Читать книгу: «Apenas negócios? - O segredo de Alex»
Editado por Harlequin Ibérica.
Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Núñez de Balboa, 56
28001 Madrid
© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
N.º 60 - janeiro 2021
© 2011 Catherine Schield
Apenas negócios?
Título original: Meddling with a Millionaire
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
© 2012 Maureen Child
O segredo de Alex
Título original: To Kiss a King
Publicada originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd.
Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2013
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-283-9
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Apenas negócios?
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
O segredo de Alex
Capítulo Um
Capítulo Dois
Capítulo Três
Capítulo Quatro
Capítulo Cinco
Capítulo Seis
Capítulo Sete
Capítulo Oito
Capítulo Nove
Capítulo Dez
Capítulo Onze
Capítulo Doze
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Capítulo Um
Avistando por fim a sua presa, Nathan Case desviou-se de um empregado que carregava uma bandeja cheia de taças de champanhe para se aproximar da fonte de chocolate. A cinco metros dele, Emma Montgomery movia-se entre a fina flor da sociedade de Dallas, reunida ali para celebrar a passagem de ano. Andava à sua procura desde que chegou a casa do seu pai, Silas Montgomery, uma hora antes, ainda que não soubesse o que ia fazer exatamente quando a encontrasse.
As opções alternavam-se entre beijá-la e estrangulá-la.
Mas ainda não se tinha decidido.
Como se pudesse ler os seus pensamentos, ela virou a cabeça nesse momento e uma madeixa de cabelo roçou os seus lábios enquanto olhava à sua volta. Com os delicados dedos, afastou o cabelo castanho, deixando à vista a sobrancelha franzida. Parecia uma criatura da floresta encandeada pelos faróis de um carro, sem saber para que lado fugir. Mas rapidamente os seus olhos achocolatados se cravaram nele.
E, rápida como um relâmpago, Emma desapareceu por detrás de uma enorme planta.
O coração de Nathan batia a toda a velocidade enquanto a seguia. Tinha tido que jogar ao gato e ao rato com outras mulheres na sua vida e isso adoçava a rendição, mas Emma tinha elevado o jogo a outro nível. Se não a conhecesse bem, pensaria que estava a tentar desfazer-se dele.
Ridículo, depois de descobrir o que tinha descoberto naquele dia.
Emma tinha entrado na biblioteca, onde um grupo de gente cantava baladas de Frank Sinatra em frente a um piano, e seguiu-a, contente por deixar atrás os convidados que bebiam o caríssimo champanhe de Silas Montgomery enquanto admiravam a mansão que o velho magnata tinha construído como uma prova do seu dinheiro e poder.
A biblioteca, de dois andares, com as suas paredes forradas a cerejeira e estantes cheias de livros, do chão até ao teto, era mais acolhedora do que o colossal grande salão que tinha abandonado, mas não suficientemente tranquila para Nathan. Queria ter Emma só para ele nessa noite e não tinha intenção de deixar que mais ninguém beijasse essa incrível boca quando ouvissem as doze badaladas.
Ela deteve-se de repente quando ele a impediu de aceder à sua via de escape. Havia demasiado barulho para manter uma conversa, mas Emma não teve o menor problema para lhe comunicar a sua impaciência enquanto a levava em direção ao piano, colocando-a entre uma loura com um vestido decotado e um homem baixinho e careca que não deixava de olhar para esse decote.
Nathan olhou para a loura sem mostrar interesse. Ainda que gostasse de ver uma mulher meio despida tanto como qualquer outro homem, não era fã dos peitos artificiais. Ele preferia curvas que se movessem; as de Emma, neste caso.
Enquanto ela cantava com os demais, Nathan pôs as duas mãos sobre o piano, prendendo-a entre os seus braços. Teve de fazer um esforço para não se apertar contra o corpo feminino e até conteve um gemido ao recordar as suas suaves nádegas. O desejo que sentia quase o impedia de ouvir a música.
Sem poder evitar, inclinou a cabeça para o seu pescoço, o delicioso aroma do seu perfume envolvendo-o e provocando uma amnésia momentânea. Qual era mesmo a razão do seu aborrecimento com ela?
Em seguida conseguiu recordar.
Numa pausa entre canções, sussurrou-lhe ao ouvido:
– Eu e o teu pai tivemos uma conversa muito interessante esta tarde.
Emma levantou um ombro, como uma espécie de barricada.
– O Cody mencionou que tinhas que lhe fazer uma proposta.
Nathan também tinha uma proposta para ela. Uma proposta de natureza muito diferente à que teria discutido com Silas Montgomery.
– O teu irmão disse-te sobre o que falámos?
– Não.
– E não sentes curiosidade?
– Devia sentir?
Nathan inclinou-se um pouco mais, até tocar na sua testa.
– O teu nome veio à baila.
Emma fulminou-o com o olhar, mas antes de poder abrir a boca, o pianista começou a tocar as primeiras notas de Come Fly With Me e a conversa tornou-se impossível.
O que se estava a passar? Emma não se portava como uma jovem emocionada porque estava quase a casar-se, mas Nathan estava convencido que ela estava por trás das condições que o seu pai tinha imposto. Silas Montgomery estava disposto a dar-lhe a sua preciosa filha, tudo o que desejara, e Nathan sabia que Emma o desejava. Tinha-lho deixado bem claro três semanas antes, quando a tirou da festa de Natal de Grant Castle. Então, porque tinha saído a correr?
Do outro lado do piano, uma mulher de meia-idade olhava para ele com a sobrancelha franzida, mas Nathan disse-lhe com os olhos que se metesse nos seus assuntos e ela virou-se de imediato para o homem careca, que agora parecia cativado pelo decote de Emma.
Nathan conteve o fôlego, contando até dez para não lhe mostrar os dentes como um cão de guarda. Mas imediatamente tentou descontrair-se com a romântica canção que tinha feito com que gerações de mulheres se apaixonassem enquanto admirava a beleza com que tinha de casar-se se queria fazer negócios com o pai dela.
Nathan e o irmão de Emma, Cody, que eram amigos desde a universidade, andavam há algum tempo a tentar associar-se profissionalmente, mas não tinham encontrado a forma de o fazer. Quando começaram a discutir a ideia de uma joint venture entre a companhia petrolífera Montgomery e a Investimentos Case, Nathan não tinha pensado que casar-se com Emma fosse parte das negociações, mas não podia dizer que tivesse sido uma surpresa total que Silas tornasse essa questão num fator fulcral da negociação. O projeto seria a longo prazo e requereria um grande capital por parte de ambas as empresas, mas, pelos vistos, Silas estava disposto a cimentar os laços entre a Investimentos Case e a empresa petrolífera Montgomery através do casamento.
E Emma estava por trás dessa decisão. Deveria ser um elogio que o desejasse tanto a ponto de convencer o seu pai para a utilizar nas negociações. E porque é que Silas iria discordar? Depois de terem casado, Emma seria responsabilidade de outra pessoa.
– Tens uma voz assombrosa – disse-lhe a loura que estava ao seu lado. – E sabes a letra.
Nathan notou que Emma ficava tensa perante o evidente ataque.
– A minha mãe adorava Sinatra e costumava ouvir os seus discos quando eu era criança. Costumava chamar-me «o seu pequeno Frank», mas não pelos meus dotes musicais, era mais porque era bastante traquinas.
A loura deu uma gargalhada.
– Eu diria que continuas a ser – murmurou Emma.
Nathan sorriu. Gostava do seu sentido de humor. Tinha tudo: bonita, sexy, divertida.
Achando que lhe tinha sorrido a ela, a loura inclinou a parte superior do corpo para ele, pondo o decote ao alcance da sua mão. E como se isso não fosse suficiente, uma longa perna assomou pela abertura do vestido, acariciando a sua anca.
– Chamo-me Bridget.
– Nathan – disse ele, apertando-lhe a mão. – De onde conheces o Silas?
Mas não ouviu a resposta de Bridget porque, ao dar-lhe a mão, tinha deixado o campo livre a Emma, que aproveitou a oportunidade para sair a correr.
Na sua pressa por escapar, e sem se aperceber da comoção que estava a causar, Emma empurrou o homem careca, que olhou para ela como se os olhos lhe fossem saltar das órbitas.
Nathan olhou para a loura e viu-a a encolher os ombros, fazendo beicinho quando ele saiu da biblioteca.
Mas Emma não tinha percorrido mais do que cinco metros quando chegou ao seu lado e lhe passou um braço pela cintura, levando-a para o único sítio no primeiro andar onde ninguém os incomodaria: o escritório de Silas.
– A última vez que nos vimos tive a impressão de que tinhas vontade de festa – disse-lhe ao ouvido.
Emma olhou para ele com receio, como um potro assustado perante a chegada de um puma. E tinha razão em ter receio. Nenhum homem perseguia uma mulher como ele o tinha feito, a menos que quisesse tê-la em posição horizontal.
– Talvez, mas isso foi antes – admitiu.
– E isto é agora.
Nathan abriu uma porta ao final do corredor e empurrou-a suavemente para o interior. As luzes estavam apagadas, mas havia um pequeno candeeiro aceso sobre uma enorme secretária de mogno. Numa casa normal, um móvel desse tamanho teria anulado toda a divisão, mas aquela mansão tinha sido construída para impressionar. Sobre as paredes forradas a carvalho havia quadros de um dos pintores favoritos de Nathan, um artista de princípios do século xx que retratava as paisagens do Texas como ninguém. E em frente à lareira de mármore, um enorme sofá de pele com cadeirões a combinar. Ao contrário das delicadas antiguidades francesas que decoravam o resto da casa, aquela divisão de linhas simples e masculinas parecia-se com o magnata do petróleo que ali vivia.
Antes que Emma pudesse protestar, Nathan empurrou-a suavemente contra a porta, as vozes e a música da festa tornaram-se num murmúrio. Enfim sós.
Apoiando uma mão sobre o seu ombro, inclinou a cabeça para o olhar nos olhos.
– Não queres saber porque é que apareceu o teu nome na conversa?
– Não me interessa.
– Parece que o teu pai está à procura de um marido para ti.
– Raios – Emma apoiou a cabeça na porta. – Está a tentar casar-me desde a universidade.
– Porquê?
– Porque acha que sou um problema e quer passá-lo a outra pessoa – respondeu ela, sem poder dissimular a sua tristeza. – Está convencido que necessito alguém para cuidar de mim.
Ser a mimada filha de um milionário era parte do seu encanto e Nathan estava desejoso de mimá-la mais do que ninguém.
– Que mal tem deixar alguém cuidar de ti?
– É absurdo que pense que não sei cuidar de mim mesma – Emma levantou o queixo, orgulhosa. – E totalmente injusto.
Para que a conversa continuasse a ser amável, Nathan decidiu não a contrariar. Mas tinha ouvido rumores sobre as escapadas de Emma e sabia que tinha estado a ponto de prometer-se com um caça-fortunas, que a tinham condenado a fazer serviços comunitários quando a apanharam com a mala de uma amiga que continha marijuana e que tinha destruído um Mercedes quando voltava para casa de uma festa no meio de uma tempestade de neve.
Sim, parecia ter assentado a cabeça nos últimos dois anos, mas que se tivesse mostrado tão impulsiva com ele três semanas antes fazia com que questionasse se realmente tinha crescido ou se, simplesmente, se tinha tornado numa perita em esconder as suas escapadelas da imprensa.
– Disseste ao teu pai?
– Sim – Emma suspirou. – Mas não serve de nada. Quando está convencido de alguma coisa não há maneira de o fazer mudar de opinião e agora pretende que esteja prometida até ao dia de São Valentim, quer eu queira quer não.
E quer Nathan quisesse ou não.
Ele necessitava dessa joint venture com Silas para obter o controlo da empresa familiar. Nem Sebastian nem Max, os seus meios-irmãos, tinham fé na sua visão da empresa e por isso o acordo com a Montgomery era tão importante. Não apenas porque a tecnologia de última geração poria a Investimentos Case no mapa como uma empresa inovadora, mas também porque os futuros lucros assegurariam que ele detivesse as rédeas da empresa. Os seus irmãos detestariam essa reviravolta, mas não poderiam fazer nada a esse respeito.
Mas antes tinha de chegar a um acordo com Silas.
De repente, e por impulso, Nathan tirou-lhe os brincos que ela usava.
– O que estás a fazer? Devolve-me os brincos.
A última vez, Emma tinha-o deixado louco antes de se render. Depois tinha saído a correr, deixando atrás o seu provocante perfume. Mas nessa noite, Nathan pensava ficar com algo que ela quisesse reclamar.
– Ainda não.
Os seus caracóis escuros emolduravam um rosto ovalado de altas maçãs do rosto, nariz pequeno e lábios carnosos. Nessa noite tinha controlado os caracóis com um carrapito mas, mesmo gostando de admirar o seu longo e elegante pescoço, preferia que o usasse solto e despenteado, para ele, já agora.
Quando lhe tirou os ganchos, o cabelo caiu como uma cascata sobre os seus ombros nus.
– Nathan, o que estás a fazer?
– Eu acho que é evidente – respondeu ele, passando a ponta dos dedos pelo seu pescoço.
– Não podemos falar? – Emma pôs uma mão no seu tronco.
O calor dessa mão atravessava a camisa, provocando um incêndio no seu interior. O desejo que sentia por ela turvava-o. Nenhuma outra mulher o excitava tanto como ela, nem o fazia perder o controlo desse modo.
– Se te tivesses incomodado em ligar-me, podíamos ter falado muitas vezes nestas últimas semanas. Mas agora tenho outras coisas em mente.
– Aqui, no escritório do meu pai? Estás louco?
