Читать книгу: «Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)»
Alberto Pimentel
Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066412937
Índice de conteúdo
RAINHA SEM REINO
I SEGREDOS DA ALCOVA...
II NA CÔRTE DE HENRIQUE IV
III DRAMAS DA POLITICA
IV MÃE E FILHA
V POR CAUSA DE UMA COROA
VI A BATALHA
VII O RATO NAS MÃOS DO GATO
VIII CASAR OU METTER FREIRA
IX O DEDO DE DEUS
X SEM PAZ NO TUMULO!
RAINHA SEM REINO
Índice de conteúdo
BARROS & FILHA, EDITORES
RUA DO ALMADA, 104 A 114, PORTO
Litteratura e polygraphia
Alliança helleno-latina, discurso, por Emilio Castellar: 1 vol., 200 rs.
Cartas a Luiza (moral, educação e costumes), por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., 600 rs.
Diccionario de phrases latinas de uso mais vulgar, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.
Farpões, por Brito de Barros (2.ª edição): 2 tomos, 500 rs.
Mulheres, romance, por Brito de Barros: 1 vol., a entrar no prelo.
Pandemonio, por Brito de Barros: 1 vol., 500 rs.
Rainha sem reino (estudo historico do seculo XV), por Alberto Pimentel: 1 vol., 600 rs.
Uma vida perfeita, por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho: 1 vol., a entrar no prelo.
Viagens no Chiado, por Barros Lobo (Beldemonio): 1 vol., a entrar no prelo.
Educação e ensino
Modelos de redacção, auxiliares do curso de portuguez e dos alumnos d’instrucção primaria, por Antonio Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 500 rs.
Nova arithmetica e systema metrico das escholas primarias, por Jacob Bensabat: 1 vol., cartonado, 400 rs.
Resumo da historia portugueza para uso das escholas d’instrucção primaria, por Antonio Manuel Gomes; obra approvada pelo governo (2.ª edição): 1 vol., cartonado, 300 rs.
Rudimentos de arithmetica e systema metrico, por Antonio Manuel Gomes: 1 vol., cartonado, 200 rs.
RAINHA
SEM REINO
(ESTUDO HISTORICO DO SECULO XV)
POR
ALBERTO PIMENTEL
PORTO
BARROS & FILHA, EDITORES
RUA DO ALMADA, 104 A 114
1887
Imprensa Civilização—Rua de Santo Ildefonso, 73 a 77
I
SEGREDOS DA ALCOVA...
Índice de conteúdo

A infanta de Portugal, D. Joanna, filha de el-rei D. Duarte e da rainha D. Leonor d’Aragão, nasceu posthuma, em março de 1439. Duas grandes fatalidades pareceram cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha portugueza: o lucto pela morte de seu pae, esse illustrado e infeliz rei para quem a vida fôra pouco menos de um martyrio ininterrupto, e a peste que então grassava em Lisboa, obrigando a côrte da rainha viuva a retirar-se para Almada, onde a infanta nascera na quinta de Monte Olivete.
Menos feliz do que sua irmã D. Philippa, que n’esse mesmo anno morrera menina, tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando as graças da sua infancia no meio de uma côrte melancholica, perturbada pelas luctas politicas da regencia, entregue ao cuidado da sua aia Maria Nogueira, e, mais tarde, confiada á companhia da sua camareira-mór D. Isabel de Menezes, mulher de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas.
Menina e moça, a infanta, extremamente bella, fazia lembrar uma flor que vegeta á beira de um tumulo, porque essa côrte viuva, onde a triste reina não tinha uma hora de serenidade de espirito, não era, de feito, mais do que o tumulo de todas as alegrias de familia, porque não as teve a de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso V.
Chegando aos dezesete annos de edade, fôra D. Joanna pedida em casamento por seu primo Henrique iv, de Castella, que tinha nascido a 5 de janeiro de 1425, e fôra jurado principe das Asturias nas côrtes geraes de Valhadolid com festas publicas.
O bispo de Cuenca, que o baptizara, prégou sobre este thema: Puer natus est nobis. Um menino nos nasceu. Mas apesar de nascer entre jubilos o menino, que no throno de Castella devia succeder a seu pae D. João II, as côrtes preoccuparam-se logo de resolver uma questão importantissima. Fôra o caso, que D. João II havia casado com a infanta D. Maria, sua prima carnal, filha de Fernando I, de Aragão, irmã de D. Leonor, casada com D. Duarte, de Portugal, e que este casamento intromettera nos negocios politicos de Castella os infantes de Aragão, especialmente D. João e D. Henrique, que procuravam tomar ascendente no animo do rei, seu cunhado.
D. Henrique, que era mestre de S. Tiago, e que aspirava a desposar, como desposou, D. Catharina, irmã do rei D. João, foi até ao extremo de assaltar o paço, e de querer aprisionar o rei. O infante D. Henrique entrara preso na fortaleza de Móra, e D. João II representou ao rei de Aragão, Affonso V, para que lhe entregasse os cavalleiros que tomaram partido por D. Henrique. Mediaram negociações, e o rei de Aragão resolveu finalmente invadir o reino de Castella.
Fôra pois a noticia d’esta invasão o assumpto que preoccupara a attenção das côrtes. Se o rei de Aragão se obstinasse em penetrar em Castella, o que se havia de fazer? Resistir-lhe, decidiram as côrtes ao cabo de longos debates.
Vagara entretanto o throno de Navarra, a que o infante aragonez, D. João, subira pelo seu casamento com a infanta D. Branca. Este incidente deu uma nova face ás pendencias de D. João de Castella com D. Affonso de Aragão. O infante D. Henrique reconquistara a liberdade, para continuar a lucta, e o rei de Aragão dissolveu o exercito com que se havia preparado para combater o adversario.
