Читать книгу: «Os meus três amores - Tal como sou»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 57 - janeiro 2021

© 2007 Teresa Carpenter

Os meus três amores

Título original: Baby Twins: Parents Needed

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2007 Rebecca Winters

Tal como sou

Título original: The Lazaridis Marriage

Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2008

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Bianca e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1375-268-6

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Os meus três amores

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Tal como sou

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

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Capítulo 1

Rachel Adams estava em guerra. E o inimigo estava em vantagem. Com as mãos apoiadas na anca, observava os dois querubins de faces gordinhas e de olhos cor de avelã que estavam cobertos de creme para bebés.

– Cody Anthony Adams – Rachel repreendeu o menino de dez meses, que não parecia arrependido, – se não és capaz de ter as mãos quietas, vou atar-tas à fralda durante as sestas.

Rachel, que já estava cansada de antemão, ficou ainda mais nervosa ao ver aquele desastre. Respirou fundo para se tranquilizar e recordou-se que naquele momento era mãe. Prometera dar um lar ao seu sobrinho e à sua sobrinha, que eram órfãos.

Mas ainda tinha muito para aprender.

Já descobrira que as crianças, como os animais, sentiam o medo.

Mal tivera tempo para chorar a morte de uma irmã que mal conhecera. Mas depois aprendera que aqueles desastres aconteciam. E repetidamente. E que se não mantivesse as coisas suficientemente afastadas do alcance de Cody, aconteciam de um modo muito criativo. Com frequência, com comida: gelatina, bananas, batatas, tudo o que caísse nas suas mãos quando ela se virava. O menino gostava de pintar com os dedos. E o seu objectivo favorito era a sua irmã.

Que nojo!

Armada com luvas de borracha e uma caixa de toalhetes, Rachel decidiu atacar. Limpou-lhes o corpo, os dedos das mãos e dos pés e o cabelo. Para acabar o trabalho, teria de dar banho aos dois bebés. E afastar o berço do fraldário.

De repente, percebeu algo: aquilo devia ser amor. Quando a tolerância eclipsava a exasperação, deixando que o afecto dominasse, não havia outra explicação.

Em algum momento dos últimos seis dias, apaixonara-se. E nunca antes sentira algo do género.

Era um sentimento que a aterrava.

Havia uma coisa que estava clara: se a pessoa com quem partilhava a tutela passasse por ali, ela lutaria com unhas e dentes para ficar com os seus sobrinhos.

– Pronto, crianças, vão ter de me aguentar e estou nas últimas. Mas ficarei convosco. E prometo-vos que saberão sempre que vos amo. Não terão de se preocupar com o facto de alguém se sentir obrigado a tolerar-vos. Agora somos uma família – sussurrou, com um nó na garganta.

Tirou as luvas de borracha e passou a mão pelo cabelo moreno de Cody. Continuava à procura da semelhança dos gémeos com a sua irmã e, de vez em quando, captava alguma expressão. Mas o cabelo e os olhos tão escuros deviam parecer-se com o seu pai, porque Crystal tinha os olhos castanhos e o cabelo castanho-claro.

Crystal era muito parecida com o seu pai e ela era parecida com a sua mãe. Rachel tinha o cabelo muito loiro e usava-o sempre curto. Tinha uns olhos entre azuis e verdes.

Um golpe inesperado na porta interrompeu os seus pensamentos.

Rachel ficou tensa.

– Quem pode ser?

Afastou uma madeixa de cabelo dos olhos, olhou para as duas crianças nuas e considerou ignorar a porta. Fosse quem fosse, não podia ter chegado em pior momento.

Jolie começou a chorar. Durante a semana que os gémeos tinham estado ao seu cuidado, Rachel aprendera que Cody gostava de estar nu, mas Jolie não.

Rachel era uma mulher solitária, que preferia os animais e as plantas à maioria das pessoas e que não costumava receber visitas, nem sequer dos seus vizinhos. Mas a pessoa que batia à porta queria entrar, porque insistiu.

Deixou os gémeos no berço, certificou-se de que não havia mais nada ao alcance de Cody e dirigiu-se para a porta, dizendo para si que já não era uma solitária. Viu um homem que tinha as mãos nos bolsos do casaco preto que vestia.

Hum. Seria Ford Sullivan a pessoa com quem partilhava a tutela das crianças? Era membro das Forças Especiais e o seu comandante dissera a Rachel que Sullivan, aliás Mustang, estava fora do país quando os gémeos ficaram órfãos, mas que estaria disponível assim que voltasse da sua missão.

Tanto lhe fazia se não voltasse.

Abriu a porta só alguns centímetros.

O homem era mais alto e largo de costas do que lhe parecera à primeira vista. Muito maior. Vestia calças de ganga e casaco de couro e usava óculos escuros, botas de motorista e barba de três dias. O céu estava cinzento e nevava, os flocos de neve caíam sobre os seus ombros largos e o seu cabelo escuro.

Pareceu-lhe um homem perigoso.

Rachel, que sentia fraqueza pelos filmes de acção, sentiu um calafrio ao vê-lo.

Fez figas para que fosse um motorista que ficara sem gasolina.

– Sim? – perguntou. Não lhe perguntou se podia ajudá-lo. Nem sorriu. Pensava que, se sorrisse, as pessoas entretinham-se mais e, a maior parte do tempo, preferia estar sozinha.

– Rachel Adams? – perguntou ele. Tinha uma voz profunda de barítono.

Ela voltou a sentir outro calafrio.

– Sim – mudou de posição, inquieta, e pensou que devia ter estacionado o todo-o-terreno no celeiro.

– Irmã de Crystal Adams?

Não podia ser um motorista. Rachel deitou a cabeça para trás e observou-o com mais calma.

– Suponho que é Ford Sullivan.

Ele assentiu.

– Sim, vim buscar os gémeos.

Furiosa, Rachel pôs-lhe a mão no meio do peito quando ele tentou atravessar a soleira da porta.

– Espere, tipo duro. Não o conheço. E, por enquanto, não gostei do que ouvi.

Sullivan não recuou nem um centímetro, mas Rachel sentiu como ficava tenso e semicerrava os olhos, como um aviso da sua força e determinação. Pôs a mão no casaco e tirou a carteira. Mostrou-lhe o seu cartão de identificação militar.

Ela sabia que as Forças Especiais eram um corpo de elite que trabalhava nos lugares mais complicados do mundo. Sabia por filmes e livros, mas era evidente que estava a considerar um trabalho de alta segurança.

Depois de um instante, ele retirou o cartão dos dedos gelados de Rachel.

– Senhora, vim de muito longe e está muito frio aqui fora.

Ela não queria deixá-lo entrar, sobretudo porque lhe dissera que viera para levar os gémeos. E porque queria ficar com eles, mas aquele homem tinha direitos legais que Rachel não podia ignorar.

Contrariada, desviou-se e deixou-o entrar. O oficial com quem falara dissera-lhe que Sullivan era um homem honesto. Muito bem.

Rachel suspirou e fechou a porta. Depois, cerrou os dentes ao vê-lo à frente da lareira. O seu corpo enorme fazia com que a sala dela, pintada de azul e cinzento, parecesse demasiado pequena.

E mais desordenada do que ela pensara. Os bebés tinham chegado com muitas necessidades. Arrumar a casa era um luxo, tal como dormir e tomar banho.

Os gritos de Jolie do quarto fizeram Rachel lembrar-se do que estivera a fazer antes de abrir a porta. Sorriu, divertida. Estivera a pensar que estava na guerra e ali estava um dos seus inimigos.

Aquele homem queria as crianças? Então, ia ajudar.

– Fico contente por estar aqui – comentou, tentando ignorar o desprezo com que Sullivan olhava em seu redor e segurando-o pelo braço para o levar para o quarto. – Porque os gémeos precisam de um banho.

Sullivan não resistiu. Tirou os óculos de sol, deixando à vista uns olhos azuis e inexpressivos, e pousou-os em cima da cama juntamente com o seu casaco.

Jolie parou de chorar imediatamente ao olhar para ele. Rachel não a culpava. A t-shirt de algodão que vestia marcava-lhe os peitorais duros e os ombros. Tinha os braços fortes e bronzeados. Aquecia o quarto melhor do que uma lareira.

Rachel não devia ter reparado naquilo, mas não conseguiu evitá-lo, sobretudo quando Sullivan se aproximou para limpar o queixo de Jolie.

– O que se passou? – quis saber.

Rachel explicou-lhe os costumes de Cody.

Sullivan arqueou uma das suas sobrancelhas escuras.

– Talvez devesse vigiá-los melhor.

– Oh, como não me terá ocorrido antes? – estúpido! Rachel pegou em Jolie ao colo. – Pegue em Cody. A casa de banho é ali.

Rachel tremeu ao perceber que havia toalhas e roupa suja por todos os lados. Metade do seu estojo de primeiros-socorros estava no lavatório. E também havia… um garfo?

Tentou ignorar o caos e a vergonha que estava a passar e dobrou-se para abrir a torneira da banheira. Quando a água começou a sair quente, ajoelhou-se sobre uma toalha que deixara ao lado da banheira da última vez que dera banho às crianças. Depois, pôs Jolie na água.

– Vigie os bebés – pediu a Sullivan, levantando-se. – Vou procurar toalhas limpas.

– Isso seria bom – respondeu ele, sem se incomodar em esconder o seu desdém.

Surpreendida, Rachel virou-se para o enfrentar, mas ele estava concentrado nas crianças. Hesitou durante alguns segundos; não sabia se devia tranquilizar-se ou desafiá-lo.

Por um lado, tinha de admitir que a casa estava muito desarrumada e, por outro, só estava há seis dias com as crianças. Como é que aquele tipo se atrevia a julgá-la?

Teria gostado de ver se ele era capaz de o fazer melhor.

Não, virou-se e foi buscar as toalhas. Era melhor não o desafiar, porque então levaria os gémeos e ela precisava de cuidar deles, estar lá para eles, já que não estivera lá para a sua irmã.

Se Sullivan pensava que ia deixar que os levasse tão facilmente, estava errado.

– Como conheceu Crystal? – perguntou Rachel, quando voltou para a casa de banho.

Ajoelhou-se ao seu lado, deixando bastante espaço no meio. Olhou para ele e tentou fingir que não via que as crianças lhe tinham molhado a t-shirt, que se colava ao seu peito impressionante.

– Ei! – gritou Cody, contente, e salpicou água com as duas mãos, molhando todos. Jolie afastou-se, caindo para um lado. Rachel tentou segurá-la, mas Sullivan chegou primeiro com as suas mãos grandes e competentes.

Segurou-a com tanto cuidado que a fez rir-se. Parecia muito calmo, apesar de, evidentemente, a situação o frustrar.

– Não conhecia Crystal – respondeu ele finalmente, enquanto coçava a barriga de Jolie. – Pelo menos, não a conhecia bem. Tony Valenti era o meu amigo. Trabalhávamos juntos.

– O pai dos gémeos?

– Sim.

– Também era militar?

– Sim – fez uma breve pausa. – Salvou-me a vida.

– Estou a ver – sim. E a coisa não tinha bom aspecto. Sullivan era um homem honrado e sentia-se obrigado a cuidar dos gémeos porque o devia ao seu amigo.

Uma hora mais tarde, os bebés já tinha tomado banho, já estavam vestidos e já tinham jantado. Rachel deixou Jolie no parque e deu-lhe alguns blocos de plástico. Tinha de admitir que mais duas mãos tinham feito com que as coisas fossem muito mais fáceis. E mais rápidas. Ela teria demorado quase o dobro do tempo a fazer tudo.

Virou-se para o sofá, onde Sullivan estava sentado, com Cody. O menino olhou para ele e sorriu, mostrando dois dentes. O homem passou-lhe um dedo pela face e pô-lo de joelhos.

Cody agarrou-lhe numa madeixa de cabelo.

Sullivan soltou-se com cuidado.

Dar-se-iam bem muito depressa.

Rachel cruzou os braços, não queria admitir que a imagem lhe parecia enternecedora. Dirigiu-se para o lado oposto do sofá e começou a dobrar a roupa limpa que havia no canto.

– Quais são os seus planos com os gémeos? – perguntou.

Ele arqueou uma sobrancelha, surpreendido por ela ser tão directa.

– Planeei cumprir com o que o meu amigo me pediu e levá-los para San Diego para que cresçam lá.

Rachel sentiu um aperto no coração ao ver os seus piores receios confirmados.

– Está bem. E eu?

– Muito simples. Espero que renuncie à custódia.

– Simples? – Rachel quase se engasgou ao repetir a palavra. – Como pode dizer que é simples com esse bebé ao colo?

Ele franziu o sobrolho e mudou o bebé de posição. Cody deitou a cabeça para trás e olhou para a cara deles. Os dois voltaram a comunicar-se em silêncio.

Depois, Sullivan olhou para Rachel.

– Entendo que não seja fácil para si. Mas é o melhor.

– Não entende nada. Falhei uma vez à minha irmã. Não voltarei a falhar. Quando morreu, o seu último desejo foi que eu criasse estas crianças. E é o que vou fazer.

