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Editado por HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

Tudo se desmorona

Título original: It All Falls Down

© 2018 by Sheena Kamal

© 2020, para esta edição HarperCollins Ibérica, S.A.

Publicado originalmente pela HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.

Tradutor: Fátima Tomás da Silva

Reservados todos os direitos, inclusive os de reprodução total ou parcial em qualquer formato ou suporte.

Esta edição foi publicada com a autorização da HarperCollins Publishers LLC, New York, U.S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos comerciais, acontecimentos ou situações são pura coincidência.

Desenho da capa: CalderónStudio

Imagens de capa: Shutterstock

1ª edição: Setembro 2020

ISBN: 978-84-9139-497-6

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Dedicatória

Um

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Dois

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Três

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Quatro

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Cinco

Capítulo 42

Capítulo 43

Capítulo 44

Capítulo 45

Capítulo 46

Capítulo 47

Capítulo 48

Capítulo 49

Capítulo 50

Capítulo 51

Capítulo 52

Capítulo 53

Agradecimentos

Se gostou deste livro…

Para a minha mãe

UM

1

Quando montaram as primeiras tendas para tratar os viciados que entravam e saíam como mortos vivos, pensei: Claro.

Quando os jornais começaram a publicar um artigo atrás de outro sobre o vício dos opiáceos que estava a invadir a cidade, pensei algo do género: Não me digam? Não vos escapa nada, meninos.

Contudo, quando a infraestrutura de saúde mental se obcecou com os zombies, tive de me queixar.

Ninguém se importou com a minha queixa.

Com todas estas pessoas viciadas nos viciados, onde é que os assassinos humildes da cidade podem ir procurar ajuda psicológica, questiono-me. Vimo-nos reduzidos a queixar-nos sobre o assunto nas nossas reuniões semanais. Não é que haja grupos de apoio a assassinos em Vancouver. Não quero que fiquem com uma ideia errada. As válvulas de escape alternativas para os homicidas da cidade têm muitas carências. Os terapeutas privados custam um olho da cara, para o dizer de alguma forma, e também não conseguimos encontrar grupos de discussão sobre o assunto na comunidade. O mais próximo que encontrei foi um para pessoas com transtornos alimentares, mas não acho que as pessoas que tenham feito coisas horríveis com o seu apetite consigam entender que matei uma pessoa ou duas no ano passado. Em defesa própria, mas mesmo assim.

Durante a minha vez, conformo-me com contar aos meus companheiros malucos que me sinto como se estivesse eclipsada pelos meus demónios e eles assentem como se me entendessem. Somos desconhecidos que conhecem os segredos mais profundos uns dos outros, unidos no círculo sagrado de uma sala de reuniões com manchas de urina na zona leste do centro de Vancouver. Levantam os seus braços anémicos para aplaudir com educação e, depois, saímos do círculo. Voltamos a ser desconhecidos, por sorte.

A sensação de que alguém me observa segue-me desde esse bairro pobre a leste de Vancouver que frequento até à casa elegante de Kitsilano em que, agora, ocupo espaço. Conduzo com as janelas fechadas porque o ar cheira a fumo dos incêndios florestais da costa norte de Vancouver, fumo que chegou até aqui em rajadas pestilentas e se instalou sobre a cidade. Não ajuda que estejamos a viver um desses outubros que não se lembra de que, em teoria, tem de existir uma temporada outonal e que esteja um calor quase insuportável para esta época do ano.

Enquanto conduzo, obceco-me com mais outra morte. Uma que ainda não teve lugar. Mas terá.

Em breve.

2

Quando chego a casa, Sebastian Crow, o meu antigo chefe e novo companheiro de apartamento, está a dormir no sofá.

Estico uma mão para tocar nele, mas afasto-a antes que os meus dedos lhe toquem na têmpora. Não quero acordá-lo. Quero que durma assim para sempre. Em paz. Tranquilo. Num lugar onde a palavra que começa por «C» não consegue apanhá-lo. Todos os dias parece encolher-se um pouco mais e o seu espírito cresce mais para compensar a diminuição do espaço físico que ocupa. Está doente e não há nada que eu possa fazer porque é terminal. A minha cadela Whisper e eu mudámo-nos para lhe fazer companhia e para nos certificarmos de que não cai pelas escadas, mas, para além disso, não há esperança. Há um incêndio enorme em que ele parece arder também. O seu corpo virou-se contra ele, mas a sua mente recusa-se a render-se.

Até acabar o livro.

Quando me pediu para o ajudar a organizá-lo e revê-lo, não pude dizer que não. Não é possível dizer que não a Sebastian Crow, o jornalista que está a escrever as suas memórias à medida que se aproxima do fim da sua vida. Escreve-as como cartas de amor à falecida mãe e como desculpa ao seu filho, de quem se afastou. Também como uma explicação para o amante que abandonou. O que li do livro é lindo, mas significa que está a passar os seus últimos dias a viver no passado. Porque não há futuro, para ele, não.

A Whisper empurra-me a mão com o focinho. Está inquieta. Nervosa. Ela também o sente.

Ponho-lhe a trela, porque não confio nela com este humor, e dirigimo-nos para o parque da frente. Há lá um homem que tenta sempre acariciá-la, portanto, mantemo-nos afastadas dele num espírito de generosidade para as suas mãos. No outro extremo do parque, há um caminho que percorre a costa. Mesmo aqui, ainda vemos o fumo de uns incêndios invisíveis. Nem sequer a brisa marinha consegue dissipá-lo. Andamos, ambas as inquietas, até darmos a volta ao parque. Sento-me num banco com a Whisper bem perto.

O homem que me observava passa à minha frente.

— Está uma noite bonita para espiar os outros — comento. — Não te parece?

O homem para. Olha para mim. Abre a boca, talvez para dizer uma mentira, mas volta a fechá-la. Estou de costas para o candeeiro que ilumina insuficientemente esta parte do parque. A Whisper e eu somos apenas duas sombras escuras para ele, mas ele aparece iluminado por completo. Tem o casaco aberto e, no colarinho, tem uma franja de pele com manchas que vai desde o queixo até à clavícula. Parece que tentou fazer crescer pele nova nessa zona, mas parou a meio caminho, deixando uma marca inacabada. É um homem idoso, mas custa-me a calcular a idade. Seja qual for, usou os seus anos para aprender a vestir-se bem. Casaco elegante. Bons sapatos. Não condiz. Um homem que cuida da sua aparência e passa as noites sentado num parque a seguir mulheres enquanto passeiam os seus cães.

Esperamos num silêncio incómodo, os três. A Whisper boceja e passa a língua pelos caninos afiados para acelerar as coisas. O homem interpreta-o como a ameaça que, sem dúvida, é.

— A tua irmã disse-me onde podia encontrar-te — admite, finalmente.

Se acha que isso vai tranquilizar-me, engana-se muito. Lorelei não fala comigo desde o ano passado, desde que roubei o carro do marido dela, o tirei da estrada e o despenhei por uma ravina.

Mas decido fazer o que ele quer.

— O que queres?

— Não sei — responde, com um sorriso triste. — Suponho que recordar os velhos tempos nos meus últimos anos.

— E o que é que isso tem a ver comigo?

— Conheci o teu pai. — Ainda bem que tem uma voz suave, porque, pronunciada num decibel mais alto, aquela frase poderia ter feito com que caísse de rabo no chão, se não estivesse já sentada. — Posso sentar-me? — Aponta para o banco. Há algo estranho no seu tom de voz. A sua dicção está demasiado calma para alguém a enfrentar um animal imprevisível. Questiono-me se a cicatriz do pescoço terá alguma coisa a ver com a sua atitude despreocupada. Se será um desses homens tão habituados ao perigo que já não têm medo.

— Não. Conhecias o meu pai de onde?

Faz uma pausa e observa as presas da Whisper.

— Do Líbano. Sabes que servimos com os marines lá, não é?

Ignoro-o porque não sabia, mas, certamente, não lhe diz respeito.

— Isso não explica porque me segues.

Passa uma mão pela cara e para as pontas dos dedos na cicatriz. Observa que olho para lá.

— Do Líbano. Uma explosão. — Pondera cuidadosamente as palavras seguintes antes de falar. — Disse que viria ver-te se acontecesse alguma coisa.

Rio-me.

— Chegas várias décadas atrasado.

— Não sou um bom amigo. Olha, agora, estou reformado e tinha de viajar para o Canadá. Pensei em passar por cá para te ver. Já vim ver a tua irmã e a ti quando morreu, há muitos anos, mas, então, estavam com a vossa tia e tudo parecia em ordem. Há alguns dias, consegui localizar a tua irmã. Não parecia muito contente contigo…

— Não tem de estar. — Lorelei e eu não nos tínhamos despedido de forma amistosa. No entanto, mantivera o seu apelido de solteira quando se casara e tinha muita presença online. Não seria difícil de encontrar se alguém se incomodasse em procurá-la.

— Disse-lhe que éramos velhos amigos. Demorei a convencê-la, mas disse-me que conseguiria encontrar-te através do Sebastian Crow. E aqui estou.

— Mas porquê?

Fica nervoso, tira um cigarro do casaco e acende-o. Mantém o olhar fixo na chama do isqueiro.

— Alguma vez fizeste uma promessa que não cumpriste? Fiz muitas coisas más na vida, mas o que aconteceu ao teu pai, no fim… Nunca pensei que o que lhe aconteceu estava bem. Sabia que tinha sofrido depois do problema no Líbano, mas meu Deus. Que pena!

Olha para a minha mão e vê que tenho os dedos agarrados à trela da Whisper com tanta força que as unhas se cravam na palma, deixando marcas em forma de meia-lua.

— Não sei o que estou a fazer aqui — admite. Ainda não levou o cigarro à boca e não parece ter intenção de o fumar.

No ano passado, quase morri afogada. Não me lembro muito daquilo, só que devo ter desmaiado em algum momento. Qualquer mergulhador sabe que, na última etapa da narcose de nitrogénio, a hipoxia chega ao cérebro. Pode causar uma incapacidade neurológica. Com frequência, o julgamento e o raciocínio são afetados, pelo menos, naquele momento. Mas também pode ser agradável, a falta de oxigénio. Quente. Até segura.

Pode fazer com que alucinemos.

Interrogo-me se estarei a experimentar um efeito colateral a longo prazo causado por ter estado prestes a afogar-me. Porque antes percebia quando as pessoas mentiam, quase com certeza. Contudo, agora, não tenho a certeza. Depois dos acontecimentos do ano passado, quando a minha filha desapareceu, a rapariga que tinha dado para adoção sem pensar duas vezes, vejo as pessoas de um modo diferente. Talvez seja o meu instinto maternal preguiçoso, que me tolda os sentidos. Ou talvez tenha perdido a minha magia. Porque, ao dizer-me que não sabe o que faz aqui, acredito. Acho que fazemos coisas que não têm sentido. Nem sequer para nós próprios.

Também é possível que esteja a ser vítima das minhas próprias alucinações.

Estou tão confusa que não digo nada em resposta. O veterano de guerra parece tão inquieto como eu. Fico a olhar fixamente para ele até se afastar, para o oceano, e desaparecer na noite densa. Então, esfrego as mãos para recuperar o toque. Tenho os pensamentos emaranhados, mas um deles solta-se do matagal.

Não é apenas a surpresa de alguém vir procurar-me depois de tantos anos. Nem sequer é o facto de sentir a necessidade de me seguir na escuridão para se certificar de que estou bem. É mais do que isso e tem a ver com as coisas que não sabia sobre o meu pai. Que houve problemas no Líbano. Com o meu pai.

O meu pai teve problemas no Líbano e, alguns anos depois, rebentou os miolos.

3

Ao longe, no espaço sideral, uma estrela chamada KIC 8462852 brilha por alguma razão desconhecida, enquanto na Terra, um ex-polícia, ex-agente de segurança, ex-marido e ex-jogador de bowling amador faz um ar de nojo ao pegar num copo de sumo de espinafre, com a esperança de que os seus órgãos internos prestem atenção ao esforço que está a fazer por eles.

Esta estrela em particular confundiu cientistas de todo o mundo com o seu brilho constante, enquanto Jon Brazuca se confunde a si próprio com a sua nova determinação de ser mais amável com o seu corpo. Herdou a baixa autoestima da mãe fraca e do pai de queixo afundado, que se desculpou durante toda a sua vida e até nos seus anos de reforma.

Mas Brazuca superou-o. Esse círculo humilhante de «lamento» e «peço desculpa» acabaria com ele.

Virou a página e misturou-a com um smoothie.

O sol do fim da tarde já está muito perto do horizonte e ele está cheio de clorofila e alegria. Brazuca sempre esteve mais desperto de noite, mais vivo e, agora, recorreu à astronomia para preencher os vazios. Não é um homem de ciência, mas desejaria ser. Uma vez, a mãe levou-o a Espanha quando era criança, às falésias de Famara e, juntos, observaram as estrelas refletidas nas poças de água da praia.

Ao pensar nisso, deseja uma época mais simples, quando as mulheres que satisfazia com tanta generosidade não o drogavam e o prendiam a uma cama, abandonando-o depois para ser descoberto pelas empregadas do hotel. E foi algo que realmente aconteceu há mais ou menos um ano. Nora Watts, a mulher com quem fora às reuniões dos Alcoólicos Anónimos, a mulher que perdera uma filha que nem sequer queria, a mulher que se sentia obrigado a ajudar sem nenhuma razão que tivesse sentido para ele… Abandonara-o, bêbado e drogado. Dera-lhe um coquetel de álcool e sedativos que o deixara a dormir e dera a pequena sacudidela ao seu corpo que desejava há tanto tempo.

