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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2002 Jane Porter

© 2019 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Uma vingança deliciosa, n.º 683 - agosto 2020

Título original: Lazaro’s Revenge

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-538-6

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Se gostou deste livro…

Prólogo

– Não rapto mulheres – replicou Lazaro Herrera com um tom sombrio, de costas para a janela que dava para a elegante avenida Santa Fé de Buenos Aires. – Posso ter fama de ser cruel, mas é por uma questão de negócios, não por algo pessoal.

– Às vezes não tenho tanta certeza assim de que não seja algo pessoal – murmurou Dante Galván.

Lazaro virou-se para observar o homem que dirigia as Empresas Galván, o único diante do qual tinha que responder. Dante podia ser director executivo, mas como presidente, ele era o director em funções.

– Até eu tenho escrúpulos e traço a linha nos raptos.

– Interpretas-me mal. Jamais falei em raptos. Zoe é a irmã mais nova da minha esposa. Só tem vinte e dois anos. A única coisa que quero é protegê-la.

Lazaro semicerrou os olhos.

– Proteger Daisy, queres dizer – Dante não respondeu. – Nem Daisy nem tu gostam desse americano, Carter Scott…

– Por bons motivos.

– De modo que o que realmente fazes é proteger Daisy de notícias desagradáveis.

Dante não respondeu imediatamente. Apertou os lábios.

– Daisy não pode perder este bebé. Não pode aguentar esta situação agora nem pode tolerar más notícias e sob nenhum pretexto vou deixar que sofra outro aborto – a dor palpitou-lhe na voz, junto com a ira e a impotência.

Lazaro estava ao corrente dos dois abortos que Daisy tinha sofrido. O segundo, no ano anterior, com a gravidez em estado avançada. Tinha ficado devastada com a perda e Dante tinha tirado seis semanas para estar com ela durante a convalescença na estância. Foi nessa altura que Lazaro assumiu a direcção completa da corporação.

Infelizmente, Dante não sabia que se estava a pôr nas mãos de Lazaro, não sabia que cada movimento que realizava, cada porção de poder que entregava, só reforçava a posição de Lazaro e debilitava a sua.

– Sou feliz por te ter – comentou Dante. – Se não fosses tu, estaríamos todos metidos em problemas.

Lazaro ficou tenso, pois a consciência pesava-lhe pela gratidão de Dante. Odiava as emoções contraditórias que ferviam no seu interior. Virou-se para contemplar o horizonte de Buenos Aires, que cintilava sob o sol.

Pela primeira vez em muito tempo, desprezava o que tinha começado com os Galván. No entanto, apesar de se sentir embargado pelas recordações de um passado escuro, sentiu a preocupação de Dante por Daisy, a carga que o próprio Dante suportava e desejou avisá-lo de que tivesse cuidado. «Não confies em mim. Não te sintas a salvo comigo. Não permitas que me aproxime da tua família».

Mas não falou. Guardou a culpa e o sentido de compromisso e pensou que os problemas de Dante não eram os seus. Nem a dor que o outro sentia, nem a perda. Respirou fundo, endureceu as suas emoções e lembrou-se que não era uma simples inimizade. Tratava-se de uma vingança. Mais do que uma vingança.

Era pela alma de uma pessoa.

Da sua mãe.

Com o coração coberto de gelo, virou as costas à cidade banhada pela luz para encarar o seu secreto rival.

– Qual é o plano?

Capítulo 1

«Não fales, faz o que te dizem e vai correr tudo bem».

Tinham-na raptado… em plena luz do dia, no Aeroporto Internacional de Ezeiza em Buenos Aires, à vista dos seguranças do aeroporto.

O estômago de Zoe Collingsworth saltou quando o helicóptero virou e voou num ângulo singular em direcção à terra.

Agarrou-se com tanta força ao banco, que os nós dos dedos lhe doeram. Ele tinha-lhe dito que não falasse e não o tinha feito, mas tinha muito medo. Aquilo não lhe podia estar a acontecer… tinha que ser um pesadelo…

– Vamos aterrar dentro de minutos.

O som da voz sobressaltou-a. Era a primeira vez que falava nas duas horas que estavam no helicóptero. Jamais tinha ouvido uma voz tão baixa; vibrou através dela como um comboio de carga que se movia lentamente.

– Para onde é que me leva? – sussurrou com mãos trémulas.

Olhou-a fugazmente com olhos semicerrados.

– Isso não importa.

Ficou com a garganta seca e o medo deixou-a fria. Tocou no cinto de segurança para comprovar a tensão, como se a pequena tira que lhe cruzava o regaço pudesse protegê-la do que lhe fosse acontecer.

Queria dizer algo duro e desafiante, queria ser valente porque era assim que Daisy encarava os problemas. Mas Zoe não era uma guerreira e estava dominada por um terror inimaginável. Nunca tinha saído de Kentucky e na sua primeira viagem era… era…

Raptada.

O coração batia-lhe com tanta força que acreditava que ia explodir. Observou o seu raptor. Tinha a cara pregada ao vidro, na paisagem que escurecia. O crepúsculo sumia tudo nas sombras.

– O que é que quer de mim? – finalmente captou a sua atenção. Olhou-a e umas pestanas compridas e escuras ocultavam-lhe os olhos; a sua expressão era curiosamente dura. Não havia nada de gentil nas feições sombrias. – Vai… vai fazer-me mal?

Ouviu o tremor da sua voz, o espaço entre as palavras, que revelava medo e extenuação. Também ele captou aquilo e a boca firme fechou-se com mais força, endurecendo.

– Não faço mal a mulheres.