Em 1425 nascera, como dissemos, da alliança de D. João II com sua prima D. Maria, um infante, que recebeu o nome de Henrique. Era o quarto do nome que devia succeder na coroa de Castella.
A rainha D. Maria morreu envenenada, em Villecastin, a 15 de março de 1455. Pouco antes havia tambem fallecido em Toledo, crê-se que por effeito de veneno, sua irmã a rainha D. Leonor, viuva de D. Duarte, de Portugal. A morte d’estas duas princezas filia-se no apoio que poderiam querer dar ou receber do infante D. Henrique, seu irmão. Não faltou todavia em Portugal quem indiciasse o infante portuguez, D. Pedro, como cumplice, senão auctor, da morte de sua cunhada D. Leonor de Aragão, para evitar novos embaraços politicos á regencia, durante a menoridade de Affonso V. Esta suspeita, lançada sobre o caracter do infante D. Pedro, não conseguiu maculal-o perante a historia, porque são os proprios chronistas hespanhoes, entre elles Flores, que apontam o condestavel castelhano, D. Alvaro de Luna, como promotor do envenenamento de ambas as princezas. O infante D. Pedro havia até annuido a que D. Leonor voltasse para Portugal, mas a negociação mallograra-se pelo subito fallecimento da rainha em Castella.
Pelo que respeitava a esta senhora, receava D. Alvaro que influisse para que seu irmão D. Henrique voltasse a Toledo, d’onde fôra expulso, porque servindo a causa de seu irmão julgaria a rainha de Portugal favorecer a sua propria causa contra o regente D. Pedro.[1]
Quanto á rainha de Castella, D. Maria, pensou o condestavel D. Alvaro em desembaraçar-se da sua influencia por um meio violento, aliás muito vulgar então na côrte castelhana: o veneno.
«Uma e outra, diz o padre Flores, morreram de veneno, segundo a promptidão e effeitos da morte; pois que D. Leonor morreu de repente, depois de tomar um remedio caseiro; D. Maria não sentiu maior enfermidade que uma dor de cabeça, e ao quarto dia morreu. Os cadaveres de ambas cobriram-se egualmente de vergões, e portanto se attribuiu a morte a veneno. De mais a mais, vê-se do processo instaurado contra D. Alvaro de Luna, que influira para que fosse ministrada peçonha ás duas rainhas.»
O plano de D. Alvaro não falhara, porque logo depois da morte da rainha feria-se a 29 de maio uma batalha junto a Olmedo. O rei venceu. D. Henrique morreu, em Calatayud, do ferimento que recebera durante a batalha, e D. Alvaro de Luna conseguira ser investido no mestrado de S. Tiago, que o infante tivera.
Fôra o condestavel D. Alvaro que negociara o segundo casamento de D. João ii, de Castella, com a infanta D. Isabel, filha do infante D. João de Portugal e neta de D. João I. D’este segundo casamento nasceram a infanta D. Isabel e o infante D. Affonso, que vieram a representar na politica de Castella um papel importante, principalmente Isabel, que sobreviveu ao irmão, e que pelo seu casamento com Fernando de Aragão preparou a unidade hespanhola, finalmente realizada por Carlos V.
Por agora, reportemo-nos ao nascimento de Henrique IV, successor do throno de Castella.
O menino tinha nascido, mas não nascera com elle a tranquillidade da côrte de D. João II. Discussões de toda a ordem a agitavam. De mais a mais, o condestavel D. Alvaro de Luna, valido do rei, tinha visto levantarem-se contra elle todos quantos beneficiara, e a tal ponto o combatiam, que o rei se viu obrigado a pactuar em Castronunho, acceitando a imposição do desterro temporario de D. Alvaro.
Mas não teve forças D. João II para romper com o valido. Saltou por cima da concordata de Castronunho. Reagiram os confederados, e uma nova reunião foi aprazada para Valhadolid. O principe das Asturias assistiu, e concordou com os demais em que, por pedido do rei, se désse salvo-conducto a D. Alvaro de Luna; mas, no dia seguinte, o principe voltou-se para a politica dos confederados, impondo por sua vez condições ao rei.
Um tal procedimento causou grande escandalo na côrte. Puer natus est nobis. D. João II não podia duvidar de que tinha um filho, e por tal signal que lhe ia dando muito que fazer. É verdade que parecia inspirar-se nas suggestões de um mau conselheiro; nem tudo era obra propriamente sua. Dominava-o um donzel, de nome João Pacheco, seu valido, filho de Affonso Telles Giron, senhor de Belmonte.
Fôra o proprio condestavel D. Alvaro quem puzera este desagradecido rapaz, seu pagem, ao lado do principe, e é curiosa a circumstancia de que o condestavel dominava tanto o rei quanto o Pacheco dominava o principe.
Mas o feitiço voltara-se contra o feiticeiro, e Pacheco, feito marquez de Vilhena por D. João II, parecia agora aconselhar o principe a conspirar contra a politica do rei, que era a politica do condestavel. O principe das Asturias unira-se, pois, aos inimigos de D. Alvaro de Luna, que, tendo sido valido, veio a acabar no cadafalso, como quasi todos os validos em Castella.
O mesmo rei, que o defendera, entregou-o aos seus inimigos e, depois de o haver atraiçoado, mandou-o chorar pelos poetas da côrte. Um dos que choraram por conta do rei foi João de Mena.
D. João II pensou em arrancar o filho á influencia de Pacheco. Para isso lembrou-se de um meio: casal-o. Casal-o de facto, entende-se, porque D. Henrique já estava desposado com D. Branca de Navarra, como fôra estipulado no tratado de paz feito entre os reis de Aragão, Navarra e Castella.