E demorou meses a voltar a perder o vício.

Brazuca está no terraço do seu apartamento no leste de Vancouver e olha para o céu, em direção à estrela brilhante sobre a qual leu numa revista. Por um instante, sente uma certa afinidade com o universo. Acaba o sumo e arrota, satisfeito.

O seu amigo Bernard Lam pediu-lhe para o visitar e, pela primeira vez na sua vida, tem vontade de se dar com um multimilionário.

— Brazuca — diz Lam, à porta da sua mansão imponente em Point Grey. Se há uma crise imobiliária em Vancouver, pode ser porque grande parte do espaço está ocupado apenas por esta única propriedade. Tem uma ala este e uma ala oeste e cerca de vinte divisões pelo meio. Há campos de jogos exteriores para qualquer desporto e um campo de minigolfe. Se se cansar da piscina de água salgada, há outra de água doce do outro lado da propriedade.

Bernard Lam, o playboy filho de um empresário rico e filantropo, faz-lhe um gesto e Brazuca segue-o para o interior da moradia. O seu encanto famoso não está à vista. A sua atitude é áspera e taciturna enquanto o leva por um corredor comprido cheio de fotografias de família emolduradas na parede e fotografias mais recentes de Lam e da esposa, até chegar a um escritório.

— O que se passa? — pergunta Brazuca, assim que a porta se fecha atrás dele.

— Um instante. — Lam aproxima-se do seu portátil, situado na secretária. Junto dele, há uma garrafa de uísque escocês, mas não há fotografias. É uma zona livre de família. Vira o ecrã para ele.

— É linda — comenta, ao ver a mulher que aparece no computador de Lam. Na fotografia, usa um vestido de verão e está num iate, a rir-se para a máquina fotográfica. É alta e voluptuosa, com um cabelo escuro e lustroso e uns olhos brilhantes.

— Chamava-se Clementine. Era o amor da minha vida.

Não há sumo de espinafre que possa travar a dor de cabeça que Brazuca começa a sentir nas têmporas quando Lam usa o tempo passado. A mulher da fotografia não é a mulher que aparece nas paredes da sua casa. Portanto, o amor da sua vida não era a nova esposa.

— Quando?

— Encontraram-na na semana passada no seu apartamento. Dizem que foi uma overdose. Está… Estava grávida de quatro meses.

— Era teu? — pergunta Brazuca, tendo cuidado para manter um tom neutro.

Lam arqueia uma sobrancelha, como se não pudesse existir outra possibilidade.

Brazuca decide não insistir.

— O que precisas?

— Continuas a trabalhar para essa agência pequena de detetives privados? Dão-te dias de folga?

— Aceito contratos conforme precisam. São flexíveis. — Os seus novos chefes não são seletivos com o trabalho que escolhe, desde que trabalhe. Até o tinham convidado a tornar-se sócio de forma mais oficial, mas dissera que não a isso. Não quer algo oficial.

— Muito bem — diz Lam. — Muito bem. Quero que descubras quem é o traficante dela.

— Bernard…

— É claro, serás recompensado generosamente.

— Não é por causa do dinheiro.

— Então, fá-lo por um amigo. Fá-lo por mim. A minha rapariga e o meu filho morreram. Quero saber quem é o responsável.

Brazuca questiona-se se Lam sabe que, ao usar a palavra «rapariga», os desenhou com a mesma inocência idealizada.

— Não vais gostar do que vai sair daqui — avisa, com calma. — Não vai dar-te tranquilidade. — A morte por overdose é algo desagradável que tem de ser enfrentado. Não é fácil culpar alguém.

— Quem diz que quero tranquilidade? — Lam serve um golinho de uísque no copo e bebe. — Vou dar-te os papéis e os seus contactos. Não encontraram nada no telemóvel dela. A droga que tomou… — Desvia o olhar e ordena os pensamentos. — Era cocaína misturada com um opiáceo sintético novo que circula pelas ruas. Um derivado do fentanil mais potente do que se viu até agora e, de facto, mais forte do que o fentanil. Chama-se YLD Ten.

— Wild Ten? Ouvi falar dela. Não muito. Mas sei que se mexe por aí. — Era esse nome estúpido que chamava a sua atenção. Era fácil de recordar quando se faz um pedido ao traficante simpático do bairro.

— Então, deves saber como é perigosa. Tinha apenas vinte e cinco anos. Tinha toda a vida pela frente, Jon, e era uma vida comigo. Tenho de saber. Por favor.

— Está bem — acede Brazuca, passado um minuto. Porque não é o tipo de homem que consegue ignorar um grito de socorro. Não virou a página como gostaria de pensar. — Vou dar-lhe uma olhadela. Tens a chave do apartamento dela?

— É claro — confirma Lam. — O apartamento é uma propriedade minha.

— Claro — murmura Brazuca. — Vou tratar disso imediatamente. — Não é preciso dizer «senhor» porque está implícito. Bernard Lam, que lhe salvou a vida há vários anos, é alheio a essa indireta.

4

Estou outra vez aqui, em casa da minha casa irmã, a leste de Vancouver. É sábado e só se sabe que é de tarde graças ao relógio. A neblina não é tão densa como ontem, mas continua presente. Ainda esconde a luz do dia e gera imagens aterradoras de pulmões de fumador para os loucos da vida saudável, que não param de fazer passeios ou de andar de bicicleta nestas condições, mas que se queixam sem parar enquanto o fazem. Ouvi dizer que há outro incêndio florestal em Sunshine Coast e o vento está a arrastar o fumo para cá.

Vancouver não está a arder, mas, certamente, parece.

Esperei que o carro de Lorelei se afastasse para me aproximar do portão estreito que leva ao jardim. O marido, David, está sentado no alpendre pequeno, a observar o seu jardim patético. Há algumas especiarias que tentam ganhar força, mas não conseguem competir com a menta, que cresce como as ervas daninhas, mesmo nesta atmosfera pós-apocalíptica. Parece que quer manter-se positivo, mas não consegue. Sinto pena dos homens como David, os homens decentes e trabalhadores do mundo. Por muito que tentem, as coisas mais simples parecem incomodá-los. Nem sequer consegue colher algo comestível da terra.

Está a beber uma cerveja light e não se incomodada em levantar-se quando dobro a esquina. Da última vez que nos vimos, atirou-me algum dinheiro e pediu-me para me manter afastada de Lorelei. Não parece surpreendido ao ver que infringi o nosso acordo. Depois, vê a Whisper e um sorriso de satisfação aparece-lhe na cara. Parte do motivo por que a trouxe comigo foi porque os amantes dos cães são fáceis de manipular. Ela entende o seu papel suficientemente bem para se aproximar a correr e cumprimentar o sexo dele com o focinho. Zás. Alegro-me por te ver.

— Quem é esta menina tão boa? — pergunta, sorrindo enquanto a acaricia atrás das orelhas. — Quem é?

E, então, olha para mim. O sorriso desaparece. Tento não me sentir ofendida. De todos os modos, as meninas boas estão sobrevalorizadas.

— A caixa amarela — digo. Não há razão para andar com indiretas.

Pensa por um instante e, depois, toma uma decisão.

— Lá em cima, no armário do quarto de hóspedes. Prateleira de cima.

Passo junto dele e entro na casa. As minhas visitas à casa da minha irmã costumam ser clandestinas, de modo que, ao princípio, não sei bem como proceder. Devia mexer-me de um modo diferente agora que tenho permissão?

A casa de Lorelei é como a personalidade dela. Sóbria, ordenada e um pouco insossa. Aqui, não há lugar para surpresas. A caixa está onde me disse que estaria. Quando volto a sair com a caixa de sapatos amarela por baixo do braço, descubro que as coisas progrediram com a Whisper. Está ocupada a desfrutar das carícias de um homem. Está deitada de barriga para cima, oferecendo a barriga para que a esfregue. A ninfomaníaca.

— Obrigada — agradeço a David, quando volta a olhar para mim.

Assente.

— Vais dizer-lhe que vim?

— Não, a não ser que se aperceba da falta da caixa. Mas há anos que não a abre, portanto, não me preocuparia.

Eu também assinto e ambos fazemos um gesto com o pescoço para tentar superar o momento incómodo que vivemos. Agora, existe um acordo entre nós. Um segredo. O marido da minha irmã e eu combinámos que Lorelei não deve saber que estive aqui e que levei uma coisa dela. Não vou dizer-lhe porque já não me fala. O silêncio de David sobre o assunto deve-se a uma culpa mal entendida sobre a nossa relação tensa. Embora não tenha nada a ver com ele. Porém, David é um bom homem e não me negaria o que resta do meu pai, tudo guardado convenientemente numa caixa que, antes, continha uns sapatos de salto de Lorelei, tamanho trinta e oito.

Fecho ligeiramente as pernas. A pressão aumenta mais devagar do que gostaria. Mais devagar do que estou habituada. E, então, acaba, muitos segundos depois do que costumava demorar. Não sinto vergonha, o que suponho que seja um avanço, mas, claro, também não sinto grande coisa.

Continuo com a impressão de que me observam, mas o ângulo está errado.

Quando afasto os joelhos das marcas que deixaram junto da cabeça do desconhecido, interrogo-me se a viagem até aqui terá valido a pena. Não encontro uma resposta, não enquanto visto as calças de ganga, nem sequer quando lhe desato as mãos dos postes da cama e me dirijo para a porta. Como o clichê em que me transformei, o dinheiro está num envelope em cima da cómoda.

Encontro a resposta quando já estou a meio do estacionamento do hotel.

«Sentar-me-ei na tua cara», diz o anúncio que publiquei online. «E terás as mãos atadas. Quando acabar, vou-me embora. Sem compromisso. Sem tolices. Sem jogos. Os meus dentes são mais afiados do que os teus.»

Depois, ponho uma quantia razoável que estou disposta a pagar.

Em geral, é um anúncio insultante. Cheguei a odiar-me mais do que os solitários estúpidos que respondem, mas ainda não me cansei. Chego ao orgasmo e, depois, vou-me embora e, ao princípio, funcionava bem.

O meu velho Corolla demora um minuto a habituar-se à ideia de que espero algo dele e, enquanto isso, fico com essa resposta inquietante. Já não é suficiente. Tanto faz o número de desconhecidos cujas caras tento apagar com as minhas coxas.

Uma hora mais tarde, estaciono junto do restaurante de Burnaby Mountain e dirijo-me para um ponto situado no meio do jardim. O ar está mais limpo aqui em cima. Além disso, a vista das esculturas japonesas de madeira que tenho por baixo e da cidade de Vancouver a oeste é insuperável. Estou aqui porque o meu amigo jornalista Mike Starling gostava de vir aqui para pensar ou, pelo menos, era o que se dizia no seu obituário no ano passado, depois de ser encontrado morto na sua banheira com as veias cortadas. Para mim, Starling não era dos que se sentam nas montanhas e pensam na vida, mas, na verdade, a minha memória não é a melhor. O que mais me lembro dele é do seu desdém pelos bebedores de café com nomes pomposos e o aspeto que tinha ali morto, numa banheira cheia de água ensanguentada.

Os meus amigos do grupo de apoio garantem-me que não tenho razões para me sentir culpada porque não fui eu que o matei, mas o que saberão? Também não é como se a sua opinião fosse muito sensata. E o que não sabem (porque não lhes disse) é que fui a razão por que morreu. Morreu porque umas pessoas perigosas foram procurar-me e ele escolheu proteger-me. Talvez até estivesse aqui sentado enquanto chegava à conclusão de que valia a pena lutar pela minha vida, quando decidiu que investigaria quem me tinha posto um alvo nas costas.

Bebo o café que trouxe comigo — com um nome pomposo — e verto um pouco no chão junto de mim, para ele. Para que saiba que a mulher por quem sacrificou a vida ainda tem um pouco de sentido de humor. Talvez gostasse de vir até aqui e talvez ainda reste uma parte dele neste lugar, porque me parece que Mike Starling nunca conseguiria virar as costas a um mistério.

Na verdade, eu também não consigo.

5

É tarde. O conteúdo da caixa está espalhado na mesinha baixa à minha frente e estou deitada no chão, a observá-lo à altura dos olhos. Não há grande coisa. Uma carta de amor. Uma fita de seda azul amarrotada. Cinco postais de uma morada em Detroit. Algumas fotografias desgastadas. Numa, aparece uma mulher na cama, com um bebé ao colo. A mulher tem a cabeça cortada, talvez deliberadamente, e embala, nos seus braços bronzeados, um bebé enrugado. A data que aparece no dorso indica-me que esse bebé a dormir sou eu.

Deixo-a de lado.

As outras duas são do meu pai, com Lorelei e comigo. Essas fotografias não têm data, mas os três mudámos drasticamente de uma fotografia para a seguinte. Lorelei e eu crescemos com a velocidade a que as crianças crescem, mas o aspeto do meu pai deu uma reviravolta dramática. Em ambas, tem o cabelo preto e liso e os olhos escuros. Foram as rugas da cara que mudaram. Na primeira, parece um pai satisfeito, mas cansado. Na segunda, parece um homem atormentado com um pé na sepultura. Criar filhos não está ao alcance de qualquer um.