Ele continuou a olhar para ela e, depois, inclinou a cabeça.

– A sua irmã nunca quis que os criasse.

Rachel deitou a cabeça para trás e, depois, para a frente, como se lhe tivessem dado um murro no queixo. Se Sullivan lhe tivesse batido, não a teria magoado mais.

Rachel sentiu uma culpa que tinha origem no passado, mas obrigou-se a afastá-la da sua mente. Crystal e ela tinham deixado o passado para trás quando os seus pais tinham falecido, há três anos, e Crystal fora viver com Rachel. Quando Crystal fora estudar para a Universidade de San Diego, tinham continuado em contacto por telefone e correio electrónico.

Rachel era a única família que Crystal tinha. Apesar do cansaço da semana anterior, Rachel sempre acreditara que a sua irmã queria que ela tratasse de Jolie e Cody.

Esfregou os braços, como se tivesse frio, mas quando percebeu que Sullivan a observava, cerrou os punhos e pô-los ao lado do corpo.

– Como pode dizer algo tão horrível? – perguntou.

– Eu só sei o que Tony me contou. Crystal não queria que ele nomeasse um tutor sem a consultar, foi por isso que a nomeou.

– O que demonstra que queria que eu criasse os seus filhos – replicou ela, ficando mais tranquila.

– Não. Não se ofenda, mas Tony não queria que alguém que fugisse da vida e das responsabilidades e que não fosse capaz de manter uma relação cuidasse dos seus filhos.

Rachel quis desmentir aquilo. Não podia acreditar que aquilo estivesse a acontecer. Mas era real. Ele estava ali, na sala dela, e não ia fazê-lo mudar de opinião.

– Não acredito. E se é uma brincadeira, parece-me de muito mau gosto.

– Não é nenhuma brincadeira – ele hesitou. Era evidente que tinha informação que não queria partilhar com ela. – Isso seria cruel. Ouça, eu pertenço a uma família muito numerosa e unida e Tony fazia parte dela. Ele queria que os gémeos também tivessem esses laços de união.

Sullivan baixou-se para recuperar o seu casaco e tirar alguns papéis. Estendeu-os a Rachel.

– Trouxe alguns documentos para assinar, para me ceder a custódia.

Contrariada, Rachel olhou para os papéis que lhe oferecia. Não queria pegar neles, não queria pensar que tinha razão a respeito dos motivos da sua irmã para a nomear como tutora, mas que aprendera há muito tempo que não servia de nada enganar-se.

Nem tentar evitar a realidade.

Ele olhou em seu redor e, depois, olhou para ela nos olhos.

– É evidente que a situação está fora do seu controlo – comentou.

– Isso é ridículo! – defendeu-se ela, ignorando os papéis e segurando nos babetes das crianças. – Não está fora do meu controlo. Só preciso de um pouco de tempo para me habituar.

Ele levantou-se e deixou Cody ao lado de Jolie, no parque.

– E enquanto se habitua, as crianças sofrem.

Rachel sentiu que a raiva que estava a conter desde que abrira a porta começava a bulir no seu interior. Pôs as mãos na anca e olhou para ele, indignada.

– Como se atreve? Não sofreram. Estou um pouco atrasada nos trabalhos da casa. E então? Apanhou-me num mau dia. Costumo arrumar quando estão a dormir, mas ontem à noite tinha de escrever. Tinha de fazer uma entrega.

Ele apontou para a sala desarrumada, os olhos azuis brilhavam de impaciência.

– Isto está aqui acumulado há mais de um dia. Torne as coisas fáceis para os dois. Renuncie à custódia e não terá de se habituar, não terá de andar atrás deles a arrumar.

– Basta! – Rachel não aguentava mais.

Entrou no seu quarto e pegou no saco das fraldas. Foi ao fraldário e arrumou fraldas, dois pijamas, um pacote de toalhetes e o leite em pó para o biberão no saco.

– Acha que pode fazer melhor do que eu? – perguntou, passando ao lado de Sullivan, a caminho da cozinha.

– Acho que é melhor acalmar-se – respondeu ele, com tanta calma que Rachel ficou ainda mais nervosa.

Ela abriu a porta do frigorífico e suspirou ao sentir que a unha do dedo polegar ficava presa e se partia. Os seus olhos encheram-se de lágrimas, mas conteve-as. Não queria mostrar nenhum sinal de fraqueza à frente daquele homem frio que a observava e que julgava todos os seus movimentos.

– Estou tranquila – declarou, arrancando a unha partida e pondo o dedo na boca enquanto segurava a porta do frigorífico com a anca, tirava dois biberões e os punha no saco das fraldas.

Dirigiu-se para ele e pôs-lhe o saco nos braços.

– Estou lindamente!

Foi até ao parque, pegou em Jolie ao colo. Agarrou em duas mantas e tapou-a com uma delas. Depois, atirou a outra a Sullivan, que olhava para ela com receio.

– Traga Cody.

– O que está a acontecer aqui, Rachel?

– Estou a fazer-lhe um favor – respondeu ela, procurando o seu casaco e tirando as chaves do carro. Depois, dirigiu-se para a porta.

– Vai assinar os papéis?

Ela riu-se.

– Ainda melhor. Não vou assiná-los.

Ele seguiu-a até ao Toyota e fê-la virar-se, com Jolie ao colo.

– Onde pensa que vai?

– Eu não vou a lado nenhum. O senhor é que se vai embora – tirou o saco com as coisas dos bebés, abriu a porta e atirou-o lá para dentro. – Queria os gémeos? Aqui os tem. Durante as próximas vinte e quatro horas.

– Desculpe? Não estou habituado a receber ordens.

– Claro que está, está no exército.

Não podia discutir isso.

A expressão dele não mudou, não ia ceder assim tão facilmente, mas ergueu-se, como se se preparasse para lutar e isso indicava que Rachel conseguira acertar onde mais lhe doía.

Ela devia ter-se sentido envergonhada pela satisfação que sentia, mas aquele tipo estava a ameaçá-la a demasiados níveis.

– Parece que pensa que é fácil tratar de dois bebés – continuou Rachel, abrindo a porta de trás, sentando Jolie e prendendo-a na sua cadeira. – Muito bem. Vai ter uma oportunidade.

Sullivan deixara a porta aberta. Cody não gostava de ficar sozinho na casa e começou a gritar. Rachel olhou para Sullivan com desdém.

– Talvez queira começar por ir buscar Cody – sugeriu.

– Só quando entender o que se passa aqui.

Ela fechou a porta do carro e manteve a distância, permanecendo afastada da sua atracção. Como era possível que aquele estranho tivesse tal efeito nela?

– A primeira coisa que tem de saber é que não tem de se ir embora quando um bebé chora.

Ele passou uma mão pelo cabelo escuro.

– Tem razão.

Voltou para a casa e regressou alguns segundos depois com o casaco debaixo de um braço e Cody enrolado numa manta.

Está bem, Sullivan estava a começar a agir com bom-senso.

Rachel tentou pegar em Cody ao colo, mas Sullivan segurava-o com força. Ela arqueou uma sobrancelha e esperou.

– Antes temos de falar – afirmou ele.

– Não, falaremos depois. Depois de ter tentado dar de comer e mudar dois bebés. Depois de ter passado a noite sem dormir a tentar adormecê-los. Depois de não ter conseguido lavar os dentes e de terem manchado a sua melhor camisa. Então, falaremos.

Ele cerrou os dentes e abanou a cabeça.

– Como sabe que não vou levá-los para San Diego?

Ela olhou para ele com os olhos semicerrados e agarrou em Cody com força.

– Porque sei que é um homem de honra. Íntegro. Falei com o seu comandante – deu a volta ao todo-o-terreno e instalou Cody na sua cadeira. Deu-lhe um beijo na cabeça e tapou-o com a manta.

Depois, baixou-se, apanhou alguns brinquedos do chão e deu-os aos bebés. Eles levaram-nos imediatamente à boca. Confiavam nela. A vida de um bebé de dez meses não era nada complicada.

– Faço-o por vocês, crianças – replicou. – Não tenham piedade.

Depois, voltou para o outro lado do carro.

– Além disso, não assinei os papéis – depois estendeu o braço com a palma da mão para cima. – As chaves.

– Pensei que ia levar as crianças – recordou-lhe ele, com os ombros ainda em tensão.

– Quero as chaves do seu jipe. Vai levar o meu carro. Eu precisarei do seu.

Ele franziu o sobrolho, era evidente que não gostava da situação.

– Olhe, não vou renunciar aos bebés sem lutar por eles, mas estou cansada, suja e faminta. Não estou preparada para discutir o assunto. E o senhor também não estará enquanto não passar algum tempo com os gémeos. Portanto, troquemos as chaves e vemo-nos amanhã.

Ele hesitou por um instante.

Finalmente, deu-lhe as chaves do seu carro e aceitou as dela.

– Espero que perceba o que está a fazer – replicou Sullivan, entrando no todo-o-terreno e pondo o cinto. – A honra e a integridade não me transformam num cavalheiro – fechou a porta e pôs o veículo a trabalhar. Depois, abriu a janela. – Sou um soldado. Os soldados nunca abandonam os seus homens.

Rachel observou como o carro desaparecia pelo caminho e rezou para que não tivesse cometido o maior erro de toda a sua vida.

Capítulo 2

Ford estacionou à frente do quarto do seu hotel, apoiou as costas no banco e fechou os olhos. Saíra da casa de Rachel Adams há vinte horas e já estava disposto a voltar lá com a cabeça baixa e o rabo entre as pernas.

Que humilhante!

Usando toda a prática que aprendera nos oito anos que passara no exército, arriscou-se a mexer-se para olhar para os bebés, que estavam no banco de trás. Jolie, tão limpa como a sentara, dormia com o gorro e abraçada ao biberão. Cody, que perdera o gorro e os sapatos há muito tempo, tinha a face suja de molho de tomate e uma batata frita na mão.

Conseguira adormecê-los há uma hora.

Acomodou-se no banco. Tencionava ficar ali, sem se mexer, enquanto os bebés estivessem a dormir.

Só a sua teimosia é que o impedira de voltar para casa de Rachel há várias horas. Como é que ela conseguira fazer tudo sozinha durante seis dias?

Telefonara para casa para que a avó e outros membros da família, e amigos, lhe dessem algum conselho, mas nada parecia funcionar com os gémeos. Nada do que fizera, dissera ou cantara, sim, também cantara, funcionara.

Era evidente que as crianças queriam voltar para Rachel.

E ele também queria voltar para ao pé dela e isso não tinha nada a ver com as curvas doces que se escondiam por baixo da sua t-shirt cheia de manchas. Muito bem, mentia. Nenhum homem teria podido permanecer alheio ao seu corpo esbelto, mas o seu rabo e o seu peito não tinham nada a ver com aquilo. Enganara-se com ela. Tinha de admitir que ela tratara das crianças durante seis dias com paciência e devoção.

Não conseguira dormir mais de duas horas naquela noite. E ela estivera assim durante seis noites. Não era de estranhar que os seus bonitos olhos azuis esverdeados estivessem toldados pelas olheiras.

Era uma mulher lutadora. Uma fera loira, decidida a interpor-se entre ele e as suas crias. Mas, mesmo assim, não conseguiria ganhar.

Evidentemente, descuidara para cuidar dos bebés. Ford sentiu o instinto protector, em vez de pensar em como convencê-la de que as crianças estariam melhor com ele.

Dissera-lhe que um soldado nunca abandonava um homem e era a verdade. Não podia deixar os gémeos de Tony aos cuidados de outra pessoa.

Ficou tenso e olhou pela janela exactamente quando o xerife local aparecia à frente dele. Ford levantou uma mão e saiu do carro.

– Agente – começou Ford, cumprimentando o homem, que parecia muito limpo vestido com o seu uniforme. Segundo a sua placa, era o xerife Mitchell. – Como posso ajudá-lo?

– Senhor – respondeu o xerife, cruzando os braços e apontando para o todo-o-terreno de Rachel. – Algum problema?

– Não – respondeu Ford, deixando as mãos à vista para que o outro homem não se sentisse ameaçado. Será que o dono do hotel o chamara? Fora duas vezes ao seu quarto para dizer que os outros clientes estavam a queixar-se dos choros das crianças. – Nenhum problema.

A última coisa que queria era meter-se em confusões com os agentes locais.

– Este veículo pertence a Rachel Adams – comentou o xerife Mitchell, olhando pela janela de trás. – Estas são as crianças dela.

– Sim – o que é que Rachel estava a fazer? Será que se arrependera de o ter deixado levar as crianças? – Ela telefonou para se queixar?

– Não precisamos que ninguém nos telefone para nos preocuparmos com os cidadãos de Scobey.

– Tenho a certeza de que apreciam a sua diligência – replicou Ford, que crescera numa cidade pequena e sabia a autoridade que tinha o xerife nelas.

– O que está a fazer na nossa cidade?

– Isso é entre mim e a senhora Adams – respondeu ele, que não tencionava contar-lhe nada.