– Mas, rapta-as? – estava à beira do histerismo. Há vinte e quatro horas que não dormia e começava a perder o controlo.

– Só se mo pedirem – respondeu quando o helicóptero desceu. Olhou pela janela e anuiu com satisfação. – Vamos aterrar.

Quando o piloto pousou o aparelho no chão, o seu raptor abriu a porta e saiu.

– Vamos – estendeu uma mão.

– Não – Zoe recusou o contacto. Não pôde ver a sua cara no escuro, mas percebeu a impaciência.

– Não é uma escolha. Vamos!

Devagar, tremendo de medo, desceu do helicóptero. Tinha as pernas dormentes e rígidas.

A noite era quente, muito mais do que tinha esperado. À sua frente, brilhavam umas luzes. Com o coração a martelar, contemplou a casa e as dependências iluminadas. Mas mais além do círculo imediato de luz, só havia escuridão. Um mundo de escuridão. Perguntou-se onde é que estaria e o que é que aquele homem pretenderia fazer-lhe.

Ele desapareceu no interior do habitáculo e tirou a mala de Zoe do helicóptero e um saco de viagem, que ela imaginou serem os seus.

Fechou a porta do aparelho e este, imediatamente, subiu na noite estrelada.

As hastes giratórias despentearam-na; cambaleou para trás com a intenção de fugir do barulho e do ar e tropeçou nas malas. Mas umas mãos impediram a queda.

Sentiu a pressão dura do seu corpo e as mãos que se fecharam nela ao pô-la de pé. Afastou-se imediatamente, mas aquela fracção de segundo foi mais do que o que podia suportar. Tinha sentido como é que a força e o calor dele penetravam na roupa, na pele, até chegar aos seus ossos. Era um homem duro e inflexível. Aquele simples contacto queimou-a.

«Que Deus me ajude», rezou em silêncio. «Faz com que volte ilesa para casa».

Com a mão trémula afastou uma madeixa de cabelo da cara. Sentia-se física e emocionalmente fragmentada.

– Por aqui – indicou ele com rudeza, tocando-lhe no cotovelo. Aquele segundo contacto foi pior do que o primeiro. A súbita rigidez do seu corpo doeu-lhe. Cada vez que ele lhe tocava, tremia. Cada vez que o fazia, queimava-a.

O barulho do helicóptero começou a perder-se na distância. O ar quente da noite envolveu-a.

– E agora? – perguntou, erguendo-se na totalidade do seu metro e setenta e cinco de altura. Não serviu de muito. Ele era muito mais alto e grande. Devia medir um metro e noventa aproximadamente, de estrutura forte, musculada como a de um futebolista profissional da liga dos Estados Unidos; embora estivesse de casaco comprido, camisa e calças pretas, podia pertencer a uma máfia.

– Vamos para dentro. Vamos jantar. E depois vais para o teu quarto para passar a noite.

Fez com que parecesse quase civilizado. Mas isso não a acalmou. Tinha ouvido que os homens mais violentos eram também os mais sofisticados. Podia estar a brincar com ela antes de…

«Pára! Tens que deixar de pensar dessa maneira. Não podes permitir que a tua imaginação brinque contigo. Vais ficar louca».

Havia demasiadas incógnitas, demasiadas possibilidades aterradoras. Devia manter a calma, a cabeça fria, como costumava dizer o seu pai.

Engoliu em silêncio.

– Muito bem. O jantar parece-me bem – iria passo a passo. De uma maneira ou de outra, iria superar aquilo. Ele pegou na sua mala e no saco e dirigiu-se para casa, deixando-a para que o seguisse. Mas não podia segui-lo, não imediatamente. Como é que ia poder entrar dentro daquela casa por vontade própria?

Zoe permaneceu no mesmo sítio, virou-se para a pista de cimento e o ar da noite rodeou-a. A terra era lisa e aberta com um pequeno grupo de árvores à distância. Nada se levantava no horizonte. Nenhuma montanha, nenhuma luz de cidade. Só um espaço vazio e limpo.

«As pampas», pensou para consigo ao lembrar-se dos postais que Daisy lhe tinha enviado.

A estância dos Galván também estava nas pampas. Talvez estivesse perto de Daisy, mais perto do que alguém imaginava.

Virou-se outra vez para casa. Ele estava à sua espera na porta. Avançou, mas parou. Podia sentir a impaciência dele e isso assustou-a. O que é que lhe iria acontecer assim que entrasse em casa?

Ele esperou outro momento antes de encolher os ombros e desaparecer da vista. Depois de uma longa pausa, Zoe obrigou-se a continuar.

Subiu as escadas e chegou à porta de madeira escura que permanecia aberta. O homem reapareceu.

Tinha tirado o casaco e desabotoado a camisa. Quando os seus olhos se encontraram, ela pensou que os dele eram mais claros do que tinha imaginado, embora o nariz dominasse o seu rosto. Tinha uma pequena cicatriz entre os olhos e outra no seu queixo quadrado. Era um rosto que dava a impressão de ter recebido mais do que uma tareia. De um boxeador de rua. Ou de matador.

Reparou no nó da garganta. Engoliu a saliva e o terror fez com que sentisse como se as extremidades pendessem sobre pedaços de cristal.

– Não vais entrar? – perguntou ele.

Esteve quase a matá-la o facto de ter que forçar um som pela garganta.

– Não se importa se ficar cá fora?

– Agora que estamos aqui, podes fazer o que quiseres.

– Sim?

– Não há telefone nem comunicação com o exterior. Nem visitantes, nem estradas, nem incómodos nem interrupções. Estás a salvo.

Ela cerrou os dentes e umas lágrimas ardentes queimaram-lhe os olhos.

