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João de Deus

Flores do Campo


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066408886

Índice de conteúdo

A POESIA

EMBLEMA

Camões e Byron—Scepticismo e Crença

A UMA CARTA ANONYMA

DUAS ROSAS

A UMA MULHER

A D. CANDIDA NAZARETH

Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi

AMOR

A DONZELLA E O MUSGO

ULTIMO ADEUS

ROSAS

ROSA E ROSAS

A HERMANN

Por occasião d'um beneficio a um asylo

PRESENTIMENTO

MARINA

I

APPARIÇÃO

II

SAUDADE

III

ETERNIDADE

IV

... 21 DE SETEMBRO

N'UM ALBUM

Pedindo-se ao author uma poesia

RESPOSTA

A A. DO QUENTAL

FLÔR E BORBOLETA

REMOINHO

AMORES, AMORES...

FABULA

BOAS NOITES

GASPAR

CARTA

MARGARIDA

NO LEITO NUPCIAL

A MINHA MÃI

BEATRIZ

INNOCENCIA

A UM NUNO

Provando a existencia de Deus a pobres camponezes

A ***

LUZ DA FÉ

RESPOSTA

A A. DO QUENTAL

VENTURA

A UNS OLHOS AZUES

HERESTA

FRAGMENTO

DINHEIRO

DUVIDA

CATURRAS

MÃI E FILHO

NÃO!

NA FOLHA D'UM ROMANCE

DESCALÇA!

ADEUS!

A VICTORIA COLONNA

N'UM CONVENTO

SONHO

Á VISTA D'UM RETRATO

A LUA

JOVEN CAPTIVA

UM BEIJO

FRANCISCA DE RIMINI

PAIXÃO

ESCREVE!

MALMEQUER

VIRGINIA

Para se recitar no theatro do Príncipe-Real

PRIMEIRO PSALMO DE DAVID

SEGUNDO PSALMO DE DAVID

CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMÃO

I

CHEGADA

II

ENTREVISTA

III

SONHO

IV

NOIVADO

V

SURPREZA

VI

PASSEIO

A POESIA

Índice de conteúdo

EMBLEMA

Índice de conteúdo

Camões e Byron—Scepticismo e Crença

Índice de conteúdo

Vem d'alto gozar, lirio!

Noite estrellada e tepida;

A vista ao céo intrepida

Lança, penetra o Empyreo.

Dilata os seios tumidos;

Larga este terreo albergue;

Nas azas d'alma te ergue;

Ergue os teus olhos humidos

Que vês?—Soes, de tal sorte

Que os crêra tochas pallidas,

Quando as guedelhas, madidas

De sangue, arrasta a morte.

—Transpõe-n'os; que, elevando-te,

Por cada um d'aquelles,

Milhões e milhões d'elles

Verás alumiando-te.

Ávante pois, acima

Dos soes d'uma luz tremula;

Alma dos anjos emula!

Deus o teu vôo anima.

Que vês?—Um vacuo eterno.

—E n'elle?—Em ermo tumulo,

Em ignea letra (cumulo

D'horror) Byron—o inferno.

—Foge.—O horror fascina-me.

São reprobos que exhalam

Horridos ais que abalam

O inferno: oh Deus! anima-me.

—Escuta-os.—Escutemol-os.

Como elles bramem, rugem,

E o espaço uivando estrugem...

Gelam-se os membros tremulos.

—Entra.—Não posso.—Arromba.

—Prohibem-m'o.—Subleva-te.

—Prohibe-o Deus.—Eleva-te.

Acima, ingenua pomba!

Que vês? A luz clareia-me.

Que céo, que azul ethereo!

Oh extasi, oh mysterio!

Sobeja a vida, anceia-me.

—Falla.—Deus! que harmonia!

Aqui a alma exalta-se;

A alma aqui dilata-se...

Camões!—É a poesia.

Coimbra.

A UMA CARTA ANONYMA

Índice de conteúdo

Não sabe a flôr quem manda a luz do dia,

Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita

Ao vir raiando a aurora,

E ella agradece as lagrimas que aceita,

E ella as converte em balsamos que envia

Ao mysterio, que adora.