Nathan sentiu uma pontada de desejo ao imaginar que a possuía ali mesmo, apoiado na porta. Mas não, não voltaria a fazê-lo.
Tinha voltado a vê-la três semanas antes, sendo que há doze anos que não tinha contacto com ela e tinha ficado perplexo. Estava na festa de Grant Castle a falar com o seu antigo colega da universidade e a lançar charme a cinco jovens lindíssimas quando Emma apareceu com um vestido de saia muito curta, e com as suas longas e bem torneadas pernas ao léu.
Quando os seus olhos se encontraram, Nathan ficou sem respiração. Estava simplesmente… irresistível. Observou-a como um tigre vigia uma gazela e teve-a no seu carro uma hora depois.
Não lhe tocou até terem chegado ao seu apartamento, mas uma vez ali tinha procurado os seus lábios como um homem faminto e Emma tinha-se mostrado surpreendida. Tinha esperado que fosse uma amante treinada, mas não o parecia. Atuava como uma mulher que não tivesse o hábito de beijar ou que nunca tivesse sido beijada como deveria.
E tinha perdido a cabeça. Nada mais podia explicar que, demasiado impaciente para a levar até ao quarto, tivessem feito amor no hall de entrada. Estava a arder de tal forma que o surpreendia não ter provocado um incêndio em casa.
Mas a próxima vez que fizessem amor seria num colchão, com ela nua e dedicada.
Emma era uma mulher que merecia ser apreciada.
– Queres que te diga o que te vou fazer?
Ela conteve a respiração.
– Não.
Apesar da negativa, não se afastou e Nathan entendeu isso como um prelúdio amoroso:
– Primeiro, vou tirar-te esse vestido tão sexy – murmurou, passando os dedos pelo fecho, que ia da axila até à anca.
Emma tentou agarrar na mão dele, mas ele afastou-a. As suas intenções de resistir não pareciam muito sérias.
– Depois, começando por esse sítio no teu ombro que gostas tanto quando o beijo, vou tomar o meu tempo – Nathan esperava que aquilo funcionasse porque estava a deixá-lo louco. – Não vou deixar-te ir embora até pôr as minhas mãos e a minha boca em cada centímetro do teu corpo.
Depois empurrou-a suavemente até ele e ficou sem ar quando Emma começou a mexer as ancas.
– Estás com essa tanga preta de que eu tanto gosto?
Tremiam-lhe as mãos ao lembrar-se como os seus mamilos se tinham endurecido quando os acariciava. O vestido azul que usava nessa noite parecia igualmente apaixonado pela sua figura porque a abraçava totalmente.
– Vamos dar uma vista de olhos – murmurou, meio a brincar meio a sério. Da última vez, parte da diversão do seu breve encontro tinha sido ver como ficava corada quando lhe dizia essas coisas.
– Não – o monossílabo que saiu da garganta de Emma soava a meias entre um protesto e uma prece.
Nathan agarrou na sua cara entre as mãos.
– Vamos a algum sítio onde não nos possam incomodar – murmurou, beijando a sua face com lânguida e ardente lentidão.
– Não penso ir a nenhum sítio contigo – disse ela. Mas as suas objeções tornaram-se num murmúrio de prazer quando a apertou contra ele.
Divertia-o que quisesse negar a atração que havia entre eles quando os dois sabiam que era impossível negá-la. E também sabiam como ia terminar aquilo.
– Porque não? Fomos feitos um para o outro – insistiu Nathan, apertando-a contra as sua pernas. – Olha o que sinto por ti… e sei que tu sentes o mesmo.
Emma empurrou-o suavemente.
– Pelos vistos, muitas mulheres se sentem atraídas por ti.
Era pelos vistos por isso que não tinha respondido às suas chamadas?
Nathan sorriu, indulgente.
– Mas tu és a única que me interessa, neste momento.
Emma ficou sem respiração. As suas palavras intensificavam o potente desejo que sentia por ele. E a tentação era tão forte…
Brincar com ele na festa de Grant três semanas antes tinha-lhe parecido uma coisa sem importância. Afinal, Nathan não tinha tido o menor problema em rejeitá-la dez anos antes.
Aos vinte anos, Nathan Case era um rapaz lindíssimo e com um encanto arrogante que a deixava sem palavras. Emma tinha usado todos os truques do seu arsenal de rapariga de dezasseis anos, esperando que olhasse para ela e, para sua surpresa, parecia ter funcionado.
Até àquele devastador golpe na sua autoestima.
Sentiu que lhe ardiam as faces ao recordar esse dia. Com uma saia curtíssima e uns sapatos de salto de agulha da sua mãe, tinha encurralado Nathan na cozinha e praticamente tinha-lhe suplicado que a beijasse.
Muito sério, cravando nela os seus olhos cinzentos, ele tinha-lhe dito que lavasse a cara e fosse brincar com as suas amigas. E depois de ter espezinhado a sua autoestima, tinha dado meia volta serenamente. No dia seguinte partira para Las Vegas e só regressara ao Texas uns meses antes.
Emma tinha-se emocionado ao vê-lo na festa de Grant Castle, acreditando que dez anos depois tinha as armas necessárias para o conquistar. Ai, que pouco tinha aprendido.
– Eu sou quem tu desejas neste momento.
– Não fazes ideia – murmurou ele, beijando as suas pálpebras.
Se deixava que saísse com a sua, quanto demoraria a ir-se embora? Podia estar com Nathan esperando que a deixasse plantada a qualquer momento? Não. Seria melhor deixar as coisas como estavam. A lembrança dessa noite, três semanas antes, teria que ser suficiente para os dois.
– Vamos ao meu hotel – disse ele então. – Se puderes aguentar uma hora sem gritar o meu nome, não voltarei a incomodar-te nunca mais.
Uma hora?
Ao lembrar-se do prazer que a esperava, Emma teve de apertar os lábios.
Tinha ganho e sabia-o. Pior, ela sabia que Nathan sabia. Estava a ponto de gritar o seu nome ali mesmo e só porque estava a acariciá-la.
– Não me vou deitar contigo outra vez.
– Outra vez? Da última vez não ficaste tempo suficiente para nos deitarmos. Mas estou ansioso por acordar contigo nos meus braços.
As suas mãos eram quentes, prometedoras. Emma levantou o queixo enquanto ele a beijava no pescoço. Se soubesse quanto desejava acabar entre os seus braços nessa noite, estaria perdida.
«Não o faças», dizia-lhe a voz da razão. «Nunca terás oportunidade de casar-te por amor se deixares que volte a seduzir-te».
– Tens medo de deixar-te levar – murmurou ele. – Não tenhas.
– Não tenho medo.
Tinha fantasiado com ele durante anos, mas os seus sonhos não a tinham preparado para a excitante pressão dos seus músculos ou a urgência dos seus beijos. Ele exigia e ela rendia-se.
Era o «depois» que a aterrorizava. A traiçoeira vontade de deixar que ele ditasse onde ia a relação e quanto tempo ia durar. Descobrir que se tornaria maleável entre as suas mãos tinha-a levado a não responder aos seus telefonemas.
Os lábios de Nathan deixavam um rasto de fogo na sua garganta, onde o seu coração batia como um louco…
– Prometo ir devagar.
– Que consideração da tua parte – disse Emma, irónica. – Mas acho que te estás a enganar.
– Sobre o quê?
– Sobre o que eu quero.
– E o que queres tu?
Um homem que a amasse para sempre.
– Três, dois, um… – ouviram uma grande algazarra do outro lado da porta.
– Feliz ano novo – sussurrou Emma.
Podia aproveitar a festa para a beijar, mas Nathan não o fez. Tinha uns lábios tão sensuais, em forma de arco, e um sorriso um pouco torcido…
– Feliz ano novo – disse ele. – Tens propósitos para o ano novo?
– Só um.
– Qual?
Emma abanou a cabeça, tentando quebrar o ambiente sensual que Nathan Case parecia criar com a sua presença.
– Decidi ser mais espontânea.
– Ah, sim? E como vai essa decisão por agora?
– Não muito bem – respondeu ela, tentando controlar os nervos. – E tu? Tens algum propósito para o novo ano?
– Só um – respondeu Nathan.
Emma levantou as mãos para agarrar um rosto masculino, com uma estrutura óssea bem definida e mandíbula forte. Mesmo na escuridão do estúdio conseguia distinguir uns traços fabulosos, pensou.
Nathan puxou pela sua gravata que deixou pendurada sobre a camisa, chamando a atenção sobre o poderoso torso, do qual parecia emanar um calor que lhe turvava o discernimento. Emma sentia um formigueiro nos dedos enquanto os músculos se retesavam sob o tecido. Aquele homem irradiava poder e vitalidade e toda essa energia contida fazia com que os seus joelhos fraquejassem.
– Qual?
Nathan tocou levemente na sua boca, as suas respirações misturaram-se.
– Passar o resto da minha vida a fazer amor contigo.
O coração de Emma bateu com força contra as suas costelas.
– Isso é um compromisso muito sério, não achas?
– Pelo contrário – disse-lhe Nathan ao ouvido – estou ansioso por te tornar na senhora de Nathan Case
Capítulo Dois
Ao ouvir a frase, o coração de Emma esteve a ponto de sair do peito. A senhora de Nathan Case?
– Estás louco? – exclamou, levando os dedos à testa porque, de repente, sentia como se lhe estivessem a bater com um martelo na cabeça.
– Não, de modo algum – respondeu ele.
– Isto não é pelo que se passou na outra noite, pois não? Asseguro-te que uma noite de sexo não requer um gesto nobre da tua parte. Além do mais, eu não era virgem.
Nathan sorriu.
– Obviamente, não te comportavas como se o fosses.
Emma não disse nada enquanto tentava encontrar sentido ao que acabava de propor-lhe. Infelizmente, era quase impossível pensar racionalmente quando a desprezada rapariga de dezasseis anos que havia dentro dela estava quase a saltar de alegria. Mas tentou conter o entusiasmo e concentrar-se na realidade.
Casar-se com Nathan? Impossível. A sua capacidade para fazer com que uma mulher se sentisse especial não o tornava num bom candidato para marido.
– O meu pai convenceu-te, não foi?
– Foi sobre isso que falámos esta tarde – respondeu ele. – Acha que está na hora de te casares.
– Com alguém que ele escolha, claro.
– Estás a pensar em mais alguém?
Emma deixou escapar um gemido de horror.
– Eu não quero casar-me contigo. Nem com ninguém.
Não ia casar-se sem amor, só isso.
– O teu pai parece um homem muito decidido.
– Nem fazes ideia – murmurou ela. – Mas não penso fazê-lo.
Emma olhou para o enorme escritório, desejando poder sentar-se no sofá. Falar daquilo seria mais fácil se não tivesse o musculoso corpo de Nathan a um centímetro dela, apertando-a contra a porta.
De imediato, lembrou-se do que tinha acontecido três semanas antes, colada a outra porta, o coração a bater como um louco e todos os seus sentidos alerta enquanto faziam amor. Com absoluta autoridade, tinha derrubado todas as suas defesas enquanto lhe fazia coisas que a deixavam ofegante.
Emma tentou afastar essa lembrança e apertou as pernas quando ameaçaram dobrar-se.
– Porque é que aceitaste casar-te comigo? – perguntou.
– A Investimentos Case quer fazer negócios com a empresa petrolífera Montgomery.
– E o meu pai impôs como condição que te casasses comigo.
Um acordo comercial. Devia ter imaginado. Como podia o seu pai voltar a fazer-lhe algo assim? Não tinha aprendido nada da última vez que tentou intrometer-se na sua vida amorosa?
No verão em que se licenciou na universidade, estava noiva de um executivo da empresa Montgomery, mas logo descobriu que Jackson Orr tinha pedido a sua mão depois de fazer um acordo com o seu pai pelo que obteria um cargo melhor na empresa se se casasse com ela. Quando o descobriu, Emma desfez o compromisso e decidiu não voltar a repetir o mesmo erro.
– Deve ser um acordo muito interessante para ti – disse-lhe, estendendo uma mão para acender as luzes.
– O mais importante da minha vida – respondeu Nathan.
– Então, imagino que casar-te comigo é um preço que estás disposto a pagar.
– O que se passa, Emma?
– Não quero casar-me contigo assim.
– Assim? – repetiu ele. – Gostarias de casar-te comigo de alguma outra maneira?
Ela afastou o olhar.
– Não quero casar-me com ninguém – respondeu. Não queria casar-se com nenhum homem que o seu pai pudesse manipular porque não o respeitaria e jamais confiaria nele. – Não gosto de ser utilizada como ferramenta para negociar.
– E eu não gosto de ser um peão que o teu pai utiliza para manipular-te – disse Nathan, falando como se tudo aquilo lhe parecesse razoável. – Mas talvez devêssemos aproveitar a situação.
Brilhavam-lhe os olhos enquanto localizava o fecho do vestido e o abria.
– Permite que te lembre como nos entendemos – murmurou, beijando os seus ombros.
– Não necessito que mo recordes, Nathan – disse ela, tentando dissimular que a ansiedade era como um exército de borboletas no seu estômago. Apesar de a razão para se casar com ele ser completamente absurda, a recordação do seu corpo era um poderoso afrodisíaco. Casar-se com Nathan seria como montar um cavalo selvagem; perigoso, emocionante, incerto. Nathan dar-lhe-ia um coice no coração sem se aperceber de como isso magoava e em seguida partiria para o seu próximo objetivo. – Mas o sexo não é suficiente para começar um matrimónio.
Nathan levantou o queixo com um dedo para olhá-la nos olhos.
– Se tiveres expetativas pouco realistas, não.
Emma quase desatou a rir.
