Читать книгу: «Um príncipe incógnito»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2020 Kate Hewitt

© 2022 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Um príncipe incógnito, n.º 1886 - abril 2022

Título original: Vows to Save His Crown

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1105-809-4

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Epílogo

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

– Lamento muito, filho.

Mateo Karavitis ficou a olhar para o ecrã do computador, atordoado. Estava a ter uma videoconferência com a mãe. O rosto da rainha Agathe refletia tristeza e resignação. Tristeza por causa do problema em que acabara de o envolver e resignação por ter tido de chegar a essa situação: que, tendo tido três filhos, fosse o mais novo que se visse forçado a ocupar o trono.

– Sei que não é o que queres – acrescentou.

Mateo não respondeu. Era o terceiro na linha de sucessão e não o tinham preparado para ocupar o trono. Nunca se esperara que governasse Kallyria como o seu pai, Barak, fizera durante trinta anos. Era um monarca respeitado, amado pelo seu povo e temido pelos seus inimigos.

O seu irmão Kosmos, o primogénito, fora preparado desde a infância para suceder ao pai. Estivera numa academia militar, dera-se com dignitários e diplomatas e, com catorze anos, fora nomeado príncipe herdeiro. No entanto, com trinta anos, perdera a vida no mar. Isso acontecera há dez anos.

A morte repentina de Kosmos fora um golpe tremendo para a família. O pai envelhecera vários anos de repente: Perdera muito peso e a sua figura, antigamente corpulenta, parecia ter-se encolhido, enquanto o seu cabelo, forte e grisalho, se tornara branco e frágil. Três meses depois da morte do seu primogénito, sofrera uma apoplexia que afetara a sua capacidade de falar e de se movimentar, mas continuara no trono. No entanto, a sua saúde continuara a deteriorar-se e, quatro anos depois, morrera e o seu segundo filho, Leo, fora coroado rei. E agora, de repente, sem prévio aviso, Leo abdicara.

– Falaste com o Leo? – perguntou à mãe. – Deu-te alguma explicação?

– Vê-se incapaz de continuar… – A voz da sua mãe, normalmente firme e calma, parecia trémula, como se estivesse prestes a perder as forças.

Mateo virou a cadeira para um lado para que a mãe não visse no seu rosto as emoções que buliam no seu interior. Nunca teria esperado uma coisa dessas. Há dez anos, Leo parecera querer ocupar lugar do pai, até parecera ansioso. Estivera sempre à sombra de Kosmos e, finalmente, chegara o seu momento. O brilho nos seus olhos no dia do funeral do pai causara nós no estômago de Mateo, que abandonara Kallyria, decidido a estabelecer-se de forma definitiva em Inglaterra, longe das pressões de ser um membro da família real.

E, agora, tinha de regressar porque Leo desistira dos seus deveres como monarca. Estava no trono há mais de seis anos. Como podia deixar tudo assim, sem mais nem menos? Onde estava o seu sentido de dever, de honra?

– Não entendo – resmungou. – De repente, decidiu que ser rei não era para ele?

– Não é isso – replicou Agathe, com suavidade e tristeza. – O teu irmão viu-se superado pelas suas obrigações como rei.

– As obrigações superaram-no? Parecia muito contente no dia da sua coroação…

A sua mãe cerrou os dentes.

– Apercebeu-se de que a realidade dista muito do que ele tinha sonhado.

– Não é assim para todos?

A mãe encolheu os ombros e olhou para ele com tristeza.

– Sabes que o Leo sempre foi mais volátil do que o Kosmos, mais sensível. Leva as coisas muito a peito e guarda tudo para si até explodir. Entre a insurreição no norte e os problemas económicos que o país atravessa… – explicou, com um suspiro. – Perdeu as forças. Devia tê-lo visto vir. Devia ter sabido que não seria capaz de aguentar tanta pressão.

A mãe disse-lhe que Leo fora internado numa clínica privada da Suíça e isso deixava-o como o único que podia tomar as rédeas do seu país naquele momento tão difícil em que se encontrava sem ninguém ao leme, à deriva.

Lá fora, os sinos da capela de um dos muitos colleges de Cambridge começaram a tocar. A sua vida era ali, na universidade, onde estava a levar a cabo uma investigação sobre o efeito que determinados processos químicos tinham no clima.

A sua colega de laboratório e ele estavam prestes a descobrir como reduzir esse efeito pernicioso. E, agora, de repente, esperava-se dele que deixasse tudo isso para trás para se transformar no rei de um país que estava a atravessar uma situação económica e política complicada.

– Mateo – disse a mãe, com suavidade –, sei que isto é muito difícil para ti, que a tua vida foi em Cambridge durante todos estes anos. Sei que estou a pedir-te demasiado.

– Não mais do que se esperava dos meus irmãos quando chegou a vez deles – replicou ele.

A mãe suspirou.

– Sim, mas eles foram preparados para enfrentar esse dever.

E ele não estava pronto. Era mais do que evidente. Como poderia ser um bom rei? No entanto, devia-o ao seu país e ao seu povo.

– Mateo? – chamou-o a mãe, ao ver que ficava calado.

Ele assentiu com a cabeça, a modo de rendição.

– Regressarei a Kallyria.

A rainha Agathe não pôde esconder o seu alívio e deixou escapar um suspiro trémulo.

– Temos de agir depressa para te garantir o trono – murmurou.

Mateo ficou a olhar para ela com os olhos semicerrados e os dentes cerrados.

– O que queres dizer?

– A abdicação do Leo foi tão repentina e tão inesperada que causou alguma… instabilidade no país.

– Referes-te aos insurgentes?

Segundo sabia, eram apenas uma tribo nómada que detestava qualquer inovação, qualquer vestígio de modernização, porque o viam como uma ameaça ao seu modo de vida e à sua cultura.

Agathe assentiu e franziu o sobrolho com preocupação.

– Estão a adquirir mais poder e também estão a aumentar em número. Sem um líder visível no trono… Quem sabe o que seriam capazes de fazer?

Mateo sentiu um nó no estômago só de pensar no começo de uma guerra.

– Farei tudo o que puder para os deter – prometeu à mãe.

– Sei que o farás – afirmou ela. – Mas há mais uma coisa.

Ao vê-la ficar hesitante, Mateo franziu o sobrolho.

– A que te referes?