– Ouvi dizer que houve queixas devido aos choros dos bebés.

Ford estava a começar a ficar sem paciência. Abriu a porta do lado de Cody e apontou lá para dentro.

– Julgue por si próprio, estão bem. Ainda estão a habituar-se à perda dos seus pais. Têm o direito de chorar.

– Suponho que sim – comentou o xerife, ajustando as calças e espreitando para olhar para as crianças. Satisfeito, voltou a endireitar-se. – O que estão a fazer aqui fora?

Ford franziu o sobrolho ao ver que Cody começava a mexer-se. Fechou a porta com cuidado.

– Não dormiram bem. Dei um passeio para os acalmar.

– Está bem. Vou deixá-lo ir – anunciou Mitchell, que parecia decepcionado por não ter podido deter Ford. – Mas tenha cuidado, Rachel Adams não está sozinha em Scobey.

– Há aproximadamente uma hora que não pára de nevar – indicou Rachel, franzindo o sobrolho enquanto olhava pela janela. O céu estava coberto e o vento soprava com força. Esperava que o mau tempo não impedisse Sullivan de lhe devolver os gémeos. Talvez devesse telefonar-lhe e dizer-lhe para voltar o mais depressa possível.

– Posso parar por lá a caminho de casa – ofereceu-se Sam Mitchell. – Para me certificar de que está bem – telefonara-lhe para a avisar de que uma frente fria estava a avançar rapidamente.

Já mencionara que vira Ford Sullivan na cidade. De certeza que fora ao hotel à procura dele.

– Mitch, estou bem. Não precisas de vir.

Acabara com ele há quase dois anos, mas o xerife continuava a meter-se nos seus assuntos com a esperança de que voltasse a surgir a paixão entre ambos.

– Acho que estão a sentir saudades tuas na clínica.

– Hum…

– O cão da senhora Regent, Poopsy, mordeu alguns rapazes.

– Oh…

– Sim. Poopsy sente a tua falta. Dizem que a senhora Regent só voltará a levar Poopsy à clínica quando tu voltares.

– Que alegria!

Rachel abriu outra mensagem de correio electrónico e perguntou-se como é que aquele homem conseguia manter uma conversa sozinho durante tanto tempo.

Quase sem o ouvir, mandou o seu último artigo e, depois, desligou o computador. Ao levantar o olhar, viu o seu todo-o-terreno pela janela.

Depois, olhou para o relógio. Sullivan chegava cedo. Quase três horas antes de tempo.

Sim!

– Mitch, tenho de desligar. Sullivan acabou de chegar com os bebés.

– Continuo sem gostar do facto de estares sozinha com ele. Telefona-me se tiveres algum problema.

– É militar, Mitch. Ou estou em boas mãos ou nunca encontrarás o meu cadáver.

– Não és nada engraçada!

– Eu sei.

Ainda que Rachel não receasse pela sua vida, mas pela sua tranquilidade moral. Não só porque aquele homem ameaçara levar os gémeos, mas porque sonhara com as suas mãos enormes a acariciá-la.

Bateram à porta.

– Mitch, ficarei bem. Tenho de ir – desligou o telefone e dirigiu-se para a porta. Não queria que Sullivan percebesse que estava acalorada e incomodada.

Abriu a porta e espreitou. Sullivan estava sozinho no alpendre.

– Sullivan. Chegou muito cedo.

Ele passou uma mão pelo cabelo. Era o primeiro sinal de vulnerabilidade que mostrava. Atrás dele nevava ainda mais do que há alguns minutos. Os flocos brancos caíam sobre os seus ombros largos e o cabelo escuro. Rachel alegrou-se por vê-lo despenteado.

Ele corou. Rachel pestanejou, surpreendida. Será que corava de raiva ou de vergonha?

– Chama-me Ford, ou Mustang, se preferires. Deixa-me ser directo – pediu, olhando para ela nos olhos. – Lamento muito. Tirei conclusões precipitadas. Fizeste um trabalho óptimo a tratar de Cody e Jolie sozinha durante a última semana. Obrigado por teres estado presente para eles.

Que injusto! Ela esperara vê-lo num momento de fraqueza e, em vez disso, ele mostrava toda a sua força, desculpando-se com sinceridade. E queria que lhe chamasse Mustang? Imaginou os bonitos cavalos de corridas, orgulhosos e selvagens, livres e temerários; conseguia imaginar porque lhe tinham dado aquela alcunha.

Não, continuaria a chamá-lo Sullivan, que era muito menos íntimo.

– Já chega. Ou vais fazer-me chorar – ela saiu. – Vamos pôr as crianças em casa, está a nevar.

Abriu a porta que ficava mais perto, tirou Jolie e voltou para casa. Os seus dentes batiam de frio, já que não vestira casaco, portanto foi directa ao fogo.

Estendeu uma manta no chão e deixou Jolie nela com alguns carros de brinquedo. Depois, recuou e observou como Sullivan deixava Cody na manta.

Depois, enrolou-se num lado do sofá, enquanto Sullivan andava de um lado para o outro.

Daquela vez, Rachel não tinha de se envergonhar. Estivera muito ocupada durante as últimas vinte e uma horas. Bom, passara a primeira parte do tempo a dormir, mas depois limpara a casa e arrumara a roupa. Além disso, escrevera alguns artigos a respeito dos costumes dos animais.

– A casa tem um aspecto óptimo.

– Tu não – Jolie parou de brincar com os carros e foi a gatinhar até Rachel, que pegou nela ao colo. – Quanto tempo dormiste?

– Já dormi menos antes – respondeu ele. – O problema não foi a falta de sono, mas a impotência. Sou um homem de acção, mas nada do que fiz pareceu estar bem.

– Isso aconteceu-me durante os três primeiros dias, até começarem a tranquilizar-se.

A conversa estava a correr bem. Até a fez rir-se quando lhe contou que encontrara os cereais na mala, e que, dado que não tinha onde sentar as crianças, os pusera nas cadeiras do carro.

– Pelo menos, pararam de chorar enquanto comiam – comentou Sullivan, segurando em Cody, que estava a tentar subir-lhe pela perna.

– Consolam-se um ao outro – replicou Rachel, passando a mão pelo cabelo suave de Jolie.

O olhar de Sullivan disse tudo.

– Queres dizer que se alimentam das emoções um do outro. Um começa a chorar e o outro tenta superá-lo.

– Tens de recordar que estão traumatizados – Rachel defendeu os seus sobrinhos. – Perderam os seus pais. Vai ser difícil recuperar.

– Sim e quanto mais depressa o fizerem, melhor. Consideraste assinar os papéis?

Rachel sentiu-se decepcionada. Mas não ia assinar. Nem então nem nunca.

– Acho que devias ser tu a assiná-los – desafiou-o.

Antes de ter tempo de responder, as luzes tremeram. Uma vez. Duas. Depois, voltaram.

– Oh!

Segurando em Jolie com força, Rachel aproximou-se da janela. O vento era tão forte que nevava quase na horizontal e muito. O que confirmava os seus receios.

Era uma tempestade de neve.

– Tem mau aspecto – comentou Sullivan, de trás dela.

Rachel cheirou o perfume dele. Cheirava a almíscar e a homem, uma mistura embriagadora, que quase conseguiu distraí-la da tempestade.

Mas aquilo teria sido um erro terrível.

– Sim. Uma tempestade de neve. Não disseram nada nas notícias – era evidente que devia ter prestado atenção a Mitch.

– Não seria a primeira vez que se enganavam.

Rachel riu-se.

– Tens razão.

O seu todo-o-terreno já estava enterrado por baixo de uma camada de neve e de gelo. Tinha de o levar para a garagem se não quisesse que o motor congelasse.

As luzes voltaram a tremer. Depois, restabeleceram-se.

Mas isso não duraria.

– Tens um gerador? – perguntou ele.

– O combustível está no celeiro.

Rachel esperava ter o suficiente para passar a tempestade. Dado que vivia sozinha, aprendera a estar preparada, mas uma tempestade destruíra uma torre no fim de Setembro e deixara-a sem electricidade. Não tivera tempo de repor o combustível antes de receber as notícias terríveis da morte de Crystal. E depois estivera tão ocupada com os gémeos que também não pensara nisso.

– Devia ir-me embora. Suponho que me deixarão ficar no hotel se voltar sem as crianças.

– Não podes conduzir assim – Rachel estendeu-lhe Jolie e foi ao armário buscar um casaco e umas botas. – Dá-me as minhas chaves.

– Conduzi em situações piores.

– Portanto, queres voltar a deixar-me sozinha com os bebés? – calçara uma bota e tinha a outra não. Parou para apoiar as mãos nas ancas. – Olha, eu também não gosto que fiques, mas não deixaria que o meu pior inimigo se fosse embora com semelhante tempestade. Espera, tu és o meu pior inimigo.

Ele arqueou uma sobrancelha enquanto embalava os bebés, mas limitou-se a dizer:

– Só estamos a nove quilómetros da cidade.

– Só? – Rachel calçou a outra bota. Que Deus ajudasse os turistas ignorantes. – De onde és?

– Do sul da Califórnia. Mas fui treinado para todo o tipo de situações climáticas extremas.

– Não duvido. Mas não precisas de o fazer. Agora, dá-me as chaves.

Ele franziu o sobrolho e olhou pela janela.

– Tu também não devias sair.

– Tenho de sair. Se não levar o todo-o-terreno para a garagem, ficarei sem motor.

– Eu faço-o.

Ela abanou a cabeça enquanto punha um cachecol para tapar a garganta e as orelhas.

– Também preciso de combustível para o gerador e trarei um pouco de lenha.

Ele interpôs-se no seu caminho.

– Eu faço-o.

– Olha, já me ajuda muito que fiques com os gémeos – Rachel pôs as luvas e esperou que ele se afastasse. – Sei o que estou a fazer.

Ele cedeu e pôs a mão no bolso das calças para lhe dar as chaves.

– Tem cuidado.

– Tenho sempre. Há velas e fósforos na cozinha, no armário que está à esquerda do lava-loiça. No caso de faltar a luz antes de eu voltar.

Pôs a mão no armário e tirou um rolo de corda, que pôs ao ombro.

– Para que é isso? – quis saber Sullivan.

– Para me guiar na neve. Ato uma ponta ao alpendre e a outra à minha cintura. Assim não tenho problemas para voltar para casa.

– Isto é ridículo! Não posso deixar-te ir sozinha.

– Acho que já tivemos essa conversa. Vivo sozinha, Sullivan. Faço o necessário para sobreviver. Independentemente de ter comigo um machão – tirou um segundo par de luvas e pô-las sobre o primeiro. – E não tenho tempo para discutir.

Sem esperar por uma resposta, abriu a porta, saiu e fechou-a atrás dela.

Ford olhou para os dois bebés, que estavam ao seu colo. A sua segurança tinha de ser a prioridade, mas não gostava que Rachel tivesse de lutar sozinha contra os elementos.

Levou as crianças para o parque. Os dois aproximaram-se imediatamente da beira e levantaram-se. Ele deu-lhes alguns blocos de plástico para que se entretivessem. Nem Cody nem Jolie prestaram atenção aos blocos, mas protestaram.

Ele queria ir à janela e verificar os progressos de Rachel, porém, em vez disso, aproximou-se da lareira. Já estava a apagar-se. Pôs outro toro e, depois, começou a caminhar de um lado para o outro.

– O que dizes, Cody? Nós somos os homens. É o nosso dever proteger as mulheres. Não devíamos estar aqui e ela lá fora.

– «Ma ma ma ma»? – Jolie pôs um dedo na boca.

Ford parou e olhou para Jolie. Era estranho ouvi-la a chamar «mamã», ou algo parecido, a Rachel. E fê-lo pensar em como a vida dela mudara num período de tempo tão curto.

Tony e Crystal já não estavam lá, tinham falecido num terramoto no México.

Ao voltar da sua missão, surpreendera-se ao saber que era o tutor dos filhos de Tony. Sim, era verdade que aceitara a responsabilidade, mas nunca pensara que fosse necessário assumi-la. E muito menos tão cedo. Mas, quer estivesse preparado ou não, devia-o a Tony. Ele salvara-lhe a vida e a honra e a amizade obrigavam-no a cumprir o seu último desejo.

Tony sempre invejara a família tão unida que Ford tinha, por isso quisera que fosse ele a criar os seus filhos. O que significava que tinha de levar as crianças para casa. Iria viver com a sua avó, que acedera a cuidar deles. E também contrataria uma ama.

Ford não queria magoar Rachel, mas as coisas teriam de ser assim.

A tempestade, no entanto, ia atrasar o inevitável.

Rachel surpreendera-o muito. Os seus olhos e aquele cabelo loiro, curto e atrevido, escondiam uma paixão interior que certamente quase ninguém conhecia.

Apesar de a sua maneira de o proteger o frustrasse, respeitava o seu espírito, o seu desejo de ser capaz de cuidar das crianças.

Só tinha de a convencer de que elas estariam melhor com ele.

Depois de a ter salvado de congelar lá fora.

