Читать книгу: «O príncipe cruel»

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O príncipe cruel, n.º 1838 - outubro 2020
Título original: The Prince’s Scandalous Wedding Vow
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1348-985-8
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
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Prólogo
O príncipe Alexander Julius Alberici sabia que tinha chegado o momento de mudar. A 27 de junho ia casar-se com a princesa Danielle e teria de voltar para Aargau, o seu reino numa ilha do Mediterrâneo, para os festejos antes do casamento. Depois da cerimónia e da lua de mel, que se prolongaria por duas semanas, poderia voltar para Paris com a sua esposa para continuar a supervisionar um grupo ecologista que se dedicava a melhorar a sustentabilidade de ecossistemas frágeis.
O trabalho era a sua paixão e Danielle tinha-lhe dado o seu apoio, um ponto a seu favor neste que, afinal, era um casamento arranjado. Também tinha aceitado viver onde quer que ele quisesse, com a certeza de que acabariam a viver em Aargau quando Alexander tivesse de ocupar o cargo do seu pai e subir ao trono, algo que parecia estar muito longínquo porque o pai era um homem atlético e vigoroso. Bom, costumava sê-lo, até que aquela constipação de inverno se prolongou até à primavera e depois, em meados de abril, foi diagnosticado um cancro de pulmão ao rei Bruno Titus Alberici. Deram-lhe apenas uns meses de vida.
Alexander nunca fora muito próximo do seu pai. O povo podia adorar o rei Bruno, mas era frio e implacável em casa, embora ela não conseguisse imaginar o mundo sem o seu implacável pai. Naquele momento, o seu pai estava decidido a encarar a morte como encarara a vida, sem sentimentalismos nem fragilidades, e nada ia mudar. O casamento, no final de junho, não seria antecipado e também não seria tornada pública a doença de Bruno, não iriam fazer nada que pudesse preocupar o povo até ser inevitável, o que, para o rei Alberici, significava o momento de comunicar a sua morte.
A sua mãe, a rainha, apoiava o plano tal como sempre apoiara o marido, fora esse o seu papel desde que se casara e tinha cumprido sempre as suas obrigações. Naquele momento, ele tinha de cumprir as suas, que eram casar e ter um herdeiro para que a monarquia se perpetuasse. Sentiu-se desassossegado, como encurralado no camarote, embora este fosse o maior do barco. Abriu a porta de correr e apoiou-se no corrimão para olhar para o mar.
Aquela viagem, organizada pelos seus amigos mais íntimos, era um erro. Não conseguia relaxar quando o seu pai estava a ficar cada dia mais fraco, ainda que os seus pais tivessem feito questão de que o fizesse para manter as aparências. Os príncipes não organizavam despedidas de solteiro e, por isso, Gerard, o seu melhor amigo, tinha organizado uma viagem de uma semana pelo mar Egeu. Ele tinha deixado os detalhes nas mãos dos seus amigos, estava muito preocupado tanto porque poderia ser a sua última aventura como pela saúde do seu pai, mas deveria ter participado, pelo menos, na decisão da lista de convidados.
O iate era impressionante e a máxima expressão do luxo, mas, ainda assim, era um barco e estavam ali presos, o que nem seria um inconveniente já que todos se davam bem, mas, inexplicavelmente, Gerard tinha permitido que Damian Anton Alberici, primo de Alexander, levasse Claudia, a sua namorada. Isso também não teria sido um contratempo se Claudia não fosse uma ex-namorada de Alexander e a rutura, há seis meses, não tivesse sido… conflituosa.
A tensão no iate levava-o a querer voltar para casa, e isso tendo em conta que a sua casa também não era um lugar especialmente agradável. A sua mãe tentava assimilar o diagnóstico fatídico do seu pai, que se tinha consumido da noite para o dia. O pessoal do palácio, que jurara guardar segredo, estava incrivelmente nervoso. No entanto, ninguém falava do que se estava a passar. Na verdade, na sua família não se falava de assuntos pessoais, não se transmitiam os sentimentos, só existia o dever e ele sabia-o.
O quanto antes se celebrasse o casamento, melhor, e a princesa Danielle Roulet seria uma boa esposa. Era encantadora, muito bem-educada e dominava vários idiomas, algo essencial para a futura rainha. Também era sofisticada e elegante, o que agradaria ao povo. Não era um casamento por amor, mas daria certo porque ambos entendiam qual era o dever deles e, além disso, o casamento seria um motivo de celebração para o seu povo, e precisava disso com urgência já que a coroa mudaria de mãos muito em breve.
Naquele momento, gostaria de sair do iate e voltar para a sua família, já que não estava a gostar nada da sua última escapadela como solteiro.
Capítulo 1
Josephine só queria que o iate se fosse embora. Havia centenas de ilhas na Grécia e eles estavam há dois dias ancorados à frente de uma baía de Khronos, a sua pequena ilha. Estava farta de música barulhenta e risos histéricos. Os borguistas até tinham desembarcado na ilha naquela manhã. Ela tinha-se escondido entre as árvores da falésia sobre a praia. As jovens eram impressionantes, bronzeadas, esbeltas e com biquínis quase inexistentes, e os homens eram belos e musculados. Continuavam ali a festa e havia muito álcool e outras coisas que a fizeram franzir o nariz. Só havia um que não bebia, não fumava nem fazia amor na praia. No entanto, todos o rodeavam, era o centro do grupo.
Observou-os com curiosidade e verdadeiro desdém. Não queria julgá-los, mas era evidente que levavam uma vida de privilegiados. O seu pai dizia que os criticava porque nunca tinha entrado naquele tipo de grupos e talvez tivesse alguma razão, mas gostava de usar o cérebro e trabalhar com o pai, um dos vulcanólogos mais importantes do mundo, razão pela qual viviam no meio do mar Egeu. Ela documentava os achados do pai e era indispensável para as suas investigações. Ele era o primeiro a reconhecer que sem ela não conseguiria fazer tanto trabalho, mas ao fim do dia, dedicava-se à sua paixão, a desenhar, a pintar… Restava-lhe pouco papel e telas, mas o seu pai voltaria dentro de dez dias e trazia-lhe sempre material novo. Esta tarde tinha ido até às rochas sobre a enseada com o seu caderno para desenhar o que mais lhe chamava a atenção naquela cena festiva, o homem que lhe parecia mais fascinante por ser diferente. Tinha o cabelo escuro e espesso, as sobrancelhas retas e os olhos claros, não sabia se azuis ou cinzentos. O queixo era quadrado, tinha as maçãs-do-rosto prominentes e a boca era carnuda, firme e séria. Os seus traços eram quase demasiado perfeitos e adoraria estar mais perto para saber a cor dos seus olhos. Embora o mais intrigante fosse a sua forma de sentar-se na cadeira, com os ombros muito direitos e o queixo levantado. Observou-o para comparar o desenho com o homem real e, efetivamente, tinha reproduzido o seu corpo musculoso e os traços, mas a sua expressão não era a acertada. Intrigava-a aquela expressão, o que a levava a observá-lo até tentar entender. Estava aborrecido ou era infeliz? Parecia não querer estar ali com aquelas pessoas. Era um mistério e ela gostava de quebra-cabeças.
Então, ele levantou-se e toda a gente recolheu as suas coisas para voltar para o iate.
