Читать книгу: «Obsessão implacável - Amante para se vingar»

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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

© 2022 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

N.º 119

© 2010 Lucy Gordon

Obsessão implacável

Título original: The Greek Tycoon’s Achilles Heel

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

© 2009 Melanie Milburne

Amante para se vingar

Título original: Castellano’s Mistress of Revenge

Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.

Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2011

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial. Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), acontecimientos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença. As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Dreamstime.com

I.S.B.N.: 978-84-1105-411-9

Sumário

Créditos

Sumário

Obsessão implacável

Prólogo

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Amante para se vingar

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

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Prólogo

O resplendor das luzes de Las Vegas perdia-se no céu nocturno. Os hotéis e os casinos buliam com a agitação de sempre, e o dinheiro corria sem parar. No entanto, o Palace Athena brilhava mais do que qualquer outro. Nos seis meses desde que abrira, ganhara a fama de ser mais ostentoso do que a concorrência e, naquele dia, consagrava-se como um dos maiores, com a celebração do casamento de Estelle Radnor, a estrela de Hollywood. O dono do Palace, mais inteligente do que os outros, recebera a honra de organizar o evento oferecendo tudo e a bonita Estelle, que também não era parva quando se tratava de dinheiro, tinha aceitado sem pestanejar.

Os convidados acabaram no casino e a noiva tirou muitas fotografias a jogar aos dados com o seu novo marido, a abraçar uma jovem magra e anódina, e, novamente, a tentar a sorte nos dados. O dono observava tudo com uma expressão de satisfação.

– Aquiles, meu amigo… – disse, virando-se para um jovem que contemplava a cena com uma expressão de sarcasmo.

– Já te disse. Não me chames assim.

– Mas o teu nome trouxe-me sorte. Os teus conselhos de transformar este lugar num sítio autenticamente grego…

– Mas não seguiste nem um desses conselhos.

– Bom, os meus clientes acham que é grego e isso é que importa.

– Claro! A aparência é tudo. Nada mais importa – murmurou o jovem.

– Estou a ver que hoje estás um pouco pessimista. É o casamento? Sentes inveja deles?

Aquiles virou-se, com um olhar feroz.

– Não digas tolices! – exclamou. – Tudo o que sinto é aborrecimento e repulsa.

– As coisas não te correram bem?

O jovem encolheu os ombros.

– Perdi um milhão e antes que acabe a noite provavelmente terei perdido outro. E depois?

– Anda e junta-te à festa.

– Não fui convidado.

– Achas que vão rejeitar o filho do homem mais rico da Grécia?

– Não vão ter oportunidade. Vai ter com os teus convidados.

Afastou-se uma figura esbelta e solitária, seguida de dois pares de olhos, os do homem que acabava de deixar e os da adolescente feia que a noiva tinha abraçado pouco antes. Sem se afastar muito da parede, para não chamar a atenção, escapuliu-se até aos elevadores e subiu até ao quinquagésimo segundo andar para contemplar a vista.

Lá em cima, tanto as paredes como o tecto eram de vidro grosso e os visitantes podiam olhar à sua volta sem perigo. Lá fora havia uma passagem para os empregados e o serviço de limpeza de vidros, mas os clientes não podiam aceder a ela, a menos que soubessem o código.

Maravilhada, a jovem contemplava a vista aos seus pés quando, de repente, ouviu um ruído atrás de si. Ao virar-se, reconheceu o jovem que estava na festa. Escondeu-se entre as sombras e viu-o a aproximar-se dos vidros.

A divisão era iluminada apenas por algumas luzes, para que se pudesse apreciar melhor a vista. No entanto, a penumbra desenhava os rostos que por ali passavam. A jovem olhava para ele, intrigada. Os seus traços eram finos e bem definidos, sérios e sombrios. Era o rosto de um rapaz, mas havia uma tristeza neles que quase roçava o desespero, a agonia de quem carregava um cruz pesada, um fardo insuportável…

De repente, o jovem fez algo imprevisível que a fez tremer de medo. Introduziu um código no controlo de segurança e a porta de vidro deslizou, até se abrir por completo. Não havia mais nada que o protegesse de uma queda terrível.

O gemido abafado de Petra fê-lo virar-se.

– O que está a fazer aqui? – perguntou-lhe, claramente incomodado. – Está a espiar-me?

– Claro que não! Volte para dentro, por favor – rogou-lhe ela. – Não o faça.

Ele recuou um pouco, mas não se afastou muito da beira.

– O que raios quer dizer? Não ia fazer nada. Precisava de respirar um pouco de ar fresco.

– Mas é perigoso. Pode cair sem querer.

– Sei muito bem o que estou a fazer. Vá-se embora e deixe-me em paz.

– Não – disse ela, desafiante. – Eu tenho o mesmo direito que você de apanhar ar. Está-se bem aí fora?

– O quê?

Apanhando-o de surpresa, a jovem passou-lhe à frente e situou-se ao seu lado. Ao pôr um pé lá fora sentiu a força do vento e ele teve de a agarrar.

– Mulher estúpida! – gritou-lhe. – Eu não sou o único que pode ter um acidente. Quer morrer?

– E você?

– Vamos para dentro.

Fê-la entrar com um puxão e, então, pela primeira vez, olhou-lhe para a cara.

– Não nos vimos lá em baixo?

– Sim. Estava no Zeus Room – disse ela, indicando o casino. – Eu gosto de observar as pessoas. Não podiam ter-lhe dado um nome melhor.

– Então, sabe quem é Zeus? – perguntou ele, levando-a para um sítio onde pudessem sentar-se.

– Era o rei dos deuses gregos – disse ela. – Vigiava o mundo desde a sua cadeira, situada no cimo do monte Olimpo, dono e senhor de todas as coisas. Suponho que seja assim que se sentem os jogadores quando começam a apostar, mas os pobres idiotas não demoram muito a dar-se conta da realidade. Perdeu muito?

Ele encolheu os ombros.

– Um milhão. Deixei de contar depois de algum tempo. E o que faz você num casino? Não creio que tenha mais de quinze anos.

– Tenho dezassete anos e sou… uma das convidadas do casamento.

– Ah, claro… – disse ele, fingindo não ter reparado naquela pequena hesitação na sua resposta. – Vi a noiva a tirar uma fotografia contigo. És uma das damas de honor?

Ela olhou para ele, com sarcasmo.

– Tenho aspecto de dama de honor? – perguntou-lhe, levantando os braços e olhando para o vestido que, embora caro, não era muito bonito.

– Bom…

– Eu não gosto muito de tirar fotografias e muito menos diante de toda aquela gente.

O jovem olhou-a fixamente. Ela falava com uma resignação implacável. Não havia o mínimo sinal de autocompaixão naquele tom irónico.

Não usava maquilhagem, usava o cabelo muito curto e era evidente que não se incomodara em melhorar a sua aparência de alguma forma.

– E chamas-te…?

– Petra. E tu és Aquiles, não és?

Ao ouvi-la, ele franziu o sobrolho.

– O meu nome é Lysandros Demetriou. A minha mãe queria chamar-me Aquiles, mas o meu pai pensou que era demasiado sentimental. Por fim, chegaram a um acordo e Aquiles é o meu segundo nome.

– Mas o homem que estava contigo lá em baixo chamou-te assim.

– Para ele, é importante que eu seja grego, porque se supõe que neste lugar tudo seja grego.

– Que parvos! – comentou ela, rindo-se suavemente.

De repente, os seus olhares encontraram-se.

Ele era tal como tinha imaginado. Olhos profundos, traços perfeitos e um toque de orgulho e intransigência que só podia reflectir-se no rosto de alguém habituado a que lhe fizessem as vontades. No entanto, também havia uma escuridão naquele olhar impenetrável que não parecia encaixar.

– Estaleiros Demetriou?

– Sim.

– A maior empresa da Grécia – disse ela. – Se não os quiserem, então, não valem a pena. Se não os comprarem hoje, fá-lo-ão amanhã. Se alguém se atrever a contrariá-los, então, espreitam entre as sombras, à espera do momento para atacar.

– Algo parecido – disse ele.

– Ou, caso contrário, atiram-nos às Fúrias.

Ela referia-se às três deusas gregas da raiva e da vingança, com o cabelo de serpentes e olhos que choravam sangue. Esses temidos demónios atacavam as suas vítimas sem piedade.

– Porque tens de ser tão melodramática?

– Não consigo evitá-lo, neste sítio grego prefabricado. Mas porque não estás em Atenas, a dar cabo dos teus inimigos?

– Já me fartei disso – disse ele, num tom brusco. – Que se desenrasquem sem mim.

– Ah, não me digas que estás zangado!

– O quê?

– Durante a guerra de Tróia, Aquiles apaixonou-se por uma rapariga. Ela pertencia à outra facção. Era sua prisioneira. Mas teve de a libertar, portanto, retirou-se da batalha e encerrou-se na sua tenda. Por fim, voltou para a luta, mas acabou morto. Tu podias ter acabado da mesma forma quando foste lá para fora.

– Já te disse que não tinha intenção de morrer, embora, sinceramente, me seja indiferente viver ou morrer. Aceito o que vier.

– Ela fez-te sofrer muito?

Na penumbra, mal conseguia ver o seu rosto, mas sabia que a fulminava com o olhar. Os seus olhos frios refulgiam na escuridão, lançando-lhe uma advertência.

«Chega!», ouviu as Fúrias a gritarem-lhe. «Foge antes que te mate!»

Mas ela não era dessas.

– Ela? – perguntou ele, num tom ameaçador.

A jovem pôs-lhe a mão sobre o braço, com suavidade.

– Desculpa – sussurrou. – Não devia ter dito isso.

Ele levantou-se de repente e foi até à janela aberta. Contemplou a escuridão infinita da noite. A jovem seguiu-o em silêncio.

– Fez-me confiar nela – disse ele, com um fio de voz.

– Mas, às vezes, é bom confiar.

– Não. Ninguém é tão bom como pensamos e, mais tarde ou mais cedo, a verdade acaba por aparecer. Quanto mais se confia em alguém, pior é quando nos traem. É melhor não criar ilusões.

– Mas isso é terrível. Não acreditar em nada, nem em ninguém. Não amar, nem ter esperança. Não ser feliz… Nunca.

– E nunca sofrer – disse ele, num tom mordaz.

– E não voltar a estar vivo. Seria como estar morto em vida. Não percebes, libertar-te-ias da dor, mas também perderias todas as coisas pelas quais vale a pena viver.

– Nem todas. Resta sempre o poder. Podes sempre tê-lo se renunciares a tudo o resto. É a única coisa que importa. O resto não passam de fraquezas.

– Não – disse ela, com brusquidão. – Não deves pensar assim se não quiseres arruinar a tua vida.

– E o que sabes da minha vida? – perguntou-lhe ele, zangado. – Não passas de uma menina. Alguma vez te fizeram sentir vontade de partir tudo, até não restar nada, nem sequer tu mesma?

– E o que ganhamos ao destruirmo-nos?

– Não nos transformamos… Nisto – disse-lhe, apontando para o coração.

Petra não teve de lhe perguntar o que queria dizer. Apesar de ser jovem, parecia estar à beira do desespero e não seria preciso muito para o fazer saltar para o vazio.

A pena e o terror apoderaram-se dela. Uma parte do seu ser queria fugir daquela criatura que acabaria por se transformar num monstro se ninguém se interpusesse no caminho dele. No entanto, a outra parte dela queria ficar e salvá-lo.

De repente, sem aviso de nenhum tipo, ele fez o que a fez decidir-se, algo terrível e maravilhoso ao mesmo tempo. Baixou a cabeça e deixou-a cair contra o ombro dela, várias vezes, como se batesse contra uma parede, sem esperança. Aflita, ela apertou-o entre os braços e segurou com uma mão aquela cabeça atormentada, obrigando-o a ficar quieto. Podia sentir a agonia, o desespero… Era como se só ela pudesse consolá-lo naquele mundo cruel.

Por cima do ombro dele conseguia ver o abismo que se abria aos seus pés. Nada se interpunha entre o chão e ele, nada excepto ela mesma. Agarrou-o com força e, em silêncio, ofereceu-lhe tudo o que tinha para dar. Ele não resistia. Parecia que ficara sem forças.

A pouco e pouco, fê-lo recuar e, então, olhou-lhe para a cara. A acritude e a agonia tinham-se desvanecido e no seu lugar tinha aparecido uma profunda tristeza misturada com resignação, como se tivesse encontrado alguma paz, embora incerta e efémera.

Finalmente, Lysandros esboçou um leve sorriso. No seu interior crescia o desejo de a proteger, tal como ela tinha feito com ele. Ainda restava bondade no mundo e estava ali, naquela rapariga, demasiado inocente para entender o perigo que corria por estar ao seu lado.

Acabaria por se corromper, como todos os outros.

Mas, naquela noite, não. Ele não o permitiria. Marcou um código e a porta de vidro fechou-se.

– Vamos – disse, conduzindo-a para os elevadores.

Pouco depois, estava à frente da porta do seu quarto.

– Entra, vai para a cama e não abras a porta a ninguém.

– E tu, o que vais fazer? – perguntou ela.

– Vou perder mais dinheiro e depois vou pensar um pouco.

Não quisera dizer aquelas últimas palavras, mas já era tarde.

– Boa noite, Aquiles.

– Boa noite.

Também não queria fazer o que fez de seguida, mas, antes que pudesse ter consciência disso, inclinou a cabeça e beijou-a nos lábios.

– Entra e tranca a porta.

Ela assentiu com a cabeça e fechou a porta. Pouco depois, ouviu-a a trancá-la. Resignado a continuar a perder, voltou para as mesas. No entanto, a sua sorte mudou de forma misteriosa e, uma hora mais tarde, já tinha recuperado tudo.

Outra hora mais tarde, já tinha ganhado o dobro. Um amuleto… Era o que ela era. Tinha-lhe lançado um feitiço e a sua sorte tinha mudado de repente.

«É uma pena nunca mais voltar a vê-la», pensou, sem saber que estava enganado.

Sim, voltaria a vê-la.

Quinze anos depois.