Apesar da sua teimosia e da sua força, quase não devia pesar nada. Atada ao extremo da corda, teria de lutar como um gato contra um furacão.

Só tinham passado cinco minutos desde que ela saíra, mas Ford não conseguia suportar mais. A sua avó não o ensinara a sentar-se enquanto uma mulher fazia o trabalho árduo. E muito menos enquanto arriscava a sua vida numa tempestade como aquela.

Aproximou-se dos bebés e percebeu que estavam a dormir, abraçados um ao outro.

– Isso é o que eu chamo jogar em equipa – comentou, pondo-lhes uma manta por cima. – Fiquem aí. Eu vou ajudar Rachel.

O frio atacava Rachel, congelando as partes do seu corpo que não estavam cobertas, travando-a, fazendo com que cada respiração a cortasse como o gelo. A neve e a chuva batiam no pára-brisas, dificultando a visão.

O motor não arrancou nas primeiras tentativas. Rachel temeu que fosse demasiado tarde. Fazendo figas, tentou uma última vez e respirou com mais tranquilidade ao ver que finalmente arrancava.

Graças a Deus. Não queria que Sullivan ficasse ali preso mais tempo do que o necessário. Infelizmente, o necessário seria pelo menos alguns dias.

E, o pior, quando o tempo melhorasse, Sullivan queria levar os gémeos. Nem sequer conseguia pensar nisso.

Portanto, não pensaria.

Como se isso fosse possível.

Enquanto esperava que o motor aquecesse, Rachel apoiou a cabeça no volante e perguntou-se o que ia fazer se Sullivan lutasse para ficar com a custódia das crianças.

Ela vivia numa casa de um só quarto em Scobey, em Montana, uma localidade de pouco mais de mil habitantes. E trabalhava como assistente de veterinária numa clínica porque gostava mais de lidar com animais do que com pessoas.

O vento bateu no carro enquanto ela se perguntava o que podia oferecer aos gémeos, para além de uma casa pequena e de um dom inexistente para lidar com os outros.

Um lar. Uma carícia a meio da noite. Uma família a que pertencer. As respostas provinham do mais profundo da sua alma, onde escondia as suas esperanças mais secretas, os seus sonhos.

Uma família. Rachel prometeu-se que lutaria para que Cody e Jolie soubessem o que era fazer parte de uma família.

Porque ela nunca teria achado que podia amar tanto alguém, nem em tão pouco tempo.

E ninguém, nem Sullivan, nem nenhuma outra pessoa, ia tirar-lhe aquilo.

Levantou a cabeça e agarrou na alavanca das mudanças.

De repente, a porta do carro abriu-se. Ela deu um salto e gritou.

Capítulo 3

Sullivan apareceu à porta do todo-o-terreno.

– Idiota! – gritou Rachel. – Assustaste-me! O que estás a fazer aqui?

– Vim… ajudar.

A tempestade levou parte da sua resposta, mas Rachel captou o essencial.

– As crianças? – gritou, preocupada.

Ele aproximou-se para lhe falar directamente ao ouvido.

– No parque. A dormir. Despacha-te para que possamos acabar isto e voltar para dentro.

Ela abanou a cabeça. Não ia passar por cima da alavanca de mudanças com aquele casaco enorme e as botas.

– Dá a volta.

Surpreendentemente, ele fê-lo sem discutir.

Rachel conduziu muito devagar até ao velho celeiro que servia de garagem. Deixou o todo-o-terreno com o motor ligado enquanto Sullivan lutava para abrir as portas enormes. Uma vez lá dentro, Rachel procurou uma manta velha e taparam o veículo.

– Podia tê-lo feito sozinha – declarou, ressentidamente.

– Guarda as unhas, gatinha. Isto não tem nada a ver com as tuas capacidades – declarou ele, sem deixar de segurar no seu lado da manta. – Sou demasiado educado para te deixar sozinha.

– Mas as crianças não estão bem sozinhas.

– Por isso é melhor trabalharmos juntos para podermos voltar para ao pé delas o mais depressa possível – argumentou ele, dando a volta ao carro. Vestira o impermeável amarelo de Rachel, que ficava justo.

Parecia forte, tranquilo, confiante e um pouco divertido enquanto tirava o seu saco do banco de trás.

Ela dirigiu-se para onde guardava o combustível para o gerador. Sentiu um aperto no coração ao ver que só teriam o suficiente para alguns dias.

Sullivan aproximou-se para pegar no combustível.

– É só isso?

Rachel sentiu-se irritada.

– Não costumo ficar sem combustível, mas estive um pouco distraída desde que os gémeos vieram viver comigo.

Todo o seu mundo mudara com a chegada de Cody e Jolie. Felizmente, a clínica veterinária dera-lhe uma baixa por maternidade para que se habituasse à sua presença e horário, mas tudo o resto mudara, até os seus artigos tinham sofrido as consequências.

Não se ocupara das suas tarefas habituais e, naquele caso, podia custar-lhe muito caro.

– É normal. Tiveste de fazer um grande esforço – assentiu ele, sacudindo a lata. – Para quantos dias chegará isto?

A sua compreensão deixou-a sem saber o que dizer.

– Para alguns dias. Um pouco mais, se tivermos cuidado. É provável que fiquemos sem electricidade, mas há muita lenha e propano. E um congelador bem recheado.

Se tivessem sorte, a tempestade de neve teria passado antes de ficarem sem combustível.

Ainda que, depois, as estradas demorassem outro dia ou dois a serem limpas. Demasiado tempo para estar com um homem que não tinha nada que invejar Brad Pitt e que tinha a mania de reagir como menos se esperava. E com dois bebés que ainda estavam inquietos depois de terem sofrido a maior tragédia das suas curtas vidas.

Que sorte!

– Então, teremos cuidado – declarou ele, com uma segurança que indicava que estava habituado a viver situações difíceis. – Precisamos de mais alguma coisa daqui?

– Sim – Rachel abriu um armário e tirou uma lanterna enorme.

Ele pegou na lanterna e saiu à frente dela, que esperou que ele fechasse as portas do celeiro.

Para ir para casa, tinha de lutar contra um muro de neve.

Com os dentes a bater e as mãos trémulas, Rachel esticou a corda que atara à cintura até ela ficar tensa, uma tarefa que foi muito difícil porque não conseguia sentir os dedos das mãos.

Sullivan também agarrou na corda. Rodeou Rachel com a sua força e o seu calor, ajudando-a a avançar.

Era difícil andar, o esforço era cansativo e o frio debilitava-a. Cada passo era uma batalha contra a natureza. O corpo de Sullivan protegeu-a do pior da tempestade e ajudou-a a continuar. Quando viu que chegavam ao canto do alpendre, sentiu-se realmente agradecida pela sua ajuda.

Faltara a luz. Rachel preocupou-se com os bebés, que estavam sozinhos em casa. Esperava que o fogo desse luz suficiente para que não estivessem assustados.

Parou e apontou para a lenha que havia ao lado da casa.

– Temos de encher o depósito de lenha! – gritou. – Talvez não possamos sair de casa durante vários dias.

Ele falou-lhe ao ouvido.

– Eu faço-o. Tu tens de entrar em casa.

– Ajudar-te-ei.

– Poupa-me os heroísmos. Se continuares a bater os dentes com tanta força, vais ficar sem eles.

Ajudou-a a chegar ao alpendre e deu-lhe o combustível e a lanterna. Ela aproximou-se para lhe dizer onde era a porta do depósito de lenha.

Ele assentiu.

– Entra em casa. Cuida dos bebés – e virou-se.

Rachel agarrou-o pelo braço.

– A corda – indicou, tentando desfazer o nó que tinha na cintura.

– Não precisarei dela. Estarei perto da casa.

Tentou ir-se embora, mas ela agarrou-o pelo casaco.

– Não. Leva a corda.

Em vez de discutir, Sullivan pegou na corda. Depois, aproximou-se dela e subiu-lhe o cachecol para lhe tapar as orelhas.

– Entra no calor da casa. Vou-me embora.

Meio congelada, cansada, e mais preocupada com ele do que queria admitir, Rachel entrou em casa com o combustível e a lanterna.

Não conseguia parar de tremer.

Para além do frio e da preocupação de estar isolada do resto do mundo, incomodava-a o facto de se inquietar pela segurança do homem que queria destruir-lhe a vida.

De todos os modos, porque é que a vida havia de começar a ser justa de repente?

Depois de tirar toda a roupa que vestira para sair, Rachel tentou aquecer as mãos com a respiração e foi aos tombos até ao tanque, que ficava ao lado da cozinha. Tinha uma lanterna e uma vela numa estante, por trás da porta. Depois, pôs o gerador a funcionar e foi ver como estavam os bebés.

Sentiu um aperto no coração ao vê-los abraçados e a dormir. Balançou-se, aliviada. Agarrou no corrimão do parque com força. Sentiu-se espantada com a sua inocência e os seus recursos.

Depois de um instante, ouviu a porta e sentiu uma corrente de ar frio.

– Como estão? – perguntou Sullivan, ficando ao seu lado.

Com sentimentos contraditórios, Rachel olhou para ele e viu que tinha o cabelo molhado e a pele vermelha do frio. Apesar de nunca o confessar, fora um alívio vê-lo aparecer.

– Bem. Continuam a dormir.

– Parecem tão tranquilos.

– Sim – Rachel virou-se para que ele não visse que tinha os olhos cheios de lágrimas. – É uma pena que não vá durar muito tempo.

– O que queres dizer?

– Se levares a tua avante, as pessoas em que deviam confiar estarão a tirar-lhes a pouca normalidade que encontraram desde que perderam os seus pais.

– Isso não é assim.

– Claro que é, mas não esqueças que eu não vou abandoná-los.

– Eh, eh! – ele segurou no rosto dela e limpou-lhe uma lágrima com o dedo polegar. – Sei que é difícil. Mas o meu amigo e a tua irmã confiaram-nos o cuidado dos seus filhos porque sabiam que o faríamos. Mesmo que seja difícil.

– Não é justo – declarou ela, afastando-se dele.

Sullivan seguiu-a e abraçou-a.

– Não – admitiu. – Não é. Mas não estás sozinha. Superá-lo-emos juntos.

Rachel queria lutar contra ele, afastá-lo do seu lado e contrariá-lo. Mas era demasiado bom poder apoiar-se em alguém finalmente. Em alguém com um peito forte e uns braços musculados, que cheirava muito bem e que a aquecia com o seu corpo. Rendeu-se e apoiou a cabeça no seu ombro. Fechou os olhos para que ele não conseguisse ver a sua angústia.

– Não quero gostar de ti.

Ele riu-se e acariciou-lhe o cabelo como fizera com Cody. Aquilo tranquilizou-a.

– Bom, continua a pensar assim, amanhã será outro dia. Escuta, tens frio, estás cansada e faminta. Falaremos da custódia das crianças noutro momento. Porque não tomas um duche enquanto eu faço alguma coisa para o jantar?

Tanto a trégua como o duche pareceram excelentes para Rachel.

– Devíamos guardar a água quente.

– Esta noite não. Precisamos de descongelar. Vai tu primeiro enquanto eu vou ver o que há na cozinha.

– E os gémeos?

Sullivan suspirou com força.

– Deixa-os dormir. Não dormiram bem esta noite.

– Passaram a semana toda sem dormir bem.

Talvez fosse essa a razão pela qual Rachel tinha a sensação de que podia ter adormecido assim, com a cabeça apoiada no seu ombro, ouvindo os batimentos do seu coração.

– Sofreram muito – acrescentou.

– Superá-lo-ão com o tempo – declarou ele, apertando-lhe o braço.

Sullivan tinha calor como um aquecedor e aquecia-lhe não só o corpo, como também o coração. Quanto tempo passara desde que um homem a reconfortara?

Na verdade, nunca acontecera. E muito menos o seu pai.

Aquele pensamento fez com que se afastasse dele e recuasse. Não tinha de se apoiar em nenhum homem. No entanto, ele tinha razão, os pais das crianças tinham confiado neles para que fizessem o que fosse melhor para eles. Mas isso não significava que pudesse confiar nele.

No que se referia aos gémeos, por enquanto não estavam de acordo.

Rachel perguntou-se se devia deixá-lo a sós com eles, embora não tivesse muito para fazer. A tempestade impedia que se fosse embora e já lhe demonstrara que sabia tratar deles com carinho.

– Irei tomar um duche – declarou finalmente, indo para o quarto. Ao chegar à porta, virou-se. – Obrigada.

Ele estava a observá-la. Na verdade, estivera a observar o seu rabo. Levantou o olhar para olhar para ela nos olhos; não se desculpou por ter estado a desfrutar da vista, só demonstrou a sua aprovação masculina. Levantou o queixo e fez um gesto de reconhecimento.

Ela tremeu e sentiu aquele instinto feminino que com tanto empenho tentava reprimir.

Fechou a porta, pondo uma barreira entre ela e aquele homem tão perigoso que despertava nela sentimentos que preferia manter enterrados.