Nos momentos mais escuros, quando contemplava o que seria a sua vida se acedesse aos planos do seu pai, imaginava-se a si mesma a viver como o tinha feito a sua mãe, casada com um empresário que trabalhava sem descanso. Imaginava-se a passar as manhãs às compras e depois a almoçar no clube com as amigas. E algum dia, por fim, teria uma tórrida aventura com o seu treinador de ténis ou com o tutor da filha. O marido e ela viveriam vidas separadas, mas iriam juntos a jantares e eventos sociais. O sexo seria escasso e aconteceria apenas se um dos dois tivesse bebido demasiado.
Claro que essa não seria a vida que teria com Nathan Case, um homem que podia fazer com que os seus joelhos tremessem apenas com um olhar. Por ele, compraria roupa interior sexy e iria ao ginásio para ter uma figura perfeita. Via-se a si mesma a organizar jantares para dois e férias em lugares exóticos. Tornar-se-ia na sua vida, na sua obsessão.
Emma sentiu um arrepio.
E o que conseguiria em troca? Seria Nathan um marido fiel ou as suas aventuras extra conjugais fariam com que acabasse por ser como a sua mãe, ciumenta e possessiva até ao ponto de afastá-lo da sua vida? Tinha-a visto sofrer até ao primeiro ano da secundária, quando pediu o divórcio e se mudou para Los Angeles. Nunca tinha voltado a casar-se, apesar de Emma não saber se era por medo a perder a pensão que lhe dava o seu pai ou por medo a arriscar o seu coração outra vez.
Recordando os jogos de Nathan com a loura na biblioteca, Emma tinha as suas dúvidas.
– Expetativas pouco realistas? – repetiu. – Como a fidelidade, por exemplo?
– Quero que o nosso seja um casamento a sério – replicou ele. – Serás a única mulher na minha cama.
Mas e no seu coração? Como podia ser real um casamento sem amor?
Emma imaginou o turbilhão emocional que a esperaria como esposa de Nathan. Quando o seu pai lhe impediu o acesso ao seu fideicomisso dez meses antes, dizendo que o dinheiro que gastava em roupa demonstrava que era uma irresponsável, Emma pensou que estava a tentar dar-lhe uma lição, mas jamais pensou que a forçaria a casar-se com alguém.
Nervosa, levantou uma mão para brincar com o seu brinco, mas em seguida se lembrou que Nathan os tinha guardado no bolso. Eram um dos seus primeiros desenhos, de safiras e diamantes. Desenhava joias desde que terminou a licenciatura, mas dois anos a trabalhar como ajudante de um joalheiro tinham anulado o seu entusiasmo por executar os desenhos de outros.
Quando o seu pai começou a pôr-lhe entraves com o dinheiro, tinha decidido viver do que ganhasse a fazer a sua própria linha de joias, mas seis meses depois apercebeu-se de que mesmo vivendo sem luxos como a roupa de design ou as visitas ao spa, teria de trabalhar muito mais do que tinha feito até então para pagar o empréstimo, pôr gasolina no carro e ter comida no frigorífico. E não apenas durante um ano, mas durante o resto da sua vida.
Ou poderia recuperar o seu fideicomisso. Se fizesse o que o seu pai queria e casasse. Nesse mesmo ano. Essa era a condição que tinha imposto.
Estava cansada de lutar contra os desejos do pai, contra a tentação de gastar dinheiro, farta de não poder pagar as faturas. Aquele ano tinha sido um inferno. Seria tão fácil render-se, fazer o que o seu pai queria e casar-se com Nathan. Então não teria que estar doze horas sentada em frente à secretária, não teria de poupar cada cêntimo para conseguir ir às aulas de ioga.
Emma encolheu os ombros.
– Devolves-me os meus brincos?
– Não, acho que os guardarei durante mais um tempo.
– Porquê?
– Desapareceste da minha vida há três semanas e não quero que isso volte a acontecer.
– Não desapareci – disse ela. Mas sim, tinha desaparecido. O desejo que sentia por ele tinha-a feito fugir espavorida qual coelho assustado. – Por favor, Nathan, não podemos falar amanhã? Estou cansada e necessito tempo para pensar. Podemos tomar o pequeno-almoço juntos amanhã.
O seu tom cansado devia tê-lo afetado porque afastou as mãos da porta e manteve-se em silêncio enquanto ela subia o fecho do vestido.
– Venho buscar-te às dez – disse Nathan, poderoso e seguro de si mesmo, perigoso e sexy: tudo isso sabotando a sua resolução de se afastar sem olhar para trás.
– Sim, claro.
Emma saiu do estúdio antes de poder detê-la. Não tinha forças suficientes para resistir nem mais um minuto. Tinha de sair dali, nessa mesma noite.
Correndo pelas escadas acima, com o coração a bater a toda a velocidade por medo a que Nathan a seguisse, deteve-se no segundo andar para respirar.
O patamar do segundo andar rodeava o salão de quatro andares terminando numa cúpula pintada com nuvens. O seu pai tinha gasto cinquenta milhões de dólares para recrear uma mansão de estilo francês numa quinta de noventa hectares ao norte de Dallas. A mansão, de oito mil metros quadrados, estava inspirada em Versalhes em estilo e grandiosidade e mobilada com antiguidades francesas. Tinham demorado quase três anos em construí-la, graças à obsessão do seu pai por comprovar pessoalmente cada detalhe, mas assim pelo menos tinha-se esquecido do divórcio da sua quarta mulher e, durante um tempo, tinha deixado de meter-se na vida de Emma.
Infelizmente, nada durava para sempre. E quando chegou o último móvel a finais de fevereiro, Silas tinha voltado a intrometer-se na sua vida.
– E queixa-se de que eu gasto muito dinheiro – murmurou, irónica.
A festa continuava em todo o seu apogeu no andar de baixo, como um mosaico de elegantes vestidos e joias que a deixavam tonta.
– Ah, estás aqui.
Emma voltou a ouvir a voz do seu pai, que se dirigia a ela pelo corredor. Aos sessenta e três anos, tinha o aspeto atlético e a energia de um homem vinte anos mais jovem. Silas Montgomery usava a sua estatura e a sua personalidade para intimidar tanto os seus adversários como os seus familiares.
– Olá, papá.
– Vi-te com o Nathan – disse ele, olhando para o seu cabelo despenteado com a sobrancelha franzida. – Falaram?
– Sim, falámos – respondeu Emma, sentindo que lhe ardia a cara.
– Maravilhoso. Anda, vamos ao salão. Quero anunciar a toda a gente.
Emma odiava os confrontos e desde pequena tinha aprendido a afastar-se quando os seus pais discutiam. Mas nesta ocasião não estava disposta a ceder.
– Agora não, papá. Estou cansada.
– Patetices. Será um anúncio rápido e um brinde, mais nada.
Mesmo não gostando de discutir com o seu pai, Emma estava decidida a manter-se firme.
– Não há nada para anunciar.
Silas Montgomery cravou nela os seus brilhantes olhos azuis.
– Não te pediu que te cases com ele?
– Disse-me que vamos casar-nos e eu disse-lhe que não – respondeu Emma, com o ressentimento a dar-lhe coragem. Devia encontrar a forma de escapar dos planos do seu pai porque não tinha intenção de tornar-se na esposa de Nathan Case. – Não vou casar-me com ele como parte de um acordo entre vocês os dois.
– No dia de São Valentim dei-te um ano para encontrares marido, Emma. O prazo está quase a finalizar e ainda não encontraste ninguém. Mas eu encontrei alguém para ti.
– Não quero casar-me com o Nathan – insistiu ela. O seu pai e o Nathan tinham em comum a arrogância e a total despreocupação pelos sentimentos dos demais. – De facto, é o último homem do mundo a quem eu teria escolhido.
Silas franziu a sobrancelha.
– Essa não foi a minha impressão quando ouvi uma conversa entre Jamie e tu este Natal.
Emma conteve um suspiro. Como se tudo aquilo não fosse suficientemente humilhante, agora descobria que o seu pai tinha ouvido a conversa entre ela e a sua cunhada depois do que se passou na festa de Grant.
– Estavas a espiar-me?
– Nenhuma das duas falava precisamente em voz baixa.
– Pensei que estávamos sozinhas em casa.
– Voltei para procurar uns papéis – o rosto do seu pai não mostrava a menor compaixão. Lidava com ela com a mesma determinação com que dirigia os seus negócios. – Sei que gostas do Nathan há muito tempo, filha. Lembro-me como te portavas quando voltava com o teu irmão da universidade.
E ela também, pensou Emma, com as faces a arder.
– Nessa altura tinha dezasseis anos, papá. Não sabia o que queria.
– E agora tens vinte e oito, é hora de decidires o que queres fazer com a tua vida – Silas puxou os punhos da camisa, como se desse por finalizada a discussão. – Nathan será um bom marido.
– Não estou apaixonada por ele e ele não está apaixonado por mim. Como é que vai ser um bom marido?
– Mas está disposto a casar-se contigo.
– Porque tu o estás a chantagear – Emma teve de se concentrar para não desatar a chorar. – Não me faças isto, papá. Não seria bom para nenhum dos dois.
– Necessitas que alguém cuide de ti, filha. E o Nathan é o homem perfeito para isso.
– Não necessito que ninguém cuide de mim.
– Sim, necessitas. Como nunca tiveste de ganhar o teu próprio dinheiro, gasta-lo como se não fosse terminar nunca. Não quero nem pensar o que se passaria se não estivesses limitada por um fideicomisso. E pelo que me conta Cody, o teu loft em Houston é um desastre. Cuidei de ti durante vinte e oito anos, é hora de dar esse trabalho ao teu marido.
O seu loft não era um desastre, só necessitava de uma casa de banho e cozinha novas… e mudar a canalização e a instalação elétrica. Tinha-o comprado antes de perder o acesso ao dinheiro do fideicomisso e como com o seu negócio de joalharia mal chegava para os gastos, não tinha dinheiro para fazer obras.
– Não preciso de um marido, eu consigo cuidar de mim mesma. O meu negócio de joalharia está a começar a levantar voo – disse. Era um exagero, mas necessário se queria convencer o seu pai a deixar de tentar casá-la.
– Quanto dinheiro te sobra dos cem mil dólares que te dei em fevereiro?
– A maior parte – Emma não queria ser específica. Quando o seu pai lhe negou o acesso ao fideicomisso não tinha querido acreditar e ainda não tinha aprendido a ser cuidadosa com os seus gastos. Dizer-lhe qual era a verba real só serviria para reforçar a sua opinião de que gastava dinheiro de um modo frívolo.
– Já só tens um terço – replicou Silas.
– E se o tivesse todo?
O desafio despertou um brilho especulativo nos olhos do seu pai.
– O que queres dizer?
Isso, o que queria dizer? Emma queria retirar as suas palavras, mas era demasiado tarde.
– Dizes que não sei cuidar de mim mesma e eu digo-te que estás enganado – Emma respirou profundamente. – E se te devolvesse os cem mil dólares no dia de São Valentim?
– Como vais fazer isso em seis semanas? – o seu pai soltou uma gargalhada.
– Vendendo as minhas joias.
– Não poderás fazê-lo, querida. Tens jeito para gastar dinheiro, não para o ganhar. Não tens garra para triunfar na vida por tua conta.
O comentário depreciativo fez com que o seu coração se encolhesse e sentiu-se presa aos erros que tinha cometido na vida. Seria demasiado tarde para fazer com que o seu pai mudasse de opinião? Se não o tentasse, teria de viver do que ganhava ou casar-se com Nathan. Ambas as possibilidades eram horríveis.
– Mas se o fizesse, devolver-me-ias o fideicomisso?
O seu pai franziu a sobrancelha.
– Vi o estado da tua conta, filha. Não poderás devolver-me o dinheiro.
Certamente tinha razão, mas Emma decidiu tentar.
– Logo vemos isso no dia de São Valentim – afirmou, com uma confiança que não sentia na realidade. – Mais uma coisa: quando eu tiver os cem mil dólares na minha conta, terás de prometer que nunca mais voltarás a meter-te na minha vida – propôs-lhe, oferecendo a mão para selar o acordo. – Concordas?
– Desde que não peças o dinheiro emprestado a ninguém, estou de acordo – Silas apertou a sua mão com um sorriso. – Só faço o que sei que é melhor para ti, filha.
– O que tu achas que é melhor para mim – disse ela, afastando a mão. – E enganas-te. Mas é melhor voltares para o pé dos teus convidados.
– Tu não vais descer?
Emma negou com a cabeça.
– Vou para Houston esta noite.
– É muito tarde e as estradas são perigosas.
Mais perigoso seria ficar, pensou ela.
– Terei cuidado.
O seu pai franziu a sobrancelha.
– Emma….
– De uma forma ou de outra, em seis semanas deixarei de ser da tua responsabilidade, papá. Já é hora de soltares as rédeas.
– Claro que sim – Silas beijou-a na testa antes de se afastar pelo corredor.
Quando chegou ao seu quarto, Emma tirou o vestido com sumo cuidado. Tinha-lhe sido emprestado por Jamie e não se perdoaria a si mesma se tivesse que o devolver com alguma nódoa.
Enquanto o guardava num saco para fatos, pensou na reviravolta que a sua vida tinha dado. Um ano antes, não teria tido tanto cuidado com a roupa. Qualquer nódoa, qualquer falta de botão e algumas vezes só porque já os tinha usado uma vez, levava os seus vestidos diretamente para o fundo do armário.
Era curioso… algo que Jamie lhe tinha emprestado com total despreocupação e ela tratava-o como se fosse o vestido mágico da sua fada madrinha.
Felizmente, aquele vestido não tinha desaparecido à meia-noite.
Apesar das suas turbulentas emoções, Emma teve de sorrir.
