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Alberto Pimentel

A guerrilha de Frei Simão

Romance historico


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412654

Índice de conteúdo

DUAS PALAVRAS

I Flor do Támega

II Adeus ao convento

III Loucura revolucionaria

IV A iniciação

V O Fresca Ribeira

VI Uma nuvem em ceu azul

VII Angustias

VIII Entre ferros

IX Ultimo desengano

X Morte redemptora

XI Borrasca de ciume

XII Separação inesperada

XIII O oráculo

XIV Á Porta Férrea

XV Politica de estudantes

XVI Falso triumpho

XVII O crime do Cartaxinho

XVIII Væ victis

XIX A caça ao homem

XX Nas garras da vingança

XXI O napoleão de ouro

XXII A paralytica

XXIII Previsão do frade

XXIV A organisação da guerrilha

XXV José Maximo

XXVI Deus escreve direito por linhas tortas

XXVII Os fusilamentos de Vizeu

XXVIII Epilogo

DUAS PALAVRAS

Índice de conteúdo

Passei o dia 9 de setembro de 1894, em Cezár, na casa onde nasceu frei Simão de Vasconcellos, o protagonista d’este romance. A amavel hospedagem com que alli me recebeu o sr. Alfredo Praça de Vasconcellos, bacharel em mathematica pela Universidade de Coimbra e sobrinho de frei Simão, largamente me compensou dos incommodos da jornada. Eu ia, mediante prévia auctorisação, colhêr informações directas sobre um assumpto que me indicára em Lisboa o meu illustre amigo o sr. visconde de Villa Mendo: o assumpto d’este livro, cujos pormenores estudei com desvelada exactidão.

Á roda do meu primoroso hospedeiro estavam reunidos em grupo todos os velhos de Cezár que ainda tinham conhecido frei Simão de Vasconcellos. Trez apenas. Ouvi da sua bôca a narração de interessantes minucias biographicas. Por favor do sr. Vasconcellos compulsei varios documentos de familia, posteriores ao auto-de-fé em que as justiças miguelistas pulverisaram o archivo da sua casa.

Creio que este romance deverá o «sens du réel», que porventura o vitalise, á profunda impressão que recebi, n’esse dia, em visita ao solar do Outeiro, sob os tectos que abrigaram parte da atormentada existencia de frei Simão; e em passeio pelos campos de Cezár, acompanhado pelos ultimos contemporaneos do frade guerrilheiro, que paravam reatando lembranças, mencionando logares e factos, e cujos cabellos brancos se doiravam a espaços com algum alado raio de sol que luciolava os frócos verdes do arvoredo.

Procurando, no pouco que me era possivel, retribuir a patriarchal cordealidade da hospedagem, pedi licença ao sr. Alfredo de Vasconcellos para lhe offerecer este romance,—a historia da sua familia.

Vi que as lagrimas lhe saltavam dos olhos n’esse momento. Olhando fito em mim com o olhar embaciado, o sr. Vasconcellos respondeu-me:

—Comprehendo a sua intenção, e agradeço-lh’a. Mas se v. quer dedicar o seu livro a um parente do frade do Outeiro, peço-lhe que o offereça á memoria de meu pobre irmão, o major Augusto Cezár de Vasconcellos, morto na mallograda revolta de Braga em 1862, no cumprimento do seu dever.

E as lagrimas abafavam-n’o n’uma commoção torturada.

É pois á memoria d’esse infeliz sobrinho de frei Simão de Vasconcellos que eu dedico a chronica fiel da attribulada existencia e corajosa morte do tio.

Outras jornadas emprehendi por amor da verdade historica. Duas vezes tive de ir á Villa da Feira para reconstruir o episodio da evasão de frei Simão de Vasconcellos, da cadeia d’aquella villa.

Da primeira vez não pude colhêr as informações que desejava. A memoria dos velhos sobreviventes estava confusa e hesitante, quasi apagada. Da segunda vez, caminhei ao acaso, dirigindo-me, por palpite ou intuição, ao primeiro homem encanecido que encontrei. Felizmente, elle poude indicar-me a pessoa que reputava habilitada para esclarecer-me. Assim fiz; e assim foi.

Desde essa hora, o romance estava completo. E, emquanto o escrevia, eu comprehendia a exacta affirmação, que aos indifferentes de hoje parecerá arrojada hyperbole, contida n’esta phrase de Alexandre Herculano: «A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico d’este seculo.»

Lisboa, 13 de junho de 1895.

Alberto Pimentel.


I
Flor do Támega

Índice de conteúdo

Amor quiz.................

Unir vontades que separa a guerra.

Braz Garcia de Mascarenhas—«Viriato tragico», canto XVIII.

Os Vasconcellos, de Cezár, gente de boa raça, aparentados com muitas familias illustres, entre as quaes os Pintos de Parámos, os Tavares e Pereiras da Terra da Feira e os Côrte-Reaes de Gafanhão, tinham como representante, no fim do seculo passado, José Bernardo Pereira de Vasconcellos, marido de D. Anna Margarida de Almeida Cabral.

D’este casamento nasceram cinco filhos e quatro filhas.

Sobejavam a José Bernardo meios de farta subsistencia para tão numerosa próle, pois que as suas propriedades se estendiam desde Cezár, na comarca da Feira, até á villa de Arouca, onde possuia a quinta do Outeiral.

José Bernardo fixára residencia, depois de casado, na casa do Outeiro, em Cezár, e, graças á sua abastança, podéra dar uma collocação decente aos cinco filhos varões, destinando uns á vida monastica, outros á carreira das armas, segundo a tradição grada d’aquelle tempo.

Simão, que nascêra a 28 de setembro de 1789, entrou na ordem de S. Bernardo, e professou em Alcobaça. José vestiu o habito benedictino no mosteiro de Refoyos de Basto.

Joaquim Maria e Frederico sentaram ambos praça no regimento de infanteria 6. Eram duas creanças, quando em 1808 foram reconhecidos cadetes. Fizeram a guerra peninsular, sendo Joaquim Maria gravemente ferido, em uma perna, na acção de 31 de julho de 1813.

Antonio, o filho mais novo, ficou, em rasão de sua pouca idade, sob a tutella paterna, quando os irmãos, seguindo cada qual seu destino, se ausentáram da casa do Outeiro.

No fim do anno de 1814, Joaquim Maria foi promovido a tenente para infanteria 13. Mas obteve depois transferencia de arma, passando a servir em cavallaria.

Frederico era, em 1819, alferes ajudante de infanteria 18, aquartelada no Porto. Casando com D. Margarida Fontana, pediu a demissão, pura e simples. Mas o governo concedeu-lhe a reforma em attenção aos bons serviços, que tinha prestado durante a guerra peninsular. Devia ter sido o coronel commandante d’aquelle regimento, Bernardo Corrêa de Castro e Sepulveda, dedicado protector de Frederico Pinto, quem, junto do governo, interveio para que a demissão fosse substituida pela reforma.

Em 1820 rebentava a revolução liberal do Porto, e Frederico, apesar de ter renunciado á vida militar, interessou-se, com enthusiasmo e convicção, pelo bom exito do movimento revolucionario, que os portuenses haviam preparado.

É de presumir que as ligações de Frederico com o coronel Sepulveda o acirrassem nos ideaes do constitucionalismo.

Joaquim Maria, promovido a capitão e collocado em cavallaria 6, dragões de Chaves, resistiu, obstinado, ás suggestões absolutistas dos Silveiras, recusou-se em 1823 a acompanhal-os no movimento que principiou em Villa Real no dia da procissão de Passos.

Seriam apenas rasões de caracter politico as que crearam ao capitão de dragões essa dura situação de intransigencia em que teimosamente se conservou até á morte?

Não. Quando um homem pertinazmente salta por cima de todas as conveniencias pessoaes, com os olhos fechados, esse homem obedece, por via de regra, mais ao impulso do coração que do espirito.

N’aquella epocha de fluctuações e incertezas politicas, as opiniões transformavam-se com os acontecimentos do dia, ao sabor dos interesses de cada individuo ou de cada familia. O proprio monarcha dava o exemplo aos que o tinham visto jurar a constituição nas Necessidades e haviam de vêr depois ir a Villa Franca ao encontro do filho. Mas os que não abdicavam de suas crenças, e preferiam o martyrio á transigencia, esses tinham o coração dilacerado por algum golpe profundo, que resultára de vinganças partidarias exercidas contra elles mesmos ou contra as suas familias.

As feridas do corpo podem esquecer-se, depois que cicratisáram; mas as da alma parece reverdecerem com o tempo.

Joaquim Maria de Vasconcellos amára em Chaves uma menina, sobrinha de um abastado proprietario realista.

Ahi por 1822 o idyllio derivava mansamente, meio velado pelo disfarce com que o capitão de dragões queria occultar um segredo, que punha em xeque as suas convicções politicas, aliás notorias.

André Pinto, o tio da menina, era absolutista ferrenho, muito nas boas graças dos Silveiras; pessoa de tamanha confiança para elles, que não duvidavam encarregal-o de importantes commissões politicas.

Não tendo filhos, a sua herdeira presumptiva era a sobrinha, uma rosada transmontana de vinte annos, vasada nos moldes das mulheres fortes d’aquella provincia alpestre, onde o ar, coado atravez das montanhas, é puro e salubérrimo.

Não tinha que vêr com a vaporosa idealisação da Margarida de Gœthe aquella Margarida Candida, de Chaves, a quem Antonio da Silveira, futuro visconde de Canellas, pozera a alcunha de Flor do Támega com uma galanteria alfacinha que tinha aprendido em Lisboa, durante os tormentosos dias em que, como presidente da junta do Porto, fez parte do governo constitucional, de arrependida memoria para elle.

Realmente, floria nas faces de Margarida Candida, presumptiva herdeira do abastado André Pinto, o carmim vivo dos cravos e das papoulas. Não era a mulher que parece quebrar pela cintura, flexivel como a haste de um lirio. Tinha a belleza da saude e da mocidade, algo serrana, mas esculptural.

Joaquim Maria era um guapo homem. Alguns velhos de Cezár affirmam ainda hoje que fôra «o homem mais bonito do seu tempo.» A farda de capitão de dragões e o garbo militar com que sabia uzal-a, davam realce aos dotes physicos que o distinguiam. Fica pois cabalmente explicada a fascinação que elle exerceu no espirito de Margarida Candida, apesar de ser alguns annos mais velho do que ella.

Mas o amor, se não conhece idades, desconhece tambem as balisas partidarias, que extremam os campos politicos.

Assim foi que Joaquim Maria, tão constitucional como todos os seus irmãos, á excepção de frei José, que era realista, se deixou captivar da graça desaffectada da sobrinha de André Pinto, silveirista da gemma.

A mascara do disfarce cahiu, logo que as lavas do amor vulcanisáram o coração dos dois namorados.

André Pinto percebeu a inclinação da sobrinha, contra a qual rompeu em desabridos improperios por amar um pedreiro-livre.

Pretendeu desacreditar a familia de Joaquim Maria e, por isso, dizia em voz alta que José Bernardo de Vasconcellos era filho de uma camponeza de Santa Christina de Mansores, chamada Maria Josepha.