Lamartine.

Coimbra.

DUAS ROSAS

Índice de conteúdo

Que bonita, meu amor!

Que perfeita, que formosa!

A ti pozeram-te Rosa,

Não te fizeram favor.

A rosa, quem ha que a veja

Bandeando, sem gostar?

Mas por mais linda que seja

A rosa, quando se embala,

Não te ganha nem iguala

A ti em indo a andar.

A rosa tem linda côr,

Não ha flôr de côr mais linda;

Mas a tua côr ainda

É mais fina e é melhor.

Murcha a rosa (que desgosto!)

Só de lhe a gente bulir;

E essas rosas do teu rosto

É em alguem te tocando

Que parece mesmo quando

Ellas acabam de abrir.

Cheiro, o da rosa, esse não,

Não é mais do meu agrado,

Que o teu bafo perfumado,

A tua respiração.

Depois a rosa em abrindo

Vai-se-lhe o cheiro tambem:

A tua bocca em te rindo

Só o bom cheiro que exhala...

E quando fallas, a falla,

Isso é que a rosa não tem.

Ella o que tem, meu amor?

O cheiro, a côr e mais nada.

Confessa, rosa animada!

Que és outra casta de flôr.

Os olhos só elles valem

Duas estrellas, bem vês;

Pois vozes que a tua igualem

Na doçura, na pureza,

Na terra, não, com certeza;

Agora no céo, talvez.

Não ha assim perfeição,

Não ha nada tão perfeito,

Mas é um grande defeito

O de não ter coração.

N'isso é que te leva a palma

A rosa, sendo uma flôr

—Sem voz, sem vida, sem alma,

Que abre logo á luz da aurora

E á noite esconde-se e chora

Pelo sol, o seu amor.

Ora e se a rosa, vê bem,

Tem amor, não tendo vida,

Será coisa permittida

Tu não amares ninguem?

Suppões que Deus te agradece

Essa isenção, minha flôr!

Deus a ninguem reconhece

Por filho senão quem ama:

A terra e o céo proclama

Que elle é todo puro amor.

Messines.

A UMA MULHER

Índice de conteúdo

Amo-te a ti, e a Deus.

Teus sonhos são riquezas

Talvez e fasto. Os meus,

És tu, que me desprezas.

Deixal-o. Amor acaso

É racional? Não é.

O fogo em que me abrazo

É como a luz da fé;

Que além de cega, apaga

O facho da razão.

Ama-se e não se indaga

Se se é amado ou não.

Amo-te. O mais ignoro.

Mas os meus ternos ais

E as lagrimas que chóro

Podem dizer o mais.

Que chóro; se te admira.

Nunca tiveste amor.

Quem tem amor, suspira,

E o suspirar é dôr.

Ah! quando abraço e beijo

O travesseiro e, assim,

Acórdo e te não vejo,

Vejo-me só a mim;

Não sei, mulher! que anceio

Se me traduz n'um ai!

Confrange-se-me o seio,

Rebenta o pranto e cái.

Então, se por encanto

Fallando em ti, mas só,

Todo banhado em pranto

Me visses, tinhas dó.

Tinhas. A piedade

É filha da mulher,

Que sempre quiz metade

D'uma afflicção qualquer.

Havias ao teu rosto

De me apertar a mim,

D'encher, fartar de gosto,

Todo este abysmo; sim.

Vós desprezaes embora

Culto e adoração

De quem vos ama; agora

As dôres, essas não.

Messines.

A D. CANDIDA NAZARETH

Índice de conteúdo

Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi

Índice de conteúdo

Despe o luto da tua soledade

E vem junto de mim, lirio esquecido

Do orvalho do céo!

Tens nos meus olhos pranto de piedade,

E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,

Mulher! sou irmão teu.

Consolos não te dou, que não existe

Quem de lagrimas suas nunca enxuto

Possa as d'outro enxugar:

Não póde allivios dar quem vive triste,

Mas é-me dôce a mim chorar se escuto

Alguem tambem chorar.

Botão de rosa murcho á luz da aurora!

Que peccado equilibra o teu martyrio

Na balança de Deus?