— O que estás a fazer? — pergunta Seb, da porta. O meu próprio fantasma vivo decidiu fazer o seu aparecimento silencioso, com um rosto gasto e pálido.

— Tens fome? — Aponto para a caixa de pad thai que comprei no seu restaurante favorito, ao virar da esquina. Compro um pouco a cada dois dias, para o caso de estar com vontade de comer uma dose elevada de sódio e hidratos de carbono. Acabo sempre por a comer na manhã seguinte porque nunca está de humor para isso. Embora me garanta que come, raramente o vejo a fazê-lo. Eu, por outro lado, ganhei cinco quilos desde que me mudei. Se há uma coisa que não consigo suportar é desperdiçar a comida. Porque, então, tenho de descobrir como conseguir mais.

Abana a cabeça e aproxima-se das fotografias.

— Quem são esses? — pergunta, olhando por cima do meu ombro.

— O meu pai e a minha irmã.

— E tu. Bonita. — Quando sorri, a sala ilumina-se e quase me esqueço de que está prestes a morrer. — De onde vem este ataque de nostalgia?

Já não escondemos segredos um ao outro. Não há tempo para isso. Falo-lhe do homem da outra noite, que disse que conhecia o meu pai.

— Que estranho — murmura e deixa-se cair na poltrona rígida que há junto da mesinha. Uma das poucas peças de mobiliário que o seu amante Leo, o meu antigo chefe, deixou para trás no seu ataque de raiva despeitada. — Depois de todo este tempo. Porque haveria de se incomodar?

Encolho os ombros.

— É que… — Deslizo o olhar pelo teto, pelo chão, pela Whisper, por qualquer lugar menos pelas fotografias.

— O que foi?

— Nunca soubemos grande coisa da sua vida. Quando a minha tia adoeceu, puseram-nos em lares de acolhimento e levei estas coisas comigo no seu momento. Quando ela morreu, doou quase tudo o que tinha à beneficência e tudo o resto desapareceu. Não resta nenhum outro dado da vida do meu pai. — Nem dos nossos primeiros anos. Mas não digo isso, porque está implícito.

— É isso que te inquieta? Que só tenhas esta caixa? — A sua voz parece tão leve, tão suave, que flutua sobre a tensão que se acumulou no meu interior. — Porque descreveste o teu pai como um sobrevivente das recolocações dos anos sessenta. Muitas crianças com herança indígena que foram afastadas das suas famílias e entregues para adoção sabiam menos dos seus pais. Tinham muito menos do que tu tens nessa caixa.

E algumas tinham mais e, outras, tinham mais ou menos o mesmo. Anos depois de o governo canadense pôr em prática o sistema escolar residencial, também aplicou uma política de adoção forçada que não tencionava ajudar a melhorar a situação. Fora das reservas, fora dos centros urbanos, aquela integração imposta aconteceu em comunidades onde causou danos. Se se pensar bem, essa estratégia é sempre a que mais se usa quando se tenta apagar as pessoas. No Canadá, como se fosse outro lugar do mundo colonial, começaram com as crianças.

Sei que, provavelmente, Seb tem razão ao dizer que devia sentir-me agradecida pelo que tenho, mas, agora, não acho que pudesse saber menos do que sei.

— O que me inquieta é que não consigo confirmar nada do que me disse. Não é que careça de informação, mas a que tenho está incompleta.

Pega nos postais.

— E estes? De quem são? — Não há assinaturas em nenhum deles. Só o nome do meu pai, rabiscado com uma letra retorcida.

— Cresceu em Detroit. É onde vivia a família que o adotou. Mas, quando era criança, nunca me falou deles. Nunca nos vimos. Soube deles através da minha tia, mas ela também não sabia grande coisa.

Seb fica a olhar para o vazio com o olhar desfocado. Com um ataque súbito de energia, levanta-se da poltrona e agarra-me as mãos. Quando fala, a sua voz parece grave e urgente.

— Às vezes, estas coisas acontecem por uma razão, Nora. Não percebes? Este homem entra na tua vida e obriga-te a pensar no que sabias sobre o teu pai. E, como tu própria disseste, não é grande coisa. Agarraste-te às lembranças que tinhas dele quando eras criança, mas talvez tenha chegado o momento de saber quem era realmente sem as vendas da infância.

Mas está morto, sinto vontade de dizer.

Quero dizer-lhe para se meter nos seus próprios assuntos e para me manter afastada da sua obsessão com o passado, mas não o faço. Talvez seja porque, normalmente, não falo do meu pai em voz alta. Construí um búnquer no meu coração em torno da sua lembrança. Com paredes de betão. Construído para suportar um ataque nuclear. O chamativo neste búnquer não é o que há lá dentro, mas o que falta. Não há respostas, só perguntas. Foi por isso que escolhi mantê-lo enterrado nas profundidades durante tanto tempo. Porque abri-lo só me demonstra tudo o que não sei.

— Vai a Detroit — continua Seb. — Encontra quem enviou estes postais. Fosse qual fosse o problema, a pessoa que abrir a porta nessa morada poderia saber alguma coisa. Se não fores, ficarás sempre com a dúvida. Vai atormentar-te.

Agora, percebo o que está a fazer. Está a tentar impedir que cometa os mesmos erros que ele cometeu. Devia calar-me, mas não o faço. Não tenho nenhum controlo sobre o que digo depois.

— Tal como o Leo ficará com a dúvida para sempre — digo. — Quando morreres. Vai questionar-se porque não lhe disseste. E talvez pense que devia ter sabido que estavas doente. — Leo, o seu amante, que ficara devastado quando o deixei para trabalhar com Seb. Leo acha que é uma traição profissional, mas não é. É uma traição pessoal. Sou das poucas pessoas que está a par da doença de Seb e acedi a escondê-lo ao resto do seu ambiente.

Seb solta-me as mãos como se se tivesse queimado e abandona a divisão sem dizer uma palavra. A Whisper levanta-se com elegância do seu lugar junto da janela e corre atrás dele. Tal como Seb, recusa-se a olhar para mim, para me recordar que não mereço nenhum dos dois.

Quando ouço que se fecha a porta do seu quarto, apago as luzes da sala, aproximo-me das cortinas e fico a olhar para o parque da frente durante um bom bocado. O facto de não ver o veterano de guerra não significa que não esteja lá.

Ligo a David que, até agora, não sabia que tinha o seu número. É bom ter alguém que atende sempre o telefone quando lhe ligam. Embora não reconheça o meu número no ecrã do telemóvel, é demasiado educado para deixar que vá para o correio de voz.

— Sim? — Atende ao quarto toque. A sua voz é sonolenta.

— É a Nora. A Lorelei alguma vez foi a essa morada? A que figura nos postais.

Há uma pausa e ouço o barulho dos lençóis enquanto se levanta da cama. Abre-se uma porta e, depois, fecha-se.

— Não — responde, num sussurro quase inaudível. — Escreveu algumas cartas na universidade, mas nunca obteve resposta. Não tinha dinheiro suficiente para ir descobrir sozinha… e, depois, deixou-o passar. Estás a pensar em ir?

— Não sei — digo, depois de uns segundos. — Obrigada. — Desligo o telefone. É sempre bom deixar as pessoas um pouco confusas. Que deem voltas à cabeça, para que atendam o telefone da próxima vez que ligar.

Quando Seb me perguntou o que me inquietava, esquivei-me do assunto. Mas é tão simples como isto: Quando uma bala bate num crânio, o sangue e a massa cerebral são expulsas com força. Rasga os ossos cranianos, os tecidos conectivos e as membranas. Dependendo da proximidade do canhão, há a possibilidade de queimar a camada externa da pele com o fumo e a pólvora. O resultado de uma bala no cérebro é a morte, a não ser que tenha imensa sorte. O meu pai não teve.

No entanto, o que me importa agora é porque apertou o gatilho. Não paro de pensar na razão por que duas meninas pequenas foram abandonadas à mercê do sistema. Quando o resultado é foder a vida de alguém por completo, a motivação é importante. E talvez Seb tenha razão. Talvez encontre a resposta em Detroit.

6

Há vários meses, quando Seb, Leo Krushnik e eu ainda trabalhávamos juntos em Hastings Street, Leo deixou cair na minha mesa um pedido de passaporte com o argumento de que as viagens internacionais poderiam melhorar a minha vida sexual. «Não estás morta da cintura para baixo, sabes?», comentou. «E é difícil ter sexo nesta cidade.» Então, lançou um olhar nostálgico a Seb.

Essa foi a primeira vez que observei o distanciamento entre eles.

Agora, dirijo-me para o escritório antes do amanhecer, muito antes de Leo pensar em aparecer. O seu novo sócio, pelo contrário, é antissocial e tem horários estranhos. Uso a minha antiga chave para entrar e estranho que Leo não se tenha incomodado em mudar a fechadura. Há muito tempo que não passava por aqui, mas a mudança é surpreendente. Mudou a decoração toda do local. Qualquer lembrança da presença de Seb foi eliminada sem piedade. O seu diploma de confeitaria não está pendurado em nenhuma parede e também não está na casa, o que faz com que me questione se Leo terá feito algo drástico com a única prova tangível de que Seb sabe o que fazer com a manteiga e a farinha.

Embora o escritório seja no centro da zona leste da cidade, bastante suja, o interior é bastante chique agora. Mais do que gritá-lo aos quatro ventos, a nova decoração anuncia discretamente que aqui se levam a cabo investigações por uma módica quantia. Quando Seb me deu a oportunidade de ir com ele, não hesitei, mas, pela primeira vez, sinto nostalgia. A minha secretária velha continua na zona da receção, mas está quase eclipsada por um vaso enorme cheio de flores.

Stevie Warsame, o novo sócio de Leo, mudou a sua mochila boa para o escritório de Seb e instalou um posto complexo de computadores num canto. No outro canto, há uma segunda secretária que me incomoda. Embora não tenha vindo por isso, não consigo evitar revistá-la. Só encontro alguns carregadores de telemóvel, equipamento de vigilância e uma tabela que compara o valor nutricional de diversos legumes quando se bebem em sumo. Leo substituiu-me por um vaso e deu uma secretária no escritório de Seb a um maluco dos sumos?

— Encontraste o que procuravas? — pergunta uma voz familiar atrás de mim.

Brazuca, o meu antigo padrinho dos Alcoólicos Anónimos, está apoiado na ombreira da porta, a olhar para mim com desconfiança. Não o vejo desde o ano passado, quando me disse que me perdoava por o ter drogado e abandonado num hotel na montanha. Quando descobri que me tinha mentido sobre o seu trabalho e fui demasiado estúpida para me aperceber.

Agora, aqui estamos outra vez, ambos com um certo mau aspeto, ele um pouco menos; possivelmente devido à introdução dos legumes frescos na sua dieta. Tem melhor cor nas faces e os olhos parecem brilhar mais. Por alguma razão, imagino-o a foder, mas é um pensamento desagradável. Nenhum dos dois tem carne. Estamos demasiado magros e colar os nossos ossos bicudos uns contra os outros é o menos sensual que consigo imaginar. Não conseguimos consolar-nos. Pelo menos, um ao outro. Se respondesse ao meu anúncio online, teria de apagar a mensagem dele. O instinto de sobrevivência é uma coisa curiosa.

— A melhorar a tua vida? — pergunto, enquanto levanto a tabela.

Sorri, ignorando a distância entre ambos, como se fosse uma questão de simples espaço físico. Contudo, à medida que os segundos passam e a distância se transforma num abismo, percebe que não há nada entre nós senão a desconfiança e um único orgasmo.

— Uma coisa dessas — concede. — O que estás a fazer aqui? Pensei que tinhas ido trabalhar com o Crow.

— O que estás a fazer aqui? Pensei que trabalhavas para a WIN Security. — A empresa de segurança que foi contratada para encontrar a minha filha, Bonnie, quando desapareceu. Contratada por uma família corrupta que os comprou. Fui alertada do seu desaparecimento pelos seus pais adotivos, o que desencadeou uma série de acontecimentos que fizeram com que quase morresse afogada.

— Precisava de uma mudança depois do ano passado. Não respondeste à minha pergunta. — Entra na sala. Ainda me dói muito o ombro do tiro do ano passado, mas, com a fisioterapia, consegui disfarçar o coxear causado por uma lesão no tornozelo que nunca chegou a sarar por completo. No entanto, Brazuca não teve tanta sorte com a sua perna entrevada, resultado de uma ferida de bala quando era polícia. Ou talvez as suas lesões não sejam apenas físicas. Atribuo-o à sua mentalidade de vítima.

— Estou à procura do Stevie.

— O Warsame está numa missão — informa Brazuca, o que explica o silêncio de Stevie. — Queres deixar uma mensagem?

Não preciso de Brazuca para isso. Se quisesse deixar uma mensagem a Stevie, fá-lo-ia sozinha. Mas o que tenho de dizer não pode comunicar-se por meios eletrónicos. Não criaram carateres de teclado capazes de o abranger.

— Vou estar fora durante algum tempo. Preciso de alguém que dê uma olhadela ao Seb.

Não me pergunta onde vou e eu não lhe ofereço mais informação.

— O que se passa? — pergunta, finalmente.

Falo-lhe do cancro e dos tratamentos falhados.