Um flaviense de boa fé, muito intimo do fidalgo de Paiva, Martinho Pinto de Miranda Corrêa Montenegro, contestou que, por este seu amigo, sabia de sciencia certa que o avô de Joaquim Maria mandára educar o filho, e o deixára seu herdeiro; que, não obstante a creança ter sido baptisada como filho de paes incognitos, José Bernardo requerêra e obtivera a legitimação em 1819.

André Pinto barafustou contra esta réplica, insistindo em depreciar a linhagem do capitão de dragões.

Mas o flaviense escreveu ao fidalgo de Paiva, o qual lhe respondeu por escripto, dizendo:

«Muitas vezes ouvi a meu pae, o sr. Bernardo José Pinto Montenegro, encarecer a genealogia do avô e pae de Joaquim Maria de Vasconcellos, nossos parentes. São legitima geração de Sebastião Lopes Godinho, da casa de Cezár, homem muito fidalgo e descendente de Gil Garcia, e de João Carvalho, fidalgo da casa d’el-rei D. João III, casado com D. Anna Mendes de Vasconcellos. A familia de Joaquim Maria está aparentada com a melhor nobreza da sua comarca e provincia, e eu honro-me de ser seu parente.

«A legitimação de José Bernardo fez-se segundo o disposto nas leis canonicas e civis. Nada ha que se lhe oppôr, a não ser qualquer má vontade acintosa.»

O flaviense mostrou esta carta em Chaves, e André Pinto, vendo-se contraditado, mudou de rumo, no empenho de combater o capitão de dragões por qualquer outro modo, mais efficaz e menos contestavel.

Enfurecido com o mallogro da sua propaganda de descredito contra a familia de Joaquim Maria, correu as casas de muitos dos seus amigos politicos, desabafando a berros desentoados.

Um d’elles, que gostava de recorrer a processos summarios quando liquidava contas com inimigos, disse-lhe peremptoriamente:

—Homem! não ha nada como cortar as questões pela raiz!

—Mas a difficuldade está em desaterrar a raiz...

—Ora adeus! A raiz d’esta questão é o amor de tua sobrinha ao capitão Joaquim Maria. É ou não é?

—Certamente que sim.

—Já vês que ficam assim muito simplificadas as coisas...

—Não percebo! Eu não as vejo nada simplificadas!

—Oh! homem! O capitão é a causa da inquietação em que vives, porque sendo nosso adversario politico, dos mais intransigentes, fez andar á roda a cabeça de tua sobrinha. É ou não é?

—Pois é mesmo! E d’ahi?

—Ora se o capitão desapparecer, tua sobrinha não ha de ficar eternamente a amar um morto... Percebes?

—Percebo.

—O que dizes então?

—Que para isso não precisava eu de vir pedir-te conselho. É conveniente proceder com certa diplomacia, chegar a uma solução sem assumir publicamente a responsabilidade d’ella. Este negocio, encabeçado em politica, corria melhor.

—Bem entendo. Gostas de pannos quentes. Pois eu cá não sou d’esses.

—É certo que o capitão me desinquieta a sobrinha, e este negocio é particular, apenas diz respeito á minha familia. Mas, por outro lado, o capitão é nosso adversario politico, e procede acintosamente para me desgostar. Entendo, pois, que o negocio deve ser resolvido sob o ponto de vista das conveniencias partidarias...

—N’esse caso, vae consultar os Silveiras. Elles que te aconselhem, que teem obrigação de o fazer.

André Pinto foi a Villa Real consultar o conde de Amarante, mas com tanta infelicidade que, quando entrou na casa da Calçada, estava Manoel da Silveira n’um dos seus dias de obumbramento intellectual.

O conde ouviu-o, e não respondeu nada.

André Pinto sahiu dizendo com os seus botões:

—Está hoje tolo de todo! Fallei com uma pedra.

Lembrou-se de ir á quinta de Canellas consultar Antonio da Silveira, que era mais atilado do que o sobrinho.

Expoz lhe o negocio. O fidalgo respondeu com promptidão:

—O que me diz, sr. André Pinto, envolve uma questão politica, que é preciso ter em vista.

—Diz v. ex.ª muito bem. Assim mesmo é que é. Devemos proceder todos de accôrdo.

—Ora, attendendo ás rasões politicas, sou de parecer que o capitão Joaquim Maria não deve ser perseguido.

—Como?! perguntou, fulminado, André Pinto.

—O que a mulher não conseguir, ninguem o consegue! disse axiomaticamente o tio do conde de Amarante. Eu me explico. Talvez o amor consiga trazer insensivelmente o capitão ao nosso gremio. O amor costuma fazer milagres.

—Nunca de bom christão bom mouro, nem de bom mouro bom christão! replicou, triumphantemente a seu vêr, André Pinto.

Antonio da Silveira, que enxergou n’esta phrase uma grosseira allusão ao seu breve transito pelo constitucionalismo, replicou de sobrecenho carregado:

—Todos os homens podem reconsiderar, quando não sejam tolos ou maus. Adeus, sr. André Pinto.

O tio de Margarida Candida sahiu recuando, ás mesuras, sem ter percebido bem o motivo do subito agastamento do fidalgo de Canellas.

O que é certo é que esta replica mal-humorada assegurou a vida de Joaquim Maria.

André Pinto, em caminho de Chaves, matutou na rasão que teria Antonio da Silveira para esperar um possivel reviramento politico do capitão de dragões e, sem ousar oppôr-se formalmente á opinião do ex-presidente da junta do Porto sobre a reconsideração dos homens, não deixou de achar um pouco duro que se comprassem silveiristas á custa do dinheiro que era seu, e que a sobrinha devia herdar.

Comtudo, tendo sahido de casa acceso em colera contra Margarida Candida e o capitão, voltou, depois do que se passára com Antonio da Silveira na quinta de Canellas, menos bravo, se bem que visivelmente concentrado.

Logo que teve ensejo, chamou á puridade uma criada a quem confidencialmente havia encarregado de vigiar, na sua ausencia, todos os passos de Margarida Candida.

—Ella viu-o? perguntou de afogadilho André Pinto.

—Viu-o, sim senhor. Viu-o do muro do quintal.

—E tu então que «fizestes»?

—Eu fui logo a correr, e disse-lhe: «Menina, veja o que faz, não queira dar mais desgostos a seu tio».

—E ella o que respondeu?

—Ora o que respondeu?! Disse-me assim: «Eu cá não faço mal a ninguem. Meu tio tambem namorou.»

—Mentira! replicou André Pinto. O meu casamento foi fallado. Não sabias responder-lhe?

—Eu sabia cá, sr. André! Uma pessoa fica ás vezes embuchada com certas respostas.

—És uma lesma! Tu e um pannal de palha valem o mesmo.

André Pinto ficou a pensar no caso e de si para si julgava-se ainda mais tolo do que a criada.

—Andei em correrias, reflexionava elle, e emquanto andei por lá, a rapariga fazia-me o ninho atraz da orelha. Se não tenho ido a Canellas, estava habilitado a tomar a resolução, que muito bem me parecesse. Assim, fiquei preso ao conselho de Antonio da Silveira, com os braços atados. Preciso encher-me de rasão para levar o fidalgo a mudar de parecer. O que me resta fazer é ficar de atalaya sem espantar a caça. Custa; mas não ha remedio, depois do que se passou em Canellas.

Margarida Candida desconfiou da inesperada metamorphose de brandura, que se tinha operado no tio; teve medo de que occultasse alguma perfidia machiavelica.

Apezar da vigilancia de André Pinto, ella encontrava sempre meios de a illudir. Ás noites, quando o tio ia concertar com os outros silveiristas o plano da contra-revolução restauradora que devia rebentar em Traz-os-Montes, Margarida Candida, subindo ao muro do quintal, trocava de fugida algumas palavras com o capitão.

O assumpto d’esses rapidos dialogos continuava a ser a reserva, apparentemente bonançosa, em que André Pinto se mantinha.

O capitão de dragões, apezar de querer tranquillisar o espirito de Margarida Candida, denunciava-se, involuntariamente, tambem apprehensivo e receioso, porque bem sabia elle que os odios politicos em Chaves, quando por momentos se acalmavam, resurgiam a breve trecho mais rancorosos.

E acabando por confessar um ao outro as suas apprehensões, suspeitavam de desgraça imminente; mas separavam-se jurando inabalavel constancia, por maiores que fossem os tormentos por que ambos houvessem de passar.

Mal podiam suppôr que a metamorphose de André Pinto fosse devida á entrevista com Antonio da Silveira, então adversario politico de todos os constitucionaes, porque se desaviera com elles em Lisboa, a ponto de ter sido mandado recolher, no meio de uma escolta, á quinta de Canellas.

O capitão de dragões conheceu que estava sobre um vulcão, mas o seu coração não vacillou um momento. Acontecesse o que acontecesse, Margarida Candida continuaria a ser a unica mulher capaz de o fazer affrontar a morte, se tanto fosse preciso.

Graças á lembrança de Antonio da Silveira, chamavam-lhe a ella a Flôr do Támega. Pois bem! esse valoroso capitão de cavallaria 6, que tinha vindo das campanhas da guerra peninsular, em que tantas vezes encarára a morte de perto, estava resolvido a tomar por divisa, no resto da sua vida, a bella Margarida do jardim feminino de Traz-os-Montes, e a defendel-a até ao sacrificio com o heroismo dos cavalleiros da idade-media, tão romanescos como destemidos.



II
Adeus ao convento

Índice de conteúdo

...e lhe deram os vestidos seculares, que requereu ancioso de proseguir os actos da sua liberdade por que suspirava.

Frei Antonio da Piedade—«Espelho de penitentes», tom. I.

As quatro filhas de José Bernardo de Vasconcellos chamavam-se Maria Albina, Anna José, Antonia, e Maria Henriqueta.

Todas ellas lindas mulheres, parecendo ser a belleza apanagio de familia, tanto nas senhoras como nos homens.

Maria Albina era a mais velha.

Anna José, branca como as irmãs, tinha como ellas uns olhos de purissimo azul, e cabellos castanho-claros. A côr dos olhos reproduzia-se em todos os filhos de José Bernardo. Se porém alguma das quatro irmãs se avantajava ás outras em belleza, era D. Anna a mais formosa, segundo o testemunho dos contemporaneos. Diziam-n’a encantadora.

O pae, ao rebate dos primeiros achaques, encarregou Frederico da administração da casa, que consistia principalmente em prasos de livre nomeação. Entregou-lh’a, reservando o rendimento da quinta do Outeiral em Arouca para seus alimentos, de seu filho Antonio Pinto, o mais novo, de sua filha Maria Henriqueta, que se destinava á vida monastica, e de D. Theresa Bernarda de Vasconcellos, sua irmã d’elle. Os outros filhos, José, Simão e Joaquim Maria, estavam em posição de não carecer de auxilio paterno.

Desde o casamento de José Bernardo o domicilio da familia Vasconcellos era, como dissémos, na casa de Cezár.

Não primava pela grandeza da traça o solar do Outeiro, como ainda hoje se pode verificar, mas denunciava a nobreza de origem dos seus habitantes no brazão em madeira que corôava o tecto da sala de entrada e no qual se liam os appellidos de gloriosos ascendentes—Leites e Amaraes, Moreiras e Vasconcellos.

Quem hoje fôr a Cezár com o intuito de visitar a casa do Outeiro, poderá reconhecel-a de longe pelos altos cedros, que a ensombram. Mas estas arvores são relativamente modernas. O mesmo se pode dizer de uma pequena sala de entrada, á qual se sobe por alguns degraus de pedra, e que está mobilada com cadeiras de couro, tauxiado nos espaldares e assentos.

