia falar com os conservacionistas no baile e ganhar mais experiência.

Então, porque é que o coração acelerava com a perspetiva de voltar a ver Zak? Porque ocupava todos os seus pensamentos?

O telemóvel tocou nesse instante, assustando-a. E nem sequer teria tido de se aproximar do aparelho para ver quem ligava, porque o seu apartamento de Greenwich Village era tão pequeno que pôde ver o ecrã da sua posição.

É claro, era Zak.

– Sim?

– Recebeu o meu bilhete, não foi?

Violet tremeu ao ouvir a sua voz rouca, com a mistura de sotaques espanhóis, franceses e italianos que subjaziam na língua e na história de Montegova.

– Porque pergunta? Suponho que saiba, porque terá pedido ao mensageiro para o confirmar – replicou ela, irritada. – E, na verdade, boa-noite.

Para dizer a verdade, a irritação de Violet não se devia à má educação de Zak, mas a ter-se obcecado com ele.

No entanto, não podia dizer-se que era algo novo. Estava obcecada desde que tinha doze anos, quando o vira pela primeira vez da janela do seu quarto, onde estava com a irmã gémea, Sage. E cada vez que lia um conto de fadas, imaginava-se no papel da princesa e imaginava-o no papel do príncipe.

Quem não se teria agarrado a essa lembrança? Quando se entreolharam, sentiu-se como se todos os seus sonhos se tornassem realidade. Como se esse ato fosse uma compensação pelas discussões intermináveis dos pais, as conversas que paravam quando ela e as irmãs entravam na sala e a obsessão da sua mãe com estabelecer amizades estratégicas.

Com o passar do tempo, Violet odiou-se por confundir os contos de fadas com a realidade. Os livros eram apenas livros. Não precisava que um homem ou jovenzinho a salvasse. Não podia viver em função de um príncipe que se tornava frio e desdenhoso quando olhava para ela de algum dos seus desportivos brilhantes.

Em qualquer caso, Zak não lhe deu o prazer de responder imediatamente ao seu comentário e isso deixou-a nervosa. Conseguia sempre fazer com que se sentisse incomodada. E era assim porque lhe dera esse poder.

Se Violet tivesse doze ou dezoito anos, teria caído na sua armadilha e teria perdido o aprumo, mas tinha vinte e quatro e mordeu a língua como se o seu coração não tivesse acelerado e as suas mãos não estivessem repentinamente húmidas, com a lembrança da aventura breve que tinham tido há seis anos.

– As relações com os mensageiros estão fora da minha jurisdição, portanto, terás de me desculpar pela minha ignorância – replicou, finalmente, enfatizando que um homem tão importante como ele não se misturava com os trabalhadores. – Mas alegra-me saber que compreendeu a urgência da situação… Suponho que esteja pronta, então.

– Não, não estou. O bilhete chegou há cinco minutos e nem sequer decidi o que vou vestir.

– Decida depressa, Violet. Estarei no seu apartamento dentro de vinte minutos.

– Como? Não dizia que o baile de gala começa dentro de uma hora?

– Sim, mas houve uma mudança de planos. O ministro da Defesa quer falar comigo antes do baile.

– Isso não é problema meu.

– É, porque vai substituir a minha assistente e tem de estar presente na reunião. Mas, se acha que não é capaz…

– Alteza, está a falar com a pessoa que limpou pássaros durante três semanas por causa de um derramamento de petróleo. E limpei-os ao sol e praticamente sem dormir – recordou. – Tenho a certeza de que serei capaz de tirar notas numa reunião, Alteza. A não ser que não tenha intenção de falar em nenhuma das cinco línguas que domino.

Violet sorriu para si. Aprendera que não podia ser tímida com Zak. Baixar a guarda com ele era uma forma perfeita de deixar que a comesse viva e cuspisse os seus ossos com uma indiferença absoluta. Além disso, tinha de lhe recordar que não estava disposta a saltar como um cão cada vez que lhe pedisse.

– Sinto-me muito consciente do seu currículo, lady Barringhall. Não é necessário falar dele. Especialmente, quando temos pouco tempo.

– É claro que não, Alteza. E, pela mesma razão, também não lhe recordarei que foi o senhor que me ligou e que está a perder tempo a falar ao telefone, o que impede que me vista.

– Oh, ena! Pensava que era capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo – troçou o príncipe. – Mas, tendo em conta que essa habilidade não aparece no seu currículo, terei de o verificar na prática. Restam quinze minutos, lady Barringhall.

Zak desligou a chamada e Violet deixou escapar um palavrão. Essa pequena catarse relaxou-a um pouco e impulsionou-a para o quarto, onde começou a remexer a sua roupa exígua em busca de um vestido que não usava desde que fizera vinte e um anos.