— O Leo não sabe — acrescento, quando acabo. — Posso pagar-te para que o faças se o Stevie não puder.

— Porque é que todos acham que preciso de dinheiro de repente? — murmura, enquanto passa uma mão pelo cabelo.

Encolho os ombros. Talvez tenha alguma coisa a ver com a roupa dele, que está bastante desfasada e, na verdade, não é suficientemente justa para o homem moderno, mas não o menciono. O ego masculino é muito frágil.

— Com que frequência? — pergunta-me.

— A cada poucos dias. O passeador de cães que contratei passará por lá todos os dias.

— Não vais levar a Whisper contigo? — pergunta-me, com o sobrolho franzido. — Sabes? Tanto faz. Não preciso de saber.

Passo junto dele, com cuidado para evitar que os nossos corpos toquem um no outro por acidente. Da última vez que tocámos um no outro, tinha-me sentado em cima dele e tinha-lhe deitado álcool pela garganta, sabendo perfeitamente que é alcoólico. Nunca lhe pedi perdão por isso. Nem o farei. Antes dos acontecimentos do ano passado, era capaz de distinguir as mentiras, com todos, menos com Brazuca. As suas mentiras foram as que mais me magoaram porque não as vi vir. Talvez não quisesse fazê-lo. Não voltarei a cometer esse erro.

— O Krushnik não vai gostar disto — comenta, quando chego à porta.

— Podes dizer-lhe, se quiseres.

Mas ambos sabemos que não o fará. Esse não é o nosso segredo. Leo acabará por descobrir e teremos de o enfrentar quando chegar o momento. Por enquanto, acedemos a manter o silêncio. Outro acordo ilícito, outro homem. Ultimamente, parece que os acumulo.

Penso em perguntar uma coisa, porque sei que é muito observador.

— Viste alguém a vigiar o edifício quando entraste? Alguém que te tenha causado desconfiança.

— Estamos na parte leste da cidade. Todos me causam desconfiança — declara, olhando para mim como olharia para um louco. E a zona leste de Vancouver é a zona de reunião para os loucos. Para mim também. Os desamparados, os viciados, as pessoas com demónios. Todos nos refugiamos aqui porque, com frequência, é o único lugar que nos aceita.

Assinto com a cabeça. Os seus poderes de observação não dão para tanto.

Enquanto regresso ao carro, vejo um grupo de pessoas em torno de um corpo estendido na rua. Não consigo evitar fixar-me nas suas caras para ver se o veterano está entre elas. Não está, portanto, viro-me para o espetáculo. Há um homem de cócoras junto de uma mulher, a falar em voz baixa. A mulher está inconsciente. Tira uma agulha intramuscular de um kit que tem ao lado e extrai uma dose de líquido de um frasco. Então, crava-lha na coxa. Alguém dá um grito entre a multidão. Será alguém que não é daqui, porque isto é o dia a dia desta zona. Não espero para ver se a mulher do chão acorda com a injeção de naloxona. Já há cidadãos preocupados suficientes em redor e, além disso, já tenho muitos problemas.

Quando regresso à casa, Seb está no seu escritório com a cabeça apoiada na secretária e a Whisper aos seus pés, a olhar para mim com olhos acusadores. Por um instante, o coração para, mas, então, ouço Seb a ofegar. Não sou uma mulher grande, mas levantá-lo não é um esforço grande. É como um monte de ossos nos meus braços, presos apenas por tecidos conectivos frágeis e músculos fracos. Deixo-o com suavidade no sofá e ocupo o meu lugar na poltrona.

Leo levou tudo menos os livros. Se soubesse como Seb precisava deles, também os teria levado. Porém, não o fez, portanto, continuam aqui e, quando Seb se sente bem, enumeramo-los enquanto revemos as suas memórias. Fala e escreve enquanto eu ouço e tomo as minhas próprias notas ou escrevo quando ele não tem forças. Só trabalhamos nesta sala e deixamos toda a nossa bagagem extra à porta. Todos precisam de um lugar sagrado e este pertence aos três. Protegidos pelos livros maltratados que significaram alguma coisa para ele ao longo da sua vida.

Eu não sou uma académica, mas os livros de Seb foram uma revelação para mim. Nada me comove como a poesia de Césaire, o escritor político das colónias francesas que falava da rejeição das pessoas a desafiar a sua visão do mundo. Era fácil separar as ideias, como assustar uma mosca.

Na semana passada, antes de chegar o fumo dos incêndios do norte, levei a Whisper às rochas que dão para o oceano. Tínhamos tempo para matar enquanto Seb estava no hospital. Ficámos lá durante um bom bocado, o suficiente para ver o ciclo da vida à nossa frente. Mesmo por cima da superfície da água, no fundo do meu campo de visão, duas aves de rapina rodeavam um ponto concreto da água. De vez em quando, uma das duas mergulhava. Chamavam-se uma à outra e, quanto mais tempo passava, mais fechados eram os círculos. Eu percebia o que viam. Que a criatura da água, um pato desorientado, talvez estivesse cada vez mais cansada. Os seus reflexos eram cada vez mais lentos. No fim, aconteceria o inevitável.

Recordou-me que o desastre se precipita e ataca quando uma criatura está mais fraca.

Sozinha, com duas bocas famintas para alimentar e com a certeza de que o amor de uma mulher é algo poderoso, mas não tão poderoso como o vazio que deixa quando se vai embora. Até aparecer esse veterano de guerra, cujo nome nem sequer me ocorreu perguntar, pensava que o meu pai simplesmente não tinha conseguido aguentar a pressão.

No entanto, agora, penso em Césaire e uma suspeita aloja-se na minha mente. Como bem disse, a ideia é como uma mosca incómoda. A zumbir-me no ouvido. Diz-me que há algo mais por trás da morte do meu pai do que me tinha permitido pensar. Altera a minha visão do mundo.

7

Brazuca vê-se imediatamente obrigado a reconsiderar os seus preconceitos pelas mulheres sustentadas quando entra no apartamento de Clementine. Não é o bordel que imaginara. Não tem nada de frívolo, para além do preço de viver num apartamento com vista para English Bay. Tem um ambiente acolhedor e caloroso e, embora os móveis não sejam baratos, também não são ostentosos. Alguém com muito bom gosto transformou este lugar num lar.

A luz suave da tarde penetra na sala, onde Brazuca encontra uma fotografia emoldurada de Lam a rodear Clementine com os braços. Estão a observar as águas de Deep Cove, a norte de Vancouver, onde se juntam Burrard Inlet e o fiorde de Indian Arm. Brazuca nunca viu Lam tão feliz como nessa fotografia, sorrindo contra o cabelo de Clementine.

Ouve um barulho no interior do apartamento. Afasta-se da fotografia, passa à frente da cozinha elegante e para à porta do quarto.

— Está aí alguém?

Uma jovem chinesa olha para ele, afasta uma madeixa de cabelo da testa e apanha-a num coque descuidado. Tem um fato de treino com o logótipo da Universidade de British Columbia e está sentada no chão rodeada de montes de roupa, sapatos e malas, com aspeto de estar totalmente perdida.

O que lhe chama a atenção é que não parece especialmente surpreendida por ver um desconhecido ali. Também não parece preocupada com a sua segurança. Entreolham-se durante uns segundos e, depois, a mulher aponta para as malas. «Sabes quanto custa normalmente uma mala de marca?», pergunta, finalmente. «Claro que não sabes. Imagino pela tua forma de vestir. Não és um dos namorados habituais da minha irmã.»

Brazuca acha graça, apesar de tudo. Cruza os braços e apoia-se na ombreira da porta.

— Milhares de dólares — continua ela. — Deve haver malas no valor de cinquenta mil dólares só nesta divisão, pelo menos. O que vou fazer com estas coisas?

— Devíamos unir os nossos recursos e vendê-las juntos. Ambos seríamos ricos.

— Estas etiquetas vendem-se sozinhas. E não tenho a certeza com o que poderias contribuir, sejas quem fores.

— Jon Brazuca — apresenta-se e decide não estender a mão. O olhar desconfiado da mulher indica que deve ficar onde está. — Um amigo da Clementine pediu-me para passar por cá.

A mulher fica a olhar para ele e ele sente-se tentado a recuar ao ver a raiva súbita na sua expressão. Levanta-se.

— Referes-te ao Bernard Lam? Ela morre de overdose e ele fica furioso, não é? O seu brinquedo morreu.

— Não acho que a Clementine fosse um brinquedo para ele.

— Vamos deixar uma coisa clara — replica a mulher, apontando-lhe para o peito com um dedo. — Não sei porque queria que a chamassem por esse nome horrível de stripper, mas o seu nome era Cecily Chan. Estudava Literatura Inglesa na universidade antes de parar para ser modelo. Era uma pessoa, com uma família que a amava.

Brazuca levanta uma mão em gesto de paz. Tinha uma tia-avó chamada Cecily e entende que uma mulher de menos de quarenta anos prefira que lhe chamem de outro modo.

— Está bem, já compreendo. Amavam-na. Não disse que não era assim.

Ela fica séria. Dá um pontapé numa mala que poderia valer mais do que ele ganha num mês.

— Lamento muito. Estou fora de mim. Não suporto isto. A minha irmã morreu e a única coisa que deixou para trás foi um punhado de merda muito caro que tenho de administrar agora.

Vai à cozinha e liga o fervedor de água. Poucos minutos mais tarde, vai atrás dele com uma caixa de cartão cheia de malas de marca e deixa-a cair junto de uma pilha de caixas que já estão na sala. Depois, tira um saquinho de chá de um armário a que mal chega. Juntos, fazem uma chaleira de chá de jasmim muito aromático e sentam-se à mesa da sala de jantar que dá para a baía.

A divisão vai escurecendo enquanto o sol se põe por cima da água, mas nenhum dos dois se incomoda em fechar as cortinas ou acender as luzes. Às vezes, Brazuca recorda como esta cidade é bonita. Porque escolheu viver aqui. Está tão perdido nos seus pensamentos que demora uns segundos a perceber que a mulher o observa fixamente. Já deve estar assim há um bom bocado.

— Sou a Grace — apresenta-se.

— Grace. Tens alguém que possa vir ajudar-te com as coisas da Cecily?

— Não, a verdade é que não.

— Os teus pais, talvez?

Abana a cabeça.

— Como se alguma vez fossem pôr um pé aqui. Os nossos pais e ela tiveram uma discussão há alguns anos. Ela disse que desejaria que estivessem mortos. Disseram-lhe que poderiam estar mortos para ela, se fosse o que queria. Depois, foi-se embora e nunca mais voltaram a falar. Recusaram-se a vir à missa quando morreu porque esse imbecil a pagou. Só apareceram alguns primos e eu. No fim, não acho que a minha irmã tivesse muitos amigos.

Brazuca observa as caixas de cartão empilhadas na sala.

— Bom, está bem, talvez possa ajudar-te a levar algumas destas coisas. Onde vives?

— Vivemos em Richmond… Oh, não me olhes assim!

— Assim como?

Tem a chávena apertada com as mãos com tanta força que parece empenhada em parti-la. Há uma raiva súbita nela, talvez porque a irmã morreu ou talvez porque tem de ser ela a limpar o desastre.

— Como se todos conduzíssemos um desportivo, recebêssemos aulas de violino e vivêssemos em Richmond. Como se estivéssemos a invadir a vossa maldita cidade. A família da minha mãe está aqui desde que os chineses vieram construir a ferrovia há cem anos e o meu pai mudou-se para cá do continente quando era uma criança. Ambos são engenheiros. Não é que tenhamos chegado a comprar propriedades à frente dos vossos narizes. Temos raízes aqui. Estou a estudar para ser urbanista.

Brazuca não devia surpreender-se por ela ficar à defesa. O preço das casas está tão alto que muitos culpam a afluência dos chineses pelos preços astronómicos do mercado. Mais de metade da população da cidade de Richmond é imigrante e há certas pessoas que se sentem incomodadas com a mudança demográfica. É uma espécie de racismo insidioso que Brazuca observa cada vez com mais frequência e começa a vê-lo agora através dos olhos desta mulher. De repente, sente ternura por ela. Estica o braço e cobre-lhe as mãos com as suas.

— Não disse que a tua família não pertence a este lugar. Lamento muito o que aconteceu à tua irmã.

— A minha irmã… Deixou-se comprar e pagar. — Agarra-lhe as mãos e entrelaça os dedos com os dele. Faz uma pausa, mas não há lágrimas nos seus olhos. — Trabalhas com o Lam, não é? Sabes como são essas mulheres?

Há algo inquietante na sua maneira de olhar para ele. Brazuca afasta as mãos, mas não sabe onde as pôr, portanto, põe-nas nos bolsos.

— Às vezes, ajudo-o com alguns problemas. Antes… era polícia.

— Mas já não és.

— Não.

Grace dá a volta à mesa e afasta a chávena de Brazuca. Então, senta-se no seu colo.

— Grace… O que estás a fazer? — pergunta ele, sem saber se terá força de vontade para afastar uma mulher excitada e triste.

— Quero… Quero sentir-me como ela se sentia. Só por uma noite — confessa. E aproxima a boca da dele.

Brazuca não tem força de vontade, afinal de contas.

