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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2016 Miranda Lee

© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

O italiano implacável, n.º 106 - outubro 2020

Título original: The Italian’s Ruthless Seduction

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Sabrina e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos estão reservados.

I.S.B.N.: 978-84-1348-992-6

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.

Sumário

Créditos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

Sergio pensou que devia estar mais contente. Fechou a torneira do duche, saiu e pegou numa toalha luxuosa. Naquele dia, tornara-se multimilionário e os seus dois melhores amigos também. Se isso não o alegrava, o que o faria?

Franziu o sobrolho e limpou-se com força. Porque não estava mais contente? Porque não estava apaixonado pelos quatro bilhões e seiscentos milhões que lhes tinham dado pela franquia da Wild Over Wine? Porque se sentia vazio depois de ter assinado o contrato?

As pessoas diziam que o mais gratificante era o caminho, não o destino, recordou-se, encolhendo os ombros. A verdade indiscutível era que os três integrantes do Clube dos Solteiros tinham chegado ao destino. Bom… quase. Nenhum dos três fizera trinta e cinco anos, embora fizessem em breve. Faltavam duas semanas para o seu aniversário.

Sorriu com ironia ao recordar a noite em que tinham criado o Clube dos Solteiros. Eram muito jovens, tinham-se sentido plenamente maduros e, com vinte e três anos, achavam-se mais adultos do que a maioria dos alunos do seu curso em Oxford. Sentiam-se seguros de si próprios, todos eram muito bonitos, muito inteligentes e muito ambiciosos.

Pelo menos, Alex e ele tinham sido ambiciosos. Jeremy, que já tinha ganhos privados, deixara-se levar.

Fora numa sexta-feira à noite, vários meses depois de se conhecerem, no quarto de Jeremy, naturalmente. O seu quarto era maior e melhor do que o que Alex e ele partilhavam. Estavam mais do que embriagados quando ele, que costumava ser filosófico quando bebia, perguntara quais eram os seus objetivos na vida.

– Certamente, não o casamento – declarara Jeremy.

Jeremy Barker-Whittle era o filho mais novo de uma dinastia de banqueiros que remontava a gerações. A família, talvez por essa riqueza desmesurada, estava cheia de divórcios, e os dois amigos já tinham percebido que Jeremy era bastante cético a respeito do casamento.

– Também não estou interessado no casamento.

Alex Katona estudava em Oxford com uma bolsa Rhodes, era de Sidney, as suas origens eram da classe trabalhadora e o seu quociente intelectual, quase o de um génio.

– Estarei demasiado ocupado a trabalhar para me casar. Tenciono ser multimilionário antes de fazer os trinta e cinco anos – indicou Alex.

– Eu também – concordara Sergio.

Embora Sergio fosse herdeiro da empresa Morelli, com sede em Milão, sabia que essa empresa familiar não tinha tanto sucesso como antes. Pensava que seria preferível não a herdar. Se queria triunfar na vida, teria de o fazer pelos seus próprios meios e isso também significava não se casar.

Assim nascera o Clube dos Solteiros e as regras tinham sido decididas numa noite muito… animada.

A primeira regra, algo sentimental e otimista para três homens de vinte e poucos anos, era que seriam amigos para sempre. Nesse momento, estavam muito bêbados, tinham bebido algumas garrafas da provisão interminável de vinho francês maravilhoso que Jeremy tinha. No entanto e surpreendentemente, continuavam a ser amigos íntimos dez anos depois, apesar de terem feito negócios juntos. Sergio não discutia porque a amizade funcionara, mas agradecia. Não conseguia imaginar que alguma coisa conseguisse quebrar o laço que os unia.

Sergio, no entanto, rira-se da segunda regra, de viverem a vida ao máximo.

Isso significava que iriam para a cama com qualquer rapariga atraente que olhasse para eles de esguelha e os três tinham-no feito enquanto estavam em Oxford. No entanto, quando se licenciaram e passaram para a vida real, tornaram-se mais seletivos. Pelo menos, Sergio preferia as mulheres que ofereciam mais do que os seus corpos. Mulheres com profissões, classe e conversa. Mulheres que, algumas vezes, eram mais velhas do que ele, ao contrário das de Alex, que pareciam ser mais jovens à medida que ele envelhecia.

– As jovens não se queixam, não criticam e não se colam como lapas, como as mais velhas – dissera a Sergio, um dia. – Também não querem que me case com elas.

Alex odiava o casamento, mas não por princípio, por si só. Ele, ao contrário de Jeremy, não era cético, pois os pais e irmãos tinham desfrutado de casamentos felizes. Quanto a Jeremy, transformara-se num playboy consumado e as… amigas entravam e saíam a uma velocidade vertiginosa. Ninguém se fartava mais depressa de uma rapariga do que Jeremy, mas havia sempre outra disposta a ocupar o lugar da anterior. A fortuna, a beleza e o encanto de Jeremy conseguiam fazer com que as mulheres caíssem rendidas aos seus pés. Naturalmente, também se apaixonavam por ele, um sentimento que nunca era correspondido. Jeremy não se apaixonava e deixava um carreiro de corações partidos por toda a Grã-Bretanha e metade da Europa. Sergio censurava-o, mas Jeremy encolhia os ombros e dizia que ele não tinha a culpa de ser caprichoso, que era um defeito genético. O pai estava no terceiro casamento e a mãe, no quarto… ou era no quinto?

Por tudo isso, Alex e Jeremy não se tinham incomodado com a terceira regra, que os sócios do Clube de Solteiros não podiam casar-se antes dos trinta e cinco anos, algo que ainda parecia muito longínquo.