– A salvo?

Ele esticou a mão para lhe tocar no início do pescoço, mesmo por baixo do queixo e os dedos mexeram-se sob a pele que não lhe tapava a gola virada da camisola.

– Perfeitamente a salvo.

Estremeceu e sobressaltou-se com o contacto aceso e doloroso.

– Não há mais ninguém aqui?

– Só uma criada velha, mas não fala inglês e não te vai incomodar.

Levantou o dedo do pescoço e Zoe sentiu como se a tivesse partido ao meio. O contacto tinha sido leve, mas tinha acendido uma bomba por baixo da sua pele, fazendo que no centro dela explodisse o calor e que o fogo lhe sulcasse as veias. Quis gritar, embargada pela intensidade da sua reacção.

– Entra. Estás cansada.

– Tenho medo.

– De quê? – pôs a cabeça de lado.

A voz baixa palpitou dentro de Zoe. Odiava-o, temia-o e, no entanto, também lhe parecia estranhamente carismático. «Era só o que me faltava», pensou, mas não se atreveu a manifestá-lo em voz alta.

Ele devia ter-lhe lido os pensamentos, porque esboçou um leve sorriso.

– Considera isto uma pequena aventura – depois afastou-se para a deixar entrar.

Uma aventura? Estava louco.

Os particulares olhos claros do desconhecido olharam-na enquanto esperava, sem falar nem apressá-la. Ia deixar que escolhesse.

O que é que devia fazer? Ficar cá fora, na escuridão das pampas infinitas, ou entrar no resplendor quente da casa?

Com o coração nas mãos, entrou.

Lazaro viu Zoe Collingsworth assim que atravessou a porta naquela tarde. Jovem, loura, linda. Com olhos semicerrados, tinha seguido os seus movimentos enquanto ela procurava na mala de pele os seus óculos de sol.

As mãos tremiam-lhe ao acomodá-los no nariz recto e pequeno. Podia ter sido uma estrela de Hollywood. A camisola de gola alta parava mesmo por baixo do queixo, acentuando a cara branca e suave e o longo cabelo louro.

Muitos olhos se viraram para observar os seios voluptuosos sob a fina camisola preta e as ancas tão femininas metidas nas calças de lã de uma cor camelo muito tentadora. O cabelo era natural, como o da sua irmã Daisy, só que mais dourado. De facto, eram muito parecidas.

Dois anos depois de ter casado com o conde Dante Galván, Daisy já era considerada uma grande beleza nos círculos sociais de elite da Argentina, mas Zoe possuía uma beleza diferente… mais suave.

Lazaro fechou a porta do rancho, mas não se incomodou em trancá-la. Zoe não tinha nenhum sítio para onde ir.

Observou-a naquele momento, enquanto entrava no corredor, os olhos azuis muito abertos e apreensivos. Estudou o interior, como se procurasse uma porta oculta ou uma câmara de tortura secreta.

– Não há nada de sinistro aqui – indicou com calma. – Nada de facas, armas de fogo, chicotes ou algemas. É somente um rancho.

Ela levantou o queixo e apertou os lábios.

– Já enviou o pedido de resgate?

– Não.

Viu-a pestanejar. Era tão jovem. Quase doze anos mais nova do que ele. Separava-os uma vida inteira. A diferença de idade devia ter aplacado a atracção. Mas não.

Desde o primeiro momento em que a viu no aeroporto, as entranhas tinham-se-lhe encolhido. A reacção que despertava nele atordoava-o. Era muito primitiva, tão física que se sentia em carne viva. Mal controlado.

O desejo palpitou naquele instante e o corpo voltou a contrair-se.

Sentia-se faminto. Como uma criatura pré-histórica renascida dos mortos. Algo nela fazia com que a desejasse, que se sentisse faminto. Implacável.

Queria senti-la, prová-la, possui-la. E numa parte distante do cérebro sabia que o faria.

Algum dia.

Quando tivesse esmagado os Galván.

Quando tivesse conseguido a sua vingança.

Mas aquele não era o momento. Nesse instante, ela estava esgotada e receosa, e era uma convidada na sua casa.

– Dá-me o casaco – indicou, suavizando a voz, já que sabia que tinha uma voz e uns modos duros. Não era conhecido pela sua sensibilidade ou cortesia.

Estendeu uma mão, mas ela deu um passo para trás, assustada.

Zoe esteve quase a gritar quando ele lhe esticou a mão. Não podia deixar que lhe tocasse outra vez. Não podia permitir que se aproximasse, que conseguisse que se sentisse presa, impotente, demasiado vulnerável. Havia algo nele que emanava força, não só em termos de musculatura, como de controlo… de poder.

Fechou o casaco fino em torno do corpo.

– Gostaria de ficar com ele.

– Vais recuperá-lo – levantou as sobrancelhas.

Gozava com ela. Corou e levantou o queixo.

– Tenho frio.

– Então, aproxima-te do fogo. Vais ficar mais quente.

Conduziu-a desde do hall de tecto alto a um salão surpreendentemente espaçoso, com vigas escuras, tão rústicas como a lareira de pedra que ia do chão ao tecto. No entanto, os móveis eram luxuosos, desde a alcatifa de umas vibrantes cores em tons de escarlate e ouro que cobria o chão de madeira até aos sofás e cadeirões distribuídos em pequenos grupos. Nas paredes havia quadros grandes de pinceladas vivas num azul eléctrico, vermelho sangue e amarelo aceso.

Não era um simples rancho.

Passou junto da mesa de centro em ferro forjado e vidro para ficar perto da lareira. Sentia as pernas frágeis, os músculos tensos.