Não foi uma proposta sensual, pensa Brazuca, muito mais tarde, quando jazem os dois enredados na cama da irmã. Embora, claro, as suas propostas não costumem sê-lo. Tem o dom de atrair mulheres que não estão interessadas na suavidade. Ter virado a página não parece estar a ajudar muito, nem sequer nisso. Jazem na cama, às escuras, durante um bom bocado. Brazuca não sabe se a fez sentir-se como uma prostituta, mas ele, certamente, sente-se assim. Há tanto silêncio no quarto de Clementine que ambos se apercebem do som da chave ao virar na fechadura. Brazuca olha para Grace nos olhos e leva um dedo aos lábios. Levanta-se e veste as calças de ganga. Ouve barulho atrás dele enquanto Grace se veste.

Sai sem fazer barulho para o corredor e para na entrada da sala.

Não sabe o que espera encontrar lá, mas, certamente, não uma mulher minúscula com um fato justo. Está de pé no meio da sala, levantando um telemóvel no ar. Está a olhar para as caixas empilhadas num lado da sala. Observa-a da porta, com Grace a mexer-se pelo corredor, enquanto a mulher se aproxima da caixa das malas de marca e rebusca nela. O cabelo escuro é tão comprido e lustroso que, embora Brazuca não esteja muito familiarizado com as extensões capilares, está bastante certo de que aquela mulher as usa. Finalmente, a mulher tira um pequeno telemóvel que vibra de uma das malas e finaliza a chamada que está a fazer do seu próprio telemóvel.

— Deves ser a traficante — conclui Brazuca.

A mulher para. Olha para ele e não diz nada. Ele percebe a raiva de Grace atrás dele.

Aponta com a cabeça para o telemóvel que tirou da mala, que é descartável, dos que se encontram com facilidade e nos quais pode pôr-se qualquer cartão SIM.

— Usavas um telemóvel especial para te comunicar com ela. Mantinhas o teu número separado dos seus outros contactos. Muito inteligente.

A mulher volta a guardar o telemóvel na mala. Quando fala, a sua voz é agradável e infantil. Tem um sorriso retorcido que é estranhamente encantador.

— Oh, assim é tudo mais limpo.

Essa é a razão por que ele veio ao apartamento. Questionava-se porque não encontrava registos do traficante de Clem no telemóvel que Lam lhe dera. Clementine tinha uma vida muito isolada, mas tinha de receber a sua dose de algum lado.

Grace espreita pela ombreira da porta.

— Ordinária!

A mulher observa a sua cara. É tão minúscula e sorri com tanta doçura que Brazuca quer acreditar que é mais jovem do que deve ser. No entanto, como tem um olhar calculista, supõe que deve ter pelo menos mais dez anos do que pensara ao princípio.

— Nisso, não te enganas, querida — diz a Grace, antes de olhar novamente para ele. — Provavelmente, o Bernie pediu-te para vires procurar-me, não foi?

— Como sabes? — Brazuca não imagina ninguém a chamar «Bernie» a Lam, pelo menos, não na cara. Lam é um playboy, mas há certas coisas que nem sequer ele suportaria.

— Oh, eu sei tudo sobre o Bernie — continua a mulher, abanando uma mão com unhas feitas na manicura. — Tu deves ser o Bazooka. A Clem falava de ti de vez em quando, mas só porque deve ter ouvido o Bernie a falar de ti. Não tinha vida própria.

Ele assente. Bazooka. É uma alcunha de que não consegue livrar-se.

— E tu és?

— A Priya — sussurra. — Não tem sentido continuar a escondê-lo. Se deres a minha descrição ao Bernie, saberá que sou eu. Fui eu que os apresentei, sabes?

— O Lam e a Clementine?

— Sim. Ajudo… a encontrar pessoas para uma certa clientela de elite. O Bernie estava obcecado com as meninas asiáticas. As que não têm compromissos, quero dizer. E eu sabia que a Clem seria boa para ele. — Ignora Grace deliberadamente. — As pessoas são curiosas. Mesmo aqui, não saem do rebanho.

Brazuca entra na sala, afastando-se um pouco de Grace, que parece estar prestes a entrar em combustão espontânea.

— Fala-me do que lhe deste. Sabias?

— Que morreria? Claro que não. Não é uma coisa que costume fazer com frequência, na verdade. A Clem não confiava em mais ninguém e eu devia-lhe um favor. Sabia que tinha contactos. Mas disse-lhe que esta seria a última vez durante um tempo. O seu vício estava a descontrolar-se e não conseguiria mantê-lo escondido se continuasse assim. Então, o Bernie acabaria por se envolver e eu acabaria na merda. Como estou agora, suponho.

— De onde tiras a mercadoria?

— Espera — pede Grace, virando-se para Brazuca. — Foi por isso que te enviou? É por causa da droga? Por amor de Deus! A minha irmã morreu!

Priya olha para a porta.

— Parece-me que vocês têm algumas coisas para esclarecer.

Brazuca aproxima-se mais dela, certificando-se de que exagera o seu coxear. É um truque barato, mas não se importa de recorrer a ele quando é útil.

— Talvez devêssemos falar em privado. — O que, percebe agora, é o que devia ter acontecido desde o começo.

— Quero ouvi-lo — diz Grace, cruzando os braços.

— Não — responde Priya. — Não queres. — Então, sai com duas malas de marca. Uma delas será a dela.

Brazuca lança um olhar arrependido a Grace enquanto segue a traficante da sua irmã para a porta, deixando-a mais ou menos tal como a encontrou. No meio de uma divisão, perdida e triste.

Alcança Priya no elevador, sem se incomodar em disfarçar que consegue mexer-se depressa quando realmente quer. E só durante breves espaços de tempo.

— Não posso dar-te um nome — diz ela, quando a alcança. — Entendes, não é? O Bernie não entenderia, mas tu és uma pessoa mais razoável. Percebo só de olhar para ti.

— Acho que gostava realmente dela. Desta vez, não é apenas a atitude de macho. Não posso voltar sem nada.

Ela assente, compreensiva. Ambos têm de prestar contas a alguém. Abrem-se as portas do elevador e ela entra.

— Bebes?

— Já não. — Não desde que Nora o prendera a uma cama e lhe deitara rum com analgésicos pela garganta. O que significa que, oficialmente, conta como uma recaída, embora não possa considerar-se culpa dele. Subestimara-a e pagara o preço. Recorda que, então, também se sentira um pouco como uma puta. Parecia ser um denominador comum nos seus acordos com mulheres.

— Uma pena. Há um bar em Gastown que acho que é muito bom. Servem uns coquetéis de fruta com chapeuzinhos. O Lala Lair.

Fecham-se as portas.

Brazuca pensa em voltar ao apartamento para ajudar a irmã de Clementine a organizar todos os seus pertences muito caros e acompanhá-la na sua dor. Pensa melhor e carrega no botão do elevador. Ao fim e ao cabo, tem um trabalho para fazer e, por muito que deseje atribuir a conversa com Priya sobre beber um copo ao seu sex appeal, suspeita que ela tinha uma motivação diferente. Disse-lhe o que precisa de saber, da única forma que considerava segura.

Quanto a Grace… Bom, só espera que tenha conseguido o que precisava dele.

8

Espero por Simone atrás do palco de um pequeno bar de cervejas artesanais que, às terças-feiras à noite, se transforma num clube drag. Há lantejoulas e borlas por todo o lado. Sinto-me como se estivesse no pesadelo da rapariga de um harém, à espera que o xeque venha fazer o que quiser comigo. Há uma drag queen no pequeno camarim em que me encontro, a aplicar um contorno denso de olhos líquido com a precisão de um cirurgião. Ignora-me por completo enquanto calça as botas de salto alto e sai pela porta. Segundos mais tarde, entra Simone, coberta de purpurina corporal e com uma roupa verde-lima que é mais uma t-shirt do que um vestido. Faz-me pensar na primeira vez que nos vimos num grupo de apoio a alcoólicos. Usava algo semelhante, possivelmente cor-de-rosa choque.

— Não tens vindo às reuniões — comenta, quando me vê sentada junto da prateleira de acessórios e lenços brilhantes.

— Eu sei — respondo. Teria um desgosto se soubesse que estava a ir a outro tipo de reuniões. Mas, em minha defesa, mal posso encarregar-me dos meus próprios problemas. Como posso esperar que ela o faça?

Tira os saltos e senta-se à frente do tocador para esfregar os pés.

— Também não atendeste as minhas chamadas.

— Não gosto de falar ao telefone — digo. Desde o ano passado, quando fui arrastada até à margem de Vancouver Island, depois de a minha filha, Bonnie, ser raptada, estive a evitar Simone e os seus olhares perspicazes. Gosta muito de falar de sentimentos. Sobretudo dos dela, mas, de vez em quando, também se interessa pelos meus.

— E, agora, queres que investigue o passado do teu pai, não é? — Tira o vestido. O corpo musculado que há por baixo é uma publicidade do valor estético da depilação corporal. — Recebi a tua mensagem ontem, Nora, mas foste tão má amiga comigo que não sei se me apetece ajudar-te desta vez. Dizes que encontraste uma organização de veteranos para os marines do Líbano? Talvez devesses investigar por aí — replica, sabendo bem o que penso de falar com desconhecidos pela Internet sobre algo que não seja sexo.

É difícil sabê-lo só de olhar para ela, mas Simone é uma espécie de perita em segurança informática. Tem a sua própria empresa, que gere como o seu alter ego Simon, e parece satisfeita com uma vida dupla com sapatos de salto de agulha dourados. Não me ofereço para lhe pagar pela sua ajuda porque suspeito que seria prejudicial para mim. Portanto, espero enquanto tira a peruca e a maquilhagem e veste um fato de treino por cima das meias. A única coisa que resta da sua personalidade drag é as unhas compridas e pintadas, que usa para coçar o couro cabeludo depois de ter tirado os ganchos da peruca.

— Desculpa — desculpo-me, com um sorriso. — Vamos falar de ti.

Sorri e tira-me da sala.

— Esperava que me perguntasses. Estou a sair com um rapaz novo, o Terry, mas ainda tem um pé dentro do armário. Foi um pesadelo maravilhoso.

Tremo com a imagem que me vem à cabeça e questiono-me, não pela primeira vez, porque é que quando se pergunta a alguém pela sua vida em geral, o consideram um convite para nos encher os ouvidos com a sua vida sentimental. Mas trata-se de Simone, portanto, mostro-me mais indulgente.

— Qualquer um teria sorte por te ter.

— Até tu? — pergunta-me, num tom de brincadeira. Seguro-lhe a porta aberta e pisca-me um olho enquanto sai.

— Sobretudo, eu. — E é a verdade. Quem não quereria uma perita em segurança informática como amante? Pensando melhor, entendo o dilema de Terry. Não há nada que não conseguisse descobrir se quisesse.

— E o que farias quando tirasse as meias e te mostrasse a pila? Conseguirias lidar com um homem como eu?

A pergunta perturba-me. Desde que se apresentou como mulher e, além disso, uma mulher capaz de cantar perfeitamente a Single Ladies, nunca pensei nela como homem. Não sei se quer que o faça. Mesmo de fato de treino, sem a peruca, com o cabelo curto e sem maquilhagem, parece-me a pessoa mais feminina que alguma vez conheci. Ri-se.

— Não faças essa cara de surpresa. De todas as formas, não és suficientemente lésbica para mim.

De repente, sinto-me ofendida. Não sou suficientemente lésbica? Como se atreve? Revejo a minha energia feminina, que continua a ser tão duvidosa como sempre foi. Com posso não ser suficientemente lésbia? Ora…

— Investigarei o teu pai, Nora. Sabes que o farei. Mas não posso começar senão dentro de duas semanas. Parece-te bem?

— Sim — respondo. — De qualquer forma, vou fazer uma viagem, portanto, envia-me os detalhes por correio eletrónico quando puderes.

A cara dela ilumina-se.

— Isso é novo. Vais a algum lugar emocionante?

— Ouvi dizer que as viagens internacionais são boas para a alma — declaro, encolhendo os ombros.

— Vais a Detroit, não é? Vais a Detroit. — Então, suspira e entrelaça o braço com o meu. — Anda. Acompanha-me a casa do Terry. Assim, podes contar-me como está a correr a sobriedade.

Está uma noite nublada e o fumo ainda não se dissipou, portanto, convenço-a a apanhar um táxi enquanto eu apanho o autocarro para voltar para casa. Quando chego à entrada, acende-se a luz do meu telemóvel. A luz só se acende quando recebo uma mensagem numa aplicação particular que instalei para poder comunicar-me com Bonnie, a filha que dei para adoção há dezasseis anos. O facto de ela saber quem sou é o resultado de uma merda administrativa espetacular. Bem-vindos ao Canadá, a terra do bacon, dos consórcios do xarope de ácer e dos erros administrativos revoltantes. Um erro que fez com que a certidão de nascimento original de Bonnie acabasse nas mãos dos seus pais adotivos quando nasceu. Talvez algum empregado de escritório cansado tenha cometido um erro. Talvez fosse o seu primeiro dia de trabalho ou talvez estivesse lá há centenas de dias. Talvez fosse uma vingança ao sistema no seu último dia. A razão por que o arquivo de Bonnie se filtrou já não importa, porque já sabe quem sou agora.

Não só isso, como tem o meu número de telefone.