Ela alegrou-se e fechou o caderno, mas também se sentiu algo dececionada quando a lancha levou o misterioso homem para o super iate que estava fundeado à entrada da baía. Ele era o homem mais interessante que já tinha visto na sua vida e tinha-se ido embora.
Nessa tarde, ao final do dia, estava a terminar as verificações rotineiras quando ouviu umas vozes, como uma discussão que chegava da enseada. Foi à praia e apurou o ouvido, mas só ouviu o murmúrio do motor do barco. Será que por fim se iam embora? Como de costume, estava iluminado e podia ver os casais que estavam deitados e bebiam na coberta superior.
O iate movia-se, podia ver o sulco nas águas, e lamentou que o seu homem misterioso se afastasse, mas ficou contente por o ruído desaparecer. Continuava a olhar quando ouviu um grito apagado e viu que uma pessoa caía pela borda. Foi na popa, onde estavam pessoas entre as sombras da coberta inferior. Correu até à orla, mas não viu ninguém na superfície da água. Aterrorizava-a que alguém pudesse estar a afogar-se e não podia ficar de braços cruzados. Despiu o vestido de alças e atirou-se às ondas para nadar até onde tinha estado ancorado o barco. Mergulhou, mas estava tudo estava muito escuro. Mergulhou com os pulmões prestes a explodirem. Estava quase a voltar à superfície quando tocou um tecido, um peito, umas costas, um homem… Rodeou-lhe o pescoço com um braço, mas ia precisar de alguma força divina porque os pulmões reclamavam ar urgentemente.
Começou a subir. Pesava-lhe o seu corpo, mas nunca tinha mergulhado com tanta determinação. Tinha crescido no mar, passara a vida a nadar, e sabia que podia fazê-lo porque não estava sozinha. Achava que o destino a tinha levado ali quando ele caiu borda fora e que estava destinada a salvá-lo… e salvou-o. Atingiu a superfície, respirou e levou-o até a praia. Arrastou-o para fora da água e pô-lo de costas sobre a areia seca para que lhe saísse a água da boca e do nariz. Depois, deitou-o de costas outra vez e deu-se conta de que era ele, o seu maravilhoso homem misterioso, o que parecia não tolerar aqueles tontos… Nunca tinha reanimado ninguém, mas o seu pai ensinara a fazê-lo e ainda se lembrava do essencial. Repetiu a operação várias vezes enquanto rezava para receber ajuda divina, não estava disposta a perdê-lo. Tinha de respirar! Então, quando começava a acreditar que os seus esforços eram inúteis, ele levantou um pouco o peito. Voltou a respirar com força na sua boca e ele exalou ar. O seu peito subiu e baixou com a respiração entrecortada, mas estava vivo. Arderam-lhe olhos com as lágrimas e, esgotada, sentou-se nos calcanhares. Salvara-o, mas que fazia com ele? Precisava de ajuda médica e não sabia como pedi-la. O rádio estava estragado. O seu pai levaria um quando voltasse, mas demoraria uns dias. Normalmente, era-lhe indiferente estar incontactável, já tinha estado antes, mas agora era diferente.
Olhou para o mar e só viu o leve resplendor do iate no horizonte. Como era possível que ninguém se tivesse dado conta de que tinha caído ao mar?
Afastou-lhe o cabelo da frente e então deu-se conta de que tinha a têmpora manchada de sangue. Tinha-se ferido antes de ter caído borda fora, ou de o terem atirado.
Ouvira uma discussão, fora isso que lhe chamara a atenção, e o murmúrio do motor. Parecia que lhe tinham batido na cabeça, mas porquê?
Pestanejou. Doía-lhe a cabeça. Tentou sentar-se, mas tudo começou a andar às voltas. Não percebia porque é que tudo parecia tão nublado, mas entreviu uma mulher com ar de preocupada e a cara em cima da dele.
Conhecia-a de algum sítio? Não conseguia pensar e fechou os olhos para se deixar levar pela inconsciência, até que a dor o acordou outra vez. Abriu os olhos e comprovou que era de dia, embora não soubesse se era cedo ou tarde.
Uma mulher movia-se pelo quarto. Tinha um vestido branco, largo e vaporoso. O cabelo, longo e liso, chegava-lhe quase até à cintura. Por um instante, perguntou-se se seria um anjo, se teria morrido e estaria no céu. Tentou erguer-se e sentiu náuseas. Deixou-se cair outra vez sobre a almofada e compreendeu que não podia estar no céu se sentia aquela dor.
O anjo com forma de mulher devia ter ouvido o seu rabujar porque voltou-se e aproximou-se. Era tão jovem e formosa que, de facto, não podia ser real. Talvez tivesse febre e estivesse a alucinar porque ela se ajoelhou ao seu lado com a luz a refletir-se no cabelo castanho claro. Era possível que o inferno estivesse cheio de belezas diabólicas assim.
Por fim estava a voltar a si.
– Olá – cumprimentou-o Josephine em inglês até que se lembrou de que as conversas que tinha ouvido na praia eram em francês e italiano. – Como estás? – perguntou-lhe em francês.
Ele pestanejou os seus olhos azuis, embora sem conseguir focar a visão.
– Como te sentes? – insistiu ela em italiano.
Ele fez uma careta de dor e também respondeu em italiano.
– Tu chei sei?
– Sou a Josephine. Feriste-te, mas já paraste de sangrar.
– Que aconteceu?
– Caíste do teu iate.
– Um iate?
– Sim, estavas com uns amigos.
– Onde estou? – perguntou ele sem deixar de falar em italiano.
– Em Khronos, uma pequena ilha de Anafi.
– Não conheço.
– Ninguém conhece. É propriedade privada e tem um centro de investigação da Fundação Internacional de Vulcanologia… – calou-se quando comprovou que não a estava a ouvir e tinha uma expressão contraída. – Dói-te?
– Sim, a cabeça…
Ela tocou-lhe na testa com a mão e, felizmente, já estava mais fria.
– Ontem à noite tinhas febre, mas acho que já passou. Se conseguires beber, podes tentar tomar um pouco de sopa….
– Não tenho fome. Só quero algo para a dor.
– Tenho uns comprimidos que devem servir, mas acho que antes deverias comer qualquer coisa.
Ele olhou para ela com os olhos semicerrados, como se não a tivesse percebido. Além disso, a barba incipiente endurecia-lhe o queixo. Era impressionante ao longe, mas de perto era devastador. Olhou-a nos olhos e ela sentiu a pulsação acelerada.
– Já se passou quase um dia desde que te tirei do mar…
– Como cheguei aqui? – interrompeu-a ele.
– O barco, o iate…
– Não percebo isso do iate – ele sentou-se entre rabugices de dor e levou uma mão à têmpora, onde a ferida estava a sangrar outra vez. – Quando estive eu num iate?
– Seguramente, desde a semana passada ou mais – ela sentou-se de cócoras para o observar. – Não te lembras?
De que te lembras?
Ele pensou até que por fim encolheu com impaciência os seus ombros bronzeados
– De nada – respondeu ele num tom taxativo.
– Não te lembras de quem és? – perguntou ela boquiaberta. – Não sabes o teu nome e idade?
– Não, mas sei que preciso de uma casa de banho. Podes dizer-me onde é?
Ele fez-lhe muitas perguntas mais tarde e ela tentou dissimular a angústia que lhe causava que tivesse perdido a memória. Preparou um jantar simples e falou com ele enquanto servia os vegetais grelhados e o frango com limão e alho e levava os pratos para a mesa de madeira.