– Temos de proporcionar estabilidade ao país o quanto antes – explicou Agathe. – Depois da morte do teu pai, da do Kosmos, da abdicação de Leo e de tanta incerteza… não pode haver nenhuma dúvida de que a nossa dinastia continuará no poder, de que a Casa Real não vacilará face a qualquer problema que possa aparecer. Tens de te casar – declarou, sem rodeios –, e dar um herdeiro à Casa Real assim que for possível. Fiz uma lista de candidatas que poderiam ser adequadas…

Mateo cerrou os dentes. Casar-se? Não só detestava a ideia de ter de se casar, como também a de o fazer com uma desconhecida, por muito adequada que fosse para se tornar rainha consorte.

– E quem incluíste nessa lista? – perguntou, sem conseguir reprimir uma nota de ironia. – Só por curiosidade.

– A mulher que se casar contigo desempenhará um papel muito importante. Tem de ser inteligente, alguém que não se intimide com facilidade e, é claro, terá de ser alguém de boa família e que tenha recebido uma boa educação…

Mateo desviou o olhar.

– Não respondeste à minha pergunta: quem está nessa lista?

– Bom, por exemplo, a Vanesa Cruz, uma jovem empreendedora espanhola. É a dona de uma empresa grande de roupa.

Ele soprou.

– E porque quereria renunciar a tudo isso?

– Porque és um bom partido, filho – declarou Agathe, com um sorriso.

– Mas nem sequer me conhece… – resmungou ele. Não queria casar-se com uma mulher que se casaria com ele apenas por causa do seu título e para subir na escala social. – Quem tens mais na tua lista?

– A filha de um magnata francês, a filha do presidente de uma empresa turca… No mundo em que vivemos, tens de ter uma mulher que seja independente, não uma princesa que só esteja à espera de conseguir protagonismo.

A mãe mencionou os nomes das outras candidatas de que Mateo mal ouvira falar. Eram todas perfeitas estranhas para ele, mulheres que não tinha nenhum interesse em conhecer e com quem tinha ainda menos interesse em casar-se.

– Pensa nisso – insistiu a mãe, com suavidade. – Falaremos com mais calma quando chegares.

Mateo assentiu e, alguns minutos depois, acabava a videochamada com a mãe. Deslizou o olhar pelo seu escritório e, quando os seus olhos pousaram no relatório da investigação que estava a fazer, não teve outro remédio senão aceitar que a sua vida mudara para sempre.

– Surgiu-me um imprevisto.

Rachel Lewis levantou o olhar do microscópio sobre o qual estava inclinada e sorriu a modo de cumprimento para o seu colega de laboratório, Mateo Karras. Por sorte, há muito tempo que a sua beleza física parara de a afetar, mas o seu lado científico não conseguia parar de admirar a simetria perfeita das suas feições cada vez que estava à frente dela. Tinha o cabelo preto e usava-o muito curto. Os seus olhos eram de um azul-esverdeado incrível, idêntico às águas do mar Egeu, em que tomara banho há alguns anos, durante umas férias. Tinha o nariz reto e um queixo robusto e, por baixo da camisa e das calças, adivinhava-se o físico de um atleta.

– Um imprevisto? – repetiu, franzindo o nariz, estranhando o tom tenso da sua voz. – A que te referes?

– É que… – Mateo abanou a cabeça e deixou escapar um suspiro. – Vou estar fora… durante algum tempo. Pedi uma licença.

Rachel ficou a olhar para ele, atordoada.

– Uma licença?

Mateo e ela tinham trabalhado juntos durante os últimos dez anos numa investigação pioneira sobre as emissões químicas e a mudança climática. Estavam muito perto de descobrir a forma de reduzir o efeito tóxico que os produtos químicos tinham no clima… Como podia ir-se embora assim, de repente, e deixá-la sozinha?

– Não entendo – murmurou.

– Surgiu uma emergência familiar.

– Mas…

O choque inicial de Rachel transformou-se numa mistura de angústia e algo mais profundo que preferiu ignorar. Não sentia nada por Mateo, não albergava esse tipo de sentimentos por ele, mas não conseguia imaginar-se a trabalhar sem ele. Tinham sido colegas de laboratório durante tanto tempo que quase conseguiam adivinhar o que o outro estava a pensar sem trocar uma palavra. Não podia estar mesmo a pensar em ir-se embora…

– Mas o que se passou? – quis saber.

Depois de dez anos a trabalhar juntos, parecia-lhe que tinha o direito de saber, embora nunca tivessem falado da sua vida privada. Bom, na verdade, ela não tinha vida exceto o trabalho e Mateo fora sempre muito reservado. Vira algumas mulheres com ele ao longo dos anos, mas nenhuma durara muito tempo: um encontro ou dois, mais nada. Ele nunca falava dessas coisas e ela não se atrevia a perguntar.

– É difícil de explicar – respondeu ele, passando uma mão pela cara, cansado.

Aquele não era o Mateo de encanto magnético, comentários agudos e olhos brilhantes que adorava. De repente, parecia distante, frio… Era como se se tivesse transformado num estranho.

– A única coisa que posso dizer-te é que é um assunto de família – reiterou Mateo.

Rachel apercebeu-se de que não sabia nada sobre a sua família. Naqueles dez anos, nunca a mencionara.

– Espero que estejam todos bem – disse, embora não soubesse quem era a sua família.

– Sim, bom, vai resolver-se tudo, ainda que… – Mateo não acabou a frase.

O seu rosto refletia tal desolação que Rachel sentiu um impulso quase incontrolável de lhe dar um abraço, mas não lhe parecia que houvesse confiança suficiente entre eles para isso.

– Se puder fazer alguma coisa para ajudar, não hesites em pedir-me. Seja o que for – redarguiu. – Precisas que tome conta da tua casa durante o tempo que estiveres fora?

– Bom… não sei quando voltarei – replicou ele, num tom apagado.

Rachel ficou boquiaberta.

– Ena… Então, deve ser algo sério.

– É.

– Mas… voltarás, não é? – perguntou Rachel. Era incapaz de imaginar Cambridge sem ele. – Quando estiver tudo resolvido, quero dizer. Não consigo fazer isto sem ti – acrescentou, apontando para o microscópio para se referir à investigação.

Uma sombra de tristeza atravessou o rosto de Mateo.

– Também me custa ter de deixar a nossa investigação. Lamento muito.

– Tens a certeza de que não há nada que possa fazer para te ajudar?

Mateo abanou a cabeça.

– Durante todo este tempo, foste uma colega incrível, a melhor que podia ter tido.

Rachel contraiu o rosto e brincou, dizendo:

– De onde vêm esses elogios? Parece que estás a morrer…

– A verdade é que me sinto um pouco assim.

– Mateo…

– Não, não te preocupes. Só estou a ser um pouco melodramático – tranquilizou-a, com um sorriso forçado. – Desculpa, é que isto apanhou-me desprevenido… Assim que puder, ligo-te para te explicar. Enquanto isso… Cuida-te.