Com um olhar fugaz em direcção à biblioteca, esticou uns dedos trémulos para captar algum calor do fogo.

«Raptada» repetiu em silêncio. Tinham-na raptado. Ainda não tinha acabado de assimilar aquilo. Alguma vez o faria?

Lembrou-se de descer do avião e sair com os outros passageiros, para descobrir uma sala cheia. Lembrava-se de ter observado as pessoas à procura de Dante ou de um motorista. Dante tinha-lhe prometido que alguém iria recebê-la. Mas não viu o seu cunhado nem ninguém que tivesse um cartaz. Havia mães com os seus filhos, homens de negócios com os seus telemóveis… mas ninguém que a fosse buscar.

De repente, os olhos tinham-se-lhe humedecido ao recordar o desgosto que sentia. Geralmente algo assim não a afectava, mas não tinha sido um mês normal. O seu pai piorava de dia para dia. Já parecia ter esquecido tudo e era terrível vê-lo murchar diante dos seus olhos. Tinha sido um homem inteligente, carinhoso, sempre generoso com os outros.

Tinha procurado na mala os óculos de sol para ocultar as lágrimas. Já tinha chorado durante quase todo o voo e também nessa altura os óculos de sol lhe tinham sido úteis. A verdade é que tinha chorado tanto no último mês, que as lágrimas se tinham esgotado.

Respirou fundo e tentou concentrar-se em algo positivo. Tinha ido ver Daisy. Faltava pouco para rever a sua irmã. Assim que estivessem juntas, as coisas seriam melhores. Foi nesse momento que se aproximou dela um homem de preto, sério, de olhar penetrante e nariz afilado.

– Menina Collingsworth? – tinha perguntado com uma voz de impossível profundidade. Zoe lembrou-se que o seu agente de viagens lhe tinha dito que os homens argentinos, uma mistura de paixão latina e sofisticação europeia, tinham uma aparência letal. Embora não considerasse aquele homem de uma aparência clássica, era arrebatador… não, fascinante, de um modo primitivo.

– Sou Zoe – tinha respondido com o coração acelerado. Esteve acordada toda a noite e estava excessivamente cansada. Nunca tinha saído de Kentucky e tinha sentido emoções contraditórias sobre a viagem à Argentina. Queria ver Daisy, mas odiava levar o seu pai para um lar. A verdade é que só ia permanecer duas semanas, mas tinha sido terrível interná-lo.

– Tem alguma mala? – perguntou o homem.

– Só uma. É grande, por isso facturei-a.

– Se me der o papel, vou buscá-la.

Estendeu a mão larga, com dedos compridos e bem formados. Parecia relaxado e ela entregou-lhe o papel. Foram para a zona de bagagens e ele levantou a mala grande como se não pesasse nada. No exterior esperava-os uma limusina que os conduziu até ao helicóptero.

Só depois de descolar e de ela começar a fazer-lhe perguntas sobre Daisy e a gravidez, sobre a estância dos Galván, a vida nas pampas, é que ele lhe disse para deixar de falar.

De facto, as palavras exactas foram: «Não fales, faz o que te disserem e tudo correrá bem». Respirou fundo e contemplou o fogo, com as suas dançarinas chamas vermelhas e douradas.

Voltou a tremer, naquele momento com mais violência e o calor não bastava. Não podia parar. Era incapaz de controlar os nervos.

Ouviu-o caminhar atrás dela, o som de vidro, de líquido a escorrer, outra vez de vidro. Servia uma bebida. Que tipo de raptor tinha livros encadernados em pele, arte moderna e garrafas de brandi? Que tipo de homem é que era ele?

Lutou contra o medo. Tinha que haver uma boa explicação. As pessoas não raptavam as outras sem um objectivo, sem um plano.

– Bebe isto.

A voz fria e dura atravessou os seus pensamentos e fê-la levantar a vista do fogo para as suas feições talhadas de expressão inexplicavelmente sombria.

– Não bebo.

– Vais aquecer.

Observou o copo em forma de globo cheio com um líquido de cor âmbar e encolheu-se.

– Não gosto do sabor.

– Quando tinha a tua idade, também não costumava gostar. Estás a tremer. Vai ajudar-te. Confia em mim.

Confiar nele? Era o último homem na face da terra em quem confiaria. Tinha-a afastado de Daisy, de Dante, da reunião que tinha desejado. A sua garganta ameaçou fechar-se e a ira tomou conta dela.

Virou-se para ele com os braços cruzados.

– Quem és? Nem sequer sei o teu nome.

– Lazaro Herrera.

O nome saiu como algo fluido, complexo, sensual.

Lazaro Herrera.

Era um nome que encaixava com ele, que ligava com a música e o poder.

– Acho que vou aceitar a bebida – sussurrou.

Ao dar-lha, os seus dedos roçaram-se.

– Bebe devagar.

O contacto abrasou-a e esteve quase a deixar cair o copo.

– Porque é que fazes isto?

– Tenho motivos – encolheu os ombros.

– Mas o que é que eu fiz? Nem sequer me conheces.

– Não é por ti.

– Então, porque é? – elevou a voz.

– Por vingança.

Capítulo 2

Olhou-o com medo e o único som que se ouvia na casa era o crepitar da lenha. Tremeu com tanta violência, que o brandi se entornou. Sentia a boca seca. Engoliu a saliva com dificuldade enquanto tentava pensar em algo que dizer.

Vingança. Vingança… contra quem?

Não podia perguntar-lhe porque sabia que não estava preparada para a verdade. De alguma maneira, sabia que a resposta afectaria Daisy porque a sua irmã tinha casado na aristocracia argentina, tinha-se transformado em parte desse mundo e dessa cultura, dessa outra vida.