– Acho que deves ser italiano. Foi o primeiro idioma em que me respondeste.
– Não me sinto italiano, mas pode uma pessoa sentir ser de uma dada nacionalidade?
– Não sei – ela sentou-se à frente dele, – embora imagine que se por acaso despertasse noutro lugar que não o meu iria ficar admirada com os costumes.
– Fala-me das pessoas com quem eu estava.
– Eram da tua idade. Algumas raparigas pareciam mais jovens e todos pareciam… privilegiados.
Ele não disse nada.
– Todos estavam a divertir-se muito – prosseguiu ela, – menos tu.
Ele voltou a olhar para ela com os olhos semicerrados.
– Não sei se estavas aborrecido ou preocupado, mas passavas mais tempo sozinho do que os outros. Eles deixavam-te em paz e isso levou-me a pensar que eras o cabecilha.
– O cabecilha? – repetiu ele num tom trocista. – Do quê? De um bando de ladrões?
– Não precisas ser desagradável.
Ela ia para levantar-se, mas ele agarrou-lhe o pulso.
– Não te vás.
Ela olhou para a sua mão. Sentia a calor da sua pele e teve de dominar um estremecimento. Estava esgotada de tanto cuidar dele e de preocupar-se. Tinham sido um dia e uma noite intermináveis.
– Só tento ajudar-te – comentou ela, libertando-se.
– Desculpa. Senta-te, por favor.
As palavras eram amáveis, mas o tom era autoritário. Era evidente que estava habituado a ser obedecido. Sentou-se devagar e agarrou o garfo, mas estava demasiado cansada para comer. Podia notar que a observava e isso não facilitava as coisas. Além disso, já sabia a cor dos seus olhos, eram azul-turquesa, como o mar.
– Pensava que tinhas fome – comentou ela ao ver que não tinha provado sequer a comida.
– Estou à tua espera.
– Perdi o apetite.
– Foi a companhia…?
– A companhia é boa – ela esboçou um sorriso. – Acho que estou demasiado cansada.
– Imagino que tenhas passado a noite inteira preocupada comigo.
Sim. Não sabia se ele sobreviveria. Havia sempre complicações após um quase afogamento.
– No entanto, sobreviveste e aqui estás.
– Sem memória e sem nome.
– Bom, poderíamos arranjar-te um nome.
– Poderíamos…
– Poderíamos dizer nomes a ver se algum te soa bem – ele olhou para ela fixamente e a ela sentiu o estômago encolher-se. – Eu direi nomes e tu vais dizer-me se gostas de algum.
– De acordo.
– Mateo, Marcos, Lucas, Juan…
– Tenho quase a certeza de que não sou um apóstolo.
– Portanto, conheces a Bíblia…
– Sim, mas não gosto deste sistema. Quero o meu nome, ou então não ter nome. Fala-me de ti. Que fazes numa ilha deserta?
– Não está deserta. Fica aqui uma das cinco estações da Fundação Internacional de Vulcanologia. O meu pai é vulcanólogo. Viemos para ficar um ano, mas estamos cá há oito.
– Onde está ele agora?
– No Havai. É professor catedrático na Universidade do Havai. Combina o ensino com o trabalho no terreno. Está em Honolulu, mas voltará no final do mês, dentro de nove dias.
– E deixou-te sozinha?
– Parece-te estranho?
– Sim.
– Para mim é normal – ela encolheu os ombros. – Não sou muito sociável e, além disso, assim posso dedicar-me às minhas coias. Quando o meu pai está aqui, só tratamos das coisas dele.
– E a tua mãe…?
– Morreu pouco antes de eu fazer cinco anos.
– Lamento.
– Não me lembro dela – comentou ela, encolhendo os ombros outra vez.
– Ela aprovaria a vida que levas aqui?
– Ela também era vulcanóloga. Trabalhou dez anos com o meu pai e fizeram o que ele está a fazer agora, mas no Havai. Acho que sim, que aprovaria. Talvez só lamentasse que não tivesse ido à universidade. Eduquei-me em casa, até na educação universitária, mas, segundo o meu pai, tenho mais conhecimentos que os alunos dele, embora não seja o mesmo. Nunca tive de competir para trabalhar, limito-me a trabalhar.
– Qual é a tua… especialidade?
– Também sou vulcanóloga, mas gosto sobretudo da relação com a arqueologia…
– O Vesúvio?
– Sim. Tive a sorte de trabalhar com o meu pai no setor sudoeste do Vesúvio. Não só me fascinam as civilizações perdidas, mas também a capacidade dos vulcões para configurarem a paisagem e reescreverem a história da humanidade.
– Não parece que tenhas perdido nada por teres estudado em casa…
– Segundo o meu pai, não sei comportar-me em sociedade – ela sorriu levemente. – Sinto-me incómoda nas cidades entre muita gente, mas, felizmente, aqui não temos esse problema.
– A tua mãe também era dos Estados Unidos?
– Era canadiana francófona, do Quebeque. É por isso que me chamo Josephine – ele apertou os dentes e os lábios. – Recordarás o teu nome, é só uma questão de tempo.
– Falaste-me em francês, não foi?
– Tentei vários idiomas, mas respondeste em italiano e continuei em italiano. Est-ce que tu parles français?
– Oui.
– E Inglês…? – perguntou ela mudando de idiomas. – Compreendes-me?
– Sim – respondeu ele assentindo com a cabeça.
– Custa-te seguir-me? – perguntou ela sem deixar o inglês.
– Não, é como com o italiano.
Não tinha quase pronúncia estrangeira e parecia mais americano que britânico. Supôs que teria estudado algures nos Estados Unidos.
– Então, importa-te que falemos em inglês?
– Não.
– Mas se te fizer dor de cabeça ou te stressar…
– Não precisas preocupar-te comigo, estou bem.
Ela ia contrariá-lo, mas pensou duas vezes. Era um homem habituado a dizer a última palavra.
Quem era? Por que irradiava poder mesmo naquele momento?
– Fala-me das pessoas que estavam comigo no iate. Conta-me tudo o que souberes.
– Depois de comeres qualquer coisa.
– Já não tenho fome.
– Que estranho, acho que eu também estou a perder a memória.
– Não acho graça – contrapôs ele, com um olhar duro.
– Nem eu. Passaste um mau bocado e tens de recuperar as forças. Como eu sou a tua cuidadora…
– Não gosto de ser mimado.
– Eu não mimo ninguém. Se comeres, conto-te tudo. Se não comeres, terás de aguentar-te porque tenho outras coisas para fazer, além de discutir contigo.
Ele apertou os dentes. Evidentemente, a situação não lhe agradava, mas agarrou o prato com frango e provou… até que acabou por devorá-lo.
– Está muito bom – reconheceu ele, olhando-a nos olhos.
– Obrigada.
– Foste tu que fizeste?
– Sim.
– Como?
– Tenho um congelador e uso o forno do exterior para assar as batatas. O resto faço ao fogo.
– Um forno exterior?
– Também faz umas pizzas belíssimas. Aprendi a usá-lo quando vivemos no Peru. Adorava o Peru. E o meu pai adorava o estratovulcão.
Ela sorriu ao recordar a emoção do pai quando o Sabancaya rugia e começava a lançar cinzas. Se não fosse pelas mulheres locais, teria ficado abandonada. No entanto, acolheram-na e ensinaram-lhe a cozinhar e ela, em troca, cuidava dos filhos delas, assim as mães podiam descansar um pouco.
