Читать книгу: «Mestres da Poesia - Augusto dos Anjos»
O Autor
Augusto dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Foi educado nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos sete anos de idade.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer1, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel2, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer3 o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte. Augusto nega a religião como algo que possa explicar o mundo, sua poesia é composta por muitas ironias contra o cristianismo e a religião de uma forma geral, embora em sua cidade natal, Engenho do Pau D’Arco, o escritor conduzia reuniões mediúnicas e psicografava.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia. Na casa em que residiu durante seus últimos meses de vida funciona hoje o Museu Espaço dos Anjos.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
A poesia e a poética de Augusto dos Anjos
Por Pereira da Silva4
Correspondendo a gentileza do Sr. Augusto dos Anjos, que se lembrou de meu humilde nome, oferecendo-me um exemplar do seu livro ―Eu‖, não poderia em consolência deixar um silêncio as ideias e os sentimentos que me advieram dessa leitura. Não me move a pretensão de fazer um estudo crítico, ideia nobre aliás, mas muito acima de minhas faculdades; pretendo apenas exprimir as impressões pessoais ou subjetivas que me deixaram a sua poesia e a sua poética.
A sua poética! É ela sem dúvida, muito pessoal. Chega a ser mesmo extravagante, esquisita, esdrúxula. É nessas qualidades excessivas, classificadas por outros defeitos, que se encontra, no entanto, a profunda sinceridade do poeta complexo que é o Sr. Augusto dos Anjos. É impossível acompanhá-lo nas suas cogitações, nas suas dúvidas, em todo o desespero incontido de suas estrofes, por vezes antes de filósofo que de poeta, sem sentir para logo o muito que há, nesse poeta, de intensa angústia inédita e incontida, - resultante lógica de uma concepção filosófica um tanto pessimista.
Tanto vale dizer que em Augusto dos Anjos a Poesia e a Filosofia se confundem quase sempre, dando à sua expressão emocionante alguma coisa de característico, muito sua: a espontaneidade da primeira com a técnica, não raro rebarbativa, da segunda. O que há a louvar é que, felizmente para as musas, a Ideia, em Augusto dos Anjos, não predomina sobre a sua enorme sensibilidade quase doentia de tão aciculada. É ele um poeta que pensa as suas estrofes, mas se deixa dominar por elas logo que surgem irresistivelmente como uma necessidade morfologicamente nova desse pensamento.
Daí a espontaneidade que o caracteriza poeta, mas prejudica a profundeza do conceito no arrevesado da forma. Dir-se-ia que sua poesia se faz por um estranho precipitado da imaginação e do raciocínio, que criam, assim, uma entidade emocional nova, quase sui generis.
É o caso psicológico do ―Morcego, para não citar outras composições suas. Demais a mais, a poesia do Sr. Augusto dos Anjos pode ser resumida, como a de Antero de Quental, num psiquismo dominante, que lhe faz ver o mundo sempre sob a mesma projeção sombria do próprio espírito.
Mas que diferença de forma entre um e outro poeta! É que Antero era um místico, que tinha, todavia, o raciocínio de um cético; A. dos Anjos é um poeta de viva imaginação, corroído, infelizmente, por uma impenitente filosofia naturalística. A um e outro a concepção restrita da filosofia preme, como um guante de ferro, os movimentos espontâneos do verdadeiro espírito livre. Não se encontra uma estrofe de Augusto dos Anjos, nas suas poesias de caráter abstrato, sem a influência de Heckel, com sua poderosa fascinação de construtor imaginário da Natureza e do homem. A própria técnica do sábio naturalista aí está, obstando sempre, a visão pura do poeta. É já uma necessidade de sua emoção pessoal a fórmula científica consagrada. Houve quem o censurasse por isso. E com razão: um poeta, como A. dos Anjos, não precisa de intermediários para ser o instrumento maravilhoso, como dizia Bergson, dessa natureza, que ele vê tão escura, através dos óculos do naturalista decadente de Yena.
A poesia foi sempre, por sua natureza, criadora. Não há razão para que não continue a ser tal, malgrado o desenvolvimento assombroso do espírito científico e filosófico.
O próprio Sr. Augusto dos Anjos é a melhor prova deste acerto. É um poeta, mas um poeta atual, apesar de ter a obstar-lhe os instintos criadores, uma filosofia tão restrita. Não queremos dizer com isto que um poeta do século XIX deve ignorar o dramático e o trágico das ideias, hoje mais que nunca, em crise. Ao contrário: ele e só ele poderá e deverá ficar à margem da história contemplando os variados aspectos da vida, não como filósofo, crítico ou historiador, o que seria detestável, mas como um instrumento vivo e vibrátil da Humanidade, através da sua evolução indefinida.
Toda a cultura ou toda a civilização do seu tempo deve entrar na sua psicologia, mas como um meio necessário a fazer dela um tipo representativo, cada vez mais perfeito e mais harmonioso. Só assim não perderá o poeta a sua entidade, e acompanhará a evolução das ideias. Sem perda de sua emocionalidade.
O Sr. Augusto dos Anjos, se não fosse fundamentalmente poeta, não teria conseguido com sua técnica científica os efeitos emocionantes que dão a seu livro uma originalidade extravagante, mas incontestavelmente estética. E a sua estética é efetiva, é real – é a expressão viva de um estado d‘alma que não é só seu, mas de todos os espíritos voluptuosamente fascinados pela ciência positiva, que talvez não engane, mas é certo que não satisfaz.5
Livro do dia: Eu, por Augusto dos Anjos
Por Nazareth Menezes6
A poesia científica propriamente dita, que tem em Martins Junior o seu fundador, entre nós, e Carlos D. Fernandes, o seu mais característico representando, não chegou a fazer escola em nossa literatura.
Não vem a propósito repetir aqui a discussão muito filosófica e pouco literária que a escola despertou no seio da crítica indígena. Basta acentuar apenas que a poesia científica não predominou jamais nas nossas letras.
A escola passou, como passou o "gongorismo", o "nefelibatismo" e outras classes diversas de poetas irrequietos.
A expressão verdadeira da nossa poesia é, sem dúvida, a lírica, poderosa, palpitante, verdadeira, natural e espontânea. Fora daí aparecem ensaios reveladores de talento, muitos deles, porém, falhos, despidos de beleza, sem arte e sem vibração.
Temos no livro "Eu", do Sr. Augusto dos Anjos, um desses ensaios. O volume revela, sem dúvida, a existência de um robusto talento, de um poeta correto, cultivador da forma e que sabe fazer o verso sonoro e cativante.