Mesmo assim, Sergio sempre soubera que acabaria por se casar, apesar de toda a amargura causada pelo segundo casamento do pai e o divórcio posterior. Ao fim e ao cabo, era italiano e a família era importante para ele, mas mantivera a ideia afastada enquanto trabalhava obsessivamente para conseguir o objetivo principal do Clube dos Solteiros: Ser multimilionário antes dos trinta e cinco anos.

Algo que, finalmente, conseguira naquele dia.

Outra onda de melancolia apoderou-se dele ao ter de aceitar que esse dia também assinalava o fim, para efeitos práticos, do clube. Naturalmente, os três continuariam a ser amigos, mas à distância. Em breve, voltaria para Milão para tomar conta da empresa familiar, que decaíra gravemente nesse ano, desde a morte do pai. Alex voltava no dia seguinte para a Austrália para ampliar a empresa imobiliária já próspera. E Jeremy ficaria em Londres, onde compraria uma empresa. Certamente, de publicidade.

Sabia que, naquela noite, quando contasse a Jeremy e Alex que tencionava casar-se, eles também compreenderiam que o Clube dos Solteiros tinha os dias contados. No entanto, a vida era assim, não era? Nada continuava igual e as mudanças eram inevitáveis.

Saiu da casa de banho com firmeza positiva e decidiu que pensaria no casamento como noutro objetivo.

Então, que tipo de esposa queria? Sergio questionou-se enquanto entrava no closet imenso que era a inveja de Jeremy. Passou ao lado de todos os fatos italianos impressionantes que tinha, escolheu umas calças pretas feitas à medida e vestiu-as.

Teria de ser uma mulher relativamente jovem, visto que queria ter mais do que um filho. Não podia passar dos vinte e tal anos. Também teria de ser fisicamente atraente, decidiu, enquanto vestia uma camisa branca. Não se imaginava a casar-se com uma rapariga anódina, embora também não pudesse ser impressionante. As mulheres impressionantes davam problemas aos homens.

Estava a abotoar a camisa quando o telemóvel tocou. Franziu o sobrolho e voltou ao quarto para ir buscar o telemóvel à cama, onde o deixara. Muito poucas pessoas tinham o seu número privado. Alex, Jeremy e, naturalmente, Cynthia. Mudava o número todos os anos e gostava da privacidade que isso lhe dava. Devia ser Jeremy ou Alex para lhe dizer que iam atrasar-se, como de costume. Não podia ser Cynthia porque tinham acabado há um mês e ela já sabia que não iam reconciliar-se.

Arqueou as sobrancelhas quando pegou no telemóvel e viu que era uma chamada anónima. Fez uma careta devido à possibilidade de terem pirateado o seu número privado. Já acontecera algumas vezes.

– Quem é? – perguntou, com raiva.

Fez-se um silêncio breve antes de ouvir a voz hesitante de uma mulher.

– Sou… Sou a Bella…

O choque foi tal que o deixou com falta de ar e sem voz.

– Sergio… – continuou ela. – És tu, não és?

– Sim, Bella, sou eu.

Sergio maravilhou-se por ter conseguido parecer normal, porque não se sentia assim. O coração acelerava e parara de pensar de forma coerente. Era Bella, a incrivelmente bonita Bella, que fora como uma irmã e torturadora.

– Disseste que… se alguma vez precisasse da tua ajuda… podia ligar-te. Deste-me o teu número no funeral do teu pai… Não te lembras?

– Lembro-me – reconheceu ele.

– Vou ter de te ligar depois – replicou ela, antes de desligar a chamada.

Sergio praguejou, olhou fixamente para o telemóvel e agarrou-o com força para dominar a vontade de o atirar contra a parede.

Passeou pelo quarto enquanto se questionava em que confusão se teria metido, embora não devesse importar. Ela, evidentemente, não voltara a lembrar-se dele desde que os pais se tinham divorciado, e fora há onze anos! No ano passado, quando aparecera no funeral do pai, fizera-o pelo pai, não por ele. Enfurecia-o estar à espera que voltasse a ligar-lhe quando devia ir para o restaurante. Reservara mesa para as oito e já estava quase na hora. Se tivesse o mínimo de sensatez, deixaria de pensar em Bella e ir-se-ia embora.

Riu-se enquanto escolhia os sapatos e as meias e começava a calçá-los. Quando conseguira parar de pensar em Bella?

Talvez tivesse conseguido esquecê-la se continuasse a ser uma mulher desconhecida que tinha uma vida tranquila na Austrália, mas o destino não o quisera assim. Bella, depois de ter ganhado um concurso exigente na televisão australiana, pouco antes de Dolores pedir o divórcio ao pai dele, transformara-se numa intérprete famosa de musicais e protagonizara espetáculos por todo o mundo, sobretudo, na Broadway e Londres. O seu rosto delicioso aparecera na televisão, nos autocarros, em cartazes publicitários… Ele dominara a vontade de ir vê-la no palco, pois sabia que, se a visse, reavivaria esse desejo que despertara nele há tanto tempo… e cuja lembrança ainda o embargava.

No entanto, o destino voltara a ser desconsiderado com ele quando, há três anos, Jeremy o levara a um baile de beneficência a que a família real assistia e em que, sem que ele soubesse, Bella fora uma das intérpretes convidadas. Vê-la a cantar e dançar fora uma verdadeira tortura.

No entanto, o pior ainda não chegara nessa noite e Jeremy comunicara-lhe, enquanto caía o pano de fundo, que recebera um convite para a festa posterior ao concerto que se celebrava no Hotel Soho. Podia ter-se recusado a acompanhá-lo, mas uma curiosidade perversa superara a sua primeira intenção, que fora embebedar-se até perder os sentidos no seu apartamento de Canary Wharf. Pelo contrário, fora à festa, onde Bella entrara de braço dado com o seu último acompanhante, um ator francês atraente de pouco talento e com fama de mulherengo. Tinham formado um casal deslumbrante. A beleza loira dela era o contraste perfeito com a beleza morena do francês. Bella usava um vestido de noite etéreo e branco e ele ia de preto… Observara-a de longe e desejara-a. Os ciúmes tinham-no corroído por dentro cada vez que o francês lhe tocava, que tinham sido muitas.