– E em que outros sítios viveste?
– No estado de Washington, no Havai, Peru e Itália, mas aqui é onde estamos há mais tempo.
– Todos os lugares eram assim tão isolados?
– Não, este é o mais remoto, mas estou muito contente.
– Foi por isso que nos viste na praia e não te apresentaste?
– Somos de mundos diferentes – ela riu-se e retirou-lhe o prato. – Seria um ser exótico no teu mundo.
– Achas que sim? – perguntou ele, franzindo a testa.
– Claro. Não sei estar rodeada por homens bonitos. Não poderia estar a apanhar sol, tenho de estar ativa, estaria a pescar ou a estudar os lençóis freáticos para imaginar a história vulcânica… – ela calou-se por um instante. – Não sou o teu tipo de rapariga.
– Qual é o meu tipo?
– Uma rapariga que parece uma modelo em fatos de banho, que não carega nem a sua própria mala da praia, que se chateia se não tiveres vontade de conversar.
– Muito interessante – comentou ele com um brilho nos olhos azuis.
– O quê?
– Não gostas dos meus amigos. Não o tinhas dito antes, é uma informação nova.
– Não deveria ter dito nada. Não é importante…
– Mas isso diz muito sobre ti.
– Exatamente. Não preciso dizer-te o que sinto, deveria limitar-me a ajudar-te. É indiferente quem eu sou ou o que sinto.
– Podes ter opiniões.
– E expressá-las se servem para algo. Julgar as tuas amigas não serve de nada.
– Não sei porquê, mas pareces ser… especial.
– Sim, não encaixo, nunca encaixei.
– Isso é um pouco fatalista, não?
– Sê-lo-ia, se estivesse a lamber-me as feridas, mas estou aqui porque quero. Não me sinto esquisita aqui, em Khronos, não duvido de mim e isso é bom.
– Estás a dizer que a sociedade te incomoda.
– Sim – ela levou o prato e o garfo para o pequeno lavatório da diminuta cozinha, – mas cresci à margem da sociedade e isso é o natural.
– Nunca viveste numa cidade?
– Em Honolulu?
– É uma cidade a sério?
Ela voltou-se e olhou para ele de sobrolho franzido.
– Claro. Honolulu tem uma história fascinante. No Havai há mais coisas que não só as praias e o surf. No entanto, não lhe disse que já não gostava de voltar, que havia demasiados carros e pessoas, e era por isso que tinha ficado em Khronos enquanto o seu pai estava lá.
– Vocês eram uns doze na praia – prosseguiu ela enquanto se sentava. – Sete homens e cinco mulheres. O iate era enorme, um dos maiores que já vi. O teu grupo ia à praia durante o dia para banhar-se e apanhar sol. Também havia muita bebida e toda a gente se divertia.
– E na noite que caí borda fora…?
– Havia música e festa, como sempre. Os teus amigos estavam na coberta superior. No entanto, o que me chamou a atenção naquela noite foi uma discussão na popa. Ouvi vozes em crescendo. Foi por isso que me aproximei do mar.
– Eu estava a discutir?
– Sim – ela franziu o sobrolho. – Bom, não sei se eras tu. Ouvi uma discussão, um grito e algo a cair à água. Não pude ver bem e imaginei que alguém se teria atirado à água, mas quando não veio ninguém à superfície, assustei-me e…
– Resgataste-me.
– Não sabia que eras tu – repostou ela, incomodada. – Só sabia que alguém estava em apuros.
– Não acho que fosse fácil.
– Não, mas aterrorizava-me que alguém pudesse afogar-se.
– Arriscaste a vida por um desconhecido.
– De que serve mover-me como um peixe na água se não puder salvar alguém de vez em quando? – preguntou ela num tom desenfadado para aliviar a tensão.
– Teria morrido se não fosses tu – respondeu ele sem sorrir.
– Mas não morreste. Já só falta recuperares a memória.
Josephine sorriu, levantou-se e abriu um pouco as portadas. Conseguia sentir o olhar dele cravado nela. Corou e a sua pulsação acelerou. Olhava-a com atenção e intensidade. Fazia-se sentir-se inquieta, ela queria alisar a saia e ajeitar o cabelo, queria estar bonita… Abanou a cabeça. Não podia ser quem não era. Já tinha tentado isso em Honolulu e fora um desastre.
– A julgar pela tua pronúncia – prosseguiu ela, – poderias ser da Bélgica, França, Itália, Suíça, Sicília, Aargau e até dos Estados Unidos. Tens um sotaque dos Estados Unidos.
– Não me sinto americano – contrapôs ele.
– Então, apagamos os Estados Unidos da lista. Já só restam seis possibilidades.
– Sim, vamos reduzindo a lista.
Ela riu-se, mas parou de rir quando viu as nódoas negras que ele tinha na testa.
– Gostaria de saber o que aconteceu. Fizeste essas marcas durante a queda ou antes?
– Eu perguntei-me o mesmo – respondeu ele. Ela olhou para ele demoradamente, sem saber se deveria expressar as suas preocupações, até que ele disse exatamente o mesmo que ela tinha estado a pensar.
– Se não tiver sido um acidente, tudo muda, não é?
Capítulo 2
Ele não sabia o seu nome nem onde vivia. Nem sequer sabia por que tinha estado naquele iate com… amigos. Também não sabia se alguém tinha querido fazer-lhe algo ou se tinha sido um acidente. No entanto, sabia uma coisa: desejava-a. Acordava a pensar em Josephine e adormecia a pensar nela. Já não era uma criança e deveria ser-lhe fácil dominar o apetite, mas desejava-a tanto que teve de perguntar-se se já teria sentido o mesmo antes, se aquela avidez e impaciência eram típicas dele. Talvez a intensidade se devesse a tudo o que não sabia.
Leu os livros que encontrou na casa para pensar noutra coisa. Quando se cansava de ler, dava um mergulho ou deitava-se na areia, mas acabava sempre a pensar em Josephine. Queria vê-la e estar perto dela. Por isso, vestia uma das camisas do pai dela e ajudava-a no seu trabalho. Ajudava-a a tomar notas ou a regar a horta, o que quer que fosse desde que estivesse ao seu lado. Desejava as suas formas, o seu cheiro e o seu sorriso.
Era esperta, bonita, inocente e séria. Era singular, uma joia que resplandeceria entre as mulheres mais belas do mundo. Disse-lho um dia após um mergulho no mar e ela sorriu com timidez e um brilho trocista nos olhos.
– Obrigada pelo piropo, mas se levarmos em conta que não te lembras de nada, não sei se é válido.
– Não preciso comparar-te para saber que és inteligente e amável. Também és alegre e otimista e alegras-me a mim. E tenho a sensação de que não sou uma pessoa que fique contente facilmente.
– Isso é verdade, não estavas nada contente na praia com os teus amigos. Estavas sozinho e olhavas para o mar. Observei-te e desenhei-te…
– Desenhaste-me?
– Sim – Josephine corou. – É o que gosto de fazer quando tenho tempo livre.
– Ainda não te vi desenhar desde que estou aqui.
– Desenho quando tu não estás ou estás a dormir.
– E o que desenhas?
– Um pouco de tudo – ela corou ainda mais, – mas, sobretudo, a ti.
Ele ficava encantando porque os olhos dela pareciam mais verdes quando corava. Era tão natural e bela que lhe recordava uma sereia.
– Por que me desenhaste?