Depois de vestir umas calças de ganga e uma camisola, guardou o resto das coisas numa mala. Até ao seu encontro com Nathan tinha pensado em ficar a dormir ali, mas depois do que tinha estado a ponto de acontecer outra vez, precisava de tempo para pensar e as quatro horas e meia até Houston seriam uma oportunidade estupenda para o fazer.
Não se preocupava com a possibilidade de adormecer ao volante. Não tinha bebido álcool e, depois do seu encontro com Nathan, a descarga de adrenalina mantê-la-ia acordada.
Sentindo-se como uma ladra, desceu ao primeiro andar colada à parede para que ninguém a visse. Então lembrou-se dos seus brincos no bolso de Nathan… sair de sua casa com os bolsos vazios quando tinha chegado com eles cheios deixava claro que a ladra não era ela.
Só quando entrou na estrada iluminada pela lua é que a pressão do seu peito diminuiu. Custasse o que custasse, teria esses cem mil dólares antes do dia de São Valentim. Demonstraria ao seu pai que era capaz de cuidar de si mesma e Nathan Case teria de encontrar outra forma de fazer acordos com Silas Montgomery.
– Não está aqui? Quando é que se foi embora? – perplexo, Nathan olhou para o salão que umas horas antes estava cheio com centenas de convidados.
A empregada negou com a cabeça.
– Não tenho a certeza.
– Nathan! – chamou Cody Montgomery, que descia nesse momento pelas escadas. – Que raio fazes aqui?
A empregada afastou-se enquanto Nathan apertava a mão ao seu amigo.
– A tua irmã combinou tomar o pequeno-almoço comigo esta manhã.
– Tens a certeza? O meu pai disse-me que ela tinha regressado a Houston ontem à noite.
– Sim, tenho a certeza – Nathan exalou um suspiro de frustração. Tinha voltado a desaparecer. Devia ter feito caso ao seu instinto na noite anterior e tê-la convencido a voltar ao hotel com ele. – Tínhamos de falar.
– Sobre o quê? Vão marcar uma data para o casamento? – Cody soltou uma gargalhada. – O meu pai disse-me que vocês vão casar. Francamente, jamais pensei que algum dia admitirias que estás louco pela minha irmã desde os dezasseis anos.
Nathan apertou os dentes enquanto o seu melhor amigo se ria dele.
– Eu não diria isso.
Cody franziu a sobrancelha.
– Mas estás apaixonado por ela, ou não?
Essa pergunta não o surpreendeu. Depois de cinco anos de casamento, Cody e Jamie continuavam loucos um pelo outro e estavam à espera do primeiro filho. Nathan não sabia que tipo de água bebiam aqueles dois, mas ele pensava continuar com o uísque.
– Já sabes o que penso sobre o amor – disse. Ele não pensava cair nessa esparrela. – A mim não me vai apanhar.
– Mas vais casar-te – insistiu Cody, agarrando-o pelo braço para o levar para o alpendre. – A Emma sabe que não estás apaixonado por ela?
Nathan não ia mentir ao seu amigo:
– Sim, sabe.
– Não posso acreditar que a minha irmã esteja de acordo.
– Porquê?
– Depois de ver como o casamento do nosso pai e da mãe dela se degradava, a Emma estava decidida a casar-se só por amor.
Cody tinha-lhe contado que, na sua opinião, a terceira esposa de Silas Montgomery se tinha casado com ele por razões económicas.
– Acostumar-se-á à ideia.
– Não, não acredito. A Emma está louca por ti desde que era uma criança, mas tem esse sonho romântico de conto de fadas. Não vai casar-se a menos que ache que estás louco por ela.
– Tem um pouco de fé no meu poder de persuasão – disse Nathan, com um sorriso nos lábios.
Mas o sorriso desapareceu enquanto ia para o seu carro. As palavras de Cody repetiam-se no seu cérebro quando as rodas do potente BMW voavam sobre a autoestrada.
Amor.
Emma não se casaria a menos que fosse por amor. Mas ele não se casaria por amor, de modo que tinham um problema.
Não sabia quando tinha decidido que nunca tomaria esse caminho. Tinha sido nessa manhã de Natal, quando perguntou porque é que o seu pai não passava o Natal com eles e a sua mãe desatou a chorar?
Tinha oito anos.
Ou talvez quando fez dez anos e a mulher de Brandon Case tinha aparecido em sua casa para conhecer a lambisgoia com quem o seu marido tinha uma aventura. No dia seguinte, a sua mãe tinha-lhe dado uma bofetada quando disse que odiava o seu pai e queria que apodrecesse no inferno.
O amor destruía a vida das pessoas. Fazia com que criassem expetativas irreais e as expetativas levavam à desilusão, a desilusão à infidelidade e a infidelidade ao divórcio… exceto Cody, todos os seus amigos enganavam as suas esposas ou ao contrário. E todos tinham começado loucamente apaixonados.
Estava a uma hora de Dallas quando tocou o seu telemóvel.
– Estou – respondeu, pondo em alta voz.
– Olá, Nat, como foi tudo?
Ao ouvir a voz de Max, Nathan conteve um suspiro. Pelo tom, estava claro que o seu meio-irmão esperava que tivesse fracassado.
– Correu bem.
– Assinaste o acordo com Montgomery? – a voz de Max perdeu a alegria.
Se os seus meios-irmãos descobrissem a condição que Silas tinha imposto para esse acordo, Nathan teria que dar muitas explicações. Mas pensava consegui-lo sem contar a ninguém.
– Tenho de solucionar alguns problemas de última hora, mas eu diria que a coisa tem boa pinta – Nathan relaxou as mãos sobre o volante.
Tinha passado quase um ano no circuito de torneios de póquer aos vinte anos, aprendendo a esconder os seus pensamentos e adivinhar os dos demais. Além de ganhar a dois dos melhores jogadores do país, ganhara meio milhão de dólares e o que aprendeu durante esse tempo tinha sido muito valioso para lidar com os seus meios-irmãos nos últimos meses. Sobretudo, tinha aprendido a não deixar que ninguém o visse suar.
– Mas ainda não assinaste – insistiu Max.
Nathan apertou os dentes. Só o irmão do meio dos Case podia ser tão assertivo.
– Como já disse, só faltam alguns detalhes para dar por finalizada a negociação.
– Mas tinhas a certeza de que voltarias com o acordo assinado. Montgomery não ficou impressionado com a tua proposta?
Nathan suspirou. Os seus meios-irmãos tinham aprendido a fazer negócios nos escritórios do mundo empresarial; ele tinha tido que fazê-lo por sua conta. Ganhara a fortuna na Bolsa, investindo capital em empresas de risco, mas por mais legítimos que fossem os seus investimentos, Max e Sebastian negavam-se a dar-lhe crédito por ter uma boa cabeça para os negócios. Não podiam esquecer que a sua fortuna tinha começado nos campeonatos de póquer.
– O Silas está a comprovar os números, mas dar-me-á a sua resposta em seis semanas – disse por fim.
No dia de São Valentim. Nathan não tinha entendido a importância dessa data até que Emma lho explicou.
– Tanto tempo? Com certeza está tão preocupado com o risco como eu e o Sebastian. Duzentos milhões é muito dinheiro. Se te enganares, podemos perder tudo.
Quando o seu pai se retirou, Sebastian e Max tinham decidido mudar a estratégia empresarial dos Investimentos Case e torná-la numa empresa ultraconservadora. Nathan seria o primeiro a admitir que a temeridade do seu pai e a sua obsessão por conseguir enormes lucros o tinham levado a fazer negócios menos que claros, mas os seus irmãos tinham exagerado.
E por isso, a sua ideia de unir-se à companhia petrolífera Montgomery para criar uma nova empresa em vez de continuar a comprar pequenas companhias tinha sido recebida com ceticismo.
– Não estou enganado, Max.
Tinha sido um tolo ao deixar que o seu pai o convencesse a trabalhar com os seus meios-irmãos. Brandon Case parecia pensar que Sebastian e Max precisavam dele, mas não era certo. Só precisavam um do outro e das suas estratégias seguras.
– Tu gostas de riscos – disse Max então. – Nós não.
– Gosto dos riscos depois de uma calculada análise.
O seu irmão suspirou.
– Isso era o que fazias nas mesas de póquer? Calculadas análises?
Nathan odiava que alguém reduzisse o seu êxito a um cúmulo de circunstâncias fortuitas, mas não pensava gabar-se de nada. Ia demonstrar aos seus meios-irmãos quão enganados estavam por o subestimarem.
– Não vais conseguir esse acordo com Silas Montgomery – disse Max. – E isso leva-me à razão pela qual te telefonei: Lucas Smythe está disposto a reunir-se connosco.
Essa notícia enfureceu Nathan. Sebastian e Max estavam há uns anos a desejar uma fusão com a empresa Smythe. Comprar esse negócio familiar diversificaria a carteira de investimentos de Case e era o passo perfeito para os seus meios-irmãos, que odiavam o perigo.
– Porquê agora precisamente? Há um ano recusou a nossa proposta.
– Não mo disse e não importa. Tanto eu como o Sebastian gostamos da empresa de Lucas e não há um grande risco.
Nem uma grande recompensa.
– Só preciso de seis semanas para assinar o acordo com Silas – disse Nathan. – Se me derem esse tempo, posso fazê-lo.
– Isto não tem nada a ver contigo, Nat, estamos a falar do que é melhor para a empresa. Deixa de te portares como um lobo solitário e demonstra-nos que podes pôr o interesse da empresa por cima do teu ego.
– Isso é o que estou a fazer.
A injustiça dessa crítica incomodava-o sobremaneira porque ele sempre tinha sido o estranho, o que ficava de fora. E a longa aventura da sua mãe com Brandon Case tinha-lhe roubado uma vida familiar normal.
Depois da morte da sua mãe, quando ele tinha doze anos, tinha ido viver com a família do seu pai, mas nem a mulher de Brandon nem os seus meios-irmãos se tinham mostrado felizes por partilharem casa com a prova viva da infidelidade do seu pai.
Sebastian e Max tinham apenas treze meses de diferença e eram como unha e carne, de modo que o tinham deixado totalmente de fora.
– Não é fácil portar-se como parte de uma equipa quando sempre me trataram como se fosse a concorrência.
Um longo silêncio seguiu-se a essa frase e quando Max falou de novo parecia mais frio do que nunca:
– Vemo-nos no escritório.
– Sim, claro.
– Vou ligar ao Sebastian para que vá ao escritório esta tarde, assim poderás contar-nos como foi a tua reunião com Silas Montgomery.
Sem esperar resposta, Max cortou a comunicação e Nathan murmurou um rol de asneiras enquanto inseria um CD no leitor. Os últimos seis meses tinham sido um inferno, mas seguramente não teria aguentado tanto se não gostasse dos desafios.
Então, de repente, na sua mente apareceu a imagem de Emma com a tanga preta na noite da festa de Grant. A pele dela era como seda ardente sob os seus dedos enquanto lha tirava. Era exatamente o tipo de mulher de que ele gostava: sofisticada, sexy, apaixonada…
A primeira vez que a viu tinha dezasseis anos e a diferença de quatro anos entre eles deveria ter feito com que não olhasse para ela, mas Emma tinha-o perseguido.
Uma criatura atraente, muito atrevida, que pintava os lábios de vermelho para chamar a sua atenção, pestanejava o tempo todo e aproveitava todas as ocasiões para usar biquíni.
Divertido com as suas brincadeiras, Nathan tinha deixado que praticasse a sua recém-descoberta feminilidade com ele… mantendo as distâncias, obviamente.
Mas Emma ganhara coragem.
Uma tarde, com uma saia curtíssima e uns sapatos de salto alto, tinha passado ao seu lado na cozinha, tentando excitá-lo com as suas exibições.
Se soubesse qual era a sua intenção, teria saído a correr, mas jamais lhe ocorreu que o pudesse empurrar contra a parede para apertar a sua boca contra a dele. Nathan olhou para aquelas longas pestanas pintando meias luas de ébano sobre as suas faces e sentiu a tentação de dar-lhe uma lição sobre os perigos de seduzir homens mais velhos do que ela. Mas era a irmã de Cody, de modo que a tinha recusado sem nenhuma elegância, dizendo-lhe que fosse lavar a cara antes de ele dar a volta.
Doze anos depois, Emma já não era a fruta proibida.
Três semanas antes tinha-a provado pela primeira vez e agora estava faminto dela.
Deixando escapar um impaciente suspiro, Nathan afastou da sua mente tão provocantes imagens e concentrou-se no problema que devia solucionar: convencer Emma para que se casasse com ele.
Porque não poderia assinar o acordo com Silas Montgomery e assumir o controlo de Investimentos Case a menos que o fizesse.
Capítulo Três
Emma estava sentada no meio do seu closet, rodeada de cabides e sacos do lixo cheios de roupa de marca, a lutar contra uma avassaladora sensação de angústia. Tinha de conseguir trinta e cinco mil dólares em cinco semanas e não sabia como fazê-lo.
Então tocou o seu telemóvel.
– Estou a ligar para te convidar para jantar – disse Addison. – O Paul vai levar os miúdos ao basebol esta noite, portanto tenho umas horas livres.
Emma imaginou a sua melhor amiga sentada no seu elegante escritório, a rever os detalhes do evento que estivera a organizar. Durante os últimos cinco anos, Addison tinha criado uma empresa de organização de eventos na qual trabalhava muitas horas, marcando objetivos e conseguindo-os todos. Com uma ética profissional admirável e grande determinação, era a inspiração de Emma e, ao mesmo tempo, fazia-a sentir-se culpada por não trabalhar mais.
