Читать книгу: «Uma Orquidea Para Chandra»

Шрифт:

Uma Orquídea para Chandra

Barbara Cartland

Barbara Cartland Ebooks Ltd

Esta Edição © 2014

Título Original: “Love in the Clouds”

Direitos Reservados - Cartland Promotions 2014

Capa & Design Gráfico M-Y Books

m-ybooks.co.uk

Nota da Autora

Ao visitar o Nepal, em 1958, voei até ao “Vale Feliz”, de Katmandu, pois a estrada que subia para as montanhas ainda era difícil e perigosa. No ano seguinte, abriram uma outra de acesso mais fácil.

Gostava daquele pequeno paraíso, lindo, envolvente, com seu povo simpático e encantador, principalmente os Gurkas. Hospedei-me em um dos belos Palácios, construído pela família dos todo-poderosos Primeiros-Ministros, falei com a “Deusa Viva”, uma menina de seis anos, e visitei os Monges do Tibete, que em minha honra, tocaram as suas trombetas de latão.

No Nepal, o “Teto do Mundo” é impossível não acreditar no sobrenatural, nas lendas que o país possui em abundância, e não sentir que o assombroso Himalaia, encerra segredos espirituais ainda desconhecidos para o mundo ocidental.

As referências feitas a sir Brian Hodgson e a Nana Sahib, são todas verídicas.

CAPÍTULO I

Ao voltar da aldeia, Chandra viu uma carruagem parada à entrada de sua casa, e apressou o passo.

Ficou aborrecida por alguém ter ido visitar seu pai sem que ela estivesse em casa, e sabia que ele não desejava ser incomodado. Reconheceu intimamente que era culpada, pois se não tivesse parado para tagarelar, teria chegado vinte minutos antes.

Sempre gostara de ir à aldeia, porque os donos das lojas modestas, que a conheciam desde menina, estavam sempre prontos a recordar os “velhos tempos” e sua mãe. A Sra. Geary, da padaria, mal a via, exclamava:

–Oh, Srta. Wardell! Cada vez que a vejo, está mais parecida com sua mãe.

–Não poderia dizer-me nada que me agradasse mais do que isso– respondia Chandra.

A Sra. Geary punha-se então a contar histórias sobre a beleza da mãe de Chandra ao chegarem à mansão senhorial, e o quanto era amada por todos na aldeia.

Chandra, reconhecia que aquela era a verdade, pois sua mãe tinha o dom de fazer amigos onde quer que fosse, e talvez se prevalecesse disso, mais do que qualquer outra mulher, para compensar as falhas sociais do seu marido.

O professor Barnard Wardell achava as pessoas maçantes e só desejava ficar a sós com seus livros. Era um dos maiores conhecedores de sânscrito de sua época. Fora eleito membro da Sociedade Real Asiática, bem como da Sociedade Real, e a Sociedade Asiática de Paris tinha-o em grande conceito.

Infelizmente, o público em geral não se interessava por seus trabalhos científicos, e portanto suas obras não eram vendidas facilmente. Por felicidade, recebia uma pequena subvenção da Sociedade Asiática de Bengala, pois de outro modo, teria que contar apenas com uma modesta quantia dos direitos autorais, enviada periodicamente por seus editores.

–O senhor não acha, papai– dissera-lhe Chandra inúmeras vezes–, que poderia escrever um livro que interessasse às pessoas comuns, desejosas de conhecer mais acerca do Oriente e dos seus tesouros literários? Há pessoas que nem sequer sabem que esses tesouros existem!

–Não desejo atirar minhas pérolas de sabedoria aos porcos!– replicara ele.

–Mas, papai, precisamos de dinheiro. Embora eu economize cada moeda que me dá, não podemos viver de brisa!

Enquanto falava, sabia que seu pai não lhe dava atenção.

Seu espírito estava distante, num lama seria, num Convento budista, no Tibete, ou em um Mosteiro no sopé do Himalaia, ou em qualquer parte do mundo onde os sábios do passado tinham escondido seus manuscritos, os quais ninguém, a não ser homens eruditos, podia decifrar.

Muitas vezes, ao ler sobre as vendas de um romance ou um livro de viagens com milhares de edições, Chandra desejava que seu pai fosse diferente. Depois, reconhecia orgulhosamente que ele era um sábio extraordinário, e não desejaria mudá-lo.

Justamente por não terem dinheiro, e ser quase impossível, ele ter uma secretária, foi que, há uns cinco anos, Chandra começara a trabalhar com o pai nas traduções.

De início, achara o serviço exaustivo, depois o julgara interessante, e na realidade muito fascinante.

Entretanto, o professor não era um homem paciente. Às vezes ele chegava a gritar com a filha, quando ela achava difícil entender palavras complicadas do sânscrito.

Mas, com o passar do tempo, e por ser muito inteligente, Chandra, se tornara cada vez mais eficiente, até que no último ano passara a fazer sozinha o esboço de um manuscrito, e seu pai, limitava-se a revisá-lo.