Levou o copo aos lábios e bebeu um gole pequeno. Sentiu o brandi fresco na boca, mas ficou quente ao engoli-lo. O calor bateu-lhe no estômago e acabou por se estender até às suas extremidades. Lazaro Herrera tinha razão numa coisa. O licor ajudou. Deu-lhe firmeza e coragem. Fechou os dedos em volta do copo.

– Isto tem alguma coisa a ver com os Galván?

– És muito perceptiva.

– Queres dinheiro?

– Não é o que toda a gente quer?

Mas a resposta não parecia verdadeira, nem o sarcasmo. Era outra coisa o que o impulsionava e Zoe precisava de compreender aquilo para proteger Daisy.

– Dante já sabe?

– Deve saber.

Baixou a vista para o licor para tentar acalmar-se. Se perdesse as estribeiras, não seria capaz de ajudar a sua irmã.

– A minha irmã, a esposa de Dante, está grávida.

– Eu sei.

– Por favor, não faças mal a Daisy – suplicou com voz rouca. Sentiu que os olhos se humedeciam outra vez. – Sofreu vários abortos e isso deixou-a destruída. Não pode perder este bebé.

Observou-a com os olhos cinzentos velados.

– Não tenho nenhuma intenção de lhe fazer mal.

– Mas vais fazer – desconhecia como sabia, mas era assim e isso deixava-a furiosa. Lazaro Herrera destruiria a sua família e jamais olharia para trás.

– As coisas acontecem na vida…

– Não – explodiu apertando o seu copo. – Tu é que fazes a vida, provoca-la.

– É complicado. A vida nunca foi fácil.

Ele rodeava o assunto, invertia o argumento e isso enfurecia-a. Avançou um passo, o corpo esbelto estava rígido pela tensão. Nos dois últimos anos, a sua família tinha passado por muitas vicissitudes. Tinham lutado e sofrido e, precisamente quando Daisy encontrava alguma felicidade, aquele homem ameaçava em arrebatá-la.

– Claro que a vida é difícil. Está cheia de dor, pesar e perda, mas também de gozo e amor… – calou-se, apercebendo-se de que estava quase a chorar. – Não faças mal à minha irmã. Não podes. Não te deixarei.

– Continuas a tremer – ignorou a fúria dela. – Precisas de um banho quente.

– Não quero um banho quente. Não quero nada de ti. Nem agora nem nunca.

Estudou o rosto dela. Zoe soube que tinha a cara corada e os olhos brilhantes.

– Não funciona dessa maneira – disse Lazaro. – És minha convidada. Nas próximas semanas, estaremos juntos praticamente dia e noite. Sugiro-te que te habitues à minha companhia. Depressa.

Foi-se embora.

Zoe permaneceu imóvel uns minutos antes que os músculos recuperassem a vida.

Devagar, depositou o copo de brandi em cima da mesa de centro antes de limpar as palmas húmidas ao casaco claro de viagem.

Arregaçou a manga e olhou para o relógio. Eram quase sete e meia. Tinham chegado a Buenos Aires há seis horas. Daisy devia estar frenética.

Com o sobrolho franzido, olhou em volta à procura de um telefone. Ele tinha-lhe dito que não havia nenhum, mas não acreditava nele. Nos tempos em que viviam, toda a gente tinha um telefone.

– O teu banho está pronto.

Lazaro tinha regressado e estava na ombreira da porta. Tinha mudado de roupa, vestindo umas calças escuras e uma camisola grossa. Parecia quase humano.

Quase.

– Não vou tomar banho. Não vou ficar aqui.

Abandonou a proximidade da lareira e foi para o hall, conteve o fôlego ao passar ao lado dele. Quase esperava que a detivesse, mas não se mexeu. Nem sequer pestanejou quando abriu a pesada porta.

– É um trajecto longo até à aldeia – comentou ele com suavidade. – E está muito escuro. Não há nenhum candeeiro na pampa.

Com a mão na maçaneta, odiou-o, odiou o tom razoável que tinha empregue.

– Conheço o campo.

– Então sabes como nos enganamos ao caminhar sem nada que nos guie, sem caminhos nem rastos de vida humana.

– O teu rancho não pode ser assim tão remoto – ele apenas levantou as sobrancelhas. – Tenho a certeza de que há alguma coisa aqui fora – insistiu.

– Ovelhas. Vacas. Veados…

– Não tenho medo.

– Jaguares, pumas…

– Mentes – custou-lhe a engolir a saliva.

– Não te mentiria.

– É a única coisa que tens feito – disse. Tinha-se virado para olhar para ele, sem tirar a mão da maçaneta da porta.

– Ainda não te menti…

– No aeroporto perguntaste-me se era Zoe Collingsworth…

– E tu respondeste que sim – um pirilampo enorme entrou e girava à volta da luz do alpendre. Lazaro dirigiu-se para Zoe e com gentileza, mas com uma atitude firme fechou a porta. – Pedi-te o papel da bagagem e tu deste-mo. Vieste comigo, Zoe. Por tua própria iniciativa. Imediatamente.

Lágrimas de emoção e vergonha encheram-lhe os olhos.

– Deixaste que acreditasse que trabalhavas para Dante!

– E é verdade.

Retrocedeu e apoiou-se na porta fechada, colando as mãos à superfície.

– O quê?

– Trabalho para o teu cunhado. Trabalho para Dante Galván.

Não podia ter ouvido bem. Devia haver um erro.

– O que é que ias fazer para ele?

– Tudo.

Os lábios de Lazaro tinham-se mexido para esboçar um sorriso cínico que a encheu de horror. Fechou os olhos. Era uma loucura. Pior que uma loucura.