A prova disso, encontra-se neste admirável soneto, a melhor produção de todo o livro:
O MORCEGO
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede...”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Infelizmente as demais poesias do poeta não imitam essa sonoridade, envolvendo a pureza filosófica de uma ideia tão perfeita, tão justamente elevada e frisante.
Nota-se em todas as páginas deste volume a preocupação constante de tecnologia. Os versos do Sr. Augusto dos Anjos perdem, por isso, grande parte do encanto que a fórmula lhes empresta.
Citaremos, ao acaso, alguns. Vejamos essa quadra:
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
Ora, isso, positivamente, é um amontoado de palavras difíceis e nada mais. Há ainda estas coisas:
Eu voltarei, cansado da árdua liça,
À substância inorgânica primeva
De onde, por epigênesis, veio Eva
E a estirpe radiolar chamada Actissa.
Não vale citar mais. Em todas as páginas do livro se encontram essas extravagâncias, muitas vezes atentatórias às regras da ciência.
Em compensações é, outro tanto, infeliz o autor de "Eu". Vejamos estas:
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
Outra:
Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!
Estando em Recife, num clima brasileiro, o Sr. Augusto dos Anjos afirma isto:
Da roupa pelas brechas,
O vento bravo me atirava flechas
E aplicações hiemais de gelo russo.
Não citamos mais. Todo o livro está cheio dessas ideias e dessas comparações.
O poeta é moço ainda e tem o talento bastante para abandonar essa poesia técnica, muito imprópria e muito postiça e atirar-se a outros gêneros em que possa mais belamente florir o seu verso.
Quem escreve versos como o soneto citado acima e os intitulados "Sonetos", a seu Pai, certamente tem emoção e pode vencer.
A Poesia Científica
Por Martins Junior78
Eis aí a nova fórmula, o novo credo, a nova lei, nos domínios da inspiração metrificada, na esfera das emoções sujeitas à sonoridade igual e ondulante do verso.
É convicção minha isso, e para cimentar essa convicção tenho argumentos de toda ordem, raciocínios de toda natureza.
E que os não tivesse... Bastava-me, para correr atrás dessa prometedora intuição poética, a necessidade moral de sentir e gozar uma chimásia esquisita, o desejo de provar um fruto ainda não mordido...
Da trajetória, cheia de cambiantes admiráveis, que Ela - a Poesia - tem descrito no tempo, isto é, na História; dos fenômenos artísticos que podem ser observados atualmente; dos recentes processos de exegética literária, dominados pela lei da filiação; enfim, do conjunto das idéias modernas, da orientação mental que têm tomado as civilizações mais avançadas; deduzo eu motivos para crer no evento da Poesia Científica
Vou precisar, ou antes: - vou justificar a asseveração que aí fica.
Em toda a longa desenvolução afetiva ou emocional da Humanidade, a partir do estádio iniciante do fetichismo, a Poesia tem representado um papel eminentemente útil, construtor, filosófico.
Foi preciso que a anarquia mental e moral, resultante do esfacelamento do regímen católico-feudal que jungia os povos do Ocidente, viesse, até o princípio deste século, anormalizar os espíritos, para que se pudesse negar essa verdade e ver simplesmente nas produções do gênio poético um artifício palavroso, destinado a sensibilizar o ouvido e a seqüestrar o homem das lutas intelectuais e práticas do seu tempo.
Raciocinemos:
No mais baixo degrau do primitivo estado da mentalidade humana, no período fetichista, as faculdades poetizantes, isto é, sensitivas e imaginativas, se deviam ter confundido com a potência propriamente intelectiva.
O homem fetichista, o tímido e supersticioso adorador da longínqua estrela faiscante, da grande árvore seivosa e da pedra bruta que avultava no chão, sincretizou, decerto, num só ato psíquico espontâneo, a sua compreensão intelectual dos fenômenos ambientes e as suas impressões propriamente sentimentais.
Portanto a sua poesia, se a teve, se a externou, se a compôs sob uma forma e por um modo qualquer, devia ter sido um reflexo vivo, uma quase cópia da concepção teológica do mundo na sua primeira fase.
A arte, aí, esteve, pois, estreitamente unida à ciência, à síntese filosófica que se impunha naquele tempo.
Esteve-o também, e então mais sensivelmente, no período das civilizações politéicas, que se seguiu ao primeiro.
O que são os poemas do divino Melesigenes, senão compêndios sonoros a lecionarem todo o antropomorfismo majestoso daquela filosofia e daquela religião da Grécia heróica?
Ali, a poesia, como a ciência, foi e não o podia ter deixado de ser, politeísta.
Durante toda a comprida dominação do monoteísmo católico, que substituiu as intuições greco-romanas, sempre o mesmo fato, a manifestação da mesma lei: a poesia a vulgarizar as idéias filosóficas reinantes.
Se Tomás de Aquino escrevia a Summa, encerrando inteiro em seu livro, e estereotipando nos traços de sua pena, o espírito da idade mediévica, Dante Alighieri forjava as brônzeas estrofes da Divina comédia, imortalizando as criações fantasmagóricas do inferno, do purgatório e do céu, e poetizando a teologia...
E assim por diante. Sob a Metafísica, através da Renascença, como dos pródromos da reação romântica que veio em seguida, a poesia refletiu sempre o status mental predominante.
E a diretriz que ela, com a positivação dos conhecimentos humanos, vai tomando agora, não é mais do que a acentuação dessa tendência.
De fato: o Conjunto da fenomenologia artística atual a que ainda há pouco me referi confirma, como disse, a tendência a que aludo.
Por toda a parte, na Europa inteira e nas zonas civilizadas da América, o espírito científico que se alarga vai dando lugar à eclosão de fórmulas afetivas adaptadas ao estado de positividade das inteligências. Aí estão nas manifestações literárias como na produção propriamente artística, o naturalismo, o impressionismo, etc. ...
(...)
"A Arte de hoje, creio, se quiser ser digna do seu tempo, digna do século que deu ao mundo a última das seis ciências fundamentais da classificação positiva, deve ir procurar as suas fontes de inspiração na Ciência; isto é, na generalização filosófica estabelecida por Auguste Comte sobre aqueles seis troncos principais de todo o conhecimento humano.
É para mim um princípio assentado que ao estado definitivo de positividade a que chegou a mentalidade do homem civilizado, corresponde presentemente, no domínio do sentimento, esta escola de poesia a científica.