O professor Barnard estava envelhecendo, e devido às longas viagens que fizera por todas as partes do mundo, contraíra malária e todos os tipos de febres asiáticas. Contudo, jamais admitiria essa fraqueza, e Chandra costumava dizer-lhe:

–Papai, deixe que eu termine esta tradução. No jornal de hoje há um artigo muito interessante, e gostaria que desse sua opinião. Coloquei-o em sua poltrona.

Seu pai a obedecia, sentava-se em sua poltrona favorita, e mal começava a ler, adormecia. Chandra via nisso a prova de que, embora ele não aceitasse a sua debilidade, ela era um fato indiscutível.

Andando agora pelo jardim cheio de mato, precisando ser podado, por não poderem pagar um jardineiro, ela pensava que uma visita não só aborreceria o pai, mas o cansaria. Suspeitara, recentemente, de que ele se esforçava mais do que era prudente.

Ao aproximar-se da carruagem, viu que era puxada por dois cavalos, e na boleia encontrava-se um cocheiro muito elegante, usando um chapéu de três bicos.

Ficou imaginando quem seria o visitante, percebendo pelo estilo do carro não se tratar de um dos colegas literatos de seu pai, na maioria tão pobres quanto ele.

Só esperava que não fosse Lady Dorritt, a dona do Castelo, a quem realmente detestava. Era a esposa do Governador de província, que além de incrivelmente obsequiosa era muito tagarela.

Sabia, porém, que Lady Dorritt, só andava em carruagem fechada, por isso não devia ser ela.

Entrou no vestíbulo com painéis de carvalho, no qual havia uma escadaria no estilo Elizabetano, finamente entalhada, que subia em curva para o primeiro andar.

Ao dirigir-se para o estúdio, sabendo que era lá que seu pai devia ter recebido seu visitante, avistou uma cartola sobre a cadeira.

Sua mão já se estendera para a porta, quando ouviu uma voz grave que não reconheceu, e ficou escutando. Como não conseguisse ouvir claramente, em vez de entrar ali, correu até uma outra porta do vestíbulo, abriu-a e entrou na sala de visitas.

Esta era raramente usada desde que a mãe morrera. Suas cortinas estavam sempre fechadas para que o sol não desbotasse o tapete, e também para diminuir o trabalho de Ellen, a já idosa e única empregada.

Caminhando sem fazer ruído, Chandra foi até um armário de canto que permanecera no vestíbulo quando a sala fora reformada pela primeira vez. Descobrira recentemente que, ao abrir a porta desse armário, podia ouvir claramente o que falavam no escritório.

Supunha que, para instalar aquele armário, tinham tirado os tijolos, deixando apenas uma camada superficial de reboco na parede do quarto ao lado. Contara isso ao pai, que achara graça e lhe dissera:

–Não posso crer que esta casa, tendo pertencido à mais respeitável família do condado, até meu pai a adquirir, fosse usada para espionagem. No entanto, podemos tirar proveito desse posto de escuta…

–Como, papai?

–Quando alguns dos meus visitantes importunos demorarem demasiadamente, elevarei minha voz e você poderá vir socorrer-me…

–Tenho uma ideia, papai! Vamos inventar um código! Se disser, “está frio para esta época”, saberei que está ansioso por livrar-se deles e se falar; “sinto cheiro de fumaça”, compreenderei que devo socorrer o senhor imediatamente!

–É isso que sempre preciso, todas as vezes que você me impinge esses idiotas faladores– resmungou ele–, não consigo imaginar por que as pessoas não me deixam em paz!

Essa era a eterna queixa do professor, pois tudo que mais desejava era ficar sozinho com seus livros.

Ao abrir a porta do armário, Chandra ouviu a voz grave que escutara no vestíbulo dizer:

–Se a minha informação está certa, será a mais espantosa descoberta de todos os tempos.

–Concordo com o senhor– respondeu o professor–, mas sabe tão bem quanto eu que os informes desses manuscritos são frequentemente baseados em boatos e em geral, acabam demonstrando que são inteiramente sem valor.

–Meu informante é um homem de completa integridade, mas é natural que possa ter se enganado.

–Ele lhe foi realmente útil no passado?

–Sempre o julguei merecedor de crédito, além do quê ele se deu ao trabalho de vir para a Inglaterra,

–Certamente isso indica que ele estava convencido do valor do manuscrito, mas Lord Frome, ainda não me disse como lhe posso ser útil…

Chandra estremeceu. Sabia agora quem era o visitante. Damon Frome, era um dos homens mais interessados nos tesouros do sânscrito. Seu pai já o mencionara várias vezes.

Nos últimos dois anos o professor Barnard, realmente recebera de Damon Frome vários manuscritos, que Chandra ajudara a traduzir. Lembrava-se agora de que eram muito mais antigos e emocionantes do que todos os outros analisados por seu pai, e o melhor é, que o professor fora muito bem pago pelo tempo que gastara nessas traduções.