Já não se lembrava bem do que lhe dissera quando ela o vira finalmente, deixara essa sanguessuga e fora falar com ele. Não fora indelicado, não era o seu estilo porque o pai lhe inculcara a cortesia e as boas maneiras desde que era muito pequeno. De certeza que elogiara a sua atuação. No entanto, conseguia recordar a ereção delatora enquanto via a sua boca a mexer-se para dizer algo que não ouvira. Nunca sentira uma coisa dessas. A proximidade física despertara um desejo quase incontrolável nele.

Mesmo assim, controlara-o e falara com ela, até o acompanhante serviçal e possessivo se aproximar e a levar. Então, quando chegara a casa, sozinho e a salvo no quarto, dera rédea solta às suas emoções. Dera um murro na porta da casa de banho, partira dois dedos, tomara um duche frio e chorara como um bebé.

A mão demorara algumas semanas a sarar, tanto quanto ele demorara a criar distância com os seus sentimentos autodestrutivos por Bella. Falar com Alex e Jeremy ajudara, embora o conselho fosse o típico deles.

– Tens de ir para a cama com mais mulheres – declarara Alex.

– Além disso, o mais provável é que não seja grande coisa na cama – indicara Jeremy. – O Alex tem razão. O mar está cheio de peixes, só tens de lançar um pouco mais as redes.

Fizera-o durante um tempo e, durante um mês, fora para a cama com mais mulheres do que em anos. Todas tinham sido aventuras de uma noite e todas tinham sido bonitas, loiras, com os olhos azuis e com corpos lindos.

No entanto, essa vida não o convencera e encontrara Cynthia, uma divorciada atraente que era muito boa na cama e que não se importava que não a amasse. A pouco e pouco, Bella foi ficando relegada para um canto da sua mente.

No entanto, quando Alex lhe contara que Bella acabara com o francês, não pudera negar que sentira uma certa satisfação. Embora não gostasse tanto de descobrir que começara a sair com um oligarca russo que ganhara milhares de milhões com o petróleo e o gás e investira a sua fortuna numa cadeia de hotéis de luxo. O russo, outra vez segundo Alex, tinha uma reputação terrível de conquistador com predileção pelas loiras famosas. Abanara a cabeça com abatimento ao descobrir. Não era a primeira vez que Bella saía com um homem de reputação duvidosa. Para além do ator francês, saíra com uma estrela do rock com problemas com as drogas e com um jogador de polo argentino que mudava de namorada como de cavalo. Nenhuma daquelas relações durara muito, mas a imprensa cor-de-rosa esfregara as mãos durante essas aventuras… e depois. Questionavam-se quando Bella encontraria o verdadeiro amor.

Olhou fixamente para o telemóvel e odiou-se por se preocupar com ela, desprezou-se por querer voltar a ouvir a sua voz. No entanto, porque não ligara outra vez? Parecera-lhe que estava realmente nervosa. Além disso, porque desligara a chamada tão bruscamente? O seu último amante entrara no quarto e encontrara-a ao telefone com outro homem? Estariam a maltratá-la?

Bella, embora tivesse sucesso na sua profissão, escolhia muito mal os homens e só ela tinha a culpa.

Praguejou por causa daqueles pensamentos. Já não era responsabilidade dele. Não era desde o divórcio dos pais e não devia preocupar-se com ela! No entanto, por algum motivo perverso, preocupava-se. Talvez tivesse sido por isso que lhe dera o seu número de telemóvel privado e lhe dissera para lhe ligar se alguma vez precisasse dele quando aparecera, com aspeto tenso e cansado, no funeral do pai.

Não a reconhecera ao princípio. Usava um chapéu preto enorme, peruca morena e óculos escuros. Quando lhe dissera quem era, também não reagira como teria esperado, com um arrebatamento de desejo exagerado. Além disso, quando lhe dera as condolências e se desculpara pela forma como a mãe dela tratara o pai dele, só sentira tristeza. Ao lembrar-se, a única explicação que conseguia encontrar era que a dor por causa da morte do pai lhe alterara as hormonas ao ponto de nem sequer a presença de Bella o excitar. Mais ainda, recordava que quisera continuar a falar com ela, mas que alguém se aproximara para falar com ele e que Bella se despedira apressadamente, antes de desaparecer.

Nunca contara a Jeremy e a Alex que aquela morena misteriosa era Bella. Naquela época, a depressão apoderara-se dele depois do funeral. Quando finalmente saíra do poço, arrependera-se de ter dado o número a Bella, porque esse gesto a pusera outra vez na sua mente.

Custara-lhe voltar a abandoná-la e que fosse apenas uma lembrança, mas de vez em quando, como naquela noite, fugia da masmorra mental onde a fechara e transformava-se num suplício.

Na verdade, era penoso. Desesperado, guardou o telemóvel no bolso das calças e dirigiu-se para a porta, disposto a não pensar mais naquela mulher infernal. No entanto, pensou noutra coisa ao fechar a porta.

Podia estar grávida!

Se Bella engravidara por acaso, algo muito improvável, não precisaria que a ajudasse. Tinha dinheiro de sobra para contratar amas ou o que precisasse. Certamente, não pediria a um homem, e muito menos a ele, para a transformar numa mulher honrada. Isso era uma fantasia e, embora tivesse tido muitas fantasias com Bella ao longo dos anos, o casamento nunca fora uma delas.