Quando o encontrou, franziu o sobrolho. A roupa simples e elegante recordou-lhe como a sua vida mudara. Os trezentos convidados da festa do seu décimo oitavo aniversário passaram a ser vinte e cinco na do vigésimo primeiro. Os seus supostos amigos abandonaram-na como ratos a saltar de um navio que se afundava e alguns foram tão cruéis que não conseguira esquecê-lo.

No entanto, a origem do vestido não diminuía a sua beleza. De corpete vincado e decote em forma de «V», deixava os ombros e a parte inferior das costas a descoberto, caindo até aos tornozelos depois. Era uma pequena maravilha que, de resto, enfatizava suavemente as suas ancas.

Como tomara banho antes de Zak lhe ligar, só teve de se vestir, escovar o cabelo e apanhá-lo num coque antes de se maquilhar, pôr o seu perfume preferido e completar o conjunto com o colar de pérolas que herdara da avó.

A campainha tocou pela segunda vez em meia hora quando ia pôr as chaves na mala. Violet assustou-se, pensando que seria ele, mas decidiu que o príncipe não era dos que se rebaixavam a subir quatro lances de escadas húmidas e escuras para bater à porta de um edifício de ação social. E, quando a abriu, teve uma surpresa.

– Abre sempre a porta sem saber quem é primeiro? Não se preocupa com a sua segurança? – inquiriu Zakary Montegova.

Violet ficou boquiaberta, a observar os seus olhos cinzentos intensos e o seu corpo alto e impressionante.

– O que está a fazer aqui? Não era necessário subir. Podia ter tocado lá em baixo. Ou ter enviado um dos seus guarda-costas – replicou ela, virando-se brevemente para os homens que o acompanhavam.

Ele arqueou uma sobrancelha.

– E perder a oportunidade de ver o sítio onde vive? – perguntou. – Para que quer uma mira e uma corrente se não as usa?

Zak olhou para ela de cima a baixo, tornando-a subitamente consciente de todas as partes que acabara de estudar, incluindo as que não conseguia ver. E essa sensação irritou-a um pouco mais, porque também a tornou mais consciente de como o smoking à medida lhe ficava bem e da sensualidade potente e inata que o transformara num dos homens mais desejados do mundo.

– Disse-me que estaria aqui dentro de quinze minutos e, embora só tenham passado catorze, não precisava de ser muito inteligente para saber que era o senhor que batia à porta – defendeu-se Violet. – Mas, vamos perder mais tempo com uma discussão sobre protocolos de segurança? Porque garanto-lhe que consigo pensar em coisas melhores para fazer.

– Coisas melhores? Recordo-lhe que assinou um contrato onde diz que todo o seu tempo é meu quando está em comissão de serviço – declarou, olhando para os móveis baratos do apartamento e para o monte de livros que descansava na mesinha da sala. – Ou será que interrompi alguma coisa? Estava a divertir-se, talvez?

Violet fechou a porta um pouco mais, para que não conseguisse ver o seu santuário. Estava arrumado e limpo, mas era muito pequeno e, como não tinha dinheiro suficiente, não podia decorá-lo como teria gostado.

Além disso, Violet também não queria que o príncipe tirasse conclusões erradas sobre a sua existência precária. Conhecendo-o, podia pensar que não fora para Nova Iorque para ampliar a sua experiência profissional, mas para se casar com algum homem com dinheiro, como a mãe queria que fizesse.

– Acho que interpretou mal os termos do nosso acordo, Alteza. Efetivamente, estou ao seu dispor no trabalho, mas isso não significa que todo o meu tempo lhe pertença. O que faço no meu tempo livre não lhe diz respeito.

– Tem a certeza?

Ela sentiu um calafrio.

– Se tenho a certeza? O que significa isso?

Zak semicerrou os olhos, olhou para ela em silêncio durante uns segundos e, depois, afastou-se da entrada para que Violet pudesse sair e fechar a porta.

– Bom, falaremos da sua segurança e do seu tempo mais adiante. O ministro está à minha espera.

Violet ficou sem saber o que quisera dizer, mas optou por esquecer o assunto e começou a descer, com o príncipe ao seu lado. Qualquer um teria percebido que Zak não era um homem normal. Até a sua forma de descer as escadas, insuportavelmente arrogante, era um testemunho da sua origem aristocrática.

Ao chegar à porta da rua, admirou a parte descoberta das costas dela e os seus olhos brilharam com desejo. Contudo, foi um momento tão breve que Violet se questionou se o teria imaginado. Afinal de contas, Zak Montegova nunca mostrava o que sentia. O seu controlo emocional era absoluto, como se nunca tivesse deixado de ser o oficial da Força Aérea que fora quando era jovem.

Mas havia exceções.

Por exemplo, a noite no jardim da mãe, quando o seu corpo se inflamara com uma paixão tão transbordante que consumia tudo. E, embora a tivesse rejeitado depois, Zak baixara a guarda e mostrara-lhe um vestígio do que escondia por trás da sua fachada de dureza.

