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Vingança do Coração

Barbara Cartland

Barbara Cartland Ebooks Ltd

Esta Edição © 2014

Título Original: “Revenge of the Heart”

Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014

Capa & Design Gráfico M-Y Books

m-ybooks.co.uk

Nota da Autora

Durante o reinado do Czar Alexandre 111, da Rússia, os judeus foram perseguidos cruelmente. Outra perseguição desse porte, só se deu cinquenta anos mais tarde, quando Adolf Hitler assumiu o Poder, na Alemanha. O Czar ordenou que um terço dos judeus fosse exterminado. Um terço deveria emigrar e o outro terço deveria ser assimilado.

Tal programa de terror resultou na morte de milhares de judeus, na confiscação de seus bens e na emigração de 225.000 deles para a Europa Ocidental.

Em 1892 o irmão do Imperador, o Grão-Duque Serge, provocou o terror entre pequenos artesãos e comerciantes judeus, que viram suas casas cercadas pelos cossacos durante a noite. Tirados de suas camas enquanto dormiam, foram expulsos ou mortos, acusados de traição ou de outros crimes.

Em meados de 1894 o Czar ficou gravemente enfermo, com hidropisia. Essa doença foi consequência de um desastre de trem que afetou seus rins. Depois de sofrer horrivelmente, o Czar morreu a 11 de novembro de 1894.

O Príncipe Nicolau, filho do Czar Alexandre II1, foi coroado como Czar Nicolau II e reinou até 1917. Em 1918 ele e sua família, foram assassinados pelos bolchevistas.

CAPÍTULO I
1894

Warren Wood entrou no Hotel Maurice e se apresentou ao rececionista. Warren havia estado ausente da Europa durante quase um ano e somente depois de o rececionista encaminhá-lo para o gerente é que ele foi reconhecido.

–Que prazer vê-lo novamente, monsieur Wood!– disse o gerente em um inglês perfeito–, espero que tenha apreciado sua viagem para o exterior.

“Viagem” não seria bem o termo que Warren usaria para descrever sua ida ao norte da África, onde ele havia experimentado momentos de grande prazer mas, também, muito desconforto e por inúmeras vezes, perigo de vida.

Entretanto, ele estava contentíssimo por estar de volta a Paris e não queria perder tempo com conversas. Perguntou apenas se havia quarto para ele, de preferência o mesmo onde sempre costumava ficar. Depois pediu que sua bagagem, que havia ficado guardada no Hotel durante quase um ano, fosse mandada para seu quarto.

O gerente prometeu-lhe providenciar tudo imediatamente, com toda a gentileza que caracteriza os franceses.

Como Warren fizesse menção de se afastar, o gerente disse-lhe:

–Há correspondência para o senhor. Quer que eu a apanhe agora ou prefere que seja mandada daqui a pouco para seu quarto?

–Posso pegá-la agora se estiver à mão.

O gerente entrou em um pequeno cômodo e voltou com uma porção de cartas amarradas com um cordão, formando um grande pacote.

Warren Wood apanhou o pacote e esperou que um dos pajens trazendo sua mala fosse à sua frente para indicar-lhe seu quarto.

O quarto, apesar de não ser o mesmo onde ele sempre costumava ficar, era idêntico e ficava também no quarto andar, dali tinha-se uma vista maravilhosa dos telhados das casas e das árvores de Paris.

Enquanto esperava pelos carregadores com sua bagagem, Warren ficou à janela, achando que não podia haver algo mais lindo que Paris banhada pelos raios do sol da tarde.

Bem acima das casas com suas janelas cinzentas erguia-se, majestosa, a Torre Eiffel, com seus trezentos metros de altura. A Torre havia sido concluída cinco anos antes, para uma exposição. Quando viera da estação, Warren havia admirado a Torre , um marco inconfundível da cidade luz.

Toda aquela estrutura rendada de metal, era para os franceses, orgulhosos de sua pátria, o símbolo da criatividade, do vigor e do brilhantismo da França.

No momento, entretanto Warren estava interessado em seus próprios sentimentos de frustração e desespero.

Como se a Torre , cujos contornos se delineavam contra o céu, o fizesse lembrar de algo que ele estivesse determinado a esquecer, Warren afastou-se da janela. Deu gorjetas aos carregadores que esperavam à porta, sentou-se em uma poltrona e começou a olhar a correspondência.

Para surpresa dele, havia tantas cartas que ficou pensando em quem poderia se preocupar em escrever-lhe, desde que deixara a Inglaterra, além de sua mãe.

Depois de desamarrar o cordão, rasgou também a tira de papel que envolvia as cartas, olhou para uma delas no alto da pilha e ficou rígido. Não podia acreditar no que estava vendo!

Mas não havia engano, a letra floreada, o envelope azul-claro, o suave perfume de magnólias, tudo lhe era tão familiar, tudo refletia tão bem a personalidade da remetente!

Warren ficou com o envelope em suas mãos, fitando demoradamente, como se estivesse fascinado.

«Por que iria Magnólia, justo ela, escrever para mim e ainda aqui para Paris?”» ele se perguntava.

Naturalmente, havia conseguido o endereço dele com sua mãe, que era a única pessoa a saber onde ele se hospedaria ao voltar da África e antes de ir para sua casa, na Inglaterra. Porém, se havia uma pessoa de quem ele não queria nem ouvir falar naquele momento era Magnólia.

Então, franzindo levemente as sobrancelhas e apertando os lábios, abriu o envelope.

Warren Wood era um homem excessivamente atraente. Sua aparência, entretanto, não era mais aquela de antigamente, que o qualificava de elegante, frequentador de altas rodas e presença obrigatória em todos os eventos sociais importantes. Agora desaparecia o dândi para ceder lugar a outro Warren mais másculo, mais duro e insensível e até mais cruel.

Teria sido impossível viver todas as experiências que partilhara com Edward Duncan sem ter aprendido que a vida não é apenas uma sucessão de prazeres e diversões, como havia sido para ele no passado. Sua vida, doravante, jamais voltaria a ser a mesma.

Às vezes, na África, Warren havia pensado que não suportaria viver sem conforto, mas devia admitir que o Warren dândi, havia sido derrotado pelos elementos, pela comida intragável e sobretudo, pelos camelos.

Ah, os camelos! Que animais desagradáveis, difíceis de lidar e fedorentos! Os camelos cheiravam tão mal, que até acostumar-se mais com eles, Warren sentia náuseas.

Só depois de meses de sofrimento ele aprendera a dominar os horríveis animais, mas eram os cavalos que ele amava e não podia imaginar sua vida sem eles ou sem cachorros.

Warren pensava até que os camelos faziam-no lembrar de alguns amigos e conhecidos. Uma vez ele dissera a Edward:

–Certamente, no futuro, vou fugir dessas pessoas sempre que puder!

Edward rira daquela observação tão zombeteira. Quando os dois amigos se separaram, na manhã anterior, em Marselha, Edward dissera:

–Adeus, Warren! Não tenho palavras para lhe dizer o quanto apreciei sua companhia e que grande prazer foi tê-lo comigo.

Havia tanta sinceridade na voz de Edward que Warren se sentiu ligeiramente embaraçado, pensando em quantas vezes ele havia maldito sua sorte por ter aceito o convite de Edward. Entretanto, sabia, ao repassar na memória os longos meses ao lado do amigo, que aquele tempo todo servira para enriquecer seu caráter, alargar-lhe os horizontes de maneira inimaginável.

Todavia, ali estava ele, de volta á Europa, diante de uma carta de Magnólia. Sim, a mesma Magnólia que ele procurara esquecer quando partira para a África.