– Não sei se posso – disse-lhe, quando o que na verdade queria dizer era que não tinha dinheiro para pagar um jantar. Graças ao seu pai, tinha passado de gastar dinheiro às mãos cheias a contá-lo como uma tacanha. A mudança era enorme, mas devia reconhecer que tinha sido uma boa lição. – Estou a olhar para o meu armário para ver o que posso vender.
– Estás a chorar?
Emma passou uma mão pela cara.
– Não.
– A mim parece-me que sim. Porque não me deixas emprestar-te dinheiro, querida?
– O Paul e tu não podem emprestar-me dinheiro. E mesmo que pudessem não aceitaria, necessito de consegui-lo por mim mesma.
Nunca conseguiria que o seu pai deixasse de meter-se na sua vida se não o ganhasse sozinha.
– Não vais ganhar dinheiro suficiente em cinco semanas vendendo a tua roupa. Soubeste algo da exposição de arte e design de Baton Rouge?
Uns meses antes, Addison tinha-a convencido a solicitar um expositor no prestigioso congresso de arte de Baton Rouge, Florida. E sem saber como receberiam o seu trabalho, Emma estava nervosa porque no dia anterior tinha sido aceite.
– Sim, mas não tenho suficiente material. Está quase tudo na Biella’s.
De acordo com os seus cálculos, tinha pelo menos cinquenta mil dólares em joias sem vender e quase todas na montra da Biella’s, a mais prestigiada joalharia de Houston.
– Vai buscá-las. Eu acho que a exposição de Baton Rouge é o melhor que podes fazer.
– Mas poderei conseguir dinheiro suficiente? – Emma mandou uma mala ao chão e começou a pôr vestidos nos cabides. – O meu pai diz que não tenho garra para triunfar sozinha e talvez tenha razão.
– Não tem razão – disse Addison. – Eu sei que podes fazê-lo e, no fundo, tu também.
Teria? Emma não tinha tanta certeza. Ser independente e manter-se sem ajuda de ninguém não era fácil e a dimensão da tarefa que tinha pela frente assustava-a.
– Além do mais – continuou Addison, – não queres ver a cara do teu pai quando tiver de devolver-te o fideicomisso? Isso não teria preço.
O entusiasmo da sua amiga animou um pouco Emma.
– Que faria eu sem ti?
– Felizmente, nunca terás que averiguar. Vá, veste um Prada e vamos jantar.
Uma hora depois, Emma entrava na joalharia Biella’s e, brincando com os seus brincos de ouro, olhava à sua volta. A exclusiva joalharia no centro de Houston tinha sido dividida em duas zonas: diamantes e pedras preciosas ocupavam uma ala do estabelecimento enquanto os colares, pulseiras e relógios de ouro ocupavam a outra. Os grandes espelhos com molduras de ouro refletiam a luz dos lustres e os pés de Emma afundavam-se nos tapetes fofos enquanto passeava de um lado para o outro.
Pouco tinha mudado desde o tempo em tinha trabalhado ali como aprendiz há cinco anos atrás. O ambiente continuava a ser luxuoso, elegante e exclusivo. A joalharia devia o seu êxito tanto à mercadoria que vendia como à experiência extraordinária que era comprar ali.
Uma sorridente empregada ruiva aproximou-se nesse momento. Devia ser nova porque não a conhecia.
– São lindos, não são? – disse a jovem, apontando uns colares. – São de uma artista local. Quer ver algo especial?
Pensando que já tinha visto cada peça de muito perto, Emma sorriu, agradecendo o seu entusiasmo.
– Gostaria de falar com Thomas McMann.
McMann era o gerente de Biella’s e seu antigo chefe. Tinha sido ele a sugerir que colocasse as suas joias na loja apesar de ser um risco para a joalharia, considerando o preço que tinha atribuído a cada peça, a qualidade do design e, sobretudo, que ela ainda não tinha um nome conhecido,.
– Vou buscá-lo.
– Obrigada.
Enquanto a jovem desaparecia por uma porta, Emma contou as peças que faltavam na montra para ver quantas se tinham vendido. E ao ver que faltavam três anéis deixou escapar um suspiro de alívio. Isso significava outros três mil dólares no banco.
Mas tinha de conseguir trinta e cinco mil. Era muito dinheiro para conseguir em cinco semanas e mentiria se dissesse que não a assustava a situação, mas se fracassasse, não poderia demonstrar ao seu pai e a Nathan que era uma mulher independente, capaz de ganhar a vida por sua conta e, obviamente, capaz de decidir com quem se queria casar.
Uma pena que não soubesse nada dos planos do seu pai cinco meses antes porque talvez então não estivesse naquela situação. Quando Silas Montgomery decidiu impedi-la de tocar no seu fideicomisso, Emma demorou dois meses a gastar uma quarta parte do dinheiro e outros trinta dias antes de entender a realidade da sua situação.
Ela desfrutava a desenhar e a criar joias, mas nunca lhe teria passado pela cabeça que pudesse ser uma carreira a sério. Tinha sido Addison a sugerir que poderia ganhar dinheiro suficiente se criasse peças únicas e espetaculares.
Infelizmente, tinha tido de gastar grande parte do dinheiro a comprar o equipamento e os materiais necessários e tinham passado outros trinta dias antes de poder produzir suficientes peças para mostrá-las ao gerente de Biella’s. Mas no final o seu trabalho tinha dado resultado e quando vendeu a primeira peça sentiu-se emocionada.
– Olá, Emma – cumprimentou-a Thomas, com a sua peculiar voz anasalada. Alto e magro como uma personagem de desenhos animados, Thomas McMann tinha umas pestanas tão compridas como uma modelo. – Viste que vendemos mais três peças? – perguntou-lhe logo, oferecendo-lhe um envelope.
– Sim, vi – Emma sorriu, contendo o desejo de rasgar o envelope para olhar para o cheque.
– Espero que tenhas trazido mais peças.
– Na realidade, eu esperava levar as que vocês têm aqui. Convidaram-me para participar numa exposição na Florida e vocês têm todo o meu catálogo.
– Isso vai ser um problema – disse Thomas. – As tuas joias estão a começar a vender-se e, de acordo com o contrato, ainda temos dois meses.
Com isso queria dizer que não estava disposto a perder quarenta por cento da sua comissão, pensou Emma, mordendo os lábios.
– Devolvo-te tudo o que não se vender na exposição e desenharei novas peças – sugeriu.
Recuperar os colares, pulseiras e anéis de diamantes e outras pedras preciosas era crucial para o seu plano.
– Podes levar tudo o que não se tiver vendido dentro de dois meses – insistiu Thomas. Era a sua determinação que o mantinha ainda como gerente da joalharia mais exclusiva de Houston e também a razão pela qual ela se tinha ido embora dali.
Com o coração encolhido, Emma deixou escapar um suspiro. Ia ter que engendrar um plano B se queria escapar da armadilha que o seu pai lhe tinha preparado.
Quando saiu de Biella’s, decidiu passar pelo escritório da Investimentos Case para recuperar os seus brincos. Se queria conseguir o dinheiro de que necessitava, teria de desfazer-se de algumas das suas peças favoritas e esses brincos faziam parte dessa coleção.
Enquanto subia no elevador, passou uma mão pelo seu simples vestido bege. Estava mais do que nervosa, teve de reconhecer. O estado da sua economia preocupava-a tanto que não tinha voltado a pensar no facto de o ter deixado pendurado no dia de Ano Novo. Mas o que podia fazer quando tinha estado a ponto de render-se outra vez na passagem de ano?
Pensar nele, lembrar-se das coisas que lhe tinha dito… Nathan sabia como fazê-la perder a cabeça e não estava disposta a repetir a cena.
Emma entrou nos escritórios da Investimentos Case muito decidida, mas os quadros que estavam pendurados no vestíbulo distraíram-na da sua missão. Aproximou-se a um deles, surpreendida por reconhecer a obra de Julian Onderdonk, um dos pintores texanos mais reconhecidos do século xx.
Sempre tinha sido um dos seus favoritos porque sabia capturar a subtil beleza do sul do Texas. Ela mesma tinha incentivado o seu pai a comprar três dos seus quadros, que Silas tinha pendurado no escritório. Costumava dizer que, apesar de ao princípio não ter gostado demasiado, tinha aprendido a reconhecer a sua beleza com o tempo.
– Em que posso ajudá-la? – perguntou-lhe a rececionista.
– Um momento, por favor – murmurou Emma, olhando para o seguinte quadro.
Era um Adrian Brewer pintado a finais do século xx, um campo de campainhas azuis que parecia perder-se no interminável horizonte do Texas. Alguém naquele escritório tinha bom olho para a arte, pensou. Quem seria?
– Tem hora marcada? – insistiu a jovem da receção.
– Creio que veio para me ver – respondeu uma voz masculina.
Nathan acabava de aparecer no vestíbulo e Emma sentiu arrepios nas costas.
Que fácil seria apoiar-se nele, e deixar que os seus beijos a fizessem esquecer tudo o resto.
Mas não o ia fazer.
– Sempre pensei que Julian Onderdonk era o mestre das campainhas azuis – disse por fim, surpreendida ao notar que sua voz soava firme. – Mas depois de ver a interpretação de Brewer, talvez tenha mudado de opinião.
– Eu não sei nada sobre isso – disse ele com um tom impaciente. – Comprámo-los porque nos pareceram um bom investimento.
Emma olhou para o seu perfil. Apesar da sua expressão séria detetava um esboço de sorriso… que desapareceu quando voltou a olhar para ela.
Agarrando-a pelo braço, Nathan levou-a pelo corredor, passando por diante da receção. Emma não podia concentrar-se em mais nada além do calor da sua mão. Evidentemente, ir ali tinha sido um erro.
Por fim, chegaram a um enorme escritório e Nathan soltou-a para sentar-se em frente à secretária. Havia mais quadros nas paredes de artistas que ela não conhecia e mais meia dúzia apoiados numa mesa, como se não tivesse havido tempo para os pendurar. Sentia curiosidade, mas mais ainda pelo dono desses quadros.
Nathan estava em frente à janela, com as mãos nas costas, admirando a panorâmica da cidade de Houston. Os seus ombros largos eram impressionantes sob um fato cinzento-escuro quase a combinar com os seus olhos e a luz do sol fazia reflexos claros no seu cabelo castanho.
– A que devo o prazer da tua visita?
– Vim buscar os meus brincos.
– Estão na minha casa, não aqui. Mas podemos ir buscá-los.
Estar sozinha com ele na sua casa só levaria a uma coisa.
– Não faz falta – disse Emma. – Porque não mos trazes amanhã? Posso vir buscá-los.
– Que tal se jantarmos juntos esta noite?
Jantar com ele era, evidentemente, um prelúdio à sedução.
– Que tal se tomamos o pequeno-almoço amanhã?
Pela primeira vez desde que entrou no escritório, Nathan virou-se para olhar para ela.
– Mas se começamos por jantar juntos esta noite, tomar o pequeno-almoço juntos amanhã seria inevitável.
– Já tenho planos para jantar – disse Emma, tentando não se deixar fascinar pelo seu atraente rosto. – Que tal se nos vemos amanhã às dez, depois da minha aula de ioga? No café Carlhey’s.
– Da última vez que combinámos tomar o pequeno-almoço deixaste-me pendurado.
Emma duvidava que alguma vez o tivessem deixado pendurado. Cody tinha-lhe contado suficientes histórias sobre o seu amigo, o Don Juan, para saber que saía com muitas mulheres e que ele decidia quanto durava a relação, não ao contrário.
Sabia isso três semanas atrás, quando se foi embora da festa de passagem de ano, e não pensava esperar que Nathan se cansasse dela como se cansava das outras.
– Lamento. Tive de voltar para Houston com urgência.
– E porque é que não me ligaste para avisar?
– Porque sei que tu não aceitas um não como resposta – respondeu ela.
– Mas isso não parece evitar que tu me digas que não.
Emma teve de apertar os lábios para não lhe dizer a verdade, que depois de fazerem amor no seu apartamento se tinha sentido consumida pelo irracional desejo de ver onde a levava uma relação com ele. Estava quase a retribuir as chamadas quando a intromissão do seu pai a tinha salvado de cometer um erro.
– Até há três semanas não me tinhas dado a oportunidade de o fazer – disse. E lamentou logo tê-lo feito.
– Não sabia que estivesses interessada – murmurou Nathan, dando um passo na sua direção.
– Não estou – replicou Emma, dando um passo atrás.
– Não?
O seu pulso acelerou-se quando chocou contra a parede e afastou o cabelo da cara num gesto de frustração.
– Olha, o que se passou na noite da festa do Grant foi muito agradável…
– Agradável?
– Fechei desse modo um capítulo da minha vida.
Nathan pôs uma mão na parede, sobre a sua cabeça.
– Que capítulo?
– Queria saber… como seria estar contigo – confessou Emma. – Agora já sei…
– Vamos ver se eu entendo: sentias curiosidade por saber como seria o sexo comigo e agora que já sabes já não te interessa? – interrompeu-a Nathan.
– Não, bem…
– O problema é que eu continuo interessado.
O brilho dos seus olhos era tão tentador que Emma, sem pensar, alçou uma mão para pô-la sobre o casaco…
Mas nesse momento uma morena entrou no escritório.
– Espero que estejas livre para almoçar, Nathan.
Emma afastou a mão e ele deu um passo atrás, esticando a gravata.
– O que fazes aqui, Gabrielle?
– Passei a manhã toda a sonhar com o creme de caranguejo do Rolando’s – a morena colocou a sua mala sobre a secretária e tirou um espelho, como se estivessem sozinhos no escritório.
Emma engoliu em seco. Tinha sido uma tola ao pensar, nem que fosse só durante um segundo, que ela era a única mulher em quem Nathan estava interessado.