Entendo que modernamente ela, a poesia, deve ser científica; mas científica debaixo deste ponto de vista, deste modo:
- Sentindo o influxo da concepção filosófica do universo que domina em seu tempo; enunciando as verdades gerais que decorrem para a vida social dessa concepção; mas vestindo sempre os seus ideais com as roupagens iriadas das faculdades imaginativas, e nunca deixando de obedecer à emoção poética que dá nascimento à obra de arte.
Ou antes: Quero a poesia contemporânea alimentando-se dos sentimentos filosóficos da nossa época, mas cantando-os, sem tratadizar (seja- me lícito empregar esse termo), no poema ou na ode, uma ciência particular ou uma ordem de conhecimentos especiais."
É um pedaço do prólogo das Visões de hoje, isso.
Por ele vê-se claramente, e em síntese, a compreensão que eu tenho da poesia hodierna.
Vou dar mais luz a esse meu modo de ver, que reputo justificável em extremo.
A emoção que dá origem à poesia pode manifestar-se ou no terreno dos sentimentos ou no das idéias; pode provir desta ou daquela estação do sistema nervoso. É dessa opinião o autor da Esthetique positive.
A poesia das idéias, que só o nosso século pode realizar completamente porque só nele se veio a fechar o círculo abstrato da especulação humana, é tão aceitável e legítima como a poesia dos sentimentos.
É intuitivo esse asserto.
Entretanto eu não quebro lanças simples e exclusivamente em favor da poesia das idéias, não.
Concedendo, para pôr-me de acordo com a opinião mais corrente, que o departamento da sensibilidade seja, no homem, o mais próprio para hospedar a arte e gerar as finas idealizações líricas, - tomo aqui a palavra líricas como sinônima de poéticas, penso - que, mesmo nessa circunscrição da alma, a poesia pode e deve ser científica.
A razão disto está em que existem sentimentos nascidos da difusão da ciência, correspondendo a idéias também nascidas desta. O sentimento da simpatia e amor social, por exemplo, é filho da idéia de solidariedade humana, sugerida pela meditação filosófica.
E tanto a idéia de solidariedade social, como o sentimento de amor pela coletividade, podem inspirar ou produzir poemas esplêndidos.
Mas a poesia das idéias leva com facilidade ao didaticismo, dirão...
É por isso que eu, sem a rejeitar, quero-a unida à poesia dos sentimentos científicos. Desse modo a arte nunca virá a ser a própria ciência, nem a ciência deixará alguma vez de influir sobre a arte.
Denomino a poesia, a fórmula poética do futuro, como eu a compreendo e como a quero, deste modo: - cientificismo filosófico, ou - poesia científico-filosófica.
Isto para obstar a que se faça de um livro de versos um compêndio de qualquer ciência particular abstrata ou concreta, e obstar ao mesmo tempo a que se pretenda, partindo de um ponto de vista subjetivo e especial, reduzir a poesia a um mero processus artístico de especulação lógica ou psicológica.
Somente quando estiver bem vulgarizada e aceita a compreensão verdadeira das expressões ciência e filosofia, que tendem, desde o princípio deste século, a sinonimizar-se, a se fundir, a se consubstanciar em uma só; se poderá, sem perigo, dar à poesia a qualificação única de - científica.
Mas apesar de ser isso verdade, ferido pela necessidade de matar o prejuízo que faz ver na ciência uma inimiga figadal da Poesia, eu às vezes digo apenas poesia científica, em lugar de falar na poesia científico-filosófica.O título deste livro é uma prova dessa minha imprudência.
Citando, algumas páginas atrás, Lucrécio, Ovídio, Horácio e Boileau, eu devia ter aposto a esses nomes um outro, diante do qual só o do autor da Natureza das cousas pode levantar-se orgulhoso.
Esse nome é o de João Wolfgan Goethe - o poeta e filósofo alemão, cuja radiosa cabeça encheu de faiscamentos geniais o fim do século passado e o começo do atual.
O autor do Die Leiden des Jungen Werther, com a produção do Fausto, lançou uma fúlgida ponte fecundíssima entre a concepção poética de Lucrécio e a poesia científica moderna.
É o segundo elo ou anel da formosa cadeira que se vai estendendo agora...
Dele cita Letourneau na Physiologie des passions, um magnífico trecho que mostra bem o como ele sabia ser poeta.
Para dar fim ao presente capítulo, esta síntese:
- A poesia científico-filosófica é, a meu ver, o dogma que a mentalidade atual impõe à Imaginação e Sentimento modernos.
A poesia científica, podendo romantizar, isto é, engrandecer e aformosear por meio da transformação criadora, já as idéias já os sentimentos de nossa época, alarga o círculo da atividade artística e tem a vantagem de fazer sempre do poeta um homem útil, um produtor sério.
Aí a tem, a nova intuição poética. Compreensiva, sensata e forte, ela se estende por toda a área da emocionalidade humana, abrangendo tudo.
Desde a lei astronômica da atração até o evolucionismo biológico e social, desde as generalizações da filosofia até os fatos particulares do amor, da dedicação, da coragem, do civismo, da paz, da família, da felicidade, da miséria, do crime, do patriotismo; desde a luta pela vida nos vegetais e nos animais até o conforto doce de um menage alegre e honesto; vai, ou antes, deve ir a poesia de hoje.
E essa poesia, grande, elástica, imperecível, correta, harmoniosa, sonora, não é, não pode deixar de ser outra senão a científica, a arte rítmica, moldada pela concepção positiva do mundo.
O Poeta da Morte
Por Antonio Torres9
Não venho falar de Baudelaire nem da “Charogne”.
O poeta a que me refiro é bem outro.
É um bárbaro. Nascido à sombra dos buritizais da Paraíba e falecido há pouco nas
montanhas brumosas de Minas. Falo de Augusto dos Anjos.
Era um poeta estranho, “sui generis”, no Brasil.
Estava ainda muito distante da perfeição, da “euritmia” sem a qual é impossível existir qualquer obra de arte. Ele próprio era o primeiro a reconhecê-lo. As suas ideias eram sempre grandes, mas nem sempre a expressão correspondia a grandeza do pensamento. Daí, a falta de homogeneidade da sua obra publicada, que consiste toda no seu primeiro e único livro “Eu”, dado à estampa em 1912. Era uma fiala preciosa, cheia de cheia de essência rara. A essência, porém, não podia correr abundante, dada a angústia do gargalo.