Tudo o mais conserva a feição que tinha o solar no tempo de José Bernardo e dos filhos.

O edificio é de um só andar, a pequena altura do solo, com janellas de differente feitio, voltadas ao nascente.

Entrava-se então no Outeiro por uma porta fronha, chamada a Porta vermelha, que abre sobre um pateo de pedra, separado do pomar, cujo nivel lhe é inferior. A sala de recepção era a de entrada, brazonada no tecto. Seguia-se, para o interior da casa, um corredor que dava ingresso aos quartos de cama.

Fóra do edificio ficavam as dependencias do solar, as officinas agricolas, a habitação dos caseiros, e a capella de familia, hoje desmantelada.

A esposa de José Bernardo havia fallecido, deixando na alma do viuvo um denso negrume de saudade, cada vez mais cerrado pela tristeza da inercia, a que a doença o ia reduzindo.

Viviam muito solitarias as quatro meninas, orphãs de mãe, e privadas da tutella vigilante do pae, achacoso e triste.

Frei José tinha comprado a Quinta de D. Maria, a dois passos do Outeiro, e doára-a a todas as quatro irmãs para sua habitação. Mas no Outeiro ou em D. Maria a solidão era igual para ellas.

Quatro irmãos, ausentes: José e Simão cada um em seu mosteiro; Frederico no Porto, Joaquim Maria em Traz-os-Montes.

Frei Simão, cujo caracter energico e destemido animo nunca poderam deixar-se domar pelo habito de S. Bernardo, a si proprio quiz justificar a ideia de que a sua presença se tornava necessaria em Cezár, para companhia e amparo das irmãs.

Era até certo ponto um pretexto, por isso que as quatro meninas ainda tinham o irmão mais novo, Antonio, e a tia, irmã do pae, que podiam acompanhal-as.

Mas frei Simão, a quem a vida religiosa só repugnava pela disciplina monastica e pela sujeição claustral, lançou mão d’esse pretexto para insistir no pensamento de obter a secularisação.

A liberdade de acção e o regresso á terra natal, aos campos da sua infancia, sorriam-lhe como um sonho de felicidade.

Elle havia adquirido propriedades em Alcobaça, comprára ahi a quinta chamada do Mogo, mas o seu espirito nunca se apegára tanto ao torrão florente e uberrimo da Extremadura como aos campos de Cezár, menos pittorescos certamente, mas mais suggestivos para elle, porque desde creança os conhecia e amava.

Dispondo de um animo capaz de tentar empresas difficeis e de arrostar com obstaculos, frei Simão requereu em Roma a secularisação, allegando o pretexto que as circumstancias de familia lhe forneciam. Mas não confiou tanto na justiça da allegação, que não pensasse em reforçar o pedido com valiosas recommendações para o nuncio em Portugal, monsenhor Vicente Macchi, para o embaixador portuguez em Roma, conde do Funchal, e para o cardeal Pacca, prosecretario de estado na Santa Sé.

Succedia que o cardeal Bartholomeu Pacca tinha estado como nuncio em Lisboa, para onde viera em maio de 1795, sendo então arcebispo de Damietta. Vinha já de representar o Papa na côrte de Luiz XVI, d’onde se retirára quando o scisma rebentou. Demorou-se em Lisboa até 1800. No principio do anno seguinte, Pio VII chamou-o a Roma, deu-lhe o chapeu cardinalicio, e investiu-o nas funcções de prosecretario d’estado. Bartholomeu Pacca soffreu, ao lado do Pontifice, as prepotencias de Napoleão I. Esteve preso em França, porque o imperador via n’elle o instigador da bulla d’excommunhão com que havia sido fulminado. Em 1814 voltou com Pio VII a Roma, e reassumiu as funcções que antes desempenhava.

Durante a sua nunciatura em Portugal, o cardeal Pacca creára em Lisboa muitas relações com pessoas de alto valimento, persónas gratas, que lhe podiam recommendar, com efficacia, qualquer memorial.

Não se vae porém a Roma n’um dia, diz o proloquio, tão verdadeiro em relação ás pessoas como aos negocios. De mais a mais, a politica napoleonica continuou a dar que fazer á Santa Sé: em 1815 Murat marchou sobre Roma, e o cardeal Pacca, depois de ter protestado contra a violação do territorio e nomeado uma junta provisoria para governar a cidade sagrada, fugiu.

A pretensão de frei Simão de Vasconcellos foi retardada por todos estes acontecimentos politicos.

Mas quando em junho d’esse anno o cardeal Pacca voltou a Roma, redobraram-se junto d’elle as instancias movidas por frei Simão e auctorisadas com a informação favoravel do geral da ordem de S. Bernardo e do bispo do Porto.

Antes de sahir como enviado extraordinario para Vienna, em 1816, o cardeal Pacca referendou, a 17 de março, o breve de secularisação de frei Simão de Vasconcellos, com o fundamento de poder «prestar auxilio a quatro irmãs germanas, sómente emquanto d’elle carecessem», e com a reserva «de trazer sob o habito de presbytero secular algum signal do seu habito monastico, e de observar a parte substancial dos votos da sua profissão».

Frei Simão era então um homem de vinte e sete annos. Louro, de olhos azues—esses bellos olhos que caracterisavam toda a sua familia—largo de hombros, peito amplo, cabeça desenvolvida, estatura regular.

Com grande alegria recebeu elle o breve que o emancipava da vida conventual.

Mas não despiu a cogulla branca, nem tirou o chapeu preto, nem desatou o cordão que enrolava á cinta. Sahiu assim de Alcobaça, e assim, indo alem da imposição que superiormente lhe fôra feita, o viam os seus parentes e visinhos desde que regressára a Cezár.

Certos visinhos não o tornaram a ver com bons olhos, porque o temiam como homem e o aborreciam como frade secularisado, que não se pejava de mostrar-se inclinado á corrente de ideias revolucionarias que tinham vindo de França.

Mas frei Simão, fazendo-se lavrador ou trabalhando n’uma improvisada officina de mecanica, que montára na casa do Outeiro, dava mediana importancia a visinhos de ao pé da porta.

Alguns mendigos de Cezár, da Feira e de Oliveira de Azemeis iam esmolar ao pateo da casa do Outeiro. Frei Simão soccorria-os. Animados por este precedente, alguns trabalhadores recorreram ao frade para que lhes emprestasse qualquer quantia de que urgentemente precisavam. Frei Simão attendia-os, e perguntava-lhes:

—Quando julgas tu poder pagar?

—Saiba vossa reverencia que d’aqui a seis mezes.

—Pois bem. Dou-te outros seis mezes de espera, mas toma sentido, que se d’aqui a um anno me faltares, comigo terás de haver-te.

Se, passado um anno, o devedor ia pagar pontualmente, conquistava por esse facto a sympathia e confiança de frei Simão: podia contar, de futuro, com a sua algibeira. Se faltava á fé do contrato verbal, o frade, quando acontecia encontrar o devedor, crescia para elle, colerico, de bordão em punho, ameaçando punil-o corporalmente.

Frei Simão tinha uma justiça propriamente sua, principalmente baseada nos dictames da consciencia: bom para os bons, severo para com os delinquentes.

E em questões de dinheiro era de uma meticulosidade intransigente, tanto em relação a si mesmo como aos outros.

Frequentemente percorria todas as propriedades da familia desde Oliveira de Azemeis até Arouca, auxiliando na direcção agricola dos bens o irmão Frederico, antes e depois de casado.

Pela irmã mais velha, que lhe era especialmente dedicada, soube frei Simão que D. Anna José correspondia ao amor de um rapaz, natural do Fundão, de appellido Fonseca, e sobrinho de um visinho do Outeiro.

O frade não conhecia o namorado da irmã, que só apparecia em Cezár no tempo das ferias, mas acertou de se encontrar com elle na occasião em que o general Gomes Freire e os seus companheiros de infortunio já estavam entre ferros como réos de alta traição.

Gostou do rapaz, que era elegante, alto, moreno, cheia a physionomia de vivacidade peninsular: os olhos, muito pretos e luminosos, denunciavam-lhe o ardor da imaginação insoffrida.

O estudante e o frade começaram por conversar de superficialidades cerimoniosas, vindo frei Simão a saber que José Maximo da Fonseca cursava ainda preparatorios no Collegio das Artes, porque o pae levára tempo a consentir em que trocasse a agricultura pela vida litteraria.

Mas o estudante, com a confiança que lhe inspirava o facto de frei Simão ser irmão da mulher amada, e liberal convicto, não tardou a abrir-se em confidencias com elle.

Contou-lhe que em Coimbra era caloiro do alumno de medicina José Maria de Lemos, parente proximo do bispo-conde, e unico estudante que admittiam ás suas conferencias os organisadores da loja maçonica Sapiencia, a qual no anno seguinte começou a funccionar perto do Collegio Novo.

Pela convivencia com o Lemos, a quem era cegamente dedicado, ganhára José Maximo decidido enthusiasmo pelos principios liberaes, que sentia não poder defender ainda a peito descoberto em razão de ser estudante de somenos categoria.

Contou-lhe mais que quem o recommendára ao academico Lemos fôra o major reformado José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, seu padrinho e parente, que de uma quinta de Traz-os-Montes tivera de evadir-se para Hespanha, por estar implicado na mallograda revolta constitucional de Lisboa.

Todo o seu desejo era vingar algum dia os trabalhos que o padrinho estava soffrendo por amor da liberdade.

Revelou a frei Simão que escrevêra uma óde em honra de Gomes Freire, e que a mandára ao padrinho para Hespanha.

Finalmente, segredou-lhe que occultava as suas ideias ao tio de Cezár, que não podia vêr liberaes, e que lh’as occultava porque gostava de vir passar com elle as férias.

N’este lance, calou José Maximo, discretamente, a razão capital por que preferia Cezár ao Fundão para passar as férias, a qual razão vinha a ser estar namorado de D. Anna de Vasconcellos, a mais linda entre todas as irmãs de frei Simão.

O frade comprehendeu José Maximo, e affeiçoou-se-lhe pela concomitancia de sentimentos liberaes, que os igualava em pontos de vista politicos, apesar do frade ser alguns annos mais velho que o estudante.

Frei Simão gostou do rapaz, poeta da liberdade aos vinte annos.

Mas Ignacio da Fonseca, o tio de José Maximo, surprehendendo-o uma vez a conversar com frei Simão, empoleirados ambos no muro de um atalho, berrou com o sobrinho, quando elle entrou em casa, e prohibiu-lhe expressamente que mantivesse relações com um sujeito de tão más ideias, disse Ignacio da Fonseca, e peiores sentimentos.

José Maximo, tendo inquadrada na alma ardente a imagem de D. Anna de Vasconcellos, só a ella via emquanto Ignacio da Fonseca berrava. E para evitar a contrariedade de ser expulso de Cezár, metteu-se debaixo dos pés do tio, attribuindo a um encontro casual a conversação no atalho.

—O que te disse elle? perguntava apopletico o lavrador. Havia de fallar-te d’esses marotos de Lisboa, raça infame de pedreiros-livres, corja maldita de maçons, que querem dar cabo da Santa Religião e d’El-Rei nosso senhor...