Capítulo 1

A mansão Demetriou ficava situada nos subúrbios de Atenas, sobre uma colina de onde se avistavam as terras que a família sempre tinha considerado suas. Até àquele momento, a única coisa que lhes tinha feito sombra fora o Pártenon, o templo clássico construído mais de dois mil anos antes, o ponto mais alto da Acrópole, mas quase invisível da sua posição do outro lado da cidade. No entanto, há algum tempo que um novo edifício eclipsava a majestosa Villa Demetriou. Tratava-se de um falso Pártenon, erigido por Homer Lukas, o único homem da Grécia que se atrevera a desafiar a família Demetriou ou os deuses milenares que guardavam o templo original.

Mas Homer estava apaixonado e, logicamente, tentava impressionar a sua noiva no dia do casamento. Naquela manhã de Primavera, Lysandros Demetriou estava à porta do casarão, a contemplar Atenas, incomodado por ter de perder tempo a assistir a um casamento estúpido, quando, na verdade, tinha muitas coisas importantes para fazer. De repente, ouviu um ruído atrás de si e virou-se. Era Stavros, um velho amigo do seu falecido pai que vivia perto dali. Tinha o cabelo branco e estava demasiado magro, o resultado de uma longa vida de excessos.

– Vou para o casamento – disse. – Vim, caso quisesses que te levasse.

– Obrigado. Agradeço-te – disse Lysandros, com frieza. – Se chegar cedo, ninguém se ofenderá se partir cedo.

Stavros soltou uma gargalhada.

– Estou a ver que os casamentos não te deixam nada sentimental.

– Não é um casamento. É uma exibição – disse-lhe, com sarcasmo. – Homer Lukas caçou uma estrela de cinema e quer mostrá-la a toda a gente. E as pessoas desejar-lhe-ão felicidade e depois insultá-lo-ão nas suas costas. Eu só lhe desejo que Estelle Radnor lhe torne a vida impossível. Com um pouco de sorte, fá-lo-á… E porque tiveram de se casar em Atenas? Não chegava um daqueles hotéis gregos falsos, como da outra vez?

– Porque o nome de Homer Lukas é sinónimo de estaleiros gregos – disse Stavros. – Depois do teu, claro – acrescentou rapidamente.

Durante anos, as empresas das famílias Demetriou e Lukas tinham monopolizado o ramo da indústria naval, não só na Grécia, mas também em todo o mundo. As famílias eram inimigas, rivais, mas tentavam sempre manter as aparências diante da opinião pública, porque era mais rentável assim.

– Suponho que possa ser um verdadeiro enlace por amor – disse Stavros, com cinismo.

Lysandros arqueou os sobrolhos.

– Um verdadeiro…? Quantas vezes já se casou ela? Seis? Sete?

– Tu é que devias saber. Não foste convidado para um dos seus casamentos há anos?

– Não fui convidado. Naquele momento, hospedava-me no hotel de Las Vegas onde se celebrou o copo-d’água e vi o espectáculo ao longe. Voltei para a Grécia no dia seguinte.

– Sim. Eu lembro-me. O teu pai estava muito confuso. Contente, mas confuso. Pelos vistos, tinhas-lhe dito que não querias voltar a saber nada do negócio. Desapareceste durante dois anos e então, de repente, apareceste e disseste-lhe que estavas pronto para voltar para o trabalho. O teu pai tinha medo de que não estivesses à altura depois de… Bom… – parou ao ver o olhar sombrio de Lysandros.

– Sim – disse, num tom comedido que era muito mais arrepiante do que um grito. – Bom, isso foi há muito tempo. O passado está lá atrás.

– Sim, e o teu pai ficou finalmente convencido das tuas capacidades. Os seus medos desapareceram porque voltaste transformado num verdadeiro leão, capaz de aterrorizar toda a gente. Estava muito orgulhoso de ti.

– Bom, esperemos que consiga aterrorizar Homer Lukas. Caso contrário, estarei a perder as minhas faculdades.

– De qualquer forma, deves ter cuidado – disse Stavros. – Não parou de te ameaçar. Diz que os fizeste perder milhões, a ele e ao seu filho. Inclusive, chegou a dizer que lhos roubaste.

– Eu não roubei nada. Simplesmente, ofereci um negócio melhor ao cliente – disse Lysandros, com indiferença.

– Mas foi à última hora – disse Stavros. – Pelos vistos, estavam prestes a fechar o negócio. O cliente tinha a caneta na mão, prestes a assinar, quando lhe tocou o telefone. E eras tu. Deste-lhe uma informação privilegiada que só poderias ter obtido de uma forma… pouco honrada.

– Não penses que foi para tanto – disse Lysandros, encolhendo os ombros. – Já fiz coisas piores – acrescentou, num tom arrogante e cínico.

– E foi assim – disse Stavros, continuando a história. – O homem largou a caneta, cancelou o negócio e entrou no teu carro. Dizem por aí que Homer fez oferendas interessante aos deuses do Olimpo para que leves o castigo que mereces.

– Mas, até agora, continuo sem castigo, portanto, se calhar, os deuses não estavam a ouvi-lo. Dizem que inclusive chegou a resmungar um palavrão quando viu o meu convite para o casamento. Espero que o tenha feito.

– A sério que não vais levar ninguém contigo?

Lysandros assentiu com a cabeça, sem lhe dar muita importância. Estava habituado a assistir a muitos casamentos por obrigação, às vezes, acompanhado de sócios ou amigos, mas nunca com uma mulher. Isso teria chamado a atenção dos media e não queria que a mulher ficasse com uma ideia errada. Uma mulher despeitada podia provocar muitos danos e ele não queria esse tipo de confusões mediáticas.

– Muito bem. Vamos – disse Stavros.

– Receio que tenha de me atrasar um pouco.

– Mas acabaste de dizer que ias comigo…

– Sim, mas, de repente, lembrei-me de uma coisa que tenho de fazer. Até logo.

A contundência da sua despedida foi tal que Stavros não se atreveu a insistir mais.

O carro esperava-o à frente da porta. No banco de trás estava a sua esposa, que se tinha recusado a acompanhá-lo a ir chamar Lysandros. Dizia que aquela casa desolada e sombria encaixava perfeitamente com o homem sinistro que vivia nela.

«Como pode viver num sítio tão grande e silencioso, sem família, só com alguns empregados?», tinha-lhe perguntado ela mais de uma vez. «Arrepia-me. E não é a única coisa nele que me faz tremer», acrescentara, pensando que não era a única que tinha essa opinião.

Na verdade, quase toda a Atenas estaria de acordo com ela.

Stavros entrou no veículo e contou-lhe o que tinha acontecido com Lysandros.

– E porque mudou de ideias e não quer vir connosco?

– A culpa foi minha. Fui suficientemente parvo para mencionar o passado e então mudou por completo. É muito estranho que tenha apagado aquele período como se nunca tivesse acontecido e, no entanto, é o que o impulsiona a fazer tudo o que faz. Vê o que acaba de acontecer. Um minuto antes, estava bem e, de repente, estava desejoso de se livrar de mim.

– Pergunto-me porque vai sair cedo do copo-d’água.

– Provavelmente, vai ter com aquela… Gatinha.

– Se te referes a… – não chegou a dizer o nome. – Eu não lhe chamaria «gatinha». O seu marido é um dos homens mais influentes de…

– E isso torna-a uma ordinária de categoria – disse Stavros, sem medir as suas palavras. – E, neste momento, está a tentar manter as distâncias para disfarçar um pouco. O seu marido fê-la entrar nos eixos. Ouviu os rumores.

– Provavelmente, sempre soube – disse a sua mulher, com cinismo. – Há homens nesta cidade que não se importam que as suas mulheres durmam com Lysandros.

Stavros assentiu.

– Sim, mas parece-me que ela se envolveu demasiado. Começou a criar expectativas, portanto, Lysandros insinuou alguma coisa ao marido, para que a tivesse com rédea mais curta. E o marido, que não é estúpido, sabe o que lhe convém.

– Nem sequer Lysandros pode ser tão cruel e desumano…

– É exactamente o que é e, no fundo, sabemo-lo muito bem – disse Stavros, num tom cortante.

– Pergunto-me se terá um coração em algum sítio.

– Não tem nenhum e é por isso que afasta as pessoas.

Quando o carro atravessou o portão, Stavros não conseguiu evitar olhar para trás. Lysandros estava à janela, a contemplar o mundo com ar pensativo, como se tudo lhe pertencesse e não soubesse muito bem como geri-lo.

Permaneceu ali de pé até o carro desaparecer e, então, virou-se para o quarto, tentando esclarecer as ideias. Aquela conversa tinha-o afectado demasiado e tinha de resolver aquilo o quanto antes.

Pouco depois, estava a chegar ao falso Pártenon dos Lukas. Saiu do carro, olhou à sua volta e não teve outro remédio senão admitir que Homer gastara muito bem o dinheiro. O grande templo da deusa Atena tinha sido recreado até ao último detalhe, tal como devia ser na época em que fora construído.

De repente, tocou-lhe o telemóvel. Era uma mensagem de texto.

Lamento tudo o que disse. Estava zangada. Parecia que estavas a afastar-te justamente quando estávamos mais unidos. Por favor, telefona-me.

Estava assinado com uma inicial. Lysandros respondeu imediatamente.

Não te preocupes. Tinhas razão. É melhor acabarmos. Perdoa-me por te magoar.

Esperava que fosse o fim, mas, um minuto mais tarde, recebeu outra mensagem.

Não quero acabar. Não sentia tudo o que disse. Vemo-nos no casamento? Podíamos falar.

Desta vez, estava assinada com o seu nome. Ele respondeu:

Sempre soubemos que não podia durar. Não podemos falar. Não quero submeter-te aos falatórios.

A resposta chegou em poucos segundos.

Não me importa. Amo-te. Tua para sempre.

Lysandros leu a mensagem, sem acreditar. Uma loucura estranha parecia ter-se apoderado dela.

A sua resposta foi muito breve.

Desejo-te o melhor para o futuro. Por favor, apaga todas as mensagens do teu telefone. Adeus.

Depois, desligou o telemóvel. Era simples silenciar uma máquina, mas apagar o coração podia ser um pouco mais complicado. No entanto, ele tinha aperfeiçoado a técnica durante muitos anos e a sua mestria era à prova de qualquer mulher do planeta.

Excepto de uma.

Mas nunca mais voltaria a vê-la.

A menos que tivesse muito azar.

Ou sorte.

– Estás fabulosa!

Petra Radnor esboçou um sorriso ao ouvir o elogio de Nikator Lukas.

– Obrigado, querido irmão.

– Não me chames assim. Eu não sou teu irmão.

– Mas sê-lo-ás dentro de algumas horas, quando o teu pai se casar com a minha mãe.

– Irmão adoptivo, no máximo. Não somos parentes de sangue e posso suspirar por ti, se quiser.

– Não. Tu serás o irmão que sempre quis. O meu maninho.

– Maninho! Sou mais velho do que tu!

Era verdade. Ele tinha trinta e sete anos, enquanto ela tinha apenas trinta e dois. No entanto, havia qualquer coisa infantil nele que era íntimo. Ele admirava-a muito e ela entendia porquê. A magricela Petra da adolescência tinha florescido com a idade e, embora não fosse bonita segundo a definição de Hollywood, podia considerar-se atraente. Tinha uma personalidade faiscante que resplandecia nos seus olhos expressivos e num sentido de humor apurado. Para desviar a atenção de Nikator, começou a falar de Debra, a aspirante a actriz que o acompanhava naquela noite.

– Estão espectaculares esta noite. Todos verão como és sortudo.

– Eu preferia ter vindo contigo – disse ele, suspirando.

– Oh, pára! Depois de todo o trabalho que Estelle teve para que ela te acompanhasse, devias estar agradecido.

– Debra é maravilhosa – admitiu. – Pelo menos, Demetriou não conseguirá estar à altura.

– Demetriou? Queres dizer Lysandros Demetriou? – perguntou Petra, de repente. – O verdadeiro Lysandros Demetriou?

– Não há necessidade de o dizeres assim, como se fosse importante – disse Nikator.

– Parece que é. Não estava…?

– Isso não importa. Provavelmente, não virá com nenhuma mulher.

– Ouvi dizer que tem fama de mulherengo.

– É verdade. Mas nunca as exibe em público. Demasiada confusão, suponho. Para ele, são descartáveis. Dir-te-ei uma coisa. Provavelmente, mais de metade das mulheres convidadas para este casamento já passou pela sua cama.

– Odeia-lo, não é? – perguntou ela, com curiosidade.

– Há alguns anos, relacionou-se com uma rapariga da minha família, mas tratou-a muito mal.

– Como?

– Não sei os detalhes. Ninguém sabe.

– Então, se calhar, foi ela que o tratou mal – sugeriu Petra. – E ele pode ter reagido mal porque estava desiludido.

Nikator fulminou-a com o olhar.

– E porque pensas algo parecido?

– Não sei – disse ela, confusa.

Uma voz misteriosa acabava de sussurrar alguma coisa na sua mente, mas não era capaz de distinguir as palavras. Era uma voz que vinha de muito, muito longe, uma voz que a perseguia há anos. Tentou ouvir, mas só encontrou silêncio.

– Ela fugiu e, pouco tempo depois, ouvimos dizer que estava morta. Foi há muitos anos, mas naquela época ele já sabia como apunhalar pelas costas. Tem cuidado. Assim que souber que pertences à família, tentará seduzir-te, só para demonstrar que consegue fazê-lo.

– Seduzir-me? – repetiu Petra, com humor. – Mas o que achas que sou, uma rapariga indefesa? Depois de tanto tempo no mundo do cinema, aprendi a usar o cinismo como arma de defesa. Acredita em mim. De facto, às vezes sou eu quem seduz.

Os olhos de Nikator brilharam.

– Ah, nesse caso… – disse, levantando as mãos.

– Vá – disse ela, com firmeza. – Já está na hora de ires procurar Debra.

Para alívio de Petra, ele afastou-se. Havia algumas facetas de Nikki que eram preocupantes, mas isso podia esperar. Supunha-se que seria um dia feliz.

Verificou a máquina fotográfica. Naquele dia, haveria um verdadeiro exército de fotógrafos profissionais pela sala, mas Estelle, que chamava sempre pelo nome, embora fosse sua mãe, tinha-lhe pedido que tirasse fotografias privadas para a família.