Não obstante, muitas vezes o que corria era realmente precioso. O poeta mais de uma vez, no seu livro se queixa dessa dificuldade que experimenta a linguagem humana para exprimir certas ideias e certos sentimentos, cuja amplitude, correndo nas profundezas do subconsciente em busca das claridades objetivas, é obrigada a contrair-se diante da estreiteza do Verbo e a refluir novamente para dentro de si mesmo e continuar no seu período de estação no verbo mental. A ideia, diz ele:
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!
O mesmo sentimento de Impotência verbal para exprimir a grande ideia que o atormenta está visível no soneto "O Martírio do Artista", em que, depois de descrever o seu tormento interior em busca da beleza, tal como ele a entendia, remata com esta imagem:
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!
Ele mesmo, pois, era o primeiro a reconhecer a dificuldade de justapor a palavra à grandeza de uma ideia, portanto, a re-conhecer também a imperfeição da sua obra
O autor da "Eu" era um caso realmente curioso, quase dizia, singular na literatura brasileira.
Senhor de uma cultura científica superior a sua idade e ao meio em que estudou; sabendo versificar com elegância e brilho; possuindo uma alma verdadeira de poeta e de idealista; era um monista convencido, pelo menos no princípio da tua vida. Via-se que a literatura demasiada de Haeckel e Spencer deixara-lhe um sulco profundo na inteligência.
No mundo ele via sempre as combinações cósmicas, as alianças elementares, as convulsões sísmicas. as revoluções telúricas e siderais, o amálgama de todas as forças latentes do Uni- verso, submetidas à fatalidade das leis físicas « biológicas e tendendo para a harmonia e unidade da Vida.
Era nesse materialismo que ia buscar os motivos da sua arte, fecundando-o com o seu idealismo tropical e vendo lutas e combates onde a ciência, através dos seus óculos autoritários, descobre apenas leis, princípios, fórmulas e equações.
Nem sempre o seu amor à "realidade" aparente dos fenômenos lhe dava as expressões mais felizes. Mais de uma vez o seu materialismo o fez deslizar inconscientemente em expressões brutais e imagens rebarbativas, por vezes absolutamente intoleráveis. Não as apontarei.
Entendo que a crítica não deve ser confundida com os gabinetes de anatomia, nem foi feita para ostentar monstruosidades. A sua missão é apontar para a Beleza, cultuando o heroísmo daqueles que souberam objetivá-la, principalmente em um meio ingrato e inóspito como o nosso, em que os gelos polares da indiferença, quando não as garrochas do sarcasmo, são o galardão que obtém os que nasceram marcados pela fatalidade dos sonhos e das obstruções. Crítica sistematicamente demolidora façam-na os hepáticos, os hipocondríacos, os invejosos e os despeitados.
O que torna extremamente destacado no seu meio este poeta é a ausência absoluta da tecla erótica no órgão magnífico da sua inspiração. Não cria no amor. Por isso não o decantava. Fenômeno inexplicável num homem nascido sob as ardências do nosso clima bárbaro e numa terra em que o amor ê a nota predileta da musa indígena.
Não que se deva condenar a poesia nacional por isso, uma vez que o amor ainda persiste em ser a aspiração máxima do homem, na sita busca incessante das "afinidades eletivas" para perpetuar-se na espécie. Mas a verdade é que, como observa Sully-Prudhomme no seu "Testament poétique", já antes de nós tantos outros têm cantado esse motivo do amor, que é difícil produzir criações dignas de nota em tal assunto. Desde que o lirismo despontou no Hélade, pelas idades remotas em que tentava os seus primeiros passos com os trenos, peans e himineus, desde esses tempos, anteriores a Píndaro, até hoje, a humanidade canta as dores produzidas pelo espinho de que falou Teócrito. E como essas dores são sempre as mesmas, a inspiração não muda.
Restavam aos poetas outros motivos de arte-. Deus e o mundo, o primeiro com as suas sugestões místicas e sombrias, o segundo com os seus deslumbramentos pagãos.
Deus já foi suficientemente cantado em todos os tons pelos místicos, pelos simbolistas, pelos decadentes, pelos próprios líricos. O mundo tem sido cantado, mas nos seus aspectos exteriores, nos seus fulgores superficiais, no brilho dos astros (com exceção da lua, que essa é sempre pálida, corno os treponemas), na verdura das seivas, no azul dos mares, no multicolorido das flores, na monotonia sempre nova das formas femininas... Era preciso canta-Io agora nas suas lutas interiores, animando os combates dramáticos da sua evolução orgânica da mesma forma que se dera uma vida e um corpo de imagens aos dramas do coração. Daí, dessa descrença em relação a Deus e dessa saciedade em relação ao amor, nasceu uma nova forma de arte, uma nova modalidade de poesia, que, na França, elevou tão alio Sully Prudhomme, e que, no Brasil, teve eco, sonoro mas transitório como todos os ecos, na inspiração cientifica do sr. Augusto de Lima.
Ora, Augusto dos Anjos, que, segundo parece, não cria em Deus, pelo menos como o entendem os teólogos, só podia cantar a matéria, Idealizando-a, revelando-a sob uma sábia, rutilante e sonora combinação de palavras tão bem ritmadas que adquiriam cor e movimento.
Dirão talvez que a sua filosofia era avelhentada, que ele era um sectário de Haeckel e de Spencer, quando há tanta coisa nova e digna de ser decantada. Mas a verdade (e parece certa que ela existe nas teorias evolucionistas) não tem idade. Não envelhece nunca. E eu não sei qual será mais novo: se um poeta que canta os velhos símbolos clássicos ou românticos, ou se um outro que decanta os símbolos que a ciência descobriu, há uns cinquenta anos. Desde que Lamarck, Buchner, Haeckel, Spencer, Darwin e outros da mesma escola estabeleceram em bases sólidas as suas teorias, até hoje, ainda não surgiu nenhum rumo novo apontado aos estetas, aos críticos e aos pensadores pelos homens da ciência de observação e experiência. Pelo contrário, o que se vê são tentativas para galvanizar a metafísica, feitas por filósofos de salão, como Gerhardt Hauptmann qualificou há pouco tempo o Sr. Henry Bergson, cujas obras, graças a Deus; acabam de ser postas no índice pela respectiva Congregação. Praza aos céus que a condenação nominal da "Matéria e Memória", "Dados imediatos da consciência" e "Evolução criadora" não sirvam de reclamo para o seu intolerável autor...