Fez-se o que o rei pensara. D. Branca viera para Valhadolid juntar-se com o seu noivo. Realizaram-se festas esplendidas; houve saraus, banquetes, cannas, torneios, montarias e toiros. Dir-se-ia que o reino estava nadando em felicidade e paz. Mas, apesar das festas, o casamento de D. Henrique com essa infeliz princeza, que devia ser esposa mallograda, fôra tristemente agoirado. Os torneios e as festas deixaram uma lugubre recordação, ensanguentada pela morte e pelos ferimentos de alguns cavalleiros. As pontas das lanças, com que lidaram, eram de ferro acerado, de modo que a lide sahiu a valer.
Do casamento do principe das Asturias com D. Branca, de Navarra, não houve filhos. O principe dava-se habitualmente a outro genero de prazeres, segundo o testemunho de Mariana, e assim se explica a grande privança em que vivera com João Pacheco.
Quatorze annos já iam corridos sem que D. Branca désse successão. A voz publica attribuia a culpa d’esta esterilidade a impotencia do principe, e aos maus habitos adquiridos. Dizia-se geralmente que a pobre princeza estava como nascera. Mas, no processo do divorcio, o fundamento official é a impotencia relativa dos dois consortes. Questão de bruxedos, segundo as idéas da epocha, mas não, por certo, segundo as idéas de Pacheco, que outras razões teria.
Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico, pronunciou sentença de nullidade Luiz da Cunha, que governava a egreja de Segovia. O processo subiu por appellação a Roma, e o papa Nicolau V delegou seus poderes em Affonso Corrilho, arcebispo de Toledo, que confirmou a sentença.
D. Branca de Navarra foi, pois, despedida. Sahia de Castella como entrara: sempre noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante do seu véo branco, arrastavam-se epigrammas grosseiros, satiras mordazes. Diz Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores aragonezes remedios para combater a esterilidade, já depois de repudiada, como se foram para cural-a de uma febre quartã! E Castella, vendo moribundo o seu rei, tinha de acceitar um principe devasso e impotente, que lhe succedia.
Em 1453 morria D. João II, e o principe descasado empunhava as redeas do governo. A hereditariedade punha a coroa na cabeça de um mau filho e de um mau esposo, que de mais a mais se affirmara poltrão desde os primeiros tempos do seu reinado.
Propoz-se D. Henrique renovar a guerra contra os moiros de Granada. Preparou um exercito formidavel, fez-se rodear de uma guarda distincta composta de tres mil e seiscentas lanças, a flor da nobreza de Castella; porem ao approximar-se da vega de Granada deu ordem para que se evitasse todo o encontro com o inimigo. O exercito ficou descontentissimo, chegou mesmo a lavrar entre elle o pensamento de se apoderar da pessoa do rei, mas um filho do marquez de Santilhana avisou da conspiração Henrique IV, que se retirou apressadamente para Cordova, e d’ahi para Madrid.
Henrique IV gostava da guerra... platonicamente, como das mulheres. Lisonjeava-o ver-se commandando um poderoso exercito no meio da floresta scintillante das lanças da sua guarda, mas a respeito de dar batalha, nada! Amava muito a vida para arriscal-a; apenas, como hypocrita que tambem era, dizia que por amar a vida dos outros os não queria sacrificar.
Os invernos passava-os na côrte, ou nas cercanias de Madrid em festas venatorias. A caça era o seu fraco e o seu forte. Quando a primavera chegava, montava a cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer um passeio de recreio, com o seu exercito, até á vega de Granada. As vezes, por distracção, ia talando e incendiando os campos na passagem.
A veiga de Granada era então muito falada em trovas e praticas. No Cancioneiro, de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado de tanto ouvir falar na veiga de Granada, diz a Henrique de Almeida, que regressava de Castella:
Da Veiga lá de Granada
e das estejas da guerra
vos nam ey já de ouvir nada.
Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram em combate por sua conta e risco. No recontro, ficou morto Garcilaso de la Vega. O rei agastou-se, e então teve uns assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem, que devastassem tudo. O emir Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas, mas a respeito de dar batalha campal, nada; Henrique IV continuava a amar platonicamente a guerra... como as mulheres.
Todas as phantasias poderia ter um rei impotente, menos a de tornar a casar. Pois teve-a Henrique IV, tão extravagante era a sua cabeça. E lançou as vistas para a infanta D. Joanna, de Portugal, sua prima, princeza formosissima, a cujos dotes de corpo e de espirito todos os historiadores castelhanos rendem encomiastica homenagem.
Mas Henrique IV tinha o seu pensamento. Segundo Lafuente, talvez quizesse desmentir a fama de impotente. Agora o que se não chega a perceber é o pensamento a que cedeu Affonso V, dando a mão da princeza ao primo de Castella, que tinha como marido os peores precedentes d’este mundo.
É verdade que as condições do casamento eram vantajosas para Portugal, porque Henrique IV contentava-se apenas com a pessoa da princeza, diz Sousa na Historia genealogica. Em vez de pedir, offerecia como arrhas vinte mil florins de oiro do cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a hypotheca proposta e acceita; e mais as rendas da villa de Olmedo, para ajuda da despesa da casa da infanta, e, para o mesmo fim, a annuidade de milhão e meio de maravedis de moeda corrente.
Affonso V não deu dote á irmã, a qual, porém, foi grandemente corrigida da sua pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei de Castella, trinta mil dobras.[2]
Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa a 22 de janeiro de 1455, presentes, de um e outro lado, Affonso V e o capellão-mór de Henrique IV, foi estipulado que a infanta poderia fazer-se acompanhar de doze damas portuguezas, uma dona, uma camareira, e todas as mais pessoas que quizesse, obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as conforme a sua jerarchia.
Havia-se ajustado nas capitulações, que a infanta seria entregue na fronteira n’um periodo de tempo não superior a oitenta e um dias depois dos desposorios.
Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu, sendo acompanhada pela condessa de Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D. Martinho, seu filho.
Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz Pina, sem comtudo as especificar, e, quando a nova rainha de Castella passava pela Landeira, em direcção a Elvas, realizaram-se ahi justas em sua honra.
Em Badajoz era D. Joanna esperada com luzido sequito pelo duque de Medinacidonia. D’alli seguiram para Cordova, onde o rei estava, e onde os noivos receberam a benção nupcial (maio de 1455).
De Cordova passaram a Sevilha, e ahi houve cannas, justas, toiros, e um torneio de cincoenta por cincoenta, de que foram chefes o duque de Medinacidonia e o marquez de Vilhena.
As festas da côrte, a que Henrique IV se abandonava n’um sybaritismo insaciavel de testa coroada, redobraram de movimento e esplendor. Ora em Madrid, ora em Segovia, sitios predilectos d’este bom rei, tão madraço como os ultimos da raça merovingia, Henrique IV aturdia a noiva com festas sumptuosas porventura no empenho de lhe fazer esquecer as desillusões da alcova real.
A pobre princeza cahiu de chofre n’este mundo de tentações e perigos que ella desconhecia, que não tinha sido o da sua educação. O luxo e a galanteria ostentavam-se em requintes de fascinação, estonteavam como filtros allucinantes todas as cabeças, incluindo as mitradas.
O rei era o primeiro a dar o exemplo de dissipação.
De Henrique III, conta o nosso padre Manuel Bernardes, na Nova floresta, que, vindo esfomeado da caça, não tivera que comer certo dia. Disse-lhe o comprador que já não havia fornecedores que quizessem continuar a fiar para a real senhoria. O rei despiu o gabão e mandou-o empenhar por um pouco de carneiro. Os criados murmuraram do caso, extranhando que o rei tivesse fome e os fidalgos se banqueteassem lautamente, como n’essa mesma noite estava acontecendo no palacio do arcebispo de Toledo.
Henrique III, como isto ouvisse, sahiu disfarçado e entrou occultamente no paço archiepiscopal, ao tempo que os grandes da côrte conversavam jactanciosamente sobre as rendas da corôa, que cada um lograva. O rei recolheu-se a palacio, e mandou postar n’um dos pateos interiores um troço de seiscentos homens armados.
Logo que luziu a manhã, expediu recado aos grandes senhores para que sem demora lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso de fazer testamento. Os fidalgos acudiram em chusma, e foram isolados n’uma sala onde longo tempo esperaram.
Finalmente, appareceu o rei, de aspecto terrivel, e espada em punho; e, sem mais tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de per si quantos reis de Castella conheciam. Uns disseram que tres, outros que quatro, e ainda outros que cinco. O rei fingiu-se admirado. «Sendo eu mais moço que todos vós, replicou elle, conheço mais de vinte.» Os fidalgos responderam que não entendiam sua alteza. Então Henrique III explicou, que todos elles eram reis, porque se banqueteavam todas as noites, ao passo que elle, se quizera comer carneiro, tivera de empenhar o gabão. E acabou gritando: «Olá, gente da minha guarda!»
Acudiram ás portas os soldados. Appareceu um algoz com o cepo, cutello e cordas, prompto a funccionar.
«Então, diz Bernardes, o arcebispo se lhe lançou aos pés, pedindo, em nome de todos, perdão, e as vidas de mercê; e que no tocante ás fazendas, cortasse por onde lhe parecesse.»
O certo é que o rei perdoou. Mas as contas ficaram justas por então, e o rei poude rehaver todos os castellos que, durante a sua menoridade, os tutores haviam alheado. E alem dos castellos, cento e cincoenta contos de maravedis.
Henrique IV não era homem que tivesse resolução para imitar este exemplo do seu homonymo. Em vez de tirar aos fidalgos para dar a si, tirava a si para dar aos fidalgos. Por isso Garcia de Rezende, diz na Miscellanea:
Mui poderoso e servido
El-rei Dom Henrique era,
Mui gran rico, mui querido,
Fôra mui obedecido,
Se governar se soubera.
Mas vimos-lhe tanto dar
E tanto deixar tomar
Os grandes toda Castella,
Que elles eram os reis d’ella,
Elle sem ter que reinar.
Vem a ponto citar o caso de outro arcebispo que, á semelhança do de Toledo na côrte de Henrique III, pompeava magnificencias na côrte de Henrique IV. Referimo-nos ao de Sevilha, D. Affonso da Fonseca, que uma noite, depois de ceia, fez servir á mesa duas bandejas coguladas de anneis de oiro, cravejados de pedras preciosas, para que a rainha e as suas damas tomassem os que lhe aprouvessem.
D. Joanna sentiu porventura a febre do prazer invadir-lhe o espirito n’uma perfida embriaguez, que principiou por aturdil-a, e que devia necessariamente acabar por perdel-a, tanto mais que nenhum laço intimo, d’estes que estreitam os affectos e criam raizes, a prendia a seu esposo.
Henrique IV, embriagado tambem, esquecia-se de que era casado, e de que a natureza lhe negara qualidades que o recommendassem aos olhos das mulheres. Fingia ser o que não era, e exaggerava o fingimento, porque galanteava com escandalo uma das damas da rainha, D. Guiomar de Castro, filha bastarda de D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, portugueza formosissima, que viera a casar accommodaticiamente com o conde de Tervinho, primeiro duque de Nájara.[3]
Julgava-se depreciado o rei por não ser tão completo como qualquer dos seus vassallos, e mascarava-se de Tenorio, prophetizava Byron. Dava-se a ostentação de uma amante como os velhos lords inglezes, exhaustos e carunchosos, que vivem de se illudir a si proprios com as mulheres. Antes d’esta D. Guiomar, já Henrique IV tivera por manceba uma Catharina de Sandoval, que acabara por fazer abbadessa de um mosteiro de monjas, em Toledo, sob color de que necessitavam ser reformadas.