Viu-se ao espelho uma última vez e, então, franziu o sobrolho. Tal como Nikator dissera, estava esplêndida, mas o que servia para outras mulheres, não servia para a filha de Estelle Radnor. Era o grande dia da noiva e só ela tinha o direito de monopolizar toda a atenção.

– Qualquer coisa um pouco mais discreta – murmurou, vendo-se ao espelho, e foi procurar um vestido mais escuro e simples, quase puritano.

Vestiu-o, apanhou o cabelo num coque e voltou a ver-se ao espelho.

– Melhor. Agora, ninguém reparará em mim – disse.

Durante os seus trinta e dois anos de vida, tinha aprendido a viver na sombra da sua mãe, sempre tendo o cuidado de não eclipsar a estrela. No entanto, isso já não era um problema. Ela adorava a sua mãe, mas a sua vida era noutro lugar.

A noiva já se mudara para a mansão e, naquele momento, ocupava a suíte que pertencia à senhora da casa. Petra foi ter com ela.

E, então, as coisas começaram a piorar.

Estelle deu um grito quando viu a sua filha.

– Querida, no que estavas a pensar quando vestiste esse vestido? Pareces uma perceptora da época vitoriana.

Petra, que já estava habituada à pouca subtileza da sua mãe, não levou a mal.

– Pensei que seria melhor ser um pouco discreta. És tu quem tem de chamar a atenção de toda a gente. E estás absolutamente maravilhosa. Vais ser a noiva mais bonita do mundo.

– Mas sabes que és minha filha – disse Estelle. – Se apareceres a aparentar mais dez anos, o que dirão de mim?

– Se calhar, podias fingir que não sou tua filha – disse Petra, com um amargo sentido de humor.

– Demasiado tarde para isso. Já sabem. Têm de te ver jovem e inocente, caso contrário, começarão a perguntar-te quantos anos tenho. A sério, querida, tens de vestir uma coisa mais vistosa.

– Desculpa. Vou mudar de roupa, então?

– Sim, por favor, e fá-lo depressa. E solta o cabelo.

– Está bem. Vou mudar de roupa. Espero que tenhas um dia maravilhoso.

Deu um beijo à sua mãe e esta abraçou-a, como se não tivesse acontecido nada. Estelle Radnor levava sempre a sua avante.

Ao sair do quarto, Petra sorria, pensando que era uma sorte manter o sentido de humor intacto. Trinta e dois anos de vida como filha de Estelle Radnor tinham as suas vantagens, mas também tinham posto à prova a sua paciência mais de uma vez.

De volta ao seu quarto, voltou a mudar de vestido, soltou o cabelo e dispôs-se a ir para a festa. Saiu para o jardim enorme onde estava a multidão de convidados e começou com as apresentações, sorrindo e dizendo as coisas adequadas. No entanto, de vez em quando, o seu olhar desviava-se, procurando um homem.

Lysandros Demetriou…

Já teria chegado?

Aquela hora estranha que tinham passado juntos há tantos anos transformara-se num sonho, mas ele tinha estado sempre presente. Acompanhara a sua carreira através dos media, recolhendo os escassos dados da sua vida privada que passavam para a imprensa. Continuava solteiro e, desde a morte do seu pai, momento em que se tornara director da Demetriou Shipbuilding, vivia sozinho. Isso era tudo o que o mundo sabia de Lysandros Demetriou. Uma vez, encontrara uma fotografia em que mal conseguia reconhecer aquele jovem que conhecera em Las Vegas. O seu rosto tinha mudado ao ponto de inspirar medo. No entanto, ela recordaria sempre aquele rapaz inocente e despeitado, farto da vida e desiludido.

«Fez-me confiar nela», tinha-lhe dito quinze anos antes, como se isso tivesse sido o maior crime do mundo. As fotografias mais recentes mostravam um homem de aspecto cruel e desumano. Era difícil imaginar que aquele homem pudesse ser o mesmo rapaz que se agarrara a ela com lágrimas nos olhos, fugindo dos fantasmas que o perseguiam dentro da sua mente. O que acontecera àquele desespero, à dor? Teria sucumbido ao desejo de destruição e teria acabado por aniquilar o seu próprio coração? O que lhe diria depois de tantos anos?

Ela não era nenhuma santa. Durante aqueles quinze anos casara-se, divorciara-se e desfrutara da companhia masculina em toda a sua plenitude. No entanto, aquele encontro fortuito e fugaz ainda vivia intensamente na sua cabeça, no seu coração e também nos seus sentidos. Nunca tinha esquecido a sensação daquela presença poderosa, o leve roçar dos lábios dele na despedida…

Nesse momento, viu-o.

Ela estava no cimo de uma pequena colina, a observar o desfile de convidados, e viu-o entre a multidão. Era muito fácil localizá-lo, não só pela sua altura impressionante, mas também pela sua presença intensa, magnética, intacta depois de tantos anos.

As fotografias não lhe faziam justiça. Aquele rapaz triste transformara-se num homem atraente, cujos traços sérios, cheios de orgulho e de soberba, atrairiam todos os olhares em qualquer lugar. Em Las Vegas, tinha-o visto envolto na penumbra, mas a clareza daquele dia primaveril revelava uns olhos escuros e profundos, tão enigmáticos como o homem que os possuía. Nikator tinha dito que não viria acompanhado e era verdade. Lysandros Demetriou estava sozinho e, apesar de estar rodeado de gente, dava a impressão de ser inalcançável. De vez em quando, alguém tentava dirigir-lhe a palavra. Ele respondia brevemente e continuava em frente.

A fotógrafa que havia em Petra sorriu. Diante dos seus olhos tinha um homem que valia a pena fotografar. E se isso o incomodasse, certamente perdoar-lhe-ia em nome dos velhos tempos. Tirou uma fotografia e depois outra. Sorriu e avançou até estar diante dele.

Ele levantou o olhar, viu a máquina fotográfica e franziu o sobrolho.

– Guarde isso.

– Mas…

– E saia-me da frente.

Antes que pudesse dizer alguma coisa, ele continuou em frente.

Petra ficou sozinha e o seu sorriso desvaneceu-se. Tinha olhado para ela, mas não a reconhecera. Não podia fazer outra coisa excepto continuar a andar entre a multidão até chegar à capela e ocupar o seu lugar. Não a tinha reconhecido, mas não importava. Tinham passado mais de quinze anos e ela mudara muito.

«Que parva! Como poderia lembrar-se de mim?», pensou, esboçando um sorriso. Já estava na hora de afastar aquelas fantasias românticas estúpidas e divertir-se.

Divertir-se… Às custas dele… Merecia-o por ter passado por ela sem sequer a cumprimentar. A música começou a tocar enquanto a noiva fazia a sua entrada na capela, com um vestido de cetim maravilhoso e aparentando menos dez anos. Petra uniu-se aos outros fotógrafos e esqueceu o que acontecera. Lysandros estava sentado na primeira fila. Ao vê-la, franziu o sobrolho durante um instante, como se tentasse resolver um puzzle complicado.

Depois de pronunciarem os votos matrimoniais, os noivos avançaram lentamente pelo corredor, sorridentes, ricos, poderosos, contentes por terem feito uma boa aquisição. Os convidados começaram a abandonar a capela.

– Lysandros, meu amigo, é bom ver-te.

Ao virar-se, encontrou-se com Nikator Lukas. Ia directo a ele, de braços abertos, como quem dá as boas-vindas a um velho amigo.

Lysandros esboçou um dos seus sorrisos de negócios e cumprimentou o filho de Homer Lukas. Nikator apresentou-lhe a acompanhante, Debra Farley, e ele fingiu estar profundamente impressionado.

Jogos de poder e hipocrisia… Pouco depois, depois de cumprir as exigências da cortesia, o casal continuou em frente e Lysandros respirou fundo, aliviado.

De repente, ouviu um pequeno suspiro risonho atrás de si e virou-se. Era a jovem de cabelo loiro outra vez, a rir-se dele como se acabasse de representar um papel cómico só para ela. Uma tensão violenta apoderou-se dele, uma combinação estranha de dor e prazer. Era como se o mundo tivesse girado num abrir e fechar de olhos, como se já nada pudesse voltar a ser igual…

Capítulo 2

– Muito convincente – disse Petra. – Deviam dar-te um Óscar.

Tinha-lhe falado em grego e respondeu-lhe na mesma língua.

– Não fui assim tão convincente se me descobriste.

– Oh, é que eu desconfio automaticamente das pessoas… – disse-lhe ela, num tom brincalhão. – Poupa-me muito tempo.

Ele esboçou um sorriso cortês.

– Muito esperta! Então, estás habituada a este tipo de eventos, não é? Trabalhas para Homer? – assinalou a máquina fotográfica que tinha nas mãos.

– Não. Conheço-o há pouco tempo.

– E o que achas dele?

– Nunca vi um homem tão apaixonado – ela abanou a cabeça, como se a ideia lhe fosse incompreensível.

– Sim. É uma pena.

– O que queres dizer?

– Não achas que a noiva está apaixonada por ele, pois não? Para ela, ele não passa de um adorno, um extra mais que complementa todos os diamantes que já lhe terá oferecido. Já passou o melhor momento da sua carreira, portanto, precisa dele como enfeite, para o exibir, como se se tratasse de uma estatueta sobre o suporte da lareira. Quase sinto pena dele e nunca pensei que chegasse a dizer algo parecido.

– Mas, então, isso significa que finalmente alguém conseguiu tirá-lo do pedestal em que estava. Devias estar-lhe agradecido. Pensa em como será fácil derrotá-lo no futuro e tudo graças a ela – Petra olhava-o com a cabeça inclinada e um olhar divertido, como se ele fosse uma peça de museu muito interessante.

– Acho que não precisarei dela para o derrotar no futuro. Desenvencilhar-me-ei sozinho.

– Bom, se calhar, não devias estar tão certo disso – disse ela, fingindo considerá-lo muito a sério. – Não viste como o casamento mostra o pior das pessoas? Tenho a certeza de que, normalmente, não és tão cínico e prepotente como estás a ser neste momento.

Lysandros olhou-a fixamente. Sem dúvida, aquilo tinha sido uma grande impertinência. No entanto, em vez de a sentenciar com um dos seus argumentos contundentes, sentiu vontade de continuar com a batalha verbal.

– Claro que não. Normalmente, sou muito pior.

– Impossível!

– Todos os que me conhecem poderão dizer-te que hoje estás a ver o meu lado mais amável e simpático.

– Não acredito. Alguma coisa me diz que és muito mais sensível no fundo. As pessoas choram no teu ombro, as crianças recorrem a ti em busca de consolo e os que têm problemas procuram a tua ajuda.

– Nunca fiz nada para o merecer – garantiu ele, com veemência.

A multidão mexia-se à volta deles, obrigando-os a afastarem-se para um lado.

– Surpreende-me que Homer tenha escolhido um Pártenon de imitação – disse-lhe ele, quando saíram da capela.

– Oh, queria o original, mas aqui entre nós os dois… – ela baixou a voz – pensou que não estava à altura das suas exigências e quis fazer um melhor. Portanto, construiu este para mostrar como se podia ter feito melhor.

Antes que pudesse evitá-lo, Lysandros soltou uma gargalhada. Vários convidados viraram-se para ele, surpreendidos. Um jornalista olhou-o com surpresa e tirou algumas notas.

Petra também se riu. Ele conduziu-a até onde serviam as bebidas e ofereceu-lhe um copo de champanhe. As mesas do copo-d’água estavam no exterior. Os convidados estavam a sentar-se, preparando-se para receber o casal de recém-casados.

– Volto já – disse ela.

– Não demores muito. Ainda não me disseste o teu nome.

Ela olhou para trás e esboçou um sorriso curioso.

– Não. Não disse, pois não? Se calhar, pensei que não era necessário. Até já – levantou o copo de champanhe e foi-se embora.

– É um demónio ardiloso – disse uma voz atrás de si.

Lysandros virou-se e reconheceu em seguida um dos seus velhos aliados.

– Giorgios! – exclamou. – Devia saber que tu nunca faltas quando há boa comida.

– Boa comida, bom vinho, mulheres bonitas. Bom, tenho a certeza de que também te deste conta – olhou para a jovem que se afastava deles.

– É encantadora – disse Lysandros, num tom prudente.

– Oh, não te preocupes! Nem me passaria pela cabeça. Jamais desejaria a filha de Estelle Radnor.

Lysandros ficou tenso.

– O quê?

– Não te culpo por a quereres só para ti. É linda.

– Disseste «a filha de Estelle Radnor»?

– Não te disse quem é?

– Não. Não me disse.

Dirigiu-se para Petra, surpreendido. Como tinha caído na armadilha tão facilmente? Os seus comentários sobre a mãe deixavam-no em desvantagem e isso era uma coisa que não ia tolerar. Ela poderia ter-lhe dito quem era, mas não o fizera, o que significava que estava a gozar com ele. Os traços de Lysandros endureceram imediatamente.

Era demasiado tarde para a alcançar. Já tinha chegado à plataforma onde estava situada a mesa dos noivos. Um empregado acompanhou-o até ao seu lugar, que também era na mesa principal, mas numa ponta, um pouco afastado dela. Podia vê-la perfeitamente, mas não estava suficientemente perto para falar. Ela estava envolvida numa conversa animada com o companheiro do lado, rindo-se e inclinando a cabeça para trás com entusiasmo, emanando alegria. Embora com certa reticência, Lysandros não teve outro remédio senão admitir que era uma jovem encantadora, mas ele não estava com humor para se deixar encantar.

Num dado momento, ela levantou o olhar e os seus olhares encontraram-se. Evidentemente, ela sabia que o pequeno truque tinha resultado e os seus olhos diziam tudo.

Lysandros, no entanto, não se deixou afectar e lançou-lhe um dos seus olhares infalíveis. Vingar-se era apenas uma questão de tempo para alguém como ele.