Nunca telefonamos. Nunca ouvimos as nossas vozes. Só trocamos fotografias através dessa aplicação, para evitar aumentar os encargos nas nossas tarifas telefónicas. A fotografia que me envia desta vez é do seu pé num estribo. É sempre o pé dela em algum lado e presumo que o resto do seu corpo também. Está bem porque o seu pé está. Suponho que, de tudo isso, deva deduzir que continua com vontade de viver a vida. Agora, está a fazer um exame ginecológico, por exemplo.

Obrigada pela atualização.

Envio-lhe uma fotografia da Whisper que guardei com esse propósito. Ela mostra-me os pés e eu mostro-lhe a minha cadela e esta é a nossa relação. Fotografias das nossas vidas, mas à distância e mascaradas com filtros de melancolia.

Em casa, encontro Seb acordado e no seu escritório, a rever o último rascunho das suas memórias. Acabámos agora os seus capítulos do Kosovo e estamos a abordar o seu casamento, de quando tentava passar por heterossexual. Sempre foi um grande escritor, mas este livro está tão carregado de emotividade que tive de o deixar depois de ler as últimas páginas.

Estou preocupada porque continua sem querer falar da sua última visita ao hospital. É por isso que sei que foi má.

— Não tenho de ir, sabes, não é? — pergunto, quando volto de levar a Whisper à rua. Não voltámos a ver o veterano desde a nossa conversa inesperada no parque. Desapareceu na noite e levou o meu equilíbrio mental com ele. Mesmo assim, estava inquieta durante o passeio e a Whisper impacientou-se, portanto, demos a volta a meio do caminho para voltar para casa. Já não gosta de estar longe de Seb durante muito tempo. Agora, está deitada aos seus pés, a lamber o tapete em que afundou os dedos.

— Tens, sim. Além disso, preciso de estar sozinho durante algum tempo.

— De certeza que não precisas de mim?

— Já quase acabei — responde, encolhendo os ombros. — Fizeste um grande trabalho com a documentação e a organização, Nora. Fico feliz por… ter contado com a tua ajuda.

Não olha para mim nos olhos.

Quando os cães sabem que estão a morrer, encontram um lugar confortável e deitam-se lá até chegar a sua hora. Não há autocompaixão nos seus olhos. Não resistem ao que se aproxima. São os seus donos que se assustam com a ideia de o seu animal de estimação estar prestes a morrer. Mas, para o cão, só existe uma espécie de resignação tranquila.

Uma hora mais tarde, volto a entrar no escritório. Seb está no sofá com a Whisper aninhada no outro extremo, ainda aos seus pés, ao redor da manta grossa com que se tapou. Como está a dormir, agarro-lhe as mãos ossudas e aperto-as com ternura. Não retribuiu a pressão. A Whisper abana o rabo duas vezes, mas recusa-se a levantar-se. Provavelmente, porque percebe que me vou embora. Que a minha mochila junto da porta é o sinal de que vou abandonar a manada quando mais precisa de mim. Embora tenha falado com Brazuca e tenha dado instruções — e um pouco de dinheiro extra — ao passeador de cães, continuo a sentir-me culpada. Quando olho para eles, acrescento o medo à mistura de emoções.

O que me assusta é que a Whisper parece tão tranquila como ele ali no sofá.

Mas não posso ficar mais tempo. Tenho de apanhar um avião.

9

À frente da clínica, Bonnie olha para a fotografia da cadela no seu telemóvel. Como sempre, a Whisper olha diretamente para o telemóvel e parece um pouco chateada. Um BMW prateado entra no estacionamento. Bonnie põe a mochila ao ombro e aproxima-se do carro com cautela. Entra, mas tem cuidado para não olhar para a mãe. Lynn não diz nada até abandonarem o estacionamento, mas Bonnie imagina o que a espera. A mãe tem os ombros em tensão. «Porque não me disseste?»

— Ia apanhar o autocarro, mas esqueci-me do passe.

— Não respondeste à minha pergunta. Porque não me disseste que estavas grávida? — pergunta Lynn, que pensava que Bonnie estava a ajustar-se bem à vida em Toronto e que só tinha de se preocupar com uma alergia leve ao zimbro da Virgínia que desenvolvera no ano anterior.

Bonnie encolhe os ombros. Foi uma intervenção fácil, mais simples do que pensava. É como se a tivessem raspado por dentro, mas as cãibras não foram mais dolorosas do que o normal.

— Pensava que conseguia lidar com isto, mais nada.

Lynn evita olhar para a filha quando diz:

— Pensavas que te julgaria. Por causa de tudo o que tive de fazer para te adotar.

Nenhuma das duas o diz, mas está no ar. Porque Lynn não podia ter filhos. Porque Bonnie é o resultado de uma agressão contra a mãe biológica. Porque Bonnie pôde escolher enquanto Nora não pôde. E tem alguém que a leve a casa da clínica depois da intervenção.

Lynn para o carro na berma da estrada. O clima estranhamente quente deste outono começa a ceder. Toronto está mais fresca agora, mas não o suficiente para que neve. A chuva salpica as janelas enquanto ambas olham para a frente, sem se atrever a olhar-se nos olhos. Põe a mão na de Bonnie e aperta-a com carinho.

— Eu nunca te julgaria, querida. Nunca. É o teu corpo, a tua decisão. Está bem?

— Sim, eu sei. Mas não queria falar disso. Podemos não contar ao papá?

— Porque haveríamos de o fazer? — pergunta Lynn. — Não lhe diz respeito.

— Obrigada, mamã — agradece Bonnie, mais aliviada. O pai continua em Vancouver e, provavelmente, continua a foder a chefe. Já não culpa os pais porque o seu casamento acabou — isso eram coisas de pirralhos —, mas isso não significa que esteja mais unida a eles. Sobretudo a Everett, que era o pai em quem mais confiava até, no ano anterior, descobrir que estava a ter uma aventura. Reagira exageradamente àquela notícia, de um modo espetacular. Fugira para ir conhecer o pai biológico, que fora um monstro. É um momento da sua vida em que tenta não pensar.

— Se acontecer alguma coisa, só quero que saibas que podes confiar em mim. É só isso. — Lynn volta a pôr o carro a trabalhar. — Tens fome?

— É demasiado tarde para comer. Só quero ir para a cama.

Lynn olha para ela pelo canto do olho enquanto conduzem para o seu apartamento no bairro artístico de Leslieville, mas não diz nada a modo de resposta.

Bonnie tem uma sensação de inquietação que nada tem a ver com a clínica ou com o vinho de antes. Isso foi um alívio, mais do que outra coisa. No verão passado, tinha visto o seu antigo namorado, Tommy, que agora queria que lhe chamassem Tom. Ambos sabiam que acabara, mas sentiam a falta um do outro. Bonnie não planeara ir para a cama com ele, mas não se arrependia. Simplesmente, não tinham tido tanto cuidado como antes.

Não, decide agora. Sente-se um pouco cansada, mais nada, mas não se arrepende do que aconteceu na clínica. O seu impulso de contactar Nora foi uma surpresa, mas o que a preocupa realmente é a resposta de Nora. Normalmente, demora a responder. Captar a Whisper com a iluminação correta e a olhar para a câmara não é uma tarefa fácil. Essa fotografia chegou muito mais depressa do que de costume, como se Nora estivesse à espera que lhe enviasse alguma coisa. Como se estivesse à espera e tivesse antecipado a resposta.

Enquanto voltam para casa, Bonnie não pode evitar questionar-se porquê.

DOIS

10

As nuvens desenham formas lindas à frente da minha janelinha ovalada. Até agora, o voo foi tranquilo, o avião atravessa essas formas como se fossem de açúcar. Poderia ficar aqui em cima para sempre, mas o olhar solícito da assistente de bordo começou a transformar-se num olhar de ódio quando me entretenho com a bandeja da comida. Tentou tirar-ma várias vezes e eu salvei-a, agarrando-me a ela com mão de ferro. Mas, se houvesse uma discussão até à morte entre nós, apostaria nela. Nunca apostaria contra uma mulher capaz de apanhar o cabelo num coque tão firme. Uma bomba poderia explodir neste avião e, entre os restos, encontrariam uma esfera de cabelo perfeita, ainda intacta, sem uma madeixa loira fora do seu lugar.

Quando aterramos, o agente da alfândega dos Estados Unidos parece duvidar de que a minha razão da viagem é «turismo», mas, provavelmente, não consegue imaginar que problemas poderia causar em Detroit que não se tenham causado já. No aeroporto, alugo um Chevy Impala e, enquanto atravesso a cidade com a luz da última hora da manhã, entendo porque todos deixámos de nos importar. Há edifícios abandonados por todo o lado. Ruas decadentes. Pessoas que não olham umas para as outras nos olhos. É violento, sobretudo, vindo de uma das cidades mais bonitas — e menos acessíveis — do mundo, onde quer viver tanta gente que quase ninguém tem oportunidade.

E chego aqui, a Detroit.

Não está calor nem há fumo como em Vancouver quando me fui embora, mas, certamente, o ar tem algo peganhento. Algo pesado. Acerta-me no nariz, como um murro que alguém me deu antes de ter tido tempo para reagir. Ou talvez a minha mente esteja a pregar-me novamente uma partida.

Registo-me num hotel barato do centro e tento situar-me. Disseram-me que estava localizado numa zona boa da cidade, perto da universidade, mas as parcelas do quarteirão com edifícios em demolição dizem-me outra coisa. O hotel em si parece estar bem e os lençóis estão limpos, mas têm um estampado floreado desgastado que causa uma esperança insuportável, dada a localização tão deprimente do hotel. Não consigo deitar-me nessa cama, mas também não quero sair para a rua até ter de o fazer, portanto, sento-me com as cortinas corridas, numa poltrona que poderia partir-se com o peso de um rabo maior. Mas estou a viver no limite, portanto, tanto me faz.

Sonho com uma menina coberta com o sangue de um homem, que escorrega nele quando abre a boca, dá um grito silencioso e se escapule. Acordo então e sinto-me como se a cidade de Detroit se tivesse derrubado enquanto dormia e quase todos os escombros me tivessem caído em cima. Há muito tempo que não pensava nessa menina pequena. E nunca, pelo menos até hoje, tinha sonhado com ela. Ainda bem que já quase anoiteceu e está na hora de fazer uma visita. Portanto, por enquanto, posso pôr de parte todas essas lembranças de uma infância feliz.

Não me incomodo em olhar para os mapas, porque há demasiadas coisas no mundo que me são incompreensíveis agora para prestar atenção aos sinais das ruas e conduzir um veículo em movimento ao mesmo tempo. Simplesmente, sigo as instruções do GPS do meu telemóvel até chegar à morada dos postais. A casa de tijolo, de dois andares, devia ser uma boa casa, mas a sua glória desapareceu com o tempo, ao ritmo da deterioração do resto da cidade. Procurando na Internet ontem à noite, descobri que este bairro a sudeste de Detroit costumava ser uma zona predominantemente branca, mas, agora, é mais mista do que antes, no seu apogeu, quando os americanos tinham sonhos e a Cidade do Motor era o lugar onde podiam ir vivê-los.

O homem que me abre a porta parece tão velho como a tinta descascada do alpendre e é tão corpulento que o percurso até à porta deve ter consumido as reservas de energia que tinha para o resto da noite. Mas os seus olhos estão despertos e estão limpos enquanto olha para mim, ali parada à porta dele. Atrás dele, vejo uma menina pequena que espreita. Leva um dedo aos lábios. Pedindo que fique em silêncio.

Ignoro-a e concentro a minha atenção no homem. O sol está a pôr-se por cima do meu ombro, envolvendo-nos numa luz rosada suave. Não digo nada. Agora que estou aqui, questiono-me se consegue ver alguma coisa dos traços do meu pai na minha cara. Fico em silêncio e uma parte de mim alberga a esperança de que me reconheça.

— Quem raios é? — pergunta, a modo de cumprimento.

— O meu nome é Nora Watts. Acho que conhecia o meu pai, o Samuel.

O seu olhar assustado percorre-me de cima a baixo, reparando nas minhas calças de ganga e na minha camisola com capuz, observa que tenho o ombro direito ligeiramente deitado para trás e o pé esquerdo um passo adiantado. Como um lutador. Recua e está prestes a fechar-me a porta na cara. «Não sei quem é esse.»

Ponho o pé na ombreira da porta para ganhar tempo enquanto procuro no bolso do casaco. Tiro os postais que enviaram ao meu pai, presos agora com a fita de seda azul, e mostro-lhos.

— Sabe quem enviou isto? Saíram desta morada.

Finge que não olha para os postais, mas um movimento leve do seu olhar indica-me que os viu.

— Desapareça daqui. Não tenho nada para lhe dizer. — Dou um passo inconsciente para trás ao ouvir a fúria da sua voz. Fecha-me a porta com força, mas consigo ver qualquer coisa que reconheço na sua expressão. Algo que parece desespero. Fico no alpendre por um instante, olhando para a menina pequena que espreita pelas cortinas da janela próxima. Apostaria o meu carro de aluguer, para o qual rejeitei temerariamente o seguro adicional, em como esse homem não só viu os postais antes, como foi a sua mão que os escreveu.

Porque, quando lhe perguntei se conhecia o meu pai, me mentiu na cara. Estou quase certa disso. Parece que essa pequena intuição que costumava ter quando alguém me mente volta a espreitar, a capacidade que antes me saía sozinha e, agora, só desponta de vez em quando, em retalhos, mas resta o suficiente para duvidar do homem que acabou de me fechar a porta na cara.