Violet não fora capaz de tirar esse instante dos seus pensamentos. Ou, pelo menos, de o reprimir com tanta facilidade como ele, porque, às vezes, aparecia na sua expressão, por muito que tentasse controlar-se.

Ou também seria imaginação dela?

Em qualquer caso, sabia que não poderia continuar com a sua vida se não o superasse e, quando chegara a Nova Iorque, tentara-se convencer de que Zak não tinha sentimentos por ela.

E quase conseguira.

Quase, porque nunca era capaz de o fazer por completo.

A lembrança das suas mãos quentes e habilidosas pesava mais do que estava disposta a admitir. Era por isso que rejeitava todos os homens que se aproximavam. Não era porque queria concentrar-se na sua carreira, mas porque Zakary Montegova estava sempre lá, como um fantasma formidável com o qual não conseguia competir, como uma imitação vulgar do príncipe bem-sucedido.

O príncipe aclamado era um génio. Enquanto o irmão se encarregava dos assuntos internos de Montegova, ele encarregava-se dos interesses internacionais do seu país. E, em poucos anos, conseguira fazer com que muitos presidentes comessem da sua mão e tornara-se incrivelmente poderoso.

– Passa – disse Zak, abrindo a porta.

Violet saiu para a rua, mas saiu no preciso momento em que um ciclista passava à frente da porta e teve de recuar para que não a atropelasse. Infelizmente, isso deixou-a nos braços de Zak, que tentou impedir que perdesse o equilíbrio e voltou a olhar para ela com desejo.

Ela ficou com falta de ar. Não ouviu o grito do ciclista, que se zangou, embora não tivesse o direito de circular pela calçada. Não ouviu o barulho do trânsito. Não sentiu o cheiro a salsichas e bolachas salgadas, tão típico de Nova Iorque.

De repente, o mundo reduziu-se ao contacto do seu corpo e à confirmação do seu principal receio: Apesar das maquinações da mãe e das reservas do próprio Zak que, ao princípio, não quisera contratá-la, o conto de fadas da sua juventude fora real.

Ali, numa esquina sórdida, acabara de descobrir que o homem que a beijara há anos enquanto sussurrava palavras carinhosas continuava vivo por trás da sua fachada estoica. Que o homem com quem quase perdera a virgindade continuava a ser o homem que desejava em segredo. Que esse homem era a razão por que continuava a ser virgem.

E, então, compreendeu que Zak sabia. Estava nos seus olhos, na tensão do seu corpo, nos dedos que acariciaram a pele nua, como se examinasse as fraquezas dela.

E tremeu.

Em resposta, ele desviou o olhar dos seus olhos e passou-o pelo seu corpo, o que permitiu que visse o endurecimento dos seus mamilos e a cadência errática da sua respiração.

Violet não precisava de ser muito inteligente para reconhecer a mudança que experimentou um segundo depois. Já não estava a admirá-la, mas a analisá-la. Ponderava o que acontecera para saber até onde chegava o seu poder sobre ela e se podia usá-lo contra ela.

Subitamente, Zak emitiu um som que pareceu uma mistura de gemido e suspiro de satisfação, como um predador que encurralara a presa.

Esse som foi tudo o que Violet precisava para sair do seu estupor e redobrar os seus esforços para resistir às maquinações matrimoniais da mãe. Porém, sobretudo, foi tudo o que precisava para impedir que Zak confirmasse definitivamente os seus receios.

Capítulo 2

Zakary Montegova sabia que um momento de fraqueza podia acabar com qualquer império. E, quando Violet se afastou dele como se tivesse a peste, optou por deixar que se afastasse para a limusina e seguiu-a devagar, recusando-se a reconhecer o que a visão das suas nádegas redondas fazia à sua libido.

Como era possível que se deixasse excitar com tanta facilidade? Não tinha o suficiente com a lição que o seu pai lhe recordava da sepultura?

As repercussões da sua fraqueza tinham sido traumáticas e continuavam a ter consequências na Casa Real de Montegova, como o seu irmão reservado e circunspecto, Remi, demonstrava. Ou como a mãe demonstrava também, embora escondesse a angústia por trás do aprumo aristocrático de uma mulher que nunca se acovardava. Mas, sobretudo, como demonstrava a existência de Jules, o seu meio-irmão ilegítimo.

O reino quase caíra nas mãos de oportunistas e generais ambiciosos quando a notícia da infidelidade do pai se tornara pública, poucas horas depois de falecer. E Zak, que fora testemunha de tudo isso. Não esquecera o que a tentação podia causar.

Além disso, ele não era uma exceção à regra. Fora por isso que escolhera uma vida de trabalho árduo. Por isso recusava-se a cair nas garras das mulheres. Era por isso que adorava deixar a produção de herdeiros para o seu irmão, o primeiro na linha dinástica.

Contudo, nesse caso, porque se obcecara com Violet Barringhall?