—Não fallamos de politica, meu tio, respondia José Maximo mentindo com quantos dentes tinha na bocca. Que me importa a mim a politica?

—Mas o que te esteve então elle dizendo?

—Contou-me historias dos frades de Alcobaça.

—Bonitas historias deviam ser essas! contadas por um frade impio, que abandonou a casa de Deus para vir ser vadio e espião na sua terra!

—Espião! exclamou involuntariamente José Maximo.

—Espião, sim, que se não pode dar um passo sem ser presentido por elle. Mas que tome cuidado, que assim como Gomes Freire e os outros estão com a vida por um fio, bem lhe pode acontecer o mesmo, e não se perde grande cousa.

—Eu ignorava que o tio não queria que fallasse com frei Simão. Mas para o futuro cumprirei as suas ordens.

—Eu sei lá! Tu foste levado á pia do baptismo por um maçon (referia-se ao major reformado Fonseca Rangel), tens o mesmo nome, podes ter tambem as mesmas manhas do teu padrinho. Mas põe os olhos n’elle, que lá anda a monte por Hespanha, por ser jacobino e cuspir na sagrada face de Jesus Christo.

—Meu padrinho fazia isso? perguntou José Maximo com inadvertida incredulidade.

—Pois o que fazem todos os pedreiros-livres, toda a cáfila dos maçons?! Se o não sabes, não o queiras saber, porque mettes a tua alma no inferno. Juizinho, sr. José Maximo, e não me ande por esses campos de Cezár a ler livros que não sei d’onde lhe vieram, nem a cochichar com o frade do Outeiro, que fez pacto com Satanaz. Que livros são esses que tu lês?

—São os meus livros de Coimbra, tio.

—Pensei que fossem de França ou de Hespanha... Estás em ferias, não estás? Pois descansa, e diverte-te. Pega n’uma espingarda e atira aos passaros. Isso é que é divertimento proprio de um rapaz, quando não tem que fazer.

José Maximo, logo que o tio voltou costas, foi esconder entalada n’uma trave do sótão a Folhinha do Père Gérard, publicação revolucionaria, vinda de França, de que um francez, Jacques Borel, havia mandado imprimir em Pariz doze mil exemplares, que, traduzidos em portuguez, foram expressamente destinados a Portugal.

Esse era o livro que elle, dias antes, andára lendo por disfarce nas circumvisinhanças do Outeiro, de modo a poder vêr de longe D. Anna de Vasconcellos, que de quando em quando chegava a uma das janellas empanadas por uma espêssa cortina de parietárias.

Elle bem tinha visto passar o tio, de enxada ao hombro, em direcção á presa, cujas aguas ia soltar para a réga.

Todo o cuidado de José Maximo, n’essa occasião, foi mostrar-se muito absorvido na leitura, para evitar que o tio podesse suspeitar que a cabeça de D. Anna José estava espreitando por sob as bambolinas da trepadeira.

Mas, se se livrou de um perigo, cahiu n’outro, porque Ignacio da Fonseca, se não suspeitou do namoro, desconfiou do livro.

Ainda bem que o lavrador lhe manifestou essa desconfiança, porque José Maximo preveniu-se escondendo a Folhinha do Père Gérard. Se Ignacio da Fonseca a tivesse podido haver á mão, decerto a teria ido mostrar ao abbade Moreira Maia ou ao padre Antonio Pinheiro, que lhe abririam os olhos sobre a inconveniencia de tal leitura,—uma peste revolucionaria.

O abbade Moreira Maia era um conservador sincero, mas tolerante, talvez porque a indole sentimental lhe amaciasse as convicções politicas. Era um poeta, que amava os versos e as flores. Posto gostasse de exteriorisar um grande respeito pelas tradições fidalgas, de exhibir pomposamente cavallos e lacaios, dedicava-se a cultivar os canteiros no jardim do presbyterio, jardim embonecado de estatuas mythologicas, com disticos em verso compostos pelo abbade.

Todos os dias Moreira Maia descia a escada de pedra do Passal para ir tratar das suas flores. Só depois de satisfeita essa predilecção artistica, vestia uma casaca de sêda verde, ultimava a sua toilette elegante de cavalleiro.

Quando sentia o tinir das ferraduras do cavallo impaciente no largo que se defronta com a egreja, e a meio do qual se levanta um cruzeiro, era que o abbade apparecia á varanda aberta, que então havia no Passal, calçando ainda as suas grandes luvas de anta.

Depois, de chicote debaixo do braço, apertando por ventura algum botão das luvas, descia a escada, e examinava o cavallo, que um lacaio segurava pela rédea.

Se não tinha qualquer observação a fazer, montava com firmeza, e lá ia, como se dizia então, fazer estremecer as pedras das ruas em Oliveira de Azemeis.

Este typo de abbade, dado a proezas equestres e venatorias, padre enxertado em sportman, foi muito vulgar n’aquelle tempo.

A sua toilette mundana era a casaca.

O famoso bispo santo de Bragança e Miranda, D. Antonio Luiz, que por esse tempo era assumpto de contradictorias opiniões, queixou-se em carta ao abbade de Rebordães de que, ao tomar conta da sua diocese, o commum da clerezia trazia casaca, salvos alguns raros ecclesiasticos, mais pios, que usavam uma chamarra aberta; e accrescentava que só á força de advertencias conseguira impôr o habito talar cerrado na forma dos canones.

Mas o bispo santo não fizera escola nem entre os prelados seus collegas, nem entre o clero de Bragança e outras dioceses. O que em geral os ecclesiasticos vestiam fóra da egreja era a casaca de sêda. O abbade Moreira Maia não singularisava, pois, uma excepção.

E, com a liberdade então permittida á sua classe, passava grandes temporadas longe da parochia, em festas de sport e distracções artisticas, sempre com um certo cunho de elegantes mundanidades.

Levava comsigo para as caçadas e demais excursões recreativas todos os seus lacaios, todos os criados de libré, em numero ostentoso.

Na abbadia ficava apenas uma criada velha, Gertrudes Magna, tia do padre Antonio Pinheiro, que ella havia creado de pequenino, e que o abbade escolhera como coadjuctor, para curar a parochia durante as suas longas e frequentes ausencias.

Este padre era um espirito concentrado, que fugia ao mundo. Vivia habitualmente no Passal de Cezár, mettido no seu quarto, entregue á leitura dos livros santos, e sempre prompto ao trabalho parochial, que o abbade tantas vezes declinava n’elle.

Vivia uma vida simples, frugal, inteiramente opposta á do abbade.

Era uma alma sincera, incapaz de odios, mas a quem causavam horror todos os inimigos da religião christã, suppostos ou verdadeiros.

Frei Simão, para elle, estava n’este caso. Horrorisava-o, porque era pedreiro-livre, segundo se dizia, e os pedreiros-livres, sobre não ter religião, insultavam-n’a.

Por sua parte, o abbade Moreira Maia não podia gostar, como realista que era, do frade constitucional do Outeiro. Mas não o detestava, porque o seu animo era avesso a perseguições facciosas e porque, respeitador da tradição das familias, reconhecia em frei Simão um homem de boa linhagem.

José Maximo, depois das explicações que tivera com o tio, resolveu escrever a frei Simão, communicando-lhe que Ignacio da Fonseca via com maus olhos que publicamente conversassem um com o outro. Contava-lhe o caso da Folhinha do Père Gérard. E pedia-lhe que continuasse a ser seu amigo, e a manter relações com elle, embora precisassem, d’ali em deante, occultar discretamente as suas entrevistas.

Para ser mais uma vez agradavel ao tio, José Maximo limpou uma espingarda velha que encontrou a um canto da casa, e foi caçar.

Completando o disfarce, o estudante disparava muitos tiros sempre que avistava Ignacio da Fonseca trabalhando nos campos com os criados.

O tio, ouvindo as detonações successivas, olhava para o ar e, como não visse passar caça, ria-se, e dizia para os criados:

—O diabo do rapaz entende tanto d’aquillo como de lagares de azeite!



III
Loucura revolucionaria

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Que erradas contas faz a phantasia!

Pois tudo pára em morte, tudo em vento,

Triste o que espera! triste o que confia!

Camões—«Sonetos».

A 18 de outubro de 1817 ardiam nas fogueiras do Campo de Sant’Anna em Lisboa os cadaveres dos patriotas liberaes, que haviam sido condemnados pelo crime de lesa-magestade e alta traição.

A respectiva sentença ordenava que os corpos de doze conspiradores, depois de terem passado pelo garrote, depois de lhes haverem sido decepadas as cabeças, fossem queimados, e as suas cinzas lançadas ao mar. Apenas abria excepção, pelo que tocava á infamia posthuma da fogueira, para quatro reus. Mas a todos envolvia na confiscação dos bens que possuissem.

O tenente-general Gomes Freire de Andrade foi executado na torre de S. Julião da Barra, longe dos seus companheiros de desgraça, porque se receiou que o supplicio n’uma praça publica désse origem a manifestações populares.

O crime d’esses doze patriotas, e de outros que foram condemnados a degredo, consistia na aspiração de libertarem o paiz da tutella do marechal Beresford, como primeiro passo para a conquista de um regimen de autonomia constitucional.

A denuncia foi feita ao proprio marechal por tres individuos alliciados pelos conspiradores. Beresford tratou de coordenar as provas da conspiração. Depois entregou o processo ao conselho da regencia, para que o fizesse submetter a julgamento summario, sem admissão de recurso ao rei, que estava no Rio de Janeiro.

Mal podemos imaginar hoje a profunda sensação que este lugubre acontecimento causou nos espiritos fanatisados pelo ideal da liberdade. O sangue das victimas clama vingança. As fogueiras de Lisboa aqueceram, ao longe, nas provincias, o desejo da desfórra. Só Lisboa ficou como que mergulhada n’um enervamento de pasmo e terror.

Todas as esperanças dos liberaes se voltavam para o norte do paiz, especialmente para o Porto, terra classica das arremettidas corajosas.

Suspeitava-se vagamente que não ficariam inertes alguns homens de grande valor, cujo espirito era reconhecido n’aquella cidade como affecto ao progresso das instituições politicas. Indicavam-se nomes: o do desembargador Fernandes Thomaz e o do advogado José Ferreira Borges, secretario da Companhia dos Vinhos.

José Maximo já tinha voltado a Coimbra quando o garrote e o fogo fizeram abortar em Lisboa a primeira tentativa de revolução.

A tal ponto se exaltou, que abandonou o Collegio das Artes e, deixando uma carta confidencial ao seu veterano Lemos, sahiu de Coimbra.

Chegou de noite a Cezár e foi bater á porta da casa do Outeiro, dizendo-se portador de uma mensagem secreta para frei Simão.

Após breves momentos de espera, o ex-frade de Alcobaça appareceu a receber o mysterioso mensageiro. Ficou admirado de vêr ali, áquella hora, José Maximo da Fonseca.

O estudante não justificou a visita senão pelas exaltadas palavras com que rapidamente denunciou o estado do seu espirito.

Vibrava indignado pelos acontecimentos de Lisboa. Sentia-se incapaz de estudar, revoltava-o a ideia de receber a instrucção pela taça da tyrannia, segundo o seu proprio modo de dizer. Preferia ser soldado e conspirador onde quer que a causa da liberdade carecesse dos seus serviços. Se fosse precisa uma cabeça para o sacrificio, da melhor vontade offereceria o seu corpo ao garrote e á fogueira.