– Por favor, explica-me a que é que te referes com «tudo» – foi incapaz de o olhar. – És uma espécie de moço de recados?

– Não me chamaria assim. Sou o Presidente das Empresas Galván.

Levantou a cabeça com brusquidão e abriu os olhos.

– Mas Dante é o presidente.

– Dante é o director executivo. Eu trato das operações quotidianas.

– Desde quando?

– Há dois anos.

– Mas…

– Já chega. Não quero continuar com o assunto, não contigo quase a cair. Estás esgotada, precisas de um banho, comer e relaxar… Acredita, temos muito tempo para falar.

Virou-se, mas ela não o seguiu.

– De quanto tempo? – perguntou nas suas costas.

– O quê? – parou e virou-se devagar.

– Disseste que teríamos muito tempo para falar. Quero saber quanto. Quanto tempo é que pensas ter-me aqui?

– Depende. Pode ser uma semana, duas, mas se fosse a ti, pensava em duas.

Abriu a boca para protestar, mas ele já tinha desaparecido numa esquina e desapareceu por outro corredor para ir para outro lado da casa.

Seguiu-o muito mais lentamente e passou de um quarto em penumbra para uma casa de banho grande e luxuosa. Era a casa de banho mais luxuosa que alguma vez tinha visto. O chão, as paredes, o chuveiro… estavam cobertos com um lindo mármore vermelho. O lavatório e a banheira eram de ouro e esta última de um tamanho imenso, pelo menos para duas pessoas, e já cheia de água.

Lazaro deixou-a para que se despisse, mas foi-lhe impossível.

Sentou-se na beira da banheira e contemplou a água quente. Na superfície flutuavam círculos de óleo perfumado. Tinha introduzido algo que cheirava bem. Não era capaz de pensar em nada do que ele lhe tinha dito.

Passaram os minutos e continuava sem se poder mexer.

Bateram à porta. Não respondeu e a maçaneta rodou.

– Estás bem? – a voz de Lazaro chegou desde as sombras do outro lado.

Que pergunta! Se estava bem?

Não, não estava. O seu pai estava a morrer. A sua irmã estava em repouso devido a uma gravidez complicada. Tinha recebido uma proposta de casamento de um velho amigo da família, mais velho que amigo. Se estava bem? «Não», concluiu em silêncio.

Lazaro entrou na casa de banho e olhou para ela. Viu que ainda não se tinha mexido e abanou a cabeça com um gesto imperceptível. Sentiu simpatia por ela e essa era a última emoção que queria ter.

Aproximou-se e pôs-se de cócoras.

– Não te agites. Não te vai acontecer nada de mal. Nem a Daisy. Prometo.

Zoe sentiu a boca tremer. Com o olhar fulminou os olhos dele.

– Como é que posso confiar em ti?

– Não sei – lutou contra o impulso de lhe tocar, contra o desejo de apoiar a mão na sua face. A sua pele parecia tão suave, tão terna. «Como o seu coração», pensou. Jamais teria que ter ficado exposta a um homem como ele.

A culpa era de Dante.

Na sua determinação de proteger Daisy, tinha exposto Zoe, deixando-a vulnerável.

Sentiu uma opressão no peito, uma mistura de ira e revolta. Tinha sentido o mesmo quase toda a vida. O menino sujo e descalço da rua que olhava para as montras. Querer algo e não poder tê-lo, não só uma vez, mas sim a vida toda…

Ele, o proscrito, o intocável, tinha subido na escala social, mas não tinha esquecido nem perdoado. Em todo o caso, a ira ardia com maior intensidade e estava mais decidido que nunca a ter o que por direito era seu.

Mas ao olhar para a jovem Zoe Collingsworth, percebeu novamente que tinha ficado cruel e duro.

Viu como fechava as mãos sobre o ventre e cravava as unhas nas palmas.

– Dá-me a mão – pediu com suavidade. Ela abanou a cabeça. – Dá-me a mão – repetiu.

Para além da incerteza, pôde ver o medo nos seus olhos. Não sabia o que esperar, o que queria dela. Na verdade, nem ele mesmo sabia. Sexo, talvez. Embora houvesse algo mais, algo que não podia definir; mas poderoso, embriagador. Sentia-se atraído por ela. O que não faria mais do que piorar a situação de Dante.

Esperou que lhe desse a mão e lentamente depositou-a sobre a sua. Segurou-a com firmeza e segurança.

– Estás a salvo comigo, Zoe. A minha luta não é contigo, acredita.

Cada vez que lhe tocava, acontecia. Calor, energia, prazer. O seu contacto não era nada parecido com o que já tinha experimentado. Havia algo na sua pele mais quente, forte e real.

Contemplou a sua mão, sentiu a onda de deliciosa sensação percorrê-la, desde a mão até ao coração, dali ao estômago e depois às pernas.

O coração bateu-lhe mais devagar, sentiu o corpo líquido, que os ossos se derretiam, ao mesmo tempo que ficava alerta.

– Daisy é tudo para mim – murmurou, hipnotizada pelo dorso da mão dele, com a pele dourada e os ossos largos e fortes do pulso. – Praticamente foi ela quem me criou. Abandonou a ideia de ir para a universidade por minha causa…

De repente, ele adiantou-se e a cabeça escura bloqueou a luz. Zoe soube que ia beijá-la. Foi como se desde o primeiro momento em que a viu, tivesse sabido que aquilo ia acontecer, que o beijo estava predestinado.