Não esquecera o que acontecera há seis anos. A mãe pedira-lhe que fosse ao aniversário da adolescente e quase se recusara. Não queria apoiar a amizade da primeira com a bisbilhoteira Margot Barringhall, uma oportunista famosa que adorava a imprensa cor-de-rosa.

No entanto, a mãe insistira e, quando Zak vira Violet, não conseguira desviar o olhar. Já não era a menina com quem estivera algumas vezes. Transformara-se numa jovem linda. E a hora que tencionava dedicar à festa transformara-se em quatro.

Em determinado momento, seguira-a para o jardim de sua casa, atraído pelas artimanhas femininas tímidas, mas sedutoras, que ela parecia praticar. Achava que estava a testar-se e submetera-se à tentação com a certeza de que conseguiria ir-se embora quando quisesse e sair triunfante na batalha contra o desejo de tocar nela.

E tocara nela.

Descobriu porque lady Violet Barringhall o intrigava tanto.

Tocou nela e provara-a com toda a fome que acumulara durante vários meses, desde a morte do pai. Até chegara a pensar em ter uma aventura com ela e talvez tivesse sido assim se não tivesse descoberto que a família dela era tudo menos honrada.

O conde delapidara a sua fortuna antes de morrer e a condessa mergulhara num plano desesperado e frenético para manter o seu nível de vida, que seguia duas estratégias, cada uma pior do que a outra: A primeira, vender informação à imprensa amarela e, a segunda, casar as filhas com qualquer homem que tivesse uma boa conta bancária e quisesse aceder a um título nobiliário.

A descoberta deixara-o pasmado e amaldiçoara-se por ter estado perto de cair na armadilha casamenteira de Margot Barringhall. No entanto, felizmente, livrara-se. E não voltara a pensar nisso até a mãe voltar a pedir um favor relacionado com Violet.

Só tinham passado três meses. Três meses de fracassos na sua tentativa de fazer com que se rendesse e deixasse o emprego. Dava-lhe as tarefas mais aborrecidas. Dava-lhe as mais insignificantes. Mas não se rendia, portanto, pôs mais trabalho sobre os seus ombros pequenos, com a esperança de que perdesse as forças.

E não correra bem.

Violet era mais dura do que imaginara e compreendia perfeitamente os objetivos da House of Montegova Trust, sobretudo, no que dizia respeito aos programas de ajuda aos mais necessitados.

Além disso, a sua proximidade física despertara nele o desejo de voltar a tocar no seu corpo, de voltar a ouvir os seus gemidos, de voltar a sentir as suas carícias, de verificar que a sua atitude tímida escondia uma língua verdadeiramente descarada.

Mas não podia ser. Não podia cometer o erro terrível de se deixar seduzir por uma das filhas da condessa, comprometendo o futuro da sua família com isso. E essa era a razão por que mantivera a distância da criatura escultural de cabelo castanho e olhos turquesa, que o faziam sempre pensar no mar.

Apesar disso, a primeira coisa que fez quando entrou no carro foi olhar para as pernas da sua acompanhante, que acabara de as cruzar. Tinha uma elegância natural e os seus movimentos eram tão delicados como a sua pose, de costas direitas e mãos cruzadas por cima do colo. Era a quinta-essência do decoro. À exceção da veia que vibrava no seu pescoço suave e encantador, que Zak desejou beijar.

Contudo, o que raios estava a fazer? Porque insistia em brincar com o fogo?

Não sabia e odiou-se por ser incapaz de resistir à tentação de admirar o seu decote, que deixava ver a parte superior dos seus seios.

– Terás de tirar notas, mas parece-me que não trouxeste o computador – observou, irritado.

– Não o trouxe porque não é necessário. Tenho uma aplicação no telemóvel que serve para isso e que, se bem me lembro, é o que usam normalmente na fundação – declarou ela. – Se precisar de alguma coisa, posso tê-la numa hora.

– E se precisar antes?

– Então, perguntar-me-ei porque vai a esses bailes se tem coisas mais importantes para fazer – replicou. – Não me interprete mal… Sei que é um génio das multitarefas. Mas tudo seria mais fácil se soubesse o que é prioritário.

– Bom, vamos descobrir em breve.

Segundos depois, o motorista parou o veículo à frente da embaixada de Montegova. Zak saiu e ofereceu-lhe cortesmente uma mão, que Violet aceitou. Mas, ao sentir o seu contacto, afastou-a como se se tivesse queimado e entrou no vestíbulo do edifício, onde o general Pierre Alvardo, ministro da Defesa, esperava.

– Obrigado por me receber, Alteza – agradeceu o general. – Não queria interrompê-lo, mas trata-se de um assunto importante.

– Serei eu a decidir isso.

Para dizer a verdade, Zak concedera-lhe a audiência porque sabia que Alvardo era um homem rápido no gatilho. E, como a mãe estava ocupada no Parlamento e o irmão fora ao Oriente Próximo, não tinha outra opção senão recebê-lo.