As mulheres como Bella não eram feitas para o casamento, mas para que as admirassem e desejassem. Eram feitas para irem para a cama, não para o altar. Quanto aos filhos… era evidente que Bella nunca sentira a vontade de se reproduzir. Fora criada por uma mulher com uma ambição obsessiva que só queria que a filha fosse rica e famosa. Achava que Dolores se casara com o seu pai para que pagasse os estudos da filha. Seduzira um viúvo italiano sozinho e vulnerável e caçara-o para que se casasse com ela através de uma suposta gravidez que desaparecera como por arte de magia assim que tivera o anel no dedo. Não podia provar que não estivera grávida, mas sempre suspeitara e, quando pedira o divórcio no momento em que a profissão de Bella descolara, as suas suspeitas tinham-se confirmado. Embora não contasse ao pai. O pobre homem ficara devastado porque realmente amara Dolores e Bella.

Não culpava Bella pelo que acontecera. Sabia que as mães que se ocupavam da carreira artística dos filhos tinham filhos com problemas e Bella, evidentemente, tinha problemas. Se não, porque saíra com uma série de homens que tinham uma fama duvidosa e que nunca a fariam feliz? Parecia-lhe que Bella vivia num reality show permanente e que permitia que uns homens que só a queriam como um troféu, não como uma pessoa, a passeassem à frente dos fotógrafos.

No entanto, quem era ele para a julgar? Também não era para ele. Não fora desde a noite da festa do seu décimo sexto aniversário, a noite em que se tornara o alvo de desejo, um desejo tão forte que nada o sufocava. Pensava que a amava? Era cómico.

O telemóvel tocou e o coração parou. Tirou-o do bolso e nem sequer se incomodou em ver o nome.

– Sim? – perguntou.

– Sou o Alex. Desculpa, mas estamos presos no trânsito e vamos atrasar-nos um pouco.

– Bolas, Alex! – exclamou Sergio. – Se comprei um apartamento em Canary Wharf foi porque era perto de tudo.

E porque a torre onde era o seu apartamento de luxo tinha uma piscina climatizada, um ginásio fantástico e um restaurante luxuoso.

– Sim, mas é quinta-feira à noite, sabes. Além disso, o Jeremy demorou imenso tempo a mudar de roupa. São apenas quinze minutos. Senta-te à mesa e pede uma bebida. Parece-me que precisas de uma.

– É possível que tenhas razão – reconheceu Sergio.

– Passa-se alguma coisa?

– Não. Estou um pouco cansado.

– Foi um dia fantástico – replicou Alex. – És um negociador incrível. Agora, relaxa com um uísque. Estamos a chegar.

Capítulo 2

Bella demorou mais de cinco minutos a parar de tremer. Embora tivesse desligado a chamada, ainda tinha o coração acelerado e a boca seca. Nunca tivera um ataque de pânico assim, mas sabia tudo sobre eles. Conhecia uma colega que sofria ataques de pânico antes das estreias. Sabia quais eram os sintomas, mas nunca tivera um.

Era verdade que estivera um pouco nervosa antes de ligar a Sergio, mas isso era natural. Ainda tinha remorsos pela forma como a mãe tratara o pai dele. Se fosse sincera consigo própria, achava que não tinha o direito de lhe pedir ajuda depois do que a mãe fizera. Se alguém tinha a culpa do ataque de pânico, era a mãe!

Não sabia como a mãe tratara o pai de Sergio até ao ano anterior. Uma noite, enquanto dava conselhos à filha sobre os homens e o casamento, Dolores reconhecera que fingira uma gravidez para caçar o empresário italiano, que nunca o amara realmente e que só quisera garantir o dinheiro de que precisava para transformar a filha numa estrela. A declaração que fizera de que pedira o divórcio porque o marido já não a amava fora uma mentira.

Ficara tão espantada com a confissão da mãe que se sentira obrigada a procurar o homem a que chamara «papá» e a desculpar-se. Fora difícil encontrá-lo porque não se dizia nada sobre ele na Internet, mas acabara por conseguir, graças a um detetive privado, e descobrira que Alberto estava internado, à beira da morte, num hospital de Milão. O remorso fizera com que deixasse tudo e apanhasse um voo para Milão para lhe dizer que sempre o recordaria com muito carinho e que lhe agradecia por tudo o que fizera por ela.

No entanto, já morrera quando chegara ao hospital. Fora por isso que fora ao funeral, disfarçada, claro. Não quisera causar nenhum problema à família, sobretudo, a Sergio. Sabia que, se os fotógrafos a reconhecessem, o funeral poderia transformar-se num circo.

Fora um dos dias mais difíceis da sua vida. Sentara-se sozinha naquela catedral imensa e fria e presenciara em silêncio a dor evidente de Sergio enquanto se questionava se a mãe seria culpada, indiretamente, da morte do pai dele. Dolores enervara Alberto Morelli durante os oito anos que o seu casamento desgraçado durara.

No entanto, ele não mostrara essa infelicidade quando estava com ela. Sempre fora muito bom com ela, como Sergio, que fora como um irmão mais velho maravilhoso que estava sempre disposto a ouvi-la a cantar e a vê-la dançar. Se olhasse para trás, percebia que fora incrivelmente paciente com ela, uma virtude que não costumava associar-se com rapazes adolescentes. Sergio só tinha quinze anos quando o pai se casara com a mãe dela e ela era uma menina bastante tola e muito precoce de dez anos. Era um menino reservado, mas muito inteligente e espantosamente dotado no desporto. Costumavam jogar basquetebol no jardim quando ele queria descansar um pouco dos estudos.

Sentira muitas saudades quando o tinham mandado para a universidade em Roma porque o pai não queria que esquecesse as raízes italianas. Ela tinha treze anos e era muito magra. Era a única rapariga da turma que não chegara à puberdade. Depois, só vira Sergio três vezes por ano: Na Páscoa e no Natal, quando voltava a Sidney para passar uns dias, e durante duas semanas em julho, quando toda a família passava o verão na villa familiar do lago de Como.