Augusto dos Anjos era um "monista-evolucionista-transformista".
“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Mais adiante, num belo terceto final, reconhece a unidade substancial do Universo:
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
No “Último Credo", a sua profissão de fé evolucionista é insofismável:
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular eu que ontem fui!
E, todavia, seria engano manifesto supor que este poeta, por ser materialista em filosofia, fosse material nos senti- mentos. Era um idealista na mais nobre, na mais vibrante e, digamos, na mais dramática acepção do vocábulo. Só quem a conheceu pessoalmente é que pode, sob este aspecto, julgá-lo com absoluta isenção de ânimo.
Magro, de uma magreza ascética, que lhe dava ao corpo uma aparência por assim dizer fluída; como eis próprio confessa num soneto:
Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!
De uma honestidade sem limites; de uma pureza que, neste país e nestes tempos, devia ser vibrada aos quatro ventos da terra em clarinadas triunfais por trombetas de prata; incapaz de tergiversar manhosamente no cumprimento de um dever individual, cívico ou doméstico; inacessível, impermeável às sugestões da lisonja, quer ativa, quer passiva; nunca se dando ao desporto detestável de atassalhar a reputação literária ou particular dos seus confrades que entre nós, infelizmente, é tão comum nas periódicas campanhas literárias; jamais descendo, na palestra, a esses abandonos durante os quais as palavras, em trajes menores, correm rápidas como dardos e esfuziam como coriscos; bom e leal companheiro na amizade, simples, modesto, recatado, era um tipo de admiráveis virtudes individuais. Era materialista pela cultura; idealista por temperamento.
Ora, cada vez mais nós nos devemos convencer de que a Arte é "a natureza vista através de um temperamento".
Opinião esta já bem antiga, porque Virgílio, nas "Geórgicas", no princípio daquele tão encantador livro IV, em que nos pinta a vida das abelhas como nunca o fará Maeterlinck, já reconhecia que o assunto do poema pode ser humilde; o que importa â glória do poeta é que ele tenha a inspiração apolínea:
In tenul labor; at tenuls non gloria, siquem
Numína lava slnunt auditque vocatus Apollo...
E assim que ele, o monista violento e por vezes brutal, sem sombra de necessidade, diz nos "Gemidos de Arte”:
Mas a carne é que é humana! A alma é divina.
Dorme num leito de feridas, goza
O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,
Beija a peçonha, e não se contamina!
Nota-se-lhe, então, algumas estrofes adiante, o desprezo peIas realidades chatas, embora inevitáveis, da existência:
Barulho de mandíbulas e abdomens!
E vem-me com um despreza por tudo isto
Uma vontade absurda de ser Cristo
Para sacrificar-me pelos homens!
As suas perambulações intermundiais deixavam-no insatisfeito. Era insaciável o seu desejo de ascensão. A sua vibrátil sensibilidade cada vez mais o distanciava do mundo que ele habitava. Queria subir, subir sempre, de mundo em mundo, num incessante "quaere superius", como Santo Agostinho, contemplando as estrelas numa praia aromal do Mediterrâneo:
Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...
Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!
Era um famélico da luz insuperável, das vastas amplidões iluminadas, de onde não se enxerga a chatice material da vida ordinária. Não queria ver as maravilhas e as rebarbas da existência. Trazia dentro de si um sonho interior tão grande, que só queria descortinar os amplos horizontes que aos miopes da ordem sentimental aparecem longínquos e vagamente esfumados. É que ele confessa nas "Queixas noturnas":
Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou à espera de que o Sol desponte!
(...)
As minhas roupas, quero até rompê-las!
Quero, arrancado das prisões carnais,
Viver na luz dos astros imortais,
Abraçado com todas as estrelas!
Observei desde princípio que este poeta era inacessível a inspiração erótica. Era isto, parece-me, efeito do, seu pessimismo substancial, o mesmo pessimismo leopardiano, de quem, como o poeta de Recanati, nasceu trazendo dentro em si, não a força da Vida, mas os germes deletérios da Morte; o mesmo pessimismo que o fazia detestar a Vida, como é fácil verificar compulsando o seu livro, fazia-o também ter pelo "amor' o mais profundo desprezo. Era natural. É pelo amor que se perpetua a Vida; logo. deve detestar o primeiro, que é um "meio", quem detesta a segunda, que é um "fim". Era perfeitamente lógico.
Por duas ou três vezes que ele toca no assunto é para proclamar o seu supremo desprezo não tanto pelo sentimento, como pela sensação, penso eu:
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Materialismo brutal, dirão. Enganam-se. Ainda aqui, mais uma vez, tocam a rebate todas as campanas do seu acrisolado idealismo. O que ele detestava acima de tudo era o que ele chamava os "amores fúteis". Queria o amor impossível, o sentimento puro, espiritual, fluido, etéreo, imarcescível, que para ele era:
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Eis por que lhe chamo "poeta da morte", porque não amava a Vida nem o Amor. Estava no seu direito, ou melhor, na sua fatalidade.
Quero, entretanto, antes de concluir este artigo, oferecer a gente ledora dois sonetos do poeta pouco conhecidos. O primeiro, em que ele idealiza e espiritualiza tão encantadoramente as forças universais, é o seguinte, por ele intitulado "La mento das cousas":
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos
O choro da Energia abandonada!
E a dor da Força desaproveitada,
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!
É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza.
Da luz que não chegou a ser lampejo...
E é, em suma, o subconsciente aí formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!
O segundo soneto que citarei será o derradeiro, chama-se “Último Número”; Fê-lo o poeta pouco antes da sua morte. É um soneto cabalístico, não há negá-lo. É sibilino. Que será o “último número”. Será a última vibração do seu ser em prol da Beleza? Será o último transporte das suas faculdades em direção à sua companheira – a Poesia? Será a sua derradeira aspiração a objetivar na angústia de uma estrofe todo o infinito que ele trazia dentro de si? Pode não ser nada disso e pode ser tudo isso ao mesmo tempo...
Enquanto ao soneto, ei-lo aqui:
Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
A Ideia estertorava-se... No fundo
Do meu entendimento moribundo
Jazia o Último Número cansado.
Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Como o reflexo fúnebre do Incriado:
Bradei: — Que fazes ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
Parecia dizer-me: “E tarde, amigo!
Pois que a minha autogênica Grandeza
Nunca vibrou em tua língua presa,
Não te abandono mais! Morro contigo!”