De repente, ouviram-se ovações e as pessoas começaram a aplaudir. Eram o senhor e a senhora Lukas, fazendo a sua entrada triunfal. Ele tinha sessenta anos, o cabelo grisalho e uma constituição forte e aparentemente autoritária. No entanto, quando se sentaram à mesa, inclinou-se sobre a esposa e deu-lhe um beijo de adoração na mão. Ela parecia prestes a desmaiar de alegria perante semelhante demonstração de devoção ou talvez se tratasse do diamante de cinco milhões de dólares que usava no dedo. A jovem que ousara enganar Lysandros Demetriou uniu-se aos aplausos e deu um beijo à mãe.

Os convidados dispuseram-se a desfrutar dos manjares da festa. Como pudera confundi-la com uma mera empregada? A sua atitude calma e descontraída deveria ter-lhe dito alguma coisa. Os noivos tinham pousado para ela ao verem-na a aproximar-se e também tinham tirado fotografias na sua companhia.

– Temos de tirar uma fotografia juntos – disse Nikator, de repente, colocando-se ao lado dela. – Irmão e irmã – ouviu Lysandros a dizer.

Reivindicando um direito de irmão, pôs-lhe o braço à volta da cintura e puxou-a para si. Ela entrou no jogo, mas Lysandros conseguiu captar o olhar exasperado que atravessava o seu rosto. Assim que pôde, desembaraçou-se do irmão adoptivo e entregou-o a Debra Farley, como uma enfermeira que tenta livrar-se de uma criança tola.

Quando a comitiva começou a espalhar-se, Lysandros aproveitou para se aproximar dela. A jovem esperava-o com um ar brincalhão e expectante.

– Suponho que tenha de ter mais cuidado da próxima vez – disse ele, num tom sério.

– Não foi muito prudente, pois não?

– Suponho que te tenha parecido muito divertido deixares-me dizer todas aquelas coisas sobre a tua mãe sem revelares o teu parentesco.

– Eu não te obriguei a dizer nada. O que se passa? Não sabes aceitar uma brincadeira?

– Não – disse ele, com contundência. – E não me pareceu nada divertido.

Ela franziu o sobrolho.

– Há alguma coisa que te pareça divertida?

– Não. As coisas são mais simples e seguras dessa forma – disse ele.

O bom humor de Petra desvaneceu-se.

– Coitado…

Lysandros ficou desconcertado. Parecia que o dizia a sério.

Ninguém tinha voltado a mostrar-lhe compaixão desde aquela vez, há tanto tempo… Há muito tempo.

De repente, a chama da suspeita acendeu-se num canto da sua mente, embora os seus pensamentos olhassem para o outro lado.

– Se achas que insultei a tua mãe, peço desculpa – disse-lhe, num tom seco.

– Na verdade, foi a mim que insultaste.

– Não vejo como.

Ela olhou para ele nos olhos, com uma expressão contraditória, cheia de incredulidade, indignação e, sobretudo, bom humor.

– Não vês, pois não? – perguntou-lhe. – Todo este tempo e ainda não… A sério que não te deste conta… Bom, devo dizer que quando se fala com uma mulher pela segunda vez, o mais cortês é lembrar-se da primeira vez.

– Segunda vez? Alguma vez…? Já nos…?

De repente, uma labareda de lembranças iluminou a sua mente e então soube.

– Eras tu – disse, lentamente. – No telhado, em Las Vegas…

– Ena, estou a ver que te lembras perfeitamente!

– Mas eras muito diferente. És outra pessoa.

– Espero que não. Sou a mesma em algumas coisas e noutras, não. Tu também estás muito diferente, mas é mais fácil identificar-te. Queria que me reconhecesses, mas não o fizeste – suspirou num estilo dramático e teatral. – Oh! Estou desolada!

– Era-te indiferente que te reconhecesse ou não – disse ele, sem vontade de brincadeiras.

– Bom, se calhar.

A orquestra estava a sentar-se e a pista de dança estava a ser limpa, portanto, tiveram de se afastar um pouco para um lado. Lysandros sentia-se como se acabasse de entrar num mundo estranho e desconhecido onde nada era o que parecia. Ela tinha saído do passado, interpondo-se no seu caminho e desafiando-o com velhas lembranças e receios.

– Ainda não consigo acreditar que sejas tu. Tens o cabelo diferente. Então, usava-lo muito curto.

– Era mais prático. Estava rodeada de estrelas rutilantes, portanto, tinha de desempenhar o meu papel de adolescente rebelde.

– Era só o que fazias?

– Bom… O adolescente típico passa sempre por uma época de loucura, bebe tudo o que pode, chega tarde a casa, tem muitos engates… Mas toda a gente à minha volta fazia justamente isso, portanto, não tinha muito encanto para mim. Eu tinha de fazer justamente o contrário e foi por isso que cortei o cabelo, comprei roupa barata, fui uma aluna exemplar e sempre me deitei cedo. Ena! Sim, era uma rapariga exemplar. Chata, mas exemplar.

– E o que aconteceu?

Ela riu-se à gargalhada.

– A minha mãe começou a preocupar-se com o meu comportamento estranho e levou-lhe algum tempo a habituar-se à ideia de que ia directa para a vida académica.

– E em que te especializaste?

– Especializei-me em História Antiga, na Grécia. Escrevo livros, faço conferências e, na verdade, não sei tanto como aparento – disse, num tom brincalhão.

– Como a maioria – disse Lysandros, sem conseguir resistir.

– Como a maioria.

– E a tua mãe acabou por aceitar?

– Oh, sim! Agora, impressiona-a muito. Assistiu a uma das minhas conferências e disse-me: «Querida, foi fantástico. Não entendi nem uma palavra!». E fui eu quem a apresentou a Homer – olhou à sua volta. – Portanto, podes atribuir-me a culpa disto tudo.

Era a altura de abrir a pista de baile. Estelle e Homer foram para a pista e dançaram até agradarem a todos os fotógrafos.

– Não vais tirar fotografias?

– Não. Eu só tiro as fotografias de família. O que estão a fazer agora é puro espectáculo.

Nikator cumprimentou-a com a mão ao passar ao seu lado, enquanto dançava com Debra.

Petra suspirou.

– Tem trinta e muitos anos, mas, no fundo, é um menino. Não quero sequer imaginar o que acontecerá quando se encarregar da… – parou de repente e tapou a boca. – Não disse nada.

– Não te preocupes. Não disseste nada que não se saiba. Estou a ver que aprendes muito depressa – acrescentou, num tom sarcástico que não dava lugar a dúvidas.

Os dois grandes clãs que controlavam o negócio dos estaleiros da Grécia costumavam recorrer a meios pouco honrados para tirarem vantagem e, às vezes, isso incluía um pouco de espionagem, portanto, qualquer comentário casual poderia transformar-se numa faca de dois gumes.

A música acabou e começou outra. Debra foi atrás de um produtor poderoso e Nikator pôs-se a andar em direcção a Petra.

– Oh, por favor, dança comigo! – exclamou Petra, de repente, dando o braço a Lysandros e arrastando-o para a pista.

– O que estás…? – antes de acabar a frase, encontrou-se a dançar com ela.

– Sim, eu sei. Os convencionalismos da alta sociedade ditam que tenho de esperar que me convides, mas isto não é a alta sociedade. Para mim, é a alta sujidade – acrescentou, num tom irónico.

Lysandros surpreendeu-se. Nem sequer ele mesmo teria conseguido expressá-lo melhor.

– Se calhar, os teus receios eram infundados. Como és uma rapariga tão chata e exemplar, não creio que fosse pedir-te que dançasses com ele.

– Nikator tem gostos muito estranhos – disse ela, rapidamente.

Ela deslizava entre os seus braços, mexendo-se e virando-se contra o seu corpo, seguindo o ritmo e dançando com desenvoltura, em perfeita sincronia. Lysandros sentia-se tentado a agarrá-la com força, a puxá-la para si e a deixar que acontecesse alguma coisa.

Mas não. Não naquele momento. Ainda não.

Ela sabia que estava a pensar e um calafrio gelou-lhe o sangue.

– Não gostas de dançar? – perguntou-lhe, pouco depois.

– Isto não é dançar. Isto é entrar na alta sujidade – disse ele.

– É verdade, mas irritámos Nikator e isso já é alguma coisa.

Tinha razão. Nikator observava-os com ar carrancudo, como uma criança a quem tivessem arrebatado um brinquedo.

De repente, Lysandros esqueceu tudo. O seu rosto estava muito perto e o sorriso que lhe iluminava os lábios atravessava-o.

– O que vais fazer a seguir?

– Ficarei aqui alguns dias ou semanas. Assim, aproveitarei para fazer um pouco de investigação. Homer tem bons contactos. Há uma cripta num museu que nunca foi aberta, mas ele vai falar com algumas pessoas.

Lysandros desceu o olhar e contemplou aquele corpo sensual que se mexia nos seus braços, aquele rosto encantador que sorria de forma natural, os olhos azuis, profundos e misteriosos… O que fazia uma mulher tão viva a investigar os mortos? Ela era um ser de luz, não da escuridão das sepulturas. As mãos dela não tinham sido feitas para folhearem livros poeirentos, mas para acariciarem o rosto de um homem enquanto ele lhe apreciava a nudez.

– Consideras uma sorte poderes visitar museus?

– Vou ter a oportunidade de ver coisas com as quais muitos estudiosos só podem sonhar, portanto, é um privilégio.

– E não há mais nada que gostes de fazer?

– Perguntas-te porque é que uma mulher se preocupa com essas coisas? As mulheres foram feitas para o prazer. Os assuntos importantes são para os homens.

Lysandros hesitou um instante. Ela acertara quase em cheio.

– Não queria dizê-lo assim. Mas se a vida te oferece tantos caminhos possíveis…

– Como Nikator? Sim. Poderia atirar-me nos seus braços ou a qualquer outra parte do seu corpo – disse-lhe, com mordacidade.

– Desculpa – apressou-se a dizer ele.

– Onde estava? Ah, sim, nos caminhos!

– Esquece Nikator – disse ele, num tom impaciente. – Não é um caminho, mas um beco sem saída.

– Sim, já me dei conta. Já não tenho quinze anos. Segundo o meu bilhete de identidade, tenho trinta e dois anos.

– Se estás à procura de um elogio, escolheste o homem errado.

– Oh, é claro! Eu nunca me aproximaria de ti à procura de elogios ou louvores, mas há uma coisa que… – hesitou um pouco, como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas. – Sim, há uma coisa que nenhum homem poderia dar-me, excepto tu – sussurrou.

– E o que é? – Lysandros não queria perguntar, mas a tentação foi mais forte.

– Um bom conselho financeiro – declarou ela. – Sim! Consegui!

– O quê?

– Fiz-te rir.

– Não estou a rir-me – disse ele, tentando disfarçar.

– Pois, estarias se não te esforçasses tanto em disfarçá-lo. Aposto que sou capaz de te fazer rir. Por favor, sê agradável por uma vez e deixa-me desfrutar da minha pequena vitória.

– Eu nunca sou agradável, mas, desta vez, deixar-te-ei levar a tua avante.

– Só desta vez? – perguntou ela, arqueando os sobrolhos.

– Normalmente, prefiro ser eu a sair vitorioso.

– Poderia encará-lo como um desafio.

– Os desafios… correm-te bem? – perguntou-lhe ele, pouco depois.

– Oh, sim! Levo sempre a minha avante.

– Tal como eu… Pressinto que se adivinhe uma grande batalha.

– Certamente – disse ela. – Estou a tremer só de olhar para ti.

Ele guardou silêncio e um sorriso desenhou-se nos seus lábios.

Petra tinha a sensação estranha de que todas as mulheres presentes na sala estavam a olhar para ela. Tinham-lhe dito que a maioria delas já passara pela cama de Lysandros e, de repente, soube que era verdade. Todas aquelas mulheres despeitadas lhe cravavam os olhos como dardos envenenados, olhos injectados de sangue, cheios de lembranças quentes, doces, gloriosas, amargas… Havia uma mulher em particular cujo olhar indiscreto e ciumento chamara poderosamente a atenção de Petra. Aquela criatura petulante com um vestido extravagante tentava fulminá-la com o olhar. A última conquista de Lysandros Demetriou? Talvez… Aqueles olhos eram iguais aos das outras. No entanto, neles palpitava um profundo ressentimento, um instinto assassino…

De repente, Lysandros fê-la girar enquanto dançavam, cada vez mais depressa, fazendo-a esquecer tudo o que a rodeava. O mundo desvaneceu-se à sua volta. Já nada importava.

Acabaria nos braços dele, vítima de uma paixão febril? Acabaria como todas as outras, sofrendo ao longe? Não. Alguma coisa lhe dizia que o caminho que iam percorrer juntos teria muitas curvas e contracurvas.

Naquele momento, foram interrompidos por gritos provenientes de muito perto. Todos os convidados deixaram de dançar e afastaram-se, revelando o casal de recém-casados, entregues a um abraço de amor. Tal como se esperava, o beijo prolongou-se até a multidão começar a aplaudir e então, a pouco e pouco, todos os casais começaram a abraçar-se e a beijar-se, imitando os homenageados.

Lysandros ficou imóvel, contemplando a cena. Ainda a segurava pela cintura, a um centímetro de distância. Só teria de dar um passo e cobrir aqueles lábios com os seus.

Ela levantou o olhar.

– Que espectáculo! – exclamou ele, olhando à sua volta e falando num tom de desaprovação. – Não vou ofender-te ao entrar no jogo – largou-a e recuou, sem lhe dar opção alguma, excepto fazer o mesmo.

– Obrigada – disse ela, num tom formal. – É um prazer conhecer um homem com sentido de decoro – disse-lhe, tentando reprimir a vontade de lhe dar um murro.

– Receio que tenha de partir. Já descurei os meus negócios durante demasiado tempo. Foi um prazer voltar a ver-te.

– Igualmente – disse ela em tom seco.

Ele inclinou-se com cortesia e um segundo depois já partira.

Estupefacta, Petra viu-o a partir, incapaz de acreditar no que acabava de acontecer. Lysandros Demetriou era um homem com uma vontade de ferro e um coração de aço. Tinha-a deixado ali e partira sem mais nem menos, sem olhar para trás.

– Não te preocupes. Tens de ter paciência.