Se é como justo e bom que elle se adora

Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio,

E em lirio os labios teus?

Não enche elle de balsamos o calix

Da flôr a mais humilde, e esses espaços

Não enche elle de luz?

Não veio o Filho seu, lirio dos valles!

Só por amor de nós tomar nos braços

Os braços d'uma cruz?

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio

Levanto o pó dos tumulos sósinho:

Eis, digo, eis o que eu sou.

Mas quando penso bem n'esse mysterio

Da virtude infeliz: vai teu caminho;

Dois mundos Deus creou.

Deus não dispara a setta envenenada

Á pombinha que aos ares despedira

Com mão traidora e vil.

Imagem sua, Deus não volve ao nada,

Não aniquila a flôr que ao chão cahira

Lá d'esse eterno abril.

Has-de, cysne! expirando alçar teu canto,

Has-de lá quando a lua da montanha

Te acene o extremo adeus,

Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto,

No oceano d'amor que as almas banha,

Unir teu canto aos seus.

Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas

D'um só jacto de terra... oh desventura!

Oh destino cruel!

Vejo-as ainda ir com as mãos incertas

Guiando-se uma á outra á sepultura,

E a mãi: Rachel! Rachel!

Coimbra.

AMOR

Índice de conteúdo

Amo-te muito, muito.

Reluz-me o paraiso

N'um teu olhar fortuito,

N'um teu fugaz sorriso.

Quando em silencio finges

Que um beijo foi furtado

E o rosto desmaiado

De côr de rosa tinges;

Dir-se-ha que a rosa deve

Assim ficar com pejo,

Quando a furtar-lhe um beijo

O zephyro se atreve;

E ás vezes que te assalta

Não sei que idéa, joven!

Que o rosto se te esmalta

De lagrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra

E as forças te aniquila,

Que choras, mas tranquilla,

E nem uma palavra?

Oh! se essa mudez tua

É como a que eu conservo,

Lá quando á noite observo

O que no céo fluctua;

Ou quando, á luz que adoro,

Ás horas do infinito,

Nas rochas de granito

Os braços cruzo e chóro;

Amamo-nos... Não cabe

Em nossa pobre lingua

O que a alma sente, á mingua

De voz, que só Deus sabe.

Coimbra.

A DONZELLA E O MUSGO

Índice de conteúdo

Um dia, não sei que eu tinha...

Uma tristeza tamanha!

E lembra-me ir á montanha,

Que temos aqui vizinha,

Onde em tempo me entretinha

Horas e horas sósinha

Quando ainda se não estranha

Que n'uma teia de aranha

Se prenda uma innocentinha,

Ou atraz d'uma avesinha

Se cance a vêr se a apanha.

Depois é que o mundo falla

E se mette com a vida

De quem ás vezes se cala

Por ser mais bem procedida.

Que esta gente que faz gala

Em coisa, que vê, contal-a,

E sendo mal permittida

Inda em cima acrescental-a,

Teem a lingua comprida

E bem deviam cortal-a.

Vou pelo córrego acima,

Subo á ponta do penedo;

Que a vida só quem a estima

É que da morte tem medo.

A mesma tristeza anima

A encarar a pé quedo

A morte que se aproxima

A tirar-nos do degredo,

Que inda a gente se lastima

De não acabar mais cedo.

E alli sósinha chorando

Me lembrava, ora a ventura

Da minha infancia, inda quando

Levava os dias brincando;

Ora a desgraça futura,

Que me estava annunciando

Não sei se a minha amargura,

Se uma nuvem, grande e escura,

Que se ia no ar formando

E vinha já avançando,

Como que á minha procura.

E ainda o pranto corria

E o cabello me batia

No rosto, que me doía,

Tal era a força do vento;

Já tudo tão pardacento

A nevoa e chuva fazia

Que eu olhava, mas dizia:

É nuvem ou penedia

Aquelle vulto cinzento?

O mar brilhante algum dia

Como prata luzidia

Já ninguem o distinguia

Da terra e do firmamento:

Uivar só é que se ouvia,

Mas uivar sem sentimento;

E como em grande tormento

Se desvaira a phantasia:

—Fosse eu mar, disse; valia

Mais ser coisa bruta e fria,

Como a rocha onde me sento.