E, então, fez algo que Rachel nunca teria esperado que fizesse: inclinou-se e beijou-a na face. Aquele assalto repentino aos seus sentidos deixou-a com falta de ar: o cheiro fresco a cítricos do seu aftershave, a suavidade dos seus lábios, o toque áspero da sua barba de uns dias…

Com um sorriso triste, Mateo olhou para ela nos olhos e recuou. Despediu-se dela com um assentimento breve de cabeça. Quando saiu, Rachel ficou ali de pé, paralisada, ouvindo o barulho dos seus passos a afastar-se pelo corredor.

Capítulo 2

A situação era pior, muito pior do que achara, pensou Mateo, de pé junto da janela do que fora o escritório do pai. Quando chegara a Kallyria, reunira-se por separado com todos os ministros do seu gabinete e descobrira que o irmão Leo quase destruíra o país.

A economia, as relações internacionais e até a política interior tinham sofrido um declive tremendo. Tomara decisões imprudentes, revogara outras de forma descuidada, insultara vários líderes mundiais… a lista das suas gafes era interminável.

Afastou-se da janela e foi até à secretária. Embora o pai tivesse falecido há já seis anos, o escritório refletia mais a sua passagem por ali do que a do seu irmão Leo que, aparentemente, passara mais tempo a navegar no seu iate ou em Monte Carlo do que ali, a tratar dos assuntos do país.

De secretária, tirou a lista de possíveis candidatas que a mãe redigira e torceu o nariz ao pensar em como a tarefa de escolher uma esposa assim lhe parecia mercenária. Parecia-lhe incrível que, estando no século xxi e num país que se considerava progressista e aberto, tivesse de se casar com uma desconhecida.

– Terão tempo para se conhecer – declarara a mãe, naquela manhã, com um sorriso apaziguador.

– Suponho que sim. Embora também tenha de fazer com que fique grávida o mais depressa possível, não é? – replicara, com sarcasmo. – Um casamento com todos os ingredientes para acabar em desastre.

– Os casamentos por conveniência podem correr bem – afirmara a mãe.

Falava por experiência própria. O dela também fora um casamento por conveniência e ela esforçara-se para que funcionasse. O pai fora um homem generoso e carinhoso, mas também dado à raiva, bastante orgulhoso e, às vezes, difícil.

– Eu sei – concedera, cansado, passando uma mão pelo cabelo. Chegara às dez da noite e só dormira algumas horas.

– É amor que procuras? – perguntara a mãe. – A proximidade causa carinho.

– Não quero amor – declarara ele, pronunciando a palavra com desdém. – Já estive apaixonado e não tenho o mínimo desejo de voltar a passar por isso.

– Referes-te à Cressida – murmurara a mãe. – Isso foi há muito tempo, filho.

Mateo nunca falava dela. E tentava não pensar nela, na dor e na culpa que ainda sentia.

– Mas se tens tanta aversão ao amor – acrescentara a mãe –, eu diria que um casamento por conveniência é o melhor para ti.

Mateo sabia que tinha razão, mas resistia a admiti-lo.

– Quero alguém com quem consiga entender-me – explicara. – A mulher com quem me casar vai ser a minha consorte, ter os meus filhos e criá-los, vai ser a minha companheira em todos os sentidos… E não quero confiar esse papel a uma estranha, por muito ideal que pareça no papel.

– As candidatas dessa lista foram recomendadas por vários ministros do teu gabinete – replicara a mãe. – Não vais conseguir encontrar nenhum problema com elas, nem há razão para pensar que não vão cumprir as suas obrigações ou não ser merecedoras da tua confiança.

A última coisa que Mateo queria era uma mulher que só queria casar-se com ele porque ia ser rei, mas erguera os ombros com um suspiro e esticara o braço para aceitar a maldita lista.

– Vou estudá-la – prometera.

No entanto, nesse momento, várias horas depois, ainda não escolhera nenhuma das candidatas. Sentiu o seu telemóvel a vibrar no bolso das calças e, quando pegou nele e viu que era Rachel que ligava, não pôde evitar alegrar-se por voltar a ouvir uma voz amiga da sua antiga vida.

– Como estás? – perguntou Rachel. – Deixaste-me preocupada.

– Preocupada? Porquê?

– Foste-te embora de repente e disseste-me que se tratava de uma emergência familiar – esclareceu ela, exasperada. – Como podia não me preocupar?

– Desculpa, tens razão. Mas não tens de te preocupar. Já está tudo sob controlo.

– Ah, sim? – perguntou Rachel, esperançada. – Então… voltarás em breve?

– Não, receio que não. Deixei o meu lugar.

O gemido abafado dela comoveu-o, mas tinha a certeza de que sobreviveria sem ele. Encontraria outro colega para continuar a investigação. Talvez até conseguisse uma promoção no departamento.

– Mas… porquê? – perguntou ela, com suavidade. – O que está a acontecer, Mateo? Não podes contar-me?

Ele hesitou e, finalmente, respondeu:

– Tenho de tomar conta do negócio familiar. Era o meu irmão que estava a cargo, mas deixou-o de um modo… bom, bastante repentino.

Não se sentia pronto para lhe dizer a verdade: que era um príncipe e ia tornar-se rei de um país. Parecia ridículo, tirado de um filme pacóvio. Além disso, descobriria depressa. Apareceria na televisão e nos jornais e os rumores chegariam à pequena comunidade universitária.

– Não consigo acreditar – disse Rachel, muito devagar. – Não vais mesmo voltar?

– Não.

– E não há nada que possa fazer? Não poderia ajudar-te de algum modo para que…?

– Não, lamento – reiterou ele. Sentia-se mal por dizer aquilo, mas não podia mentir e não havia mais nada para dizer. – Adeus, Rachel – murmurou e desligou.

Rachel ficou a olhar para o seu telemóvel, atordoada. Não conseguia acreditar que Mateo desligara. Magoava-a que a tivesse abandonado dessa forma. De repente, sem saber porquê, deu por si a recordar o dia em que lho tinham apresentado. Mateo estava no terceiro ano e ela, no primeiro. Surpreendera-se com a atração forte que sentira por ele, apesar de estar claro que ele nunca repararia em alguém como ela, uma rapariga feia, um rato de biblioteca e rechonchuda.

E, embora Mateo tivesse uma mente brilhante, não encaixava no estereótipo do cérebro a que se ajustavam muitos dos seus colegas de turma. Não só era muito bonito, como também era encantador e tinha uma confiança avassaladora em si próprio.

– Rachel? És tu?