Concluamos. O que Augusto dos Anjos deixou publicado é imperfeito e pouco. Entretanto, é preciso reconhecer que há, no meio de todas as imperfeições da sua obra, extraordinárias belezas. Ele valia sobretudo pelo que era: uma revelação de artista pouco comum num meio inóspito. Quanto à quantidade, não são muitos livros ou calhamaços de um homem de letras que dão direito à estima e aos respeito dos seus pares, mas a qualidade da sua inspiração e do seu idealismo, a sua probidade literária e o seu amor pelo trabalho. E a este respeito não nos esqueçamos de que para a Academia de Letras, tem entrado singulares homens de letras que nem sequer são “unius libri”10.
Quanto às suas imperfeições, não percamos de vista que ele acaba de morrer na flor da idade e sem ter tido vagares para expungir os seus versos dos defeitos inevitáveis num primeiro livro. Depois, nem sempre a perfeição marmórea dos versos é suficiente para consagrar um artista. Uma composição poética dos versos pode ser um primor de métrica e versificação e não ter sombra de poesia. É o que sucede inúmeras vezes a Leconte de L’Isle, por exemplo, e a muitíssimos outros poetas franceses, dos quais diz Sully Prudhomme que aparecem com extraordinária precocidade, revelando-se conhecedores das mais secretas astúcias da ver- sificação, conhecendo à maravilha o seu ofício, em suma, virtuoses consumados, e, entretanto, alheios à verdadeira arte – e isto remata o grande pensador poeta, porque entre eles o npumero dos hábeis excede de muito o número dos realmente inspirados.
Eu
Monólogo de uma sombra
“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
— Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
— O metafisicismo de Abidarma —
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,
Trazendo no deserto das ideias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na ideia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
— Engrenagem de vísceras vulgares —
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável dos micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbadas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar domeretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su’alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candeeiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
É o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
— Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações táteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
— O homicídio nas vielas mais escuras,
— O ferido que a hostil gleba atra escarva,
— O último solilóquio dos suicidas —
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!”
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imenso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoletoRig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...O Inconsciente me assombra e eu nele roloCom a eólica fúria do harmatã inquieto!Assisto agora à morte de um inseto!...Ah! todos os fenômenos do soloParecem realizar de pólo a póloO ideal de Anaximandro de Mileto!No hierático areópago heterogêneoDas ideias, percorro, como um gênio,Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... Rasgo dos mundos o velário espesso;E em tudo, igual a Goethe, reconheçoO império da substância universal!
O morcego
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede...”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
A ideia
De onde ela vem? De que matéria brutaVem essa luz que sobre as nebulosasCai de incógnitas criptas misteriosasComo as estalactites duma gruta?!Vem da psicogenética e alta lutaDo feixe de moléculas nervosas,Que, em desintegrações maravilhosas,Delibera, e depois, quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe,Chega em seguida às cordas da laringe,Tísica, tênue, mínima, raquítica...Quebra a força centrípeta que a amarra,Mas, de repente, e quase morta, esbarraNo molambo da língua paralítica!
O Lázaro da pátria
Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.
Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.
Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos...
Há um cansaço no Cosmos... Anoitece.
Riem as meretrizes no Cassino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!
Idealização da humanidade futura
Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
Soneto
Ao meu primeiro filho
nascido morto com 7 meses incompletos.
2 fevereiro 1911.
Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!
Versos a um cão
Que força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!
Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar,
Dos teus antepassados vermiformes.
Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais...
E irás assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!
O deus verme
Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.
Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
Debaixo do tamarindo
No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!
Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!
As cismas do destino
I
Recife, Ponte Buarque de Macedo.Eu, indo em direção à casa do Agra,Assombrado com a minha sombra magra,Pensava no Destino, e tinha medo!Na austera abóbada alta o fósforo alvoDas estrelas luzia... O calçamentoSáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,Copiava a polidez de um crânio calvo.Lembro-me bem. A ponte era comprida,E a minha sombra enorme enchia a ponte,Como uma pele de rinoceronteEstendida por toda a minha vida!A noite fecundava o ovo dos víciosAnimais. Do carvão da treva imensaCaía um ar danado de doençaSobre a cara geral dos edifícios!Tal uma horda feroz de cães famintos,Atravessando uma estação deserta,Uivava dentro do eu, com a boca aberta,A matilha espantada dos instintos!Era como se, na alma da cidade,Profundamente lúbrica e revolta,Mostrando as carnes, uma besta soltaSoltasse o berro da animalidade.E aprofundando o raciocínio obscuro,Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,O trabalho genésico dos sexos,Fazendo à noite os homens do Futuro.Livres de microscópios e escalpelos,Dançavam, parodiando saraus cínicos,Bilhões de centrossomas apolínicosNa câmara promíscua do vitellus.Mas, a irritar-me os globos oculares,Apregoando e alardeando a cor nojenta,Fetos magros, ainda na placenta,Estendiam-me as mãos rudimentares!Mostravam-me o apriorismo incognoscívelDessa fatalidade igualitária,Que fez minha família origináriaDo antro daquela fábrica terrível!A corrente atmosférica mais forteZunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,Julgava eu ver o fúnebre candeeiroQue há de me alumiar na hora da morte.Ninguém compreendia o meu soluço,Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,O vento bravo me atirava flechasE aplicações hiemais de gelo russo.A vingança dos mundos astronômicosEnviava à terra extraordinária faca,Posta em rija adesão de goma lacaSobre os meus elementos anatômicos.Ah! Com certeza, Deus me castigava!Por toda a parte, como um réu confesso,Havia um juiz que lia o meu processoE uma forca especial que me esperava!Mas o vento cessara por instantesOu, pelo menos, o ignis sapiens do OrcoAbafava-me o peito arqueado e porcoNum núcleo de substâncias abrasantes.