Aquelas férias tinham-na entusiasmado! Ambos se divertiam, tomavam banhos e remavam, mas, em geral, só vagueavam.

Embora se lembrasse de que, da última vez, Sergio passara quase todo o tempo no seu quarto para se preparar para os exames finais. No ano seguinte, os pais já se tinham separado, Sergio já fora para Oxford para continuar a estudar e ela já estava a caminho da Broadway e do estrelato. A sua relação, que lhe parecera estreita, deixara de existir de repente. Sentira falta do irmão mais velho, mas depressa se encontrara perdida na sua profissão. No fim, olhos que não veem, coração que não sente.

Os seus caminhos só se encontraram uma vez, na festa posterior a um concerto de beneficência em Londres. Não o reconhecera ao princípio. Estava impressionante, já não era um rapaz desajeitado, mas os seus olhos continuavam a ser os mesmos. Era difícil esquecer uns olhos como aqueles, tão escuros e bonitos. Sentira-se desassossegada pela dureza do seu olhar e não demorara a perceber que continuava zangado com a mãe dela. Supôs que com ela também. A sua cortesia era gélida.

No entanto, os seus olhos não tinham nada de gélidos no funeral do pai, só refletiam tristeza e amabilidade, algo que ela já achava que não merecia. Felizmente, pusera uns óculos escuros porque derramara lágrimas de infelicidade e remorso. Sabia que devia ter entrado em contacto com o pai e com ele depois do divórcio, que devia ter mostrado arrependimento, gratidão e decência. No entanto, encontrava-se cativada pelo salto repentino para a fama, por estar prestes a satisfazer a ambição fanática da mãe… e dela própria. Poderia desculpar-se dizendo que só tinha dezoito anos, mas isso não era uma desculpa.

Sentira-se espantada quando Sergio lhe escrevera o seu número de telemóvel privado num cartão de visita e lhe dissera para lhe ligar se alguma vez precisasse de alguma coisa. A generosidade inesperada quase fizera com que perdesse o pouco de domínio sobre si própria que lhe restava e, quando uma ruiva muito atraente se aproximara e o agarrara pelo braço, guardara o cartão na mala, despedira-se apressadamente e fora-se embora antes de começar a chorar ruidosamente à frente de todos.

Nesse momento, as lágrimas ameaçavam aparecer outra vez. Eram lágrimas de desespero e tristeza. Na noite anterior, não dormira bem. Há séculos que não dormia bem. Não podia continuar assim. Tinha de se afastar de todas essas pessoas que ela sabia, no fundo, que não queriam o melhor para ela, que só queriam o que podiam tirar dela e que era por isso que a pressionavam para que aceitasse mais trabalho. Reunira uma lista muito comprida de parasitas durante os últimos anos. Nesse momento, tinha um representante, um agente em Hollywood, uma secretária pessoal, uma publicitária e uma estilista. Além disso, naturalmente, a mãe estava sempre presente.

Todos queriam a sua parte, todos queriam uma parte dela.

Não tinha tempo para si, não tinha tempo para a sua vida pessoal, só tinha tempo para trabalhar.

Ultimamente, começara a sentir-se como se estivesse numa montanha russa que nunca parava. Nunca parava e tinha de parar. Tinha de parar nesse momento! Tinha de parar de ser uma covarde e tinha de ligar a Sergio.

Endireitou-se, não fez caso ao coração acelerado, agarrou no telefone e voltou a marcar o número.

Sergio estava na mesa com a melhor vista do rio, a beber um gole de uísque com gelo e a fazer tudo o que podia para relaxar quando o telemóvel tocou.

O coração acelerou enquanto olhava para o ecrã. Uma onda de alívio embargou-o quando viu que não era Alex para lhe dizer que iam atrasar-se um pouco mais. Era uma chamada anónima e isso queria dizer que Bella estava a ligar-lhe outra vez, graças a Deus. Receara não conseguir dormir se não ligasse e fazer algo absurdo, como contratar um detetive privado para que descobrisse o seu número de telefone, a morada ou alguma forma de entrar em contacto com ela.

Teria sido penoso e tinha de recuperar o domínio sobre si próprio.

No entanto, já não importava. Agarrou o telemóvel com força e levou-o à orelha, mas a sua voz era tranquila quando falou.

– Olá, Bella.

– Ena! Como soubeste que era eu?

– Porque é uma chamada anónima e és única que o faz.

– Ah…

– O que se passou antes? Porque desligaste?

– Lamento muito, mas a minha mãe apareceu de repente e não queria que soubesse que estava a ligar-te.

– A tua mãe vive contigo? – perguntou Sergio.

– Não! Vivo sozinha em Nova Iorque, mas vim há uns dias para Sidney para passar umas férias. Sou uma parva. Liguei-te em mau momento? Não podes falar? Onde estás? Ouço barulho de fundo…

Um grupo de homens bastante barulhento passara ao lado da sua mesa.

– Estou num restaurante e estou à espera que cheguem uns amigos, mas atrasaram-se. O trânsito de Londres não favorece a pontualidade.

– O de Nova Iorque também não. Então, continuas a viver em Londres?

– Comprei um apartamento cá.

Sergio começou a questionar-se onde ela queria chegar e a perceber que fora ridículo por se ter preocupado, mas era típico dele quando se tratava de Bella. As suas reações eram desmesuradas e careciam de lógica.

– Como posso ajudar, Bella? – perguntou Sergio.

– Questionava-me se… Ainda tens a villa do lago de Como? Não a vendeste depois de o teu pai falecer, pois não?