Era o momento de fazer uma pausa. Como podia ter passado um segundo nos braços do inimigo? E não exagerava. Qualquer um que quisesse arrebatar-lhe as crianças era o seu inimigo.

Não entendia porque ele queria levar os gémeos. Era militar e solteiro, o seu comandante também lhe dera essa informação e os gémeos só lhe dariam dores de cabeça, mesmo que a sua família o ajudasse.

Talvez quisesse que fosse a sua família a tratar deles.

Sem dúvida, a família era o ponto fraco de Rachel. Uma vez na casa de banho, despiu-se e entrou no duche, deixando que a cascata de água quente lhe tirasse o frio.

Ficou a pensar em Crystal. Quando Rachel saíra de casa, o que mais lhe custara fora deixar a sua irmã mais nova, de apenas dez anos. Mas não conseguira ficar num lugar onde não a amavam.

Quando fizera dezassete anos, descobrira que o homem a quem sempre chamara «pai» não era o seu pai biológico. A notícia destruíra-a, embora graças a ela tivesse entendido muitas coisas, como porque é que se sentira sempre como uma estranha na sua própria casa.

Finalmente, começava a descongelar e pegou no seu sabonete favorito, que cheirava a pêssego.

Rachel compreendia que as coisas tivessem sido muito difíceis para Dan. Tinham-lhe mentido, enganado para que criasse a filha de outro homem. No entanto, dera-lhe de comer, vestira-a, nunca lhe batera… Havia crianças que tinham sofrido mais do que ela.

Rachel culpava a sua mãe. Ela é que mentira, que preferira o seu bem em vez do da sua filha. Stella Adams podia ter dado a Rachel as coisas que Dan lhe negara: tempo, atenção e carinho. Mas Stella preferira não o fazer.

E Rachel nunca a perdoara por isso.

Passou-se por água, fechou a torneira e saiu da banheira. Enrolada numa toalha enorme, foi para o quarto.

Rachel aprendera bem a lição durante a sua infância e não ia mudar como adulta. Antes de lhe partirem o coração, preferia estar sozinha. Tinha relações, mas nenhuma prosperava. Por culpa dela. Ela não queria arriscar-se a deixar que alguém que amasse a rejeitasse.

Outra vez.

Infelizmente, a sua relação com a sua irmã também sofrera por causa daquilo. Mas, ao contrário do que Sullivan dissera, tinham forjado uma nova relação depois da morte dos seus pais.

Rachel recusava-se a acreditar que Crystal tivesse fingido que não tinham essa relação.

Entrou na sala com umas meias grossas e uma camisola velha e parou para verificar se os bebés continuavam a dormir antes de ir para a cozinha. Imaginara que Sullivan teria aberto algumas latas de sopa, mas não fora assim. O cheiro a cebola e tomate fez com que o seu estômago se queixasse.

– Cheira bem!

Ele levantou o olhar, estava a untar pão com manteiga.

– Sim – respondeu, com segurança. – É esparguete, pensei que precisávamos de algo consistente.

Enquanto ela tomava banho, ele mudara de roupa. As calças de ganga e a t-shirt cinzenta realçavam a sua masculinidade. Aquela roupa informal marcava ainda mais os seus ombros largos, as suas coxas musculadas e o rabo firme.

Uma madeixa de cabelo escuro caía-lhe sobre a testa. Rachel lutou contra o desejo de a afastar e de sentir o seu toque suave nos dedos.

Ainda recordava como se sentira bem nos seus braços, portanto dirigiu-se para o frigorífico e tirou uma alface. Precisava de ocupar as suas mãos com algo e os seus pensamentos também.

– Porque não tomas um duche enquanto se torra o pão? – perguntou Rachel. Enquanto se vestia, tomara uma decisão. Quanto menos tempo passasse com ele, melhor. Não seria uma tarefa fácil, tendo em conta que estavam presos numa casa de um só quarto, mas tinha de tentar. – Eu prepararei a salada.

Ele lavou e limpou as mãos.

– Parece-me bem.

Sullivan abriu o forno e baixou-se para pôr lá o pão com alho.

As hormonas de Rachel, que costumavam estar sempre sob controlo, revolucionaram-se. A única coisa que lhe apetecia era aproximar-se dele, pôr as mãos nos bolsos das suas calças e apertar.

Felizmente, ele ergueu-se antes de ela ter tempo de o fazer.

Ela pigarreou.

– Vou buscar uma toalha.

– Obrigado – ele agarrou na toalha e desapareceu na casa de banho.

Rachel suspirou aliviada. Aquele homem ocupava demasiado espaço numa divisão. Só a sua presença carregava o ambiente. A recente viagem mental de Rachel ao passado recordava-lhe exactamente porque tinha de se manter afastada dele. Tinha muito a perder e nada a ganhar.

Ele procedia de um mundo diferente e só estaria ali o tempo suficiente para destruir a sua vida.

Ouviu um gemido e foi à sala. Jolie estava a mexer-se no parque. Rachel enrolou-a numa manta e deu-lhe palmadinhas nas costas até ela voltar a adormecer. Cody não se mexeu.

Estariam melhor com Sullivan do que com ela? Ele mencionara que tinha uma família grande, muito unida. Exactamente o que ela sonhara quando era criança.

Mesmo assim, só de pensar nisso, parecia que estava a trair aquelas crianças que tanto amava.

Ouviu que fechavam a torneira do duche e entrou em acção. Tirou o pão quando ainda estava dourado e, depois, preparou a salada de alface, cebolinhas e tomates.

Quando Sullivan saiu da casa de banho, mais uma vez vestido com as calças de ganga e a t-shirt, já tinha posto a mesa.

– O jantar está pronto!

– Óptimo! – Ford passou os dedos pelo cabelo molhado antes de puxar uma cadeira para que Rachel se sentasse.

Ela franziu o sobrolho ao ver o seu gesto e olhou para ele com cautela.

– A quem estás a tentar impressionar? – perguntou-lhe. – Isto não é um encontro.

Porque é que era tão atraente quando se queixava?

– É culpa da minha educação. A minha avó ainda acredita nas gentilezas de antigamente.

– Obrigada. A tua avó educou-te?

Ele assentiu enquanto se sentava também.

– Desde que tinha oito anos.

– Hum…

– E criou os meus cinco irmãos desde que os meus pais morreram num acidente de viação.

Ela olhou para ele nos olhos e, depois, voltou a desviar o olhar.

– Lamento muito.

Muito bem, Rachel parecia menos susceptível, mas continuava a pôr fim às conversas. Ford teve a sensação de que tinha jeito para evitar as discussões.

Observou como levava o garfo à boca e tentou não pensar em como se sentira quando a tivera entre os seus braços. Se a situação tivesse sido diferente, já teria começado a cortejá-la. Mas naquele contexto, qualquer avanço traria sofrimento. Não fazia sentido complicar a situação por se deixar levar pela atracção que sentia por ela.

O que não significava que fosse permitir que Rachel fingisse que ele não estava ali.

– Se te aborrecer, diz-me – comentou.

E então aconteceu algo maravilhoso. Os lóbulos das orelhas dela ficaram vermelhos! E embora visse a agitação nos seus olhos, Rachel esforçou-se para continuar com a conversa.

– Deve ter sido uma infância muito difícil.

– Foi difícil perder os meus pais, mas a avó amava-nos e ficámos juntos. Isso era muito importante – apoiou os cotovelos na mesa. – Não és muito faladora, pois não?

Ela engoliu um bocado de esparguete.

– Não.

– Porquê?

Ela ficou em silêncio. Era evidente que não queria responder à pergunta, mas ele esperou.

Rachel acabou por suspirar. Decidiu responder.

– Em geral, porque prefiro estar sozinha.

– E neste caso em particular?

– Porque não sei muito do assunto – como se aquilo tivesse sido demasiado revelador, acrescentou: – E porque não quero que sejamos amigos.

Ele ignorou a sua rejeição.

– A que te referias quando disseste que tinhas falhado à tua irmã?

– Não tenciono falar-te da minha irmã – respondeu ela, com o olhar aceso. – Enganas-te a respeito dela.

Rachel era uma impostora. Apesar da sua fachada fria, era carinhosa e apaixonada no seu interior. Também era incrivelmente vulnerável. Independentemente do que se passara na sua família, sofrera muito.

– Crystal disse que tinhas saído de casa. Porquê? A família é importante.

– Sim. E eu sou a única família que os gémeos têm.

Era uma teimosa. No entanto, demonstrava que queria proteger as crianças. Apesar de ele querer descobrir as suas fraquezas, não podia culpá-la por aquilo.

– Conta-me porque saíste de casa – insistiu Ford.

Ela inclinou a cabeça e uma madeixa de cabelo loiro caiu-lhe sobre os olhos. Com um movimento rápido de mão, afastou-a.

– Sei o que estás a tentar fazer.

Ele hesitou por um instante.

– O quê?

– A informação é poder – respondeu Rachel, traçando círculos na mesa com o copo de água, com o sobrolho franzido, concentrada. – Queres que te fale do meu passado para poderes usá-lo contra mim.

Tinha razão.

– Eu contei-te a minha história.

– Com uma finalidade – indicou ela, olhando para ele. – Sem dúvida, devo acreditar que os gémeos beneficiariam da influência de um homem atenuada pela doçura de uma avó.

– Talvez só estivesse a dar-te conversa.

– Por favor. Vale tudo no amor e na guerra e tu és um guerreiro até à medula.

– Muito inteligente – reconheceu ele, levantando o copo de água.

– E porque me dá a sensação de que isso te surpreende?

– Tudo em ti me surpreende – respondeu Ford, imperturbável.

– Obrigada – agradeceu ela, encostando o seu copo ao dele e bebendo depois. – Tendo em conta que me consideras uma preguiçosa incapaz de manter uma relação, aceitá-lo-ei como um elogio.

Ele riu-se, gostava da mistura de humor e de censura.

– Tenho de admitir que tinha algumas ideias falsas. Não esperava a tua valentia, paciência e dedicação. No meu trabalho, pomos as emoções de lado para cumprir com o trabalho.

Naquele momento, fora ele quem falara demasiado. Os olhos inteligentes de Rachel faziam-no falar com facilidade. Algo perigoso. Para evitar o seu olhar curioso, Ford levantou-se e levou os pratos para o lava-loiça.

Ela parecia querer continuar a falar do assunto, mas, felizmente, a sua renitência habitual apareceu.

– Estou muito cansado – declarou Ford, pensando que acabara de evitar uma bala. – O que te parece se lavarmos a loiça e formos para a cama?

Capítulo 4

Para a cama. Para a cama. Para a cama. As palavras ecoavam na divisão, trazendo imagens de pele nua, pernas entrelaçadas e bocas unidas.

Eram palavras, no mínimo, perturbadoras. Sobretudo porque Rachel não se sentia incomodada por o imaginar nu.

Envergonhada pela sua reacção, porque era evidente que ele não quisera dizer que iam para a cama juntos, Rachel evitou o seu olhar enquanto arrumava a mesa. No entanto, sentiu como corava. A sua raiva também aumentou, porque não estava a corar apenas devido à vergonha.

Também corava de desejo, puro e simples.

O facto de preferir estar sozinha habitualmente não queria dizer que não soubesse o que fazer com um homem.

Ao aproximar-se da bancada, viu o relógio do forno: sete horas e três minutos.

– Só são sete horas – comentou. Tinham acontecido tantas coisas nas últimas horas que parecia muito mais tarde. – É um pouco cedo para ir para a cama.

Ele olhou para o relógio e sorriu ironicamente.

– Só sete? Devo estar a sentir os efeitos da noite de ontem. Não te disse que quase não dormiram?

– Sim – Rachel abriu a torneira do lava-loiça. Ela dormira bem na noite anterior graças a ele. – Porque não…? Oh…

Deu um salto ao virar-se e encontrar-se com ele. Recuou instintivamente, mas escorregou na água que havia no chão e quase caiu.

– Cuidado! – avisou Sullivan, agarrando-a mesmo a tempo. – Já te agarrei.

Surpreendida ao voltar a encontrar-se nos seus braços, Rachel levantou o olhar e percebeu que estava a poucos centímetros de uns olhos azuis que olhavam para ela com desejo.

Pestanejou e voltou a olhar para ele nos olhos, que olhavam para ela de modo inexpressivo.

O olhar de Sullivan mudara tão depressa que Rachel se perguntou se realmente sentira alguma coisa ou se fora ela quem projectara o seu desejo sobre ele.

– Lamento – desculpou-se, afastando-se.

Ele deixou-a ir-se embora com demasiada facilidade. Repreendendo-se em silêncio, Rachel arregaçou as mangas da camisola e pôs as mãos na água.

– Vieste até aqui de carro ou de avião? – perguntou, decidida a manter uma conversa para evitar uma situação violenta.

– De carro – Sullivan começou a limpar os pratos.

Ela olhou para ele pelo canto do olho. Segundo a sua experiência, os homens evitavam as tarefas do lar. Provavelmente, teria de agradecer à avó de Sullivan pela sua amabilidade.

Rachel apreciou a sua ajuda, mas não a sua proximidade.