Faz um trovão no momento

Que soltava esta heresia;

E áquella rouca harmonia

Occorre-me um pensamento,

Que me dá uma pancada

O coração de tal modo,

Como se o rochedo todo

Desandasse na chapada.

Era a voz da consciencia

Que me accusava do crime

De negar á Providencia

A razão com que me opprime.

Peço perdão, commovi-me

E n'um extasi sublime

Lagrimas de penitencia,

Como um balsamo, uma essencia,

Purificam-me e senti-me

Com uma nova existencia.

Ólho; as nuvens esvaíam-se:

Os roncos do mar ouviam-se,

Mas já mais de espaço a espaço.

O sol ainda tão baço,

De luz tão pouco brilhante,

Que se media a compasso

Como a cara d'um gigante,

Descobre-se e resplandece!

Ao longe o mar apparece;

E tudo, mar, terra e céos

Tão formoso me parece,

Como se agora tivesse

Sahido das mãos de Deus!

No rochedo onde descança

Meu corpo desfallecido,

O verde musgo, vestido

Sempre da côr da esperança,

Agora reverdecido,

Me ensina a ter confiança

N'esse que do céo nos lança

Em dia tempestuoso,

Só para nosso repouso

O arco da alliança.

Pobre musgo, descuidado,

Sem olhos para chorar,

Sem poder alliviar

Com seu pranto um desgraçado,

Consolar-se e consolar!

Fallas mais a meu agrado

Que o livro mais afamado

D'esses livros, que em lugar

De nos dar consolação,

Nos fazem cahir no chão

Um pranto mal empregado,

E inda mais amargurado

Nos deixam o coração.

Colhi-o, pul-o no seio,

E é hoje o livro que leio.

Messines.

ULTIMO ADEUS

Índice de conteúdo

Prestes, se inda na rocha de granito

D'onde em tempo me vias te sentares,

Não olhes para a terra ou para os mares,

Olha sim para o céo, que é lá que habito.

Lá tão longe de ti, mas não do terno,

Bondoso pai que os dois nos ha gerado,

Só para mágoas não, que bem guardado

Nos tem tambem no céo prazer eterno.

Não se é só pó no fim de tanta mágoa.

Senão, diga-me alguem que allivio é este

Que sinto, quando á abobada celeste

Alevanto os meus olhos rasos d'agua.

Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.

Feras, tigres, tambem o céo povôam?

Tambem os labios lá sorrindo côam

Veneno desleal em beijo amigo?

Mas na dôr é que os astros nos sorriem,

E os homens não sorriem na desdita.

Astros! fio-me em vós, e Deus permitta

Que os infelizes sempre em vós se fiem.

Intima voz do fundo, bem do fundo

D'alma me diz (e as lagrimas me saltam):

Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam?

Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo.

Ha depois d'esta vida inda outra vida.

Não se reduz a nada um grão d'arêa,

E havia de a nossa alma, a nossa idêa

Nas ruinas do pó ficar perdida?

—Isso que pensa e quer (até me admiro),

Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva,

Isso que me abre o céo que ao céo me eleva

N'um teu cançado olhar, n'um teu suspiro!

Onde, não sei eu bem, mas sei que existe

Deus remunerador. Depois de mortos

Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos

Fartar de glorias este amor tão triste.

—Tão triste, e o coração que me adivinha

N'este supplicio nosso este tormento!

Nunca dos labios teus minimo alento

N'um só beijo bebi em vida minha!

E morro sem te vêr! Cabeça doida,

Desasisado amor! Sonhar afflicto

Um sonho até morrer... Não: resuscito;

Morto tenho eu vivido a vida toda.

* * *

ROSAS

Índice de conteúdo

Trazeis-me rosas; d'onde as heis trazido,

Boa velhinha e minha boa amiga?

Rosas no inverno! permitti que o diga,

Sois feiticeira: d'onde as heis colhido?

Na primavera de meus annos, ólho,

Mas vejo abrolhos e não vejo flôres:

E vós colhêl-as, como as eu não colho...