Petra levantou o olhar e encontrou-se com a mulher em quem reparara enquanto dançavam. Tinha-a visto a chegar à festa acompanhada de um dos homens mais ricos e poderosos da cidade.

– Não consegui evitar observar-te enquanto dançavas… com Lysandros – disse-lhe, olhando-a com uma mistura de desprezo e pena. – Ele é assim, sabes? Aproxima-se muito e depois afasta-se, para pensar um pouco. Quando decidir que encaixas na sua agenda apertada, voltará quando lhe convier.

– Se eu estiver de acordo – disse Petra.

A mulher soltou uma gargalhada fria e arrepiante.

– Não sejas ridícula. Claro que estarás de acordo. Tem-no escrito na testa. Se regressasse neste preciso instante, estarias mais do que disposta.

– Vejo que sabes muito bem do que estás a falar.

– Oh, claro que sei! Já estive lá. Sei o que está a passar-te pela cabeça neste momento, porque também passou pela minha. «Quem acha que é? Por acaso, pensa que, se voltar a entrar por aquela porta, cairei rendida aos seus pés?» Blá, blá, blá… Mas, então, olha para ti como se fosses a única mulher no mundo e cais rendida aos seus pés, como não poderia ser de outra maneira. E será maravilhoso, durante algum tempo. Estar nos seus braços, na sua cama… Descobres um universo com que jamais sonhaste… Mas, um dia, acordas e dás-te conta de que tens os pés na terra. Sentes muito frio porque ele se foi embora. Acabou contigo. Já não existes para ele. Então, chorarás e sofrerás, negando a realidade, mas ele não atenderá as tuas chamadas, portanto, acabarás por acreditar. Não tens outro remédio – deu meia volta e pôs-se a andar, mas então parou. – Achas que és diferente, mas nenhuma mulher é diferente para ele. Adeus.

Capítulo 3

A festa prolongou-se até à noite. As luzes do falso Pártenon acenderam-se e a música aumentou de volume. Os magnatas faziam negócios. Petra acompanhou Estelle até ao interior da casa para a ajudar a mudar de roupa.

Iam passar a lua-de-mel a bordo do Silver Lady, o iate de Homer, que naquele momento os esperava no porto do Pireu, a oito quilómetros de distância. Já tinham saído dois carros carregados de bagagem e empregados, e só restava a limusina para transportar os recém-casados.

– Sentes-te bem? – perguntou-lhe Estelle, olhando para a cara da sua filha.

– Claro – disse Petra, fingindo alegria.

– Pareces preocupada com alguma coisa.

Na verdade, sim, estava preocupada. As palavras daquela estranha ecoavam na sua cabeça.

«Quando decidir que encaixas na sua agenda apertada, voltará quando lhe convier», tinha-lhe dito.

Mas isso não ia acontecer. Se voltasse naquela noite, ela já teria partido.

– Importas-te que vos acompanhe até ao porto? – perguntou à sua mãe, de repente.

– Querida, eu adoraria. Mas eu pensava que ias sair.

– Não creio. Não tenho vontade.

No carro, a caminho do porto, beberam champanhe e, quando entraram no iate, Homer mostrou-lhes aquele barco magnífico, cheio de orgulho.

– Agora, temos de te casar a ti – disse-lhe, com entusiasmo.

– Não, obrigada – disse Petra, apressadamente. – A minha única experiência nesse sentido não me deixou satisfeita.

Antes que Homer pudesse responder, o telefone dela começou a tocar.

– Receio que o meu comportamento desta noite tenha deixado muito a desejar – disse uma voz masculina. – Se calhar, poderei compensar-te convidando-te para jantar.

Por um instante, Petra ficou sem palavras. Tinha ensaiado muito bem o discurso, mas as palavras não saíam da sua boca.

– Não sei se…

– O meu carro está à espera diante da casa.

– Mas eu não estou lá. Estou no Pireu.

– Não te levará muito tempo a voltar. Estarei à tua espera.

Desligou.

– Oh! – exclamou ela, sem conseguir conter-se. – Simplesmente, assume que farei o que ele quer – ao ver que todos a olhavam com o sobrolho franzido, explicou-lhes: – Lysandros Demetriou. Quer convidar-me para jantar e não me deixou dizer-lhe que não.

– Típico dele – disse Homer. – Quando quer uma coisa, vai directo ao assunto.

– Mas não é forma de tratar uma mulher – disse Estelle, indignada.

Ele sorriu e beijou-a.

– Parece que não te importaste muito – disse Homer à sua esposa.

Ao sair do iate, Petra reparou num detalhe.

– E como conseguiu o meu número de telefone? Eu não lho dei.

– Provavelmente, terá subornado algum empregado – disse Homer, como se fosse o mais normal do mundo. – Adeus, querida.

Petra apressou-se a atravessar o molhe e entrou no veículo. Durante o caminho de volta a Atenas, tentou organizar os seus pensamentos caóticos. Estava zangada, mas sobretudo consigo mesma. Toda a sua determinação desaparecera ao ouvir aquela voz.

De repente, tirou o telemóvel da mala e marcou o número de Karpos, um grande amigo que tinha na capital. Karpos costumava trabalhar como jornalista e era uma pessoa em quem podia confiar.

Quando ouviu de quem se tratava, respirou fundo.

– Toda a gente tem um medo tremendo dele – disse, falando atrapalhadamente. – De facto, têm tanto medo que nem sequer se atrevem a admitir que têm medo, caso chegue aos seus ouvidos.

– Isso é uma paranóia – disse Petra.

– Certamente, mas é o efeito que tem nas pessoas. Ninguém se atreve a olhar além daquela couraça de ferro que tem em vez de pele. Mas, bom, não acredito que encontrassem alguma coisa se procurassem. Aquele homem não deve ter coração, embora alguns possam achar que sim. As opiniões estão um pouco divididas nesse sentido.

– Mas não houve alguém, há muito tempo? Alguém de outra família?

– Sim. O seu nome era Brigitta, mas eu não te disse nada. Morreu em circunstâncias estranhas. Ninguém conseguiu descobrir a verdade em todos estes anos. A imprensa deixou o assunto depois de receber inúmeras ameaças e é por isso que ninguém fala disso agora.

– Referes-te a ameaçar com acções legais?

– Todo o tipo de ameaças – disse Karpos, num tom misterioso. – Um tipo começou a fazer perguntas e, da noite para o dia, choveram-lhe dívidas em cima. Esteve prestes a ficar arruinado, mas, à última hora, disseram-lhe que, se se comportasse devidamente, tudo poderia ser resolvido. Como é claro, o homem aceitou e tudo voltou à normalidade de forma milagrosa.

– Aconteceu-lhe alguma coisa depois disso?

– Não. Deixou o jornalismo e meteu-se nos negócios. Agora, tem muito sucesso, mas, se se mencionar o nome de Demetriou, foge como se se acabasse de mencionar o próprio diabo. Caso se saiba alguma coisa, deve fazer-se vista grossa e fingir que não se sabe nada, como o apartamento que tem em Atenas ou a Casa de Príamo, em Corfu.

– A Casa de Príamo? – repetiu Petra, surpreendida. – Ouvi qualquer coisa sobre isso. Sei que andam há muito tempo a tentar entrar lá. Há qualquer coisa lá, mas ninguém pode entrar. Estás a dizer que é dele?

– É o que dizem. Mas não digas a ninguém. De facto, não lhe digas que falaste comigo, por favor.

– Não te preocupes – Petra desligou o telefone e ficou sentada, com o olhar perdido no vazio, pensativa.

Sabia que estava a entrar em águas profundas, mas isso nunca a tinha assustado. Além disso, tinha um assunto pendente com Lysandros Demetriou há mais de quinze anos.

Tinha-lhe dito que estaria à espera dela e assim o fez. Estava junto do portão que dava acesso à propriedade de Homer. Assim que a limusina parou, abriu-lhe a porta, ofereceu-lhe a mão e ajudou-a a sair.

– Não demorarei muito – disse ela. – Tenho de entrar para…

– Não. Estás bem assim. Vamos.

– Ia mudar de vestido.

– Não é preciso. Estás linda e sabe-lo, portanto, porque estamos a discuti-lo?

Havia qualquer coisa naquele discurso directo que a afectara sobremaneira. Qualquer elogio pusilânime não teria tido o mesmo efeito. Ele não falava com rodeios. Dizia exactamente o que pensava e, naquele momento, pensava que ela era linda.

– Sabes uma coisa? Tens razão. Porque estamos a discuti-lo? – fez sinal ao motorista para que continuasse sem ela e entrou no carro de Lysandros.

Perguntava-se onde a levaria e teve uma grande surpresa ao ver que o veículo parava à frente de um pequeno restaurante. Ele conduziu-a até uma mesa do terraço, de onde se avistava a costa ao longe, banhada pela luz da lua.

– Isto é espectacular – disse ela. – É muito agradável e tranquilo, depois do alvoroço de hoje.

– Eu tenho a mesma sensação – disse ele. – Normalmente, venho sozinho.

A comida era simples, cozinha tradicional grega, a favorita de Petra. Enquanto ele fazia o pedido, teve oportunidade de o examinar atentamente, tentando encontrar algum vestígio daquele jovem atormentado no tirano que tinha diante dos seus olhos. O que lhe teria acontecido naqueles quinze anos?

– Estás bem? – perguntou-lhe ele, de repente.

– Sim. Porque perguntas?

– Suspiraste com força, como se te doesse alguma coisa.

– Não. Não me dói nada – apressou-se a dizer ela.

Fingiu procurar alguma coisa na mala e, quando voltou a levantar o olhar, encontrou-o a olhar para ela com olhos de espanto.

– Quinze anos – disse ele. – Aconteceram muitas coisas e ambos mudámos. No entanto, apesar de tudo, continuamos a ser os mesmos. Ter-te-ia reconhecido em qualquer lugar.

Ela sorriu.

– Mas não me reconheceste.

– Só à superfície. Uma parte de mim conhecia-te. Nunca pensei que voltássemos a ver-nos e, no entanto, de alguma forma tinha a certeza de que aconteceria.

Ela assentiu com a cabeça.

– Eu também. Mesmo que passassem mais quinze ou cinquenta anos, eu sempre soube que voltaríamos a encontrar-nos antes de morrer.

Aquelas palavras pareceram chegar-lhe ao coração.

«Voltaríamos a encontrar-nos antes de morrer.» Era verdade, completamente verdade. Ela fora uma presença invisível na sua vida desde aquela noite estranha. Mas como poderia dizer-lho? Ela tinha-o inspirado, tinha-lhe dado forças para ser sincero, mas isso não era suficiente.

Naquele momento, chegou a comida. Rodelas de tomate com queijo feta. Simples e delicioso.

– Hum… – disse ela.

Ele comeu muito pouco. Não parava de olhar para ela.

– Porque subiste até lá naquele dia? – perguntou-lhe, finalmente. – Porque não ficaste lá em baixo com o resto dos convidados, a apreciar a festa?

– Suponho que seja cínica por natureza – ela sorriu. – O meu avô costumava dizer-me que a minha atitude para com a vida era de uma indiferença absoluta. E é verdade. Penso que naquela noite em Las Vegas já havia um pouco disso e piorou desde então. Tendo em conta a casa de loucos em que sempre vivi, não poderia ter sido de outro modo.

– E o que tem a casa de loucos?

– Eu gosto, desde que não me peçam que me envolva demasiado ou que me leve muito a sério.

– Alguma vez quiseste ser actriz?

– Pelo amor de Deus! Claro que não! Já temos de sobra com uma louca excêntrica na família.

– A tua mãe sabe o que pensas dela?

– Claro que sabe! De facto, ela foi a primeira a dizê-lo e eu não demorei a dar-lhe a razão. É uma querida e eu adoro-a, mas vive no planeta Radnor.

– Quantos anos tem na verdade?

– Ganha ou perde anos conforme lhe convém. Tinha dezassete anos quando me teve. O meu pai não quis saber nada dela, portanto, abandonou-a e ela teve de se desenvencilhar sozinha durante algum tempo. Os que só a conhecem como a estrela que é hoje em dia deveriam ter visto onde vivíamos naquela época, aquele beco no centro de Londres. E depois os meus avós paternos entraram em contacto connosco para nos dizerem que o meu pai tinha morrido num acidente de carro. Não tinham ideia de que existíamos até ele o ter confessado no seu leito de morte. Eram gregos. A família era muito importante para eles e eu era a única familiar que lhes restava. Felizmente, eram pessoas muito agradáveis e demo-nos muito bem. Eles cuidaram de mim enquanto Estelle investia na sua carreira. O meu avô era um erudito. Tinha estado em Inglaterra a leccionar Grego na universidade. Ao princípio, nem sequer tive de frequentar a escola, porque ele pensava que podia ensinar-me melhor. E tinha razão.

– Então, foste tu quem cresceu com um pouco de sensatez?

– Bom, alguma das duas tinha de a ter – disse ela, rindo-se.

– E como lidavas com a questão dos padrastos?

– Todos eles eram bons. Na sua maioria, estavam doentes de amor e eram um pouco parvos, portanto, custava-me muito não me rir deles.

– E o de Las Vegas?

– Vejamos… Era… Não. Esse era outro… Ou seria este? Oh, não importa! Eram todos iguais. Acho que era um aspirante a actor que pensava que Estelle poderia dar-lhe um empurrão. Quando ela se apercebeu das suas verdadeiras intenções, mandou-o embora. Então, já estava apaixonada por outra pessoa.

– Parece que nada disso te afectou absolutamente. Não acreditas no amor eterno?

– Amor eterno? – ela fingiu considerá-lo por um instante. – Como quando alguém tenta levar todo o teu dinheiro ou quando o tipo arma uma confusão porque ela tem de gravar uma cena de amor, ou quando…?

– Está bem – disse ele, interrompendo-a. – Já percebi a mensagem. Estou a ver que o sexo masculino não te impressiona muito.

– Como adivinhaste?

– E tu? Não houve nenhum suficientemente valente para se esquivar dos dardos que lanças?

Ela fez uma careta.

– Claro que sim. Se não fizerem isso, não reparo neles.

– Então, esse é o primeiro requisito, não é? Ser valente.