– Assim seria mais fácil pôr as duas crianças no carro e levá-las para casa.

Ele encolheu os ombros.

– Esse é o plano.

Respondera no presente, portanto não mudara de ideias a respeito dos gémeos apesar de pensar melhor dela. Desanimada, Rachel ficou em silêncio.

Um gemido proveniente da sala interrompeu aquele momento. Os bebés estavam a acordar.

– Eu vou.

Sullivan passou ao seu lado para se dirigir para a sala e foi directo ao parque.

– Eh, Cody! – exclamou, levantando o menino. – Como estás? Tens fome? É hora de jantar.

Cody parou de chorar e apoiou a cabeça no seu ombro.

Jolie levantou os braços para que Rachel pegasse nela ao colo. Ela deu um abraço à menina e descobriu que precisava urgentemente de mudar a fralda.

Passaram a hora seguinte a resolver esse problema, a dar de jantar às crianças e a prepará-las para irem para a cama.

– Só há um quarto. Que é onde está o berço – explicou Rachel. Depois, apontou para o sofá azul. – Tu podes dormir no sofá. Vou buscar alguns lençóis.

– Está bem – concordou ele, olhando para as almofadas, hesitante. E com razão, ele era muito maior do que o sofá.

Rachel deixou-o a tratar da logística e foi buscar a roupa de cama.

Quando voltou para a sala, as crianças estavam a brincar no parque e Sullivan abrira o depósito de lenha e estava a encher a cesta que havia ao lado da lareira, na qual ardia um bom fogo.

As luzes da cozinha estavam apagadas e ele acendera velas que faziam com que o ambiente da sala fosse acolhedor.

A cena cheirava a tranquilidade doméstica. Demasiado caseira para Rachel, que não gostou do ambiente. Porque, no fundo, gostava demasiado daquilo. Sullivan era um estranho, um intruso. Não deviam sentir-se bem juntos.

Era a hora de uma retirada estratégica.

– Aqui tens – ofereceu Rachel, deixando a roupa de cama ao lado do sofá. Já era um rapaz grande, podia fazer a cama sozinho. – Estou cansada e é hora de as crianças irem para a cama. Vamos dormir.

Ele fechou a porta do depósito de lenha e limpou o pó das mãos.

– Obrigado. Achas que a tempestade durará muito tempo?

– É difícil de saber – será que aquela pergunta significava que ele se sentia tão incomodado como ela? – Supostamente, não ia nevar. Pensava que só ia chover durante os próximos dias.

– Quanto tempo demoram a limpar as estradas depois de uma tempestade como esta?

– Porquê? De repente, tens de ir a algum lado?

– Para além de ir para casa com os gémeos? Não – passou uma mão pelo cabelo. – Estava a pensar no combustível que temos.

– Está bem. Terei de desligar o gerador. O aquecimento é a gás propano, não teremos problema com isso.

– E também há muita madeira.

Divertida, Rachel levou as mãos às ancas.

– Ninguém diria que és o Senhor Califórnia.

Ele dirigiu-se para o sofá e começou a fazer a cama.

– Na Califórnia também neva, no caso de não saberes – declarou ele, afastando as almofadas com os seus braços poderosos.

Mantendo a distância porque se sentia tentada a testar a dureza daqueles músculos, Rachel demorou um segundo a processar o que Sullivan acabara de dizer.

Distraíra-a. Não costumava ter estranhos em casa, muito menos homens altos e musculados que a faziam baixar a guarda.

– E quanto tempo dura? Um dia e meio? – ela riu-se finalmente. – Por favor. O frigorífico desligar-se-á com o gerador, vou pôr um pouco de neve em sacos para manter as coisas frias.

– Está bem. Vai buscar a neve. Eu trato do gerador.

Surpreendida e contente por ele aceitar a sua opinião, Rachel agarrou numa lanterna e dirigiu-se para o armário para ir buscar sacos de plástico.

Aquele homem era um mistério. Tal como o modo como a fazia sentir.

Como não queria pensar mais naquilo, apressou-se a encher os sacos de neve que apanhou da porta traseira e pô-los estrategicamente no frigorífico.

Ao voltar para a sala, viu como Sullivan tirava o casaco e o punha na cabeceira. Depois, tirou os sapatos e pô-los ao lado do casaco. Finalmente, apontou com a cabeça para o parque.

– Aqueles dois estão fora de combate.

Rachel olhou para os gémeos. Cody e Jolie estavam outra vez a dormir e abraçados. Pareciam muito tranquilos.

– Oh… Eu não gosto de os incomodar. Sei por experiência que, se os acordar ao pô-los no berço, vai ser difícil voltar a adormecê-los.

– Deixa-os dormir. Eu estarei aqui se acordarem.

– Não sei se é uma boa ideia – não, dar o controlo àquele homem não era boa ideia. E se levasse os gémeos durante a noite?

Ele devia ter sentido a sua agitação, porque levantou a mão direita como se estivesse a fazer um juramento e declarou:

– Prometo-te que estão a salvo comigo. Vá lá, Rachel, todos precisamos de dormir.

– Está bem, mas deixarei a minha porta aberta para os ouvir.

– Não me vou embora com eles, Rachel.

– Desculpa-me por ser precavida. Acabei de te conhecer. Podes dizer uma coisa e fazer outra.

– Não, sou um homem de palavra. O meu comandante já te disse isso, lembras-te? – perguntou ele. Pela sua expressão, não gostava que duvidassem dele.

Será que se importava com o que ele pensava da sua pessoa?

Um calafrio percorreu-lhe as costas.

– Ah, sim. Um homem de palavra. Tinha-me esquecido – brincou Rachel, virando-lhe as costas e esquecendo a sensação estimulante.

Ao chegar à porta do seu quarto, virou-se para olhar para ele, mas esqueceu-se do que ia dizer.

Sullivan estava a dobrar a sua t-shirt, com o peito nu. Era incrível. Uma camada fina de pêlos cobria o seu peito e descia até à cintura das calças de ganga.

Quando levou as mãos à braguilha, Rachel deu um grito abafado e respirou fundo.

– Boa noite! – despediu-se, dando meia volta e entrando no quarto.

Se sabia algo era que estava em perigo de o desejar loucamente.

Quando Rachel acordou, o quarto estava às escuras e cheirava a café. Dadas as circunstâncias, tivera medo de não conseguir dormir, mas a última coisa em que pensava era em trabalhar no livro.

Há alguns meses um editor, apaixonado pelos seus artigos a respeito dos animais, pedira-lhe para escrever um livro sobre o mesmo assunto.

Isso fora antes de lhe telefonarem para dizer que era a tutora das crianças.

Viu as horas, eram oito e meia, e levantou-se da cama. Nunca dormia tanto. Nem as crianças.

Passou os dedos pelo cabelo e foi para a sala, vestindo a camisola e as meias. Encontrou os bebés onde os deixara na noite anterior, a dormir no parque. A roupa que vestiam eram diferente e Rachel assumiu que tinham acordado em algum momento.

Ford estava a fazer horas extras. Tentava acalmá-la, deixando-a dormir. Não tinha de ser tão atencioso. De qualquer modo, ela não mudaria de opinião.

De repente, sentiu uma pontada de amor no coração. Dobrou-se e passou a mão pelo cabelo sedoso e castanho de Jolie. O que mais queria era fazer o que fosse melhor para Jolie e Cody e esperava que isso não significasse ter de os abandonar.

Antes de se erguer, passou um dedo pela bochecha rosada de Cody. Acontecesse o que acontecesse, os gémeos eram inocentes.

Ouviu um barulho na cozinha e dirigiu-se para lá.

Ford estava de pé, com os braços apoiados na bancada de granito e a cabeça entre aqueles braços impressionantes. Atrás dele, pela janela, via-se a violência da tempestade, que igualava a sua luta interna.

Era evidente que aquele era um momento íntimo.

Rachel recuou para o deixar sozinho. Ele endireitou-se e bateu com o punho fechado na bancada, fazendo sangue nos nós dos dedos.

Surpreendida, ela ficou onde estava. Aquele gesto mostrava que estava zangado e que sofria. Rachel perguntou-se se devia aproximar-se dele ou deixá-lo sozinho.

Ele deitou um braço para trás para dar outro golpe.

– Pára! – exclamou Rachel, agarrando-lhe no braço com as duas mãos.

Não foi um movimento muito inteligente.

Antes de dar por isso, Ford pusera-lhe um pé atrás do joelho e deitara-a no chão. Os seus olhos azuis olhavam para ela com ferocidade, o seu corpo cobria-a e pusera-lhe o antebraço na garganta.

Aquele homem era muito perigoso.

Naquele momento, Rachel devia ter sentido medo, mas não era exactamente esse o sentimento que fazia com que vários arrepios lhe percorressem o corpo.

Ele pestanejou e relaxou o braço imediatamente.

– Meu Deus! – exclamou, apoiando a testa na dela. – Lamento muito.

– Desculpas aceites – replicou ela, que estava completamente quieta. – Já podes soltar-me.

Ele não se mexeu.

– Normalmente, controlo-me mais.

– Fico contente por saber.

– Não devias ter-me agarrado.

– Não me esquecerei – Rachel tentou mexer a parte superior do seu corpo, mas ele continuou a aprisioná-la. O movimento fez com que os seus seios tocassem no peito dele. Os seus mamilos responderam ao contacto.

O corpo de Ford também.

Rachel ficou gelada. E olhou para ele na cara. Ele olhava para ela com desejo. Tinha os olhos cravados nos seus lábios. Ford começou a baixar a cabeça.

O choro de um bebé quebrou a tensão do momento.

Recordou-lhes que não estavam sozinhos. Como é que Rachel podia ter esquecido o que aquele homem estava a fazer ali? Empurrou-o até ele sair de cima dela.

– Não voltes a fazer algo do género – avisou. Esticou a camisola, sacudiu o pó. Evitou olhar para ele nos olhos.

Era evidente que ela sentia a atracção que havia entre ambos, via o desejo nos seus olhos. Em qualquer outro momento ou lugar, talvez tivesse tido uma aventura com ele. Mas, dada a situação, tinha muito a perder.

Por muito tentada que estivesse.

Ele obrigou-a a olhar para ele, invadindo o seu espaço. Abateu-se sobre ela, com o olhar cravado nos seus lábios, antes de o levantar até aos seus olhos.

– Tens a minha palavra de que não voltarei a atacar-te.

– Não me referia a isso – corrigiu ela, franzindo o sobrolho.

Ele aproximou-se e pôs-lhe um caracol atrás da orelha.

– É o máximo que posso garantir.

Ela empurrou-o para ir ver os bebés. Como de costume, estavam acordados e com vontade de brincar. Para os manter ocupados enquanto se vestia, Rachel deixou imensos brinquedos no parque.

Depois, fugiu para o seu quarto para lavar os dentes e vestir umas calças de ganga e uma t-shirt. Sentia-se confusa. Era um luxo poder arranjar-se sem ter de se despachar nem preocupar-se com os gémeos e, no entanto, sentia-se mal por estar a dedicar tempo a ela própria porque amava Jolie e Cody e eles dependiam completamente dela.

A ajuda de Ford incomodava-a, mas, ao mesmo tempo, apreciava-a. Graças a ele podia ter alguns momentos de liberdade. Dormira toda a noite.

De volta à sala, pôs uma manta na carpete, à frente da lareira, e deixou que os bebés gatinhassem livremente. Quando parecia que começavam a cansar-se, pegou num dos seus livros favoritos e pô-los ao seu lado no sofá. Passou a maior parte da hora seguinte a ler.

Ford passou o tempo a vaguear pela sala. Rachel tentou não pensar nas suas mãos grandes a tocarem nela. Ouviu que as portas do aparador se abriam e se fechavam e imaginou que encontrara o pedaço que se partira. Ela não tivera tempo de o arranjar.

Enquanto Rachel continuava a ler, ele foi buscar a caixa de ferramentas que estava ao lado do gerador.

Quando acabou de ler as histórias, deixou as crianças sozinhas. Elas foram ver o que Ford estava a fazer. Rachel mexeu-se para os vigiar, para que não caíssem do sofá.

A nova posição proporcionava-lhe uma vista privilegiada do rabo de Ford.

Ford? Desde quando é que começara a pensar no inimigo pelo seu nome? Talvez desde que lhe demonstrara que não era o inimigo ao ajudá-la na neve, ao fazer-lhe o jantar e ao deixá-la dormir.

Era evidente que era um bom tipo.

Ou era muito inteligente e queria confundi-la. Já para não falar do facto de ele tocar nela sempre que tinha a oportunidade e de lhe dedicar olhares ardentes. A estratégia estava a funcionar.

Rachel recordou-se que planeara manter a distância.

– Não é preciso fazeres isso – replicou.

Ele sentou-se, encolheu os ombros e continuou a olhar para a chave de fendas que tinha na mão.

– Não me importo.

– Não precisas de fazer nada por mim – insistiu ela, num tom frio.

– Eu gosto de me manter ocupado – comentou ele, olhando para ela por cima do ombro. – Não acho que seja um crime aceitar um pouco de ajuda de vez em quando.