Frei Simão teve um momento de bom conselho fazendo notar a José Maximo que elle arriscava o seu futuro, e incorreria não só no desagrado, mas até no odio do tio.

O estudante respondeu com fogosa convicção:

—Que me importa arriscar o futuro, se estou prompto a arriscar a vida?!

Frei Simão, encantado com o animo valoroso d’aquelle rapaz, que pelo ardor do sangue parecia seu irmão, deixou cahir a mascara, e tambem por sua vez clamou por vingança contra os algozes de homens cujo unico crime era amarem a liberdade e a patria.

Estabelecida uma intima communicação entre o frade e o estudante, como se uma corrente electrica os inflammasse simultaneamente, frei Simão contou a José Maximo que tinha recebido uma carta do Porto, de seu irmão Frederico, que em linguagem nublosa lhe dava a entender o que quer que fosse de possiveis combinações revolucionarias. Frei Simão suspeitava que Frederico o saberia por confidencia do coronel Sepulveda.

—Pois vou ao Porto! disse com resolução o estudante. E parto já.

—Já?! exclamou com surpresa frei Simão.

Correu o frade a uma das janellas e abriu-a de repente.

A madrugada clareava o ceu n’uma alvura nitente de leite crystalisado.

—Não! disse elle. Os criados de seu tio, e talvez elle proprio, já devem estar a pé. Seria uma imprudencia inutil atravessar agora Cezár, podendo ser surprehendido. Vossa mercê fica n’esta casa até que escureça, e partirá de noite. Dar-lhe-hei uma carta para meu irmão Frederico, que mora a Santo Ovidio, perto do quartel. Só lhe peço, como retribuição, que, n’uma cifra que logo combinaremos, me vá informando do que se passar no Porto.

Ficar n’aquella casa até á noite! Passar um dia inteiro sob o mesmo tecto que abrigava D. Anna de Vasconcellos! Só este programma de felicidade o poderia deter na sua louca aventura de ir ao Porto. Se fôra o amor que o trouxera a Cezár, a pretexto de desabafar com frei Simão, seria ainda o amor que o reteria ali durante umas felicissimas vinte e quatro horas, que passariam rapidas como um sonho.

José Maximo, olhando para dentro de si, sentia-se heroe. No meio d’aquella familia liberal, Anna de Vasconcellos seria decerto a primeira pessoa que lhe engrandeceria a coragem e o arrojo, e era justamente a seus olhos que elle ambicionava ser heroe laureado ou victima celebre. Pouco lhe importava que acontecesse uma ou outra cousa, comtanto que D. Anna o considerasse como um homem da estatura moral de frei Simão, capaz de arrostar com odios acerbos e de manter até ao heroismo as suas fortes convicções politicas.

Quiz frei Simão que José Maximo fosse descançar algum tempo da fadiga da jornada.

O estudante obedeceu por delicadesa, porque não sentia cansaço nem somno.

Deram-lhe o quarto dos hospedes, sempre preparado nas casas hospitaleiras da provincia.

José Maximo deitou-se, mas não conseguiu adormecer. A sua fogosa imaginação ardia em sonhos de vaga felicidade. Cria-se já um heroe na atmosphera d’aquella casa, a que o coração o prendia. A imagem de Anna de Vasconcellos, que devia estar ali perto, sorria-lhe como o anjo da victoria, que lhe promettesse os louros de um duplo triumpho.

Ás oito horas da manhã, frei Simão bateu á porta do quarto do hospede. Eram horas de almoço. José Maximo não se fez esperar muito tempo. O coração saltava-lhe do peito em palpitações desordenadas. Era que se aproximava o momento de, pela primeira vez, poder fitar rosto a rosto a mulher amada, que até ahi apenas tinha contemplado de longe.

Durante o almoço e as breves horas que se lhe seguiram, o precoce revolucionario do Fundão sentiu-se cobarde deante de D. Anna de Vasconcellos, a si proprio se extranhou pelo acanhamento que o enleiava. Cerca do meio-dia, o acanhamento converteu-se em extasi quando, na sala nobre do Outeiro, a formosa menina dedilhou timidamente cythara franceza, em honra do seu hospede. Ao declinar da tarde, o estudante tinha ganhado coragem, a ponto de, já senhor de si, poder dizer de fugida a D. Anna de Vasconcellos uma coisa que ella sabia a preceito: «Amo-a como se pode adorar um anjo.»

A esta incendida declaração de amor respondeu uma onda de sangue, que do coração subiu ás faces de Anna de Vasconcellos.

Pelas oito horas da noite, frei Simão chamou á parte José Maximo, que se preparava para partir, e disse-lhe:

—Vossa mercê certamente leva pouco dinheiro comsigo. Bolsa de estudante costuma ser magra.

José Maximo respondeu, de prompto, que não precisava dinheiro.

—Ha de precisar, replicou frei Simão, pelo menos para as primeiras despesas. Depois, meu irmão Frederico, como n’esta carta lhe recommendo, olhará por vossa mercê.

José Maximo quiz ainda resistir á offerta, mas frei Simão entregou-lhe uma peça de ouro, dez crusados novos, e, como galanteria, a titulo de recordação d’aquella visita, um napoleão, moeda franceza que Junot havia introduzido em Portugal, e que tinha corrido com o mesmo valor das peças portuguezas: 6$400 réis.

—Esta moeda, disse o frade referindo-se ao napoleão, ficou com algumas outras no pé de meia da minha familia como memoria historica de uma epocha nefanda. Quero eu que vossa mercê a possua como um vademeco que lhe ha de espiritar o amor á patria e á liberdade, quando se lembrar de que os tyrannos pretendem escravisar os povos não só pelo ferro, mas tambem pelo ouro.

José Maximo agradeceu, confundido, a generosa dádiva de frei Simão, e sahiu da casa do Outeiro tão fascinado pela recordação deliciosa d’aquelle dia como pela ambição de poder ser, aos olhos de Anna de Vasconcellos e da patria, um libertador audaz, um redemptor immortal.

Metteu por atalhos até encontrar, á distancia de uma legua, a estrada real de Coimbra ao Porto.

Graças á generosidade de frei Simão, poderia fazer o resto da jornada mais commodamente, logo que encontrasse no caminho um almocreve ou um lavrador que lhe quizesse alugar um macho.

Marchou desembaraçadamente toda a noite. Só quando já alvejavam os primeiros clarões da manhã, descançou recostado ao tronco de uma arvore, por alguns momentos. Então uma voz de camponesa, plangentemente cadenciada, começou a cantar a pequena distancia:

Quem quer vêr um infeliz,

Que nasceu ao pé da faya?

Não ha desgraça nenhuma,

Que n’este infeliz não caia!

José Maximo, instinctivamente, levantou os olhos para a arvore a cujo tronco se tinha encostado: era uma faya.

Esta coincidencia impressionou-o.

Elle tinha bebido com o leite materno a credulidade nas superstições populares. Os agouros são a tea de aranha em que se enrédam muitas organisações audazes, que não costumam tremer deante de perigos reaes. Um vago presentimento intimida-as mais do que um franco adversario. E comprehende-se que seja assim, porque os fortes, por isso mesmo que não receiam os homens na lucta com elles, apenas podem acobardar-se deante do poder mysterioso que regula os acontecimentos humanos.

Aquelle rapaz, que parecia haver nascido para luctar, tinha, como Achilles, um calcanhar vulneravel: era a indole supersticiosa.

Por isso, ergueu-se rapidamente, seguindo jornada para fugir a esse logar de triste recordação,—como quem se dá pressa em cortar o inesperado encontro de um ruim agouro.



IV
A iniciação

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...a elle aprouve que não per officio, mas per indiguação, não por premio, mas de graça, e mais offerecido que convidado...

João de Barros—«Década primeira».

José Maximo chegou ao Porto e correu a casa de Frederico Pinto para lhe entregar a carta de frei Simão.

Eram as suas credenciaes de revolucionario: desejava apresental-as sem demora.

Na casa de Santo Ovidio, o camarada de Frederico Pinto disse-lhe que o sr. alferes ajudante devia estar no quartel.

José Maximo atravessou rapidamente a rua, foi procurar o ajudante. Pelo Campo passeiavam alguns officiaes, mas o estudante, tão cego ia, que não fez reparo n’elles.

Chegando á porta do quartel, perguntou á sentinella:

—Pode dizer-me onde está o sr. alferes ajudante?

—Acolá, conversando com o nosso coronel, respondeu a sentinella.

Então José Maximo viu que effectivamente o coronel e o ajudante andavam passeiando junto ás arvores, que ao oriente marginam o Campo de Santo Ovidio.

Dirigiu-se para os dois e, parando deante d’elles, disse tirando o chapeu:

—Desejo entregar ao sr. alferes uma carta de frei Simão de Vasconcellos.

Frederico Pinto mostrou-se algum tanto inquieto: receiou más noticias de Cezár.

—Peço licença ao meu coronel... disse elle.

—Á vontade, respondeu Sepulveda, affastando-se um pouco, e continuando a passeiar.

O ajudante leu com visivel interesse, e a sua physionomia, durante a leitura, revelava surpreza.

Quando chegou ao fim da carta, mediu com um olhar perscrutador a pessoa de José Maximo. Tudo o que se estava passando lhe devia parecer muito extraordinario, porque Frederico Pinto mostrava-se enleiado, sem atinar com o que havia de dizer.

Felizmente encontrou uma formula dilatoria, que lhe permittiu tirar-se do embaraço.

—Folgo muito de conhecer o sr. José Maximo, e, como deseja meu irmão, estou inteiramente ao seu dispôr. Louvo a sua patriotica resolução, e oxalá que ella possa ser util á salvação do reino. Mas vossa mercê comprehende que n’este momento não podêmos alongar-nos n’uma conversação, que lhe aproveite. O meu coronel está esperando por mim. Ámanhã fallaremos, se me der o prazer de procurar-me em minha casa. Acolá...

E indicou-lhe o predio em que morava e que José Maximo já aliás conhecia.

O estudante retirou-se um pouco contrariado. Imaginava elle que o mesmo seria chegar ao Porto e iniciar-se no segredo das combinações revolucionarias.

Frederico Pinto contou ao coronel Sepulveda o que acabava de passar-se. Leu-lhe a carta de frei Simão, accentuando os periodos que diziam:

«Este moço possue uma alma generosa e heroica. Adivinho n’elle um homem de acção. Aproveital-o será bem servir a patria. Entrego-t’o para que o protejas e dirijas.»

Sepulveda riu d’esta inesperada apparição de um rapaz exaltado até á loucura do heroismo.

—Feliz idade! disse o coronel. Mas desgraçada familia, a quem elle decerto prepara os grandes desgostos que resultam das contingencias politicas.

—O que eu não sei é o que lhe hei de dizer! Que vá estudando, é talvez o melhor conselho que posso dar-lhe. E se elle quizer ficar no Porto, offerecer-lhe-hei o auxilio que precisar.

—Sim, respondeu Sepulveda muito reflexivo. Mas não me parece conveniente que o hospéde em sua casa. O rapaz é exaltado, pode comprometter o hospedeiro. De mais a mais, ninguem tem o dom de adivinhar ao certo quanto tempo durará ainda a incubação de graves acontecimentos. E lembre-se o ajudante de que, se o seu casamento se antecipar, o que é possivel, a presença de um hospede permanente ser-lhe-ha incommoda.