Como se lembrava daquela tarde em que estava sentado em seu clube em St. James’s, com um copo de brandy na mão! Edward se aproximara e sentara-se numa cadeira a seu lado, dizendo:

–Alo, Warren! Não o tenho visto há tanto tempo! E verdade que também estive no campo.

–Alô!

O tom de voz de Warren fez Edward olhar para o amigo seriamente, mostrando sua preocupação.

–O que está acontecendo? Há quanto tempo não o vejo assim deprimido! Acho que desde aquela vez em que foi derrotado no campeonato de salto, no colégio, em Eton!

Warren não respondeu, apenas olhou para seu copo e Edward insistiu:

–O que o aborrece, homem? Se eu puder fazer alguma coisa…

–Não. Não pode fazer nada por mim, a não ser que possa me ensinar qual é o melhor modo de dar um tiro nos miolos.

Edward não escondeu o espanto e analisou a expressão do amigo detalhadamente antes de perguntar:

–Está falando sério mesmo?

–Muito sério! Só penso que se der um tiro nos miolos vou deixar minha mãe muito triste, e é ela a única pessoa em que posso confiar neste mundo maldito, nojento, imundo, onde só há mentiras e falsidades!

Falou com tamanha violência e ódio e tão alto que Edward olhou ao redor para certificar-se de que não havia ninguém por perto.

Felizmente havia apenas dois sócios já idosos, sentados em suas poltronas e pareciam estar tirando uma soneca, esquecidos de tudo e de todos.

–Não estou reconhecendo você! O que é que aconteceu?

Warren deu uma risada amarga e Edward, que conhecia o amigo desde o tempo de escola, em Oxford, observou que ele havia bebido muito mais do que costumava, o que não era comum. Warren começava a ficar tagarela.

–Vamos, Warren, diga-me o que está acontecendo!– ele insistiu.

Como se estivesse alegre por ter com quem partilhar seus sentimentos, Warren respondeu:

–Não é uma história muito original, mas acabo de ter certeza de que a única coisa que conta neste mundo é o que um homem possui e não o caráter dele.

–Você não pode estar falando de Magnólia!

–E de quem mais poderia ser? Quando a levei para Buckwood para passarmos uns dias lá, jamais me passou pela cabeça que não estivesse apaixonada por mim. Ela sempre havia jurado que me amava!

Fez uma pausa, enquanto apertava com força o copo que tinha na mão. Depois disse com ímpeto:

–Eu a amava, Edward! Amava-a com todas as forças de meu ser! Era tudo o que eu mais queria na vida! A mulher perfeita com que eu sonhara para ser minha esposa.

–Sim, sei disso– respondeu Edward com calma–, mas o que aconteceu?

Novamente Warren deu a mesma risada amarga e desagradável antes de responder:

–Você nem pode imaginar! Ela conheceu Raymond!

Edward encarou o amigo demonstrando seu espanto.

–Você quer dizer… o seu primo? Mas meu Deus! Ele é pouco mais que uma criança!

–E o que importa isso, se ele é muito rico, o único herdeiro de todos os bens do Marquês de Buckwood?– o tom de voz de Warren era sarcástico–, meu caro Edward, você deve compreender o que eu, por ser muito idiota, só compreendi tarde demais o homem, ou seja, o ser humano não vale pelo que é, mas pelo que tem. Não é o caráter que importa.

Edward quis dizer alguma coisa para confortar o amigo, mas Warren continuou, amargo:

–Um homem pode ter pernas tortas, ser estrábico, ter verrugas no nariz, mas se está para se tornar um Marquês, seus defeitos desaparecem. Arranja uma linda noiva que até diz que está apaixonada por ele! Pode uma coisa dessas ser verdade? Me diga se pode! O que não faz uma mulher ambiciosa para se tornar uma Marquesa!

As últimas palavras foram ditas com a voz estrangulada e Warren bebeu o brandy que restava em seu copo e relanceou os olhos pelo salão à procura do garçom. Felizmente não havia nenhum por ali naquele momento e Edward disse:

–Antes que você fique bêbado demais, Warren, conte-me toda a história. Estou não só interessado, mas também solidário com você.

–Muito obrigado, amigo velho! Suponho que posso confiar em você. Acho que não vai me desapontar. Entretanto, juro que jamais confiarei em uma mulher novamente! Jamais!

–Ora vamos!– protestou Edward–, e… Magnólia não pretende se casar com Raymond?

–Mas é claro que sim! Agora que penso sobre o assunto e começo a analisar friamente, vejo que ela estava determinada a conquistar Raymond desde que pôs os pés em Buckwood! Acho mesmo que meu primo nem mesmo teve a chance de escapar assim que Magnólia pôs sobre ele aqueles seus olhos lindos e feiticeiros.

Edward sabia que isso era mais que provável.

Magnólia Keane era não só linda, mas tinha também o poder de fascinar os homens. Podia exercer uma influência quase hipnótica sobre qualquer pessoa que desejasse dominar.

Edward conhecia Magnólia muito bem antes de ela conhecer seu amigo Warren. Quando os viu juntos pela primeira vez, ele havia pensado que o envolvimento do amigo com uma mulher daquelas era um grande erro.

Vindo de uma boa família do interior, Magnólia mudara-se para Londres com o firme propósito de encontrar um marido rico e importante. Teria sido muito fácil, Edward pensou, considerando que era lindíssima. Seu pai, um famoso treinador de cães caça-raposa, tinha uma matilha desses belos animais e inúmeros amigos nos círculos desportivos.

Todavia, o pai de Magnólia não era um homem rico. Havendo economizado muito e sendo até sovina, o Coronel Keane conseguiu juntar o suficiente para alugar uma casa em Londres.

O Coronel e sua esposa sonhavam com a filha participando dos bailes da temporada. Era costume retribuir aos convites e os pais de Magnólia não tinham condições de oferecer festas e bailes à sociedade londrina.

Assim o Coronel, a Sra. Keane e Magnólia, não foram convidados para nenhum baile importante, com isso, Magnólia, viu bem reduzidas as chances de conhecer um futuro marido rico e influente.

Durante a primeira temporada ela não recebera uma única proposta de casamento, apesar de muitos homens se interessarem por ela. Infelizmente a maioria deles era casada.

Como consequência disso, as senhoras mais velhas, dadas a mexericos, faziam comentários maldosos sobre Magnólia e seu nome foi riscado de uma porção de listas de convidados que as senhoras da sociedade londrina faziam questão de manter e seguir meticulosamente.

No ano seguinte, Magnólia brilhou como uma estrela, em sua cidade, em uma porção de bailes da temporada de caça.

Foi a inúmeras corridas de cavalo e vivia cercada de admiradores jovens e velhos.

Então ela voltou a Londres com os pais, mas dessa vez ela estava determinada a ter um anel de noivado em seu dedo!

Não houve anel de noivado algum, mas ela encontrou um distinto baronete dezoito anos mais velho que ela, o qual se tornou seu par constante em todos os eventos e, quando estavam a sós, ele a perseguia sem descanso como um cão persegue uma raposa.

Magnólia brincava com ele como um pescador brinca com um peixe que já sabe estar bem preso ao anzol. Todavia, o que parecia ser um peixe bem fisgado, escapou no último momento, deixando Magnólia frustrada, quando já começava a pensar, realmente, no enxoval.

Mal pôde acreditar no que ouvia quando o baronete lhe disse que havia feito alguns investimentos extremamente altos e infelizmente, perdera muito dinheiro, assim, seria impossível para ele conservar sua casa, suas propriedades, a menos que, para dizê-lo de modo mais vulgar, ele se casasse por dinheiro, ou seja; que desse o “golpe do baú”.

Magnólia decidiu que o melhor a fazer era levantar a cabeça e com determinação, ignorou o que fora ela, na verdade, um desastre e uma humilhação.