– Quando se vive sozinha, a auto-suficiência é algo importante.

– Fazer-se amigo dos vizinhos também.

– «Baa da ja» – balbuciou Cody, cravando os pés numa almofada e levantando-se.

– Oh? – Rachel agarrou em Cody pelo tornozelo e fê-lo descer. – Isso nunca me ocorreu.

– «Ja da ca» – replicou Jolie, saltando.

Ford desafiou Rachel com o olhar.

– Já tentaste?

Ela ficou tensa. De certeza que as vizinhas de Ford eram jovens que lhe levavam comida e bolos de maçã.

– Porque não me dizes quais seriam as vantagens?

– Bom – começou ele, fixando a parte da frente da gaveta às laterais. – Ter vizinhos é como jogar em equipa. Ajudam-se uns aos outros com as tarefas, recolhem o correio dos outros ou cuidam dos seus animais quando têm de ir a algum lado.

– Isto é Montana – replicou Rachel enquanto agarrava em Jolie, que também tentava subir pelo sofá. – A segurança não é assim tão importante. Posso contratar alguém para me ajudar com as tarefas domésticas. E não tenho animais. E não vou a lado nenhum, não preciso que ninguém fique com o meu correio. Não preciso de uma equipa. Na minha opinião, as equipas estão sobrevalorizadas.

– Sobrevalorizadas? – repetiu ele, incrédulo, quase como se se sentisse insultado. – Estás a falar com um soldado. Para mim, a diferença entre a vida e a morte está no trabalho em equipa.

– Isso é diferente. São militares. Têm de trabalhar juntos.

– Somos uma equipa de elite bem treinada que vai aos lugares mais perigosos do mundo para salvar estranhos, ajudar governos e conseguir informação.

– Estás as retorcer as minhas palavras – acusou ela, parando de lutar com os gémeos e pondo-os no chão para que brincassem. Depois, começou a andar à frente do fogo. – Respeito o que fazes. Mas eu não sou tu. Depender de outras pessoas é arriscar-me a ser magoada.

Depois, virou-se para que Ford não percebesse que o que acabara de dizer a afectava; falara demasiado dela.

Ouviu como ele punha a gaveta no seu lugar e guardava as ferramentas.

– É isso que queres para os teus sobrinhos? Uma vida solitária e isolada?

– Isto não tem nada a ver com eles. Eles têm-me a mim. Nunca estarão sozinhos.

– Rachel… – Ford ficou ao lado do sofá.

– Não – rejeitou-o ela com a palma da mão levantada. – Queres ajudar? Está bem. Vigia as crianças. Vou fazer o almoço.

E fugiu para a cozinha, que não era muito longe, mas pelo menos não tinha de ver Ford. Nem continuar com aquela conversa desastrosa.

Amaldiçoou-o por a ter obrigado a defender o seu estilo de vida.

Tirou do frigorífico o necessário para fazer sandes e levou a alface para o lava-loiça para a lavar.

Quem era ele para a pôr à defesa? Qual era o problema de gostar de estar sozinha? Não magoava ninguém e, assim, ninguém a magoava a ela.

Jolie e Cody teriam amigos, é claro. Ela sabia muito bem o que era sentir-se um estranho quando se desejava pertencer a um lugar.

Colocou as mãos por baixo da torneira e tremeu ao sentir o frio. Franziu o sobrolho ao perceber que, longe do fogo, a casa estava gelada.

O propano que alimentava o aquecimento e o esquentador era independente da electricidade. O ar tinha de estar mais temperado. Teve um mau pressentimento e foi verificar o termóstato, tentando activar o aquecedor.

Mas não aconteceu nada.

Sentiu um nó no estômago. Se ficassem sem propano e sem o calor que este lhes proporcionava, o seu plano de se manter afastada de Ford ficaria destruído.

Capítulo 5

– Bolas! – exclamou, irritada.

Ao reparar que Rachel tocava no termóstato com nervosismo, Ford perguntou:

– O que se passa?

Ela esperou com as mãos apoiadas na anca, com a esperança de que o aquecedor se acendesse.

– Parece que aconteceu algo com o propano – teve de admitir.

Ford entendeu a sua preocupação. Sem o aquecimento, a lareira seria a única fonte de calor. Uma forte rajada de ar bateu nas janelas, recordando-lhes que a tempestade continuava no exterior.

– O que te faz pensar isso?

– Está frio na cozinha e há muito tempo que não ouço o aquecedor a acender-se.

– O propano transforma-se em vapor quando congela – explicou Ford, ficando ao seu lado em frente do termóstato. – Talvez seja isso. Onde está o tanque? É clandestino ou está na superfície?

– Na superfície, mas nunca tinha ouvido dizer que o propano congelava e vivo nesta zona há treze anos.

– Tem de estar muito frio.

Ela olhou pela janela e, depois, olhou para ele.

– Sullivan, houve épocas de muito frio e nunca fiquei sem propano.

– Então, talvez a ligação se tenha estragado. Irei ver – Ford dirigiu-se para o armário onde deixara o casaco. Pegou no impermeável amarelo. – Onde é o tanque?

– Como é que és um perito em propano? – quis saber Rachel.

Ford procurou no armário. Encontrou umas luvas que talvez lhe ficassem bem e um cachecol de lã, felizmente era azul-marinho.

– Se algo pode ser usado como explosivo ou pode misturar-se com algo para se transformar num explosivo, então é o meu trabalho conhecê-lo.

Ela interpôs-se no seu caminho com o sobrolho franzido, mas não disse o que estava a pensar.

– O tanque fica atrás da casa – replicou, respondendo à sua pergunta. – Vê-se da janela do meu quarto.

Também se via a tempestade de lá, era uma cortina branca. O tempo não melhorara, talvez até tivesse piorado durante a noite.

– Vamos ver – Ford não se teria preocupado com o propano se as crianças não estivessem lá.

No quarto, afastou as cortinas e levantou as persianas.

Rachel ficou ao seu lado e usou um pano para limpar a condensação que havia no vidro. Apontou para a esquerda.

– É ali.

Os dois olharam, só se via branco.

– Está enterrado debaixo da neve – indicou Rachel.

Ele tomou nota de onde era o tanque, da proximidade da casa, da profundidade da neve, das plantas visíveis, da direcção do vento e da sua velocidade.

– Vejo ramos entre a casa e o tanque. Plantaste alguma coisa lá?

– Não, está limpo – respondeu ela, tremendo. – Se está tão frio, talvez não devesses sair. Não tens a roupa adequada. Esse impermeável não te protegerá do frio e os meus casacos não te servem.

– Ficarei bem. Não devo demorar mais de alguns minutos a ver o que se passa e decidir se posso fazer alguma coisa.

Ela abraçou-se e esfregou os braços inconscientemente.

– Também não demorarias muito a congelar. Se te acontecer algo lá fora, não tenho a certeza de ser capaz de te trazer para casa sozinha. Talvez não valha a pena fazer o esforço.

Ele afastou-lhe uma madeixa de cabelo da cara.

– Estás a preocupar-te comigo.

Ela afastou a cabeça dele. Recuou e sentou-se na cama quando os seus joelhos começaram a tremer. Levantou-se imediatamente e foi para a porta, para fugir da intimidade do quarto.

– Talvez seja uma pessoa solitária, mas não sou um monstro. Sim, estou preocupada, em especial se não for necessário correr o risco.

Ele seguiu-a até à entrada, apoiou um ombro contra a parede e viu-a andar pela sala.

– Apesar de eu ser o inimigo?

Rachel olhou para ele. Incomodou-a que gozasse com ela. Ford gostou de ver que demonstrava as suas emoções.

– Sim – respondeu ela, indignada. – E não gosto de me sentir preocupada contigo, estou a tentar não gostar de ti.

– Talvez devesses desistir. Quase toda a gente gosta de mim.

– És mandão, intrometido e queres destruir a minha família. Acho que conseguirei resistir ao teu encanto questionável.

Oh! Aquilo magoava mais do que devia. Era o momento de voltar a ficar sério.

– Já temos pouco combustível para a electricidade, se ficarmos também sem propano, as coisas vão ficar complicadas depressa – Ford apontou com a cabeça para o parque onde as crianças brincavam. – Já seria muito difícil se estivéssemos sozinhos, mas com as crianças…

Cody espirrou para dar razão a Ford.

Rachel levantou uma mão.

– Estou a ver. Irei contigo.

Ele abanou a cabeça antes de Rachel ter acabado de falar.

– Nem penses. Estarei de volta antes de teres percebido que saí.

– As tempestades são imprevisíveis. E se te acontecer alguma coisa lá fora? É melhor fazê-lo em equipa, como ontem.

– Não. Ontem as crianças estavam a dormir. Assustar-se-iam se ficassem sozinhas.

Ford sabia que a convencera, mas ela só ficou satisfeita quando decidiram comunicar-se mediante um sistema de sinais. De dez em dez minutos, Rachel puxaria duas vezes a corda que Ford teria atada à cintura e ele responderia do mesmo modo. Se não respondesse, Rachel iria buscá-lo. Depois, ela insistiu em emprestar-lhe uma das suas camisolas maiores, mas continuava a ficar pequena e tiveram de cortar as mangas para que lhe servisse. No entanto, era mais uma camada de calor. Embora o calor não se devesse só à camisola.

Quando Ford saiu pela porta, o tempo começou a passar muito devagar e cada minuto pareceu uma eternidade para Rachel.

Tentou convencer-se de que teria estado igualmente preocupada com qualquer outra pessoa. Mas infelizmente, não sabia mentir. Há muito tempo que deixara de o fazer.

O que acontecera para que, de repente, amasse o mundo inteiro? Está bem, isso era um exagero.

Deixara que Sullivan se aproximasse demasiado. Fora como se, ao permitir que os gémeos lhe chegassem ao coração, tivesse deixado uma porta aberta pela qual as outras pessoas também podiam entrar.

De pé ao lado do lava-loiça, olhou pela janela para o caminho que Ford devia percorrer para voltar para casa, preparou umas sandes e convenceu-se de que tinha de levantar as suas defesas.

Fá-lo-ia assim que ele estivesse de volta são e salvo.

Finalmente, viu-o e, suspirando aliviada, foi para o alpendre para o receber. Ford entrou pela porta juntamente com uma nuvem de neve. Rachel limpou-lhe a cabeça e os ombros e ele bateu com os pés no chão.

– Boas notícias! A ligação está bem. Tinha caído um ramo enorme, mas o tanque parou o golpe – explicou, tremendo.

– Pus uma toalha e umas mantas ali. Tira essa roupa húmida – Rachel tentou tirar-lhe o impermeável, mas ele abanou a cabeça.

– Vou sair outra vez. A agulha indica que resta pouco mais de um quarto de tanque. Suponho que essa é a razão pela qual o propano está a congelar. Há menos massa e o ramo, ao cair, deitou um monte de neve e de gelo em cima e em baixo do tanque. Cavarei um pouco, farei um corta-vento para proteger o tanque do resto da tempestade. Onde tens a pá?

– Estás meio congelado! – protestou Rachel. – Não podes voltar a sair.

– O exercício far-me-á aquecer – Ford viu a pá num canto do alpendre.

Enquanto ia buscá-la e via que outras ferramentas Rachel tinha, ela correu para ir buscar o café que estivera a aquecer na lareira. Serviu uma chávena e encheu um recipiente térmico, onde deitou muito açúcar.

Os dois chegaram à porta ao mesmo tempo. Ele tinha uma pá numa mão e um machado na outra.

– Toma – ofereceu Rachel, – bebe isto antes de ires.

Ele não protestou. Bebeu o café de um gole enquanto Rachel lhe punha o recipiente térmico no bolso interior do impermeável.

– Tem cuidado – pediu.

– Terei – pôs as mãos em cima das dela na chávena e apertou-as. – Obrigado.

Olhou para ela de tal modo que Rachel percebeu que a sua determinação voltava a ver-se ameaçada. Recuou e apontou para a porta com a cabeça.

– De dez em dez minutos – recordou-lhe.

– Dois puxões – confirmou ele, antes de se ir embora.

Rachel olhou imediatamente para o relógio. Tinha de fazer algo para ocupar os seus pensamentos ou ficaria louca enquanto esperava. Primeiro, iria ver como estavam os bebés. Depois, faria mais café.

Pôs mais lenha na lareira antes de se aproximar do parque. Jolie dormia de lado com um ursinho de peluche, como almofada e tinha um brinquedo na mão.

Cody começou a chorar ao vê-la. Tinha o nariz sujo e os olhos frágeis. Levantou os braços e Rachel pegou nele ao colo.

– Pobrezinho! Não te sentes bem, pois não? – deu-lhe um beijo na testa e sentiu que tinha febre. – Estás quente. Vou dar-te algo para te sentires melhor.

Limpou-lhe o nariz com um lenço de papel, tapou Jolie com uma manta, viu as horas e foi buscar o estojo de primeiros-socorros.