– Entre outras coisas. Mas isso também está um pouco sobrevalorizado. O homem com quem me casei era atleta profissional, um esquiador que conseguia dar saltos impressionantes. O problema foi que era tudo o que sabia fazer, portanto, acabou por se tornar igualmente chato.

– És casada?

– Já não – disse ela, num tom de alívio que o fez rir.

– O que aconteceu? Foi pouco depois do nosso breve encontro?

– Não. Fui para a universidade e estudei muito. Era a mesma faculdade onde o meu avô tinha leccionado e não importava às pessoas que eu fosse filha de uma grande estrela do cinema. No entanto, espantavam-se quando mencionava o nome do meu avô. Estudei Grego, aprendi História, passei nos exames. Íamos viajar juntos até à Grécia para fazer as nossas investigações, mas então os dois morreram. Já não é o mesmo sem ele. Queria que se sentisse orgulhoso de mim, mas não foi possível.

Hesitou um instante e uma sombra atravessou os seus olhos.

– O que se passa? – perguntou-lhe ele, inclinando-se para a frente.

– Oh, nada…

– Diz-me – disse ele, num tom subtil.

– Estou a recordar como os adorava e como eles me adoravam. Precisavam de mim, porque eu era a única pessoa que lhes restava depois da morte do seu filho. Também gostavam de Estelle, mas ela não fazia parte deles, como eu.

– E a tua mãe não sentia ciúmes?

Petra abanou a cabeça.

– Ela é muito boa mãe, à sua maneira, mas nunca fui tão importante para ela como era para os meus avós.

– Que triste… – disse ele.

– Não. Desde que se tenha alguém que precise de nós, consegue-se lidar com os que não precisam.

– Mas os teus avós morreram – disse Lysandros. – Quem tens agora?

Petra afastou a tristeza.

– Estás a brincar? A minha vida está cheia de gente. É como viver numa colmeia.

– Incluindo os maridos da tua mãe?

– Bom, não se incomodou em casar-se com todos. Dizia que não tinha tempo suficiente.

– Algum namorado?

– Alguns. Mas a maioria tentava aproximar-se da minha mãe, portanto era um duro golpe para a minha auto-estima. Aprendi muito cedo a guardar os meus sentimentos para mim até saber muito bem o que sentia – riu-se suavemente. – E comecei a ter fama de ser fútil.

Aquilo não poderia ser mais absurdo para Lysandros. Uma mulher fútil não falava com tanta paixão, nem olhava com aquele brilho nos olhos.

– E foi então que conheci Derek – disse ela. – Estelle estava a rodar um filme que tinha a ver com desportos de Inverno. Ele era um dos consultores. Era tão bonito que fiquei louca por ele. Pensei que, finalmente, o tinha encontrado. Fomos felizes durante alguns anos, mas então… – encolheu os ombros. – Acho que se fartou de mim.

– Fartou-se de ti? – perguntou-lhe ele, com ênfase.

Ela soltou uma gargalhada como se a traição do seu marido tivesse sido o mais engraçado que lhe acontecera na vida, uma estratégia defensiva que era muito familiar a Lysandros.

– Acho que nunca esteve interessado em mim – disse ela, prosseguindo. – Precisava de dinheiro e pensou que a filha de Estelle Radnor teria imenso. De qualquer forma, começou a ter aventuras, eu perdi as estribeiras e acho que isso o assustou um pouco.

– Tu? Perdeste as estribeiras?

– A maioria das pessoas acha que é impossível, porque não acontece muitas vezes. No entanto, de vez em quando, também deixo escapar a fera dentro de mim. De qualquer modo, normalmente tento não o fazer porque que sentido tem? No entanto, às vezes, não há outro remédio e, por vezes, acabo por dizer coisas que não sinto. Bom, foi há cinco anos. São águas passadas. Porque te ris?

– Não sei – confessou-lhe ele, com sinceridade.

– Parecia que te rias de uma piada ou algo parecido. Vá, diz-me!

«Uma piada», pensou Lysandros. Se a direcção da sua empresa, os empregados e o director do banco a tivessem ouvido, teriam achado que estava louca.

No entanto, o sorriso continuava lá, cada vez maior e espontâneo.

– Diz-me – disse ela, insistindo. – O que disse assim tão engraçado?

– Não foi… Foi a forma como disseste «São águas passadas», como se não quisesses voltar a saber nada de homens durante muito tempo.

– Ou o resta da vida. Seria o melhor para eles.

– Melhor para eles ou melhor para ti?

– Definitivamente para mim. Os homens já não existem para mim nesse sentido. Todo o meu mundo é este país, o meu trabalho, as minhas investigações…

– Mas na Grécia Antiga também havia membros do sexo masculino, lamento ter de to dizer.

– Sim, mas posso permitir-me ser um pouco mais tolerante com eles. Foi graças a eles que iniciei a minha carreira. Escrevi um livro sobre dois heróis gregos antes de acabar a universidade e consegui que o publicassem. Mais tarde, pediram-me que o adaptasse a uma versão infantil para as escolas. Os direitos de autor renderam muito dinheiro, portanto, não posso queixar-me desses maravilhosos e lendários homens gregos.

– Sobretudo, porque estão mortos e enterrados.

– Estou a ver que começas a perceber a ideia.

– Vamos – disse ele, rapidamente.

O empregado serviu-lhes um prato de frango, acompanhado de um vinho espumante. Enquanto a observava a comer, Lysandros questionou-se se falaria a sério. Se se tratasse de qualquer outra mulher, teria dito que se tratava de uma farsa, de um estratagema para enganar o mundo sem se negar o prazer de uma vida sexual plena. No entanto, aquela mulher era diferente. Vivia num mundo próprio, totalmente desconhecido para alguém como ele.

– Então, como sabias tanto naquela noite em Las Vegas? – perguntou-lhe, por fim. – Surpreendeste-me muito com aquela conversa sobre Aquiles.

Ela riu-se tristemente.

– Conversa… As pessoas fartam-se muito depressa. Devo ser muito chata e não posso culpá-las por isso. Lembro-me que te zangaste um pouco.

– A ideia de ser surpreendido num momento de fraqueza não me fascinava, mas tinha apenas vinte e três anos. E, além disso…

– E, além disso, estavas muito infeliz, não era? – perguntou Petra. – Por causa dela?

Ele encolheu os ombros.

– Não me lembro.

A jovem olhou para ele com olhos cépticos.

– Ela fez-te confiar nela e depois traiu-te. Uma coisa assim não se esquece.

Ele guardou silêncio e Petra deixou o assunto.

– Então, o teu avô ensinava Grego – disse ele, finalmente, claramente decidido a mudar de assunto.

– Eu sinto-me tão grega como inglesa. E devo-o a ele.

– Foi assim que conheceste a história de Aquiles? Pensei que a tivesses estudado na escola.

– Foi muito mais do que isso. O meu primeiro contacto com a história da Grécia Antiga foi através dos clássicos, a Ilíada. O herói da guerra de Tróia… Helena, a mulher mais bonita do mundo, e todos aqueles homens a lutarem por ela. Na realidade, não era assim tão bonito, claro, mas parecia-me muito romântico. Era casada com Menelau, mas apaixonou-se por Páris e ele levou-a para Tróia. Mas Menelau não se rendeu, portanto, juntou todas as suas tropas para sitiar a cidade de Tróia durante dez anos, para a levar de volta. E ali estavam todos aqueles heróis gregos tão atraentes, em especial, Aquiles… – disse-lhe, esboçando um sorriso de falsa inocência. – Como é que o favorito da tua mãe era Aquiles?

– Ela é de Corfu, onde, como já deves saber, esta personagem deixou um legado cultural muito importante. A minha avó costumava levá-la ao Palácio de Achillion, embora o fizesse porque era fascinada por Sissi.

Petra assentiu. Sissi era Isabel da Bavária, uma heroína romântica do século XIX, famosa por ser a mulher mais bonita da sua época. A sua beleza tinha feito Francisco José, o jovem imperador da Áustria, enlouquecer de amor ao ponto de se casar com ela quando tinha apenas dezasseis anos.

No entanto, o casamento fracassara. Sissi acabara a vagar pelo mundo, sozinha e desencantada, e, por fim, comprara um palácio na ilha de Corfu. A grande tragédia da sua vida fora a morte do seu filho Rudolph, que se suicidara juntamente com a amada. Um ano mais tarde, Sissi começara a remodelar o palácio e transformara-o num templo de homenagem ao mais famoso dos guerreiros, Aquiles. No entanto, não chegara a acabar a sua obra, porque morrera às mãos de um assassino. O palácio fora vendido e transformado num museu dedicado a Aquiles.

– O mais valente e atraente de todos. No entanto, guardava um pequeno segredo, um ponto fraco… – disse Petra, pensativa.

Rezava a lenda que Tétis, a mãe de Aquiles, tinha tentado proteger o seu filho mergulhando-o no rio Estige, que corria entre o mundo e o submundo. As águas daquela corrente infernal tornariam um homem imortal onde lhe tocassem. No entanto, a sua mãe tinha-o segurado pelo calcanhar, impedindo que as águas o imortalizassem por completo. O calcanhar de Aquiles…

De entre todas as estátuas que decoravam o palácio, a mais apelativa era aquela que o mostrava no chão, a tentar tirar do calcanhar a seta que lhe roubava a vida.

– Afinal, foi isso que o matou – disse Lysandros. – Afinal de contas, parece que o seu ponto fraco não estava assim tão bem escondido. O seu assassino sabia onde tinha de acertar e também sabia que tinha de embeber a ponta em veneno para que fosse mortal.

– É verdade. Às vezes, não estamos tão seguros como pensamos.

– Era por isso que o meu pai dizia que não se deve deixar que adivinhem os nossos pensamentos. São o verdadeiro ponto fraco.

– Não é verdade – disse ela. – Às vezes, é-se mais forte por as outras pessoas nos entenderem.

– Não estou de acordo – disse ele, num tom mais seco. – Um homem sábio não confia a ninguém os seus pensamentos.

– Nem sequer a mim?

Petra apercebeu-se de que a sua pergunta o tinha deixado desconcertado, mas os muros por detrás dos quais se escondia eram demasiado robustos para se irem abaixo assim tão facilmente.

– Se houvesse alguém em quem me sentisse inclinado a confiar, acho que serias tu, devido ao que aconteceu no passado. Mas eu sou como sou – esboçou um sorriso irónico. – Nem sequer tu podes mudar-me.

Ela olhou para ele com suavidade e, então, atreveu-se a tocar-lhe na mão.

– Quanto mais se confia em alguém, pior é quando nos trai, não é?

– Eu disse isso? – perguntou ele, surpreendido.

– Algo parecido. Em Las Vegas. E estiveste prestes a dizer muito mais.

– Nessa noite, estava de muito mau humor. Não sei o que disse.

Um grande silêncio apoderou-se dele. Com o olhar perdido, observava o seu copo…

Capítulo 4

– Desculpa – disse Lysandros, finalmente. – Eu sou assim.

– Nunca deixas ninguém entrar, pois não?

Ele abanou a cabeça.

– Mas digo-te uma coisa. Talvez seja só uma coincidência, mas é estranho. Depois de te acompanhar ao teu quarto, voltei para as mesas de jogo e, de repente, comecei a ganhar. Recuperei tudo o que tinha perdido. Era como se não pudesse perder e, de alguma forma, tinha tudo a ver contigo, como se me tivesses transformado num vencedor. Porque sorris?

– Tu, supersticioso… Se tivesse sido eu a dizê-lo, farias um comentário machista e depreciativo a respeito da imaginação febril das mulheres.

– Sim, provavelmente, sim. Mas, se calhar, tu exerces uma magia mais poderosa.

– Magia?

– Não me digas que estudaste mitologia grega, mas que não sabes nada de magia…

– Não, claro que não. A magia encontra-se nos lugares mais inesperados e o mais difícil é saber distingui-la das ilusões.

Disse as últimas palavras tão suavemente que ele mal a ouviu. No entanto, o tom da sua voz foi o suficiente para provocar uma sensação estranha em que se misturavam o prazer, a dor e a inquietação.

– Ilusões… A coisa mais perigosa do mundo.

– Ou a mais valiosa – disse ela, rapidamente. – Todas as grandes ideias nascem assim. Certamente, algum antepassado teu se terá levantado um dia e pensado que podia construir um barco. E construiu-o, e depois outro, e aqui estás tu.

– És uma mulher muito inteligente – sorriu. – Consegues dar a volta a tudo apenas vendo-o de outra forma. A tua perspectiva ilumina as coisas, transforma-as de maneira que já não haja espaço para a dúvida ou a suspeita.

– Às vezes, é bom dissipar as dúvidas e as suspeitas – disse ela. – As pessoas começam a suspeitar demasiado cedo, quando, na verdade, deveriam descer um pouco a guarda e criar ilusões.

– Disse que eras inteligente. Quando falas assim, quase me convences, tal como me convenceste naquela altura. Se calhar, sim, é magia. Talvez tenhas um poder especial que os outros não têm.

Ouviu um ruído atrás de si e isso recordou-lhe que estavam num lugar público. Não sem reticência, largou-lhe a mão e guardou silêncio. De repente, o seu telemóvel começou a tocar. Tirou-o do bolso e, ao ver a mensagem de texto, fez uma careta.

– Bolas! – exclamou. – Acho que terei de ir ao Pireu ainda esta noite. Estarei fora durante alguns dias.

Petra respirou fundo enquanto o ouvia a falar ao telefone, olhando para o outro lado. Depois de passar uma noite a conversar com ele e a abrir-lhe o coração, o mais natural teria sido passar a noite nos seus braços. No entanto, o facto de saber que era impossível fazia-a desejá-lo ainda mais.

– Estarás cá quando voltar?

– Sim, vou ficar algum tempo – disse ela.

– Telefonar-te-ei.

– É melhor irmo-nos embora – acrescentou ela. – Tens de ir.

– Desculpa…

– Não é necessário. Foi um dia muito longo. Quase não consigo manter os olhos abertos – disse-lhe, perguntando-se se ele acreditaria.

Quando chegaram à mansão Lukas, o portão abriu-se, quase como se alguém estivesse à espera deles. Ao parar à frente da casa, abriu-lhe a porta do carro e acompanhou-a até à entrada principal.