– Porque tu me fascinas.
– Porquê?
– Deves saber porquê – ela apertou os carnudos lábios. – Não me obrigues a dizê-lo.
Estava maravilhado com aqueles lábios, os dedos desejavam acariciar-lhe a face e percorrer-lhe os lábios… e reparou que estava a ficar… duro.
– Parece que o golpe na cabeça me deixou um pouco tonto. Por favor, explica-me o que tenho para fascinar-te.
– Vou dizer-te só uma vez.
– Estou a ouvir.
– És insuportavelmente atraente…
– Insuportavelmente?
– És muito inteligente.
– Voltemos ao atraente. Pode ser-se insuportavelmente atraente?
– Sim, tu já o demonstraste. Deixa-me continuar. Tens sentido do humor… quando queres.
– Isso parece-me um inconveniente… ser imprevisível.
– Tens amigos ricos. O iate era imenso, mas isso é negativo.
– Porquê?
– É desastroso do ponto de vista ambiental.
– Estou de acordo.
– Estás de acordo? – perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
– Sim. Sempre me preocupei com o ambiente.
– A sério?
Ele assentiu com a cabeça e ela franziu levemente as sobrancelhas.
– Interessante… – murmurou ela.
– Porquê?
– Começas a saber algo de ti mesmo. Acho que estás a recuperar a memória e isso é bom.
Ele sentiu uma pontada de inquietação e não soube porquê. Recuperar a memória deveria ser fantástico, mas tinha medo.
– Vamos falar de ti.
– Porquê? Sou uma estudiosa chata…
– Não és chata e as mulheres estudiosas são apaixonantes.
– A sério? – perguntou ela entre risos.
– Fui à escola com mulheres inteligentes e não há nada mais sensual do que uma mulher inteligente…
Ele parou ao dar-se conta do que tinha dito.
Não se tinha referido à escola preparatória ou secundária, referia-se à universidade e sabia que chamar-lhe «escola» era muito típico dos Estados Unidos. Teria frequentado a universidade nos Estados Unidos? Notou que Josephine também se tinha apercebido.
– Estás a recuperar a memória – comentou ela baixinho e com emoção.
– Estás a curar-me. O sol, os banhos…
– Não há muito para fazer – ela sorriu. – Não há televisão ou videojogos.
– Acho que nem que os tivesses os usaria. Tu adoras estar ao ar livre e moves-te no mar como um peixe.
– Vivi sempre junto ao mar. Primeiro no Havai e depois aqui. Não consigo viver sem dar um mergulho. Se passar muitos dias sem molhar-me sinto-me abatida. O mar devolve-me à vida.
– És um peixe.
– O meu pai diz o mesmo – ela riu-se. – Diz que tenho escamas e que se secam se não me banhar.
– Bom, é possível que não sejas um peixe, mas uma sereia.
– É possível.
Josephine sorriu com timidez. Tudo estava a mudar por dentro, não podia fingir que ele não a afetava, não podia fingir que não havia tensão entre eles porque olhava para ela com uma intensidade que a fazia ficar sem respiração e com o coração na boca, um olhar que a aterrorizava e, ao mesmo tempo, emocionava. Estar ao seu lado era excitante e desconcertante, ninguém a tinha olhado como se fosse importante, ninguém tinha feito com que se sentisse tão bela. A cada conversa, ele fazia sentir-se mais viva e não percebia porquê, já que não conversavam sobre nada pessoal. Ainda assim, fascinava-a.
Tinha-a fascinado quando era um desconhecido misterioso na praia e esse fascínio tinha aumentado a cada dia porque como era possível que alguém tão impressionante a desejasse?
Além disso, estava a gostar de sentir-se desejada, levando-a a repensar todas as suas crenças. Acreditara sempre que nunca teria relações sexuais com alguém que não fosse o homem com que partilharia o resto da sua vida. Ao olhá-los nos olhos, parecia-lhe que poderia perder algo que só aparecia a uma pessoa uma vez na vida.
Além disso, essa atração era mútua. O seu olhar indicava que a desejava e o facto de ela saber isso era embriagante, era um afrodisíaco. Que sentiria se além disso ele a acariciasse e a beijasse? Não se questionou sobre nada mais porque só se tinha dado um par de beijos na sua vida e não lhe tinham parecido nada de especial, só a tinham levado a concluir que não precisava de repetir a experiência. Até àquele momento. Tinha a sensação de que beijar aquele desconhecido misterioso seria algo completamente diferente que poderia, até, mudar-lhe a vida. Era o que queria?
Olhou para o desconhecido, que já não era um desconhecido e se estava a tornar alguém muito importante para ela. Tinha vivido demasiado tempo sozinha ou com o seu pai, que falava muito pouco e estava sempre absorto no seu trabalho. Percebia que o seu pai estivesse dedicado à investigação, mas ela, de vez em quando, queria algo mais. Queria que a vissem, que a reconhecessem, que… a amassem. Normalmente, sentia-se mais assim à noite e culpava o cansaço, mas, ultimamente, sentia-o a todas as horas. A chegada do homem misterioso tinha-a mudado, recordando-lhe que havia um mundo fora da sua ilha e que ela não o conhecia. Ainda assim, também sabia que era feliz em Khronos… Levantou-se bruscamente e afastou-se para tentar aliviar o peso que sentia no peito. O pai deixara-a responsável por tudo e tinha de focar-se nas suas obrigações.
– Tenho de voltar ao trabalho.
– Posso ajudar-te? – perguntou ele.
– Não. Vou comprovar os painéis solares. Relaxa-te e…
– É o que tenho feito nos últimos dias. Diz-me o que há para fazer e eu posso ajudar-te enquanto estou aqui.
– Está bem, vem comigo – acedeu ela com um sorriso tenso.
A velha casa de campo era feita de pedras e, pela fachada, parecia quase abandonada, mas havia umas escadas muito bem cuidadas nas traseiras que conduziam a uma clareira repleta de painéis solares e de outros instrumentos, além de outra casa de pedra mais pequena.
– Aqui fica todo o material para rastreamento de sismos. Está ligado a sismógrafos portáteis que estão espalhados pela ilha e alguns no mar. Estamos praticamente em cima de um vulcão e por isso temos sismógrafos para captar movimentos na crosta terrestre. Alguns movimentos poderiam significar que o vulcão está a acordar.
– Se isso acontecesse, que farias tu?
– Não se moveu nos últimos dez anos. Segundo todas as probabilidades, estou a salvo.
– Pareces muito despreocupada com algo que poderia ser catastrófico.
– Algumas pessoas ficam aterrorizadas com os vulcões, mas nunca ocorreu uma erupção tão catastrófica assim. Além disso, sabes que algumas pessoas optam por viver perto dos vulcões por causa da energia geotérmica, dos minerais e da fertilidade do terreno? Eu sou defensora da energia geotérmica porque é muito limpa e quase inesgotável, mas os painéis solares também nos dão muito bons resultados e permitem-nos viver fora da rede elétrica. Usamo-los para quase tudo: luz, aquecimento, dessalinização, para a rádio, quando funciona…
Ele tinha estado a observar os painéis solares, mas ela percebera que era o sistema de dessalinização que lhe despertava maior curiosidade. Levou-o a outro recinto de painéis, canos e depósitos negros e retangulares. Fez-lhe um gesto para que se agachasse ao lado dela.
