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João Marques de Carvalho
Contos do Norte

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066409333
Índice de conteúdo
UMA HOMENAGEM
REPRESALIAS
REPRESALIAS
UM EXGOTTADO
UM EXGOTTADO
CONTO DO NATAL
CONTO DO NATAL
A NETA DA CABOCLA DE OURÉM
A NETA DA CABOCLA DE OURÉM
O BANHO DA TAPUIA
O BANHO DA TAPUIA
COMPLICAÇÕES PSYCHOLOGICAS
COMPLICAÇÕES PSYCHOLOGICAS
UM CASO DA CABANADA
UM CASO DA CABANADA
UM COMO TANTOS
UM COMO TANTOS
INDICE
OPINIÕES DA IMPRENSA
ENTRE AS NYMPHÉAS
Contos e sensações
J. MARQUES DE CARVALHO
OPINIÕES DA IMPRENSA
UMA HOMENAGEM
Índice de conteúdo
Meu caro Marques Braga,
Este livro é, na quasi totalidade, uma homenagem ao povo paraense. O
escriptor que traçou os contos seguintes não occulta o pendor do seu espirito pela vida seminomade dos conterraneos, que tão sobriamente vegetam no coração das florestas. Viajar sempre com elles pelos buliçosos rios amazonicos, extendido no paneiro de popa da embarcação indigena, abertas as velas ao sopro galerno do vivificante marajoara, seria a realisação d'um sonho,—bello sonho de retrocesso á existencia primitiva, se quizerem, mas de intensa consolação moral.
Quando o caboclo, armado do longo varejão por elle mesmo talhado no matto,
impelle a canôa para o leito da correnteza, fazendo-se ao largo, não pensem que leva cuidados no espirito ou maguas no coração: a cidade é para elle um agrupamento complexo de sêres transviados, o antro onde formigam incomprehensiveis falsificações da natureza. Elle afasta-se contente com o cigarro ao canto da bôcca, uma jucunda satisfacção nos recessos da alma. Partindo para o sitio, para a roça, o caboclo é o triumphador das selvas, o zombador dos preconceitos, resignado ás inclemencias dos homens,—que as da natureza são-lhe familiares e já insensiveis talvez. E quando, ao meio do rio, desdobra as velas á viração, inunda-se-lhe o cerebro de uma ineffavel volupia, todo o encanto da liberdade dilue-se no seu espirito, deliciosamente
infiltrado. Bastam-lhe os horisontes alcançados com o olhar tranquillo. O vapor avistado ao longe, o qual, repleto de passageiros, attinge-o em poucas voltas de helice e o ultrapassa rapidamente,—pensaes acaso que o incommoda ou lhe provoca rebelliões de impotente desespero? O caboclo despreza esses recursos da navegação dos brancos. O que o enthusiasma é justamente a sua canôa, onde foi creado, onde seus filhos vieram á vida e onde á luz do sol paraense fechou os olhos á velha mulher engelhada e querida, que o amammentara com o seu leite maternal. Esse batelzinho, tão fragil e tão veleiro, é o enlevo das suas contemplações de fatalista, tugurio e vehiculo, ganha-pão e leito de amores simples.
Toda a singeleza da vida, com pequenas aspirações e nenhum rancor, ali se condensa entre as pranchas do casco e os pannos das vélas,—mortalha e tumba, em caso de necessidade.
A canôa é o caboclo, chova ou faça sol, cantem nas ramarias da margem as aves da floresta ou regouguem sobre o pequeno mastro as imprecações do temporal: acolhe-os o caboclo com egual socego de alma, a mesma indifferente resignação, que é o symptoma do mais valoroso espirito resistente e da mais acrisolada bondade nativa.
A agua é a grande fascinadora, na Amazonia. Existirão realmente as yaras?
Teu velho amigo,
MARQUES DE CARVALHO.
REPRESALIAS
Índice de conteúdo
REPRESALIAS
Índice de conteúdo
Não muito distante de Salinas, a dois passos do mar,—o caboclo Antonio edificara a sua palhoça. A areia das dunas extendia-se-lhe á porta, corria em declive para a agua, formando alaranjado estendal, da côr da madresylva morena.