Assim que compreendeu que havia perdido seu o baronete, disse às amigas, de maneira mais do que convincente, que era impossível casar-se com um homem bem mais velho que ela. Além disso, não o amava, portanto o melhor que poderia fazer era mandá-lo “passear”.

–Seria idiotice de minha parte– ela dizia–, casar-me com um homem que não amo. Quero ter um marido que eu possa amar e com ele aproveitar a vida. O pobre James já nem ânimo tem, coitado!

Algumas pessoas logo perceberam a verdade, a maioria, porém, concordava em que Magnólia, linda e jovem que era, teria muito tempo para encontrar alguém que fosse realmente digno dela.

Somente Magnólia sentia que o tempo estava passando e, se não fosse esperta, acabaria ficando “encalhada”.

Ela sabia muito bem que muitos homens preferiam casar-se com uma jovem inocente, pois acreditavam que tornavam-se esposas perfeitas. Era alguém assim que Magnólia queria conquistar.

Outros homens preferiam algo mais que uma “jovem inocente” para esposa e procuravam as belas e sofisticadas mulheres que frequentavam Marlborough House. Elas viviam nas colunas sociais e eram aplaudidas e admiradas principalmente nos círculos masculinos.

Quando Magnólia conheceu Warren estava desesperada, pois logo completaria vinte e um anos.

Warren Wood reunia o que ela mais apreciava em um homem. Ele era belo, muito bem-educado e frequentava os mais altos círculos sociais.

O pai de Warren, Lord John Wood, era o irmão mais jovem do Marquês de Buckwood e, Magnólia sabia, não podia haver em todo o Reino Unido família mais respeitada e admirada do que a do Marquês .

A casa da qual o primeiro Marquês havia tirado seu nome ficava em uma propriedade imensa, presente da Rainha Elizabeth a sir Walter Wood, em reconhecimento por ele haver afundado três galeões espanhóis.

Sir Walter Wood havia trazido para a rainha não somente os espólios da vitória, mas também pérolas finíssimas que ele havia tirado de seus prisioneiros.

Assim que Magnólia viu Warren, disse a si mesma que aquele homem seria seu.

Todavia, mesmo quando se certificou de que ele não tinha muito dinheiro, pensou em como todas as portas se abririam para ela e em como seria um sucesso socialmente falando. Casando-se com Warren seria também uma das beldades que frequentavam Marlborough House.

Warren, com vinte e oito anos, havia tido muitos romances com as mais lindas mulheres e era considerado por elas um homem encantador. Entretanto, ao conhecer Magnólia ficou estonteado com a beleza dela.

Havia em Magnólia, ele pensava, algo irresistível. Seus olhos escuros e expressivos, sua pele clara e macia faziam-na muito semelhante à flor que lhe emprestava o nome.

Infelizmente, para Magnólia, quando Warren pensou em que deveriam ficar noivos oficialmente, a mãe dela morreu. Seria considerado muito impróprio se eles anunciassem seu noivado estando Magnólia de luto. Deviam esperar, também, depois do noivado, mais uns meses para anunciar o casamento.

Magnólia queria fazer tudo conforme os costumes da sociedade e o noivado de ambos ficou sendo um segredo precioso dos dois.

–Compreendo suas razões, minha querida– disse Warren–, mas só quero que saiba que não vejo a hora de torná-la minha esposa.

–Eu o amo muito! Muito!– Magnólia respondeu–, se é difícil para você esperar, para mim é muito mais!

Ele pensava, ao beijá-la apaixonadamente, que ninguém podia ser mais adorável, principalmente quando se mostrava ligeiramente tímida.

Depois de se libertar dos braços de Warren, mas ainda segurando-lhe a mão, ela disse, parecendo encabulada:

–Devemos ser cautelosos e evitar que nos vejam assim nos beijando. . . por causa dos comentários. Também queria lhe dizer, querido e adorável Warren, que seria maravilhoso se eu pudesse conhecer sua família.

Ele sorriu.

–Acho que está ansiosa para conhecer Buckwood! É a propriedade mais linda do mundo! Só sinto que não seja minha, pois você é mais do que digna de viver em um lugar como aquele!

Então Warren explicou a Magnólia, que apesar de Buckwood pertencer ao tio, este, um homem boníssimo, adorava a presença do sobrinho na propriedade.

Warren podia montar os cavalos do tio, cavalgar por toda a propriedade e caçar nos bosques. A mãe de Warren morava em uma encantadora mansão antiga, também nas terras do tio. Essas terras eram divididas em diversas fazendas, mas a principal delas era Buckwood.

–Nossa família é muito unida– disse Warren–, tenho certeza de que tio Arthur vai ficar encantado com você, como meu pai também ficaria se estivesse vivo.

Lord John morrera há quinze meses e Warren sentia desesperadamente a falta dele; instintivamente ele havia posto o tio no lugar do pai.

Tinha certeza de que o tio iria achar Magnólia tão encantadora e adorável como ele mesmo a achava. Ao mesmo tempo, queria que o tio aprovasse seu casamento. Assim, na primeira oportunidade levou Magnólia para Buckwood.

Eles ficaram, claro, na mansão com Lady John, mãe de Warren.

Ele notara que Magnólia estava mais fria e reservada com ele, ali em Buckwood, mas atribuiu isso ao fato de ela estar um pouco tímida e talvez ansiosa demais por estar conhecendo a família do homem que iria tornar-se seu marido.

O Marquês, como Warren havia esperado, encantou-se com Magnólia.

Como o noivado era mantido em segredo, Warren disse ao tio apenas, que estava pensando em um compromisso mais sério com Magnólia e que gostaria de ouvir a opinião dele a respeito.

–Magnólia é uma encantadora moça, meu caro rapaz! Só espero que ela goste do campo, pois se não gostar, não serve para você.

–Ela foi criada no interior e o seu pai cria e treina cães de raça.

–É, você me disse mesmo. Acho que conheci o pai dela… sim, conheci-o. Ótima pessoa. Então a filha dele deve, certamente, saber seguir os cães numa caçada.

–Claro que sabe!– disse Warren com entusiasmo.

Ao mesmo tempo pensava consigo mesmo, embora detestasse admiti-lo, que, quando vira Magnólia montando um cavalo, não ficara bem impressionado como pensou que ficaria.

Naquele dia havia atribuído a falta de jeito dela ao seu nervosismo.

Jamais lhe passara pela cabeça que ela estava com medo de cair e ferir seu lindo rosto.

Todavia, ele nem se preocupava se Magnólia sabia ou não cavalgar. Isso era uma falta muito pequenina em uma pessoa que parecia ser perfeita em tudo.

Como de costume, havia muitos hóspedes em Buckwood, todos amigos do Marquês. Logo depois que Warren e Magnólia chegaram, Raymond também chegou com mais três colegas de escola.

Os quatro vinham diretamente de Oxford, eram muito alegres, barulhentos e sempre dispostos a se divertirem.

Suas brincadeiras incluíam desde descer escorregando pelo corrimão da escada, sentando-se sobre bandejas de chá, até a pregar peças nas pessoas, inclusive em Magnólia.

Ela participava das brincadeiras de um modo que fez Warren admirá-la ainda mais. Ficou encantado com o espírito esportivo de Magnólia, que se divertia com os rapazes, sorria das provocações que lhe faziam, como se ela fosse um gatinho, e preferia a companhia deles à das pessoas mais velhas.

Estava muito frio e, no dia seguinte, quando o gelo sobre o lago já estava bem sólido e espesso, todos foram patinar. Surpreso, Warren constatou que Magnólia era uma excelente patinadora.