Sois feiticeira—enfeitiçaes d'amores.

Enfeitiçaes que a formosura, crêde,

Não vem da face avelludada e bella;

A formosura vem só d'alma; é d'ella

Que brota a fonte que nos mata a sêde.

Vós sois velhinha, já não tendes côres

Que o rosto animem e que os olhos prendam,

Mas tendes prendas que o amor accendam,

Tendes ainda no inverno... flôres.

Evora.

ROSA E ROSAS

Índice de conteúdo

A Rosa trouxe-me rosas

E nada mais natural,

Mas eu prendas tão mimosas

É que não tenho; inda mal.

Quando tinha, se me désse,

Não digo mais que uma flôr,

Talvez de flôres lhe enchesse

Esses cofrinhos d'amor.

Aguas passadas, Rosinha!

Deixal-o; veja se vê

N'este chão que já foi vinha

Coisa que ainda se dê.

Veja e escolha. Está na mesa

O que ha em casa; é tirar

—Tirar com toda a franqueza;

Inda hão-de espinhos sobrar.

Mas se espinhos, mas se abrolhos

Lhe não agradam, amor!

Mire-se bem nos meus olhos,

Que ha-de ahi vêr... uma flôr.

Evora.

A HERMANN

Índice de conteúdo

Por occasião d'um beneficio a um asylo

Índice de conteúdo

«Conchega a mãi ao peito o filho caro;

Estende a pomba as azas no seu ninho

Pelos filhinhos seus.

Embala o arbusto agreste; o fructo amaro.

Guia a bussola o nauta em seu caminho,

Como um dedo de Deus.

«Bebe a nuvem no mar, no rio a fera;

Acha o tigre covil na antiga Hyrcania,

Hoje em dia, Ghilã;

Renasce a planta á luz da primavera,

E no calix da flôr gotta espontanea

Cahe á luz da manhã.

«Só eu no mundo um gosto em vão pretendo:

Guebro entre os persas, entre os indios pária,

Judeu entre christãos,

Só eu debalde ao céo as mãos estendo,

Como o naufrago á praia solitaria

Debalde estende as mãos.

«Tenho no livro azul onde Elle escreve

Esse nome, que nunca pronuncia

Quem bem o soletrou,

Mil vezes tenho lido que não deve

Queixar-se mais que a flôr que vive um dia

Um verme como eu sou.

«Porém, chorando, as mágoas diminuem.

Custa muito soffrer sem que um gemido

Ah! solte a nossa dôr.

E se aos olhos as lagrimas affluem,

É que este allivio nosso é permittido.

O céo orvalha a flor.»

Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem,

Como os suspiros de harpa eolea em ermo.

Ninguem no mundo o ouviu.

Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem,

Tocou a mão de Christo a mão do enfermo;

O Lazaro surgiu.

Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo

Nos prodigios da milagrosa vara

Que o Senhor Deus te deu.

Teu coração, Moysés do christianismo!

Tua alma é que eu admiro, e te invejára

Se o que é teu... fosse teu.

Coimbra.

PRESENTIMENTO

Índice de conteúdo

Emilia! não vês a lua

Como vacilla e fluctua,

Ora avança, ora recúa,

E não ha passar d'alli?

Tu és a imagem d'ella;

És tão sympathica e bella,

Meiga e timida, que ao vêl-a

Me lembra sempre de ti!

Tu és o botão de rosa

Que abraçado á mãi formosa

Só folga, só vive e goza

N'aquella triste união;

Treme até de ouvir a aragem

Passar por entre a folhagem:

Emilia! tu és a imagem

Do mais timido botão.

Mas embora: o tempo gira.

Um dia o botão, que aspira

O ar da manhã... suspira

E levanta o collo ao céo:

Vê vir raiando a aurora,

Abre o seio á luz que adora,

Correm-lhe as lagrimas, chora...

Chora o tempo que perdeu!

Porque elle, Emilia! não teme

Que a luz da aurora o queime;

Elle suspira, elle geme

Por vêr a luz que o creou.

Nem tambem a lua pára:

Se algumas vezes repara

N'uma nuvem menos clara,

É um momento e... passou.

