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Читать книгу: «Fénix Renascida»

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Pragas se orar mais por uma dama cruel

 
Não sossegue eu mais, que um bonifrate,
De urina sobre mim se vaze um pote,
As galas, que eu vestir, sejam picote,
Com sede me dêem água em açafate.
 
 
Se jogar o xadrez, me dêem um mate,
E jogando às trezentas um capote,
Faltem-me consoantes para um mote,
E sem o ser me tenham por orate.
 
 
Os licores que beba, sejam mornos,
Os manjares, que coma, sejam frios,
Não passeie mais rua, que a dos fornos.
 
 
E para minhas chagas faltem fios,
Na cabeça por plumas traga cornos,
Se meus olhos por ti mais forem rios.
 

Às poesias que se fizeram a uma queimadura da mão de uma senhora

 
Ó mão não de cristal, não mão nevada,
Mão de relógio sim, pois que pudeste
Nesta mísera terra em que naceste
Fazer dar tanta infinda badalada.
 
 
Que mão de almofariz enxovalhada
Foi tal, como tu foste, ó mão celeste,
Pois foste, quando mais resplandeceste,
Em tantas de papel tão mal louvada.
 
 
Nem de Cévola a mão negra e grosseira,
Queimada entre morrões publicamente,
Merecia tão míseras poesias.
 
 
Mas louvo-as de subtis em grã maneira,
Pois que para apagar a flama ardente
Se fizeram de indústria assi mo frias.
 

A uns noivos que se foram receber, levando ele os vestidos emprestados, e indo ela muito doente e chagada

 
Saiu a noiva muito bem trajada,
Saiu o noivo muito bem trajado,
O noivo em tudo muito conchegado,
A noiva em tudo muito conchagada.
 
 
Ela uma anágoa muito bem bordada,
Ele um capote muito bem bordado;
Do mais do noivo tudo de emprestado,
Do mais da noiva tudo de emprastrada.
 
 
Folgámos todos os amigos seus
De ver o noivo assim com tanto brio,
De ver a noiva assim com tantos brios.
 
 
Disse-lhe o cura então: – Confia em Deus.
E respondeu o noivo: – E eu confio.
E respondeu a noiva: – E eu com fios.
 

A uma Dama com quem andava de amores

 
Jogando com Paulinha o toque-emboque,
Porque me punha em ré, usou de treta;
Um cabe me armou, coube a palheta,
Morre ela que de ilharga só lhe toque.
 
 
Eu disse: «– Cabe peço, toque-emboque.»
Mas antes que co' as bocas arremeta,
Por me falar à mão, diz: «– Não se meta,
Por culos, dois da minha que se emboque.»
 
 
Endireito a palheta em tão boa hora,
Sem buscar tijolinho, e segurei-me,
Dando-lhe ora por dentro, ora por fora.
 
 
Virou-se para mim, eu alegrei-me
Dizendo-lhe: «– Essa volta me namora.»
Toquei-lhe as bocas do aro e emboquei-me.
 

A duas Senhoras que abriam as amêijoas com vergonha

 
O subtil caranguejo, mais manhoso
Que todo o animal de água salgada,
Quando se vê com fome regalgada,
O buscar mantimento lhe é forçoso.
 
 
Duas pedrinhas toma mui airoso
E, encontrando a amêijoa bem fechada,
Esperando que se abra de pancada,
Dentro lhas bota com modo furioso.
 
 
Assim aberta, sem se fechar mais,
Meu conselho tomai que, mui contente,
Vos servirei a todas de focinhos.
 
 
Por mais cerrada a amêijoa que tenhais,
Eu fico vo-la abra facilmente
O caranguejo meu e os dois seixinhos.
 

A uma freira chamada Beatriz

 
Senhora Beatriz foi o demónio,
Este amor, esta trampa, esta porfia,
Que não durmo de noite nem de dia
Em cuidar neste seco matrimónio.
 
 
Já pus uma candeia a Santo António,
Mas vendo que vos Deus não alumia,
Ou cuido me negais a serventia
Ou que não obra em vós meu antimónio.
 
 
Parece-vos que fico bem honrado?
Pois só por não quebrar essa clausura
Me tem toda esta terra por capado.
 
 
Não sofro estes reveses da ventura;
Ou hei-de desistir do começado
Ou hei-de esgravatar na fechadura.
 

A um nariz grande

 
Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a mão me dás,
Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti está
Porque monte tão alto não no há.
 
 
Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu hão-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
És tão grande, nariz, que há opiniões,
E prova-o com razões
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.
 
 
Cuido que sem narizes, por mostrar
Seu poder em acabar,
Sua grandeza,
Deixou gente sem conto a natureza,
Que assoas, Gabriel, quando te assoas,
Os narizes de mais de mil pessoas.
 
 
Aos mais narizes dás o ser que tem,
Nariz, e daqui vem
Que os nossos são
Os narizes em que há mor perfeição;
Que se os negros os tem esborrachados,
É porque estão em ti mais apartados.
Dos narizes todos é sabido
Terem um só sentido,
E é assi;
Mas em h, como corpo de per si,
Cinco sentidos há quem em conclusão,
És nariz que tem uso de razão.
 
 
E ainda que espante tanto nesta idade
Que por monstruosidade
Sejas tido,
Nariz, a muita gente tenho ouvido
Que ainda hás-de espantar mais na que há-de vir,
Porque ainda há muito em h por descobrir.
 
 
Vai-te, canção, e diz a este nariz
Que eu sou o que te hz.
E para lho dizeres
Daqui donde estás podes, se quiseres;
 
Возрастное ограничение:
12+
Дата выхода на Литрес:
24 августа 2016
Объем:
5 стр. 1 иллюстрация
Правообладатель:
Public Domain

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