Mas a floresta, que entestava com a habitação, ensombrava todo o recinto. Galhos seculares espalhavam-se em docel por cima do ubim do tecto. Ali, quando o vento do largo sacudia o arvoredo, em noites de plenílunio, o canto do sabiá tinha modulações saudosissimas, como se fôra cantilena de creanças.
Maré cheia, poucos passos separavam a porta da cabana do logar onde a areia sorvia o rendilhado das escumas. E do copiar do Antonio ouvia-se então perfeitamente o embate do marulho no flanco da canôa atada ao velho poste de acapú, que uma cruz rematava.
*
**
Havia muito que ali habitavam Antonio e o filho. Elles proprios tinham construido a casa de sapé, com os recursos encontrados na matta. D'antes, moravam em Salinas, onde o caboclo era pescador e dos mais afreguezados.
Um drama terrivel, porém, induzira-os a deixar a localidade, procurando no silencio e isolamento da costa despovoada o consolo de uma grande dôr commum.
Uma tarde de temporal, a companheira de Antonio tivera a velleidade de tomar banho no oceano. Montanhas de agua corriam do largo, urravam furiosas ao chegar á praia, no desespero com que rebentavam na areia. O ceu todo estava negro, acolchoado de nuvens: coriscos fuzilavam incessantemente e a chuva, levada pela ventania, transformava-se em nevoeiro subtil e frio.
Vizinhos, que tinham visto a mulher encaminhar-se para o mar, perguntaram-lhe se estava louca. Ella, porém, dissera que velhos amigos não brigam.
—E sei nadar muito bem, concluiu, senhora de si propria.
Equivocara-se. Comquanto não se afastasse senão uns quarenta ou cincoenta metros, uma onda maior enlaçou-a fragorosa, suspendeu-a como um argueiro, levou-a para longe. De terra viram-n'a erguida na crista da vaga. Debatia-se valente, bracejava com energia, em direcção á praia.
Mas um grito resoou no grupo de espectadores transidos. Antonio, palpitante de pavor, apontava para o mar. Ao longe, em direcção á cabocla, levantara-se outra onda enorme, que vinha correndo vertiginosamente. Comprehendeu-o a rapariga: redobrou de esforços, afim de alcançar o littoral antes que a formidavel serrania d'agua a envolvesse.
Esta, no entanto, corria célere, cachoeirando. E, n'um momento, alcançou a infeliz, arrastou-a para a praia, onde rebentou n'um estrepito medonho.
Toda a gente, que a curiosidade fizera acercar-se até á agua, tinha fugido, gritando desesperada. Ao voltarem-se, quebrara-se a vaga. Mas a pobre cabocla fôra cuspida na areia com violencia, jazia morta, o peito pisado, um fio de sangue escorrendo da bocca entreaberta.
Correu Antonio a tiral-a para a terra, beijando-a com frenesi. Não podia crer que houvesse morrido a mãe do seu filho. Quando, após instantes de vãos esforços para a reanimar, comprehendeu afinal a terrivel desgraça, escapou-se-lhe do peito um grito rouco de angustia e o desgraçado desmaiou, caindo de bruços sobre o cadaver.
*
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Teve o caboclo profundo sentimento. E não perdoou ao mar,—ao mar que elle tanto amara,—a infidelidade inesperada, a incrivel e covarde traição.
Reuniu os amigos, enterrou o cadaver no cemiterio da villa. Quando passava o feretro na praia, ao dia seguinte, ainda o mar sacudia as vagas alterosas, sob o ceu pardacento.
Regressando a casa, tomara Antonio a resolução de retirar-se de Salinas. Assim fez, de facto: em menos de uma semana vendeu os poucos moveis, entrouxou a roupa, alguns objectos necessarios á alimentação e uma espingarda; e, embarcando na canôa com o filho, levantou ferro, içou a vela e partiu.