Boa disciplina podia impor ás monjas a barregã do rei!
Mas Henrique IV não podia ter confiança nas mulheres, pela simples razão de que ellas não podiam confiar n’elle. Catharina de Sandoval amava do coração um homem, que não o rei. Chamava-se Affonso de Cordova. O rei, como não pudesse competir com o seu rival, mandou-lhe cortar a cabeça em Medina del Campo, e resolveu a questão.
Agora voltara-se para a bella Guiomar, tão platonicamente, por certo, como em tempo se voltara para a vega de Granada.
A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida atroz. Quem teria razão? Seria Branca de Navarra, repudiada e virgem, ou D. Guiomar de Castro, que parecia inutilizar o rei para os seus deveres de marido?
A pobre rainha decidiu-se por esta ultima hypothese, e um dia, não podendo mais comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e castigou-a por sua propria mão. O escandalo estrondeou, dividiu-se a côrte em partidos, um pela rainha, outro pela manceba. O arcebispo de Sevilha, talvez mal succedido junto da rainha, apesar da galanteria dos anneis, pronunciou-se, por vingar-se, a favor de D. Guiomar. E o rei, apagando na alma de sua mulher a ultima noção do decoro conjugal, levou a manceba para duas leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e ia visital-a quando lhe aprazia chancear-se de prendas que não tinha.
Com este impulso mais, a rainha resvalara. Pelo menos a opinião publica boquejava desconfianças a respeito de D. Beltrão de Lacueva, hidalgo de los mas generosos de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos cabaleros de la córte, que comenzaba á gozar del favor del rey, y de paje de lanza habia ascendido á moyordomo mayor, diz Lafuente.
Tal foi o gentil homem que a rainha, no pendor do seu abandono e no estonteamento de uma côrte perigosa, encontrou no momento de resvalar.
II
NA CÔRTE DE HENRIQUE IV
Índice de conteúdo

Estava-se então em pleno cyclo cavalheiresco. O valor dava as mãos á poesia, na côrte de Castella. Muitos cavalleiros eram trovadores; não ser nenhuma d’estas coisas, importava o mesmo que viver e morrer anonymo. A magnificencia completava, como sabemos, as seducções da côrte, em que D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha, pela formosura e pelo casamento.
Os passos de armas eram frequentes e notaveis. Propunham-se fazel-os os cavalleiros que queriam dar prova publica de seu brio e destreza, em honra de qualquer dama. Marcado o logar onde a lide devia realizar-se, o cavalleiro reptava solemnemente quantos por alli passassem.
O passo de armas mais caracteristico d’aquelle tempo foi o de Suero de Quinhones (1434).
Uma noite, estando D. João II em Medina del Campo, folgando com a côrte em sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre cavalleiro Suero de Quinhones, acompanhado de mais nove gentis-homens, e pediu a el-rei auctorização para, em honra da sua dama, fazer um passo de armas quinze dias antes e quinze dias depois da festa de S. Tiago, propondo-se os dez quebrar trezentas lanças de ferro de Milão com todos os cavalleiros, nacionaes e extrangeiros, que por alli passassem á ida ou á volta da festa do grande apostolo. Todas as damas, que não fossem acompanhadas por gentilhomem disposto a combater, perderiam a luva da mão direita.
Lafuente traz a descripção minuciosa d’este celebre passo, do apparato dos cavalleiros, do campo da lide, e dos combates que se travaram. Nem menos de 68 aventureiros justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se setecentas e vinte e sete carreiras; mas faltou o tempo para quebrar todas as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida a 166, e ninguem dirá que foi pouco.
O primeiro aventureiro que acceitou o repto foi messire Arnaldo de la Floresta Bermejo, allemão, que correu seis carreiras e quebrou duas lanças.
Assim como um allemão vinha justar a Castella, muitos cavalleiros castelhanos corriam mundo assistindo a todas as grandes festas e torneios das côrtes da Europa. Tornou-se notavel como cavalleiro andante o valoroso João de Merlo, honra da cavallaria castelhana.
A recepção que em toda a parte se fazia aos cavalleiros andantes era magnifica.
De visita á côrte de Affonso V veio em 1446 o famoso cavalleiro messire Jacques de Lalain, de Borgonha, que foi recebido com honras verdadeiramente principescas.
Os torneios eram muitas vezes cruentos. Taes foram os que mal-agoiraram as nupcias de Henrique IV com D. Branca, de Navarra. O proprio D. Alvaro de Luna, justando na acclamação de D. João II, cahiu gravemente ferido.
Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores, os cultores da gaya sciencia, como se dizia, não eram menos numerosos que os paladinos.
O proprio D. João II versejara. Attribuem-se-lhe umas trovas que principiam assim:
Amor, yo nunca pensé
que tan poderoso eras,
que podrias tener maneras
para trastornar la fé,
hasta agora que lo sé.
A rainha D. Joanna ainda foi encontrar na côrte de Castella o celebre marquez de Santilhana, auctor da conhecida carta ao condestavel de Portugal, que póde considerar-se como uma verdadeira arte poetica d’aquelle tempo. Como se vê por essa carta, o marquez de Santilhana, D. Inigo Lopez de Mendonça, era um erudito; mas as suas composições testemunhavam que, alem de conhecer profundamente a historia de toda a gaya sciencia, era tambem um poeta.