Não ha existencia alguma

Que não tenha amor; nenhuma;

Porque o amor é, em summa,

Essencia de todo o sêr.

Ha sempre quem nos attráia.

Mil vezes que a onda cáia,

Ha uma rocha, uma praia

Aonde a onda vai ter.

Tu andas já presentida

D'essa voz que te convida

A encetar n'esta vida

Ai! uma vida melhor...

E em breve desenganada

D'essa existencia isolada,

Darás n'alma franca entrada

A sentimentos de amor!

Silves.

MARINA

Índice de conteúdo

I

Índice de conteúdo

APPARIÇÃO

Índice de conteúdo

Como esse olhar é dôce!

Dôce da mesma sorte

Como se nunca fosse

Toldado pela morte:

Como se alumiasse

O sol ainda em vida

As rosas d'essa face...

Agora carcomida.

Colhesse-as eu mais cedo

E logo que alvorece;

Já não tivesse medo

Que a terra m'as comesse.

Mas pura, como a neve

Que ás vezes cahe na serra,

É que a nossa alma deve

Tambem voar da terra.

Gelasse a morte fria

A mão profanadora

Que te ennublasse um dia

A luz que dás agora.

É n'essa côr tão linda,

Rosa da madrugada!

Que sinto a alma ainda

Andar-me enfeitiçada.

Se um dia nos meus braços

Te desbotasse as côres,

Passavam os abraços...

Passavam os amores!

Oh! não: mil vezes antes

No céo lá onde habitas,

E os rapidos instantes

Que vens e me visitas

N'este degredo nosso,

Que tanta gente estima,

E eu, só porque não posso,

Não largo e vou lá cima.

Vem tu cá baixo, abala,

Deixa em podendo o collo

Tão terno que te embala,

E vem-me dar consolo.

Como essa imagem pura

Ah! sobrevive ao nada

E escapa á sepultura,

Tão fresca e perfumada!

Nunca uma noite eu deixe

De estar a vêr que existes,

Em quanto me não feche

O somno os olhos tristes.

E n'esse largo espaço

Que te não vejo, espero

Lhe contes o que eu passo

N'este aspero desterro:

Que assim que te não veja

É noite fria e escura,

Noite que mette inveja

Á mesma sepultura!

II

Índice de conteúdo

SAUDADE

Índice de conteúdo

Em acordando agora,

O meu contentamento

É vêr em cada aurora

Um dia de tormento!

Podesse eu dar-te a prova

Dos dias que me esperam,

Lançando-me na cova

Onde elles te pozeram!

Lançassem-me algum dia

Ao pé, que de repente

O coração te havia

De ainda pular quente...

A face cobrar logo

A fórma e côr perdida,

E a bocca toda fogo

Ah! inspirar-me a vida!

Supplíca, ó anjo! implora

Ao Pai universal

Que me deixe ir embora

D'este horroroso val

De lagrimas amargas,

E turvas de tal modo,

Como umas nuvens largas

Que tapam o céo todo!

III

Índice de conteúdo

ETERNIDADE

Índice de conteúdo

Inferno e céo, conforme

A nossa fé, confesso

Que é um mysterio enorme,

É um mysterio immenso.

Mas um mysterio é tudo:

Folhinha d'herva, e estrella,

Não ha comprehendêl-a!

É contemplal-a mudo.

E a herva, como existe,

A mim quem m'o diria,

Se a luz que me alumia

Nem sabe em que consiste?

Mas uma coisa sabe

O que a cabeça ignora

—O coração... que mora

Em peito onde não cabe.

Ha uma luz mais clara

Que a luz do pensamento:

A d'essa imagem cara...

A d'este sentimento!

IV

Índice de conteúdo

... 21 DE SETEMBRO

Índice de conteúdo

Ha uma hora ou mais,

Marina! que contemplo

A casa de teus paes

Que é para mim um templo.

Está a porta aberta,

E vejo alumiada

A parte descoberta

Da casa da entrada.

Lá andam a passar

Do quarto onde acabaste

Á casa de jantar

Os vultos, que deixaste.