A boca roçou-lhe os lábios. Foi um beijo fugaz, tão ligeiro que o coração lhe doeu. Sentiu a sua respiração na face, a doçura subtil da sua colónia. Era grande, forte e sombrio, mas cheirava a luz, a sol, como a erva da pradaria e as flores depois de uma chuva estival.

Os lábios mal a tocaram uma segunda vez. Deslizou os lábios até ao canto da boca dela.

– Vou esforçar-me ao máximo para proteger também a tua irmã.

Não era a mesma promessa que lhe tinha feito a ela. Receava perguntar, mas não tinha outra alternativa.

– E Dante? – a voz dele tinha endurecido e o tom era frio. – Isto é por causa de Dante.

– Sim.

Saiu debaixo do seu braço e fugiu para o outro lado da casa de banho vermelha. Tinha-a sequestrado para magoar Dante. Tinha feito com que o seu cunhado sofresse.

Mas ela adorava Dante. Era o irmão mais velho que nunca tinha tido. Ele tinha salvo a sua quinta, tinha-se apaixonado por Daisy, tinha tratado do seu pai. Dante era a resposta para os males dos Collingsworth.

Voltou a sentir um frio profundo, como se o medo e a dor tivessem ficado na sua medula.

– Fora – ordenou, apontando em direcção à porta.

Levantou-se devagar e ergueu-se em toda a sua estatura. À luz ténue, a face parecia que tinha cortes angulosos por cima da boca.

– Um dia vais perceber.

– Jamais perceberei isso. Dante é um bom homem. É o homem mais generoso que conheço.

– Não sabes a história toda.

– Vai-te embora – virou-lhe as costas e cruzou os braços.

– Sem me importar com o que aconteça – foi até à porta, – vou manter a palavra que te dei.

Na banheira, Zoe ensaboou-se e esfregou-se, sentindo-se mole depois da viagem, do rapto, do beijo. Não percebia como é que podia sentir tantas emoções desencontradas. Lazaro Herrera inspirava-lhe medo e, ao mesmo tempo, fascinava-a.

Enquanto se limpava, soube que devia transmitir a Dante e a Daisy o que sabia, que o tempo era de vital importância. Procuraria um telefone assim que pudesse.

Metida num roupão, olhou para o armário aberto no quarto. Alguém tinha desfeito a sua mala por ela. Não podia imaginar que fosse Lazaro.

Não gostava de se sentir nua numa casa estranha, pelo que se vestiu aceleradamente com umas calças de ganga cómodas e uma camisola velha amarela. Estava a calçar as meias e os ténis quando bateram à porta.

Ao abrir a porta, descobriu uma mulher idosa que não tinha mais de um metro e cinquenta, com o cabelo branco e um rosto citrino extremamente enrugado.

– Vamos! – a mulher séria cruzou as mãos sobre o regaço. – La cena.

– Lamento, não percebo – respondeu devagar em inglês. Decididamente não lhe davam as boas-vindas. – Não falo espanhol.

– La cena. La comida.

– Lamento. Não percebi. Não sei… o que é que quer que eu faça… não falo espanhol.

– Quê?

– Senhor Herrera. Pergunte ao senhor Herrera, sí?

A mulher murmurou algo quase inaudível e foi-se embora. Chegou a meio do corredor antes de se virar. Com gestos secos e breves indicou a boca, que abriu e fechou num exagerado gesto de mastigar.

– La comida. La cena. La cena.

– La cena – e depressa percebeu. Mas isso não significava que fosse a correr para ir jantar. Quem é que queria receber semelhante convite?

Zoe fechou a porta com mais força do que a calculada. Fez uma careta e deitou-se na cama, enterrou a cabeça na almofada e deu um grito de frustração.

Aquilo era um pesadelo.

Não podia ficar naquela casa. Não fazia sentido. Estava tudo louco, desde o brandi, passando pela casa de banho, até ao beijo. Sentia-se perdida… confusa.

Menos de dois minutos depois de a ter fechado, a porta abriu-se.

– Por Dios! O que é que aconteceu? – disse Lazaro na ombreira da porta. – Nunca vi Luz tão transtornada.

– Luz?

– A minha empregada – pôs as mãos nas ancas com uma expressão indignada. – O que é que lhe disseste?

– Nada.

– Mas é evidente que a ofendeste.

Zoe bateu na almofada e apertou-a.

– Deves estar a gozar.

– Não. Disse que lhe cuspiste na cara e que lhe fechaste a porta. Eu também ouvi a porta a bater.

– Não cuspi – corou. – Jamais o faria. É uma falta de respeito. E não era minha intenção bater com a porta. Fechou-se com mais força do que imaginei.

Ele olhou-a durante um bom bocado com o queixo tenso e a boca fechada. Parecia analisar a situação, a versão dada por Luz.

– Não queres jantar, perfeito. Fica no teu quarto. Mas não te vou mandar comida na bandeja. Há uma sala de jantar nesta casa e uma bonita mesa antiga com cadeiras a condizer. Se quiseres deitar-te de estômago vazio, é um problema teu. Se quiseres comer, sabes onde é que estou… e a comida também.

Sabia que não se iria juntar a ele para jantar e não esperou. Também não se incomodou de jantar sozinho no elegante salão. Comia quase sempre sozinho; tinha sido assim desde que a sua mãe tinha morrido quando ele tinha sete anos.

Costumava pensar que tinha morrido de pobreza. Ambos tinham sempre fome e, apesar de ela trabalhar em tudo o que podia, nunca parecia ter dinheiro suficiente para sair da rua.

Luz entrou no salão para ir buscar o seu prato e viu que mal tinha comido.

– Não tens fome? – perguntou com o sobrolho franzido pela preocupação.