– Não, nunca venderia a villa. Está há gerações na família Morelli. Porque perguntas?

– Eu… Preciso de desligar, Sergio, em algum lugar aprazível e isolado. Esperava arrendar-ta durante algumas semanas, talvez durante um mês.

– Entendo.

Custou-lhe dominar a irritação. Se queria arrendar uma maldita villa no lago de Como, havia muitas no mercado. Porque lhe pedia a dele? Por um lado, quis mandá-la para o inferno, mas, por outro, pelo lado que ainda a desejava, não conseguia resistir à possibilidade de voltar a vê-la em carne e osso, nessa carne impressionante…

– Para quando a quererias? – perguntou ele, com despreocupação.

– Já – respondeu ela. – Pelo menos, assim que conseguir chegar. Como já te disse, estou em Sidney.

Em casa da mãe, pensou ele, com raiva, nessa casa que o pai dera generosamente à caça-fortunas como parte do acordo de divórcio.

– Então, suponho que a Dolores não te acompanhe.

– Não! Quero ir sozinha.

Isso perturbou-o, porque imaginara que fosse com o seu último acompanhante. De repente, não pôde conter um arrebatamento de emoção sombria. Nunca perseguira Bella, apesar de a desejar obsessivamente. Podia tê-lo feito quando crescera, sobretudo, quando os seus bares especializados em vinhos tinham tido um sucesso imenso e o dinheiro começara a chegar. Além disso, já não era como uma irmã, já não lhe estava vedada. Então, porque não o fizera?

Por muitos motivos. Sobretudo, por orgulho. Ao fim e ao cabo, era italiano e não teria aceitado bem a rejeição. Ir atrás de uma mulher, de qualquer mulher, não era o seu estilo. Ir atrás da filha de uma caça-fortunas que partira o coração do seu pai parecera-lhe uma traição absoluta e o cúmulo da estupidez. Além disso, tal pai, tal filho, não era? Se Bella tivesse correspondido, nunca teria sabido se os seus sentimentos eram verdadeiros ou falsos, sobretudo, depois de ser imensamente rico.

No entanto, aquilo era diferente. Ficar em dívida com ele tornava-o diferente.

– Lamento muito, Bella. – Sergio saboreou esse momento de poder sobre ela. – Não posso arrendar-te a villa. Vou estar lá em julho.

– Ah…

Ela transmitiu uma desilusão e uma desolação enormes com essa palavra.

– Mas podes ficar comigo de graça – convidou ele. – Se não te importares de ter um pouco de companhia, claro.

– Só… tu? – perguntou ela. – Quero dizer… não haverá mais ninguém contigo?

– Só eu e a Maria durante o dia.

– A mesma Maria que cozinhava e limpava antes?

– A mesma, mas já não vive na casa. Casou-se e vive numa vila próxima com o marido, o Carlo. Ele toma conta do jardim quando é preciso e da piscina no verão. A Maria vai quando há alguém, que já não é com tanta frequência desde que o meu pai faleceu.

– Ainda me sinto mal por causa do teu pai – replicou ela.

Sergio cerrou os dentes porque não queria que se desculpasse outra vez.

Viu que Alex e Jeremy entravam no restaurante e tomou uma decisão.

– Lamento ter de desligar, Bella, mas os meus amigos acabaram de chegar. Se me deres o teu número de telefone, prometo-te que te ligo mais tarde e que faremos algum plano mais concreto. – Calculou que, à meia-noite de Londres, ainda seria de manhã na Austrália. – Enquanto isso, reserva um voo para Milão e apanha-o, mas não digas à tua mãe para onde vais. Melhor dizendo, não digas a ninguém. Não quero que um helicóptero cheio de paparazzi sobrevoe a villa para tentar tirar fotografias tuas com o teu último acompanhante. Está bem?

– O que…? Sim, sim, entendo o que queres dizer. Gostam de tirar conclusões precipitadas, não é? E mais ainda de mim. Prometo-te que não direi a ninguém. Não consegues imaginar como te agradeço, Sergio. Sempre…

– Tenho de desligar, Bella – interrompeu ele. – O teu número, por favor…

Deu-lhe o número e ele desligou quando Alex e Jeremy chegavam à mesa. Desligou o telemóvel e guardou-o no bolso.

Cumprimentou-os com uma expressão de tranquilidade na cara. Sergio nunca expressava as suas emoções e foi uma vantagem nesse momento, dado o que pensava. Ainda não conseguia acreditar. Bella ia estar em sua casa e em dívida com ele!

Nunca se considerara desumano ou vingativo, mas, aparentemente, era mais do que imaginara.

– Lamento o atraso – desculpou-se Alex, enquanto se sentava.

Sergio viu que Alex usava umas calças de ganga azuis e uma camisa azul-clara, enquanto Jeremy continuava de fato. Não era o fato azul-marinho às riscas que usava antes, mas um cinzento de três peças com uma camisa castanha e uma gravata malva.

– Estavas a marcar um encontro para amanhã à noite? – perguntou Jeremy.

– O Sergio não tem encontros – interveio Alex. – Só… dorme em casa de… amigas.

– Que miserável – comentou Jeremy, com carinho. – O mínimo que podes fazer é convidar uma rapariga para jantar antes de ires para a cama com ela. Com quem estás… na cama ultimamente?

– Isso não é assunto vosso. – Sergio decidiu não lhes contar nada sobre a chamada de Bella porque não queria que o dissuadissem do que decidira fazer. – Vamos pedir, estou cheio de fome.

Essa era outra das coisas de que Sergio gostavam nesse restaurante, a velocidade com que serviam as bebidas e a comida. Abriram-lhes uma garrafa de champanhe e trouxeram-lhes uns pratos com pão de ervas para ensopar um pouco o álcool.