Os vultos, que os vestidos

Tão negros que pozeram,

De luto, tão compridos,

Não sei que ar lhes deram!

A tua bella irmã,

A tua piedade,

A rosa da manhã,

A flôr da mocidade,

Quem lhe diria a ella,

Tão cheia de alegria,

Que haviamos de vêl-a

Assim já hoje em dia!

É esta vida um mar,

E bem se póde a gente,

Marina! comparar

A rapida corrente,

Que vai de lado a lado

Por esses valles fóra

Sem nunca lhe ser dado

Ter a menor demora.

Pára, quando a engole

Aquelle mar sem fundo;

Nem pára; é como o sol

E como todo o mundo...

Ahi não pára nada,

Tudo viaja e anda,

Que a ordem lhe foi dada,

E dada por quem manda.

Chega a corrente lá,

Engole-a logo a onda:

Depois, que é d'ella já?

A nuvem que responda.

Que a nuvem que nos passa

Pela manhã nos ares,

Era hontem a fumaça

Que andava n'esses mares;

E a nevoa, que tu vês

Nas ondas fluctuantes,

Corria-nos aos pés

Talvez um dia antes.

A agua é que no giro

Em que anda eternamente

Não deu nunca um suspiro

Em prova de que sente.

.....................

N'UM ALBUM

Índice de conteúdo

Pedindo-se ao author uma poesia

Índice de conteúdo

Não me admira a mim que o sol, monarcha

De indisputavel throno, e throno eterno

Em céo e terra e mar;

Que em seu imperio o mundo inteiro abarca

Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno,

Mavioso olhar.

Não me admira a mim que a crystallina,

Tão pura, onda do mar, que espelha a face

Do astro creador,

Que essas asperas rochas cava e mina,

Á praia toda languida se abrace

E toda amor!

Mas sendo vós um sêr mais precioso

Do que onda e sol—um anjo de poesia

Inspirada e que inspira;

Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso,

Delicado penhor descesse um dia

É que me admira.

Quizera nos meus cofres de poeta

Ter as riquezas todas do Oriente,

E com mãos liberaes

Expulsar esta duvida que inquieta

Um grato coração que apenas sente

E... nada mais!

De limpido diamante e fio de oiro,

Quizera-vos tecer collar que á aurora

Vencesse em brilho e côr;

Mas o poeta, o unico thesoiro

Que tem, ah! são as lagrimas que chora

E o seu amor.

Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso

Se amada estrella olhar piedoso envia

A quem da terra a adora;

Se o sol aceita á flôr humilde incenso;

Ha no amor tambem muita poesia...

Minha senhora!

Evora.

Beijo na face

Pede-se e dá-se:

Dá?

Que custa um beijo?

Não tenha pejo:

Vá!

Um beijo é culpa

Que se desculpa:

Dá?

A borboleta

Beija a violeta:

Vá!

Um beijo é graça

Que a mais não passa:

Dá?

Teme que a tente?

É innocente...

Vá!

Guardo segredo,

Não tenha medo...

Vê?

Dê-me um beijinho,

Dê de mansinho,

Dê!

Como elle é dôce!

Como elle trouxe,

Flôr!

Paz a meu seio;

Saciar-me veio,

Amor!

Saciar-me? louco...

Um é tão pouco,

Flôr!

Deixa, concede

Que eu mate a sêde,

Amor!

Talvez te leve

O vento em breve,

Flôr!

A vida foge.

A vida é hoje,

Amor!

Guardo segredo;

Não tenhas medo

Pois!

Um mais na face

E a mais não passe!

Dois...

Oh! dois? piedade!

Coisas tão boas...

Vês?

Quantas pessoas

Tem a Trindade?

Tres!

Tres é a conta

Certinha e justa...

Vês?

E o que te custa?

Não sejas tonta!

Tres!

Tres, sim. Não cuides

Que te desgraças:

Vês?

Tres são as Graças,

Tres as Virtudes,

Tres.

As folhas santas

Que o lirio fecham,

Vês?

E que o não deixam

Manchar, são... quantas?

Tres!...