Nem elle mesmo sabia para onde devera ir. Deixou-se levar pelo vento, prolongando a costa. Ao cahir da tarde, como avistasse uma enseada, aportou;—saltaram a terra.
Essa noite, dormiram-n'a ao ar livre. Mas o caboclo, deixando a embarcação, fechara o punho erguido, proferindo uma ameaça ao mar. Rompera este o pacto tacito que entre ambos existira, roubara-lhe a companheira idolatrada. Pois ali mesmo jurava, invocando o testemunho das estrellas e a memoria da inolvidavel ausente,—que havia de vingar-se. Elle e o filho nada mais fariam do que investigar o horisonte, buscando surprehender qualquer signal, pedindo soccorro, das embarcações que naufragassem. E haviam de roubar ao mar tantas quantas victimas podessem,—tantas vidas quantas eram as penas que lhes ralavam o coração. Essa seria a vingança d'um marido e d'um filho inconsolaveis.
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Annos fazia que ali moravam, na casa por elles proprios construida com os materiaes tirados á floresta proxima. Cada noite, vinham para fóra, extendiam-se na areia, silenciosos e pensativos, esquadrinhando o largo com o olhar affeito á escuridão.
Desesperava-os, entretanto, a monotonia da existencia. Parece que a sorte zombava-lhes das intenções. Jamais haviam podido realizar o intento da primeira victoria,—o almejado triumpho, que embriagasse como a cachaça. Calmo ordinariamente, o mar enorme tinha uma impassibilidade irritante. Barcos de pescadores deslisavam ao longe, similhavam grandes gaivotas brancas, esfrolando a vaga com as azas. Vapores passavam também, ora os costeiros, ora os vastos paquetes do sul:—uma navegação precisa, em dias determinados, quasi á mesma hora.
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Uma noite, porém, a tempestade, que desde a tardinha ribombara ao longe, approximou-se dominadoramente.
A cabana dos caboclos era a cada instante illuminada pelo clarão dos relampagos, estremecia na vibração de cavernosos trovões.
A espaços, segundos após uma fulguração mais accentuada, retinia o raio, na matta vizinha. E os dois irreconciliaveis inimigos do oceano entreolhavam-se mudos, com uma pequena chamma de esperança rebrilhando ao fundo das pupillas irrequietas. Seria aquella a noite reservada para a satisfacção da primeira desforra? O coração dizia-lhes que sim.
De subito, no silencio relativo que se estabelecera entre um relampago e um trovão, pareceu a Antonio ouvir um grito longinquo,—som quasi imperceptivel, talvez phantasia do seu vehemente desejo.
—Não ouviste? perguntou baixinho, n'um offego.
O rapazito conservou-se calado, mas parecia prestar attenção.
—Ha de ser coruja, explicou ao cabo d'um instante.
Mas outro grito ouviu-se então, d'esta feita mais accentuado. Não havia duvida, alguém pedia soccorro.
—É obra! exclamou Antonio.
—Parêsque sim, disse o rapaz.
E, levantando-se, correram para fóra.
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Ahi, a chuva caía violentamente. Negro o ceu, negro o mar,—tornavam-se a cada instante d'uma lividez violacea, com o lampejo dos relampagos. Ondas debatiam-se em tropel, vinham quebrar-se na praia com extranha furia. Mas os mais pavorosos estrondos eram os da insondavel floresta virgem, sinistro consorcio do cair da agua nas ramarias, do soluço dos galhos agitados e dos gritos indefinidos de toda a sorte de animaes surprehendidos pela tormenta, desalojados dos poisos, atacados nas tocas esconsas.
No primeiro momento, nada viram os dois caboclos; cegava-os deslumbradoramente o palpitar dos relampagos. Comtudo, seus olhos expertos breve triumpharam das trevas ululantes. E ao cabo de curta concentração, voltados para o largo, enxergaram a pouca distancia da linha da agua um vulto negro, que ora subia a admiraveis alturas, ora desabava rapido ao seio de profundos valles movediços.