Ela era uma figura maravilhosa que se destacava das demais por seu porte elegante, seu corpo ágil e esguio. Um gorro de pele de raposa prateada emoldurava-lhe o rosto. Magnólia estava corada pela atividade intensa que o esporte exigia, e seus grandes olhos escuros, de longos cílios, brilhavam de alegria.

Os rapazes brigavam entre si, pois todos queriam patinar com Magnólia. Os que não conseguiam tê-la como par, contentavam-se em ficar patinando perto dela.

Warren apenas olhava os jovens com complacência e se orgulhava da graça e comunicabilidade da noiva. Apesar de adorar patinar sobre o gelo, não gostava de fazê-lo com aqueles garotos ruidosos que gostavam de acrobacias e tinham mais prazer nas competições do que no esporte em si. Por isso Warren deixou a companhia dos mais jovens e foi cavalgar com o tio.

O Marquês, devido à idade, preferia esportes mais suaves. Enquanto cavalgava, o velho nobre ia contando ao sobrinho a situação de suas terras e de seus bens.

Falou sobre as providências que já havia tomado para deixar tudo em ordem para Raymond poder administrar com eficiência o que por herança lhe caberia.

Entretanto, o Marquês sabia que o filho era ainda muito irresponsável e não se interessava pelos negócios do pai.

Assim, o Marquês resolveu abrir-se com o seu sobrinho e pedir sua ajuda.

–Gostaria que Raymond fosse um pouco mais ajuizado e tivesse maior interesse pelo patrimônio que herdará de mim. Por favor, converse com ele. Faça-o ver que propriedades enormes como as minhas só podem ser administradas se o dono controlar tudo que está sendo feito e todos os empregados que trabalham para ele.

–Tenho certeza de que Raymond compreende tudo isso, tio Arthur, mas ainda é jovem. Esta manhã, por exemplo, ele e seus companheiros pareciam um bando de crianças brincando uns com os outros. Com o tempo vai ficar mais ajuizado e será um ótimo administrador destas terras e de todos os seus bens. Será assim como o senhor.

–Queira Deus! Sinceramente, é o que desejo– murmurou o Marquês.

Depois, mudando de assunto, ele continuou:

–Agora quero lhe falar sobre o nosso novo capataz. Parece que o homem não está se ajeitando muito bem com o tipo de serviço…

E lá foram os dois conversando enquanto cavalgavam até que, vendo que entardecia, retornaram a Buckwood.

Já escurecia e os patinadores haviam voltado do lago. Estavam todos ao redor da mesa de bilhar. Continuavam com suas brincadeiras, piadas e a algazarra costumeiras. Warren os observava e se enternecia olhando para Magnólia.

Ela parecia muito feliz e estava linda com as faces coradas e os cabelos agora soltos, levemente desalinhados.

Queria tomá-la nos braços e beijá-la, mas quando tentou tirá-la da companhia dos jovens, ela lhe disse baixinho que talvez fosse um erro se desaparecesse do salão.

–Amo-o demais querido, mas devemos ser muito, muito cautelosos– ela disse com ternura.

Ele compreendeu e foi até a biblioteca para ler os jornais recém-chegados de Londres.

Enquanto se dirigia para a biblioteca, pensava em como Magnólia era adorável e como se adaptava bem a cada situação. Sem dúvida, ela seria uma esposa perfeita.

Somente quatro dias mais tarde, quando os dois voltavam para Londres foi que a bomba explodiu.

Depois de saber a verdade, Warren pensou melhor em tudo que havia acontecido e viu como havia sido um perfeito idiota por não perceber o que acontecia diante de seus próprios olhos.

Todas. as noites, em Buckwood, havia bailes. Para essas festas vinham rapazes e moças das fazendas vizinhas, a convite de Raymond. A mansão vivia dias alegres e movimentados.

Raymond organizara tudo com muita habilidade. Primeiro tocavam valsas, bem do agrado dos mais velhos e Warren as dançava com Magnólia.

Depois era a vez das barulhentas e vivazes quadrilhas, além de lancers e reels, estas duas danças escocesas, as quais eram dançadas em ritmo alucinado, rapazes e moças rodopiando entre gritos de alegria e risos descontraídos.

Tudo parecia próprio dos jovens e era muito divertido, o que fez Warren pensar que estava ficando velho para tanta agitação e barulho. Todavia, alguns anos antes, o próprio Príncipe Charles havia lançado a moda das brincadeiras e dos chistes nas festas, nas quais ele próprio se divertia a valer.

Agora Warren percebia que apreciava bem mais uma partida de bridge.

Foi somente quando vira Raymond conversando baixinho com Magnólia na véspera de voltarem para Londres, que estranhou aquela intimidade, mas atribuiu ao fato de os dois terem ficado tão bons amigos, e na verdade, até se alegrara com isso.

Porém, quando voltavam para Londres em um vagão particular, estando a criada de Magnólia no compartimento ao lado do deles, foi que a moça falou, com alguma hesitação:

–Preciso lhe dizer uma coisa, Warren…

–O que é minha querida?

–Quero que compreenda que, apesar de eu amá-lo demais, não posso me casar com você.

–Mas o que está dizendo?– a voz dele soou ríspida pois ele ficara atônito e até pensou que ouvira mal.

Ela ergueu os olhos suplicantes, dizendo:

–Por favor, não fique zangado comigo!

–Claro que não me vou zangar com você! E por que deveria? Não estou entendendo nada do que está falando!

–Estou dizendo, meu querido Warren, que, apesar de amar você, vou me casar com Raymond!

Warren apenas olhou fixamente para ela, os olhos muito abertos, sentindo a cabeça girar, sem poder atinar com o significado daquelas palavras cruéis.

Depois, com uma voz que não parecia a sua, ele disse num ímpeto:

–Vai casar-se com Raymond? Como?! Ele mal atingiu a maioridade!

–Ele quer se casar comigo e eu lhe pedi para esperar claro, até eu poder tirar o luto…

–Então está pensando mesmo em… em fazer isso comigo?– suas palavras saíram trêmulas de indignação.

–Sinto, realmente, muitíssimo, meu querido Warren, mas tem que compreender.

–Tenho que compreender o quê?

Ela hesitou, porém nem precisava dizer nada. Warren pressentiu a verdade.

–O que está querendo me dizer, é que Raymond vai tornar-se o Marquês de Buckwood!

–Você mesmo disse que eu era digna de viver em um lugar como aquele!

–E você fez o possível para conseguir isso, não?

Ele se sentiu zonzo, parecia que o trem estava dando voltas e mais voltas. Percebeu então que já se aproximavam da estação de Paddington. Magnólia havia calculado até o tempo para fazer aquela revelação horrível coincidir com a chegada deles a Londres.

Um minuto mais tarde a porta do vagão foi aberta por um carregador, a criada de Magnólia apareceu e não houve mais tempo nem oportunidade de eles continuarem o assunto.

Uma carruagem fechada estava esperando por Magnólia. Warren ajudou-a a subir, deu-lhe o chapéu e se afastou, caminhando. A carruagem seguiu para o lado oposto.

Desde que haviam saído do trem não haviam trocado uma palavra. Warren tomou uma carruagem de aluguel e ordenou ao cocheiro que o levasse até seu clube. Estava até trêmulo de ódio.

Ao mesmo tempo, uma desesperadora sensação de perda irreparável o dominou. Era como se o mundo desabasse sobre sua cabeça.

Ele havia amado Magnólia como jamais amara mulher alguma!

Havia acreditado que ela sempre fora sincera quando jurava amá-lo também.

Agora farrapos soltos de conversas vinham à sua mente.

–Receio que jamais seremos ricos, minha querida– ele dissera uma vez apesar de meu pai ter deixado uma ótima renda para minha mãe, jamais terei uma fortuna sólida como a do meu tio.