Ele olhou para Gabrielle e depois para ela, como se as estivesse a comparar. A quem escolheria? A rapariga tensa e pálida com um simples vestido bege ou a elegante morena com saia travada, top de gola halter e sandálias de Manolo Blahnik?
– Estás-me a ouvir, Nathan? – Gabrielle virou-se e só então viu Emma. – Ah, desculpa. Tu és a nova ajudante? Ainda bem que finalmente deste ouvidos ao Sebastian. Diz-lhe que reserve mesa no Rolando’s.
– Gabrielle, apresento-te Emma Montgomery. E não é a minha nova ajudante, é a filha de Silas Montgomery, da companhia petrolífera Montgomery.
– Ah, sim? – a morena cravou nela os seus olhos azuis. – O meu pai é o presidente da empresa Parker.
O que era aquilo, uma batalha entre herdeiras? Além do mais, Nathan tinha-a apresentado como se fosse a filha de um sócio em vez de… quê? A sua amante, a sua namorada? O que era ela?
Emma fez um esforço para sorrir.
– Muito prazer em conhecer-te, Gabrielle – disse, olhando para Nathan enquanto abria a porta do escritório. – No café Carlhey’s às dez. Leva os meus brincos, por favor.
Com a sensação de que algo acabava de correr muito mal, Nathan foi ao corredor, ao ver Emma praticamente a correr para o elevador, teve de conter o desejo de ir atrás dela. Irritado, voltou a entrar no seu escritório para encontrar Gabrielle sentada, mostrando as suas fabulosas pernas.
– Vamos comer ou não? Estou morta de fome.
– Vai ver se o Max está livre.
– Não quero almoçar com o Max, quero almoçar contigo.
E isso significava que tinham discutido outra vez. Gabrielle e Max tinham uma relação que Nathan não entendia. Havia muitas mulheres em Houston, porque é que o seu meio-irmão aguentava as contínuas exigências e o mau génio de Gabrielle?
Só queria almoçar com ele porque achava que isso ia incomodar o Max, mas não era verdade.
– Não tenho tempo, lamento.
Chateado, Nathan sentou-se à secretária e levantou o telefone para dissimular.
– Max, a Gabrielle quer almoçar contigo.
Ela levantou-se de um salto.
– Disse que não…
– Ótimo – Nathan desligou o telefone. – Vem cá.
Esperava que fosse a última vez que Gabrielle o incomodava no escritório porque não estava nada interessado.
Na manhã seguinte, no escritório de Sebastian houve uma discussão muito acesa.
– Vi os números de Smythe e a mim parece-me um acordo muito sólido – estava a dizer o seu meio-irmão. – E isso significa que podemos esquecer a companhia petrolífera Montgomery.
Nathan bateu no caderno com a sua caneta de ouro, tentando acalmar-se.
– Telefonei a um colega de Chicago que se dedica a investimentos bancários e ele tem informação confidencial sobre Smythe… não vai vender.
– E supõe-se que devemos acreditar no teu colega? – replicou Max.
Nathan encolheu os ombros.
– A questão é que, se Smythe vendesse, não teríamos a mesma margem de lucro do que com a petrolífera Montgomery. E se vocês deixassem de agir como duas velhas, talvez entendessem o valor do risco.
– Não nos dês lições – replicou Max. – Não passas de um recém-chegado que não estaria aqui se não fosse porque…
Sebastian interrompeu-o com um gesto. Max sempre tinha sido muito direto. Ele, por outro lado, era mais calado e mais ofensivo.
– Tenho a certeza que o Nathan entende qual é a sua posição na empresa.
Sim, ele entendia muito bem a sua posição: era o estranho. Era indiferente que tivessem o mesmo apelido. A sua mãe tinha sido a amante de Brandon Case e tanto Sebastian como Max odiavam ter de partilhar o seu pai com ele. Além da empresa familiar, claro.
– Não deixem de lado o possível acordo com Montgomery – insistiu Nathan. – Disse-vos que tenho de solucionar umas quantas coisas antes de o assinar, deem-me mais umas semanas.
– Esquece – disse Max. – Tentaste e não saiu bem. Fim do assunto.
– Não sejas idiota. Tu viste os números e sabes quanto poderíamos ganhar – Nathan inclinou-se para a frente. – Sei que estás chateado porque o nosso pai não te consultou sobre a minha vinda para a empresa, tal como sei que queres que me vá embora. Mas isso não vai acontecer, portanto podes deixar de fazer esses joguinhos.
– Que joguinhos? – exclamou Sebastian.
– Desde que éramos crianças que vocês decidiram unir-se contra mim. E eu entendo, eu era o filho ilegítimo, a prova de que nosso pai tinha enganado a vossa mãe. Mas a minha mãe já morreu há vinte anos. Não acham que já vai sendo hora de esquecer tudo?
Os dois irmãos olharam-se, surpreendidos pela sua veemência. Nathan odiava que o deixassem de fora continuamente e isso renovava a sua determinação de ficar com o controlo da empresa.
– O que sabemos dessa tecnologia em que queres investir? – murmurou Max. – Nós não sabemos nada sobre tecnologia de ponta.
– Eu sim.
– Desculpa, mas não acredito em ti.
Sebastian silenciou o seu irmão mais novo com um gesto.
– Até falarmos com Smythe, tínhamos decidido dar-lhe a oportunidade de negociar com Montgomery sobre essa possível joint venture. O Silas ainda não tomou uma decisão e acho que deveríamos dar-lhe até meados de fevereiro.
– E eu acho que é melhor deixar esse tipo de investimentos para os peritos – replicou Max, sarcástico.
Nathan conteve o desejo de replicar como gostaria. Ele não tinha um mestrado em Gestão de Empresas nem as credenciais que tinham os seus meios-irmãos, mas ganhara muito dinheiro graças à sua habilidade para investigar companhias novas e descobrir o seu potencial.
– Porque é que não falam entre vocês? – sugeriu, levantando-se. – Eu tenho um encontro agora mesmo. Mais tarde contam-me o que decidiram.
Nathan agarrou no seu casaco e saiu do escritório. O café Carlhey’s ficava a três quarteirões dali e deixou que o frio acalmasse a sua fúria. Pela primeira vez em meses, talvez em anos, tinha um projeto no qual podia ferrar o dente e não o abandonaria por causa da timidez dos seus meios-irmãos, nem pela falta de imaginação.
Não estava de bom humor quando entrou no café, mas o seu pulso acelerou-se ao pensar que ia ver Emma. Um tempo depois, quando a empregada lhe perguntou se queria outro café, Nathan olhou para o relógio. Onde se teria metido? Eram dez e meia.
Chateado, tirou uma nota e deixou-a sobre a mesa, pôs o casaco e saiu.
Cody tinha-lhe dado a sua morada umas semanas antes porque, depois da festa de Clark, tinha pensado enviar-lhe flores, balões, algo tolo e romântico. E esse impulso perturbava-o porque ele não era dado a gestos românticos. Afinal não tinha feito nada e, depois ao ver que Emma não lhe devolvia as chamadas, alegrava-se por não o ter feito.
Nathan dirigiu-se ao seu loft e entrou sem ter que tocar à campainha graças a uma mulher que saía nesse momento, imaginando a surpresa de Emma quando o visse.
Quando chegou ao quarto andar, tocou à campainha mas não obteve resposta. Quase sem se aperceber, empurrou a porta e ficou surpreendido ao ver que cedia.
– Emma?
Ela não respondeu mas pareceu-lhe ouvir algo na casa de banho.
Nathan atravessou o salão, observando distraidamente a abundância de projetos de remodelação que parecia ter deixado a meias. E o que encontrou ao final do corredor deixou-o gelado.
Alguém tinha destruído a casa de banho com um martelo pneumático, destruindo as paredes e parte do teto, deixando à vista os cabos e a canalização. Não havia chuveiro nem banheira e só estavam de pé o lavatório e a sanita. E aí era onde estava Emma, inclinada sobre a sanita, a vomitar.
– Estás doente?
– Nathan! – exclamou ela, levantando a cabeça. – O que estás aqui a fazer?
– Tinha vindo para perguntar porque é que me tinhas voltado a deixar pendurado, mas agora entendo.
– Pronto, agora que já me viste, podes ir embora.
– E deixar-te assim? Nem pensar – Nathan olhou à sua volta, à procura de uma toalha. – Volto já.
Foi até ao corredor e entrou numa cozinha diminuta. Os velhos armários e os eletrodomésticos antiquados deixavam claro que o seu projeto de obra não tinha chegado muito longe. Por fim encontrou um pano de cozinha e, depois de o pôr sob a torneira, voltou à casa de banho, onde Emma estava na mesma posição.
– Toma, põe isto na testa – disse. – O que é que estiveste a celebrar?
– Nada, isto não é uma ressaca. É uma gastroenterite ou algo parecido.
Nathan sentou-se ao seu lado, sem se preocupar em sujar o fato. Incomodava-o vê-la a viver nessas condições… era lógico que o seu pai quisesse casá-la porque, evidentemente, necessitava que alguém cuidasse dela.
Mas então lembrou-se de algo… algo que o deixou preocupado.
– Vai-te embora, Nathan. Não tenho vontade de falar com ninguém neste momento – insistiu Emma.
– De certeza que é uma gastroenterite?
– Que outra coisa poderia ser? – perguntou ela, franzindo a sobrancelha.
– Bom, passou quase um mês desde que estivemos juntos… – Nathan não disse mais nada, olhando para ela nos olhos.
– E? – perguntou ela, afastando o cabelo da cara.
– Estás grávida?
Capítulo Quatro
Grávida? Que loucura era essa? Tinha um vírus, mais nada.
– Usámos preservativo – lembrou-lhe Emma.
– Não são efetivos a cem por cento – replicou Nathan.
Ah, e isso seria ótimo para ele, claro. Assim teria mais razões para fazer com que se casasse com ele.
– Vai-te embora, por favor.
– Não penso deixar-te assim – disse ele. – Vou buscar um copo de água.
– Não, por favor – Emma reconhecia que o seu corpo precisava de líquidos, mas não queria que Nathan estivesse ali quando se encontrava tão debilitada. Seria demasiado fácil apoiar-se nele, deixar que se encarregasse de tudo… e antes de se aperceber, teria aceitado casar-se com ele. – Deixa-me sozinha, por favor.
– Vais desidratar se não beberes água.
Emma apoiou a cara nos joelhos.
– Não acredito que possa reter alguma coisa no estômago.
Suspeitava que Nathan não se iria embora até lhe demonstrar que estava bem de modo que, fazendo um esforço, levantou-se. Antes de dar um passo, Nathan inclinou-se para a agarrar e teve de apoiar-se nos seus ombros para não perder o equilíbrio.
A curta viagem até ao quarto lembrou-lhe da quantidade de vezes que tinha desejado ter dormido na sua casa. Tê-la-ia levado assim para a cama?
Nathan deixou-a no chão, mas agarrou-a pela cintura enquanto afastava o lençol.
– Estou há um mês a tentar meter-te na cama – disse-lhe, o sério empresário a transformar-se num sedutor. – Mas não era isto que tinha em mente.
Emma dissimulou um sorriso.
Nathan Case era lindíssimo, sexy e demasiado atrevido.
– Não estou em condições de fazer jogos de sedução contigo, aviso.
Nathan deixou de sorrir.
– Precisas de alguma coisa?
Emma olhou para ele e o seu estômago deu-lhe um sinal que não tinha nada a ver com o vírus estomacal.
– Não, isto já passa.
Tinha de lhe agradecer por cuidar dela, mas tinha entrado na sua casa sem avisar e tinha-a encontrado numa situação humilhante. Não, não lhe apetecia sentir-se agradecida.
– Vou dormir um bocado.
Emma fechou os olhos e esperou que entendesse a indireta. Ouviu-o sair do quarto, mas depois voltou para deixar algo sobre a mesa de cabeceira e quando olhou viu que era um copo de água.
Depois, por fim, ouviu-o fechar a porta. E apesar de todos os seus músculos protestarem, saltou da cama e atravessou a sala para trancar a porta.
Tremiam-lhe as pernas do esforço enquanto voltava para o quarto e teve de agarrar-se à porta antes de se meter na cama, tapando a cabeça com a colcha até que, por fim, o sono venceu-a.
Quando acordou à tarde, o vírus parecia ter desaparecido. Sentia-se fraca, mas levantou-se da cama e, apesar de se sentir um pouco zonza, o seu estômago não protestou. Aliviada, dirigiu-se à cozinha. Um chá e uma bolacha era o que mais lhe apetecia nesse momento. Mas quando entrou na cozinha, teve de pestanejar várias vezes.
Nathan.
Tinha trocado o fato por umas calças de ganga e uma t-shirt que realçava a largura dos seus ombros. Emma afastou o cabelo da cara, nervosa. Estava com umas calças de pijama e uma camisola velha, mas quando a olhou, no seu rosto não viu deceção, pelo contrário.
Os seus mamilos endureceram sob a camisola, mas quando cruzou os braços sobre o peito era demasiado tarde. O sorriso de Nathan deixava claro que tinha visto a involuntária reação do seu corpo.
Porque não desaprovava o seu aspeto por uma vez? Assim teria razões para se zangar com ele.
– Vejo que te levantaste – disse, mexendo algo numa caçarola. – Estás melhor?
– Não te tinhas ido embora?
– Saí para comprar comida. Pensei que terias fome quando acordasses.
– Mas eu fechei a porta…
– Eu levei as chaves.
– Mas… que lata!
Emma voltou ao seu quarto para se pentear um pouco e vestir um roupão. Depois de lavar os dentes voltou à cozinha e sentou-se num banco, olhando para ele com a sobrancelha franzida.