Thuribulo suspenso inda fluctuo,

Em quanto a alma em incenso restituo;

Mas, quando como fumo que se esvai,

Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai.

Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz,

Levar-lhe... quanto levas, pobre luz!

Amor, que em mim não cabe, vai depôr

Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;

Se d'outra flôr o calix mais libei

Por esses quantos valles divaguei;

Se um nome em igneo traço li no céo,

Nas ondas e no espaço, mais que o seu...

Deus sabe se eu dos montes vi tambem

Nos vastos horisontes mais alguem;

Nos tristes e risonhos dias meus,

Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.

Porém quem é que apanha o aereo véo

Da nuvem da montanha, se é do céo?

Se á terra a nuvem desce, quando vai

Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.

Coimbra.

Luz d'intima influencia,

Oh fugitiva luz!

Luz cuja eterna ausencia

É minha eterna cruz.

Podessem-te, ainda antes

Do meu extremo adeus,

Meus olhos fluctuantes

Vêr lampejar nos céos.

Se ainda n'esse espaço,

Tão longe onde tu vás,

Visse um reflexo baço

Da pura luz que dás;

Tornaram-se-me estrellas

As lagrimas de dôr;

E lagrimas são ellas...

Sim, lagrimas d'amor!

Vê n'esse espaço immenso

Os astros como estão

Bem como eu estou, suspenso

Por intima attracção.

Porque ha quem os attráia;

É essa eterna paz

Que a mim de praia em praia

A suspirar me traz.

Converte-me este inferno

Em azulado céo,

Ou quebra o laço eterno

Que a tua luz me deu;

Ou antes muda em espuma

De nunca estavel mar

Esta alma que alma alguma

Póde exceder em amar.

Em cinza, em terra, em nada,

Meu sêr converte, ó luz,

Mas sempre, sempre amada,

Deliciosa cruz!

Portimão.

RESPOSTA

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A A. DO QUENTAL

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Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando

Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas,

E parece-me ainda que mais bellas,

Anda a gente fazendo e desmanchando.

Dá-me uma saudade em me lembrando

O bello tempo que passei com ellas,

Por essa immensa abobada de estrellas,

Por esse mar de fogo viajando...

Andasse ainda eu lá, que não me havia

De vêr por estes charcos atolado,

Onde nem sol nem lua me alumia.

Andasse ainda eu lá, desenganado

Mesmo já como estou de achar um dia

A patria d'aonde ando desterrado.

Pois se o homem, se anjo e nume,

Planta e flôr,

Dá seu canto, luz, perfume,

Crença e amor;

Pois se tudo sobre a terra

Que ame alguem,

Rosa ou espinho, quanto encerra

Dá, se o tem;

Se os carvalhos, nus, medonhos,

Veste abril;

Se inda a noite presta aos sonhos

Graças mil;

Se onde ha ramo, voz uma ave

Desprendeu;

Se onde ha folha, gotta suave

Cahe do céo;

Se na praia, quando a onda

Vem de lá,

Beijos, antes que se esconda,

Mil lhe dá;

Tambem, anjo meu saudoso!

Te hei de emfim

Ah! dar quanto de precioso

Sinto em mim!

Dou-te o nectar, que me acalma;

Toma-o tu!

Sim, meu pranto; mais uma alma

Que eu possuo!

Dou-te os sonhos meus ardentes,

Mas leaes;

Dou-te as notas mais cadentes

Dos meus ais!

Do que ha lindo, tudo quanto

Me seduz;

D'esta vida, riso e pranto,

Noite e luz!

Dou-te o genio meu, que á sorte

Vês fluctuar

Sem mais véla, sem mais norte

Que esse olhar!

Dou-te a lyra, que me inspiras,

Sonho meu!

Que suspira, se suspira,

Flôr do céo!

Dou-te; aceita: tudo é santo,

Tudo, flôr!

Dou-te uma alma toda encanto,

Toda amor!

V. Hugo.

Coimbra.

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Возрастное ограничение:
0+
Дата выхода на Литрес:
16 января 2025
Объем:
80 стр. 1 иллюстрация
ISBN:
4064066408886
Издатель:
Правообладатель:
Bookwire
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