As suas serranillas são verdadeiramente notaveis. Bastará um exemplo. Certo dia o marquez, dirigindo-se para uma das suas expedições militares, encontrou na serra uma zagala que pastorava os rebanhos de seu pae, D. Diogo de Mendonça. Encantado da sua formosura, compoz esta bucolica, em que todas as graças pastoris rescendem:
Moza tan fermosa
non vi en la frontera
como una vaquera
de la Finojosa.
...
En un verde prado
de rosas é flores
guardando ganado,
con otros pastores,
la vi tan fermosa,
que apenas creyera
que fuese vaquera
de la Finojosa.
Quando as vaqueiras formosas eram assim galanteadas em trovas, não admira que a rainha D. Joanna, não menos bella que a pastora de Finojosa, por muito que o fosse, se convertesse n’uma especie de sol em torno do qual girava todo o systema planetario da poesia castelhana, que extendeu a sua influencia até Portugal.
A côrte de Castella tornou-se um fóco de attracção, sobretudo para Portugal. Os portuguezes que de lá vinham, impunham de castelhanos, tão fascinados voltavam. Os poetas de cá motejavam-n’os porisso:
Oh! que modo que trazeis
a desdenhar portuguez!
oh que graças contareis,
e tomareys
d’elas mesmas o invés.
Jorge Manrique descreve bem todos os encantos da côrte de Castella, já sobredoirados pela saudade de um bello tempo que passou:
Las justas y los torneos,
Paramentos, bordaduras,
Y cimeras,
Fueron sino devaneos?
Qué fueron sino verduras
De las éras?
Já D. Duarte quizera obstar á emigração fidalga para Castella. Por carta dada em Obidos, em setembro de 1434, ordenou «que as pessoas que tiverem rendas n’este reina, e viverem em Castella, se passem a viver a elle; e não o fazendo, não possam levar as taes rendas para Castella, e não se lhe pagarão, e acabe.»
Mas os fidalgos portuguezes, zombando da lei, continuaram a deixar-se fascinar por Castella.
O duque de Alva compuzera um romance, Nunca fue pena mayor, e a rainha desejara ver glosados os versos d’esse romance. O commendador Roman impoz-se o encargo de glosador, por agradar á rainha:
Dizem que a vuestro oido
agradó aquel dulçor,
de la cancion del sentido,
famoso, franco, sabido
Duque d’Alva, mi señor.
Por darle gracia famosa
y favor demasiado,
alta regina gloriosa
que aveis pedido la glosa
y que nunca os han glosado.
Póde parecer extranho que todos os poetas da côrte não acudissem de tropel a acceitar o repto poetico que lhes propunha a bella rainha. Mas o commendador Roman, atravez do véo transparente da sua modestia, dá a razão do caso:
No saliendo delantero
de mil otros de consuno,
antes simple postrimero,
mas porque supe primero
la causa que otro ninguno.
Vê-se, ao contrario do que poderia presumir-se, que os poetas da corte não desaproveitavam ensejo de vibrar a lyra em honra d’essa rainha, cuja belleza, segundo a expressão do poeta commendador, não havia lingua que a descrevesse, nem mão que a pintasse.
Hoje, os commendadores não sabem dizer d’estas coisas.
É, pois, n’esta côrte cavalheiresca e poetica, alem de ostentosa, que o gentil Beltrão de Lacueva nos apparece.
Quando o duque da Bretanha enviou uma embaixada a Henrique IV, propondo-lhe alliança e amizade, quiz o rei obsequiar o embaixador com luzidas festas, que se fizeram na casa de campo del Pardo.
Quatro dias deslizaram em banquetes, torneios, justas e caçadas. Mas as festas ainda não acabaram ahi.
Ao quarto dia, quando a côrte regressava a Madrid, Beltrão de Lacueva preparou um passo de armas á Porta de Ferro, para que justassem todos quantos regressavam do Pardo.
D. Beltrão não quiz perder esta occasião de exhibir aos olhos da rainha, por entre as pompas do torneio, a sua elegancia e destreza como grande cavalleiro de gineta, notavel entre os eximios.
Não era permittido aos gentis-homens da côrte, que acompanhavam damas, passar alem sem que com D. Beltrão fizessem seis carreiras. Os que não quizessem justar deixariam, como signal da sua deshonra, o guante da mão direita.
Sobre um arco de madeira havia muitas lettras lavradas a oiro, e o cavalleiro que quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco, e tomava a lettra inicial do nome da sua dama.
D. Beltrão com todos os outros cavalleiros luctou em honra de uma dama mysteriosa, a dos seus pensamentos, de cuja inicial fez segredo. Mas essa dama estava presente: era a rainha.
Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom rei Henrique IV, tão contente ficou com o passo de armas, em que o unico ferido foi elle... moralmente, que por memoria fundou n’aquelle logar o mosteiro de S. Jeronymo, acabado em 1464.
Bom homem, o rei!
A belleza da rainha, o seu papel importante entre o circulo dos poetas da côrte, o abandono, em que se achava, de todo o affecto conjugal, a corrupção do tempo e do paço, e o boquejar do mundo, especialmente o da côrte, que é o mundo que mais boqueja e moteja, crearam em torno de D. Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão romantica em que, por entre anachronismos frisantes, figuram a rainha e o poeta João Rodrigues del Padron.
Resaltava das composições d’este trovador uma vaga anciedade de amar e ser amado, que encontrou echo na sensibilidade vibratil da rainha.
Um dia, de uma das janellas do paço, alguma dama mysteriosa deixou cahir uma carta, quando o poeta passava.
Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos que o convite para uma entrevista nocturna: pelas duas horas da madrugada, o poeta devia estar á porta falsa da cava, e bater com os dedos tres pancadas; o mais absoluto segredo devia envolver esta aventura, sob pena de mallograr-se.