«Se Lord Frome trouxera algum trabalho novo para seu pai» pensou encantada, «seria justamente o que estava precisando no momento».

Há pouco, antes de sair da aldeia, o Sr. Dart, o dono do empório, avisara Chandra, que o professor estava devendo muito, e pedira-lhe para amortizar um pouco essa dívida.

O Sr. Dart, era um homem nervoso, um pouco gago, mas não do tipo explosivo e exuberante, próprio da sua profissão.

Chandra reconhecia que ele elevara a voz para lhe falar, mas sabia que a conta com o Sr. Dart vinha aumentando cada vez mais, já há meses.

–Falarei com papai– a moça respondeu–, estou certa de que ele se esqueceu dessa dívida com o senhor. Sabe o quanto ele é distraído.

–Peço que me desculpe por importuná-la, bem como ao professor– respondera o Sr. Dart–, mas sabe como os tempos estão difíceis, e nada posso encomendar ao meu atacadista, sem pagar em dinheiro.

–Compreendo, Sr. Dart. Falarei com papai mal chegue a casa– para aliviar um pouco a situação, ela lhe pedira notícias dos filhos.

Ao afastar-se do modesto estabelecimento, Chandra ficou imaginando como pagar essa dívida. Evidentemente, poderia escrever para os editores de seu pai. Já o fizera no passado e ele se zangara ao descobrir.

Tinha, porém, pouca chance de que concordassem em pagar adiantado pelos livros publicados no ano anterior, os quais, embora elogiados nas revistas eruditas, receberam pouca aceitação do público.

Ao voltar para casa, enquanto caminhava, perguntou a si mesma se ainda havia alguma coisa que pudesse vender. Mas não havia mais objetos de valor em sua casa, fora os manuscritos de seu pai.

Agora, porém, sentia-se animada. Lord Frome trouxera algum trabalho para seu pai, e tinha certeza de que no futuro tudo seria diferente.

–O que desejo nesta situação– continuou falando Lord Frome–, é o seu auxílio, professor, e de um modo diferente de tudo quanto já fizemos antes.

–Um modo diferente?– perguntou seu pai intrigado.

–No passado, trouxe-lhe manuscritos que descobri no Tibete e no Himalaia, e o senhor os traduziu com uma tal perícia, permita-me dizer-lhe, que não pode competir com nenhuma outra no mundo ocidental.

–É muita bondade sua– Chandra ouviu seu pai responder, sabendo o quanto esse elogio lhe agradara.

–Mas, como esse manuscrito é tão precioso e tão diferente de tudo que descobri anteriormente– continuou Lord Frome–, não só quero que o traduza para mim, mas que me ajude a achá-lo.

–Achá-lo?– repetiu o professor, muito surpreso.

–Isso mesmo. Para ser franco– observou Lord Frome–, não estou certo de que eu o reconheceria se o visse.

Houve um silêncio e Chandra tinha certeza da expressão perplexa de seu pai ao olhar para Lord Frome.

–O que estou querendo dizer, professor– disse o Lord, como se respondendo a uma pergunta muda–, é que o senhor tem de ir comigo para o Nepal.

–Nepal? Por quê? Julga ser lá que o manuscrito está escondido?

–Meu informante contou-me que existe uma lamaseria nas montanhas do outro lado de Katmandu. Tem quase certeza de que, nesse Mosteiro, o abade e os monges não fazem ideia do que possuem, de fato, ele julga que esses religiosos não são homens de grande cultura, mas sim donos de uma profunda piedade.

–É evidente que isso tornaria mais fácil a aquisição– observou o professor, de um modo prático.

–Foi o que pensei– concordou Lord Frome–, ao mesmo tempo, e segundo fui informado, naquele Mosteiro existem centenas, senão milhares de manuscritos! A não ser que eu, pretenda passar lá muitos anos para pesquisá-los, precisarei de seu auxílio para encontrar exatamente o que eu quero.

–Está realmente pedindo para eu o acompanhar ao Nepal? Ouvi dizer que é muito difícil entrar no país.

–Sim, é. De fato, a poucos europeus foi permitida a entrada, com exceção do residente britânico.

–O residente sir Brian Hodgson foi oficial da colônia britânica até 1842, se não me engano.

–Correto!– exclamou Lord Frome–, mas depois, lamentavelmente, devido à inabilidade de Lord Ellenborough, ele se demitiu. Tornou-se então uma espécie de ermitão em Darjeeling, onde realizou o mais espantoso trabalho nos manuscritos em sânscrito.

–Claro! Isso mesmo! Examinei a maioria dos que ele apresentou à Sociedade Real Asiática e ao Departamento da Biblioteca da Índia.

–E eu também– retrucou Lord Frome–, são coleções extraordinárias, e as gerações futuras deveriam sentir-se imensamente gratas pelas pessoas que neles trabalharam.