– Isto é o que mais gosto, porque nos proporciona toda a água potável. Ao princípio, tínhamos de trazer litros e litros de água. Também recolhíamos água da chuva, mas se não chovia, ficávamos em pânico. Agora, graças a um acordo com a universidade de meu pai, podemos converter a água salgada em água potável com energia solar e tecnologia de última geração.
– Qual é a diferença da dessalinização tradicional?
– Conheces o processo de dessalinização?
– Ferve-se a água salgada e o vapor condensa-se.
– Isso mesmo. É um sistema com um consumo de energia muito pouco eficiente e que precisa de uma infraestrutura cara e complexa. Quase metade do custo de uma fábrica é em energia.
– Então, é um dessalinizador com membranas… Ela estava impressionada por ele saber tanto sobre o assunto. Talvez tivesse estudado ciências ambientais…
– Sim e não. A universidade trabalhou a partir de uma membrana destiladora convencional e acrescentou-lhe uma camada de nanopartículas negras como carvão. As partículas atraem a luz e aquecem toda a superfície da membrana, convertem até oitenta por cento da luz solar em calor e proporcionam-nos mais água com menos energia.
– Fascinante – murmurou ele, analisando o mecanismo. – Ao combinar o aquecimento fototérmico com a dessalinização por membranas criaste uma tecnologia mais produtiva e eficiente.
– Não fui eu. Foi a universidade. Tivemos a sorte de os engenheiros e cientistas nos deixarem experimentar o sistema aqui. Já o temos há ano e meio e mudou-nos a vida – apontou com a cabeça para uma horta ao lado. – Tomates, pepinos, alfaces, cenouras… Agora é possível cultivar graças a um fornecimento constante de água potável.
– Sabia que havia uma universidade norte-americana que estava a fazer algo assim, mas é incrível ver o sistema a funcionar e saber que não é só teoria.
– Pode ser uma mudança crucial para todo mundo.
– Claro – murmurou ele.
No entanto, tinha o olhar fixo nos seus lábios carnudos. Ela corou e olhou para outro lado para tentar dissimular como se sentia alterada. Queria que ele a beijasse, mas também estava com medo. Não tinha experiência e sabia que a maioria das mulheres da sua idade já teriam tido… relações. Desejou ter tido uma vida mais normal, ter tido namorados e saber como reagir. Será que ele sabia?
– Estás aborrecido – comentou ela, levantando-se e limpando o pó das mãos.
– Não – ele também se levantou. – Estou fascinado com tudo. Não só pelo modo como vocês sobrevivem, ao Deus dará, mas também contigo e com o teu pai. Não consigo imaginar nenhum pai que deixe a sua filha única sozinha num lugar tão isolado.
– Tenho o rádio…
Apertou os lábios e não conseguiu dizer mais nada. Tinha o coração aos saltos e estava prestes a começar a chorar, embora nem soubesse porquê. Não tinha acontecido nada e, no entanto, parecia-lhe estar a acontecer tudo e que estava a perder o controlo.
– Costuma funcionar, nunca o tinha partido. Esse acidente foi um mero acaso, tal como o facto de tu estares aqui. Estou há quatro anos em Khronos e nunca tinha parado aqui um iate, nem se aproximado gente.
– Por que tens medo? – perguntou-lhe ele interrompendo o seu palavreado.
– Não tenho medo – respondeu ela com a voz algo descontrolada.
Ele ficou a olhar para ela até que lhe passou um dedo pelas sobrancelhas. Conteve a respiração e sentiu uma descarga elétrica por dentro. Olhou-o nos olhos enquanto ele lhe percorria o nariz, as maçãs do rosto e a linha do queixo.
– És linda – murmurou ele com a voz rouca.
Ela sentiu a erótica voz dele por todo o seu corpo, foi como uma provocação para os sentidos.
– Sem maquilhagem, sem roupas da moda. Só a tua beleza. Não sabia que existiam mulheres como tu.
– Isso é o que dizes agora, mas se me pusesses ao lado das mulheres do iate, já verias.
– Não acho que haja comparação. Tu és extraordinária. A tua cabeça, a tua paixão pelo teu trabalho, a tua beleza… És perfeita.
– Ainda me vais fazer acreditar…
– Ainda bem. Deverias saber que és especial, uma entre um milhão.
Josephine afastou-se um pouco para olhar para ele. Ele deixou que visse o brilho ardente dos seus olhos.
– Então, beijas-me? – sussurrou ela. – A não ser que não sintas isso…
– Quero beijar-te desde que abri os olhos e te vi a olhares para mim como um anjo.
– Não sou um anjo – murmurou ela, engolindo em seco. Tinha a pulsação acelerada e não conseguia deixar de olhar para as suas maçãs do rosto e para a barba incipiente que tinha todas as tardes. Além disso, aquela boca larga e com uns lábios lindos… Adorava desenhar-lhe o rosto e, sobretudo, os seus lábios. Perguntava-se que sabor teriam, se beijá-lo seria diferente de quando beijou o alcoolizado Ethan em Honolulu. Aquele beijo foi tão atroz que perdeu a vontade de voltar a sair com homens…
Ele agarrou-a pelos braços e apertou-a contra si com um brilho nos olhos. O mundo reduziu-se a eles os dois. Ela sentia o bater do seu coração. Estremeceu face ao calor do seu corpo enquanto ele a apertava contra o seu peito, sentindo os mamilos ficarem duros. Isso era tudo o que queria, só queria sentir a boca dele na dela…
Baixou a cabeça e a sua sensual boca beijou-a. Sentiu faíscas pelo corpo, ouviu um gemido, ele rodeou-lhe a nuca com uma mão para a agarrar enquanto derretia por dentro. Queria muito mais, mas uma vozinha sussurrava-lhe que ele estava fora do seu alcance.
– Estás a ponderar? – murmurou ele afastando a cabeça e olhando-a nos olhos.
– Hum… Sim. Não, não.
Nunca se tinha sentido tão viva e esperançosa, mas isso era um disparate. A emoção levava-a a sentir-se desinibida e desenfreada, algo que nunca fora. Ainda assim, gostava do que sentia, gostava que ele a beijasse e lhe tocasse.
– Conta-me o que estás a pensar.
Ele acariciou-lhe o rosto e ela sentiu uma labareda que lhe chegou aos mamilos e entre as coxas.
– Evidentemente, estás a pensar em algo – acrescentou ele.
– Sim, e lamento…
– Não lamentes e conta-me.
– Achas que podes ser casado? – perguntou-lhe ela à queima-roupa.
– Não.
– Achas que não tens uma esposa algures?
– Não tenho.
– Como podes ter tanta certeza?
– Tal como sei que não sou dos Estados Unidos. Não… condiz comigo.
– Estás a recuperar a memória…
– É possível.
– Que condiz contigo? Podes descrever-te?
– Europeu… rico… certamente mediterrâneo. Acho que dirijo uma empresa ou sou o proprietário. Parece-me que tenho bastante empregados e que é uma casa próspera. Também suspeito que sou perfecionista e que não me contento com pouco – ele fez uma expressão de incómodo. – Se tudo isso é verdade, sou um pateta e desprezo-me, embora não me conheça.
– Como não te conheces, acho que estás a ser um pouco duro contigo mesmo – ela riu-se. – Acho que és melhor pessoa do que descreveste. A minha intuição diz-me que és muito boa pessoa e um pouco solitário, estavas um pouco afastado dos teus amigos…
– Seguramente, porque sou um imbecil insuportável…
– Não!