—Tudo isso me tinha lembrado, coronel, e foi essa a razão de lhe não offerecer a minha casa.

—Mas, continuou Sepulveda sempre reflexivo, eu hei de fallar n’este caso ao Fernandes Thomaz. Veremos o que elle diz. Entretanto o ajudante vá-lhe dizendo que espere, sem lhe dar outras explicações, que nos possam comprometter.

—De certo, meu coronel. Farei isso.

Aquillo, no Porto, estava ainda muito atrazado. Refiro-me aos trabalhos preliminares da revolução. Fernandes Thomaz pensava n’ella; Ferreira Borges tambem. Sepulveda estava disposto a auxiliar o movimento. Mas não passava tudo ainda de vagos projectos, descosidos e nublosos.

Comtudo, o coronel, logo que esteve com Fernandes Thomaz, contou-lhe a historia de José Maximo. Riram ambos com o caso, mas Fernandes Thomaz, com a sua intuição de revolucionario, acabou por dizer:

—Quem sabe se o rapaz nos poderá prestar para alguma cousa, visto que frei Simão o afiança! Veremos.

Trez dias depois, José Maximo escrevia para Cezár a frei Simão. A sua carta, em cifra, denunciava certo desalento.

«Seu irmão, dizia-lhe elle, recebeu-me muito bem, mas, quanto ao que nós sabemos, apenas me disse: Espere. E eu estou esperando que o coração da patria accorde. Ardo na febre da impaciencia, e receio que ella chegue ao periodo agudo do desespero».

Aproximando-se o natal de 1817, José Maximo consultou Frederico Pinto sobre se deveria ir, como costumava, passar as ferias em Cezár. Já o ralavam saudades de Anna de Vasconcellos. E, pelo que tocava á revolução, não estava menos atormentado, se bem que Frederico Pinto lhe tivesse dito uma ou outra vez com mais alguma decisão: «Isto vai indo.»

Que fosse a ferias, aconselhou-lhe d’ahi a dias o alferes ajudante, para que o tio de Cezár não desconfiasse da sua estada no Porto. Mas concluiu por dizer-lhe em tom imperativo: «Vossa mercê deve voltar depois do Natal, porque parece que os seus serviços vão ser aproveitados.»

Oh! que doida alegria a que estas laconicas e mysteriosas palavras deram a José Maximo! Ia vêr Anna de Vasconcellos e entrar, finalmente, nos segredos da conspiração. Sentia-se duas vezes ditoso. Sob esta agradavel impressão partiu para Cezár.

Uma vez em ferias, tudo se passou como de costume. José Maximo, de arma ás costas, rodeiava, com disfarce, a casa do Outeiro, para avistar Anna de Vasconcellos, que perpassava no pateo de pedra voltado para os campos ou assomava de fugida a alguma das janellas viradas ao nascente ou passeiava com as irmãs no souto de Santa Luzia.

N’aquelle tempo Cezár era uma terra morta, muito solitaria. Não a povoavam, como hoje, prédios garridos, de brazileiros dinheirosos. As duas torres da egreja, uma sem sinos, pareciam envergonhadas, em sua modestia, de defrontar-se com as estatuas pretenciosas do jardim do abbade,—unica pompa evidente em Cezár. O basto pinheiral da serra do Pinheiro, ao norte, occultava n’uma solidão melancolica alguns vestigios de construcções celticas, ruinas do passado. E ao sul, a capellinha alvejante da Senhora da Graça era a unica nota risonha, que quebrava a monotonia triste do pinheiral, prolongado e basto.

José Maximo não aguentaria o aborrecimento de Cezár, se a imagem de Anna de Vasconcellos, vista de longe, não pairasse sobre toda aquella adormecida solidão de pinheiros e campos de milho, illuminando-a como uma aurora. Mas forçoso era contentar-se com isso, vêl-a de longe, a discreta distancia, e com alguma secreta entrevista que tinha com frei Simão na espessura da serra do Pinheiro e em que juntos scismavam no que viriam a dar as mysteriosas combinações revolucionarias do Porto.

Chegado o dia de Reis, José Maximo, ardente de impaciencia, mandou um adeus escripto a D. Anna de Vasconcellos e partiu.

Ao cabo de algumas semanas de espera no Porto, passado o dia 21 de janeiro de 1818, Frederico Pinto disse-lhe com grande reserva:

—Amanhã, pelas oito horas da noite, vossa mercê irá á casa n.º 32 da rua das Taypas. Subirá cautelosamente até ao primeiro andar, e ahi baterá quatro pancadas na porta, com os nós dos dedos. Se de dentro lhe responderem com identico signal, vossa mercê poderá entrar com plena confiança, porque estará entre amigos, e fará o que lhe disserem.

José Maximo não dormiu essa noite, nem teve vontade de comer no dia seguinte.

Dirigindo-se, á hora convencionada, para a rua das Taypas, entrou na casa que Frederico Pinto lhe indicára, e bateu quatro pancadas na porta do primeiro andar, com os nós dos dedos. Houve um momento de silencio e de demora. Mas outras quatro pancadas responderam de dentro, e a porta abriu-se.

José Maximo, entrando, viu trez homens sentados a uma mesa, sobre a qual ardia um candieiro de latão com trez bicos. Todos os trez homens tinham a cara coberta por uma mascara de panno preto, similhante á dos Farricôcos das procissões de penitencia.

Este apparato de mysterio, em vez de maguar José Maximo, agradou-lhe, porque lhe deu a impressão de estar n’um club revolucionario, em exercicio de funcções.

Desde aquelle momento tambem elle era um conspirador.

Convidado a expôr as suas convicções politicas, José Maximo fel-o com desembaraço, até com exaltação.

Applaudiram-lhe a fé patriotica, propria de corações generosos, mas recommendaram-lhe discrição e prudencia.

—Tanto mais, disse um dos mascarados, que a missão de que vossa mercê vae ser encarregado, requer um longo e sabio disfarce. O nosso unico receio é a pouca idade de vossa mercê, que o pode fazer cahir em surprezas e armadilhas.

José Maximo replicou com grande energia de caracter que, qualquer que fosse a missão que lhe incumbissem, saberia desempenhal-a com tino e perseverança.

Havia nas suas palavras uma rara dedicação partidaria em tão verdes annos. Sentia-se n’aquelle moço, quasi imberbe, a alma de um conspirador por vocação.

Um dos mascarados, ouvindo a profissão de fé de José Maximo, passou a expôr a missão que lhe destinavam.

Precisavam conhecer a maneira de pensar das principaes auctoridades civis e militares do Porto com relação ao projectado movimento revolucionario: sondar até que ponto poderiam contar com a sua tolerancia ou apoio; e sobretudo ser informados com solicitude do que se fosse passando em casa d’essas auctoridades, especialmente da qualidade e numero das pessoas que com ellas tivessem mais demoradas conferencias.

—Para isto, disse um dos mascarados, precisa vossa mercê tomar um disfarce qualquer, e esse disfarce não poderá deixar de ser o de uma occupação humilde, que vossa mercê supportará com paciencia e habilidade. O mais conveniente seria o de serviçal, por se adaptar melhor ao nosso plano, visto ser pessoa de portas a dentro.

—Obedecerei incondicionalmente, respondeu José Maximo.

O inesperado d’este lance excedia todas as previsões, todos os seus sonhos de conspirador. A surpresa como que o aturdira por instantes. Mas um dos mascarados, julgando erradamente que José Maximo esfriára perante o sacrificio que lhe era exigido, procurou dissipar-lhe suppostos escrupulos, dizendo:

—Os nossos adversarios auctorisaram pelo exemplo os meios de que lançamos mão. Pois não é verdade que, na mallograda tentativa do anno passado, um desembargador, ajudante do intendente geral de policia, não duvidou introduzir-se no carcere de um dos conspiradores, o architecto Sousa, para lhe arrancar revelações? Comtudo nós apenas procuramos o bem da patria; longe está do nosso animo o perseguir individuos e fazer victimas.

—Todos os meios são bons, quando os fins os justificam, respondeu resolutamente José Maximo.

—Muito bem! Vossa mercê terá que sahir de tempos a tempos da casa que o receber como serviçal, para com o maior disfarce ir relatar á pessoa, que móra no Campo de Santo Ovidio, tudo o que tiver visto e ouvido. Convem que adopte um nome supposto, e uma supposta naturalidade. Pode vossa mercê dizer-se nascido no Alemtejo. Quanto ao nome, poderá ser Manuel... Manuel...

—Do Nascimento, atalhou um dos outros mascarados. Ficará vossa mercê uzando o sobrenome e o appellido de uma famosa victima da inquisição, o illustre Filinto Elysio.

—Mas convém que nós assentemos no seu nome de guerra para, no caso de qualquer occorrencia desagradavel, sabermos que vossa mercê e Manuel do Nascimento, por exemplo, são uma e a mesma pessoa.

—Serei pois Manuel do Nascimento, respondeu José Maximo, e natural do Alemtejo. O resto é comigo, e supponho que vossas senhorias não terão motivo para arrepender-se.

—Assim o esperamos. Vossa mercê, segundo o nosso plano, terá que estacionar em varias casas, taes como a do governador das justiças, juiz de fôra do civel e presidente do senado, mas por agora importa que vá offerecer-se á do governador das armas, o tenente-general Filippe de Sousa Canavarro, que precisa de um serviçal, segundo noticia que temos. Como decerto lhe serão exigidas abonações, vossa mercê indicará João Pereira da Costa, seu antigo patrão, residente em Beja, negociante e proprietario, como pessoa competente para informar sobre seus costumes. O governador mandará decerto escrever para Beja, e de Beja lhe responderão satisfatoriamente. Isso é comnosco.

Pouco tempo durou a audiencia.

José Maximo, feliz por poder prestar um serviço á causa da liberdade, sahiu da casa da rua das Taypas e foi passeiar para o Campo da Cordoaria, muito ufano de si pela confiança que n’elle depositava o club revolucionario do Porto.

Ora esse club não representava por então senão o pacto secreto de trez patriotas, que tantos eram os mascarados, a saber: Fernandes Thomaz, Ferreira Borges e Silva Carvalho.

Eis o nucleo do famoso Synhedrio, que planeou a revolução liberal do Porto.



V
O Fresca Ribeira

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E por melhor passar a vida com dissimulação me mudei n’estes trajos; que o logar não soffria mais.

Bernardim Ribeiro—«Menina e moça», cap. XXXV.

Trez dias depois, José Maximo da Fonseca estava ao serviço do tenente-general Canavarro, na qualidade de segundo criado.

Foi admittido sob condição, emquanto se esperavam as informações que o governador mandou pedir para Beja, e que o rapaz julgava lhe seriam honrosas.

Effectivamente, assim aconteceu. O Synhedrio tinha preparado bem as coisas. O informador bejense chegava a lastimar que um serviçal tão activo e obediente como Manoel do Nascimento tivesse tomado a resolução de ir para o Porto, talvez seduzido pela esperança de maiores interesses, pois que outro motivo não havia.

Todos, em casa do governador das armas, gostavam de José Maximo, incluindo o Teixeira, criado grave ou escudeiro, como então se dizia, especie de mordomo, que era difficil de contentar pelo que respeitava ás qualidades dos seus subordinados.