–Duvido!...– murmurou o professor, mas o outro continuou:

–Atualmente, existe um oficial da colônia britânica como residente britânico no Nepal. Foi uma sorte, ele ter convencido o Primeiro-Ministro, de que devia autorizar-me a entrar no país juntamente com um auxiliar. Admitindo que não pretendemos nos demorar muito, uma vez lá, creio que será possível alongar nosso limite de tempo.

–Está tornando tudo mais fácil do que eu esperava– observou o professor.

–Nada é fácil quando se está lidando com o Oriente. Teremos apenas que fazer as coisas gradualmente. O primeiro passo já foi dado, com a permissão de visitar o Nepal durante um tempo limitado.

–Os nepaleses não criarão dificuldades com a remoção de seus tesouros?– perguntou o professor.

–Duvido que saibam o valor deles, não em termos de dinheiro, naturalmente, mas a sua importância intelectual. Não preciso dizer-lhe, professor, que se encontrarmos o “Manuscrito Lótus”, conforme o chamamos, toda a humanidade inteligente se beneficiará posteriormente desse grande achado!

–Não nos resta senão rezar, para que seu informante não tenha sido iludido por informações falsas.

–Tenho um pressentimento, e costumo segui-los, de que vamos encontrar o manuscrito! E ele será trazido para cá, a fim de que o senhor possa realizar seu trabalho de pesquisa e tradução.

Lord Frome devia ter se levantado, pois Chandra ouviu o ruído de uma cadeira sendo empurrada, escutando depois:

–Parto esta noite, professor, e espero que possa juntar-se a mim, o mais depressa possível, em Bairagnia.

–Como poderei fazer isso? Não planejei nada!

–Tomei a liberdade de reservar uma cabine no navio Bezwada, que vai zarpar de Southampton, na próxima quarta-feira. Quando o senhor chegar a Bombaim, já deverei ter partido para o norte, mas o esperarei em Bairagnia.

Fez uma pausa, e Chandra presumiu que estivesse sorrindo ao dizer:

–Sei que já andou muito a cavalo, professor… espero que não tenha abandonado esse exercício ao viver aqui na Inglaterra.

–Está dizendo que precisarei montar para entrar no Nepal?

–Isso mesmo, a estrada de ferro termina em Bairagnia. Depois, leva-se dois dias cavalgando por uma região montanhosa antes de chegar à “estrada”, se é que assim possamos chamá-la, a que vai dar a Katmandu.

–Não poderá ser pior do que a viagem que fiz a cavalo para o Tibete, há dez anos. Às vezes imagino como não morri congelado ou me perdi nas tempestades de neve que quase me impossibilitavam de encontrar o caminho.

–Um passo em falso e estaria no precipício!– acrescentou Lord Frome, rindo–, o Nepal não é assim tão ruim, embora seja chamado “o teto do mundo”.

–Tranquiliza-me, milorde– observou o professor–, eu ando muito bem a cavalo.

–Aqui está sua passagem para o navio e dinheiro suficiente para as despesas da viagem. Um de meus empregados o esperará em Bombaim, com as passagens do trem. Ele vai viajar com o senhor e cuidar para que tudo lhe seja satisfatório.

–Sempre soube que o senhor é um homem prático e um viajante muito eficiente, milorde– observou o professor.

–Realmente sou– replicou Lord Frome, num tom um tanto duro.

–Faço meus planos com bastante antecedência, e se não forem impedidos por qualquer imprevisto, tudo corre calmamente.

–Vou esperar ansiosamente pela nossa grande aventura no Nepal– disse o professor–, e como o senhor sempre é bem-sucedido, milorde, espero que desta vez não se dececione.

–Duvido muito– replicou Lord Frome.

Chandra escutou os dois atravessarem o escritório dirigindo-se para o vestíbulo. Compreendeu que seu pai estava acompanhando o Lord até a porta de entrada.

Pensou em juntar-se aos dois, mas desistiu. Tinha a impressão de que ele não se interessava pela vida particular de seu pai, e tampouco fazia questão de conhecê-la.

Lord Frome não se preocupara por estar interrompendo a vida familiar do professor, se é que sabia de sua existência, ao ordenar aquela partida, quase que imediata para o Nepal.

Pela sua voz autoritária, deduziu que devia ser um homem habituado a dar ordens sem admitir réplicas. Evidentemente, sabia que o professor ficaria emocionadíssimo ao ouvir falar do manuscrito raro e até o momento desconhecido.

Contudo, poderia ter mostrado um pouco de humanidade, desculpando-se pelo transtorno que estaria causando a um homem idoso, tendo que abandonar sua casa na Inglaterra sem um aviso prévio de alguns dias.

Ao ouvir bater a porta de entrada, Chandra saiu da sala de visitas escura. O pai estava voltando para o escritório. Em seu rosto transparecia uma expressão de deslumbramento.

–Papai…– ele porém, a interrompeu.

–Pôde escutar o que foi dito, Chandra? Presumi que o fizesse na sala vizinha.

–Sim, papai. Estive ouvindo.

–Imagine! O “Manuscrito Lótus”! Sempre ouvi falar e sonhei com ele desde menino. Jamais pensei que o veria… que pudesse tê-lo em minhas mãos!