Ao ouvir a voz trémula da mãe, guardou o telemóvel no bolso e pôs um sorriso no seu rosto. A última coisa que queria era preocupá-la, embora fosse pouco provável que se apercebesse de alguma coisa.

Tinham-lhe diagnosticado Alzheimer há dois anos e o seu declive fora tão rápido que era desanimador. Há dezoito meses, Rachel levara-a para viver com ela no seu apartamento e custara-lhe a habituar-se a tê-la ali e às suas muitas necessidades. Sobretudo, era muito irónico que a mãe, que nunca lhe mostrara muito afeto, tal como o pai, dependesse dela agora.

Ouviu os passos da mãe pelo corredor, que se aproximava a arrastar os pés.

– Olá, mãe – cumprimentou, com um sorriso, quando a viu aparecer.

– Porque estavas a fazer tanto barulho? – perguntou, embora tivesse estado a falar num tom normal.

– Desculpa, estava a falar ao telefone.

– Com o teu pai? Vai voltar tarde outra vez?

O pai morrera há oito anos.

– Não, mãe, era um amigo – replicou. Claro que talvez já não pudesse chamar isso a Mateo. De facto, talvez nunca tivesse sido um amigo. – O que achas de ver um desses programas de televisão de que tanto gostas? – sugeriu. Segurou-lhe o braço e levou-a de volta ao quarto, onde pusera uma cama articulada e uma televisão. – Acho que, a esta hora, dá aquele programa de vendas, não é?

A mãe afeiçoara-se a esse tipo de programas, algo a que achava graça e que a entristecia ao mesmo tempo. Antes de adoecer, só via documentários científicos. Agora, adorava os programas de encontros e os reality shows.

A mãe deixou que a deitasse outra vez na cama, embora ainda parecesse irritada quando lhe pôs a manta por cima das pernas e ligou a televisão.

– Se quiseres, posso fazer-te uma sandes – propôs Rachel, para a apaziguar. – De queijo e marmelada? – Outro dos seus gostos novos e peculiares.

– Bom, está bem – acedeu a mãe, como se estivesse a fazer uma grande concessão.

A sós na cozinha enquanto fazia a sandes, Rachel não conseguia esquecer a conversa com Mateo. Ia ter muitas saudades. Talvez não devesse, mas sabia que seria assim. Já sentia a falta dele.

Ao deslizar o olhar pela cozinha pequena, com o barulho da televisão de fundo, apercebeu-se de que mal tinha vida. Para começar, quase nunca saía. Os poucos amigos que tinha eram casados, tinham filhos e era como se pertencessem a um universo diferente do dela, sempre ocupados. Convidavam-na de forma ocasional para jantar, por pena, e gabavam-se dos seus filhos à frente dela. E acabavam sempre por lhe perguntar se não queria que lhe procurassem um namorado.

A verdade era que, durante todos esses anos, a trabalhar com Mateo oito horas por dia no laboratório, nunca sentira a necessidade nem o desejo de sair mais, de ter uma vida social. Brincar com ele, o silêncio confortável entre eles, as suas discussões académicas no pub, beber uma cerveja… Isso fora mais do que suficiente para ela.

– Rachel, já fizeste a minha sandes? – chamou-a a mãe, do quarto.

Rachel suspirou e pegou no pão de forma.

– Estou a fazê-la, mãe!

Três dias depois

Chovia muito enquanto Rachel corria pela rua e, quando chegou ao seu prédio, estava encharcada. Continuava incomodada com a partida repentina de Mateo. Tentara animar-se, mas as coisas tinham-se tornado piores quando descobrira quem lhe tinham atribuído como novo colega de laboratório: um tipo enjoativo e machista.

Ainda bem que ainda tinha meia hora de paz e tranquilidade antes de a mãe voltar a casa, pensou, enquanto introduzia a chave na fechadura da porta do edifício. Durante a semana, a mãe ia para um centro de dia para pessoas com Alzheimer e demência senil. Um autocarro ia buscá-la todas as manhãs e trazia-a de volta à tarde.

Estava a empurrar a porta para entrar quando uma figura saiu do beco que levava ao pátio traseiro do bloco, onde estavam os contentores do lixo. Rachel deixou escapar um grito e arrancou a chave da fechadura, disposta a usá-la como arma, embora não lhe servisse de muito.

– Rachel, sou eu!

Ao ouvir essa voz profunda, o coração acelerou e deixou cair as chaves ao chão.

– Mateo…?

– Sim – assentiu ele, saindo das sombras e avançando para ela com um sorriso.

Rachel ficou a olhar para ele, atordoada e incapaz de dizer algo coerente. Só conseguia pensar que estava muito contente por o ver.

– O que estás a fazer aqui? – perguntou, finalmente.

Em vez de responder, Mateo disse:

– E se entrarmos? Acabaremos encharcados se continuarmos aqui, à chuva.

– Sim, claro – balbuciou ela.

Apanhou as chaves do chão e entraram no edifício. Depois de irem para o seu apartamento e de acender as luzes, Rachel pensou que Mateo devia achá-lo muito pequeno e sentiu vergonha ao olhar para os sutiãs que deixara a secar no aquecedor e na torrada meio comida que deixara na mesinha, junto de um romance com uma ilustração erótica na capa.

Virou-se bruscamente, rogando para que não reparasse em nada daquilo, e voltou a perguntar:

– Porque vieste?

Capítulo 3

Porque estava ali? Era uma boa pergunta, pensou Mateo. Há vinte e quatro horas, quando pensara em ir, depois do seu primeiro encontro desastroso com Vanesa Cruz, parecera-lhe uma ideia maravilhosa, a solução mais simples. Já não tinha a certeza.

– Queria ver-te – declarou. Pelo menos, era verdade.

– Ah, sim? – murmurou Rachel, pestanejando, antes de afastar uma madeixa molhada da sua testa. – Espera, vou pôr água a ferver. Acho que ambos precisamos de uma chávena de chá – replicou, tirando o casaco encharcado.

A blusa branca que usava por baixo também estava húmida e tornara-se transparente e Mateo sentiu-se incomodado quando deu por si a olhar para os seios generosos. Desviou o olhar, mas, então, os seus olhos pousaram no radiador, de onde pendiam alguns sutiãs descoloridos de algodão. Rachel apressou-se a tirá-los, espantada, e foi para a cozinha, onde se ouviu pouco depois de começar a mexer-se para fazer o chá.

Mateo tirou o casaco e pendurou-o nas costas de uma cadeira da zona da sala de jantar, que ocupava metade da sala acolhedora. Na outra metade, havia um sofá, coberto por uma manta colorida, uma poltrona, uma mesinha baixa, uma estante com livros e pouco mais.