–Eu o amo pelo que você é– dissera Magnólia com voz suave e melodiosa–, mesmo que não tivesse um centavo, eu o amaria mesmo assim!

–Minha querida, como pode alguém ser tão maravilhosa?

Em outra ocasião ele havia dito:

–Tão logo você permita que eu participe a meu tio que estamos noivos, tenho certeza de que ele vai querer nos dar uma das casas que tem em suas terras. Há diversas delas que, apesar de não serem mansões enormes, são muito aconchegantes e tenho certeza de que você será capaz de transformar qualquer uma em um lugar encantador.

–Vou torná-la um lar maravilhoso para nós dois.

–Sei que fará isso, meu amor! Essa será nossa casa de campo, mas é claro que teremos nossa casa em Londres também.

–Quero que a casa de Londres seja bem grande para podermos receber seus amigos. Não é porque vai ser um homem casado que vai perder os amigos que tanto o estimam. Sei que as mulheres terão inveja de mim por ter como marido um homem tão inteligente, maravilhoso e atraente como você!

–Prometo que vou comprar uma casa com uma sala de jantar muito grande e com um salão de receções.

Acabando de dizer isso ele pensou se poderia mesmo comprar uma casa assim. É verdade que desde que conhecera Magnólia começara a economizar para poder oferecer as coisas mais finas à sua futura esposa.

Felizmente, com tantos amigos ricos e importantes, com certeza passaria a maior parte do tempo indo às festas que eles ofereciam do que convidando-os à sua casa. Ele tinha certeza de continuar a ser sempre bem-recebido depois de casado como agora que era solteiro.

Ele pensou então que essas festas exigiriam lindas roupas principalmente para sua esposa e imaginou como havia sido um perdulário até então. De agora em diante precisava cortar muitas das extravagâncias a que se permitia como homem solteiro que era.

Todavia, amando Magnólia como ele amava, nada seria sacrifício. Queria esquecer de si próprio e depositar tudo o que fosse mais fino aos pés dela como tributo de seu amor.

Não! Warren não podia acreditar que, tendo jurado amá-lo tanto, Magnólia pudesse casar-se com um rapaz que era tão jovem quanto ela e totalmente imaturo.

Raymond não era nada inteligente e não tinha outros interesses que não os de se divertir bastante sem se preocupar com nada sério.

O Marquês , apesar de não demonstrar, estava muito dececionado com o filho. As notas de Raymond na escola não eram boas, e por duas vezes, esteve para ser expulso de Oxford por não levar os estudos a sério.

Quando o Marquês tentava fazer com que os interesses do filho se voltassem para as vastas propriedades do pai, ele não havia demonstrado o menor entusiasmo. Só pensava mesmo naquelas terras como um meio de se divertir.

Warren jamais pensara em Raymond como um homem ou um adulto. Para ele o primo não passava de uma criança. Tampouco podia pensar nele como marido de alguém, muito menos de Magnólia.

Pensar que Magnólia ia casar-se com Raymond só pelo título de Marquês de Buckwood que ele iria herdar um dia, fez Warren sentir-se horrorizado, desgostoso, e humilhado. Todavia ele ainda a amava, ainda desejava aquela mulher e sentia que a vida sem ela não teria sentido.

Depois de chegar ao clube e de beber uma quantidade enorme de brandy, pensava que a questão não era como poderia viver sem Magnólia, mas sim que ele não queria viver sem ela.

Foi então que Edward o encontrou.

–Agora escute, Warren– disse Edward–, tenho uma sugestão a fazer c gostaria que pensasse no assunto seriamente.

–A coisa mais sensata que tenho a fazer e atirar-me no Tâmisa! Não vou me afogar porque sou um excelente nadador, mas posso morrer de frio– a voz dele era lenta e pastosa.

–Tenho uma sugestão bem melhor!

–Sugestão?!

–Quero que embarque para a África comigo!

–Para a África?!

À nota de surpresa que Edward notou na voz do amigo fez com que ele observasse que, pelo menos, havia despertado alguma curiosidade.

–Vou até a África. Quero obter material para meu novo livro. Também tenciono ir a Marrocos explorar partes do deserto de Saara. Pretendo ir a lugares onde, segundo imagino, jamais inglês algum chegou, e sempre há a oportunidade de fazermos excelentes caçadas, ou ainda, se quiser algo mais excitante, poderemos nos perder em meio a uma tempestade de areia ou, ainda, há a alternativa de sermos devorados por uma tribo hostil!

–É... qualquer dessas alternativas seria excelente para resolver meus problemas.

–Concordo em que todos esses são meios não muito comuns de se morrer.

Houve um momento de silêncio e depois Edward voltou a insistir:

–Vamos! Aceite meu convite. Tenho certeza de que não se arrependerá. Pelo menos, não vai precisar ficar sentado aqui bebendo desse jeito enquanto pensa no que sua linda Magnólia está fazendo com Raymond.

Warren ainda parecia indiferente e Edward continuou, desta vez mais expressivo:

–Pense bem na aventura que será matar répteis peçonhentos e outros animais perigosos que vão se avizinhar de nossas tendas. Pense no mau tempo e no desconforto que teremos que enfrentar quando estivermos acampando. Isso sem dizer o risco que correremos de ver nossa tenda ser arrancada pelo vento forte!

–Pelo modo como fala está querendo que eu recuse o convite! Que quadro horrível está pintando!

–Não vou prometer-lhe colchões de plumas ou os prazeres exóticos do Oriente, mas pelo menos posso assegurar que terá que lutar e não terá um dia sequer de ócio. Sinceramente, acho que é do que está precisando no momento.

Warren ficou em silêncio.

Depois, como se estivesse vendo Magnólia em sua frente e odiando-a com toda a força de que era capaz, ele disse:

–Está bem. Se deseja minha companhia, irei com você, e enquanto cuida de todos os preparativos para a viagem, eu me tornarei cada vez mais inconveniente e claro, muito bêbado!

Recordando aquele dia, Warren ainda parecia vê-lo dizendo aquilo.

Agora desprezava a si próprio por sentir-se tão fraco, tão idiota a ponto de estar sofrendo por uma mulher que não merecia aquela cena. Uma mulher que o havia trocado por um título!

E ali estava ele, quase um ano depois, sentindo-se perturbado ao pensar em Magnólia e segurando a carta dela. Ele, Warren, que pensava tê-la esquecido.

Ainda olhando a carta, sentindo a suave fragrância e vendo as curvas da letra elaborada, lembrou-se das curvas daquele corpo bem feito, a cintura delicada, os seios que arquejavam quando eles estavam bem juntinhos.

Parecia sentir também o calor dos lábios dela que, quando encontravam os dele, fazia o coração de ambos bater aceleradamente.

Não, ele não se enganara… se ele a desejara como mulher, ela também o desejara como homem.

–Magnólia! Magnólia!

Seu corpo todo ansiava por ela.

Mas, por que, céus, por que aquela carta?

Por que Magnólia o fazia reviver tantas lembranças semiesquecidas?

CAPÍTULO II

Por um momento as palavras escritas sobre o papel azul pareciam dançar diante dos olhos de Warren. Então ele leu:

“Querido, amado Warren.

Como pôde ser tão cruel a ponto de partir sem dizer-me uma palavra que fosse? Não pude acreditar quando me disseram que havia deixado a Inglaterra.

Só então tive consciência de como havia sido tola! Sim, meu amor, eu só podia estar fora de mim ou talvez tivesse tido uma crise momentânea de loucura que, sinceramente, nem eu mesma consigo entender. Compreenda apenas que fui acometida de uma insanidade temporária!

Agora, voltando a raciocinar claramente, e podendo analisar meus sentimentos tive certeza de que o único homem de minha vida é você! É só você que eu amo!