Padron aconselhou-se com um amigo intimo, que se promptificou a acompanhal-o, para o defender, se a sua vida corresse perigo. Padron foi, fez o signal ajustado, a porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da escuridão, uma dama, cuja voz era doce como a musica. Sobre a capa d’elle se sentaram, no chão, e ahi conversaram, cingidos um ao outro, negando-se ella a quaesquer revelações, e insistindo na condição do segredo, que devia ser inviolavel.
De tres em tres dias avistar-se-iam, no mesmo sitio, dado o mesmo signal na porta da cava.
Padron confidenciou ao amigo o que se tinha passado, e um e outro, por mais tratos que déssem á imaginação, não puderam sequer suspeitar quem a dama fosse.
Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas instancias por parte do poeta; a mesma reserva por parte da dama. Pediu-lhe elle uma madeixa de cabello, cortou-a por sua propria mão; porêm nem Padron nem o seu amigo puderam depois adivinhar de que dama da côrte fosse o cabello.
O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda. Mas ia regressar, e a dama, n’uma nova entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade, que o era realmente, porque as chaves d’aquella porta ficavam na camara do rei.
Conta a lenda que Padron, para experimentar de que jerarchia fosse a dama, lhe pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de casa. Tem a gente o direito de suspeitar da intenção d’este pedido, pondo em duvida que Padron não recorresse ao processo ignobil de um mr. Alphonse, poeta e villão.
N’outra noite, a dama deu-lhe as joias, mas recommendou-lhe que as desmanchasse, porque eram da rainha, e podiam ser conhecidas. Padron acceitou-as, e não diz a lenda que fossem restituidas.
Entretanto, o rei chegara, e a porta da cava deixou de abrir-se. Mas o poeta insistira sempre e, finalmente, de uma vez a porta abriu-se.
Queixou-se Padron de que a dama levasse o receio de declarar-se até á desconfiança affrontosa. A dama acabou por ceder, e fez uma nova concessão. Estava proxima a festa de S. Pedro; que lhe désse elle uma joia, que por ella a distinguiria na festa. Padron tinha apenas comsigo, de que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o, e deu-lh’o. A dama afiançou-lhe que o poria em laço no cabello.
Chegou o dia da festa. Padron e o seu amigo esperavam que a côrte se dirigisse para a sala do throno. Ambos procuravam avidamente com os olhos a dama do laço escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu o amigo de Padron, e fez signal ao poeta. A rainha surprehendeu esse movimento, e o poeta, sem dar por isso, tão louco de alegria ficou, que nos torneios d’esse dia se avantajou a todos os cavalleiros da côrte.
Á noite, Padron bateu á porta da cava. A rainha, porque era ella a dama, recebeu-o, mas para lhe censurar asperamente a sua indiscreção, e para o ameaçar com a morte se não sahisse essa mesma noite de Castella.
Padron obedeceu, e partiu com o coração despedaçado, chorando a sua perdida felicidade, partindo só e triste, como elle proprio, segundo a lenda, o diz na trova.
... E assim iam corridos mais de seis annos de casamento esteril, quando, em 1461, uma noticia inesperada explodiu: a rainha estava gravida.
O rei Henrique delirou de contentamento, mas o paiz inteiro ria do jubilo do rei, porque estava capacitado de que o esperado herdeiro do throno era o fructo immoral dos amores adulterinos da rainha com D. Beltrão de Lacueva.
Porêm o rei continuou a delirar de jubilo, e ordenou que D. Joanna fosse conduzida a Madrid, onde elle estava, devendo fazer a jornada n’uma liteira, para que mais repoisada viesse.
João Pacheco, marquez de Vilhena, e o arcebispo de Toledo, prevenindo os conflictos politicos que deveriam derivar-se do parto da rainha, aconselharam o rei a que chamasse para a côrte, onde melhor poderiam ser educados, seus irmãos, D. Isabel, que tinha então dez annos, e D. Affonso, que apenas contava oito, mas que, segundo o tratado de paz feito entre Henrique IV e seu tio o rei de Navarra, deviam casar com D. Fernando e D. Leonor, filhos d’este monarcha.[4]
Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal, deu á luz uma filha. O rei ordenou que se fizessem festas pomposas. Era aquelle, para elle, um presente do céo! diz Lafuente. E eu creio que fosse assim.
A princezasinha recebeu o nome de Joanna. Baptizou-a o arcebispo de Toledo, tendo por assistentes os de Calahorra, Carthagena e Osma. Foram padrinhos o embaixador de França, conde de Armagnac, e o marquez de Vilhena; madrinhas, a infanta D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada na côrte, e a marqueza de Vilhena.
Contrastam singularmente com estes jubilos da côrte de Castella os lacrimaveis episodios do passamento da rainha Branca, de Navarra, no castello de Orthez.
O principe de Vianna, D. Carlos, devia ser, por morte de seu pae, herdeiro do throno de Navarra. O principe fallecera, transferindo á irmã, a infeliz Branca, os direitos de successão; mas D. Branca não nascera senão para soffrer. Só uma coroa lhe estava destinada: era a da virgindade perpetua.
A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor, tinha casado com o conde de Foix, e parece que uma das condições secretas do casamento fôra que D. Branca seria entregue ao conde, que a obrigaria a renunciar ao throno ou a fazer-se freira, succedendo portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo que elle morresse.
O rei de Navarra não duvidou sacrificar a filha ao apoio que, em troca, o conde de Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella, e achando-se com a infeliz Branca em Olite convidou-a a passar com elle os Pyrenéos, sob pretexto de que projectava casal-a com o duque de Berri, irmão do rei de França.
Sabia Branca o que se passava, e recusou-se a ir, allegando ao pae, segundo a expressão de Zurita, que não queria ser homicida de si mesma. O rei arrancou então a mascara, e obrigou-a a partir á força, bem guardada por pessoas da sua confiança. Poucos dias depois, o rei de Navarra contratava definitivamente com o conde de Foix em Olite.