Ela interrompeu-o entre risos e ficou a pensar.
Era ela que se estava a rir como uma rapariga contente da vida? Josephine era séria, regia-se por factos, não por sensações, e a sua vida girava em redor do trabalho e de ser útil.
– Que estás a pensar agora? – perguntou-lhe ele.
– É assim tão evidente que tenho a tendência de pensar em tudo?
– Eu gosto, e gosto de ti. Não te desculpes por seres tu mesma, Josephine.
Aquela voz rouca e autoritária provocou-lhe um nó na garganta e ela sentiu vontade de chorar. Tinha sido tudo tão maravilhoso durante aqueles dias com ele que se sentia plena por dentro.
– Deveríamos voltar para casa para eu tratar do jantar – comentou ela.
Ele agarrou-a pelo pulso para que não se escapasse.
– Não me respondeste. Que estavas a pensar há um momento?
Ela controlou um estremecimento quando ele lhe acariciou a parte de dentro do pulso com o polegar.
– Que sou feliz.
Tentou não olhar para a sua boca e não recordar o beijo porque tinha sido maravilhoso. Ele fazia-a sentir-se bela e perfeita, estar ao seu lado fazia com que quisesse sentir muito mais…
– Além disso, fico contente por estares aqui – acrescentou ela, erguendo o queixo.
Capítulo 3
O pôr do sol era um espetáculo, mas não conseguia apreciar a sua beleza de tão tenso que estava. Ainda não sabia quem era, mas tinha prenúncios de partes de si mesmo. Era enervante. Queria ter o seu nome e ser quem quer que fosse, bom ou mau, porque era desesperante pensar e sentir sem saber quem era. De cada vez que dizia «acho que…» uma vozinha perguntava-lhe como o sabia. No entanto, estava a recuperar a memória, embora devagar. Estava impaciente, não queria pedaços de si mesmo, queria toda a memória. Não queria ter sensações de si mesmo, tinha de saber toda a verdade. Não se aborrecia em Khronos, de modo alguma, e gostava de estar com Josephine, mas aquela ilha não era a sua vida. Sabia com certeza que a sua vida não era tranquila, que o seu trabalho não era sossegado, que o seu mundo estava cheio de tensão e gente.
– Toma – Josephine apareceu ao seu lado, na praia, com um copo de vinho. – Vai fazer-te bem.
Ela sorriu e os lábios carnudos dela recordaram-lhe o beijo que tinham dado, como era delicada a sua boca. Despertou-lhe o apetite e imaginou todo o tipo de coisas, sem nada de inocente, que, certamente, a escandalizariam… embora ela fosse gostar delas e ele gostar de dar-lhe esse prazer.
– Por que achas que preciso de vinho? – perguntou ele.
– Vais de um lado para o outro pela praia como um tigre enjaulado. Espero que consigas relaxar com uns copos do merlot do padre Epi.
– Não tínhamos bebido vinho…– comentou ele, pegando no copo.
– Não costumo beber, mas é uma ocasião especial.
– A sério?
– Sim – ela corou um pouco. – Pensei que esta noite deveríamos fazer algo diferente que te distraia do que te anda a pressionar.
– Não precisas de preocupar-te comigo.
– Mas preocupo-me.
– Porquê?
– Importo-me com… – ela encolheu os ombros. – Por isso vamos jantar ao ar livre. Já pus a mesa, veremos o por do sol e serás o meu primeiro verdadeiro encontro. Se não for muito estranho… Sou muito estranha? Receio que sim…
– Não tens nada de estranha – ele puxou-a para si. – Adoraria ir jantar contigo.
Ele beijou-lhe a boca e ela ficou rígida por um instante, até se deixar guiar por ele, que lhe passou a ponta da língua pelos lábios. Quando os separou, apoderou-se da sua boca para saboreá-la com avidez. Estremeceu e conteve a respiração enquanto ele lhe beijava o pescoço e descia até à clavícula. Era demasiado sensível, tinha que refrear o desejo. Ela queria um encontro, um idílio, e ele podia conceder-lho.
– Não precisas fazer nada – replicou ela precipitadamente. – Eu trato do jantar e já pus a mesa. Queres vê-la?
Ele assentiu com a cabeça e deu-lhe o braço. Ela agarrou-lho com timidez e voltaram para a casinha, que parecia muito diferente com uma fogueira no exterior e uma mesa redonda coberta com uma toalha preta com pássaros de todas as cores. Havia dois lugares preparados e velas acesas no centro. Ele sentiu-se comovido por ela se ter dado a tanto trabalho por ele.
– Essa toalha não é grega – comentou ele.
– Não, é peruana. A minha querida Azucena fê-la antes de sairmos. Deveria guardá-la para o meu enxoval… – ela não prosseguiu ao ver o desconcerto dele. – No teu país as raparigas não fazem o seu enxoval?
– Não sei. O que é isso?
– A roupa de casa que uma mulher leva quando casa para começar a vida de casada.
Ele deu-se conta de que tinha corado e de que não olhava para ele.
– Eu não penso casar– prosseguiu ela, rodeando a mesa – e parece-me um desperdício ter isto guardado para sempre. É bonita, não é?
– Sim.
Ele, no entanto, não estava a olhar para a toalha, estava a olhar para Josephine à luz das velas. Tinha trocado o vestido de alças por uma saia longa azul com uma blusa de estilo rústico. Olhou-o com as faces coradas e um brilho nos olhos, com nervosismo, com timidez e com esperança, e essa esperança que se refletia nos seus olhos verdes fez com que sentisse um peso no peito. Teve a sensação de que a sua vida estava cheia de mulheres belas, mas que nenhuma era como ela. Como poderiam ser tão inteligentes e belas? Ficava maravilhado com a capacidade dela para fazer tanto com tão pouco… e não se queixava de nada.
– Achas que nunca te vais casar?
– É pouco provável – respondeu ela com um sorriso. – O mar não arrasta homens para a praia.
– A mim, arrastou-me…
– Sim, mas demorei oito anos a resgatar o meu primeiro príncipe encantado.
– Príncipe…? – perguntou ele de sobrolho franzido.
Ela sorriu e ficou com umas covinhas nos cantos da boca.
– Como no conto da pequena sereia, embora eu não esteja a pensar renunciar à minha alma para que ele seja feliz.
– Tenho de confessar que não conheço esse conto de fadas.
– Como é possível que não conheças?
– Eu era…
Ele não terminou a frase e olhou para outro lado
– Não é um conto americano – prosseguiu ela, – embora a Disney tenha feito uma versão. É um conto de Andersen e os contos dele são sempre tristes e deprimentes. A mim, faziam-me pesadelos e o meu pai pediu à minha mãe que não mos lesse, embora me lembre dos que mais me perturbaram – Josephine olhou para ele. – Acabaram-se as conversas deprimentes. O jantar está pronto, comemos?
Josephine serviu o cordeiro assado com alho, orégãos, tomilho e sumo de limão. Adorava cozinhar comida grega e o cordeiro ia perfeitamente com o merlot e o pôr do sol.
Ele puxou a cadeira para ela, um gesto cavalheiresco que a fez sentir protegida.
– Obrigado – murmurou Josephine.