–Não pode ter certeza de que o encontrará, papai. Por favor, conte-me algo a seu respeito.

O professor deixou-se cair numa poltrona de couro desbotado e gasto, mas a mais confortável da sala.

–Segundo se supõe, o “Manuscrito Lótus”, como é conhecido na linguagem comum entre os estudiosos dos textos orientais, foi escrito por um dos discípulos de Buda enquanto ele ainda vivia. Nele estão narradas explicações, que não constam de quaisquer outros livros. Por ser tão sagrado para os adeptos de Buda, foi escondido logo após sua morte para evitar que caísse em mãos impróprias.

–Onde o esconderam?– perguntou Chandra.

–Pelo que sei, foi levado de uma lama para outra, carregado pelas montanhas e rios! Sempre foi tratado com grande reverência, contudo não permaneceu em nenhum lugar por muito tempo.

Graças aos seus estudos sobre o Oriente, Chandra sabia que isso era típico daqueles homens santos que sempre suspeitavam que algo de tão precioso pudesse ser roubado ou, o que era pior, dos inimigos de sua religião que desejassem destruir o que não compreendiam.

–Acredita realmente que uma coisa tão valiosa pudesse acabar num Convento budista do Nepal?– perguntou.

–Sabemos pela Coleção Hodgson quão inesperadamente importantes demonstraram ser as obras budistas, em sânscrito, no Nepal. Talvez esse convento, já não muito útil, pudesse ter tido no passado um abade encarregado de salvar o “Manuscrito Lótus”!

–Mas, papai, não vê que essa viagem será muito penosa? O senhor será forte o suficiente para empreendê-la? Para poder cavalgar pelas montanhas?

Como o pai não respondesse, prosseguiu:

–Sei que o senhor já fez isso no passado… mas era muito mais moço.

–Ainda não estou senil– replicou o professor, rispidamente–, não vejo nenhum motivo para não tornar a fazer o que fiz inúmeras vezes no passado.

Pela expressão do pai, compreendeu que ele estava enlevado pela ideia daquela viagem, e não adiantava tentar dissuadi-lo. Em vez disso, o melhor que teria a fazer para auxiliá-lo era supri-lo de todo amor e conforto. Aproximou-se dele e beijou-lhe a testa.

–Será muito emocionante, papai. Gostaria de poder ir com o senhor.

–Eu também, querida. Para ser franco, sentirei sua falta.

Chandra sabia que era verdade. Ele a sentiria, não só porque se habituara a ser cuidado por ela, mas por confiar no trabalho que faziam juntos.

–Sei que se arranjará sem mim– disse ela em voz alta, para inspirar-lhe confiança–, só que existe uma dificuldade… o que eu vou viver, enquanto o senhor estiver fora?

Julgou que seu pai lhe diria que não desejava ser importunado com raiz banalidades, mas ele respondeu:

–É evidente que não ouviu o que o Lord Frome me disse ao sair do escritório.

–O que foi, papai?

–Disse: “Esqueci de mencionar, professor, que insisto em pagar muito bem pelos seus serviços. Eis aqui um cheque de seiscentas libras, e haverá um outro da mesma importância para quando voltar com o manuscrito, e nele começar a trabalhar”.

–Mil e duzentas libras! Mal posso acreditar, papai!

–Parece uma quantia enorme– retrucou o professor–, mas enquanto isso… haverá despesas, e evidentemente ignoramos quanto tempo levarei para traduzir o manuscrito.

No momento, Chandra estava disposta a dispensar tudo aquilo como desnecessário. O que importava era poder pagar as contas na aldeia, e também que Ellen e ela sobreviveriam enquanto seu pai estivesse fora. Enlaçou o pescoço dele, dizendo muito animada:

–Isso é realmente maravilhoso, papai! Estive justamente pensando, ao voltar da aldeia, como poderia dizer-lhe que o Sr. Dart, pediu-me para que pagasse alguma coisa por conta de nossa dívida tão antiga.

–Agora pode pagar tudo!– respondeu ele–, e também aos outros negociantes aos quais estamos devendo.

–Temos muitas dívidas– observou Chandra com um sorriso, sabendo o quanto seu pai era desligado dessas coisas–, mas agora está tudo ótimo. Vou correndo contar a Ellen.

Ellen fora criada de sua mãe. Depois que ela morrera, passara a cuidar dos dois. No momento encontrava-se na cozinha preparando sanduíches de pepino, os prediletos do professor, e fervendo água para o chá. Sua expressão demonstrava que ela estava preocupada com os problemas domésticos.

– Ellen, o que pensa disso?– perguntou Chandra, ao entrar na cozinha.

–O que penso, Chandra? Que está atrasada para o chá, e que temos uma visita.

–A visita já foi, mas deixou um cheque de seiscentas libras!

–Ora, Chandra. Não quero saber de suas brincadeiras. A falta de dinheiro não é assunto para caçoadas.