Teixeira era um homem de sessenta e cinco annos, que entrára ao serviço da familia Canavarro quando tinha apenas quinze. Consideravam-n’o mais um amigo da casa do que um criado. Alto, sêcco, de maneiras exemplarmente compostas, não deixava nunca a sua casaca preta muito escovada e a sua gravata branca muito clara.

Havia sido educado em casa de uma familia nobre de Traz-da-Sé, onde o pai fôra tambem escudeiro. Essa familia extinguira-se, e elle tivera de procurar collocação em outra parte. Entrou na casa dos Canavarros, e nunca mais de lá saiu.

Aprendera desde pequeno a respeitar Deus, o Rei, e os patrões. A consciencia da sua posição levava-o, porém, a jámais discutir qualquer assumpto, que fosse extranho ao cargo que desempenhava.

Mas tinha convicções intransigentes, embora não ouzasse nunca formulal-as em voz alta.

Detestava os maçons, porque tinham fama de ser inimigos da religião e do throno. Nas horas vagas, mettido no seu quarto, lia as publicações contrarias á maçonaria. Sobre a sua mesa de cabeceira estavam A nova sentinella contra maçons, a Atalaya contra os pedreiros-livres, a Historia certa da seita dos fran-massões (sic).

José Maximo percebeu rapidamente o feitio do Teixeira.

Poucos dias passados, teve occasião de entrar furtivamente no quarto do escudeiro, e de lêr os titulos d’aquellas brochuras. Os factos confirmavam assim as suas previsões: tinha de tratar com um adversario politico, encapotado, mas inoffensivo.

Procurou conquistar-lhe a amisade, dizendo uma vez, em voz alta, de modo que o Teixeira podesse ouvir:

—Ha criados tão atrevidos, que até se mettem em politica! Eu cá não fallo n’aquillo a que não sou chamado. Respeito Deus Nosso Senhor, abaixo de Deus o Rei, e depois do Rei os meus patrões. Gosto de rir com todos, e não offender ninguem.

Uma das feições que José Maximo adaptou artificiosamente ao seu espirito foi o humor alegre, a jovialidade expansiva.

As criadas do general riam dos seus ditos facetos, da sua inalteravel bonhomia.

—O Manuel, dizia uma serigaita, a Catharina, já muito amoriscada d’elle, está sempre na fresca ribeira!

—Pois eu, sr.ª Catharina, até era conhecido na minha terra pelo Fresca Ribeira!

E José Maximo desatava a rir, a rir, como se effectivamente fosse o homem mais feliz d’este mundo.

Elle conheceu, desde o primeiro dia, a cabeça leve d’esta Catharina, mas achou que poderia tirar d’ahi argumento quando fosse preciso despedir-se do serviço do general para passar a outra casa.

E não se enganou.

Teixeira começou a achar raras e estimaveis qualidades no «Manuel», a tal ponto que ia tendo com elle menos reservas do que com todos os outros criados, passados e presentes.

Um mez depois de estar ao serviço do general, José Maximo, tendo sahido pela primeira vez ao domingo, aproveitou a occasião para communicar a Frederico Pinto as suas observações.

Metteu-se n’uma mercearia da Ribeira, e escreveu-lhe uma longa carta, da qual a revelação mais importante dizia que a pessoa que repetidas vezes procurava o governador, e se fechava com elle longo tempo, era o sr. Mello, presidente do senado da camara.

Esta revelação, transmittida ao Synhedrio por intermedio do coronel Sepulveda, foi tida como de bom agoiro.

O presidente do senado passava por ser um homem a quem as ideias modernas não repugnavam.

Seis mezes depois, José Maximo fazia uma revelação ainda mais importante: tendo sahido o Teixeira para visitar o Lausperenne, pudera escutar á porta de um gabinete em que o governador das armas e o presidente do senado estavam conversando, e ouviu, distinctamente, dizer o general:

—Se isso vier, não tomarei a iniciativa, mas hei de respeitar a opinião da cidade. As ideias não se afogam impunemente em sangue. Quando se reprimem hoje pela violencia, resuscitam ámanhã mais exaltadas.

Isso, na opinião de José Maximo, era a revolução constitucional. Não podia mesmo ser outra coisa, a julgar pelo tom de confidencia em que ambos estavam conversando á porta fechada.

Quando José Maximo se via só, pensava, com intensa saudade, em Anna de Vasconcellos. Mas não podia abandonar o posto de honra que lhe fôra confiado, e resignava-se lisongeado pela ideia de que na casa de Cezár era conhecida, pelas suas cartas a frei Simão, a extranha aventura politica que elle, por amor da liberdade, estava correndo no Porto.

Embora frei Simão lhe não respondesse, porque José Maximo assim lh’o recommendára, a fim de não receber cartas que, por frequentes, se podessem tornar suspeitas, a familia de Cezár conhecia a enormidade do sacrificio que lhe fôra exigido, e a coragem com que elle o acceitára.

O Synhedrio, que a pouco e pouco ia augmentando em numero, teve casualmente a contra-prova de que as informações de José Maximo, a respeito do general Canavarro, eram seguras. A certeza d’esta importante adhesão fortaleceu muito o plano do movimento. Desde esse momento os fautores da revolução contaram com o apoio da guarnição do Porto.

José Maximo recebeu ordem para, aproveitando o primeiro pretexto, se despedir da casa do governador das armas.

Esse pretexto tinha-o elle de remissa havia muito tempo: era, como sabemos, a perseguição amorosa que lhe fazia a leviana Catharina.

José Maximo disse em confidencia ao Teixeira que, guardando respeito á casa do general, se ia despedir por aquelle motivo. Teixeira, muito pesaroso, respondeu logo que quem devia ser despedido era a Catharina. Mas José Maximo objectou-lhe que não queria prejudicar uma pobre mulher, a quem a sua má cabeça bastava para desgraça: ao passo que elle, como homem, encontraria sempre mais facil collocação. E despediu-se.

Experimentado pela prova de dedicação que acabava de dar, José Maximo foi encarregado de outro serviço, ainda muito mais importante do que o primeiro.

Certo o Synhedrio do apoio do general das armas, achou que não valia a pena sondar o animo das outras auctoridades.

Por isso, Fernandes Thomaz escolheu José Maximo para seu amanuense, especie de chanceller encarregado dos sêllos privados: era, alem de uma prova de consideração, tambem um premio merecido.

Desde esse momento, José Maximo deixou de ser Manuel do Nascimento, o Fresca-Ribeira, natural do Alemtejo, para subir a mais elevada categoria, passando a conviver com os deuzes do constitucionalismo no olympo revolucionario do Porto.

Foi então que elle poude conhecer Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, José da Silva Carvalho, Duarte Lessa e outros, que lhe appareciam já sem disfarce,—com plena confiança.

Entrado o anno de 1820, rebentou em Hespanha a revolução liberal, que restaurou a constituição de Cadiz. O povo, amotinado, obrigou Fernando VII a revogar todos os actos com que tinha combatido a liberdade. E como o rei catholico cedesse promptamente, os revolucionarios hespanhoes imaginaram que estava definitivamente restabelecida em Hespanha a idadede-oiro do constitucionalismo. Que fugaz illusão de politicos de boa fé, muito theoricos ou, como hoje diriamos, muito nephelibatas! N’isto se pareceram os de cá com os de lá.

O que é certo é que a revolução de Hespanha alentou o animo dos conspiradores do Porto.

O Synhedrio ia augmentando em numero: eram treze os seus membros. Declararam-se adhesões até ahi latentes. Por exemplo, o coronel Sepulveda, aliás tão dedicado á causa da revolução, começou a frequentar as reuniões realisadas em casa de Fernandes Thomaz.

Meiado julho, attento o estimulo que viera de Hespanha e a apathia de Lisboa, resolveu a junta revolucionaria do Porto não deixar esfriar esse estimulo e tentar ainda vencer o retraimento medroso da capital.

Por este motivo resolveu-se que Fernandes Thomaz viesse a Lisboa. Veio, e trouxe comsigo José Maximo, que retomára o seu antigo disfarce de criado, para o acompanhar.

A regencia do reino, avisada de que Fernandes Thomaz tinha partido para Lisboa, expediu contra elle apertadas ordens de prisão.

Um dia, Fernandes Thomaz tinha sahido logo pela manhã para avistar-se com um amigo, que morava ao Arco da Graça. José Maximo ficou em casa a preparar-se para ir entregar umas cartas, que o desembargador havia escripto na vespera á noite.

Descia elle a escada, no seu disfarce de criado, quando entraram dois beleguins.

—Olá! ó rapaz! perguntou-lhe um dos esbirros, tu és criado cá da casa?

—Sou, sim, senhor.

—Dize-nos uma coisa: não está aqui hospedado um sujeito que veiu do Porto?

José Maximo respondeu sem a menor hesitação:

—Está, sim, senhor. Está lá em cima, no quarto. Chegou ante-hontem.

Os beleguins subiram a escada contentissimos, e José Maximo, não menos contente, correu ao Arco da Graça a avisar Fernandes Thomaz do que se tinha passado.

Foi tão feliz, que o encontrou no caminho, de volta para casa. Fernandes Thomaz retrocedeu, e n’essa mesma noite retirava com José Maximo para o Porto, demorando-se, de passagem, algumas horas em Coimbra, para conferenciar com o seu particular amigo José Maria da Encarnação.

José Maximo tinha ganho, definitivamente, as suas esporas de ouro de conspirador. Se não fosse elle, Fernandes Thomaz haveria sido preso, e a revolução do Porto teria abortado. Fernandes Thomaz, bem como todo o Synhedrio, reconheceu, com palavras de muito louvor, esse importante serviço.

Sepulveda felicitava-se de ter concorrido para a iniciação de um tão importante e dedicado auxiliar.

A felizmente mallograda occorrencia de Lisboa determinou o Synhedrio a precipitar os acontecimentos.

No dia 24 de agosto rebentava no Porto a revolução. Todos os coroneis dos corpos da guarnição a apoiaram. O tenente-general Canavarro adheriu, como se esperava. O senado da camara tambem.

No Campo de Santo Ovidio, á frente das massas populares, que davam vivas á tropa, distinguia-se José Maximo, cujo chapeu andava n’uma constante rodaviva, regendo os compassos do enthusiasmo revolucionario, como se fosse a batuta de um maestro.

Numerosos grupos percorriam as ruas da cidade, acclamando os vencedores.

Na occasião em que um d’esses grupos passava pela porta do governador das armas, José Maximo avançou e, fazendo concha com ambas as mãos sobre a bocca, berrou para uma das janellas, em que a doidivanas Catharina parecia muito admirada de o vêr:

—Ó sr.ª Catharina! agora é que eu estou na minha fresca ribeira!

O Teixeira, muito contrariado com os acontecimentos d’aquelle dia, mas sempre muito discreto, abstinha-se de fallar, comquanto não pensasse n’outra coisa.

—Parece impossivel, matutava elle, que o sr. general deixe em liberdade todo este desafôro! Até os criados de servir já se mettem a patriotas! Pois o Manuel era um bom rapaz, mas corromperam-n’o! Que pena e que desgraça!



VI
Uma nuvem em ceu azul

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Que buscas por aqui por esta serra

Que segundo o que julgo vás errado?

Frei Agostinho da Cruz—«Varias poesias».