Observou-o enquanto se sentava à sua frente. A luz das velas realçava-lhe as maçãs do rosto bronzeadas e o cabelo negro como tinta. Sentiu um arrepio quando olhou para ela com aqueles olhos azuis. Custava-lhe pensar quando sentia a pulsação acelerada e todo o seu corpo vibrava de emoção. Queria que a beijasse outra vez, queria que a abraçasse e a fizesse sentir tudo o que tinha sentido antes porque ele se iria embora a qualquer momento e aquele tempo que tinham passado juntos tornar-se-ia apenas uma recordação.
– A mesa está linda e a companhia não podia ser melhor – ele levantou o copo de vinho. – A ti, Josephine. Obrigado por tudo.
– É um prazer – respondeu ela chocando o seu copo com o dele.
– É um vinho muito bom – comentou ele após dar um golo.
– É grego, fá-lo o padre Epi no Mosteiro do monte Athos. É o favorito do meu pai.
– A ver se não me esqueço dele.
– Preferiria que recordasses o teu nome, onde vives e a que te dedicas. A tua família deve estar desesperada. Se fosses meu familiar, estaria aflita.
– Sim, gostaria de saber quem são.
– Devem estar agoniados, tal como os teus amigos.
– Hum…
– Não acreditas? – perguntou, observando-o com os olhos semicerrados.
– Não voltaram – respondeu ele apertando os dentes.
– É possível que não soubessem onde desapareceste… – contrapôs ela, embora tivesse pensado o mesmo muitas vezes. – O mar é muito grande.
– Se discuti com alguém, essa pessoa tem de saber que eu caí ao mar. Por que não deu o alarme?
– Se essa pessoa sabe, tens um problema. É perigosa e queria fazer-te algo. Se não, o iate teria dado a volta, os teus outros amigos não te teriam abandonado.
Ele continuou a olhá-la nos olhos e o que ela captou no seu olhar deixou-a sem respiração. Desejava-a e, pela primeira vez, pareceu-lhe que não era por agradecimento, por tê-lo salvo, que ele gostava dela, Josephine Robb, a desajustada social. Custava-lhe mastigar, engolir, falar ou sorrir porque sentia-o do outro lado da mesa, sentia a sua energia, endureciam-se-lhe os mamilos e apertava os joelhos como se quisesse sufocar a sensibilidade que sentia entre as coxas.
– Ficaste muito calada – comentou ele enquanto acabavam de comer.
A luz da vela criava sombras no seu rosto. Era viril e belo, mas também era duro, havia nele algo de implacável que a fez pensar que não gostaria de ser sua adversária.
– Deveria levantar a mesa.
– Não, não deverias – contradisse ele, olhando-a fixamente.
Ela sentiu a boca secar-lhe a pulsação acelerada. O desejo oprimia-lhe o ventre com uma força que nunca tinha sentido. Ele despertara algo nela que a alterava, não só o desejava, precisava dele. Era possível que não voltasse a conhecer ninguém que a fizesse se sentir assim; linda e valiosa, emocionada e viva.
– Anda cá – prosseguiu ele, recostando-se na cadeira.
Não lhe estendeu a mão nem falou num tom imperativo, mas era uma ordem e ele sabia que obedeceria. Ela também o sabia. Levantou-se com as pernas a tremer e contornou a mesinha. O seu olhar percorreu-lhe lentamente as faces coradas, a boca carnuda e os ombros. Depois, deteve-se nos mamilos, que se notavam sob o tecido da blusa, e acabou por descer à cintura e ancas. Tremeu ao captar a veracidade nos seus olhos. Não estava assustada, mas derretia-se em lugares muito íntimos, era como se a estivesse a transformar em mel e vinho.
– Desejo-te – disse ele num tom rouco que lhe endureceu ainda mais os mamilos, – mas estou a tentar ser considerado. Sei quanto te devo…
– Não.
– Sim. Devo-te a vida.
– Então, se é por gratidão, não me desejes. Não quero que me desejem por uma gratidão mal-entend… Josephine não conseguiu continuar quando ele a agarrou e a sentou nos seus joelhos com as mãos na cintura.
– Não te desejo por gratidão, desejo-te porque já não consigo dormir, porque o meu corpo te deseja. Tenho-me contido, mas só porque és… inocente. Espero com toda a minha alma que não o sejas porque assim não me sentiria como um canalha por querer fazer-te minha.
Ela sentiu como o desejo lhe ardia entre as coxas com uma força incontrolável.
– Diz-me que não és virgem, que não seria a primeira vez – acrescentou ele com um olhar ardente.
– Seria a primeira vez, mas para toda a gente há uma primeira vez. Porque não iria acontecer contigo?
– Porque acho que não te convenho, acho que não sou o que precisas.
– Como sabes?
– Não sei.
– Efetivamente. Não sabemos quase nada, tirando que tu me atrais e eu te atraio, e que gosto como me fazes sentir. Quero mais do que há entre nós, o que quer que isto seja.
Ele apertou os dentes, ficou com o queixo tenso, e ela notou que ele também estava a ficar duro sob o seu traseiro. A ereção fez que com ela se sentisse ainda mais sensível, que se sentisse dominada por aquela sensação que se apoderava dela.
– Desejo-te – prosseguiu ela, percorrendo-lhe o peito com as mãos. – Quero que sejas o primeiro.
As palavras dela foram como atirar gasolina para o fogo. Queria despi-la ali mesmo, queria chegar com a sua boca até ao canto mais recôndito do seu corpo, queria tê-la molhada. Podia fazer com que se retorcesse e gritasse o seu nome.
Se fosse um cavalheiro, soltá-la-ia, deixá-la-ia no chão e dir-lhe-ia que fosse para a cama. Ele tomaria um banho e sufocaria aquele anseio. Se fosse um cavalheiro, esperaria até que adormecesse antes de voltar para o quarto do seu pai, onde ele dormia toda as noites. No entanto, não era um cavalheiro. Não sabia quase nada de si mesmo, mas sabia isso.
Baixou a cabeça e roçou-lhe os lábios com os dela. Não o fez por delicadeza, mas por crueldade, porque queria que o desejasse tanto quanto ele a desejava a ela. Por isso, provocava-a com carícias insinuantes, passava-lhe a mão pelos ombros, pelas costas dos seios ou por cima das ancas, cada caricia estava pensada para fazê-la arquear as costas.
Já tinha a respiração ofegante, gemia e levantava a boca para encontrar a dele. Desejava-o. Acariciou-lhe um mamilo com os nós dos dedos e ela virou-se sobre o seu colo. Tinha os olhos semicerrados, as pupilas estavam tão dilatadas que pareciam negras. Acariciou-lhe o outro mamilo e ela voltou a estremecer. Ele quase gritou de prazer, ela era dele.
Por fim, devorou-lhe a boca quase sem conter a voracidade, e recebeu os seus ronrons de prazer. Era uma boca fria e, ao mesmo tempo, ardente, com um sabor fresco e incrivelmente doce. Ele passou-lhe a língua por cima dos lábios e ela abriu-os. Introduziu a língua sem contemplações.
Não sabia por que queria castigá-la quando ela era celestial, um anjo na terra. Talvez por isso estivesse zangado consigo mesmo, não com ela, porque não a merecia. Não deveria ser ele a roubar-lhe a inocência. Tinha um enxoval cheio de sonhos e esperanças, naquela noite tinha posto uma toalha especial… como poderia arrebatar-lhe a virgindade? Não deveria.
Além disso, nem sequer sabia se havia mais alguém. Não era casado, não usava anel nem parecia haver marca na pele de o usar, mas poderia haver alguém especial à sua espera algures, preocupada com ele.
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