–Não estou brincando! Estou rindo porque é verdade, Ellen! Quem nos visitou foi Lord Frome, e deixou um cheque de seiscentas libras como pagamento, para que papai vá com ele para o Nepal.

Ellen largou a faca de pão e olhou para Chandra, como se ela tivesse perdido o juízo. Disse, logo em seguida:

–Ir para o Nepal? Sabe que isto é impossível!

–É verdade, Ellen. Papai concordou em ir. Aliás, é o que ele mais deseja na vida! Você acha que será demais para ele esta viagem?

–Não só é demais, como poderá até provocar a morte dele… isso é o que vai acontecer! Não concorda comigo?

Como Chandra não respondesse, ela continuou:

–Sua mãe me disse, inúmeras vezes, que essas viagens demoradas para os países bárbaros acabariam por matar o professor antes do tempo. Como pensa que ele possa sair por aí vagabundeando, nesta época de sua vida?

Chandra pareceu ficar impressionada.

–Bem que pensei que pudesse ser demais para ele, mas está tão emocionado com a ideia, e decidido a ir. Imagine só, Ellen. Agora podemos pagar todas as dívidas. Ainda esta tarde, o Sr. Dart perguntou-me se poderia dar alguma coisa por conta, e eu lhe disse que falaria com papai, mas sabia que não havia nenhuma esperança de saldar essa dívida. E agora temos dinheiro!

–O dinheiro não é tudo, Chandra!– observou Ellen, tornando a cortar fatias de pão–, seu pai é um homem doente, embora não queira admiti-lo.

Chandra sentou-se perto da mesa.

–Se ele não for, teremos que devolver o dinheiro a Lord Frome, e então como vamos viver?

–Não sei, e isso é um fato. Sei que seu pai não está bastante forte para subir montanhas. Sua mãe sempre me disse que aquelas febres o haviam deixado tão fraco quanto uma criança, e que atacaram o coração dele.

–Você está me assustando, Ellen.

–Alguém tem que ter a cabeça no lugar nesta casa!– assim falando, colocou as sanduíches num prato e pegou a bandeja já arrumada com uma toalha de renda e um lindo aparelho de chá. Ellen sempre fazia tudo como quando a mãe de Chandra era viva.

Carregando a bandeja, Ellen foi na frente e Chandra a seguiu. Foi só quando chegaram ao vestíbulo que ela se adiantou para abrir a porta do escritório.

Seu pai estava sentado do mesmo modo como quando o deixara, e um sorriso pairava em seus lábios demonstrando o quanto estava feliz por tudo aquilo.

–Aqui está seu chá, professor– disse Ellen, colocando as coisas numa mesa ao lado dele.

–Obrigado, Ellen. Espero que Chandra já lhe tenha contado as notícias emocionantes.

–São realmente emocionantes– respondeu ela–, mas já imaginou o quanto exigirão de suas forças?

–Estive pensando que será uma das viagens mais excitantes que empreendi em toda a minha vida– disse satisfeito.

–Estive calculando, professor– continuou Ellen, como se ele não tivesse falado–, que há quase dez anos, o senhor partiu numa viagem desse tipo. Caso se lembre, foi para Sikkim.

–Lembro-me perfeitamente! Foi uma excursão muito interessante, mas não muito compensadora– ergueu o olhar para Chandra, dizendo–, deve estar lembrada de que eu trouxe algumas pequenas obras budistas, que atualmente estão no Departamento da Biblioteca da Índia. Não eram, porém, tão antigas quanto eu esperava.

–Quando eu as li há alguns anos, não eram bastante antigas para serem realmente valiosas. Pelo menos, segundo a opinião de um colecionador.

–Isso foi há dez anos– insistiu Ellen.

–Está bem, Ellen! Há dez anos!– concordou o professor–, mas ainda estou bastante jovem para ir até o Nepal.

–Espero que pense assim, quando chegar lá, professor, àquela terra perigosa e sem conforto!

Ellen manifestou-se asperamente, e como se não pudesse continuar a falar sem dizer coisas das quais se arrependeria, depois retirou-se impulsivamente.

–Coitada da Ellen...– disse o professor sorrindo–, sempre quis mimar-me, tal qual sua mãe. Você é mais razoável, querida. Compreende que esta é a oportunidade de minha vida e nada me fará perdê-la.

–Entendo, papai, e devo admitir que eu mesma me sinto entusiasmada com o tal “Manuscrito Lótus”.

–Você vai traduzi-lo! Talvez ele venha ser a única obra em sânscrito que realmente conquiste o espírito do mundo moderno!

Chandra sabia quão insignificante era o interesse despertado pelo trabalho de seu pai. Para ela significava beleza, pensamentos inspiradores, que poderiam estimular e enaltecer as mentes daqueles que o compreendiam. Para muitos, suas obras representavam apenas “velhos livros empoeirados”.

Acariciando a cabeça de Chandra, ele falou:

–Tem sido uma boa filha para mim, desde que sua mãe morreu. Ter você comigo me ajudou muito.