Quando a noticia da revolução do Porto chegou a Cezár, frei Simão de Vasconcellos, delirante de alegria, quiz commemoral-a festivamente.

Embandeirou as janellas da casa do Outeiro, e mandou á Feira, por um proprio, comprar morteiros e bombas.

Estas demonstrações de jubilo irritaram profundamente os visinhos que eram absolutistas.

A cada morteiro que estrondeava de dia ou de noite, Ignacio da Fonseca, desesperado, lamentava que o sobrinho estivesse ausente, porque, dizia elle, havia de o mandar disparar muitos tiros, por troça, ao pé da casa do Outeiro.

Na sua opinião não havia ninguem como José Maximo para dar tiros á tôa.

O abbade Moreira Maia não gostou da «funcçanata» do Porto, como elle classificou ironicamente o inicio do movimento liberal, mas isso não o impediu de montar a cavallo como tinha por costume. Padre Antonio Pinheiro, porém, encerrado no seu quarto, rezava de joelhos, com os olhos fechados, e, ao estrondo de cada detonação festiva na casa do Outeiro, estremecia de terror como se o mundo desabasse em torno d’elle.

José Maximo, no dia vinte e seis de agosto, ao fim da tarde, sahiu do Porto depois de ter ido perguntar a Frederico Pinto se queria alguma coisa para a sua familia.

Este irmão de frei Simão tinha casado havia um anno, como já sabemos.

Frederico Pinto, constitucional dedicado, disse a José Maximo que abraçasse por elle o irmão, ao qual, aproveitando o ensejo, escreveu uma carta.

José Maximo recebeu a carta aberta, mas fechou-a na presença de Frederico Pinto. E partiu.

Fez a jornada a cavallo, acompanhado por um arrieiro, que despediu a uma legua de distancia de Cezár, no ponto em que tinha de abandonar a estrada real do Porto a Coimbra.

Não desejava ser visto por ninguem da casa de Ignacio da Fonseca, mas já o não assustava a hypothese de que o tio viesse a saber que elle estava em Cezár.

A embriaguez capitosa da victoria duplicava-lhe a ousadia.

Em caminho do Outeiro, viu por entre as plumas amarellas de um campo de milho, que pertencia ao tio, apparecer uma cabeça de homem. Cozeu-se com o muro do atalho, e passou.

Na casa do Outeiro foi recebido como um vencedor. Frei Simão deu-lhe uma boa duzia de abraços muito expansivos.

Anna de Vasconcellos felicitou-o com ternos olhares, mais gloriosos para José Maximo do que uma corôa de louros. E o estrondo dos morteiros, augmentando, reavivou o desespero de Ignacio da Fonseca e o sobresalto do padre Antonio Pinheiro.

Largamente contou José Maximo os trabalhos por que tinha passado no Porto, a sua ida a Lisboa com o desembargador Fernandes Thomaz, factos de que em carta cifrada havia mandado summaria noticia a frei Simão.

Estava encantado de ouvil-o, o frade. Sentia-se orgulhoso de ter inventado aquelle revolucionario, por cuja intervenção collaborára tambem no movimento do Porto. Era como que uma vaidade de editor, que acabasse de dar ao prelo uma preciosa obra até ahi inédita e, portanto, desconhecida.

—E, agora, o que tenciona vossa mercê fazer? perguntou frei Simão a José Maximo.

—Eu sei lá! Estou ao serviço da junta provisional, e farei o que me mandarem.

—Volta então para o Porto?

—Tenciono voltar esta noite, porque apenas pedi licença por vinte e quatro horas.

—Que pressa! Tem vossa mercê deante de si um bello futuro. Mas pena é que não adopte uma carreira definida: a das armas ou a das lettras. São as unicas que no nosso paiz dão presentemente accesso ás maiores honras. Por que não pensa vossa mercê em continuar os seus estudos?

—Farei o que os meus amigos quizerem que eu faça.

Lembrou-se José Maximo de entregar a carta de Frederico Pinto a frei Simão.

O frade leu-a com interesse, e chamou em alta voz as irmãs para repetir a leitura.

Frederico Pinto convidava Anninhas—como na familia lhe chamavam—a ir passar algum tempo no Porto, em companhia da cunhada.

«Individualiso a Anninhas, dizia o ex-ajudante de infanteria 18, por ser a mais nova das manas, e por isso a que menos falta poderá fazer no Outeiro. Seria muito agradavel a minha mulher ter aqui uma menina da sua condição e do nosso sangue com quem repartisse as alegrias e os cuidados de mãe feliz e dedicadissima. O nosso Frederico promette ser um rapagão sádio e forte. Mas a Margarida queixa-se de que eu não tenho geito nenhum para ajudal-a a enfaixar e adormecer creanças.»

Mal podia imaginar José Maximo que essa carta, de que fôra portador, havia de lhe dar tão agradavel surpresa. Ficou doido de alegria. Anna de Vasconcellos tambem não poude dissimular todo o contentamento que a alvoroçou.

Consultada por frei Simão, respondeu de prompto que acceitava o convite. As outras irmãs sorriram, e frei Simão imitou-as involuntariamente. José Maximo, vendo sorrir as trez senhoras e o frade, tambem deixou entrevêr um sorriso, de que chegou a envergonhar-se. Só Anninhas, cahindo de repente em si, ficou n’um pudibundo enleio, que a tornou mais graciosa.

Durante o dia, José Maximo, aproveitando um momento de estar a sós com frei Simão, disse-lhe improvisamente:

—Tenho que fazer um pedido a vossa reverencia.

—Um pedido! exclamou o frade.

E receiou que José Maximo se lembrasse de pedir-lhe a mão de Anninhas. Frei Simão adorava esse rapaz, é certo, mas não poderia consentir n’um casamento, que desde logo não garantisse a independente subsistencia dos conjuges. A suspeita de ter que recusar, quando quereria conceder, sobresaltou-o dolorosamente.

—Um pedido, repetiu serenamente José Maximo. Vai vossa reverencia fazer-me o favor de acceitar uma restituição, sem que se dê por affrontado.

—Como?! perguntou frei Simão cada vez mais surprehendido. Uma restituição?!

—A ultima vez que estive n’esta casa obsequiou-me vossa reverencia com uma peça de ouro, dez crusados novos e um napoleão. Restituo a moeda portugueza, e guardarei a de França, como recordação historica, a que a significação, que vossa reverencia lhe deu, duplica o valor.

—Mas então, perguntou o frade, vossa mercê não precisou tocar n’esse dinheiro?!

José Maximo sorriu e respondeu:

—Esquece-se vossa reverencia de que fui durante algum tempo serviçal assalariado do governador das armas do Porto?! Depois d’isso subi de categoria e tenho recebido honorarios pelo meu trabalho de amanuense da junta. Quiz recusal-os, mas o sr. Fernandes Thomaz disse que, conhecendo os meus apuros, não podia dispensar-me de receber um modesto estipendio. A minha hesitação cessou completamente quando elle accrescentou que apenas queria remunerar os serviços materiaes, porque não havia ouro que pagasse uma dedicação sincera. Ora eu repito a mesma cousa a vossa reverencia: restituo aquillo de que não precisei, mas permanecerei devedor insoluvel pela gratidão eterna que devo a vossa reverencia.

Frei Simão estava como absorto deante d’aquella hombridade de caracter, d’aquelle orgulho de fidalgo pobre n’um moço que, por servir a liberdade, se tinha sacrificado ao ponto de assoldadar-se como serviçal. E quasi sentiu remorsos de ter receiado que José Maximo lhe quizesse pedir a mão da irmã. «Não! pensava o frade, um homem d’estes fará minha irmã princesa ou não casará jamais. É muito altivo para lhe impôr o sacrificio da pobresa. Os caracteres que mais facilmente se sacrificam são os que mais obstinadamente procuram evitar o sacrificio alheio.»

Frei Simão conhecêra a preceito a alma de José Maximo. Abraçou-o visivelmente commovido, e guardou o dinheiro sem oppôr maior resistencia.

Foi já de noite que José Maximo sahiu do Outeiro para o Porto.

Nunca elle havia trilhado aquelle caminho em tão alegre disposição de espirito.

A causa da liberdade estava ganha. Com a excessiva credulidade que é propria da gente moça, imaginava José Maximo que a revolução liberal era um monumento inabalavel e duradouro como as pyramides do Egypto. Tão cego de enthusiasmo estava, que nem a lição do que se tinha passado em Hespanha lhe acudia á memoria; não se lembrava de que, depois da revolução de Cadiz, Fernando VII se repatriára em triumpho e fôra acclamado rei absoluto pelas tropas do general Elio, com applauso da nação. O que José Maximo apenas via ou queria vêr era a victoria da liberdade em procissão festiva pelas ruas do Porto, e a ventura que n’aquella cidade o esperava na hora em que Anna de Vasconcellos lá chegasse. O coração e o espirito estavam satisfeitos. Parecia a José Maximo que todos os ideiaes da sua vida tinham attingido uma realidade tão feliz como perduravel.

Ao entrar no atalho que cortava os milharaes de Ignacio da Fonseca, viu, de repente, trez homens sentados no rebôrdo do muro, que era feito de pedras soltas. Conversavam fumando. José Maximo não gostou do encontro, mas não se acobardou. Levantou a gola da niza, derrubou o chapeu sobre a testa, e seguiu.

Tinha já passado pelo grupo, quando um dos trez homens gritou:

—Ó sr. José Maximo!

Fez que não ouvia. Mas outra voz insistiu:

—Então não quer o sr. José Maximo jogar o entrudo comnosco?! Ora quem elle é! O sobrinho do patrão! Vá com Deus, sr. José Maximo, e boa viagem.

Nem uma nem duas. José Maximo, que distinguiu perfeitamente a voz de Manel Zarôlho, criado de seu tio, foi andando sem responder. Mas levou a certeza de ter sido reconhecido pelo grupo.

Justamente esse criado era o que andava trabalhando no campo quando José Maximo passára para o Outeiro. Viu o sobrinho do patrão, e asseverou aos outros dois criados que era José Maximo em carne e osso.

—Aqui anda marosca por força! accrescentou. De casa do frade não sahe cousa boa.

Eram as ideias do patrão, a opinião dos absolutistas de Cezár com relação a frei Simão de Vasconcellos.

—Homem! pode ser que te enganasses, objectaram-lhe os outros.

—Qual historia! Não conheço eu outra cousa! Senão p’ra quê, havemos de desenganar-nos. De dia ou de noite, elle hade sahir do Outeiro, e como foi ás escondidas decerto se não demora muito. Havemos de vêr-lhe a figura.

Esperaram-n’o, e reconheceram-n’o, apesar de José Maximo não ter respondido.

O povo parece gostar de ser alviçareiro de ruins novas, sobretudo quando se lhe afigura que o revelal-as pode parecer dedicação pelo interessado em sabel-as.

Correram pois os trez criados a dar conta a Ignacio da Fonseca do que se tinha passado.

O lavrador, que andava aturdido com a revolução do Porto, ficou boqui-aberto.

Deu-lhe um bate no coração.

—Querem vocês ver, disse elle, que meu sobrinho vai feito com frei Simão e com toda essa maldita cambada de pedreiros-livres?! Pois se assim fôr, não quero que torne a pôr-me a vista em cima, nem tornar a vêl-o n’este mundo ou no outro.



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16 января 2025
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4064066412654
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