Читать книгу: «Nocturnos»
Gonçalves Crespo
Nocturnos

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066412135
Índice de conteúdo
GONÇALVES CRESPO
NOCTURNOS
A MINHA MULHER MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
CONFIDENZA
O VELHINHO
ANIMAL BRAVIO
AD AGROS
A NUVEM
O JURAMENTO DO ARABE
NUM LEQUE
OLHOS DE JUDIA
H. HEINE NUMEROS DO INTERMEZZO
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
XIII
XIV
XV
XVI
XVII
XVIII
XIX
XX
XXI
XXII
XXIII
XXIV
O MINUÊTE
O COVEIRO
ADEUS!
CAMONEANA
I
NA EGREJA DAS CHAGAS
II
A LEITURA DOS LUSIADAS
III
ANNOS DEPOIS
ESPHYNGE
A CEIA DE TIBERIO
TRIO DE POETAS
I
JOÃO DE LEMOS
II
JOÃO DE DEUS
III
JOÃO PENHA
CHYMERAS
ODOR DI FEMINA
EM CAMINHO DA GUILHOTINA
A VIUVA
FLÔR DO PANTANO
A RESPOSTA DO INQUISIDÔR
FERVET AMOR
NA ALDEIA
ESTUDANTINA
AS ONDINAS
NO JOGO DAS CANNAS
NUNCA EU TE LÊSSE, BALLADA!
A NEGRA
MATER DOLOROSA
AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY
O CURA SANCTA CRUZ
A VENDA DOS BOIS
AO RABEQUISTA EUGENIO DEGREMONT
AS VELHAS NEGRAS
O RELOGIO
A MORTE DE D. QUICHOTE
D'esta edição tiraram-se mais trinta exemplares que não entraram no mercado; sendo:
| 12 exemplares em papel Japão | n.os 1 a 12 |
| 12 exemplares em papel Whatman | n.os 13 a 24 |
| 12 exemplares em papel China | n.os 25 a 30 |
GONÇALVES CRESPO
Índice de conteúdo
NOCTURNOS
Índice de conteúdo

LISBOA
18, Rua Oriental do Passeio 1882
Direitos reservados
LISBOA—Imprensa Nacional
A MINHA MULHER
MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
Índice de conteúdo
A ti, ó boa e rara e fiel amiga,
A mais sancta e a melhor das companheiras, A ti, ó flôr mimosa e alma antiga, —Doce Premio que ris ao meu cançaço— A ti, ó meu Conselho, estas ligeiras Folhas que ponho a medo em teu regaço.
CONFIDENZA
Índice de conteúdo
Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.
Mimosa e eburnea flôr,
Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...
Ouviste, meu amôr?
Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço
Ficava-me a sorrir
Para os quadros que eu via em luminoso traço
Nas télas do porvir.
Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,
Os que me lembram mais:
Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,
Os olhos teus leaes!
Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,
Uma aurora de abril:
Da larga estrada á beira um campanario branco,
O céu profundo anil.
De uma casa á janella uma creança loura,
Loura como um trigal:
Fiando á luz do sol que leve a sobredoura
De aureola ideal.
Toda risos e festa a doce creatura
Olhava para mim,
E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!
Serei feliz emfim!»
De um outro quadro então recordo-me saudoso,
E alongo os olhos meus
Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,
Que me cahiu dos céus!
Fica ao longe da vil poeira das cidades
E do seu vão rumôr,
O palacio esquecido; ás horas das trindades,
Entremos nelle, flôr!
Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,
E o oloroso pomar;
Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,
Comecemos a olhar.
É vetusto o salão; em flaccida poltrona
Repoisa e scisma alguem:
Alguem que nos recorda a imagem da Madona,
Grave e sizuda mãe.
D'esse alguem no regaço um anjo se reclina
Confiado e feliz,
Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina.
Falla, não sei que diz.
É casta essa creança e pura entre as mais puras,
Que em sonhos vi jámais;
Tem o vago esplendôr das biblicas figuras
Dos antigos missaes.
É moça e é menina: olhar nenhum ainda
De leve a maculou.
Dorme no seio della o amôr, a crença infinda
Que Deus lhe confiou.
Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,
Ficamos a pensar
Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas
Que descobre esse olhar.
Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,
Cego de tanta luz,
E que tremulo beije o tépido veludo
De seus pésinhos nús!
E não córa, bem vês, a candida creança!
Antes meiga sorri,
E entre risos me diz, compondo a escura trança:
«Pensava agora em ti!
«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava
«Na minha solidão!
«Vem os segredos vêr que para ti guardava
«Dentro do coração!»
Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras,
No célico esplendor!
Maria, essa creança, ó flôr das primaveras,
Eras tu, meu amôr!
O VELHINHO
Índice de conteúdo
A J. Cesar Machado
Aquelle que ali vae triste e cançado
E mais tremente que os juncaes do brejo.
Foi outrora o mais bello e o mais amado
Entre os moços do antigo logarejo.
Nas fitas d'esse labio desmaiado
Quantas mulheres tremulas de pejo
Não sorveram os néctares do beijo
Dos trigaes sobre o leito perfumado!
Hoje é velhinho, e falla dos francezes
Aos rapazes da eschola, e ás raparigas
Que não cançam de ouvil-o... As mais das vezes
Sobre a ponte, sósinho, ouve as cantigas
Das que lavam no rio, e o olhar extende
Ao sol que ao longe na agonia esplende...