É bem possível que eu um dia cegue.No ardor desta letal tórrida zona,A cor do sangue é a cor que me impressionaE a que mais neste mundo me persegue!Essa obsessão cromática me abate.Não sei por que me vêm sempre à lembrançaO estômago esfaqueado de uma criançaE um pedaço de víscera escarlate.Quisera qualquer coisa provisóriaQue a minha cerebral caverna entrasse,E até ao fim, cortasse e recortasseA faculdade aziaga da memória.Na ascensão barométrica da calma,Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,Que uma população doente do peitoTossia sem remédio na minh’alma!E o cuspo que essa hereditária tosseGolfava, à guisa de ácido resíduo,Não era o cuspo só de um indivíduoMinado pela tísica precoce.Não! Não era o meu cuspo, com certezaEra a expectoração pútrida e crassaDos brônquios pulmonares de uma raçaQue violou as leis da Natureza!Era antes uma tosse ubíqua, estranha,Igual ao ruído de um calhau redondoArremessado no apogeu do estrondo,Pelos fundibulários da montanha!E a saliva daqueles infelizesInchava, em minha boca, de tal arte,Que eu, para não cuspir por toda a parte,Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!Na alta alucinação de minhas cismas,O microcosmos líquido da gotaTinha a abundância de uma artéria rota,Arrebatada pelos aneurismas.Chegou-me o estado máximo da mágoa!Duas, três, quatro, cinco, seis e seteVezes que eu me furei com um canivete,A hemoglobina vinha cheia de água!Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,Sob a forma de mínimas camândulas,Benditas sejam todas essas glândulas,Que, quotidianamente, te segregam!Escarrar de um abismo noutro abismo,Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,Há mais filosofia neste escarroDo que em toda a moral do cristianismo!Porque, se no orbe oval que os meus pés tocamEu não deixasse o meu cuspo carrasco,Jamais exprimiria o acérrimo ascoQue os canalhas do mundo me provocam! IIFoi no horror dessa noite tão funéreaQue eu descobri, maior talvez que Vinci,Com a força visualística do lince,A falta de unidade na matéria!Os esqueletos desarticulados,Livres do acre fedor das carnes mortas,Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,Numa dança de números quebrados!Todas as divindades malfazejas,Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos,Imitando o barulho dos engasgos,Davam pancadas no adro das igrejas.Nessa hora de monólogos sublimes,A companhia dos ladrões da noite,Buscando uma taverna que os açoite,Vai pela escuridão pensando crimes.Perpetravam-se os atos mais funestos,E o luar, da cor de um doente de icterícia,Iluminava, a rir, sem pudicícia,A camisa vermelha dos incestos.Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,Um sugestionador olho, ali postoDe propósito, para hipnotizar-me!Em tudo, então, meus olhos distinguiram,Da miniatura singular de uma aspaÀ anatomia mínima da caspa,Embriões de mundos que não progrediram!Pois quem não vê aí, em qualquer rua,Com a fina nitidez de um claro jorro,Na paciência budista de cachorroA alma embrionária que não continua?!Ser cachorro! Ganir incompreendidosVerbos! Querer dizer-nos que não finge,E a palavra embrulhar-se na laringe,Escapando-se apenas em latidos!Despir a putrescível forma tosca,Na atra dissolução que tudo inverte,Deixar cair sobre a barriga inerteO apetite necrófago da mosca!A alma dos animais! Pego-a, distingo-a,Acho-a nesse interior duelo secretoEntre a ânsia de um vocábulo completoE uma expressão que não chegou à língua!Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos,Nos antiperistálticos abalosQue produzem nos bois e nos cavalosA contração dos gritos instintivos!Tempo viria, em que, daquele horrendoCaos de corpos orgânicos disformesRebentariam cérebros enormes,Como bolhas febris de água, fervendo!Nessa época que os sábios não ensinam,A pedra dura, os montes argilososCriariam feixes de cordões nervososE o neuroplasma dos que raciocinam!Almas pigmeias! Deus subjuga-as, cinge-asÀ imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O,E o meu sonho crescia no silêncio,Maior que as epopeias carolíngias!Era a revolta trágica dos tiposOntogênicos mais elementares,Desde os foraminíferos dos maresÀ grei liliputiana dos pólipos.Todos os personagens da tragédia,Cansados de viver na paz de Buda,Pareciam pedir com a boca mudaA ganglionária célula intermédia.A planta que a canícula ígnea torra,E as coisas inorgânicas mais nulasApregoavam encéfalos, medulasNa alegria guerreira da desforra!Os protistas e o obscuro acervo rijoDos espongiários e dos infusóriosRecebiam com os seus órgãos sensóriosO triunfo emocional do regozijo!E apesar de já ser assim tão tarde,Aquela humanidade parasita,Como um bicho inferior, berrava, aflita,No meu temperamento de covarde!Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso,Vi que, igual a um amniota subterrâneo,Jazia atravessada no meu crânioA intercessão fatídica do atraso!A hipótese genial do microzimaMe estrangulava o pensamento guapo,E eu me encolhia todo como um sapoQue tem um peso incômodo por cima!Nas agonias do delirium-tremens,Os bêbedos alvares que me olhavam,Com os copos cheios esterilizavamA substância prolífica dos sêmens!Enterravam as mãos dentro das goelas,E sacudidos de um tremor indômitoExpeliam, na dor forte do vômito,Um conjunto de gosmas amarelas.Iam depois dormir nos lupanaresOnde, na glória da concupiscência,Depositavam quase sem consciênciaAs derradeiras forças musculares.Fabricavam destarte os bastodermas,Em cujo repugnante receptáculoMinha perscrutação via o espetáculoDe uma progênie idiota de palermas.Prostituição ou outro qualquer nome,por tua causa, embora o homem te aceite,É que as mulheres ruins ficam sem leiteE os meninos sem pai morrem de fome!Por que há de haver aqui tantos enterros?Lá no “Engenho” também, a morte é ingrata...Há o malvado carbúnculo que mataA sociedade infante dos bezerros!Quantas moças que o túmulo reclama!E após a podridão de tantas moças,Os porcos espojando-se nas poçasDa virgindade reduzida à lama!Morte, ponto final da última cena,Forma difusa da matéria embele,Minha filosofia te repele,Meu raciocínio enorme te condena!Diante de ti, nas catedrais mais ricas,Rolam sem eficácia os amuletos,Oh! Senhora dos nossos esqueletosE das caveiras diárias que fabricas!E eu desejava ter, numa