– E então? O que se passa? – quis saber o príncipe.

Alvardo lançou um olhar a Violet, como se não quisesse falar à frente dela.

– Não se preocupe com a lady Barringhall – acrescentou Zak. – Assinou um acordo de confidencialidade e conhece as consequências de o infringir.

– Não é necessário recordar-mo – interveio ela, sorrindo com frieza. – A lady Barringhall nunca esquece nada, Alteza.

Alvardo ficou espantado com o seu descaramento, mas não disse nada. Afinal de contas, não teria chegado a ministro se não fosse um bom diplomata.

Já na sala de conferências, Zak esperou que Violet se sentasse e pegasse no telemóvel antes de se acomodar também. Então, virou-se para o ministro e perguntou:

– De que se trata? São os dissidentes sobre os quais me alertou há dois meses?

Alvardo assentiu.

– Os serviços secretos afirmam que são cada vez mais e que existe a possibilidade de se rebelarem em Playagova.

– A possibilidade? – inquiriu Zak, tenso. – Não tem a certeza?

– Bom, não conseguimos infiltrar o grupo. É mais difícil do que imaginávamos.

– E o que quer? Que lhe dê permissão para os perseguir abertamente?

O ministro assentiu.

– É verdade. A rainha nomeou-o chefe das Forças Armadas e não podemos agir sem a sua permissão escrita.

– Desculpe-me, mas um ato assim poderia causar inquietação social e talvez pânico.

– Talvez, mas o preço seria mais pequeno do que os lucros.

– Não me parece.

Zak reparou que Violet olhava para ele com alívio, antes de continuar a tirar notas no seu telemóvel.

– Alteza, não sei se é consciente do risco que corremos – disse Alvardo, escolhendo cuidadosamente as suas palavras. – Se não intervir em breve, a situação poderia fugir do nosso controlo.

– Então, duplique os seus esforços para conseguir provas fidedignas. O povo de Montegova já sofreu o suficiente e não precisa que o alterem com rumores. Mantenha a vigilância do grupo e diga-me se houver alguma mudança.

Zak pensou que investigaria o assunto e verificaria o relatório do ministro, pelo sim pelo não. A situação da Montegova complicara-se com a decisão inesperada da mãe de deixar o trono a Remi e o país não precisava de mais sustos.

– É só isso – sentenciou.

O ministro levantou-se, fez uma reverência e saiu da sala. Depois, Zak e Violet voltaram ao carro e, quando já se dirigiam para o Upper East Side, onde se celebraria o baile, ele disse:

– Se tem alguma coisa para perguntar, pergunte. Nota-se que está a esforçar-se para ficar calada.

Ela cerrou os dentes.

– É verdade que Montegova corre perigo?

Zak encolheu os ombros.

– Há sempre ameaças de alguma categoria – respondeu. – O truque consiste em separar o trigo do joio, por assim dizer.

– Mas o general parecia preocupado…

– O Alvardo é o ministro da Defesa e costuma exagerar.

Violet franziu o sobrolho.

– Tem a certeza? Pareceu-me algo grave.

– Porque talvez seja.

– E aceita-o assim, com tanta tranquilidade? – inquiriu ela, perplexa.

– Aprendi que as coisas nem são sempre o que parecem. O ministro faz os seus relatórios e eu investigo-os quando é necessário. No fim, descobre-se sempre a verdade.

Zak lembrou-se do segredo que o seu pai guardara durante vinte anos, um segredo que rebentara na cara da família. No entanto, também se lembrou dos planos matrimoniais de Margot Barringhall e questionou-se se seria realmente verdade que a filha conspirava com ela.

Depois de olhar novamente para ela e ver que fingia estar interessada na paisagem, pensou que sim. Aparentemente, lady Violet queria caçá-lo e convencera-se de que a farsa do seu trabalho na fundação o enganara.

– Acha que a situação merece uma investigação a fundo? – insistiu ela. – É possível que alguém queira acabar com o reino?

Zak encolheu os ombros outra vez.

– Bom, a era das monarquias acabou e há quem pense que o país estaria melhor sem a Casa Real. Mas Montegova não é governada por um ditador que se limita a sentar-se no trono e a angariar impostos. A minha mãe e o meu irmão são membros ativos do Parlamento e nenhum dos dois está acima da lei – explicou o príncipe. – Se alguém quer mudar as coisas, deve usar as vias legais, sem motins ou revoltas.

– Soa bem, mas não é verdade que os seus antepassados esmagaram a dissidência com sangue e fogo?

Ele sorriu com frieza.

– É. E, precisamente por isso, temos de impedir que a história se repita. Porque haveríamos de seguir a velha rota de sempre, quando há caminhos novos? Trata-se de inovar, não de imitar.

Violet semicerrou os olhos.

– Porque finge que não se preocupa?

Zak ficou tenso.

– Talvez seja porque desconfio dos seus motivos para perguntar. Supostamente, só tem de tirar notas. De onde vem esse interesse súbito pelo meu país?