A menina pequena abre a janela e faz-me um gesto para que me aproxime. Tem o cabelo castanho apanhado num rabo de cavalo meio desfeito no topo da cabeça e uns óculos com armação azul que estão sempre a escorregar pelo nariz. Numa mão, tem um chupa-chupa, que me oferece. Não sei calcular a idade das crianças, por não ter feito parte da infância de Bonnie, mas acho que esta poderia ter uns dois anos ou um pouco mais. Talvez esteja na idade de ir para a creche. Agarro o chupa-chupa, abro o pacote e devolvo-lho.

— Para ti — digo.

— Obrigada. — Faltam-lhe os dois dentes da frente e ceceia um pouco. A língua aparece pelo espaço e sorri. Talvez tenha encontrado a criatura mais adorável que alguma existiu.

— Foi o teu pai que me abriu a porta?

Abana a cabeça.

— O teu avô?

Assente.

— Alguma vez sai de casa?

Isso causa uma gargalhada profunda, como as crianças sabem fazer, uma gargalhada surpreendente e deliciosa. Se algo pudesse derreter este coração frio que tenho, seria, sem dúvida, uma gargalhada como essa.

— Vamos à escola — informa, sem parar de sorrir. Então, volta a levar o dedo aos lábios, espera um segundo enquanto ouve um som de dentro e, depois, volta a sorrir. É surpreendente ver que as meninas começam cedo a esconder segredos aos machos alfa das suas vidas.

— Gostas da escola?

Abana novamente a cabeça.

— Não faz mal — digo. — Na verdade, não precisas dela. Tens de abrir caminho no mundo sozinha, entendes o que digo? Não acabes como eu. Sê tu própria. Procura dinheiro.

Assente, muito séria, ao receber aquele pedaço de sabedoria não solicitada. Desato a fita de seda azul dos postais e dou-lha.

— Anda muito devagar amanhã quando fores para o colégio, está bem?

Afasto-me do alpendre e volto para o meu carro de aluguer, que estacionei ao virar da esquina. Quando chego ao lugar, demoro um minuto a perceber que o Impala desapareceu. Roubaram-mo. Atravesso a rua para a paragem de autocarro próxima. As pessoas que lá estão não se incomodam em arranjar-me espaço. Ficam ali, com os olhos vazios, sabendo perfeitamente que o meu carro desapareceu à frente delas, mas ninguém está disposto a falar disso. Mais um facto do dia a dia. Não tem nada de especial.

11

Brazuca observa do seu carro enquanto uma efígie frágil de Sebastian Crow percorre lentamente o parque com a Whisper aos seus pés. São quase dez da noite e são as únicas figuras à vista. Crow para num banco, apoia uma mão nas costas para se segurar e tosse contra a manga do seu casaco durante vários segundos. Depois, limpa a boca com o dorso da mão e regressam à casa que é do outro lado da rua.

Brazuca sente uma fúria inexplicável por Nora por o ter arrastado até ali. Não havia um passeador de cães? Devia ter passado a tarefa a Warsame que, como se tivesse tido um pressentimento, voltara a desaparecer, perdido em alguma missão. Crow demora um minuto inteiro a subir os degraus para a entrada da sua casa. A Whisper espera pacientemente até chegar ao patamar e, depois, sobe com ele.

Fica com a imagem de Crow apoiado no banco, dorido. Não consegue livrar-se dela até quase uma hora mais tarde, de pé à frente do restaurante exclusivo de Gastown que Priya tinha mencionado, a traficante de Clementine.

— Vais entrar ou quê? — pergunta uma mulher atrás dele. Veste-se como uma dançarina de cabaré, com caracóis enormes e uns sapatos de salto tão altos que tem os pés quase num ângulo de noventa graus.

Brazuca desvia-se para a deixar passar.

— Desculpe. — Mas ela nem sequer olha para ele ou demonstra tê-lo ouvido.

Dirige-se para o café vegan aberto vinte e quatro horas que há do outro lado da rua e senta-se numa mesa junto da janela com vista para a entrada e as janelas do Lala Lair.

Enquanto come algo chamado salada de sementes super power, mantém o olhar fixo na janela. Passada a meia-noite, um homem indonésio magro com calças feitas à medida e uma camisola de gola alta sai do Lala Lair. Tendo cuidado para se manter afastado da câmara que montaram por cima da entrada, acende um cigarro e faz uma chamada telefónica. Nas duas últimas noites, Brazuca viu aquele homem a fazer exatamente o mesmo. Ontem, no entanto, pediu um hambúrguer de quinoa em vez da salada super power e o estômago ainda não lhe perdoou.

Uma mulher com um vestido azul justo e uma mala brilhante senta-se à frente dele.

— Olá — cumprimenta, enquanto a parte da frente do vestido sobe.

Brazuca pestaneja. Demora uns segundos a reconhecer a irmã de Clementine.

— Grace, o que estás a fazer aqui?

— Oh, vim ao Lala Lair todas as noites desta semana. É um nome engraçado, não te parece? Lala Lair. Lalalair. Tenta dizê-lo três vezes seguidas. Gostas do meu vestido?

O vestido em questão é muito justo exceto na parte de cima e foi desenhado para alguém com seios grandes.

— Não é mau.

— Mentiroso. É horrível. Está sempre a cair, faça o que fizer. É da minha irmã — explica. Olha para baixo. — A mala também. Acho que vou ficar com ela. Enfim, o que estava a dizer? Ah, sim, a minha irmã. Tinha as mamas operadas, portanto, provavelmente não tinha de se preocupar com encher o vestido.

— Não devias estar ali — replica, apontando com a cabeça para o bar exclusivo do outro lado da rua.

— Bom e o que ia fazer? Ouvi-te a falar com essa ordinária no elevador. Sim, estava a ouvir atrás da porta. O que ia fazer? Ignorar a traficante? Mencionou o Lala Lair e supus que teria alguma coisa a ver com a Cecily. O que descobriste? E o que fazes neste café hippie em vez de estares do outro lado da rua?

— Um homem tem de comer — declara, num tom neutro. Grace não precisa de saber que já esteve lá, já farejou e tirou toda a informação possível sem chamar a atenção.

Entreolham-se. Por baixo das camadas de maquilhagem chamativa, aplicada sem muita experiência, Grace mostra uma expressão séria. Tira uma memória USB da mala e dá-lha.

— Tenho um amigo que trabalha em criminologia na Universidade de British Columbia que está a investigar os traficantes de droga para a sua tese. Deu-me material sobre a Wild Ten.

— Não lhe chames assim. Estás a idealizá-la.

— É o nome que recebe na rua — insiste. — O meu amigo diz que é relativamente nova, mas está a ficar na moda. Há uns laboratórios de drogas clandestinos na China que fabricam fentanil para contrabando. Também manipulam a estrutura química da droga e criam novas versões. Como a Wild Ten. É muito difícil regulá-lo.

Brazuca devolve-lhe a USB.

— Grace…

— Quero tanto saber o que aconteceu à minha irmã como tu. E não me pagam — comenta, sem saber que, com sarcasmos como aquele, ele é praticamente impenetrável. Todos têm de ganhar a vida. Nem todos podem ser urbanistas.

A empregada aproxima-se com a conta e Brazuca paga em dinheiro. Quando se vai embora, lança um olhar severo a Grace.

— Já sabes o que aconteceu à tua irmã. Tomou uma overdose e morreu. Fim da história. Não devias estar aqui nem do outro lado da rua. Vai para casa, Grace.

— Não me digas onde devia estar — murmura ela.

— Falo a sério. Não tens aulas ou uma coisa dessas?

— Fomos para a cama juntos, imbecil. Não podes falar comigo assim. Sou uma mulher adulta. Posso estar onde quiser. — Levanta-se da cadeira com torpor, põe a mala ao ombro e pragueja quando a alça se prende no cabelo. — Foda-se! — exclama, enquanto se dirige para a casa de banho para tentar desprendê-la.

Assim que desaparece, Brazuca abandona o café e atravessa a rua. Com o capuz posto, dirige-se para o beco, permitindo que o coxear o desequilibre. Apoia uma mão na parede de tijolo do beco de trás do Lala Lair e pragueja quando o fecho se prende e tenta soltá-lo.

Um BMW elegante para no beco e apanha um cliente que acaba de sair pela porta traseira do bar. Toca a buzina para que se afaste. Ele levanta um braço automaticamente para proteger a cara do brilho dos faróis e mostra o dedo ao condutor.

A janela do passageiro abre-se e o homem da camisola de gola alta tenta reparar bem em Brazuca, que tem a cara parcialmente coberta pelo capuz.

— Mexa-se.

— Sim, sim, um segundo, homem. — A voz de Brazuca sai rouca, o mais neutra possível. Afasta-se da parede e dirige-se para a rua, onde se esconde imediatamente entre as sombras de uma porta. Quando o carro entra na estrada, iluminado por uma luz do beco, vê-se a matrícula com clareza. Tira-lhe uma fotografia com o telemóvel. — Já te tenho — murmura, embora não haja ninguém ali para o ouvir.

Faz uma chamada para o mesmo número para o qual envia a fotografia. A voz que atende o telefone parece confusa e incomodada.

— Mas que merda? — murmura o detetive Christopher Lee, do Departamento da Polícia de Vancouver. — Sabes que alguns de nós têm trabalhos a sério para onde temos de ir de manhã?

— Também adoro ouvir a tua voz, querido. Preciso de um favor. Deves-mo.

— Deste-me uma dica em todo o tempo que passaste fora da polícia. Uma.

— Às vezes, só precisas de uma. Enviei-te uma matrícula. O motorista veio buscar o gerente do Lala Lair.

Há um silêncio breve enquanto Lee dá voltas àquela informação na sua cabeça.

— O Lala Lair, eh? Sim, ouvi alguns rumores quando estava na unidade de gangues.

— Descobre se continua a haver rumores.

— Desculpe, sua Majestade? Vais pagar a cerveja este fim de semana?

— Sim, está bem — acede Brazuca, que nunca se incomodou em dizer ao seu antigo colega que é alcoólico e que, à exceção de uma recaída recente, está sóbrio há dois anos. — Eu pago a cerveja. Deixo-te para continuares a tua cura de sono.

— Podes crer! — exclama Lee. — O facto de te teres deixado ir não significa que os outros tenham de fazer o mesmo.

Ajusta o capuz mais à cara quando dobra a esquina e vê uma mulher com um vestido que fica largo a tentar mandar parar um táxi. Não usa casaco e rodeia-se com os braços para se proteger do ar frio. Embora tenham tido um outono suave, não está tempo para deixar o casaco em casa. Mas é possível que não pense com clareza ultimamente. «Tenho de desligar», diz a Lee.

— Podias ter esperado até amanhã para esta merda.

— Estavas acordado de qualquer forma.

Ouve-se um clique do outro lado da linha quando Lee desliga o telefone. O táxi passa à frente da mulher sem parar. «Idiota!», grita. Quando vê que Brazuca se aproxima dela, vira-lhe as costas.

— Eh! — exclama ele. — Queres fazer-me sentir como uma puta?

Grace vira-se para olhar para ele e semicerra os olhos.

— Sabias que a prostituição não é uma brincadeira? Muitas pessoas ganham a vida assim. Não devias gozar com isso. — Di-lo sem se aperceber do facto de que foi ela que iniciou esse tipo de comentários, quando estavam no apartamento da irmã, pago pelo homem com quem Clementine ia para a cama.

— Quem está a gozar?

Grace encolhe os ombros.

— Desde que tenhamos as coisas claras — murmura. Então, dá-lhe uma mão, Brazuca suspeita que mais para manter o equilíbrio do que por outra coisa, e dirigem-se para o seu carro, que está estacionado no estacionamento do fundo do quarteirão. Grace dá-lhe indicações para chegar ao apartamento de English Bay. No elevador, enquanto sobem, abre-lhe o casaco e abraça-se a ele. Brazuca vê as mamas dela pelo decote do vestido, o que provavelmente é a sua intenção.

Percebe que conseguiria habituar-se a ser usado pelas mulheres em troca de sexo. E, pelo menos, ela é sincera. Mas, mesmo assim, não consegue entendê-la. Parece uma mulher demasiado sensata para permitir que a dor a embargue desta maneira. Parece que as pessoas se tornaram mais complicadas ou ele se tornou mais simples. Contudo, não entende como possa ter acontecido alguma das duas coisas sem um aviso prévio.

12

O relógio do meu telemóvel diz-me que é um novo dia, mas o meu corpo recusa-se a acreditar. Tentar voltar para o hotel nos transportes públicos ontem à noite deixou-me sem energia e, agora, volto a usá-los. No passado, critiquei os transportes públicos de Vancouver, o que, percebo agora, era injusto. Quando se trata de desastres, andar em Detroit ganha o prémio. E o pesadelo burocrático de tentar denunciar o roubo de um carro de aluguer em Detroit derrotou o meu espírito de luta. Por enquanto, não tenho carro. Depois de três autocarros e de uma discussão acalorada com alguém que parecia um agente de trânsito, volto à casa.

Ainda bem que saí antes de amanhecer, porque chego a tempo de ver o homem e a menina adorável de ontem a afastar-se pela rua na direção contrária à minha. Há uma escola primária a cerca de dez minutos a pé, mas o homem não parece andar especialmente depressa e a menina fez-me uma promessa implícita que espero que cumpra. Acho que tenho entre vinte minutos e meia hora para encontrar o que estou à procura.