Novo grito, indistincto a quem não tivesse a pratica da vida maritima, scindiu o espaço, pedindo soccorro. Não havia hesitar. Antonio, impossibilitado de cruzar a vista com o filho, tomou-lhe um braço, apertou-o nervosamente. Comprehendeu-o o rapaz. Era aquella a hora da famosa represalia!
Atiraram-se os dois ao mar, despidas n'um momento as simples calças de dril azul, sem uma indecisão. Eil-os que nadam, com extraordinarios esforços, em direcção ao negro vulto oscillante além, á flôr das ondas indomaveis. Guia-os uma alegria enorme,—o enthusiasmo entôa risonhos hymnos ao fundo de suas almas singelas.
Para Antonio, esse é o momento da inebriante desforra. Vae vingar-se do oceano! Vae vingar-se do oceano!
—Coragem, curumim! grita ao filho, sem ser ouvido.
E nadam os dois, nadam corajosos, avançando com difficuldade, mas, apezar de tudo, avançando sempre.
*
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Chegaram emfim ao ponto desejado. Era uma pequena canôa, fundeada sem duvida antes da tormenta.
Pae e filho saltaram para dentro da embarcação, quasi inteiramente alagada. Á pôpa, sobre o paneiro já tomado pela agua, estava um homem extendido.
Hirto, esperou um relampago e indicou por acenos—pois falar seria inutil esforço em meio áquelle barulho macabro dos elementos—que o mastro, partido pelo raio, caíra sobre elle, quebrando-lhe uma perna. E á luz de outro relampago, demonstrou a desconfiança de que a embarcação estivesse prestes a sossobrar. Com effeito, a agua subia sempre.
Já Antonio tomara-o nos braços, colhendo-o de encontro ao coração. Firmou-o mais á esquerda, gritou-lhe ao ouvido que não fizesse o menor movimento e, galgando a borda, atirou-se ao mar, seguido do rapaz.
Eil-os agora que nadam jubilosa, difficultosamente para a costa. É ainda maior, se possivel, a alegria dos caboclos. Vingaram-se do inimigo, furtando-lhe uma prêza... Que ventura!
Não é tarde, entretanto, para o hymno definitivo do triumpho: o mar sabe disputar-lhes a victoria, porque, emquanto a tormenta, no seu auge agora, desencandeia pelo espaço uma estrepitosa arrogancia, o oceano sacode o negro dorso, incha alterosas serranias e atira-os á direita e á esquerda, como tabocas pôdres.
Antonio é valente, Antonio conhece o valor do adversario, porém não o teme: bem maior é a gloria, n'essas condições de desegualdade de forças. Está fatigadissimo, que não é pequena façanha affrontar a furia das ondas, em occasião de temporal, trazendo nos braços um corpo humano. Mas a memoria da saudosa companheira perdida em identica situação é um consolo e uma animação. Essa bemdita memoria faz o milagre de o alentar mais efficazmente do que um bom trago de canna. E o forte caboclo, sem saber ao certo a que distancia da praia se encontra, sente-se de repente atirado sobre a areia, abraçado ao seu protegido.
Já está de pé, illeso. Fulge-lhe no peito illimitado contentamento. Sem olhar para traz, abaixa-se, toma nos braços a prêza roubada ao mar e parte a correr para a cabana, murmurando na ancia de precipitados offegos:
—Ven... ci, ca... na... lha!
Porém a lucta foi renhida e longa; mal atirou á sua propria rêde o corpo desmaiado do naufrago, caiu por terra, sem sentidos.
*
**
Voltando a si, ao amanhecer, Antonio levantou-se estremunhado. Após um esforço mental,—no primeiro instante de nada se recordara,—lembrou-se da lucta com o oceano e da sua victoriosa consequencia, a salvação de um homem. Este ahi estava, extendido na rêde, dormindo. Ouvia-o resonar compassadamente. Seu filho teria velado por ambos...
