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Camilo Castelo Branco

O Bem e o Mal

Romance


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412661

Índice de conteúdo

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

I A visão do presbyterio

II Amor de predestinação

III Casamento patriarchal

IV Outros amores

V Veredas penhascosas

VI A humildade vencedora

VII Felicidades

VIII O Vigario de S. Julião da Serra

IX D. Alexandre é espalmado

X A victoria d’uma creancinha

XI Guilherme Lira

XII Serenidade da innocencia

XIII O Réu

XIV Episodio

XV Continuação

XVI O julgamento

XVII Contrastes

XVIII Mãi!

XIX Paz e contentamento

Conclusão

Moralidade

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

Índice de conteúdo

Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.

É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novella não perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. Quanto a linguagem tanto montava o quilate d’esta como o das suas irmans. A incorrecção é o castigo de quem escreve muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em Portugal é preciso isto.

O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de infastiar leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos os dias.

Ainda bem.

Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e lama os seus paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores sómente é permittido a quem lhes dá noticia de cousas não sabidas nem experimentadas. A virtude é o ranço d’estas gordas almas da nossa terra. Relatem-se crimes de cafrárias em linguagem de cafra.

S. Miguel de Seide, agosto de 1868.

Camillo Castello Branco.

AO


PADRE ANTONIO DE AZEVEDO

Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, e os enfermos da alma abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel em serviço de DEUS e da humanidade

OFFERECE ESTE ESCRIPTO

O Auctor.

Meu Amigo:

Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.

Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos, que ia á venda da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?

Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui do cubiculo de um hospital, muito visinho do cemiterio dos Prazeres.

Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de solpha, e as declinações da arte franceza.

Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de Cyro», o «Theatro dos Deuzes», os «Luziadas», «As perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e outros livros, que foram os primeiros.

Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, laudes, terça, sexta, etc., com padre Antonio.

Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O tempo ha de fazer de você alguma cousa.»

Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever o meu quadragesimo segundo volume, lembrou-me dedicar-lh’o, meu venerando amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim.

Lisboa, 22 de junho de 1868

I
A visão do presbyterio

Índice de conteúdo

Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.

Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo.

N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por lettras sem virtudes.

O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano.

Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão. Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica, poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada mão de um sabio.

Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.

Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda da sabedoria util e verdadeira.

Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos: lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707, transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau, e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes. De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta.

Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra chamada a Castra. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos; e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX.

É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças, quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo.

Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso de algum diluvio.

Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.

Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o arroteamento e a cultura.

A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos pobres o desmontar da terra deixada a monte.

As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da Castra, semelhava uma mouta de arbustos.

Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo convidativo cantar do gallo.

Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa, e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV.

Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de outras muitas.

Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia.

Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a vida por um fio.

Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia, nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo necessario ao ensino de Ladislau.

Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos, muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados.

Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau.

Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação, silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros com glacial taciturnidade.

Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro. Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu, a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria, modelado por este extraordinario succedimento!

Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza!

As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos serafins.

Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço de dezoito annos, sem uma só primavera:

—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram, no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?

—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».

—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou o padre com alegre sombra.

—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse Ladislau.

—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?

—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado na estranheza da insistencia.

—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te casares?

—Não senhor.

—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação de teu animo?

—Nem tenho cogitado n’isso.

—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre tem grandes alegrias e grandes amarguras, como todas as vidas, todas as vocações. Se queres a paz, que me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; os dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te afaste o calix d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a remuneração é infallivel: acceita-o, meu sobrinho, que o descanço, vindo apoz a batalha, é ineffavel como o jubilo dos Santos. Ora pois: pensarás um anno; consultarás o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao divino Espirito Santo que te allumie.

Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma ao Senhor; e Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo vigario de S. João da Serra, lá ficou na campa mais proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus, como quem cumpriu sua missão.

Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas palavras do tio moribundo, que tinham sido estas:

—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não, meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido, ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram, cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto, filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense mais um dia de existencia.

Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero.

Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo.

Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais abastados da freguezia.

—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes?

—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario.

—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia destinado á minha decisão.

O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes.

Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a campa dos sacerdotes seus antepassados.

Raiava a aurora, quando entrou á egreja.

E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.

Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral um raio de luz sobre o vulto ajoelhado, Ladislau reconheceu uma mulher.

II
Amor de predestinação

Índice de conteúdo

A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do vigario.

Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza.

Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na igreja de S. Julião da Serra.

Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no adro dos seus mortos, disseram:

«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».

Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos cerros das montanhas.

Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:

—Como isto é triste e feio!

Padre João olhou em redor de si, e respondeu:

—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.

E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho murmurando:

—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.

Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.

A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, laboriosa, e muito dada á oração.

Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote e d’ella.

Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João e de sua irmã.

N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio. Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e coração.

Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!

Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na audição interior do espirito.

Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.

Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:

—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.

Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.

Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.

Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma vela do outro lado.

Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar outro da tocheira.

Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.

Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a vel-a?»

Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia sahindo:

—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.

—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.

—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado está aberta.

Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.

Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.

Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!

Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:

—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.

E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.

—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?

A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro uso.

Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.

Quando a moça se assentou, disse Ladislau:

—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!

E ficou contemplativo.

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16 января 2025
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4064066412661
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