Deu uma olhadela aos títulos nas lombadas e, quando se afastou da estante, os seus olhos pousaram no monte de correio empilhado numa mesinha alta junto da porta principal. Aqueles detalhes fizeram-no aperceber-se de que mal conhecia a sua antiga colega de laboratório.

«Deixa-te disso, claro que a conheces!», replicou uma vozinha na sua mente. «Trabalhaste com ela durante dez anos e sabes que se envolve ao máximo. E que tem sentido de humor, mas que também é capaz de levar as coisas que importam a sério. Passaram muitos bons momentos juntos e sabes que podes confiar nela.»

Sim, pensou, enquanto se sentava no sofá, o que sabia sobre ela era mais do que suficiente. Em pouco tempo, Rachel reapareceu com duas chávenas de chá. Aproveitara para se arranjar um pouco: apanhara o cabelo num rabo-de-cavalo e também trocara as calças e a blusa molhados por uma camisola cinzenta que realçava as suas curvas e umas calças de ganga que lhe ficavam lindamente.

Nunca vira Rachel como uma mulher por quem pudesse sentir uma atração física, embora pensasse que, agora, devia fazê-lo. Ou, no mínimo, devia decidir se era capaz de o fazer.

– Aqui tens – ofereceu ela, dando-lhe a chávena de chá, sem leite, como sabia que preferia. Sentou-se no braço da poltrona, cujo banco estava ocupado por uma pilha de roupa dobrada. – Desculpa a desarrumação – acrescentou, fazendo uma careta. – Se soubesse que vinhas, não teria deixado a roupa suja espalhada pela casa.

– Nem isto, imagino – desafiou-a ele, pegando no romance que deixara na mesa. Sorriu, divertido, ao ver a imagem picante da capa e leu em voz alta o começo da sinopse que figurava na contracapa: – «O desconhecido misterioso, que chegara uma noite ao castelo do pai, deixara lady Arabella Fordham-Smythe…»

– Bom, sonhar não tem nada de mal, pois não? – replicou ela.

Apesar do rubor leve que tingira as suas faces, o brilho de humor nos seus olhos recordou a Mateo como podia ser divertida.

– Vais contar-me porque vieste? – insistiu Rachel. – E não é que não goste de te ver, embora tenhas aparecido sem avisar.

– Dizes isso por causa dos sutiãs que deixaste a secar no aquecedor? – desafiou-a ele.

Rachel corou novamente e Mateo repreendeu-se para si. Porque tivera de mencionar a roupa interior? E porque é que, de repente, estava a imaginá-la, não com um desses sutiãs velhos, mas com um de seda e renda, com uma alça a escorregar pelo ombro…?

Ergueu-se, afastando aquela imagem da sua mente, e os seus olhos encontraram-se com os de Rachel. A verdade era que tinha uns olhos muito bonitos, de uma cor castanho-escura, e pestanas espessas.

– Sabes quem ocupou o teu lugar? – perguntou ela, torcendo o nariz.

Mateo franziu o sobrolho.

– Não. Quem?

– O Simon, o Desagradável – respondeu ela. – Sei que não devia chamá-lo assim – acrescentou, com uma careta –, mas é tão irritante…

Mateo sorriu com dissimulação.

– Não conseguiram encontrar alguém melhor?

Para ele, era um insulto que o substituto que tinham escolhido fosse Simon Thayer, um investigador medíocre que, além disso, era um parvo.

– Vês! – exclamou Rachel. Abanou a cabeça e soprou o seu chá antes de beber um gole. – Sempre foi um parvo – resmungou. O brilho dos seus olhos apagou-se. – Trabalhar com ele vai ser um inferno, na verdade. Até pensei em ir para outro sítio, embora também não pudesse… – murmurou. – Enfim, tanto faz – continuou, abanando a cabeça. – E tu? Como estás? Essa emergência familiar que te obrigou a ir já se resolveu?

– Bom, ainda não, mas suponho que possa dizer-se que as coisas estão um pouco melhores.

– Ah, sim? Ainda bem. Mas… porque vieste? Ainda não me disseste.

– É verdade.

Mateo bebeu um gole de chá para ganhar tempo, algo que não costumava fazer. Como químico, nunca se mostrara indeciso e sabia sempre o que tinha de fazer. Quando encontrava um problema, analisava-o passo a passo até encontrar a solução.

Era o que deveria fazer com Rachel: mostrar-lhe o seu raciocínio, passo a passo, de um modo analítico, para que chegasse à mesma conclusão a que ele chegara. Contudo, em vez disso, em vez de começar pelo princípio e explicar-lhe tudo de um modo coerente, deu por si a fazer exatamente o contrário. Declarou:

– Quero que te cases comigo.

Rachel tinha a certeza de que devia ter ouvido mal. A menos que estivesse a brincar… Sorriu, perplexa, como se o que acabara de dizer só a tivesse chocado, quando, na verdade, estava a tremer por dentro. De repente, sentiu medo de que fosse uma brincadeira, como acontecera com Josh há anos. Conseguira superá-lo, mas não conseguiria suportar que Mateo, alguém em quem confiava, fizesse uma coisa dessas. «Por favor, por favor, não gozes comigo…»

– Desculpa, o que disseste?

– Eu sei, tens razão – murmurou Mateo. – Não o expressei muito bem.

Rachel bebeu um gole do seu chá para esconder a sua expressão. Aquilo estava a começar a parecer algo tirado de um romance e a vida real não era assim. Era impossível que Mateo Karras quisesse casar-se com ela. Impossível.

– Deixa-me explicar-te – pediu ele. – Bom, eu… não sou quem pensas que sou.

Era tudo tão surreal que Rachel sentiu vontade de se rir.

– Está bem. Então, quem és?

Mateo contraiu o rosto e pousou a chávena na mesinha.

– Sou o príncipe Mateo Aegeus Karavitis, herdeiro do trono do reino de Kallyria.

Rachel ficou a olhar para ele, chocada. Tinha de estar a gozar com ela. Mateo fizera algumas brincadeiras no laboratório de vez em quando, coisas inofensivas, como pôr um nome engraçado na etiqueta de um tubo de amostra, mas aquilo…

– Desculpa, mas não compreendo – murmurou, incomodada.

Mateo franziu o sobrolho.

– O que não compreendes?

– Não compreendo a piada.

– Não é uma piada – replicou ele. – Falo a sério. Compreendo que te choque e sei que não foi uma proposta muito romântica, mas, se deixares que to explique…

– Muito bem, explica-me – interrompeu Rachel.