– Lembras-te daquela noite? – perguntou-lhe ele, de repente. – Eras tão inocente e pequena que te obriguei a ir para a cama e acompanhei-te até à porta.

– E disseste-me que trancasse a porta – acrescentou ela, recordando-o.

Nenhum dos dois mencionou o resto: o beijo suave e subtil, um mero roçar que ficara gravado nas lembranças de Petra. Embora tivesse chegado a conhecer o amor e o desejo ao longo dos anos, nada poderia comparar-se com aquele momento mágico. Enquanto olhava para ele, soube porque tinha sido assim e, quando se inclinou para ela, desejou com todas as suas forças que tudo voltasse a ser como daquela vez.

Ele não a decepcionou. Os seus lábios pousaram nos dela durante uma fracção de segundo, como se tivesse encontrado alguma coisa desconcertante nela.

– Boa noite – disse-lhe.

Deixou-a sozinha antes que pudesse reagir. Voltou para o carro e foi-se embora sem olhar para trás, acelerando, como se fugisse de alguma coisa.

– Boa noite – sussurrou Petra, seguindo o carro com o olhar.

Quando desapareceu na curva, recordou que não lhe perguntara como tinha conseguido o seu número de telefone.

Petra não demorou a dar-se conta de que tinha muito trabalho. A sua reputação precedia-a e em muito pouco tempo várias associações culturais entraram em contacto com ela para a contratarem como guia. Ela aceitou todos os convites e assim preencheu as longas horas sem saber nada de Lysandros.

Houve um convite em particular que chamou muito a sua atenção. Tratava-se da The Cave Society, uma associação de entusiastas ingleses que tinham embarcado numa expedição de exploradores numa ilha do mar Egeu. A ilha ficava a trinta quilómetros e a sua orografia consistia num labirinto de grutas que supostamente continham muitas relíquias e tesouros históricos.

Nikator era muito céptico a esse respeito. Dizia que a lenda não era fidedigna. No entanto, Petra estava muito entusiasmada com a ideia de passar um dia a andar de barco.

– Bom, na verdade, o lugar que mais gostaria de ver é a Casa de Príamo, em Corfu. É verdade que Lysandros é o dono?

O seu irmão adoptivo encolheu os ombros.

– Acredito que sim.

Normalmente, não tinha de suportar a companhia de Nikator. O filho de Homer passava muito tempo fora de casa, momentos que ela aproveitava para explorar a biblioteca maravilhosa do pai. Às vezes, tirava uma pequena fotografia da mala e punha-a sobre a mesa enquanto lia. Assim, sentia-se protegida e tranquila.

– Tal como cuidavas de mim quando eras vivo, avô – dizia ao homem da fotografia, falando em grego.

Uma tarde, Nikator regressou a casa de forma repentina e trancou-se no quarto. Não deixava ninguém entrar, nem sequer Petra.

– Se calhar, Debra poderia vir vê-lo – sugeriu a Aminta, a governanta.

– Não. Voltou para os Estados Unidos – disse Aminta, apressadamente.

– Pensava que ficaria até à semana que vem.

– Teve de se ir embora de forma repentina. Tenho de voltar para o trabalho – disse e afastou-se.

Petra ficou desconcertada. O que podia significar tudo aquilo?

Provavelmente, nunca saberia, mas Aminta passou um bom bocado a evitá-la.

Por fim, Nikator saiu da sua clausura. Tinha um ligeiro inchaço no lábio e dissera que caíra, mas Petra não tinha acreditado, portanto, decidira passar o máximo de tempo possível fora de casa.

Desde a noite do casamento, só tinha voltado a ver Lysandros uma vez, durante uma festa organizada pela Câmara Municipal da cidade. Aproximara-se dela por cortesia, tinha-lhe dito que esperava que estivesse a divertir-se em Atenas e também dissera alguma coisa a respeito de voltar a telefonar-lhe nos próximos dias. No entanto, não tinha especificado nada. Parecia estar sozinho. Não estava acompanhado de nenhuma mulher, tal como ela também não tinha levado ninguém… Como se o destino quisesse juntá-los novamente… Mas ela sabia que por trás daquela camada fina de cortesia e sofisticação se escondia um homem terrivelmente solitário, encerrado numa prisão, desejando sair, receoso de o fazer…

Mas, no fundo, havia paixão. Ela sabia-o muito bem. Sempre que estava na sua presença era capaz de sentir o desejo que palpitava no seu corpo forte e alto, os seus movimentos desenvoltos, o poder contido, prestes a libertar-se. A pouco e pouco, a frustração de Petra dera lugar a uma profunda irritação. De repente, conseguia ouvir novamente a mulher da festa, a dizer-lhe que ela era apenas uma entre tantas e que acabaria por morder o anzol, tal como todas as outras.

– Nem pensar! Se é o que achas, então, vais ter uma grande surpresa!

Informou o pessoal da casa que ia passar alguns dias fora e foi para o seu quarto. De repente, enquanto fazia a mala, o seu telefone tocou.

– Eu gostava de te ver esta tarde.

Era Lysandros.

A jovem demorou um pouco a acalmar-se, antes de responder:

– Estou prestes a ir para fora durante alguns dias.

– E não podes esperar até amanhã?

– Receio que não. Estou muito ocupada. Foi um prazer conhecer-te. Adeus – disse e desligou.

– Muito bem – disse Nikator, à porta. – Já estava na hora de alguém lho dizer.

– Agradeço-te por te preocupares comigo, Nikki, mas a sério que não é necessário. Tenho tudo controlado. Sempre foi assim e sempre será.

O telefone voltou a tocar.

– Sei que estás zangada – disse Lysandros. – Mas não podes perdoar-me?

– Acho que não me entendeste bem – disse ela, com frieza. – Não estou zangada. Só estou ocupada. Sou uma profissional e tenho trabalho para fazer.

– Então, não podes perdoar-me?

– Não, eu… Não há nada para perdoar.

– Eu gostaria que mo dissesses na cara. Fui um pouco desconsiderado, mas eu não… Quer dizer… Ajuda-me, Petra, por favor.

Aquelas palavras exerceram um feitiço mágico sobre a jovem. Conseguia resistir à sua arrogância, mas não conseguia lutar contra aquela súplica desesperada.

– Suponho que possa alterar os meus planos – disse, calmamente.

– Estou à espera à porta. Vem como estás. É só isso que peço.

– Já estou a sair.

– Estás louca – disse Nikator, de repente. – Sabe-lo, não sabes?

Ela suspirou.

– Sim. Suponho que sim. Mas não consigo evitá-lo.

Escapou do seu olhar furioso o mais depressa que conseguiu. Naquele momento, não conseguia pensar em nada, excepto que Lysandros a desejava. Ao pensar que ia voltar a vê-lo, o coração saltava-lhe de alegria. Ele estava onde tinha dito que estaria. Não a beijou, nem lhe deu nenhuma demonstração de afecto em público, mas agarrou-lhe a mão um instante.

– Obrigado – sussurrou, num tom fervoroso que apagou todos aqueles dias de espera e impotência.

Já estava a anoitecer quando a levou até ao centro da cidade. Pararam à frente de um pequeno restaurante com esplanada, de onde se avistava o Pártenon, situado no cimo da Acrópole, dominando toda a cidade. Às vezes, Petra levantava o olhar e encontrava-o a observá-la com uma expressão intensa que dizia tudo, todas aquelas coisas que não podia pôr em palavras.

– Estiveste muito ocupada? – perguntou-lhe ele, finalmente, por cortesia.

– Estive a ler muito na biblioteca de Homer. Recebi alguns convites para expedições.

– E aceitaste?

– Nem todas. E o teu trabalho?

– Nada fora do normal. Problemas para resolver. Tentei manter-me ocupado… porque… – de repente, o tom da sua voz mudou. – Quando estava sozinho, pensava em ti.

– Pois, soubeste escondê-lo muito bem.

– Queres dizer que não te telefonei. Quis fazê-lo muitas vezes, mas não me atrevia à última hora. Acho que sabes porquê.

– Acho que não.

– Não és como as outras mulheres. Não comigo. Contigo tem de ser tudo ou nada e eu…

– Não estás pronto para o «tudo» – disse ela, acabando a frase. De repente, o temperamento de Petra mudou. – Mas eu não tenho nenhum problema com isso, porque eu também não estou preparada. Estás a sugerir que estive a pressionar-te?

– Não, não queria dizer isso. Só tentava desculpar-me – disse ele, rapidamente.

– Não é necessário – disse ela.

Na verdade, sim, era necessário. O seu bom humor desapareceu num abrir e fechar de olhos e a tensão dos últimos dias estava a passar-lhe a factura. Já estava a ficar sem paciência para aquele homem que não fizera outra coisa senão ignorá-la.

De repente, a noite estava a tornar-se catastrófica.

– Pedes-me outro copo de vinho? – perguntou-lhe, dando-lhe o copo vazio e esboçando um sorriso vazio.

Ele percebeu a indirecta e parou de se desculpar. No entanto, isso fê-la sentir-se culpada. Ele estava a fazer tudo o que podia, mas era um terreno desconhecido para alguém como ele. Ela, pelo contrário, estava em vantagem nesse aspecto.

– Na verdade… o mais interessante que aconteceu foi um convite da The Cave Society.

Falou-lhe da carta e, tal como Nikator, ele mostrou-se céptico.

– Não me convenceu. Já estou velha para aquele tipo de coisas.

– Velha – disse ele, olhando-a fixamente.

– Muito velha, segundo o meu percurso académico. Isto… – disse, assinalando a sua cabeleira loira. – é só tinta para tapar os cabelos brancos. Qualquer dia, começo a andar de bengala.

– Podes parar de dizer tolices?

– Porquê? – perguntou ela, verdadeiramente surpreendida. – As tolices são divertidas.

– Sim, mas… – rendeu-se, derrotado. Era muito difícil contrariá-la constantemente.

– Oh, está bem… – disse ela. – Não acredito que haja alguma coisa naquelas grutas, mas gosto de andar por aí e de fazer o que posso para conseguir uma boa descoberta, portanto, se calhar, devia fazê-lo.

– Mas o que vais encontrar que não tenham encontrado outros?

– Alguma coisa que todos eles não poderiam encontrar porque não são como eu e eu não sou como eles. Há alguma coisa lá, à minha espera para ressurgir de entre as cinzas do passado. Sei que um dia encontrarei uma coisa extraordinária pelo qual toda a gente me recordará. E acabarão por me erigir uma estátua à frente do Pártenon.

Ao ver a cara que ele fazia, desatou a rir-se à gargalhada.

– Desculpa – acrescentou, engasgando-se ao rir-se. – Se pudesses ver a tua cara…

– Estavas a brincar, não estavas? – perguntou-lhe ele, com prudência.

– Sim. Estava a brincar.

– Receio que seja um pouco… – encolheu os ombros. – É que, às vezes, é difícil saber…

– Oh, pobrezinho… – disse ela. – Sei que és capaz de te rir. De facto, já te ouvi a fazê-lo, no casamento, mas…

– É que…

– Eu sei – disse ela. – Achas que é uma fraqueza ter sentido de humor, portanto, manténs o teu atrás das grades e solta-lo quando te convém.

Lysandros tentou falar. Gostaria de fazer algum comentário ligeiro, mas não foi capaz. A pouco e pouco, afastava-se dela.

Embora bem-intencionadas, as suas palavras tinham-lhe iluminado a alma, revelando segredos que jamais deveriam vir a público.

– Pedimos o segundo prato? – perguntou-lhe, mudando de assunto.

– Sim, por favor – disse ela.

Enquanto o empregado os atendia, Petra advertiu a presença de um homem e de uma mulher que a observavam com insistência. Quando finalmente olhou para eles, sobressaltaram-se.

– É ela – disse a mulher. – É você, não é? É Petra Radnor.

– Sim, sou eu.

– Vi-a num programa de televisão antes de sair de Inglaterra e li os seus livros. Oh, é fantástica!

Tão cortês como sempre, Lysandros convidou-os a sentarem-se com eles. No entanto, Petra quase suspeitava que a interrupção era mais do que bem-vinda.

– Aparentemente, a menina Radnor é uma celebridade – disse-lhes. – Falem-me dela.

O casal não se poupou em detalhes, nem em louvores. Petra estava morta de vergonha.

– O nosso presidente disse-nos que lhe tinha escrito uma carta – disse a mulher, chamada Angela.

George e ela eram membros da The Cave Society e acabavam de chegar a Atenas.

– Aceitará o convite para ir à ilha, não é? – perguntou-lhe Angela, insistindo. – Significaria muito para nós contar com uma verdadeira perita como você.

– Oh, mas…

A conversa prolongou-se e Petra começou a sentir-se pressionada. Entretanto, o telefone de Lysandros começou a tocar. Ele atendeu-o e o seu rosto transfigurou-se.

– Claro – disse, bruscamente. – Vamos já – desligou. – Receio que tenha surgido um pequeno problema. Era a minha secretária a dizer-me que devo voltar imediatamente, tal como Miss Radnor, cuja presença é imprescindível.

Fez sinal ao empregado, pagou a conta e despediu-se do casal.

– Boa noite – disse, levantando-se e arrastando-a consigo. – Foi um prazer.

Escaparam rapidamente e só abrandaram o passo depois de terem atravessado três quarteirões. Então, sob a protecção da escuridão, apertou-a entre os seus braços.

Capítulo 5

Uma onda de prazer e alívio percorreu-a de cima a baixo. Tinha-o desejado com tanta força que todo o seu ser vibrava. A sua boca estava pronta para o receber, tal como o resto do seu corpo. Enquanto ele a abraçava, ela também o fazia, acariciando-o com paixão.

– Como fizeste com que o telefone tocasse? – perguntou-lhe, entre beijos.

– Só carreguei numa tecla para que o alarme tocasse e depois fingi atender. Tinha de te tirar dali, de te ter só para mim.

Voltou a beijá-la e aquele beijo foi tudo o que ela desejara desde o primeiro encontro. Jamais tinha experimentado algo parecido em toda a sua vida e não voltaria a sentir algo igual no futuro. Era o beijo com que tanto sonhara desde aquele dia distante em que mal lhe tinha roçado os lábios com timidez.