Passou a hora seguinte a abraçar Cody, a puxar a corda e a tentar ver Ford pela janela do quarto. O aquecedor começou a funcionar depois de quarenta e cinco minutos. Rachel não sabia o que Ford fizera lá fora, mas funcionara.

Graças a Deus. Sem a caldeira, a lareira teria sido a única fonte de calor e teriam tido de estar todos na sala, um lugar demasiado pequeno para quatro pessoas, sobretudo tendo em conta que duas delas eram inimigas.

Ford voltou a deixar as ferramentas num canto do alpendre e, depois, tirou as luvas. Quando foi para a porta da cozinha, Rachel estava lá. Sem dizer uma palavra, ajudou-o a tirar a roupa molhada.

Os dedos de Ford estavam intumescidos pelo frio e não conseguia desabotoar o impermeável. Agradeceu a ajuda e pegou na toalha que Rachel lhe oferecia para secar o pescoço e o cabelo.

– Consegui ferver água suficiente para tomares um banho quente – tirou o recipiente térmico do bolso, deixou-o no lava-loiça e, depois, ajudou-o a tirar o impermeável.

Depois do barulho da tempestade no exterior, Ford pensou que a tranquilidade da casa era estranha. De repente, ouviu um pequeno gemido. Finalmente, percebeu que o som provinha da mesma casa. Um dos bebés estava a chorar.

– O que se passa com Cody? – perguntou.

– Tem um pouco de febre. Está constipado. Irei tratar dele depois de te meteres na banheira. Senta-te – replicou Rachel, empurrando-o para uma cadeira da cozinha.

Pôs-lhe uma chávena de café na mão, que lhe tremia tanto que teve de a agarrar também com a outra. Rachel pusera-lhe um pouco de brandy, que lhe aqueceu o corpo.

– Oh, meu Deus! – exclamou, saboreando a bebida. – Acho que te amo.

Ela levantou o olhar enquanto lhe desatava os atacadores das botas.

– Tem cuidado, Sullivan. Qualquer um podia pensar que és um rapaz fácil.

– Pede o que quiseres – declarou ele, gaguejando. – O que quiseres, em troca de outra chávena de café.

– A sério? – perguntou Rachel, com um olhar nostálgico. – Talvez seja o momento de falarmos da custódia.

– Bom… Estamos num período de tréguas, lembras-te? Não íamos falar disso enquanto estivéssemos congelados.

– Está bem – Rachel baixou a cabeça para que Ford não conseguisse ver-lhe os olhos e acabou de lhe tirar as botas e as meias. Depois, encheu-lhe a chávena e pôs-lhe um pouco de brandy. – Poremos isto na tua conta.

Ajudou-o a levantar-se e conduziu-o até à casa de banho.

– Vá lá, podes beber isto na banheira, tens de aquecer. Deixei-te aí roupa limpa. A água está morna agora, mas posso ferver mais e acrescentá-la quando começares a descongelar. Pelo menos, até voltarmos a ter água quente.

– Obrigado – agradeceu ele, parando à porta da casa de banho. – A partir daqui posso ficar sozinho.

– Está bem. Lamento – Rachel corou. Virou-se e foi procurar Cody.

Um momento depois, Ford metia-se na banheira. Picava-lhe a pele e sentia calafrios.

Bebeu o café e começou a sentir-se melhor. Ouviu o aquecedor a acender-se e suspirou, aliviado.

Pelo menos, os seus esforços tinham dado frutos. Bom, mesmo que o aquecedor não tivesse funcionado, teria valido a pena. Não gostava de estar sem fazer nada. E dado que qualquer momento livre o fazia sentir-se culpado pela morte de Tony e Crystal, esperava que a tempestade passasse o mais depressa possível.

Sabia que não podia ter sabido que haveria um terramoto quando comprara os bilhetes para que os seus amigos fossem de férias. Mas a verdade era que eles continuariam vivos se ele não lhes tivesse oferecido aqueles bilhetes.

E também não teria conhecido Rachel Adams.

A verdade era que não tinham concordado não falar da custódia enquanto estivessem presos pela tempestade, mas não lhe apetecia puxar o assunto quando estavam fechados num lugar tão pequeno.

Pensava que ambos se acalorariam com a conversa e precisariam de espaço.

Quanto mais tempo passava com ela, menos vontade tinha de a magoar, mas tinha de fazer o melhor para os bebés.

Ford amava os seus cinco irmãos e, dado que era o mais novo, passara a vida a imitá-los ou a competir para arranjar um lugar entre eles. No entanto, não fora suficientemente bom, tinha de o fazer melhor. Ganhara respeito ao tornar-se um militar de elite. Tony fora como um irmão. Tinham trabalhado juntos e tinham salvado a vida um do outro.

Devia muitas coisas ao seu amigo.

Tony deixara claro que queria que os gémeos crescessem no seio da família de Ford e ele concordava que uma família cheia de tias, tios, primos e uma avó era um maior apoio do que uma tia sozinha.

Já para não mencionar que San Diego oferecia oportunidades culturais, educativas e profissionais que não existiam em Scobey.

Além disso, com os lucros que Ford recebia da joalharia da família, para além do seu salário, tinha o dinheiro necessário para dar coisas às crianças que Rachel nunca poderia dar-lhes. Pelo menos, não se não fosse com o seguro de vida de Tony e Crystal.

Independentemente do ponto de vista, continuava a pensar que o melhor era que as crianças ficassem com ele. Se Rachel quisesse levá-las de vez em quando de férias, podiam chegar a um acordo.

Só tinha de a convencer.

Vestiu umas calças de ganga e uma t-shirt azul e abriu a porta. A primeira coisa que viu foi o rabo de Rachel, que estava a pôr algo na mesa-de-cabeceira.

Ainda com o calor da banheira, a visão fez com que o seu sangue ardesse. Por cima das calças de Rachel aparecia uma tanga de cetim e de renda que fez com que entrasse em ebulição.

Aproximou-se tanto dela que, quando se virou, foi parar directa aos seus braços. Surpreendida, olhou para ele nos olhos. Ele acariciou-lhe a face com a mão esquerda e deu-lhe tempo suficiente para se afastar.

– Tenho de fazer isto – sussurrou Ford. – Tenho de te provar.

E, baixando a cabeça, beijou-a.

Rachel estava doce e quente. Ele aprofundou o beijo.

Gemendo ligeiramente, ela fundiu-se no beijo e rodeou o seu pescoço com os braços, aproximando-se do seu corpo. Abriu a boca e convidou-o, unindo as suas línguas.

Os cheiros embriagadores a sabonete, pó de talco e mulher rodearam-no. Rachel abraçou-o com mais força e pôs-se em bicos de pés, alinhando o seu corpo com o dele.

Ford passou a mão pelas suas costas e pô-la por baixo da t-shirt, tocando na sua pele de veludo. Rachel gemeu, portanto encontrara um dos seus pontos fracos. Acariciou-a várias vezes até a fazer arder de paixão.

Rachel esteve um instante perdida no prazer e, de repente, afastou-o.

– Não posso fazer isto – declarou, num tom de voz trémulo. Recuou. – Contigo não.

– Rachel – ele levantou uma mão. Precisava de tocar nela, precisava de acalmar a tortura que via nos seus olhos, que naquele momento eram mais azuis do que verdes.

– Não. Não posso. Se levares a tua avante, levarás os gémeos e destruir-me-ás. Não posso entregar-me a ti também.

Ele deixou cair a mão e viu-a a afastar-se.

Na manhã seguinte, o silêncio acordou Rachel. Aninhou-se entre as mantas e pensou no dia que tinha pela frente. Às quatro teria acabado na clínica. Talvez pudesse sair para jantar, poupar tempo e energia para trabalhar no seu livro quando voltasse para casa.

Ouviu um gemido e isso fê-la voltar para a realidade.

Os gémeos.

A tempestade.

O lobo com pele de cordeiro.

Pensou em Ford e no tempo que passara entre os seus braços no dia anterior, resmungou e pôs a cabeça debaixo da almofada. Em que estivera a pensar?

O problema era precisamente que não estivera a pensar. O que fizera fora provar, tocar e sentir.

O seu encontro fora intenso, alucinante e maravilhosamente físico.

E uma loucura.

A sério. Aquele homem cheirava lindamente, mas não podia ceder à tentação de se entregar a ele ou iria directa para o inferno.

Nunca se perdoaria se permitisse que a sua libido se interpusesse entre ela e a custódia das crianças. Porque não devia confundir-se, ele era um guerreiro, e usaria todas as armas que tivesse ao seu alcance para conseguir o seu objectivo. Rachel teria sido uma parva se não tivesse pensado que isso incluía manipular o afecto que sentia por ele.

Já se traíra suficientemente ao deixá-lo ver que podia magoá-la.

Na noite anterior, o ambiente fora muito tenso. A inquietação de Cody mantivera-os ocupados, mas só fizera com que a situação fosse mais difícil. O pobre menino não se sentia bem. E ela lamentava, porém, ao mesmo tempo, alegrava-se por ter algo para fazer.

O silêncio que havia no exterior significava que não podiam adiar a conversa pendente durante muito mais tempo.

Era o momento de falar. Rachel desejava tê-lo feito antes de o conhecer, antes de gostar dele e de o desejar. Mas tinha de enfrentar aquilo.

E não haveria melhor momento. Desviou a almofada, afastou as mantas e saiu da cama. Foi ver Cody. Dado que na noite anterior estivera muito inquieto, Jolie adormecera no parque, na sala, com Ford.

Apesar de ter estado muito agitado durante toda a noite, Cody dormia calmamente no berço. Rachel alegrou-se por ver que parecia estar bem, tapou-o com uma manta e foi tomar um duche.

Vinte minutos mais tarde, saiu do quarto e encontrou Ford e Jolie, que continuavam a dormir. Jolie parecia um anjo. Com o peito descoberto, barba de três dias e o sobrolho franzido, Ford parecia um pirata de reputação duvidosa. Mesmo a dormir, tinha aquele ponto perigoso que tanto a atraía.

No dia anterior, ele deixara-a dormir, portanto naquela manhã Rachel faria o mesmo por ele.

Foi à cozinha e fez café e crepes. Jolie acordou primeiro e Rachel tirou-a do parque antes de Ford acordar. Quando ouviu Cody pelo intercomunicador, mudou-os, vestiu-os e sentou-os nas suas cadeirinhas com um prato com crepe cortado em minúsculos pedaços salpicados de açúcar em pó.

Deu uma olhadela à sala e surpreendeu-se ao ver que Ford ainda não acordara. Ouvira-o tossir algumas vezes, mas mais nada. E demonstrara-lhe que era madrugador.

Deixou os gémeos a comer os crepes com as mãos e foi à sala. Aproximou-se do sofá.

Ford continuava a dormir e em algum momento devia ter-se destapado até à cintura. Também tinha os pés de fora. Aquilo preocupou-a porque, apesar de o aquecimento estar aceso, o quarto estava frio. Teria febre? Talvez Cody lhe tivesse pegado a constipação.

No entanto, depois do combate corpo a corpo que tinham tido na manhã anterior, Rachel não queria assustá-lo.

– Estou acordado – declarou ele, num tom de voz rouco.

– Ainda bem, assim não me atirarás ao chão quando fizer isto – pôs-lhe as costas da mão na testa e na face, sentindo o calor e o toque da barba.

– Sem promessas – brincou ele, agarrando-lhe na mão e apertando-a contra a sua face. – Eu gosto da sensação.

– Estás a arder. Como te sentes?

– Bem. Nunca fico doente.

– Bom… Eu vou buscar-te umas aspirinas, vitamina C e uma chávena de chá.

– Não te incomodes. Só preciso de um duche – sentou-se e as mantas ficaram no seu colo.

– Não discutas. Será como um tratamento preventivo. Não posso deixar que fiques doente com duas crianças em casa.

– Disse-te que estou bem.

Rachel apoiou as mãos na anca.

– Tens febre e estás resmungão. Ou tomas o que te der ou terás de me enfrentar. Fiz crepes, se tiveres fome.

– O fogo apagou-se – comentou ele, cravando os seus olhos azuis na lareira.

– Sim. Usei o último toro há aproximadamente uma hora. A boa notícia é que parou de nevar durante a noite.

– E não está vento – levantou-se com a manta enrolada à cintura e passou a mão pelo cabelo. – Sairei depois e encherei o depósito de lenha.

– Um de nós fará isso.

Ele arqueou uma sobrancelha e aproximou-se dela. De repente, já não parecia estar fraco nem doente. O seu olhar era duro e o seu corpo também.

Ela fez um esforço e ficou onde estava.

– Não te atrevas a mimar-me, dinamite – sussurrou-lhe ao ouvido, quando passou ao seu lado. – Nenhum de nós quer uma relação assim.

– Ena! – exclamou ela, quando Ford desapareceu na casa de banho. Era uma pena que fosse o homem errado. Quanto mais depressa acabasse a neve e se fosse embora dali, melhor.

Os bebés tinham de ficar com ela, a sua família. Ela cuidaria deles e dar-lhes-ia amor.

Só tinha de convencer Ford.

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