– Trabalho para si – replicou, fazendo um esforço para manter o aprumo. – O que tem de estranho que me interesse? Além disso, esquece que também tenho motivos pessoais. A minha mãe tem sangue de Montegova.

Zak não se esquecera. De facto, parecia-lhe engraçado que as Barringhall só mencionassem esse assunto quando lhes dava jeito.

– E diga-me, quantas vezes visitou Montegova? Porque, se a sua mãe é filha do meu país, a menina também tem essas raízes – ironizou.

Ela corou.

– Não tantas como teria gostado…

– Oh, vá lá, confesse que nunca lá esteve.

– Confessar? Não posso confessar nada, porque sabe tão bem quanto eu.

– Efetivamente, sei. Segundo o seu currículo, viajou por todo mundo e publicitou-o muito bem nas redes sociais, mas nunca se incomodou em visitar o lar dos seus ancestrais mediterrânicos – declarou. – Desculpe-me por desconfiar do seu interesse súbito. Não parece sincero.

– Todas as minhas viagens foram em trabalho e foram financiadas por organizações não governamentais – defendeu-se. – E, quanto às redes sociais, fazem parte da minha profissão. Tento despertar a consciência das pessoas.

– Há uma grande diferença entre despertar a consciência das pessoas e tornar-se famosa às suas custas – contra-atacou Zak.

– E como sabe? Tem uma lista de peritos em redes sociais? Ou é um desses príncipes que tem identidades secretas para espiar os outros através da Internet?

Zak voltou a sorrir.

– Se tem alguma coisa a esconder, não se preocupe. Não tenciono dizer nada.

Violet olhou para ele com raiva.

– Sei que se disseram muitas coisas sobre a minha família, Alteza. Mas é de estranhar que um homem como o senhor acredite em tudo o que lhe contam.

– Bom, há provas aparentemente irrefutáveis – replicou ele. – Embora, se não forem, será um prazer ouvir a sua história.

Ela voltou a cerrar os dentes e Zak lembrou-se do sabor dos seus lábios e dos suspiros que deixavam escapar quando Violet se excitava.

– Não, obrigada, não quero perder tempo com algo inútil. Além disso, já chegámos.

Zak virou-se para a janela e praguejou. Estava tão concentrado na conversa que perdera a noção do tempo e do espaço. Nem sequer se apercebera de que o motorista saíra do veículo e estava à espera para abrir a porta.

No entanto, Violet conseguira despertar o seu interesse. Recusara-se a falar dos rumores que afetavam a sua família e não estava habituado a ser rejeitado.

– Alteza…

– Zak.

Olhou para ele com espanto.

– Como?

– Podes tratar-me por tu quando não estivermos em âmbitos excessivamente formais ou profissionais. Se quiseres, claro.

Violet não rejeitou a oferta em voz alta, mas os seus olhos rejeitaram-na com toda a clareza.

– Vamos chegar atrasados, Alteza. E não quero que me culpe.

Zak fixou o olhar nos seus olhos azuis. Com quem achava que estava? Era príncipe. Era a segunda pessoa na linha de sucessão de um reino pequeno, mas muito poderoso. Como se atrevia a desafiá-lo?

Durante uns instantes, pensou em pô-la no seu lugar. No entanto, havia outras formas de submeter os que semeavam dissensão no país ou tentavam enriquecer às custas dos Montegova. Porque não haveria de as usar? Em vez de a repreender, seduzi-la-ia novamente e deixá-la-ia depois, enviando uma mensagem clara e definitiva às Barringhall.

Sim, era a solução perfeita. Se achavam que ele não sabia jogar o seu jogo, corrigi-las-ia.

Decidido, fez um gesto ao motorista, que lhe abriu a porta.

Zak saiu da limusina e encontrou-se entre muitos paparazzi, que começaram a tirar fotografias. Porém, não fez caso. Ofereceu uma mão a Violet e levou-a pela passadeira vermelha que tinham posto na entrada do edifício.

Naturalmente, os paparazzi crivaram-no de perguntas pelo caminho. E ele desprezou-as todas, porque aprendera que a imprensa amarela publicava o que queria, independentemente do que dissesse e da própria verdade.

Além disso, Violet era a única coisa que lhe interessava nesse momento.

As coisas tinham mudado.

Violet não soube nem quando nem porquê, mas percebeu que Zak tinha outra atitude quando abriram caminho entre os convidados do baile. E tinha a certeza de que essa atitude não se devia ao bom trabalho que estava a fazer.

Era algo de caráter pessoal. Algo dirigido a ela, como demonstrou ao olhar reiteradamente para ela e com mais intensidade do que de costume enquanto a guiava pela sala opulenta.

O que estaria a tramar?

Fosse o que fosse, tinha de se afastar dele. E encontrou a desculpa de que precisava nos compromissos de Zak, que tinha sempre de se reunir com alguém.