É em nome desse amor que lhe dedico que peço, de joelhos se necessário, que me perdoe.

Não posso acreditar que, realmente, possa ter perdido algo tão precioso como o seu amor. Quero penitenciar-me por não haver valorizado um sentimento tão maravilhoso! Também quero que saiba que jamais encontrei uma pessoa tão adorável como você.

Soube por intermédio de seu tio que você está em algum lugar na África. Como não tenho o endereço, mandarei esta carta para o Hotel , em Paris, onde sei que se hospedará quando voltar.

Ao ler esta, querido, esqueça toda a minha imbecilidade e pense apenas em como fomos felizes antes de nossa ida a Buckwood! Permita que eu seja, novamente, a dona de seu coração.

Perdoe-me! Lembre-se da felicidade inexprimível que ambos sentimos quando nos beijamos pela primeira vez...

Amo-o! Adoro-o!

Sua humilde e penitente,

Magnólia.”

Acabando de ler a carta, Warren não podia acreditar que tudo aquilo era real.

Olhando a data, viu que a carta havia sido escrita nove meses atrás, ou seja, um mês depois de ele haver deixado a Inglaterra.

Pareceu-lhe impossível que Magnólia pudesse ter mudado de ideia tão completa e subitamente. Tudo era tão incrível que ele releu a carta.

Warren sentiu que devia haver um motivo muito forte para fazer Magnólia mudar de opinião. Todavia, por mais que pensasse, não conseguia nem ao menos ter ideia do que fosse.

Ele olhou para a pilha de cartas novamente e, debaixo de uma porção de contas e mais de uma dezena de envelopes que pareciam conter convites, pois todos tinham o timbre do White’s Club, ele encontrou uma carta de sua mãe.

Enquanto olhava para o envelope e analisava a elegante e sóbria caligrafia da mãe, pensou em como aquela letra diferia da de Magnólia, que era toda rebuscada.

Ele, porém, não queria perder tempo com bobagens. Abriu a carta da mãe e leu:

“Meu querido filho Fiquei felicíssima ao receber, ontem, sua carta, enviada de Casablanca, na qual você comunicava que já estava a caminho de casa.

Eu estava desesperadamente ansiosa para entrar em contato com você e, como resposta às minhas preces, recebi sua carta dizendo que em um futuro não muito remoto estará na Inglaterra novamente.

O importante é que, assim que receber esta carta, vai poder vir para casa imediatamente.

Sei que as notícias que tenho para lhe dar são muito tristes e pesa-me também transmiti-las. Raymond sofreu um acidente há três dias e eu soube esta manhã que ele acabara de falecer.

Parece que ele se acidentou em uma corrida de obstáculos.

Raymond estava com amigos e, segundo dizem, havia comido demais antes da corrida e, quem sabe, havia abusado um pouco da bebida.

Agora que nosso pobre Raymond está morto, acabo de saber também, pelo Dr. Gregory, que seu tio Arthur teve um enfarte.

Arthur já não andava bem nestes últimos meses. Devido ao excesso de peso precisou seguir uma dieta rigorosa. A notícia do acidente do filho veio abalar ainda mais sua saúde. Foi um golpe terrível para ele, como bem pode imaginar.

Depois do enfarte seu tio entrou em coma e o Dr. Gregory diz que há pouquíssimas chances de sobrevivência.

Você com certeza já compreendeu, meu querido Warren, que sua presença aqui é urgentíssima neste momento difícil. Só peço a Deus que receba logo esta carta. Por favor, telegrafe-me assim que recebê-la.

Lamento demais que a alegria de sua volta à pátria e ao lar seja turvada por esse clima de tristeza e pelo sentimento de perda irreparável que reina aqui em Buckwood.

Ao mesmo tempo, sei que você assumirá suas responsabilidades e cuidará de tudo com o mesmo carinho, dignidade e amor, qualidades que sempre foram características de seu pai e de seu tio.

Espero ansiosamente notícias suas.

Sua afeiçoada e devotada mãe que o abençoa,

Elizabeth Wood.”

Se Warren ficou surpreso e chocado com a carta de Magnólia, a carta de sua mãe deixou-o consternado.

Era inacreditável que seu primo Raymond pudesse estar morto! Um jovem tão alegre e cheio de vida! Tampouco parecia verdade que seu tio estivesse nas últimas.

Foi então que compreendeu que toda sua vida havia mudado! Se a carta não tivesse sido escrita por sua mãe e se não estivesse ali, bem diante de seus olhos, não poderia acreditar que tudo não passava de um pesadelo.

Ele jamais pensara, nem mesmo em suas mais ousadas fantasias, nem em seus sonhos mais loucos, que viria a ser, um dia, o Marquês de Buckwood!

Da mesma forma que seu pai jamais pensara em herdar o título, em vez de o irmão.

Warren lembrou-se com carinho do pai. Lord John não era nada ambicioso, tampouco era um homem invejoso. Ele sempre dizia:

–Ninguém pode ser melhor chefe de família do que o querido mano Arthur.

Antes de morrer, o pai pedira a Warren para olhar pela mãe e ajudar o tio no que pudesse, pois sabia que este confiava mais nele do que em Raymond.

Warren prometeu que sempre ajudaria o tio e não deixou de fazê-lo.

Agora ele lembrava-se das últimas palavras que o pai lhe dissera já com voz débil:

–Você é um ótimo filho! Sempre me orgulhei de você!

Warren então pensou em quem poderia ajudá-lo na difícil tarefa de ser o chefe da família e de assumir todos os encargos dos Woods. De repente, sentiu que teria sobre seus ombros uma carga que, além de inesperada, era surpreendentemente pesada.

Ele teria que administrar não somente as casas e mansões, as terras, fazendas em várias partes da Inglaterra, mas também orfanatos, asilos, escolas, instituições de caridade, Ele sabia que a relação das propriedades dos Woods e dos encargos sociais e assistenciais enchiam três páginas de papel almaço.

Herdando o título de Marquês de Buckwood, teria também seus compromissos na Corte. O tio era sempre chamado ao Castelo de Windsor, pela rainha Victoria, que nele confiava e com quem muitas vezes se aconselhava.

Pensando na Rainha Victoria, Warren considerou o quanto a admirava e reconhecia que a grande expansão, a prosperidade e o prestígio do Império Britânico deviam-se à presença de Sua Majestade, e â maneira como ela inspirava a todos os que a serviam.

Warren lembrou-se de que a mãe precisava dele e olhou novamente a carta a fim de certificar-se da data em que fora escrita e viu que esta era de três dias atrás.

«Preciso partir para a Inglaterra amanhã bem cedo» disse para si mesmo.

Em seguida, chamou a portaria para saber o horário de trens partindo da Gare du Nord com conexão com os barcos para a travessia do Canal da Mancha. Pediu também um formulário de telegrama para preencher, assim deixaria a mãe tranquila sabendo que ele já estava a caminho de casa.

Quando ele voltou a examinar a correspondência, observou que em todos os envelopes havia um carimbo do Hotel com a data em que a correspondência chegara ali. Na carta mandada pela mãe ele pôde ler “27 de junho”. Rapidamente, pegou o envelope azul da carta de Magnólia que estava caído no chão e o olhou de novo. Viu a mesma data “27 de junho”, com o carimbo do Hotel .

Por um instante, ele ficou parado, olhando fixamente para o envelope. Não podia acreditar no que seus olhos viam. Voltou à carta de Magnólia e viu a data escrita muito clara; “20 de outubro de 1893”.

Então compreendeu tudo. Em segundos sua expressão endureceu, as linhas ao redor de sua boca se acentuaram e fizeram-no parecer muito mais velho e desiludido.