ânsia rara,Ao pensar nas pessoas que perdera,A inconsciência das máscaras de ceraQue a gente prega, com um cordão, na cara!Era um sonho ladrão de submergir-meNa vida universal, e, em tudo imerso,Fazer da parte abstrata do Universo,Minha morada equilibrada e firme!Nisto, pior que o remorso do assassino,Reboou, tal qual, num fundo de caverna,Numa impressionadora voz interna,O eco particular do meu Destino; III“Homem! por mais que a Ideia desintegres,Nessas perquisições que não têm pausa,Jamais, magro homem, saberás a causaDe todos os fenômenos alegres!Em vão, com a bronca enxada árdega, sondasA estéril terra, e a hialina lâmpada oca,Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)O conteúdo das lágrimas hediondas.Negro e sem fim é esse em que te mergulhaslugar do Cosmos, onde a dor infreneÉ feita como é feito o queroseneNos recôncavos úmidos das hulhas!Porque, para que a Dor perscrutes, foraMister que, não como és, em síntese, antesFosses, a refletir teus semelhantes,A própria humanidade sofredora!A universal complexidade é que ElaCompreende. E se, por vezes, se divide,Mesmo ainda assim, seu todo não resideNo quociente isolado da parcela!Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!Das papilas nervosas que há nos tatosVeio e vai desde os tempos mais transatosPara outros tempos que hão de vir ainda!Como o machucamento das insôniasTe estraga, quando toda a estuada IdeiaDás ao sôfrego estudo da ninfeiaE de outras plantas dicotiledôneas!A diáfana água alvíssima e a hórrida áscuaQue da ígnea flama bruta, estriada, espirra;A formação molecular da mirra,O cordeiro simbólico da Páscoa;As rebeladas cóleras que rugemNo homem civilizado, e a ele se prendemComo às pulseiras que os mascates vendemA aderência teimosa da ferrugem;O orbe feraz que bastos tojos acresProduz; a rebelião, que na batalha,Deixa os homens deitados, sem mortalha,Na sangueira concreta dos massacres;Os sanguinolentíssimos chicotesDa hemorragia; as nódoas mais espessas,O achatamento ignóbil das cabeças,Que ainda degrada os povos hotentotes;O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojoEntra, à espera que a mansa vítima o entre,— Tudo que gera no materno ventreA causa fisiológica do nojo;As pálpebras inchadas na vigília,As aves moças que perderam a asa,O fogão apagado de uma casa,Onde morreu o chefe da família;O trem particular que um corpo arrastaSinistramente pela via férrea,A cristalização da massa térrea,O tecido da roupa que se gasta;A água arbitrária que hiulcos caules grossosCarrega e come; as negras formas feiasDos aracnídeos e das centopeias,O fogo-fátuo que ilumina os ossos;As projeções flamívomas que ofuscam,Como uma pincelada rembrandtesca,A sensação que uma coalhada frescaTransmite às mãos nervosas dos que a buscam;O antagonismo de Tífon e Osíris,O homem grande oprimindo o homem pequeno,A lua falsa de um parasseleno,A mentira meteórica do arco-íris;Os terremotos que, abalando os solos,Lembram paióis de pólvora explodindo,A rotação dos fluidos produzindoA depressão geológica dos pólos;O instinto de procriar, a ânsia legítimaDa alma, afrontando ovante aziagos riscos,O juramento dos guerreiros priscosMetendo as mãos nas glândulas da vítima;As diferenciações que o psicoplasmaHumano sofre na mania mística,A pesada opressão característicaDos dez minutos de um acesso de asma;E, (conquanto contra isto ódios regougues)A utilidade fúnebre da cordaQue arrasta a rês, depois que a rês engorda,À morte desgraçada dos açougues...Tudo isto que o terráqueo abismo encerraForma a complicação desse barulhoTravado entre o dragão do humano orgulhoE as forças inorgânicas da terra!Por descobrir tudo isso, embalde cansas!Ignoto é o gérmen dessa força ativaQue engendra, em cada célula passiva,A heterogeneidade das mudanças!Poeta, feto malsão, criado com os sucosDe um leite mau, carnívoro asqueroso,Gerado no atavismo monstruosoDa alma desordenada dos malucos;Última das criaturas inferioresGovernada por átomos mesquinhos,Teu pé mata a uberdade dos caminhosE esteriliza os ventres geradores!O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,Análogo é ao que, negro e a seu turno,Traz o ávido filóstomo noturnoAo sangue dos mamíferos vorazes!Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhesA perfeição dos seres existentes,Hás de mostrar a cárie dos teus dentesNa anatomia horrenda dos detalhes!O Espaço — esta abstração spencereanaQue abrange as relações de coexistênciaÉ só! Não tem nenhuma dependênciaCom as vértebras mortais da espécie humana!As radiantes elipses que as estrelasTraçam, e ao espectador falsas se antolhamSão verdades de luz que os homens olhamSem poder, no entretanto, compreendê-las.Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes,Que essa mão, de esqueléticas falanges,Dentro dessa água que com a vista abranges,Também prova o princípio de Arquimedes!A fadiga feroz que te esbordoaHá de deixar-te essa medonha marca,Que, nos corpos inchados de anasarca,Deixam os dedos de qualquer pessoa!Nem terás no trabalho que tivesteA misericordiosa toalha amiga,Que afaga os homens doentes de bexigaE enxuga, à noite, as pústulas da peste!Quando chegar depois a hora tranquila,Tu serás arrastado, na carreira,Como um cepo inconsciente de madeiraNa evolução orgânica da argila!Um dia comparado com um milênioSeja, pois, o teu último Evangelho...É a evolução do novo para o velhoE do homogêneo para o heterogêneo!Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largoA apodrecer!... És poeira e embalde vibras!O corvo que comer as tuas fibrasHá de achar nelas um sabor amargo!” IVCalou-se a voz. A noite era funesta.E os queixos, a exibir trismos danados,Eu puxava os cabelos desgrenhadosComo o Rei Lear, no meio da floresta!Maldizia, com apóstrofes veementes,No estentor de mil línguas insurretas,O convencionalismo das PandetasE os textos maus dos códigos recentes!Minha imaginação atormentadaParia absurdos... Como diabos juntos,Perseguiam-me os olhos dos defuntosCom a carne da esclerótica esverdeada.Secara a clorofila das lavouras.Igual aos sustenidos de uma endecha,Vinha-me às cordas glóticas a queixaDas coletividades sofredoras.O mundo resignava-se invertidoNas forças principais do seu trabalho...A gravidade era um princípio falho,A análise espectral tinha mentido!O Estado, a Associação, os MunicípiosEram mortos. De todo aquele mundoRestava um mecanismo moribundoE uma teleologia sem princípios.Eu queria correr, ir para o inferno,Para que, da psique no oculto jogo,Morressem sufocadas pelo fogoTodas as impressões do mundo externo!Mas a Terra negava-me o equilíbrio...Na Natureza, uma mulher de lutoCantava, espiando as árvores sem fruto,A canção prostituta do ludíbrio!
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