– Recordo-lhe que tem de falar com três pessoas antes do jantar – replicou, insistindo em tratá-lo formalmente. – O primeiro é o agregado da embaixada boliviana, que se dirige para aqui.

Zak assentiu sem desviar o olhar do cavalheiro de quem se despedia nesse momento e Violet começou a afastar-se. No entanto, o príncipe pôs-lhe a mão no cotovelo e disse:

– Fique. A sua presença limitará a tendência dele para falar sem parar. E talvez aprenda algumas coisas que serão úteis quando deixar a fundação.

A lembrança de que o seu trabalho era temporário não deveria tê-la incomodado, tendo em conta que ardia de vontade de se ir embora, mas incomodou. Seria porque a observava como se desconfiasse dela?

– Está bem, ficarei, se desejar. Afinal de contas, sou a sua assistente.

– Deteto um tom de aborrecimento na sua voz, lady Barringhall?

A ironia de Zak aumentou o seu desgosto de tal forma que quase lhe pediu para não a chamar assim, mas pelo seu nome próprio.

– Claro que não.

Zak cumprimentou o agregado, começou a conversar com ele e despediu-se quando começou a tornar-se aborrecido. Depois, aproximou-se da pessoa seguinte com quem devia falar e, é claro, apresentou Violet.

Já tinham ficado a sós quando ela perguntou:

– Porque se empenha em apresentar-me como lady Barringhall?

– Empenhar-me? Não sei a que se refere.

– Não disfarce, Alteza – replicou. – Está de um humor estranho desde que chegámos. É algum tipo de teste?

– É tudo um teste. Se ainda não aprendeu isso, estou a perder tempo consigo.

– Sabe muito bem que não me referia ao trabalho. Isto é pessoal – queixou-se. – Fiz alguma coisa que o tenha ofendido?

– Continuo sem entender – mentiu. – Limito-me a apresentá-la pelo seu título, que sempre foi lady Barringhall. Não sei porque se sente atacada.

Ela suspirou.

– Devíamos esclarecer tudo. Ser francos um com o outro.

Os olhos de Zak brilharam.

– Ah, ena! Vai diretamente à questão? Vai confessar?

Violet franziu o sobrolho.

– O que tenho de confessar?

– O verdadeiro motivo pelo qual trabalha na fundação.

– E que motivo é esse? – perguntou. – Não, espere um pouco… Deixe-me adivinhar. Acha que procuro um lugar na sua vida? Ou talvez na sua cama?

– Quer ir para a cama comigo? – perguntou, com humor. – Devia ter-mo dito antes, Violet. Teríamos poupado este jogo.

O comentário de Zak tirou-a do sério e, antes de se aperceber do que se passava, já estava a tratá-lo por tu.

– Estás a manipular as minhas palavras deliberadamente! Não quero ir para a cama contigo! Nem sequer quero aproximar-me do teu quarto!

Vários convidados viraram-se para eles, surpreendidos com o tom de voz de Violet. E sentiu-se profundamente aliviada quando, um instante depois, alguém tocou uma campainha para os chamar para jantar.

– Salva pelo gongo, eh? – replicou ele, levando-a para outra sala. – Mas não fiques tão feliz. Já retomaremos a conversa.

– Não retomaremos nada. Disse tudo o que tinha para dizer sobre esse assunto. E tanto faz o que pensas de mim, embora agradecesse que…

– Tanto faz? – interrompeu-a. – Esqueceste que uma das razões da tua presença é fazer com que te dê uma carta de recomendação?

– Estás a ameaçar-me se não jogar o teu jogo ridículo?

– Quem está a jogar com quem? – quis saber, observando-a com dureza.

– Não respondeste à minha pergunta – insistiu Violet, que não ia acovardar-se. – Fiz tudo o que me pediste desde que cheguei a Nova Iorque. Mas, se estou a perder tempo, prova que tens o que é preciso e diz-me.

Ao chegar à mesa que lhes tinham atribuído, Zak esperou que Violet se sentasse antes de fazer o mesmo. Ela continuava zangada, mas conteve-se porque não queria irritá-lo mais do que devia.

– Não vais ganhar a minha confiança com o teu encanto inglês e algumas semanas de trabalho. Terás de fazer mais – declarou ele, em voz baixa. – E, quanto a ter o que é preciso, eu não puxaria esse assunto nas nossas conversas. Pelo menos, assim. Mas quem sabe… Talvez to demonstre mais tarde.

Violet, que já se sentia incomodamente consciente do seu cheiro e do corpo poderoso que o seu fato escondia, corou. Não queria pensar nele, mas a sua mente encheu-se de imagens eróticas e teve de fazer um esforço para perguntar:

– O que tenho de fazer para que me valorizes?

– Bom, o fundo vai construir uns alojamentos ecológicos na Tanzânia. É uma iniciativa com colaboração governamental, destinada a aumentar os ganhos dos habitantes da zona – respondeu. – Começa por dar a tua opinião.