Ele já devia ter esperado uma atitude dessas de uma pessoa como Magnólia. Claro! Quando ela viu que Raymond estava morto, tentava reconquistar Warren!

O ódio que ele sentiu foi tão grande que atirou a carta longe. A falta de caráter de Magnólia fez com que sentisse vontade de matá-la. Foi então até a janela e ficou por uns momentos parado, olhando para a paisagem á sua frente, porém sem nada ver. Ah, ele queria matá-la!

Como podia uma mulher, que ele tanto amara um dia, comportar-se de maneira tão abjeta? Como pôde pensar que ele seria tão tolo a ponto de acreditar naquele amontoado de mentiras?

Agora Warren, tinha certeza de que, se ainda restava em seu coração algum vestígio do amor que havia nutrido por Magnólia, esse pouquinho havia sido extirpado à força, com a ponta de um punhal.

Se ele pudesse ver Magnólia naquele momento, ainda que ajoelhada a seus pés lhe implorando perdão, a única vontade que sentia era de esmurrá-la.

Warren parecia ver a cabecinha fútil de Magnólia trabalhando, urdindo sua trama, pensando, ingênua que era, que, perdendo Raymond, o tolo do Warren viria correndo prostrar-se aos pés dela.

Ela havia tramado seu plano que lhe parecera muito inteligente, mandaria a carta com data atrasada, fazendo parecer que havia sido escrita assim que Warren havia partido. Não fosse o cuidado do Hotel em datar toda a correspondência recebida, ele talvez até se convencesse de que Magnólia mudara de opinião tão logo ele deixara a Inglaterra.

Para não restar dúvida alguma de que não estava cometendo nenhum engano em seus julgamentos, Warren voltou à correspondência e olhou envelope por envelope. Viu que em todos havia a data de recebimento cuidadosamente marcada pela portaria do Hotel .

Ele não havia dado instruções à secretaria do White’s Club para mandar sua correspondência para Paris. Edward devia ter feito isso por ele.

A única pessoa a quem ele próprio dera o endereço para correspondência fora sua mãe. Como Magnólia poderia ter extraído de sua mãe o endereço, sem que sua mãe desse por isso, ele não sabia explicar.

Warren teve uma outra ideia e foi novamente remexer nas cartas esparramadas e achou a que queria. Era uma carta dos advogados de seu tio, que moravam na cidade próxima a Buckwood. Talvez Magnólia tivesse conseguido o endereço daquele Hotel por meio dos advogados e estes, por sua vez, o teriam conseguido por intermédio de sua mãe.

Sim, devia ser isso, pois a carta dos advogados vinha assinada por um dos sócios da firma que, Warren sabia, era amigo do pai de Magnólia.

Nessa carta os advogados informavam não só a morte de Raymond, mas também solicitavam a presença de Warren na Inglaterra o quanto antes, para cuidar dos assuntos do tio, uma vez que este estava incapacitado de fazê-lo.

Pela carta dos advogados como pela carta de sua mãe ele teve certeza de que não havia mesmo esperança para o Marquês e sentia que já pesava sobre seus ombros aquele fardo antes mesmo de seu tio falecer.

Cuidadosamente, Warren recolocou a carta no envelope e a pôs sobre a mesa. Vendo o papel azul da carta de Magnólia bem ali a seus pés, pisou nela com força e com raiva, fazendo-a afundar na maciez do tapete.

A lua imperava no alto do céu e as estrelas brilhavam como diamantes. Warren andava pela calçada que margeava o rio Sena.

Quando ele estava na África com Edward, ambos sempre conversavam sobre o que iriam fazer quando voltassem à civilização.

–Vamos ficar uns dias em Paris, amigo velho!– dizia Edward–, acho que Paris é a cidade ideal para fazer a ligação entre o mundo primitivo e o sofisticado.

Warren lembrava-se do deserto estendendo-se à frente deles, os amplos e indolentes horizontes muito ao longe, não se podendo definir onde terminava a areia e onde começava o céu, tão idênticos eram em sua imensidão, claridade e aridez.

–Aposto que está pensando no Moulin Rouge e no Maxim`s!– disse Warren, caçoando dele.

–Quando estou fazendo uma viagem como esta– respondeu Edward–, até me esqueço de como é o jeito de uma mulher bonita. Ah, como eu adoraria estar ao lado de uma das sereias do Maxim´s ou de ver as garotas do Moulin Rouge agitando suas pernas, dançando o can-can!

Warren riu e disse:

–Pois eu adoraria tomar uma taça de champanhe bem gelada! Se tiver que tomar da água dessa bolsa de couro de cabra por muito tempo, acho que vou acabar ficando louco!

–Você vai ficar louco é se não tiver essa água– disse Edward, olhando para o sol escaldante e inclemente acima de suas cabeças.

Ambos já estavam viajando pelo deserto há quase quatro dias e, como Warren dizia, a água da bolsa de couro de cabra estava com um gosto horrível.

–Amanhã poderemos nos abastecer– disse Edward–, apesar de a comida não ser tão boa como a de um restaurante de luxo, vamos ter alguma coisa decente. Pelas privações que está sofrendo no momento, creio que suas roupas vão precisar ser apertadas para assentar bem.

Warren riu. Mas quando se vestiu para o jantar naquela noite, viu que Edward estava com a razão. As roupas, se ele quisesse que ficassem nas suas medidas atuais, precisavam de reforma em um bom alfaiate.

Ao olhar-se no espelho, entretanto, teve a impressão de que seus ombros estavam muito mais largos e sentia seus músculos bem mais rijos.

Warren sabia que aquele seu físico mais atlético era devido às horas sem fim sobre o dorso dos camelos ou dos cavalos do deserto. Todavia, a comida que tinha diariamente era apenas suficiente para mantê-lo vivo.

Apesar de todas as suas preocupações, naquela noite Warren jantou muito bem. Achou excelente a comida do pequeno restaurante perto do Hotel .

Ele havia pensado em sair e encontrar-se com uma linda mulher com quem passava noites muito agradáveis sempre que vinha a Paris. Porém estava por demais aborrecido para um programa dessa natureza.

Caminhando vagarosamente, ele se lembrava da última noite que havia passado em Paris, antes de ele e Edward embarcarem para a África. Naquela noite, ao se preparar para sair, estava tão aborrecido que deixou Edward escolher o que ele devia vestir.

Depois do jantar eles logo começaram com Folies Bergères e foram em seguida ao Maxim’s, mas Warren logo quis sair, sem dançar nem mesmo uma vez com uma das encantadoras garotas.

Na África ele sonhava com sua primeira noite em Paris, quando voltasse à civilização e, agora que ali estava, queria ficar só, para pensar melhor em tudo o que estava acontecendo. Por isso ele havia jantado sozinho e resolveu caminhar um pouco antes de voltar ao Hotel para dormir.

O gerente do Hotel havia reservado para ele passagem no trem expresso, cujo horário coincidia com o vapor que partiria de Calais ao meio-dia. Se tivesse sorte, poderia estar na casa de sua mãe na noite seguinte.

No telegrama que havia mandado à mãe avisava que deveria chegar às dez da noite, mas que não se preocupasse caso houvesse algum atraso.

Felizmente, era verão e não costumava haver atraso na travessia do canal pelo vapor, pois geralmente o mar era calmo.

A noite estava calma e quente. Não havia a mais leve brisa nem o farfalhar das folhas das árvores, à margem do Sena.

Warren caminhava vagarosamente debaixo das árvores, e pensava que o luar que prateava o telhado das casas e os prédios mais altos era muito diferente do luar do deserto, que se filtrava pelas palmas flabeladas das palmeiras de um oásis onde dormiam, quando tinham a sorte de achar algum.