Pousou a chávena na mesinha, como ele fizera, e cruzou os braços. Estava a começar a zangar-se. Se aquilo era uma brincadeira, era de muito mau gosto.

O seu tom áspero deixou Mateo um pouco incomodado.

– Bom… há cinco dias, o meu irmão Leo abdicou. Estava há seis anos no trono, desde a morte do meu pai.

Falava com tanta naturalidade que Rachel ficou a olhar para ele, alucinada. Poderia estar a falar a sério?

– Se realmente és um príncipe… porque é que não me disseste até agora?

– Porque não queria que ninguém soubesse. Queria triunfar pelos meus próprios méritos, não por ser quem sou. Foi por isso que, durante todos estes anos, usei um nome falso. Ninguém no campus sabe.

Por um instante, Rachel questionou-se se Mateo não estaria a ter um ataque psicótico. Acontecera a outros cientistas que passavam demasiado tempo no laboratório. O facto de se ter ido embora tão repentinamente e essa suposta emergência familiar… E se fosse tudo produto da sua mente?, pensou, olhando para ele com espanto.

Mateo suspirou, exasperado.

– Não acreditas, pois não?

– Não é isso…

Mateo revirou os olhos e soprou.

– Achas mesmo que estou a inventar tudo?

– Eu não disse isso – replicou Rachel, num tom apaziguador. – O que acho é que tu «achas» que és um príncipe…

Mateo voltou a soprar e, levantando-se, perguntou:

– Parece-te que tenho ar de louco ou que me comporto como um louco?

Rachel arqueou uma sobrancelha.

– Estás a dizer-me que és mesmo um príncipe?

– Claro que sou. E, dentro de uma semana, serei coroado rei.

Parecia tão seguro de si próprio e tão arrogante que Rachel se questionou se realmente estaria a dizer-lhe a verdade.

– Mas… mesmo no caso de ser verdade… o que é que isso tem a ver comigo? – perguntou, recordando o que lhe dissera sobre casar-se com ela.

– Como rei, precisarei de uma esposa – explicou Mateo. – Uma rainha consorte.

Rachel abanou a cabeça.

– Talvez seja um pouco burra, mas continuo sem entender.

– Burra? És a mulher mais inteligente que conheço, uma cientista brilhante, muito trabalhadora e também uma boa amiga.

Rachel sentiu que lhe ardiam as faces e quase começou a chorar. As palavras de Mateo eram tão sinceras que a tinham comovido. Não recordava quando fora a última vez que alguém a elogiara dessa forma.

– Obrigada – murmurou.

– A questão é – continuou Mateo –, que tenho de me casar imediatamente, para proporcionar estabilidade ao meu país. E tenho de dar um herdeiro à Casa Real.

Um instante… O quê?! Rachel ficou a olhar para ele, chocada. Continuava sem conseguir assimilar o que estava a dizer-lhe.

– E… E queres casar-te comigo? – perguntou, com incredulidade, num sussurro.

O príncipe de um país estrangeiro queria casar-se com ela? Por algum motivo, nesse momento, recordou as palavras cruéis que Josh lhe lançara há mais de dez anos: «Que homem poderia desejar alguém como tu?»

– Porquê? – inquiriu, num tom fraco.

– Porque te conheço. Porque confio em ti. Porque formamos uma boa equipa.

– Sim, mas como colegas, num laboratório…

– E porque não seria igual a governar um país? – replicou ele, encolhendo os ombros. – Qual é a diferença?

– Não estás a oferecer-me a vice-presidência, Mateo; estás a pedir-me para ser a tua esposa. Há uma grande diferença.

– Não é assim tanta. Só terias de estar ao meu lado, apoiar-me e ajudar-me.

– Estás a falar de casamento…

De repente, a sua mente conjurou umas imagens totalmente deslocadas: a noite de núpcias, um quarto à luz das velas, a pele bronzeada de Mateo a deslizar contra a sua… Não, isso só acontecia nos romances que lia, Mateo não podia estar a referir-se a um casamento no sentido pleno da palavra. Claro que… mencionara que precisava de dar um herdeiro ao país…

– Claro, foi o que disse, que quero casar-me contigo – reiterou ele.

Rachel olhou para ele com impotência.

– Mateo, isto é uma loucura.

– Sei que é inesperado, mas…

– Inesperado? Tenho um emprego – interrompeu-o ela. – O que esperas, que deixe tudo?

Conseguira o seu lugar em Cambridge e o seu emprego como investigadora pelos seus próprios méritos, não por ser a filha do eminente físico William Lewis e da sua esposa, Carol Lewis. Esperava que deixasse tudo por que lutara para trás para se transformar numa esposa troféu?

– Tenho consciência de que o que estou a pedir-te é um grande sacrifício – disse Mateo –, mas, como rainha, terias possibilidades infinitas: poderias promover os cursos de ciências entre as raparigas, financiar investigações científicas, dar apoio a causas de beneficência, viajar por todo o mundo como embaixatriz da ciência…

– Da ciência ou como embaixatriz política? – perguntou ela, num tom trémulo por causa da enormidade de tudo aquilo.

– Ambas as coisas – afirmou Mateo. – Como rei, uma das minhas prioridades será promover a investigação científica. Kallyria tem uma universidade na capital, Constanza. Não pode dizer-se que está ao nível de Cambridge ou de Oxford, é claro, mas goza de um grande reconhecimento entre os países do Mediterrâneo.

– Nem sequer sei onde é Kallyria – admitiu Rachel. – Acho que, até agora, nem tinha ouvido o nome.

– É uma ilha, na parte oriental do Mediterrâneo. Foi colonizada por comerciantes gregos e turcos há mais de dois mil anos, mas sempre foi independente.

Rachel sentia que a cabeça ia explodir.

– Mas eu não…

E, então, de repente, abriu-se a porta principal e entrou a mãe, que olhou para Mateo e para ela com uma desconfiança hostil.

– Rachel, quem é este homem?

Capítulo 4

Com indiferença, Mateo observou a senhora mais velha que tinha os seus olhos fixos nele.

– Mãe – disse Rachel –, este é… – Ficou hesitante e olhou para ele como se não soubesse muito bem como apresentá-lo.

– O meu nome é Mateo Karavitis – interveio ele, dando um passo em frente e esticando a mão. – Sou um antigo colega de trabalho da sua filha.

A mãe de Rachel olhou para ele de cima a baixo. Não parecia muito impressionada.

– E porque veio? – quis saber. Porém, sem lhe dar tempo para responder, virou-se para Rachel e disse: – Tenho fome.

– Vou fazer-te uma sandes – declarou Rachel, tentando acalmá-la. – Vai para o teu quarto e já ta levo.