Quando bato na janela da cave com um martelo embrulhado numa toalha que roubei do hotel, espero que as pessoas da rua se mostrem tão distraídas como ontem quando me roubavam o carro. Quando o homem da casa me abriu a porta ontem, não vi nenhum painel de alarme junto da entrada. O facto de não o ver não significa que não esteja em algum lado, mas há certos riscos que estou disposta a correr. Há uma distância considerável da janela até ao chão e sei que o meu tornozelo magoado não consegue aguentar a pressão, portanto, penduro-me o máximo que posso até me deixar cair por cima da perna boa. Na sua maior parte, as luvas de couro que uso protegeram-me as mãos do vidro partido que rodeia a janela.

À vista desarmada, a cave está cheia de lixo e equipamento desportivo velho, portanto, testo a sorte e subo a escada. Na mesa da sala de jantar encontro uma pilha de contas dirigidas a Harvey Watts, mas não há correspondência pessoal. A menina invadiu todas as divisões com os seus desenhos e brinquedos. Não há nenhum lugar seguro neste andar para os pertences de um homem, portanto, volto a subir. Há dois quartos no segundo andar e um terceiro que foi transformado num escritório. Como não tenho muito tempo, vou direta ao escritório.

Poderia ser um golpe de sorte que encontre o que estou à procura no chão junto da secretária ou poderia ser que, depois de me ir embora ontem, Harvey Watts tenha ficado nostálgico e não se tenha incomodado em guardar os arquivos ao acabar. Talvez quisesse ter as lembranças à mão, como as pessoas fazem, às vezes, quando o passado bate à porta.

Em qualquer caso, nesta mala velha, estão os documentos da vida do meu pai. Há várias fotografias de dois rapazes jovens. Percebo que o homem que me fechou a porta na cara deve ser o seu irmão adotivo. Só tenho tempo para examinar a mala por alto antes de a porta de baixo se abrir e se fechar. Pela janela, vejo que as calhas estão tão enferrujadas que não acho que aguentem o meu peso. Saio para o corredor sem fazer barulho e desço as escadas com a esperança de que Harvey tenha saltado o pequeno-almoço e eu consiga sair pela porta principal.

Infelizmente, nunca tive tanta sorte.

Quando ponho o pé no último degrau, ouço o clique da segurança de uma arma. No corredor estreito, atrás de mim.

Levanto as mãos sem soltar a mala.

— Sabes? As pessoas têm sempre uma ideia errada deste bairro. Aqui, temos uma comunidade bonita e as pessoas sabem usar o telemóvel quando alguém parte uma janela na cave.

Bom, não era um plano perfeito. E há muito tempo que não tinha de entrar assim em lado nenhum.

Viro-me com cuidado para fazer movimentos lentos. Harvey Watts tem um revólver a apontar-me para o coração. Não me esqueço de que, em Michigan, podem usar-se armas a descoberto. Questiono-me se a terá levado consigo ao levar a neta à escola. Não o descarto.

— Mentiste-me sobre o meu pai. Conhecia-lo. Era o teu irmão.

Watts sopra e abana a arma. Tento não pensar no facto de não ter a segurança.

— Que rico irmão.

— Só vim pelo que me pertence, mais nada.

— Essa mala não te pertence. É minha desde que se foi embora, dizendo que ia procurar a sua verdadeira família de merda. Como se eu não fosse nada. Como se não tivéssemos crescido juntos nesta casa de merda.

— Ena… — digo, com uma compaixão irónica. Se quer começar a falar de infâncias difíceis, podíamos ficar aqui a semana toda.

Cora.

— Às vezes, questionei-me como seriam as filhas do Sammy. Nunca imaginei alguém como tu.

Se isso devia ser um elogio, não conseguiu. O elogio deve vir acompanhado de um tom. E o seu tom de voz é tão caloroso como uma calota polar, uma que resista ao aquecimento global.

— Olha, só quero saber coisas sobre o meu pai. Mais nada.

— Sim, bom, depois de se ir embora, não voltei a saber dele. Disse-me para lhe enviar o correio para a casa de Winnipeg, mas, depois disso, não voltou a falar comigo. Depois, a tua irmã escreveu-me há anos, dizendo que tinha morrido e se podia contar-lhe a história da sua vida. A única coisa que restou dele foi essa mala e, por mim, podes levá-la, se quiseres. Não me entristece que tenha morrido. Di-lo à tua irmã. Lauren, ou como quer que se chame. Deixem-me em paz de uma merda de uma vez.

Apoia a mão que tem livre na parede e tosse contra a manga.

— Mas, antes de ires, alguém tem de pagar pela janela da cave.

Não brinca. Olho para a arma. Então, deixo as poucas notas que tirei da minha carteira no suporte da entrada. Recuo com as mãos ao alto e paro à porta.

— Alguma vez… Disse alguma coisa sobre o Líbano? Sobre algum problema que teve lá?

— Como se fosse contar-me alguma coisa… — replica Harvey Watts, com uma expressão sombria. — Há anos que não tinha nada a ver com o teu pai e quero continuar assim. Desapareceu quando tinha dezoito anos e não voltou até depois de abandonar o exército. Depois, voltou a ir-se embora. Portanto, não te devo nada.

Talvez não tenha sentido, mas tenho de tentar.

— Mas, depois do exército, o que disse sobre isso?

Watts dá um passo para mim e eu tento não fazer movimentos bruscos enquanto recuo, mantendo o espaço que nos separa. Um baile delicado, com uma pistola como acompanhante do liceu, entre nós.

— Já acabámos — declara. — Desaparece. E não voltes. E também não fales com a minha neta. Disse-me que lhe deste um chupa-chupa. Não te aproximes dela.

Pequena traidora. Não podemos confiar em ninguém neste mundo. Devia ter escondido a fita de seda.

Vou-me embora, desta vez, pela porta. Como uma pessoa normal que foi visitar o seu tio que não vê há anos, com uma mala cheia de lembranças por baixo do braço.

Uma cortina mexe-se na casa da frente e vejo uma sombra junto de uma das janelas do segundo andar. O cidadão preocupado, sem dúvida. À espera para ver o que se passa.

Suponho que eu também espere.

13

O problema com o Líbano é que houve muitos problemas no Líbano. Durante a Guerra Fria, foi o lugar onde se travaram as guerras indiretas entre os americanos, os soviéticos e as múltiplas fações do Médio Oriente, para além dos seus próprios conflitos internos e da guerra civil posterior. Foi onde a Hezbollah nasceu e o lugar de origem do atual fenómeno mundial dos suicidas que se imolam. Para onde fugiam os refugiados da Palestina para lidar com a sua raiva enquanto tudo explodia ao seu redor. Onde foram massacrados, em 1982, enquanto um grupo de soldados estrangeiros observava junto dos seus acampamentos. É difícil saber exatamente no que o meu pai andou metido lá, mas, segundo um monte de papéis incompletos, era, com efeito, um marine.

Talvez já soubesse isso.

Talvez devesse ter imaginado que estava no exército quando saiu de Detroit sendo um adolescente e antes da sua grande transferência para o Canadá. No entanto, como tantas outras coisas, tinha escolhido não prestar demasiada atenção. O facto de ser marine no Líbano no fim dos anos setenta ou no princípio dos oitenta significa que, provavelmente, esteve destacado na embaixada americana ou numa das missões de paz. O grande público não costuma estar ao corrente daquela tentativa benévola de estabilidade no Médio Oriente. Também não é que aqueles pacifistas fizessem grande coisa para conseguir a estabilidade na região, mas, ao princípio, havia um certo otimismo juvenil, como as participantes num concurso de beleza que param no palco com as mamas à vista e desejam a paz mundial. Tanto faz a quantidade de raparigas em biquíni, soldados uniformizados ou burocratas grisalhos que a desejem, a paz é algo difícil de encontrar. Mas, se esteve no Líbano, o meu pai deve ter feito parte dessa tentativa de paz. À sua maneira.

Acrescento o conteúdo da mala ao conteúdo da caixa e espalho tudo no chão do meu quarto do hotel, formando um círculo. No meio do círculo, sento-me numa cadeira de secretária com rodas e mexo os pés para mexer a cadeira. Vi-o uma vez num programa de televisão britânico e o investigador acabava por ter uma revelação. Mas não funciona comigo. Livro-me da cadeira e sento-me no centro do círculo. Concentro-me numa fotografia do meu pai de uniforme com outros três homens que passam os braços pelos ombros. A fotografia está sem datar e não possui nenhuma outra informação relevante. Ao fim e ao cabo, o meu pai não ia dar a volta à fotografia para escrever os nomes dos homens que o acompanhavam. Fico a olhar para as suas caras e, até com a margem das décadas que passaram desde o dia em que essa fotografia se tirou até à atualidade, não vejo o veterano que me seguia. Vê-se que não recebeu a circular para aparecer na fotografia.

Passados uns minutos a pensar, publico a fotografia numa secção de comentários da página de Internet dos veteranos do Corpo de Marines de Beirute, com a esperança de que alguém consiga reconhecer o meu pai ou algum dos outros. A julgar pelo que vi nas suas discussões online, são um grupo bastante ativo.

Oxalá soubesse mais coisas sobre a sua época no exército, mas a sua vida desafiou a documentação. Se alguma vez conseguiu acumular documentos, o pouco que tenho à minha frente é o que resta disso. Não é suficiente sequer para pedir o seu histórico militar. Nem sequer um número de serviço. Fecho a página de Internet do formulário de requerimento online. São precisos demasiados campos que não consigo preencher, portanto, volto ao conteúdo da mala.

Há lá outro pedaço de seda azul gasta, cortado como uma fita. Tal como a que encontrei na caixa de sapatos amarela.

Na esquadra da polícia, horas mais tarde, deslizo a fita entre os dedos quando paro à frente do agente de serviço no guiché. Parece-me impossível que o admitissem no Departamento da Polícia de Detroit baseando-se nos resultados magníficos do seu teste de personalidade. Se alguma vez teve simpatia, deve tê-la gastado toda com a pessoa que veio antes de mim.

— E diz que o carro foi roubado ontem? — pergunta, com o sobrolho franzido.

— Entre as seis e quarenta e as seis e quarenta e cinco da tarde. Quer que o escreva?

— E porque não ligou ontem?

— Fi-lo. Fiquei sem bateria no telemóvel enquanto me mantinham em espera. — Uma guerra mundial poderia ter começado e acabado durante o tempo que passei em espera. Podiam ter-se derrubado montanhas. Ou derretido glaciares. Penso em mencionar tudo isso ao agente, mas escolheu este momento para se perder no que quer que seja que aparece no seu ecrã. O que, como parece um tipo sádico, imagino que seja um vídeo de um gatinho a sair de uma caixa de cartão.

— Muito bem, sente-se. Virá alguém para anotar a declaração.

— Pensei que era isso o que estava a fazer.

— Não. Vou chamar alguém.

— Esperei vinte minutos só para falar consigo!

— Senhora, por favor, acalme-se. — A modulação da sua voz não muda. É evidente que lidou com ameaças muito piores do que eu. Desaparece pelo corredor.

O telemóvel toca e, no ecrã, vejo o nome do passeador de cães, Sunil.

— Está tudo bem? — pergunto, assim que atendo.

— Sim, sim. É que… — Ouço-o a tossir nervosamente.

— O que se passa?

— O senhor Crow… tem um aspeto terrível…

Franzo o sobrolho. Ou a rede deixa bastante a desejar ou Sunil não aprendeu a segurar um telemóvel corretamente.

— Chama uma ambulância e faz com que o levem ao hospital.

— Recusa-se. Diz que tem… uma consulta amanhã e vai esperar até então… De certeza que está bem — diz.

E eu tenho a certeza de que está a mentir. Mas, antes de conseguir responder, continua a falar.

— Custou-me localizar-te antes…

— Estava sem bateria.

— Está bem. É que… Poderias dar-me o número do sítio onde te alojas? No caso de ter de te deixar uma mensagem.

Dou-lhe o nome do hotel e digo-lhe em que quarto estou e o que tem de fazer se Seb piorar e como tomar conta da Whisper se for assim. Podia ter-lhe dado também algum conselho para sobreviver a um apocalipse zombie e manter a segurança de Seb e da Whisper intacta. Sunil desliga o telefone a meio do meu discurso. O salário mínimo não é suficiente para ter de administrar essa merda, nem sequer para um estudante universitário.

Depois de tentar localizá-lo sem sucesso várias vezes, o meu telemóvel perde a vontade de lutar. O ecrã desliga-se. Nem sequer posso enviar uma mensagem a Brazuca para que verifique se estão bem. Deixo-me cair nas cadeiras duras da sala de espera e sinto-me como Hamlet. Patética. No limbo, com o fantasma do meu pai morto a atormentar-me. Debato-me entre fazer o que sei que é correto, que é sair desta cidade, e continuar a perder tempo no meu próprio inferno pessoal. O polícia volta a entrar na sala com uma chávena na mão e continua a fingir que não existo. Contenho o meu instinto assassino e continuo à espera. Como uma idiota atordoada que não entende nada.

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Возрастное ограничение:
0+
Дата выхода на Литрес:
23 октября 2024
Объем:
261 стр. 3 иллюстрации
ISBN:
9788491394976
Издатель:
Правообладатель:
Bookwire
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