O caboclo percorreu com a vista o pequeno aposento, mais illuminado pelo indeciso alvor do que pela tenue luz da candeia de andiroba, bruxoleante. Onde estaria o pequeno? foi a interrogação que fez a si proprio. Havia de ter saido... Prestou attento ouvido aos murmurios do exterior. Uma grande calma devera ter substituido o impeto desordenado da tormenta, porque o mar tinha agora ondulações regularissimas, denunciadas pelo prolongado arrastar das vagasinhas preguiçosas. A floresta jazia entorpecida, sem um silvo de passaro, como reconcentrada na volupia do grande banho da noite.
Demorados minutos quedou-se assim aquelle homem, immovel no solo, junto á rêde do desconhecido. Sua attenção, affeita á vida na costa, seguia, pelos arruidos que atravessavam as paredes da cabana, o vae-vem da onda socegada. Ao cabo de longo tempo de applicação, tornou a lembrar-se do filho, que não voltara. Teria ido arriscar um tiro por perto, no matto?...
Ergueu-se então Antonio, foi espreitar o rosto do naufrago, que dormia sempre, mergulhado n'um grande somno febril, com a perna assustadoramente inchada.
Quando levantava a cabeça, Antonio fixou o olhar n'um ponto da parede e teve um calafrio: pendente de um prego, estava a espingarda e este facto arredava a hypothese de ter ido o pequeno á caça. Mas então, por onde andava elle?
Terrivel suspeita ergueu-se-lhe ao fundo do espirito, confrangendo-lhe o coração. Se tivesse morrido?... Era impossivel! O rapaz ia voltar, com certeza. Entretanto, não ficou tranquillo, embora tratasse de distrair-se, preparando um cigarro e apagando a candeia. Lá estava um pezar desassocegado, agachado no recondito do coração.
Veiu apressado para fóra. Seus olhos percorreram a praia, n'um relance: tudo deserto. Nas dunas mais proximas da floresta, a vegetação rasteira havia sido lavada e sorria na brandura do seu verde tenro. Á beira do matto, as grandes arvores retorciam immoveis os sombrios musculos nodosos, todos embebidos d'agua. E no firmamento esfumado, poucas nuvens se destacavam, tingindo-se de côr de rosa.
Voltou-se Antonio para o mar. As aguas tinham um espreguiçamento suave. Do barco que naufragara á vespera nada mais se via: ou fôra a pique, ou o temporal o arrastara a qualquer ponto longinquo da costa.
Signal do rapaz absolutamente não havia. Na areia, banhada pela chuva até mui tarde, tinham-se desfeito as pegadas de Antonio, recolhendo com o naufrago. Mas então, se o filho tivesse dormido na cabana e só pela manhã saísse, o chão pisado de fresco havia de indicar a direcção por elle tomada. E a verificação de que o solo estava todo liso, por egual, foi concludente para o caboclo.
Duas lágrymas, ardentes quaes malaguetas, queimaram-lhe as palpebras e um soluço estrangulou-lhe na garganta a emissão de um improperio feroz.
Ainda appellando para uma esperança fortuita, deitou o infeliz a correr ás tontas de um a outro lado, chamando o filho em grandes gritos. Respondiam-lhe os echos da floresta, demoradamente. E o oceano, sem perturbar-se, arrastava as ondas languidas, que formavam rendas espumosas, sobre a finissima areia da côr da madresylva morena.
A subitas, estarreceu o caboclo. Além, junto á linha da agua, muito distante do sitio onde se achava, lobrigaram seus olhos de pae um vulto extranho e logo o coração bradou-lhe que era o cadaver do curumim. Antonio poz-se a correr—a voar—para o sitio a que o presentimento o compellia.
*
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Não é um pezar o que leva esse homem no coração: é um mundo de angustias, um turbilhão de agonias. Ensopada, a areia facilita-lhe a carreira, pela resistencia que lhe offerece aos pés descalços. E cada pegada, um instante calcada no solo, fórma, bem depressa, uma pequena poça que reflecte na sua superficie, sobrepondo-os, o verde claro da vegetação das dunas e o rosado suavissimo das nuvens, tocadas de sol.
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