– Pareces que estás como em tua casa – recriminou-o. – Mas não me lembro de te ter convidado para jantar.
– Esta manhã não estavas em condições de me convidares para o que quer que fosse – o sorriso de Nathan aumentava a temperatura da divisão. – Mas eu tenho um dom para antecipar os desejos das mulheres – acrescentou, oferecendo-lhe uma chávena. – É de cidreira, bom para o estômago.
Perguntando-se como sabia isso, Emma tomou um gole.
– De certeza que estás a antecipar os meus desejos? Não serão os teus?
– Asseguro-te que só estou a pensar em ti.
Emma franziu o sobrolho, cética.
– Que estás a fazer?
– Canja com arroz, uma receita da minha mãe.
– Queres dizer que cortaste a galinha, fizeste a sopa…?
– É a única maneira. Queres provar?
– Claro que sim.
Enquanto Nathan servia a canja nas tigelas e tirava duas fatias de pão torrado de um saco, o estômago de Emma rugiu, impaciente. Quando provou a canja ficou surpreendida ao notar o sabor a coentros e a cebola…
– Está muito saborosa.
– Não tens enjoos?
– Não, já não. Ainda bem.
Nathan terminou a sua sopa e deixou a tigela no lava-loiça.
– Vais-me dizer o que é que aconteceu na tua casa de banho?
– Tinha uma infiltração na banheira.
– Para arranjar uma infiltração não é necessário destruir a casa de banho toda, Emma.
– O canalizador encontrou mofo e pedi-lhe que arrancasse tudo para ver como estava o interior das paredes.
– E há quanto tempo está assim?
– Há umas semanas.
– E não pensas arranjá-lo?
Emma franziu o sobrolho.
– Estamos no Natal e toda a gente está muito ocupada até finais de janeiro.
– O mofo é perigoso. Não podes ficar aqui.
– Estou aqui há um ano e não me aconteceu nada. Acho que posso sobreviver outro mês.
Além do mais, não tinha outro sítio para onde ir.
– Porque é que não foste para um hotel?
– Não tenho dinheiro para um hotel.
– Não tens dinheiro? – repetiu Nathan, incrédulo.
Emma deixou escapar um longo suspiro. Era hora de explicar-lhe o que se estava a passar.
– Há dez meses que não posso mexer no meu fideicomisso. O meu pai deu-me cem mil dólares para o ano inteiro.
– Porquê cem mil dólares?
– Foi o que eu gastei em sapatos no ano passado.
– Cem mil dólares em sapatos?
Ela fez uma careta.
– A questão é que temos um acordo: se voltar a depositar na minha conta os cem mil dólares no dia de São Valentim, o meu pai não voltará a meter-se na minha vida e não terei de casar-me contigo.
– E quanto é que tens de depositar?
– Trinta e cinco mil dólares.
O sorriso de Nathan fez com que ficasse em fúria. Porque é que lhe tinha contado? Seguramente Cody teria contado histórias sobre o dinheiro que ela gastava, mas ela já não era a rapariga frívola que tinha sido meses antes. Tinha aprendido a poupar dinheiro e a fazer orçamentos. Passava muitas horas a desenhar e a fazer joias e tinha descoberto a melhor maneira de as vender.
– A propósito, preciso dos meus brincos.
– Pensas vendê-los?
– Sim. Abri um negócio de joalharia. Desenho peças caras e originais, únicas.
O seu pai não tomava a sério o seu trabalho e, pela expressão de Nathan, ele também não. Mas quanto mais trabalhava, mais desejava que Silas Montgomery reconhecesse o seu talento. Como podia dizer que a amava se nem sequer tentava entendê-la? Restituir os cem mil dólares era importante tanto para recuperar o seu fideicomisso como para demonstrar-lhes que era capaz de fazer algo bem.
– Vou conseguir esse dinheiro.
Nathan encolheu os ombros.
– Achas que o podes conseguir em cinco semanas?
Falava como o seu pai. Quando olhava para ela, só via o fracasso. Teria uma surpresa quando visse que era uma pessoa capaz de trabalhar para viver.
– Vou apresentar as minhas joias numa exposição e, com um pouco de sorte, vendo-as todas.
Naturalmente, não lhe contou que não tinha suficientes peças e que para comprar materiais teria de utilizar o dinheiro que tinha no banco. Para que é que lhe ia contar isso?
– Tenho a certeza que fazes joias muito bonitas – disse Nathan, com um tom condescendente que a fez apertar os punhos. – Mas não pensarás ganhar trinta e cinco mil dólares numa feira.
– Posso fazê-lo – afirmou Emma. – Vais ver.
– Muito bem, o que tu disseres. Mas podes mudar-te para minha casa enquanto te arranjam a casa de banho.
– Mudar-me para tua casa? Não, nada disso.
– Não vou deixar que fiques – disse ele, impaciente. – Vou procurar alguém que venha tirar o mofo e pôr um chuveiro. Não acredito que demore mais do que duas semanas. Entretanto, podes ficar na minha casa.
– Agradeço a tua ajuda, mas não penso alojar-me na tua casa.
– Porquê? Tens medo de gostar demasiado?
A pergunta despertou-lhe lembranças da passagem de ano, lembrando-lhe como era fácil sucumbir outra vez.
– Não tenho medo nenhum – disse, cruzando os braços.
Mas tinha pois.
Desejava que voltasse a beijá-la, que lhe roubasse a compostura, como fazia sempre. Como seria ficar a dormir entre os seus braços? Perguntou-se. E acordar de manhã apertada contra o seu corpo?
Só de pensar nisso ficava a tremer. Se caísse na armadilha, nunca seria capaz de escapar…
– Eu acho que sim – Nathan esboçou um sorriso irónico. – Que tentas demonstrar, Emma? Ambos sabemos que não és uma rapariga independente. Serás mais feliz quando fores casada e tiveres alguém a cuidar de ti. O teu pai também o sabe, por isso está tão decidido a que assentes a cabeça.
Emma voltou a apertar os punhos. Quando era pequena e brincava com as suas bonecas, imaginava que se apaixonavam e viviam felizes para sempre. Aos dezoito anos tinha toda a sua vida planeada: quando terminasse o curso ia casar-se com um homem que estaria louco por ela e teria o seu primeiro filho três anos depois. Entre sair com os amigos, organizar jantares e acudir a eventos benéficos, seria absolutamente feliz. Mas o seu ex-noivo, Jackson, tinha destruído esse inocente sonho.
Ter de mostrar-se precavida para não voltar a cometer esse erro enquanto, ao mesmo tempo, desejava lançar-se de cabeça era uma guerra esgotante. Quanto mais lutava, mais convencida estava de que devia ser sensata. Deixar-se levar pelas emoções era coisa do passado. Até que Nathan Case apareceu na sua vida.
– Pensei que entendias que não vou casar-me contigo por teres feito um acordo com o meu pai – disse-lhe, deixando a tigela no lava-loiça. – Casar-me-ei algum dia, imagino, mas quando quiser e com quem quiser.
Nathan deu um passo em frente para lhe agarrar a cara com as mãos e, ao tocar-lhe, Emma sentiu que se derretia.
– Casa comigo – disse. – Não o lamentarás.
Emma agarrou-se à camisola dele, sem saber se devia agarrar-se a ele ou empurrá-lo.
– Nathan… – não sabia se queria que continuasse ou que parasse.
E ele, aproveitando esse momento de indecisão, inclinou a cabeça para roçar os seus lábios. Emma perdeu-se na carícia, deixando escapar um suspiro.
Apertava-a com tal força contra o seu peito que os seus corações praticamente batiam em uníssono e Emma enterrou os dedos no seu cabelo enquanto ele deslizava as mãos pelas suas costas, fazendo com que estremecesse dos pés à cabeça.
Mais ninguém conseguia fazê-la sentir-se assim.
Era como se a terra se afastasse. Proteger-se a si mesma no porto seria o mais sensato, mas era demasiado tarde porque estava perdida num mar de paixão. Esperava que Nathan a guiasse de volta a casa.
Esquecendo-se das promessas que tinha feito a si mesma, abraçou-o e rendeu-se à força da paixão.
Apertando-se contra ela, Nathan fê-la ver quão excitado estava, despertando uma ânsia que só podia ser saciada por ele.
– Emma… – sussurrou Nathan. – Olha para mim.
Perder-se nas sensações era mais fácil com os olhos fechados, assim podia acreditar que a acariciava com emoção além de desejo.
– Não acho que seja uma boa ideia.
– Não podes fugir disto.
Não, mas podia esconder-se.
Emma suspirou enquanto abria os olhos, por fim. A expressão que viu nos olhos de Nathan deixava claro que a queria devorar.
– Não vou a lado nenhum.
Não o podia fazer. O seu desejo por ele fazia-a sentir-se como se estivesse numa jaula.
– Ainda bem.
Quando se inclinou para beijar o seu peito, Emma inclinou a cabeça para trás, tão excitada com a carícia como por ver o que lhe estava a fazer.
Nathan meteu a mão sob o elástico das calças do pijama e ela deixou escapar um gemido, movendo as ancas para que ele soubesse o que ela queria.
– Toca-me – suplicou. O orgulho e as dúvidas voavam pela janela de cada vez que aquele homem a tocava e tremeu quando os seus dedos deslizaram dentro dela.
– Sim, querida, assim – sussurrou Nathan, procurando a sua boca. – Deixa-te ir.
Emma movia-se contra a sua mão, procurando um prazer que estava ao seu alcance, todos os seus sentidos centrados no homem que lhe dava prazer. Chegava-lhe o aroma da sua colónia masculina e sabia a canja e a cidreira, pensou enquanto ele murmurava eróticas palavras ao seu ouvido.
Ah, o prazer, o indescritível prazer que ameaçava arrancar-lhe a cabeça quando estalasse. Emma estava ofegante, murmurando o seu nome enquanto chegava ao clímax, com Nathan a beijá-la ao mesmo tempo, levando o seu fôlego, capturando o seu prazer.
Quando a neblina desapareceu do seu cérebro, Emma levantou-lhe a camisola para tocar na sua pele e ele ajudou-a a tirá-la de uma só vez. Sem dizer nada, explorou a masculina textura do seu tronco, suspirando. Desejava sentir esse tronco sobre os seus peitos…
Nathan devia pensar o mesmo porque murmurou:
– Nua, preciso de ti toda nua.
– Sim, sim…
Algo brilhou nos olhos de Nathan naquele momento. Satisfação? Triunfo?
– Não podemos ir tão rápido – disse, com voz rouca. – Queres que o façamos aqui ou na cama?
– Na cama – sussurrou Emma. Mas quando tentou ir ao quarto descobriu que as suas pernas mal se aguentavam de pé.
Capítulo Cinco
Nathan sentiu uma onda de satisfação quando Emma deu um passo em frente para acariciar o seu tronco nu. Estar com aquela mulher era uma festa para os sentidos, pensou.
Ela deixou escapar um gemido quando a abraçou, cravando os dedos nos seus ombros. Apesar de tudo parecia insegura e, antes que ela pensasse duas vezes, Nathan dirigiu-se ao quarto.
Só tinha dado dois passos quando tocaram à campainha e, imediatamente, o brilho sensual nos olhos de Emma desapareceu.
– Não abras – disse Nathan.
– Tenho de o fazer.
Estava a um metro do quarto quando começaram a bater à porta.
– Emma, estás aí? – ouviram uma voz feminina. – Estás-me a ouvir?
– É a minha amiga Addison. Esta manhã não fui à aula de ioga e esqueci-me de a avisar – disse Emma. – Põe-me no chão, Nathan, tenho de abrir.
As suas palavras foram como um banho de água fria. Murmurando uma maldição, Nathan pô-la no chão e, frustrado, voltou para a cozinha para vestir a camisola.
– Estiveste o dia todo em casa? Estava preocupadíssima.
Uma mulher alta e magra entrou no loft, olhando para Emma com um ar preocupado. De rosto longo, nariz aristocrático e maçãs do rosto altas, era uma mulher elegante e bela, pensou Nathan.
– Suponho que estavas a trabalhar e desligaste o telemóvel.
– Lamento não te ter ligado, Addison. Passei o dia na cama.
– Estavas doente?
Addison olhou para Nathan, que esboçou um sorriso enquanto vestia a camisola.
– Creio que não nos conhecemos. Sou…
– Nathan Case – disse ela, oferecendo-lhe a sua mão. – Eu sou Addison Clements.
Ou era uma dessas pessoas que não acreditava nos apertos de mão firmes ou a surpresa de vê-lo ali tinha-a deixado sem força.
– O Nathan passou por aqui para ver como estava – apressou-se a dizer Emma. – Tínhamos combinado tomar o pequeno-almoço e tive de o deixar pendurado. Creio que foi alguma coisa que jantei ontem à noite… estive a vomitar.
– Bom, imagino que vocês têm muita coisa para falar – disse Nathan. – Vou-me embora. Foi um prazer conhecer-te, Addison.
Addison meteu-se na cozinha para deixar que se despedissem a sós e Emma acompanhou-o à porta, angustiada. Como era capaz de fazê-la perder a cabeça dessa forma?
Antes de poder evitar, Nathan agarrou-a pela cintura e procurou os seus lábios de novo. Emma manteve-se rígida durante dois segundos e depois, como parecia inevitável, deixou-se cair sobre o seu peito.
– Enviarei um pedreiro amanhã – disse ele depois.
Apesar de respirar agitadamente, a sua voz parecia absolutamente tranquila. Humilhada por ter voltado a cair nos seus braços, Emma empurrou-o.
– Já te disse que não penso ir-me embora.
– Tens mofo na casa de banho e podes ter muitas outras coisas. É perigoso ficares aqui.