Teria sido uma noite muito boa se não estivesse a pensar noutra coisa, em como ia seduzir Bella, que, naturalmente, era o que tencionava fazer. Embora, se fosse sincero, não tivesse muita experiência na arte da sedução. Os homens altos, morenos e bonitos não tinham de recorrer, normalmente, à sedução descarada e ainda menos os ricos. No entanto, era possível que ser alto, moreno e bonito não bastasse para Bella. Também poderia dizer-lhe que era multimilionário. As mulheres como Bella nunca tinham dinheiro suficiente, mas isso não seria tão gratificante como se fizessem amor por ele, não pelo seu dinheiro.

Pensou nisso durante as entradas e, no prato principal, chegou à conclusão de que, a julgar pelo seu historial, gostava dos rapazes maus, algo que ele não era, pelo menos, por enquanto.

Durante a sobremesa, decidiu que podia ser mau porque, já que tinha a oportunidade, faria tudo para levar Bella para a cama pelo menos uma vez. Não, não só uma vez. Uma vez não bastaria para sufocar a labareda que já sentia. Precisaria de um mês de relações sexuais para se cansar dela e não só de relações sexuais. Queria possuí-la de todas as formas possíveis, queria conhecer todo o desenfreio lascivo que teria praticado com os outros… amigos.

Quando esse mês passasse, quando estivesse satisfeito, livrar-se-ia dela e começaria a procurar uma rapariga boa para se casar.

Comeu a última trinca de crème caramel e decidiu que era um bom plano, embora também fosse possível que «bom» não fosse a palavra adequada.

– Estás estranho, Sergio – comentou Jeremy, quando chegaram os cafés. – Sei que o Alex e eu falamos mais dos três, mas costumas participar mais na conversa. Tens algum problema de saias?

Sergio conteve a gargalhada. O efeito da chamada de Bella não podia chamar-se «um problema de saias». No entanto, já traçara um plano e sentia-se mais tranquilo. Só faltava levar esse plano a cabo e fazer com que ela deixasse de ser um problema, uma obsessão.

Até então, decidiu que trataria do assunto de que quisera tratar antes da chamada de Bella. Ao fim e ao cabo, era possível que não voltassem a ver-se até dentro de muito tempo e, como sócios do Clube dos Solteiros, achava que tinham o direito de saber quais eram as suas intenções.

– Em certo sentido – respondeu ele, enigmaticamente. – O sexo oposto entra no que vou dizer-vos.

– Ena, isso parece infeliz – comentou Alex.

– Não é infeliz, mas é sério. Decidi que vou casar-me.

Alex engasgou-se e Jeremy limitou-se a sorrir com ironia.

– Não me surpreende.

– Mas eu estou surpreendido! – exclamou Alex. – Achava que tinhas rejeitado o casamento para sempre depois do divórcio do teu pai.

– Isso são águas passadas. Agora, que o meu pai faleceu e vendemos as cotas da franquia, sinto a necessidade de ter uma vida mais aprazível. Quero constituir uma família, Alex.

– Parece-me bem – concedeu Alex.

– Quem é a sortuda? – perguntou Jeremy.

– Sim, pode saber-se quem é? – insistiu Alex.

– Não tenho ideia – respondeu Sergio. – Ainda não a conheci. Estava a pensar numa italiana, em alguém cuja família viva perto de Milão, já que trabalharei lá a partir de agora.

Alex abanou a cabeça e Jeremy assentiu como se estivesse de acordo.

– Boa ideia, Sergio. As italianas são apaixonadas e magníficas… reprodutoras, porque imagino que queiras casar-te por isso, para ter filhos.

– Sim – reconheceu ele. – Quero mais de um filho e isso significa que a minha esposa terá de ser jovem. Também terá de ser bonita, naturalmente e, preferivelmente, de uma família rica. Vou pedir à condessa para celebrar algumas festas na sua villa. Ela conhece a flor e nata da zona.

A condessa era a sua vizinha mais próxima no lago de Como, uma viúva de cinquenta e tal anos que fora boa amiga do pai e dele. No entanto, naturalmente, não lhe pediria para fazer nada até Bella se ir embora.

– E o amor? – perguntou Alex. – Não podes casar-te com alguém por quem não estejas loucamente apaixonado.

– Por favor, Alex – interveio Jeremy. – Estar loucamente apaixonado é o pior motivo para o casamento. Garanto-te que sei. O meu pai, a minha mãe e os meus irmãos estão sempre a apaixonar-se loucamente e nunca dura. O Sergio está no bom caminho. Casa-te com alguma preciosidade que te adore, que só queira ser mãe e esposa, e serás feliz. Sempre suspeitei que eras um potencial marido.

– Porquê?

– Pela forma como me censuravas quando… me divertia um pouco – respondeu Jeremy.

– Continuas a divertir-te muito – observou Alex.

– É verdade. Custa renunciar a uma atividade tão divertida e para a qual, a risco de parecer arrogante, tenho um talento especial. Ambos me criticaram porque não me importava de partir corações, mas posso dizer sinceramente que nenhuma das minhas ex-namoradas tem má opinião de mim. Quando acabo com elas, faço-o sempre com delicadeza e com muita empatia pelos seus sentimentos.

– Que bonito! – exclamou Alex. – O que fazemos com este diabo, Sergio? Damos-lhe a medalha de ouro do amante do ano?

– É possível. O seu recorde indica que tem jeito para esse assunto. Como o fazes, Jeremy? Quero dizer, imagina que conheces uma rapariga de que gostas muitíssimo, mas que ela não gosta de ti, o que fazes para a levar para a cama? Qual é a tua melhor artimanha e a mais sedutora? Naturalmente, é um caso hipotético – indicou Sergio. – É possível que nunca te tenha acontecido.

– A verdade é que não me lembro.