Luz tinha brindado a sua amizade à sua mãe antes de morrer. Também tinha sido mais pobre, mas tinha fogo e um espírito indomável que a fazia opor-se àqueles que queriam oprimi-la. Tinha tentado ensinar a sua jovem mãe, Sabana, a enfrentar os aristocratas Galván, mas a sua mãe tinha horror à poderosa família.

– Vou beber um café e algo ligeiro mais tarde – disse, reclinando-se na cadeira para que pudesse levantar os pratos.

– Quem é a rapariga?

– A amiga de um amigo.

– A verdade – Luz estalou a língua.

– É uma meia verdade e é suficiente neste momento – levantou-se. – Obrigado pelo jantar.

Dirigiu-se para o salão e descobriu que o fogo se tinha quase consumido. Sentou-se no sofá, apoiou os pés na mesa de ferro e vidro e cravou o olhar nas resplandecentes chamas. Tinha construído aquela casa para a sua mãe. Claro que ela já tinha morrido há vinte e cinco anos quando teve os planos e a casa pronta, mas a atenção pelos pormenores tinha sido por ela, em sua honra. Tinha insistido no melhor. Candelabros de cristal, cortinas de seda, casas de banho de mármore, antiguidades francesas.

Tinha sido uma jovem linda quando o conde Tino Galván a tomou contra a sua vontade. Com apenas dezassete anos. Sem sequer ter terminado a escola.

Mas arrebatar-lhe a inocência não tinha sido suficiente para o conde Galván. Depois de a ter magoado, fez com que fosse para longe, exilada para uma aldeia da Patagónia, onde deu à luz sozinha. Os Galván tinham esperado que o bebé não sobrevivesse.

Mas Lazaro tinha conseguido.

Desde a morte da sua mãe, tinha vivido unicamente para uma coisa: Vingança. Vingança sobre aqueles que tinham ferido a sua mãe e os que tinham fechado as portas na sua cara.

Zoe foi para a cama com fome e, às três da manhã acordou faminta. Entre a mudança de horários e os barulhos do estômago, não conseguiu voltar a adormecer. Esticada na cama, os seus pensamentos voaram até Daisy. A sua irmã devia estar preocupada.

Precisava de entrar em contacto com ela para a tranquilizar e alertar Dante para o perigo que Lazaro representava.

Levantou-se e vestiu o fino roupão de algodão branco que condizia com a sua camisa-de-dormir.

Eram peças juvenis que tinha há muito tempo e das quais não se queria desprender, apesar do tecido estar gasto e as flores desbotadas. Tinham sido oferecidas pelo seu pai há anos. Daisy tinha recebido um conjunto igual, mas azul.

Abriu a porta do quarto e espreitou para o corredor às escuras. Não sabia muito bem por onde começar a procurar um telefone. Sabia que devia haver um nalgum lado e não só isso, devia haver também um fax, um modem, um telemóvel. De alguma maneira, Lazaro Herrera tinha que comunicar com o mundo exterior.

No salão, avançou de gatas ao longo dos rodapés em busca de fios escondidos. Rodeou todo o salão antes de passar para a biblioteca, onde inspeccionou cada estante.

Nada. Pelo menos até agora.

Do salão passou para o hall e, dali, para a enorme cozinha, até à sala de jantar. Acabava de terminar a inspecção da sala de jantar na penumbra quando ouviu uma tosse nas suas costas.

– Perdeste alguma coisa, Zoe?

– Não – levantou-se e sacudiu as mãos. Estava tão escuro que mal podia vê-lo, mas sentiu a sua energia a três metros de distância.

– Não estás a limpar, não? Luz não iria gostar nada disso.

– Não estou a limpar.

– Então, o que é que fazes de gatas às três e meia da manhã pela casa toda?

Tirou uma madeixa de cabelo da cara.

– Sabes o que faço. Sabes o que quero.

– Não vais encontrar nenhum telefone.

– Nem sequer um computador?

– Tomei precauções. Fui bastante minucioso.

– Deixa-me ir embora.

– Não.

– Voltarei para Kentucky, telefonarei a Daisy e vou contar-lhe que mudei de ideias sobre…

– Não.

Sentiu-se à beira dos gritos, do pranto, das súplicas.

– Não é justo.

– Já falámos sobre isso e sabes que a vida nem sempre é justa. Se o fosse, a tua mãe não teria morrido ao trazer-te ao mundo. O teu pai não teria Alzheimer. A tua única irmã não teria vindo para meio mundo de distância, deixando-te um pai doente.

– Como… como é que sabes tudo isso?

– Não foi um rapto ao acaso, Zoe. Certifiquei-me do que fazia – acendeu a luz da sala de jantar. – E agora, volta para a cama e tenta dormir um pouco. Vais precisar. Ambos precisamos.

Com uma camisola branca folgada e umas calças pretas de pijama, com o cabelo despenteado, tinha um aspecto incrivelmente varonil. E humano. Parecia um homem que sabia tudo sobre as mulheres. Que sabia utilizar as mãos, a boca, o corpo.

Zoe sentiu calor pelas extremidades e o calor inundou o seu rosto. Odiava ter de achá-lo fisicamente atraente quando o seu carácter era terrível, cruel, retorcido.

– Odeio-te.

Não tinha querido dizê-lo. No entanto, as palavras saíram da sua boca.

Ele inclinou a sua cabeça escura e os seus lindos lábios formaram um sorriso fantasmagórico.

– Eu sei.

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Возрастное ограничение:
0+
Дата выхода на Литрес:
22 июля 2024
Объем:
131 стр. 3 иллюстрации
ISBN:
9788413485386
Переводчик:
Sandra Correia
Правообладатель:
Bookwire
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