– Sim, mas…
– Eu tenho uma casa perfeitamente acondicionada e podes ter o teu próprio quarto – Nathan sorriu, tão tranquilo. – A menos, claro, que queiras partilhar quarto comigo.
Emma apertou os dentes.
– Não penso ir para tua casa.
– Pode ficar na minha – interveio Addison da cozinha.
– Tu não tens espaço, querida.
– As crianças podem partilhar um quarto durante duas semanas, não lhes vai acontecer nada.
– Com o que discutem, é possível que acabem por se matar por minha culpa. Além do mais, tenho de preparar a exposição e não penso ir para sítio nenhum.
– Podes levar as tuas coisas para minha casa – insistiu Nathan. – É absurdo que fiques aqui nestas circunstâncias.
– Porque é que não esperamos para ver o que diz o canalizador sobre o mofo?
– E se recomendar que te mudes durante umas semanas? – perguntou Nathan.
– Então fá-lo-ei.
– Essa é a minha menina – disse ele, levantando-lhe o queixo com um dedo para olhá-la com os seus olhos cinzentos de lobo.
– Eu não sou a tua menina.
– És, pois – Nathan deu-lhe um beijo no nariz. – O que se passa é que não queres admiti-lo.
E depois de tão surpreendente despedida deu a volta, deixando-a furiosa. Mas enquanto se dirigia para o elevador, Emma não conseguiu deixar de admirar como a camisola desenhava o contorno das suas costas, como as calças se ajustavam às suas firmes nádegas…
A chegada de Addison tinha sido um golpe de sorte, pensou. Convencer Nathan de que não podia fazer com ela o que quisesse ia ser mais difícil do que pensava.
Antes de desaparecer, ele atreveu-se a olhar para ela com um irónico sorriso e, furiosa, Emma fechou a porta com força.
– Bom, evidentemente interrompi alguma coisa – disse Addison, tirando uma garrafa de água do frigorífico. – Lamento.
– Não interrompeste nada.
– Mas quando cheguei o Nathan estava a vestir-se – enfatizou a amiga. – E tu tinhas os olhos muito brilhantes.
– Isso não é verdade.
– Por favor… gostas desse homem desde que tinhas dezasseis anos. E pelo beijo que vocês deram há um minuto, parece que o sentimento é mútuo.
– Só está interessado em mim por causa dos negócios com o meu pai.
– Duvido que seja essa a única razão – Addison fez um gesto com a mão. – Sim, já sei que o teu pai é um maníaco controlador, blá, blá, blá… tu sempre disseste que querias casar-te, mas temes que todos os homens sejam como o Jackson e não dás a ti mesma a oportunidade de conhecer ninguém.
– Pensaste alguma vez que tenho boas razões para estar à defesa? Para tua informação, o meu pai pôs como condição para assinar o acordo que o Nathan se casasse comigo.
Addison fez uma careta.
– Pelo que eu sei de Nathan Case, não se parece nada com o Jackson. Não vai casar-se contigo só para conseguir algo.
– Essa é a única razão pela qual quer casar-se comigo.
– Então diz-lhe que não.
– Isso é o que estou a tentar fazer.
Addison teve de dissimular um sorriso.
– E, evidentemente, interrompi um momento muito acalorado entre os dois.
Emma apoiou a cabeça na parede, deixando escapar um gemido.
– É como se ardesse por combustão espontânea cada vez que me toca. Mas isso não é suficiente, Addison. Eu necessito de algo mais do que sexo.
Mesmo que fosse um sexo incrível, fabuloso, revelador.
– Tens a certeza? Parece que ultimamente não tens tido muito disso.
– Certeza absoluta.
– Eu vi como vocês se olhavam, querida – insistiu Addison. – Talvez o que haja entre vocês pudesse acabar bem. Merece a pena averiguar, não? Ultimamente não te arriscaste muito com os homens.
Poderia ter razão? Perguntou-se Emma. Ela sempre tinha querido casar-se e casar-se era um risco. Estaria a usar as intromissões do seu pai e a sua passada ingenuidade para proteger o seu coração? Seria ela a sua pior inimiga quando se tratava de encontrar o homem com quem passar o resto da sua vida?
Emma negou com a cabeça.
– O Nathan vê o casamento como uma questão de negócios. Eu quero casar-me com um homem que me ame, quero um final feliz, um conto de fadas. Que mal tem isso?
– As mulheres são sempre resgatadas nos contos de fadas – disse Addison. – A Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida… todas elas foram resgatadas.
– Que chatas – murmurou Emma.
Addison soltou uma gargalhada.
– Não queres demonstrar ao teu pai que sabes cuidar de ti mesma?
– Mais uma razão para não ter uma relação com o Nathan. Ele pensa como o meu pai, que necessito de alguém que cuide de mim. E não é verdade.
– Espero que tomes a decisão que tomes não acabes por te lamentar, querida.
E Emma estava completamente de acordo.
Como tinha dito, Nathan enviou um empreiteiro na manhã seguinte para ver a casa de banho.
– É lógico que tenha problemas – disse o homem, que falava rapidamente e parecia saber o que dizia. – É o pior trabalho de canalização que eu vi na vida.
Emma pôs as mãos na cintura.
– Mas pode arranjá-lo?
– Sim, claro, mas antes temos de nos livrar do mofo. É da variedade mais tóxica, pode provocar dores de cabeça, tonturas, dificuldade para concentrar-se. Para não falar de rinite e conjuntivite… até poderia danificar os pulmões. Recomendo-lhe que saia daqui uns dias, até termos o problema solucionado.
Emma franziu a sobrancelha. Dir-lhe-ia isso porque era verdade ou porque Nathan lho pedira?
– Durante quanto tempo?
– Espere, vou ligar para o canalizador.
Enquanto o homem tirava medidas e falava ao telefone, Emma foi ao segundo quarto, onde tinha guardado as suas coisas. Não podia perder mais tempo a discutir se devia ou não ficar no loft. Quando Addison se foi embora no dia anterior tinha revisto o seu inventário para fazer uma ideia daquilo que necessitava para a exposição de Florida… e tinha muito trabalho pela frente.
Tinha feito vários esboços durante os últimos meses mas procurou uma página em branco e começou a desenhar.
O empreiteiro espreitou para o quarto uns minutos depois.
– O canalizador vem amanhã de manhã. Expliquei-lhe a situação e ele disse-me que vai demorar uns dez dias. Tem algum sítio onde ficar até lá?
– Tenho mesmo de ir embora daqui?
– Eu acho que seria boa ideia.
Emma acompanhou o homem à porta antes de voltar ao quarto. Não queria fazer uma mudança e sobretudo não queria ir para a casa de Nathan, onde acabaria por sucumbir à tentação de deitar-se com ele.
De modo que decidiu continuar a trabalhar, à espera de capturar o espírito criativo. Mas não podia deixar de pensar nos beijos de Nathan. Sentia que o seu coração acelerava e que o sangue lhe descia às pernas…
Mas não tinha tempo para distrações. A três semanas da exposição, teria de concentrar cada segundo do dia no trabalho. E isso significava não pensar em certo empresário que enlouquecia todos os seus sentidos.
Sacudindo a cabeça, Emma disse ao seu traidor coração que se acalmasse enquanto continuava a desenhar. O telefone tocou várias vezes, mas deixou que fosse para o atendedor de chamadas enquanto revia os novos desenhos com um sorriso nos lábios.
Pouco depois o seu estômago começou a protestar, de modo que foi à cozinha para aquecer a canja que Nathan lhe tinha feito. Enquanto comia, olhou para os antiquados armários, para os eletrodomésticos… Toda a gente que tinha estado no loft os tinha criticado mas, apesar das críticas e dos comentários negativos, Emma adorava aquele sítio, imperfeições incluídas, pelas possibilidades que tinha.
Tinha-o comprado um ano antes porque adorava os altos tetos e o aspeto industrial das colunas de ferro e das paredes de tijolo, com um grande salão que era simultaneamente sala de estar e de jantar. Antes de se mudar tinha mandado polir o soalho de madeira e tinha mobilado a sala com um confortável sofá cinzento e dois cadeirões azuis, do tom das campainhas do Texas.
Enquanto lavava os pratos, o telefone voltou a tocar de novo. Imaginava que seria Nathan para insistir que ela fosse para sua casa, mas não tinha a menor intenção de o fazer.
Emma voltou ao quarto onde trabalhava e olhou para as suas ferramentas. Demoraria um dia inteiro a organizar uma mudança… não, não tinha tempo a perder.
Nathan ia ter de aceitar um não como resposta.
Sorrindo, voltou ao seu projeto, tentando afastar dos seus pensamentos o alto e bonito milionário.
– Como é que se nega a sair? – exclamou Nathan, com o telemóvel colado à orelha. O encarregado da mudança não tinha podido fazer nada e, dois dias antes, o empreiteiro que tinha enviado ao loft tinha-lhe dito que era perigoso que Emma continuasse ali…
Que mulher tão teimosa, pensou. Achou que voltaria a casa e a encontraria lá, mas Emma continuava a desafiá-lo.
Dez minutos depois chegava ao loft e quando Emma por fim se dignou a abrir a porta pareceu surpreendida por vê-lo.
– O que fazes aqui?
Apesar da fria receção, Nathan teve de controlar o desejo de a abraçar. Tinha apanhado o cabelo num rabo de cavalo e estava vestida com umas calças de ganga e uma t-shirt larga que lhe caía pelo ombro, deixando uma alça do sutiã branco à mostra.
Nathan apoiou-se na porta, pensando que preferia ouvir um «não» de Emma Montgomery do que um «sim» de qualquer outra mulher.
– Eu também fico muito contente por te ver – disse-lhe, irónico. – Muda de roupa, vou-te levar a jantar.
– Não tenho…
– Tempo, já sei. Mas tens de comer e duvido que haja alguma coisa comestível no teu frigorífico. Descansa um pouco e quando voltares terás mais vontade de trabalhar.
– E suportar durante o jantar as tuas tentativas para me convencer a ir para tua casa? Não, obrigada.
– Que tal se só falarmos de coisas que te interessem? – sugeriu ele.
– Não vais tentar convencer-me?
Nathan levantou uma mão, como se estivesse a jurar perante um tribunal.
– Não tentarei convencer-te.
– Bom, está bem – disse Emma, por fim. – Dá-me cinco minutos para mudar de roupa.
Enquanto ela ia ao quarto, Nathan ligou aos homens da mudança e deu-lhes instruções.
Na noite anterior tinha passado muitas horas a imaginar as mudanças que Emma Montgomery traria à sua vida. A sua decisão de casar-se com ela tinha sido uma necessidade, mas ultimamente pensava mais no prazer que isso lhe daria do que no negócio.
Para seu azar, a teimosia dela e aquela ridícula aposta com o seu pai, que não seria capaz de ganhar, estavam a ser uma barreira inquebrantável.
Não ia conseguir trinta e cinco mil dólares em cinco semanas, apesar de o tentar. E ele tinha a sua própria data limite para se preocupar; tinha convencido os seus irmãos para lhe darem até meados de fevereiro para assinar o acordo com a companhia petrolífera Montgomery e não poderia fazê-lo sem se casar com Emma. A melhor forma de consegui-lo era tentando que não pudesse reunir esse dinheiro… e a melhor maneira de o fazer era evitando que pudesse trabalhar.
Excitou-se de imediato ao pensar nas coisas que fariam quando se tivesse mudado para sua casa. Emma estava há algum tempo sem uma casa de banho decente e quando visse o jacuzzi no seu quarto ficaria louca. Deixá-la-ia pôr espuma na água. Faria com que tomasse banho com ele.
Continuava a sorrir dez minutos depois quando Emma voltou, abanando as ancas de uma maneira que o enlouquecia.
Tinha vestido uma saia cor de caramelo e uma blusa de renda que revelava discretamente a sua pele sem mostrar nada, o cabelo apanhado e na mão um casaco de veludo castanho que combinava com os seus olhos.
– Onde vamos? – perguntou, enquanto punha uns brincos de ouro e pérolas que acariciavam o seu pescoço.
– É uma surpresa – respondeu Nathan.
Emma não disse nada até estarem no carro, afastando-se do centro.
– Gostas de trabalhar com os teus irmãos?
– Responder a essa pergunta podia levar toda a noite.
– Não temos toda a noite, portanto podes começar já.
– Poderíamos ter toda a noite – disse Nathan, apertando o volante para não afastar a franja dos seus olhos. Tinha a louca esperança de que, se olhasse realmente para eles, descobriria que Emma queria o mesmo que ele, mas tinha medo de o reconhecer.
– Há quanto tempo trabalhas na Investimentos Case?
De momento, Nathan decidiu deixar de a provocar. Tinha duas maneiras de a convencer que casar-se com ele seria o mais sensato para ambos: conhecê-la melhor ou deitar-se com ela. Como o último era impossível de momento, decidiu concentrar-se em algo que também era interessante: ligar-se a ela.
– Seis meses.
– E o que fazias antes disso?
De modo que ia ser um interrogatório, pensou Nathan, afastando por um momento os olhos da estrada para olhar para ela.
– Vivia em Nova Iorque.
– Perguntei-te o que fazias, não onde vivias.
– Ganhava dinheiro na Bolsa e indo a leilões.
– Foi aí que aprendeste tanto sobre pintura?
– Tive bons professores. Conheci uma mulher que apoiava muitos artistas… tinha muito bom olho para encontrar jovens talentos.
Emma levantou uma sobrancelha.
– E tu eras um desses jovens talentos?
– Queres saber se éramos amantes? – perguntou ele. – Não, não éramos. Não era o meu tipo, eu gosto das morenas com curvas.
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