–Estou muito contente com isso, e apesar do que Ellen possa dizer, o senhor deve fazer a viagem. Vai se sentir tal qual Jasão à procura do Velocino de Ouro, pois mesmo que não o encontre, haverá a emoção da busca.

Chandra observou um novo brilho no olhar do pai, e ele pareceu-lhe mais jovem. Pensou, então, que ao envelhecer, o que importa é a esperança; ela é melhor do que qualquer tônico que possa ser receitado.

Beijou o pai e disse:

–Vou até o sótão buscar as coisas que mamãe e eu guardamos quando o senhor voltou da viagem a Sikkim. Devem estar perfeitas, pusemos bastante naftalina. As roupas devem servir, afinal, o senhor não engordou tanto assim.

–Não. Ainda sou magro e não será difícil para um cavalo carregar-me pelas montanhas.

–Quero que o senhor faça um diário durante a viagem. Embora tenha sido deixada para trás, eu vou sentir que viajei com o senhor quando ler suas memórias.

–Está bem. Você não poderia ir mesmo. Não é o tipo de viagem conveniente para uma mulher.

–Não foi o que disse quando mamãe insistiu em acompanhá-lo a Sikkim. Não se esqueça de que também fui com você à Índia, e aquele verão estava quentíssimo.

–Sim, apesar da idade, você esteve ótima.

Já na porta, ela parou e disse baixinho:

–Suponho que não adianta perguntar a Lord Frome se posso acompanhá-lo? Afinal, alguém tão importante quanto o senhor tem o direito a um auxiliar. Se quiser, posso ser sua criada particular…

–Passei a vida inteira sem nenhum!– respondeu ele rindo–, gostaria muito de ter você como auxiliar, mas seria uma perda de tempo perguntar isso justamente a Frome.

–Porquê… justamente a Frome?

–Por ter a reputação de inimigo das mulheres. Já ouvi várias histórias a esse respeito. Dizem que começou a viajar pelo mundo por sofrer de um mal de amor.

–Que coisa fascinante! E o senhor sabe quem lhe causou esse “mal de amor”?

–Não tenho a mínima ideia– respondeu o professor–, tudo que sei é que ele é um homem orgulhoso, impetuoso, e que raramente se preocupa em tornar-se simpático, pelo menos no que se refere às mulheres.

–Há quanto tempo o conhece, papai?

–Há muitos anos, e nossos caminhos se cruzaram em várias ocasiões. Lembro-me, de tê-lo encontrado na Índia, quando sua mãe me acompanhou. Ela não o apreciava.

–E por quê?– perguntou Chandra, interessadíssima.

–Julgava-o dominador, agressivo. Talvez ele fosse, naquela época.

–E agora?

–Já não precisa ser agressivo, mas é dominador por si mesmo.

–Está descrevendo-o de modo muito eloquente! Continue!

–Realmente, não sei mais o que lhe dizer– respondeu o pai–, Lord Frome recebeu seu título ainda muito jovem, mas não costuma usá-lo. Prefere ser chamado Damon Frome, salvo quando deseja prevalecer-se dele para fazer o que quer. Creio que foi o que fez, para conseguir entrar no Nepal.

–E por que esse interesse especial por um idioma tão antigo como o sânscrito?

–Não faço ideia!– respondeu o pai, sacudindo os ombros–, é certamente um interesse estranho para um homem tão jovem; não há dúvida de que, no passado, colecionou inúmeros manuscritos extraordinariamente valiosos. A maioria veio do Tibete e, como você sabe, durante todos estes anos, Lord Frome me enviou uma grande quantidade para traduzir.

–E uma vez traduzidos, o que o Lord faz com eles?

–Ele os publica, e eu recebo uma certa quantia dos direitos dos livros vendidos.

–Parece-me ser um tanto misterioso. Que idade tem ele, papai?

–Uns trinta e poucos– disse o pai, encolhendo os ombros–, é desses homens que poderia ter qualquer idade, mas calculo que seja ainda bastante jovem, pois quando o conheci era apenas um menino.

–E é rico?

–Creio que é muito rico. A maioria dos homens de sua idade se diverte frequentando clubes sociais e de hipismo, tentando ganhar o prêmio Derby ou praticando iatismo em Cowes.

–Oh, papai! O senhor é tão engraçado! Comporta-se como se vivesse com a cabeça nas nuvens, mas quando entra no assunto, sabe muito mais sobre o mundo social do que aparenta.

–Um mundo que não me interessa! Sua mãe, teria se divertido nele, quando éramos jovens, embora eu não pense que lhe tenha feito falta.

–Ela não sentia falta de nada quando estava com o senhor. Se o senhor lhe tivesse pedido para morar na Lua, ela iria viver lá muito feliz!

–É verdade– concordou ele–, embora tenhamos passado por muitas privações, sempre conseguimos zombar da vida, porque nos sentíamos felizes estando juntos.

–Eu também, não se esqueça!– lembrou-o Chandra num tom carinhoso.