D. Branca foi encerrada no mosteiro de Roncesvalles, e d’ahi teve meio de protestar contra a usurpação que se lhe queria fazer, declarando que por vontade propria declinaria os seus direitos no rei de Castella, que a havia repudiado!
O protesto inquietou a côrte de Navarra, como era natural, e a mallograda rainha foi mandada transferir para S. João Pied de Port.
Comprehendeu D. Branca que não se contentavam com usurpar-lhe os direitos ao throno, mas que tambem a sua vida corria risco, e pediu a Henrique IV, ao conde de Armagnac e ao condestavel de Navarra, que por meio da força defendessem, se tanto fosse preciso, os seus direitos e a sua vida, auctorizando-os a tratarem-lhe casamento com qualquer principe.
Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu pae, ia envial-a a S. Pelagio, no Bearn. Então, julgando-se completamente perdida, escreveu a Henrique IV, de Castella, o homem que a havia repudiado, cedendo n’elle todos os seus direitos á coroa de Navarra. Essa carta, que tem a data de 30 de abril de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão de um escriptor hespanhol, sem que se enterneça o coração mais duro. Lafuente, referindo-se á carta de Branca, diz que a infeliz princeza recordava a Henrique IV os antigos vinculos que os haviam unido, e os crueis transes que atravessara desde que fôra repudiada. Segundo Zurita, Branca pedia a Henrique IV que vingasse a sua morte e a do principe Carlos.
A que mãos de poltrão confiava a infeliz senhora tão nobre empresa! Vê-se que a esposa repudiada ficara conhecendo tão pouco o rei como o marido.
N’aquelle mesmo dia foi Branca, de Navarra, reconduzida ao castello de Orthez, onde permaneceu encerrada mais de dois annos, sob a vigilancia de uma dama da condessa de Foix, que acabou por envenenal-a.
Todos os chronistas hespanhoes têem phrases de maviosa compaixão para com a memoria da infeliz Branca. Citaremos apenas dois, Zurita, o chronista de Aragão, e Flores, o chronista das rainhas castelhanas. Zurita recorda que ella fôra repudiada pelo marido, perseguida pela irmã, e abhorrecida pelo pae, e que não teve mais em quem depositar a sua ultima esperança senão o homem de quem maior affronta havia recebido. Flores lembra que os ultimos suspiros d’esta desventurada princeza «foram echos no céo para os desgraçados fins dos condes de Foix, e dos seus descendentes», acabando o reino de Navarra n’aquella familia.[5]
E conclue dizendo que enterraram D. Branca na cathedral de Lescar, desde donde puede predicar á todo el mundo perpetuos desengaños.
Henrique IV, de Castella, impressionou-se pouco com a dilacerante carta da infeliz Branca, sua primeira mulher.
O céo ou Beltrão de Lacueva havia-lhe dado uma filha; bastava esta só alegria para absorver-lhe todas as attenções.
Dois mezes depois do baptizado, o rei ordenou que a infanta D. Joanna fosse, em côrtes de Madrid, proclamada princeza das Asturias e herdeira do throno.
Muitos fidalgos não quizeram jurar; entre elles, D. Luiz de Lacerda, conde de Medinaceli, a quem o rei prometteu mil vassallos para que jurasse, sem que o conde cedesse.
D. Affonso e D. Isabel, os jovens tios da infanta recem-nascida, juraram, sujeitos, como estavam, á tutela do rei.
A voz publica deu um cognome irrisorio á infanta. Chamou-lhe a Beltraneja. Este cognome recordava a sua origem adulterina: Beltraneja, a filha de Beltrão. Mas o rei Henrique nada d’isto sabia, ou queria saber. No dia dos seus annos deu a Beltrão o senhorio de Ledesma e o titulo de conde; chamou-o aos conselhos e governação do reino, e...
E estimulou-o d’este modo a atear cada vez mais, por cupidez de maiores honras e proveitos, o fogo do seu amor á rainha.
De feito, em 1463, foi declarado que D. Joanna ia novamente ser mãe. Mas um caso imprevisto mallograra essa esperança. Referindo-se á rainha, diz Lafuente:
«Tinha o costume de humedecer e amaciar o cabello com um liquido, sem duvida inflammavel, e um dia, achando-se na sua camara, um forte raio de sol que entrava por uma janella e se projectava sobre a sua cabeça, incendiou-lhe o cabello, de modo que se as damas não fossem tão diligentes em acudir-lhe, haveria corrido o perigo de carbonizar-se. Mas tanto bastou para que o susto antecipasse o parto de um feto de seis mezes, que nasceu sem vida, e que pela circumstancia de ser varão produziu no rei maior pesar. Fizeram-se sinistros agoiros sobre o caso, e não faltou quem vaticinasse desgraças para o rei e a rainha.»
Bem agoirado corria o tempo, mas era para D. Beltrão de Lacueva, que, graças á posição a que se guindara, tratou casamento com uma filha do marquez de Santilhana. D’este modo conseguia aparentar-se com a poderosa familia dos Mendonças. Estava na esteira para o méstrado de S. Tiago. Fazia sombra e receio ao marquez de Vilhena. Levantava-se n’um pedestal de oiro, e a conspiração, tão vulgar em todas as côrtes, principalmente na de Castella, principiava a minar-lhe o pedestal.
Entretanto, sobre as finas hollandas e custosas sedas, que alfaiavam o catresinho da princeza das Asturias cahia, como um enorme pingo de lama e fel, a risada sarcastica das multidões, appellidando-a de Beltraneja.
E essa alcunha havia de ficar-lhe para toda a vida, como um ridiculo cruel agrilhoado ao seu triste destino.
Бесплатный фрагмент закончился.