Violet animou-se imediatamente, porque Zak lhe pedira conselho sobre uma das questões que mais lhe interessavam.

– Quantos vão construir?

– Para começar, trinta. E mais sessenta na segunda e terceira fases – explicou. – Todos, a pensar num turismo sustentável.

– Precisam de trabalhadores? Posso ajudar com isso. Sei distinguir entre os que estão verdadeiramente envolvidos numa causa e os que só querem crescer.

– Temos alguns e o resto chegará dentro de algumas semanas.

Ela abanou a cabeça.

– A temporada de chuvas começa dentro de três meses. Se não te apressares, terão problemas.

Zak sorriu e Violet soube que estava a testá-la. Mas, em vez de se zangar, olhou para ele nos olhos e perguntou:

– Queres testar-me mesmo? Inclui-me no projeto. Quero demonstrar-te que não estou a brincar.

Observou-a com ceticismo.

– Não serias a primeira aristocrata que se junta a um projeto destas características para melhorar a sua imagem.

– Oh, vá lá, só estou a pedir que suspendas a tua desconfiança durante algumas semanas e me permitas fazer o meu trabalho. Ou és tão canalha que nem sequer vais conceder-me essa oportunidade? – desafiou-o.

Ele voltou a sorrir, embora com mais dureza.

– Tem cuidado com o que dizes, Violet.

– Não tencionava insultar-te, mas estou a defender a minha carreira. Sou muito boa no que faço – disse. – Se a minha palavra não vale nada para ti, deixa que os meus atos o demonstrem.

Zak observou-a com intensidade e, quando já ia responder, começou o discurso da famosa que geria o baile da angariação de fundos.

Ambos ficaram em silêncio e Violet ficou perplexa com a mulher em questão, porque não parava de olhar para Zak. De facto, o seu interesse era tão descarado que se questionou se teriam sido amantes. Até era possível que ele tivesse tido alguma coisa a ver com a sua escolha como anfitriã do evento.

Depois de um discurso carregado de inteligência e humor, que ganhou um aplauso cerrado, a famosa anunciou a intervenção do príncipe, que se levantou com elegância e subiu ao estrado, fazendo com que todos os presentes se sentissem especiais.

Zak falou com uma combinação sublime de encanto, seriedade e arrogância. Despertou consciências, encorajou as pessoas e até conquistou os mais céticos, que olharam para o vídeo de apresentação com verdadeiro interesse.

– Para acabar, quero recordar-vos o que a minha querida lady Barringhall, que acabei de nomear como assessora do projeto na Tanzânia, diz… Que o tempo é essencial se quisermos conseguir o nosso objetivo – sentenciou Zak. – Apressem-se, então, porque este comboio está prestes a partir. E, se o perderem, não garanto que possam entrar no próximo.

Os convidados desataram a rir-se e viraram-se para Violet, embora ela não lhes prestasse atenção. Só tinha olhos para o príncipe, que a deixara atónita com o comunicado inesperado e público da sua nomeação.

Segundos depois, Zak saiu do estrado e voltou à mesa enquanto um quarteto de cordas começava a tocar.

– Porque não me disseste antes de o comunicares? – perguntou ela, que mal conseguia conter o seu entusiasmo.

Os olhos cinzentos de Zak fixaram-se nela.

– Devias agradecer-me por te dar esta oportunidade, não é?

Violet engoliu em seco.

– Obrigada pela oportunidade – agradeceu, com ironia. – E, antes de me perguntares se estou à altura da tarefa, vou dizer-te que estou.

– Veremos. Mas quero que saibas que estarei a vigiar-te constantemente e que não permitirei passos em falso. Se me dececionares, serás despedida.

– Não vou dececionar-te.

– Nesse caso, vamos para lá dentro de sete dias. Será melhor começares a fazer as malas.

Violet olhou para ele com espanto.

– Vamos? Tu também vais?

– Ah, não o tinha mencionado? Sim, também vou à Tanzânia, o que significa que estarás diretamente às minhas ordens.

Zak olhou para ela com intensidade, ponderando o efeito das suas palavras e, depois, desviou o olhar de Violet, que estava perturbada, e começou a falar com outros comensais.

Durante os minutos seguintes, ela tentou aceitar a reviravolta dos acontecimentos e apagar uma ideia que não conseguia tirar da cabeça: Agora, estava à mercê do poder sensual do príncipe.

A sorte estava lançada e em mais de um sentido.

Contudo, não era tão mau como parecia. De repente, tinha a oportunidade de lhe demonstrar e de demonstrar ao mundo que não era uma aristocrata sem escrúpulos, que não estava a fingir que era uma profissional para caçar um homem rico e contentar a mãe ambiciosa.

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Дата выхода на Литрес:
22 июля 2024
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141 стр. 3 иллюстрации
ISBN:
9788411050517
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