Lançou um olhar exasperado e de desculpa a Mateo, a que ele respondeu com um sorriso calmo. Não esperara que Rachel tivesse uma mãe dependente, mas não era algo que fosse desalentá-lo. De facto, aquilo serviria como um incentivo acrescentado para convencer Rachel a aceitar a sua proposta: podia oferecer os melhores cuidados à sua mãe num centro especializado, quer fosse em Inglaterra ou em Kallyria.

Claro que também não achava que Rachel precisasse de muitos incentivos, pensou, enquanto ela entrava na cozinha e a mãe se afastava para o seu quarto. A julgar pelo que vira da sua vida fora do trabalho até àquele momento, não parecia que tivesse muitos motivos para ficar.

Estava convencido de que, uma vez superado o choque inicial, Rachel aceitaria a sua proposta. Como poderia rejeitá-la? Aproximou-se da cozinha e ficou apoiado na porta. Rachel parecia um pouco enervada, cortando fatias de queijo a toda a pressa.

– Há quanto tempo é que a tua mãe vive contigo? – perguntou.

– Há pouco mais de um ano – respondeu ela, enquanto tirava o frasco da marmelada do frigorífico.

– Posso ajudar-te? – ofereceu-se ele, entrando na cozinha.

– O quê? – balbuciou Rachel, visivelmente cansada, com o cabelo a cair por cima dos olhos. – Não, não é…

Mateo tirou-lhe o frasco da mão, a faca da outra e começou a untar a marmelada nas fatias de pão que pusera num prato.

– Vais fazer-lhe uma sandes de queijo e marmelada, não é? – perguntou.

– O quê? – balbuciou ela, novamente, olhando para ele, atordoada. Baixou o olhar para o pão. – Ah, sim.

Quando acabou de fazer a sandes, Mateo pô-la na chapa quente.

– Estará pronta num instante.

– Tem cuidado para não te queimares – avisou ela. – Também vou fazer-lhe uma chávena de chá. Queres outra?

– Não, a menos que seja com um pouco de uísque.

– Receio que não tenha álcool. A não ser que queiras ir à loja de bebidas da esquina…

Mateo deu um passo para ela.

– Também poderia levar-te a jantar a algum sítio, para que possamos falar com tranquilidade sobre a proposta que acabei de te fazer.

Rachel franziu o sobrolho.

– Mateo, não acho que sirva de nada…

– Vá lá, Rachel, parece-me que não é pedir muito que venhas jantar comigo. Se é que a tua mãe pode ficar algumas horas sozinhas.

– Bom, desde que tenha comida e a televisão ligada, ficará bem – respondeu Rachel, com uma renitência evidente.

– Ótimo! – exclamou Mateo, tirando o seu telemóvel do bolso.

Estava a falar com os seguranças, que o esperavam lá fora num veículo, a alguns metros do carro com motorista que alugara, quando começou a sair fumo da chapa.

– Parece-me que a sandes está a queimar… – murmurou Rachel, com ironia, arqueando uma sobrancelha, e Mateo apressou-se a salvá-la.

Meia hora depois, a mãe de Rachel estava acomodada à frente da televisão, a ver um reality show, com uma bandeja no colo em que havia uma sandes, que não estava queimada, e uma chávena de chá.

– Estarei de volta dentro de algumas horas no máximo, mãe – declarou Rachel, angustiada. – Se precisares de alguma coisa, chama o Jim.

– O Jim? – repetiu a sua mãe. – Quem é o Jim?

– O senhor Farley – recordou-lhe Rachel, com paciência. – Vive no apartamento da frente.

A mãe resmungou e Rachel lançou um olhar nervoso a Mateo enquanto saía do quarto e fechava a porta.

– É preciso mudar de roupa? – perguntou.

Mateo olhou para ela brevemente.

– Não, estás bem assim.

– Muito bem, vamos e acabemos com isto o quanto antes.

Não era um começo prometedor, mas Mateo não perdeu a esperança. Lá fora, o aguaceiro transformara-se num nevoeiro fino e corria uma brisa outonal fria. Rachel surpreendeu-se quando Mateo a segurou pelo cotovelo e a levou para o carro.

– Não vamos a pé?

– Reservei mesa no Cotto.

– Esse restaurante tão elegante no Hotel Gonville? – perguntou ela, espantada, afastando-se dele. – Mas é muito caro… E não estou vestida para ir a um sítio assim…

– Estás bem assim. Além disso, reservei uma sala de jantar privada, portanto, estaremos a sós.

Rachel abanou a cabeça, aflita.

– Uma sala de jantar privada, um carro com motorista… Isto é mesmo necessário?

– São precauções necessárias para garantir a minha segurança e para que possamos ter um pouco de privacidade – explicou ele. – Quando se souber que sou o herdeiro ao trono de Kallyria…

– Não consigo evitar pensar que enlouqueceste cada vez que dizes isso – murmurou Rachel.

Mateo esboçou um sorriso pequeno.

– Garanto-te que não. Estou perfeitamente sensato.

O motorista saiu para lhes abrir a porta. Entraram no carro e, depois de um trajeto breve, pararam à frente da fachada georgiana elegante do Gonville. Assim que entraram e chegaram ao restaurante, Rachel observou, atordoada, o comportamento obsequioso do empregado com Mateo, que parecia emanar uma aura de autoridade com cada gesto e cada olhar.

– Nunca te tinha visto assim – observou, enquanto tirava o casaco e o cachecol, quando ficaram a sós na sala de jantar privada.

Era uma sala pequena, mas muito elegante, com as paredes revestidas de madeira e uma mesa para dois posta com talheres de prata e a porcelana mais fina.

– Assim como? – inquiriu ele.

Aproximou-lhe a cadeira e Rachel murmurou um «obrigada» antes de se sentar.

– Bom… nunca te tinha visto a comportar-te com tanta autoridade, como se fosses o dono e senhor do lugar – explicou, enquanto Mateo se sentava à frente dela. – Enfim, sempre foste um pouco arrogante – troçou, apoiando o queixo na mão –, mas achava que era apenas por causa do teu cérebro privilegiado.

Mateo soprou, divertido.

– Não sei se devia sentir-me ofendido.

– Claro que não. No fundo, o que te disse é que és inteligente.

– Então, não vou ofender-me.

– Ainda que… Parece-me que a ideia que tiveste não é muito inteligente – declarou Rachel. – Nunca poderia ser rainha. Basta olhar para mim.

– Não estou de acordo – contradisse Mateo, franzindo o sobrolho. – Não entendo porque te menosprezas dessa forma.