Outras vezes eles erguiam a tenda entre pedras e arbustos e tinham que ter muito cuidado com cobras e escorpiões. Havia também inúmeros insetos desagradáveis que gostavam de se esconder dentro do saco de dormir ou em baixo de seus pescoços.

Ouvindo o ritmo compassado dos cascos de cavalo batendo nas ruas bem pavimentadas, ele sorria, lembrando-se de como eram diferentes os ruídos que eles costumavam ouvir no deserto: o ronco dos camelos e a maneira grosseira de os criados árabes limparem a garganta antes de escarrarem.

«Voltei à civilização!», pensou.

Mesmo estando quente, ele sentia como se estivesse envolto em sedas macias depois de ter usado roupas de tecido grosseiro por muito tempo.

Warren cruzou uma ponte para chegar a Notre Dame. Ficou por uns momentos contemplando a catedral banhada pelo luar de prata e vendo a mesma lua, lá do alto, refletida no Sena, logo abaixo.

Acudiam-lhe agora lembranças de sua juventude, quando viera a Paris pela primeira vez. Ele havia ficado hospedado à margem esquerda do Sena, porque tudo era mais barato ali.

Ele se lembrava da impressão que tivera ao ver Notre Dame pela primeira vez. Como achara a velha Catedral tão linda e romântica!

Agora ele apoiava os braços sobre as pedras frias da murete que acompanhava o grande rio e observava uma barcaça que passava lentamente, descendo a correnteza, com suas luzes vermelhas e verdes refletindo-se na água.

Foi então que Warren viu alguém lá em baixo, na pista feita para os cavalos puxarem as barcaças ao longo do rio.

Apesar de não estar prestando muita atenção, notou uma figura magra andando na beira da água e olhando fixamente para o rio.

Ela não usava chapéu nem mesmo um lenço sobre a cabeça e o luar matizava-lhe os cabelos de tons prateados.

Warren passou a observar a moça mais atentamente e notou-lhe a graça do andar e a cintura muito fina.

Chegando sob a ponte, a moça parou, continuando a fitar o Sena.

Quase inconscientemente, mas com a perceção que tem todo homem que conviveu muito tempo com o perigo, Warren de imediato percebeu o que a moça ia fazer.

Ela continuou imóvel, os olhos presos na água corrente. Warren achou que era chegado o momento de ele intervir.

Sem pensar nas consequências, sem considerar se deveria ou não se envolver, ele caminhou rapidamente para uma das passagens que havia no murete, logo ao lado da ponte, e desceu os degraus que levavam à pista onde estava a moça.

Logo estava a poucos metros da jovem. Deu mais uns passos silenciosamente e ficou ao lado dela.

Mergulhada em seus pensamentos, a jovem nem notou a presença de Warren e ele disse, em francês, com voz calma para não assustá-la:

–Senhorita, é muito perigoso ficar assim tão perto do Sena– ele encarou a moça e viu que ela estava tensa.

Recuperando-se da surpresa, ela disse convulsivamente:

–Suma! Vá embora… deixe-me só!

Para surpresa dele, ela falou em inglês e ele respondeu:

–Como pode estar pensando em fazer tal loucura?

–É da… sua… conta?

–Algum policial poderá vê-la e estará em apuros…

Como ele falava calmamente, a jovem voltou-se e encarou-o.

Apesar de não vê-la bem por causa da sombra da ponte, Warren distinguiu um rosto pálido e um par de olhos enormes.

A moça continuou a olhar para Warren, parecendo surpresa por ele estar ali naquele lugar, trajando-se elegantemente.

–Vá embora!– ela repetiu–, não é… da sua… conta!

–Parece que somos ambos ingleses. Mal posso acreditar que quisesse . .

–Por favor… por favor… deixe-me só!

Agora a voz dela nada tinha de agressiva, era antes uma súplica. Warren quis confortá-la e disse:

–Você diz que não é da minha conta, mas um inglês não deixaria nem mesmo um gato ou um cão lutando em um rio sem ir socorrê-lo, e não estou com a mínima vontade de me molhar!

–Então me deixe morrer… vá embora! Não se intrometa!

As palavras dela soaram tão desesperadas que o comoveram ainda mais.

–Então quer morrer!– ele disse como que refletindo sobre aquelas palavras–. Eu também queria a mesma coisa há meses atrás, mas um amigo evitou que eu fizesse alguma loucura. Agora estou muito feliz por estar vivo.

–É muito diferente… você é… você é um homem!

–Sou um ser humano e estou vindo de um lugar onde os seres humanos têm que lutar duramente se quiserem sobreviver. Isso me fez apreciar a vida e vê-la sob um prisma que nunca vira antes.

A moça virou seu rosto e Warren viu-lhe a silhueta contra o brilho da água. Notou que ela era muito atraente, mas muito magra.

–Como já fui uma vez salvo por um amigo, quando pretendia fazer exatamente o que você estava querendo fazer agora, sugiro que nos sentemos em algum lugar para conversar. Podemos tomar um copo de vinho e você então me conta o que a levou a pensar em algo tão desesperador.

A reação da jovem foi imediata e ela disse com voz ríspida:

–Já lhe disse para sumir da minha frente! Se quer uma mulher… há muitas… nas ruas.

Warren não se aborreceu por ela haver interpretado mal suas palavras e logo explicou:

–Posso jurar que não pensei que você fosse esse tipo de mulher! Se eu tivesse interessado no que acabou de insinuar, não precisava vir até aqui. Há em Paris lugares muito mais interessantes para se encontrar belas mulheres.

Havia não só sinceridade na voz dele, mas também carinho. Parecia que ele estava falando com muita paciência com uma criança teimosa ou tola. Então a jovem resolveu ser mais cordial.

–Desculpe-me… fui um tanto rude. Afinal, você está tentando ser… amável.

–Acho que não devia estar andando por aí, numa cidade como Paris, à noite e sozinha!

–Não estava…“andando por aí”– ela voltava a ficar zangada–, vim até aqui para… me afogar… e você estragou tudo!

–Volto a insistir no que sugeri há pouco, você pode conversar com… alguém que já esteve numa situação parecida uma vez.

–Duvido que já tenha estado numa situação parecida com a minha!

–É verdade. Acho que foi o destino que me trouxe até aqui para evitar que fizesse o que estava querendo fazer…

–Como soube que… o que eu… pretendia fazer?

Apesar de não saber explicar como pressentira o perigo,

Warren foi sincero.

–Por vezes pressinto o perigo antes de ele acontecer. Há um mês ou dois eu viajava com um amigo e meu instinto, ou o que quer que chamem, avisou-me do que ia acontecer e pudemos nos salvar por causa desse aviso… e hoje que aconteceu a mesma coisa, espero ter salvado você.

A moça suspirou e deu as costas para o Sena, dirigindo-se para a escada… parecia ter compreendido que, pelo menos naquela hora, não iria conseguir seu intento.

Ambos subiram os degraus para chegarem até a calçada. Agora, à luz do luar, Warren viu que a moça era muito jovem e apesar de estar usando um penteado que a fazia parecer mais velha, seu rosto era quase o de uma criança.

Sua altura revelava que ela não era tão criança, o que lhe emprestava aquele ar infantil era seu corpo delicado e frágil.

Ao ver aquela figura franzina, Warren pensou que ela se assemelhava a algumas pessoas que ele vira na África, tão magras de fazer dó, pois sofriam de desnutrição.

Podia ser esta uma das razões por que ela queria morrer, mas Warren disse apenas:

–Podemos ir a um pequeno restaurante que fica perto daqui. Eu o frequentava quando era mais jovem. Se estiver aberto, poderemos comer qualquer coisa enquanto conversamos.

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