– Mas o que farias se te acontecesse? – insistiu Sergio.

Jeremy bebeu o café enquanto pensava.

– A partir de hoje – interveio Alex –, só terá de mostrar o saldo da sua conta bancária à rapariga.

Jeremy revirou os olhos.

– Que parvoíce. Nunca tive de recorrer a medidas tão rasteiras para conseguir a rapariga que queria.

– Isso dito por um homem que nasceu com tudo o que podia querer – replicou Alex.

– Rapazes… Portem-se bem! – repreendeu-os Sergio. – Estou a tentar fazer uma investigação séria. Quero saber o que o Jeremy faria para atrair o interesse dessa rapariga. E tu também, Alex. Certamente, também terás encontrado alguma jovem que não caiu rendida aos teus pés. Quero saber o que fariam nesses casos.

– Acho que tentaria enrolá-la primeiro – explicou Jeremy. – Diria como é fantástica. Não falaria da sua beleza. As mulheres belas são bastante céticas com os elogios sobre a beleza. É melhor concentrarmo-nos nas suas outras virtudes. Se isso não desse resultado, passaria à psicologia inversa. Sabes o que dizem, quanto pior as tratas, mais gostam.

– Não estou de acordo com nenhuma dessas táticas – replicou Alex.

– O que farias, Don Juan? – perguntou Jeremy.

– Primeiro, descobriria tudo o que pudesse sobre ela. As suas origens, os seus amigos, o que gosta de fazer, o que gosta… Depois, levá-la-ia a algum lugar que adore, um lugar muito especial e exclusivo. Os melhores lugares para um concerto, por exemplo. Depois, se isso não desse resultado, dir-lhe-ia como a admiro e como a desejo e que, se não sair comigo, irei para a Tailândia e me tornarei monge.

Sergio riu-se e Jeremy limitou-se a mostrar a sua incredulidade.

– Isso alguma vez deu resultado? – perguntou Jeremy.

– Não sei. Nunca tentei, nunca tive de chegar tão longe. Lamento muito, Sergio, mas as raparigas caem rendidas aos meus pés sem ter de me esforçar muito.

Sergio conseguia imaginar. Embora os três fossem bonitos, Alex era ainda mais. Era muito alto e muito atraente, era loiro e tinha os olhos azuis e um corpo modelado até à perfeição no ginásio.

– Não te custará conseguir a rapariga que quiseres – continuou Alex, dirigindo-se a Sergio –, mas não te precipites com o casamento. Já que esperaste tanto, dá uma oportunidade ao amor.

– Não tinha percebido que eras tão romântico.

Sergio sentiu vontade de acabar o jantar e de voltar a ligar a Bella.

– Eu também não – comentou Jeremy. – Receio que o Clube dos Solteiros possa perder dois dos seus sócios dentro de pouco, não só um.

– Não serei eu – replicou Alex. – Não tenciono assentar a curto prazo, se é que alguma vez o farei. Estou muito ocupado. Tenho de acabar um centro turístico com campo do golfe. Já sabem qual.

– Não sei…

– O que compraste ao dono quando foi à falência? – perguntou Jeremy.

– Esse. Foi uma bagatela, mas é um projeto descomunal que me ocupa muito tempo. Além disso, tenho alguns negócios a oeste de Sidney. Com os juros tão baixos, o mercado imobiliário está a disparar nessa zona. A verdade é que, se não tivesse encontrado a secretária pessoal perfeita, que faz tudo menos atar-me os cordões dos sapatos, nem teria tido tempo para ter relações sexuais.

– Hum… – murmurou Jeremy. – Essa secretária pessoal perfeita é atraente?

– A verdade é que é muito atraente. Gosto de estar rodeado de pessoas atraentes, mas não sou assim tão néscio, querido amigo. A Harry está noiva e muito apaixonada. Além disso, nunca misturo o prazer com o trabalho.

– Uma regra muito sensata – interveio Sergio. – Suponho que o seu verdadeiro nome seja Harriet.

Sergio sabia a afeição que Alex tinha pelas alcunhas. Por exemplo, tentara chamar Jerry a Jeremy quando se tinham conhecido, até Jeremy o impedir.

– E tu, Jeremy? – continuou Sergio. – Há alguém especial na tua vida neste momento?

– Não posso dizer que a haja. Saio com raparigas, claro, mas não há ninguém especial. Garanto-vos que serei sócio do Clube dos Solteiros até morrer. Certamente, tal como estão as coisas, serei o único.

– Não tens de te casar – comentou Alex. – Podes viver com alguém e até ter um bebé.

– Não gosto de bebés – indicou Jeremy, imediatamente. – Também não quero viver com alguém. Gosto de viver sozinho, gosto de ser egoísta.

– Não és egoísta. És um homem carinhoso e generoso e um ótimo amigo.

Sergio nunca vira Jeremy tão corado.

– E tu, meu amigo, és o melhor enganador do mundo – replicou Jeremy. – Conseguirias vender gelo aos esquimós. Ganharás mais milhões antes de morreres.

– Espero que sim – reconheceu Alex. – Tenho de dar casas a muitas pessoas pobres e educar os seus filhos.

– Tu e as tuas organizações de beneficência. – Jeremy soprou. – Suponho que, depois de hoje, me peças mais doações.

– Podes ter a certeza e a ti também, Sergio. Vou mandar-vos uma mensagem de correio eletrónico com as quantias. Não sei quanto a vocês, mas eu estou cansado. Foi um dia muito comprido e, ainda por cima, amanhã, espera-me um voo de vinte e três horas até Sidney. Vamos pedir a conta. Sergio, como ganhaste a melhor parte, podes pagar.

– Será um prazer.

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Дата выхода на Литрес:
22 июля 2024
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151 стр. 3 иллюстрации
ISBN:
9788413489926
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