– O que me fizeste? – perguntou-lhe ele, de repente. – Porque não consigo impedi-lo?

– Conseguirias, se realmente quisesses – sussurrou ela, contra os seus lábios. – Porque não…? Porque não…?

– Pára de me atormentar.

Ela riu-se ao ouvi-lo. Porque haveria de lhe facilitar as coisas?

– Bruxa… Feiticeira… Sereia…

Os seus lábios começaram a acariciá-la com mais força enquanto lhe chamava várias coisas. Estava possuído por um poder mais forte do que ele e era justamente o que ela queria.

De repente, viram-se interrompidos por um barulho repentino. Um grupo de adolescentes acabava de aparecer no fim da rua, a cantar e a dançar. Ao passarem junto deles, dedicaram-lhes todo o tipo de desejos a um casal de apaixonados. Lysandros agarrou-a pela mão e recomeçou a correr, mas não havia escapatória. Apareceu outro grupo de pessoas e depois outro. Procurando uma saída, acabaram num lugar onde uma banda de rock estava a dar um concerto sobre um palco improvisado.

– Será que não se pode ter um pouco de privacidade nesta cidade? – perguntou Lysandros, exasperado.

– Não – disse Petra, rindo-se. – Não há privacidade. Só há música e alegria, e tudo o que se desejar.

– Não tem graça.

– Sim, tem. Não percebes? Oh, querido, por favor, tenta entender… Por favor…

Ele rendeu-se e acariciou-lhe o rosto.

– Como queiras.

Petra não sabia muito bem o que queria dizer, mas sabia que se sentia em casa e que naquela noite ele parecia disposto a mimá-la um pouco.

Rendido aos seus caprichos, deixou que o guiasse até ao concerto. À sua volta, os casais dançavam enquanto a banda tocava.

– Vamos! – gritou ele.

– Para onde? – perguntou ela, no meio da confusão.

– Para qualquer lado. Para onde me levares.

– Então, vem comigo – disse ela.

Começou a correr, puxando-o pela mão, mas sem saber muito bem para onde se dirigia. Bastava-lhe saber que ele estava ao seu lado. Atenas vibrava à sua volta. Pouco depois, pararam finalmente, sem fôlego. Havia fogo-de-artifício, que subia até ao firmamento, para depois rebentar numa explosão de luz e cor.

A multidão contemplava-o, boquiaberta.

– Ena! – exclamou ela.

Ele deu-lhe a razão com um suspiro.

– Não devia faltar-te o fôlego. Pensava que ias ao ginásio todas as manhãs.

Era exactamente o que fazia e estava tão em forma como ela esperava. No entanto, quando estava com ela, a sua falta de ar tinha outra explicação muito diferente.

Abraçou-a. Petra contemplou a explosão de cor com espanto e depois sentiu o toque da sua boca, a brincar, a morder, a suplicar…

– Quem és tu? – perguntou-lhe ele. – O que fazes na minha vida? Porque não consigo…?

– Chiu… Não tem importância. Nada tem importância, excepto isto. Beija-me. Beija-me – Petra demonstrou-lhe o que queria dizer, sentindo-o a vibrar sob as pontas dos dedos, deleitando-se com o poder que era capaz de exercer sobre ele.

Um impulso tinha-o feito telefonar-lhe naquela noite e também fora um impulso que o tinha feito fugir daquele casal chato. Impulsos… Aquilo contra o qual lutara durante tantos anos começava a apoderar-se dele. Transformara-se numa marioneta. Ela puxava os fios e sabia-o.

– O que se passa? – perguntou ela, sentindo como se afastava.

– Este lugar é demasiado público. Devíamos voltar para a mesa. Acho que deixei qualquer coisa lá.

– E depois? – perguntou ela lentamente, resistindo a acreditar no que lhe passava pela cabeça.

– Depois, acho que devíamos ir para casa.

Ela olhou fixamente para ele, tentando compreender o que estava a fazer, sentindo como a raiva aumentava no seu interior. O que realmente estava a dizer-lhe era que a magia acabara. Ele tinha-a banido da sua vida por pura força de vontade, só para provar que conseguia, para demonstrar que ainda mandava. Era uma demonstração de poder, mas fá-lo-ia arrepender-se disso.

– Como te atreves? – perguntou-lhe, num tom suave, mas furioso. – Quem achas que és para me desprezares?

– Eu não…

– Cala-te! Tenho uma coisa para dizer e vais ouvir-me. Não sou uma mulher desesperada que possas apanhar e deitar fora quando te convier. E não finjas que não sabes ao que me refiro, porque sei que sabes muito bem. Fazem fila atrás de ti, não é? Bom, eu não sou uma delas.

– Não sei quem te meteu algo parecido na cabeça.

– Qualquer mulher que me conheça poderia ter-mo dito. A tua reputação precede-te.

Lysandros sentiu que a fúria se apoderava dele.

– Aposto que Nikator falou mais da conta, mas como podes ter-lhe dado ouvidos? Não me digas que conseguiu enganar-te com aquela postura de «maninho»!

– E porque não deveria acreditar que se preocupa comigo?

– Oh, claro que se preocupa, mas não como irmão! Correm rumores muito interessantes sobre ele. Porque achas que Debra Farley se foi embora de Atenas tão repentinamente? Porque ele ultrapassou os limites e não aceitou um «não» como resposta. Olha para a cara dele e verás o que lhe fez enquanto lutavam. Suponho que lhe tenha custado muito dinheiro conseguir que se fosse embora sem fazer barulho.

– Não acredito – disse Petra, ignorando os sussurros provenientes de um canto da sua mente.

– Eu não minto! – exclamou Lysandros, furioso.

– Não, mas podes interpretar mal as coisas. Inclusive o grande Lysandros Demetriou comete erros e cometeste um muito grande comigo. Há pouco, estavas a dizer que irias comigo para qualquer lugar e agora dizes-me que queres ir para casa. Achas que vou tolerar esse tipo de comportamento? O que devo fazer agora, Lysandros? Sentar-me ao lado do telefone, à espera que me contactes, como uma daquelas jovens esposas atenienses? Quando me telefonaste, devia ter-te dito que fosses para o…

– Mas não o fizeste, portanto, se calhar devíamos…

– Olha… – disse ela. – Tu tens trabalho para fazer e eu tenho o meu. E já não temos de ser um incómodo um para o outro. Boa noite.

Deu meia volta e afastou-se antes que ele pudesse fazer alguma coisa. Correu por aquelas ruas até chegar ao pequeno restaurante. George e Angela continuavam lá, contentes ao voltarem a vê-la.

– Sabíamos que voltaria – disse a mulher. – Irá à gruta connosco, não é?

– Sim. Estou desejosa – disse Petra, com firmeza. – Porque não discutimos os detalhes agora? – perguntou-lhes, olhando para Lysandros com um sorriso venenoso. – Voltarei para casa de táxi. Não te entretemos mais. Tenho a certeza de que estás muito ocupado.

– Tens razão – disse ele. – Boa noite. Foi um prazer conhecer-vos.

Inclinou a cabeça e foi-se embora, sem olhar para trás.

Lysandros acordou mal disposto, com um estado de espírito horrível. Os raios de luz tinham desaparecido e deram lugar ao resplendor frio de um dia cinzento. Ela já não estava ali e ao recordar o seu próprio comportamento sentia vergonha.

«Para qualquer lugar. Para onde me levares.» A sério que lhe dissera aquilo? Felizmente, ela mesma o tinha salvado a tempo de cair numa aventura estúpida. A tempo…

Levantou-se e dispôs-se a começar o dia que tinha pela frente, mexendo-se como um autómato. Ela inquietava-o profundamente. Era demasiado importante. Durante muitos anos, as mulheres tinham entrado e saído da sua vida, sem pena nem glória. Tratava-as bem, mas mantinha-as sempre à distância e não sentia nada quando as via a partir. No entanto, Petra Radnor era diferente e, se não cortasse o mal pela raiz, acabaria por sucumbir a uma fraqueza, o que mais receava.

Felizmente, tinha de ir ao Pireu em negócios e, durante alguns dias, conseguiu refugiar-se nas exigências do trabalho. No caminho de volta a Atenas, pôde finalmente respirar fundo. Tinha recuperado o controlo da sua própria vida. Naquela altura, Petra já devia tê-lo substituído por outro pretendente e era o melhor para os dois. Inclusive, alegrava-se por ela, ou assim dizia a si mesmo. No carro, a caminho de casa, ligou o rádio para ouvir as notícias de última hora. Um jornalista estava a falar de uma busca no mar que estava a ter lugar naquele momento. Tinham encontrado um barco virado ao contrário. Aparentemente, os tripulantes estavam a explorar uma gruta numa ilha do golfo.

«Um dos desaparecidos é Petra Radnor, a filha da estrela de Hollywood Estelle Radnor, que se casou recentemente com…», dizia o jornalista.

Lysandros travou e estacionou o carro na berma para ouvir melhor.

Tinha-lhe dito que iria a qualquer lugar e que faria tudo para encontrar alguma coisa, mas quisera realmente ir? Não tinha tentado apenas fugir? Aceitara a proposta de Angela e George só para se livrar dele.

«Se não estivesse zangada comigo, não teria ido naquele barco. Se estiver morta, a culpa é minha, como da última vez, como da última vez…».

De repente, o seu corpo voltou à vida. Fez inversão de marcha e arrancou a toda a velocidade.

A noite já estava a cair sobre a cidade quando chegou à costa. Rapidamente, dirigiu-se para o lugar onde tinha sido encontrado o barco.

«Está morta. Está morta… Tiveste a tua oportunidade e deixaste-a escapar… Outra vez.»

Uma multidão juntara-se à porta do porto. Os curiosos olhavam para o mar e contemplavam o barco que se dirigia para eles. Lysandros estacionou o mais perto que conseguiu e correu entre as pessoas para ver melhor.

– Salvaram a maioria deles – disse um homem. – Mas ouvi que há alguém que ainda não encontraram.

– Alguém sabe de quem se trata? – perguntou Lysandros, impaciente.

– Só se sabe que é uma mulher. Duvido muito que consigam encontrá-la.

«Mataste-a. Mataste-a!»

Lysandros apoiou-se no corrimão e esquadrinhou a escuridão, tentando ver os ocupantes do barco. Na proa, havia uma mulher enrolada numa manta. Em pânico, semicerrou os olhos e tentou ver melhor. Uma luz repentina iluminou o seu cabelo. Podia ser ela… Mas não tinha a certeza. O coração pulsava-lhe a cem à hora e agarrava-se com tanta força ao corrimão de ferro que lhe doíam os nós dos dedos. De repente, ouviu-se um grito colectivo, seguido de uma ovação. O barco estava mais perto e, finalmente, podia ver bem a mulher. Era Petra.

Os seus olhos procuravam entre a multidão e, de repente, começou a cumprimentar com a mão. Aliviado e feliz, Lysandros começou a cumprimentá-la também, mas então apercebeu-se de que não era para ele que olhava, mas para alguém que estava ao lado dele.

Nikator. O filho de Homer deu um passo em frente e foi recebê-la. Ela inclinou-se, sorridente e chamando-o pelo seu nome.

Lysandros ficou onde estava, quieto e sério. O barco parou e os ocupantes desceram para o molhe. Petra atirou-se nos braços de Nikator.

– Estelle, querida, sou eu. Estou bem – disse, usando o telemóvel que Nikator lhe dera.

Lysandros não ouviu o resto. Retirou-se para as sombras com discrição e arrancou com o carro a toda a velocidade.

Não o tinha visto.

Aminta encarregou-se dela assim que chegou a casa. Preparou-lhe um banho quente, um bom jantar e fê-la deitar-se cedo.

– Deu nas notícias – disse a Petra. – Estávamos muito preocupados. O que aconteceu?

– Realmente, não sei. Ao princípio, pensámos que era uma tempestade normal, mas, de repente, as ondas tornaram-se maiores e virámos. Disseste que deu nas notícias?

– Oh, sim! Disseram que estiveram prestes a afogar-se e que não conseguiram salvar toda a gente.

– Ainda estão à procura de uma mulher – disse Petra, suspirando.

Naquela noite, dormiu muito mal e acordou de muito mau humor. Algures na casa tocava um telefone e, pouco depois, Aminta trouxe-lho ao quarto.

– É para si. Um homem.

Impaciente, atendeu rapidamente, esperando ouvir a voz de Lysandros. No entanto, era George, que lhe telefonava a dizer que a mulher desaparecida fora encontrada e que estava bem. Falou um pouco com ele por cortesia e desligou, com certo alívio.

Lysandros não lhe tinha telefonado. Devia ter sabido pela televisão, mas não tinha dado sinal de vida. O homem que a beijara com tanta paixão não parecia sentir o mínimo receio pelo que pudesse ter-lhe acontecido. Estivera a enganar-se. O interesse que sentira por ela fora superficial. Não poderia tê-lo deixado mais claro.

Nikator estava à espera dela ao pé da escada.

– Não devias ter-te levantado tão cedo – disse-lhe. – Não depois do que passaste. Volta para a cama e cuida de ti.

Petra sorriu. Sentira alegria ao vê-lo no molhe e voltara a sentir afecto por ele. Durante os dias seguintes, ele portou-se muito bem, demonstrando afecto fraternal, sem ultrapassar os limites. Era um grande alívio poder relaxar um pouco na sua companhia e tinha a certeza de que as histórias sobre ele não eram verdadeiras.

Mas… e se Lysandros lhe telefonasse?

Depois de alguns dias sem saber nada de Petra, Lysandros telefonou-lhe para o telemóvel, mas não conseguiu contactá-la. O telefone estava activo, mas tinham-no desligado e assim continuaria até à noite, até à manhã seguinte. Aquilo não tinha nenhum sentido. Ela poderia ter ligado para o serviço de caixa postal, mas, em vez disso, tinha bloqueado as chamadas.

Lysandros não queria sucumbir à incerteza que se apoderava dele, mas acabou por telefonar para a mansão dos Lukas. A sua chamada foi transferida para a secretária de Homer.

– Preciso de falar com a menina Radnor – disse, num tom de poucos amigos. – Por favor, diga-lhe que me telefone.

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