Rachel cerrou os dentes. Há muito tempo que aceitara o que era… e o que não era. Sim, aceitara-o, apesar de Josh a ter magoado tanto, apesar da sua falta de confiança em si própria e apesar da decisão que tomara de não voltar a ter esperanças de encontrar o amor um dia. Vendo aquilo pelo lado positivo, podia dizer que era inteligente, que adorava o seu trabalho e que tinha bons amigos.

– Não me menosprezo – replicou. – Só estou a ser realista.

– Realista? – Mateo arqueou as sobrancelhas. – Como podes saber se serias uma boa rainha ou não?

– Sei porque… não tenho jeito para falar em público – balbuciou ela. Fora a primeira coisa que lhe ocorrera.

Mateo voltou a arquear as sobrancelhas.

– Não é verdade. Vi-te a fazer apresentações dos teus trabalhos de investigação à frente de um auditório cheio de pessoas imensas vezes.

– Sim, mas eram sobre o meu trabalho, sobre química.

– E?

Rachel suspirou.

– Porque é um assunto que domino.

– Não é apenas por isso. Concentras-te a cem por cento no que fazes – indicou Mateo –, e tenho a certeza de que desempenharias o papel de rainha com a mesma paixão e dedicação.

Rachel soprou.

– E se pedirmos? – propôs, pegando no menu para esquecer o assunto.

– Não será necessário. Fi-lo quando liguei para reservar a mesa. Suponho que nos tenham dado o menu para o caso de querermos pedir mais alguma coisa.

– Pediste por mim? – repetiu ela, ferida na sua dignidade feminista.

Mateo sorriu, divertido.

– Fi-lo para poupar tempo, porque sei que te preocupa que a tua mãe esteja sozinha e porque sei do que gostas.

– Nunca vim a este restaurante!

– Está bem, deixa-me mostrar-te – disse Mateo. Recostou-se, cruzou os braços e um sorriso brincalhão apareceu nos seus lábios, esses lábios que, de repente, Rachel não conseguia parar de observar. – Dá uma olhadela ao menu e diz-me o que pedirias.

– Para quê, se já o fizeste por mim?

– Vá lá, mulher, faz-me esse favor. E sê sincera. Se me disseres que pedirias suflê de parmesão e trufas pretas, saberei que estás a mentir porque detestas trufas.

Como sabia isso?, interrogou-se Rachel, surpreendida. Bom, supunha que lho tivesse dito em alguma das suas conversas no laboratório ou no pub a que iam às vezes depois do trabalho. Baixou o olhar para o menu, sentindo-se repentinamente coibida e vulnerável, embora estivessem apenas a falar de comida.

Ao levantar o olhar por um instante, viu que Mateo continuava a observá-la com esse sorrisinho irritante, como se estivesse muito certo de ter acertado no que pedira para ela. Voltou a baixar o olhar e folheou o menu.

– Muito bem – murmurou, deixando-o na mesa e lançando-lhe um olhar altivo. – Para começar, pediria a salada de beterraba e queijo de cabra e, como prato principal, pediria o risotto com espargos.

Ao ver Mateo a sorrir de orelha a orelha, Rachel sentiu um formigueiro no estômago que a alarmou. Achava que superara a atração que sentira por ele há anos. Obrigara-se a ignorar essa atração porque não podia trabalhar um dia atrás do outro com ele, apaixonada como uma adolescente, quando estava claro que Mateo não sentia nada por ela.

– O que foi? Foi isso que pediste? – inquiriu, com alguma aspereza, para esconder como se sentia incomodada.

– Não sei, vamos descobrir – disse ele, com um novo sorrisinho.

E, nesse momento, um empregado entrou com dois pratos tapados com tampas prateadas em forma de cúpula. Pô-los à frente de cada um deles e, quando levantou a tampa do dela, Rachel sentiu-se absurdamente irritada ao ver que era a salada de beterraba e queijo de cabra.

– Parece que te conheço bem, eh? – troçou Mateo, quando o empregado se foi embora.

– O que passa é que gostas de ganhar – replicou ela, pegando no garfo. – Ou seja, quantas horas passas a praticar a tabela periódica só para ganhar?

Era um jogo tolo em que ela pensara uma vez quando estavam no pub: ver quem era capaz de recitar os elementos da tabela periódica mais depressa. E desafiavam-se várias vezes.

– Claro! Como se precisasse de praticar!

Rachel abanou a cabeça enquanto pegava numa folha frisada de chicória.

– Talvez saibas o que gosto de comer, mas não sabes nada sobre mim. Nunca falámos da nossa vida privada.

Mateo encolheu os ombros antes de cortar uma fina fatia do carpaccio que pedira.

– Bom, então, vamos falar. Diz-me o que preciso de saber sobre ti.

– Se quiseres, posso dar-te o meu currículo e acabaremos mais depressa.

– Já vi o teu currículo.

Rachel abanou a cabeça novamente.

– Dez anos a trabalhar juntos e de certeza que nem sequer sabes… – Tentou pensar em algo significativo. – O meu segundo nome.

– Anne – respondeu Mateo, imediatamente. E, ao ver a surpresa dela, acrescentou: – Está no teu currículo.

Rachel revirou os olhos.

– Muito bem, diz-me alguma outra coisa que saibas sobre mim, algo que não apareça no meu currículo.

Mateo inclinou a cabeça.

– Dificilmente posso saber coisas sobre ti que não me tenhas dito, portanto, isto não faz sentido, mas sei muito mais sobre ti do que imaginas.

Incomodada, Rachel mexeu-se na cadeira, pensando no que poderia Mateo intuir sobre ela por terem trabalhado juntos durante dez anos, pelas suas manias, pelas suas idiossincrasias, pelo que a incomodava…

– Nem sequer se trata disso – apressou-se a declarar. – Não se trata de me conheceres bem ou não.

– E então? De que se trata?

Rachel olhou para ele com impotência. Não ia dizer-lhe. Não ia humilhar-se, destacando as diferenças mais do que evidentes entre ambos.

– Trata-se de não querer casar-me contigo – declarou, no tom mais cortante que pôde. – E de não querer ser a rainha de nenhum país.

Uma expressão que não soube interpretar atravessou as feições de Mateo, que respondeu:

– Ainda que, naturalmente, aceite a tua decisão se for realmente isso que sentes, acho que não o consideraste o suficiente.

– Não, nem tenciono considerá-lo, porque foi o mais absurdo que alguma vez me propuseram.

Mateo inclinou-se para ela com um sorriso atrevido.

– Talvez, mas parece-me que, agora, é a minha vez de apresentar os meus argumentos.

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