–Sei disso, minha querida, e achávamos você a criança mais encantadora que duas pessoas podiam ter tido, embora um pouco dececionados, por termos apenas uma.

–Certamente não poderia ter levado mais de uma pelos desertos, através da Índia e de todos os lugares que visitamos– observou Chandra.

O professor suspirou.

–Sinto-me sempre feliz por sua mãe ter passado os últimos anos aqui. Ela desejava tanto ter um lar…

–E mamãe soube torná-lo muito feliz– acrescentou Chandra–, sempre que entro em casa, parece-me ouvi-la perguntar; “É você, filha”?

Ao ver os olhos do pai enevoados, arrependeu-se de ter falado.

–Você ficará bem, quando eu partir?– perguntou ele de repente.

–Claro, papai. Ellen estará comigo.

–Espero não demorar demais.

–Também espero, papai. Sentirei sua falta, por isso, quero que me deixe bastante trabalho para eu me distrair. Sei que ainda restam os últimos manuscritos da Sociedade Real Asiática, mas sem o senhor não será a mesma coisa.

O professor levantou-se.

–Se fosse qualquer outro que não Frome, não ligaria para as consequências, e exigiria que você nos acompanhasse, mas ele é um homem tão imprevisível! Talvez respondesse que arranjaria uma outra pessoa qualquer.

–E isso partiria seu coração!– exclamou Chandra–, não faz mal, papai. Eu o seguirei em pensamento e rezarei para que encontre o “Manuscrito Lótus”, trazendo-o ao voltar, para que eu o veja.

–E então, com as outras seiscentas libras no bolso, festejaremos, e você terá tudo quanto deseja. Prometo-lhe!

Chandra levantou-se para abraçar e beijar o pai.

–Papai, o senhor se cuidará? Ficarei muito aflita, com Ellen preocupando-se o tempo todo com o senhor.

–Por ela, eu já estaria numa cadeira de rodas. As mulheres, seja qual for a idade, gostam de ter um inválido com o qual possam fazer-se de valentonas.

Chandra riu, e depois disse:

–Agora vou até o sótão, e posso apostar que Ellen já estará lá. Ela resmunga mas, no fundo do coração, sente-se orgulhosa de tudo o que o senhor faz! Ela é igualzinha a mim!

–Era o que sua mãe costumava dizer. Gostaria tanto de encontrar o “Manuscrito Lótus”, unicamente por que ela teria ficado tão satisfeita!

–Se o senhor de fato o encontrar, acreditarei que foi mamãe quem o auxiliou.

Assim falando, dirigiu-se decididamente para a porta, sabendo que, embora sentisse um prazer imenso em conversar com o pai, tinha muito o que fazer para aprontar sua mala de viagem.

Ao subir a escada, pensou no quanto seria divertido ir com ele, como já o fizera anteriormente. Lembrou-se de como eram alegres aquelas aventuras, até mesmo quando resultavam em catástrofes, como no dia em que as mulas, carregadas de objetos preciosos, despencaram no precipício e tudo se perdera em baixo, no vale.

Lembrou-se também de situações que fariam uma pessoa chorar, mas sua mãe as enfrentava com um sorriso, sempre alegando que poderia ter sido pior, ao saírem ilesos de um acidente. Era ela quem proporcionava conforto a seu pai, nos lugares os mais incríveis.

Ela o envolvera numa aura de amor que, apesar das vicissitudes, tornara impossível outro sentimento que não fosse a felicidade. Pensou que, desde que a mãe morrera, ela e Ellen tinham cuidado dele. Julgava que o pai, não se teria arranjado sem elas.

Sabia que aquela viagem ao Nepal não só o faria feliz, mas representava a solução imediata para seus problemas financeiros. Disse a si mesma, que aquela excursão, no momento, era providencial.

Dirigiu-se ao seu quarto, tirou o chapeuzinho que estava usando e atirou-o para uma cadeira. Estava ainda muito quente para vestir um casaco. Olhando para o vestido, achou-o desbotado e na realidade muito surrado.

Tinha sido bom não ter entrado no escritório para falar com Lord Frome! Quem sabe se não pensaria em pagar menos ao professor, por ser óbvio que eles passavam dificuldades? Bem que Lord Frome poderia ter se aproveitado da pobreza deles. . .

Em seguida, disse a si mesma que estava atribuindo qualidades injustas ao homem que devia considerar um benfeitor. Afinal, mostrara-se generoso, ao prever que seu pai necessitaria de dinheiro na viagem de trem através da Índia. Sorriu, ao reconhecer que ela o julgara mal, simplesmente porque Lord Frome era o tipo de homem ao qual seu pai não poderia pedir um favor.

–Ele está afastando papai de mim. Creio que, na realidade, eu o odeio por isso!– disse à sua imagem refletida no espelho.

Ao ver-se tão séria, sorriu e disse em voz alta:

–Um inimigo das mulheres! Se não fosse isso, poderia ter causado uma transformação em minha vida!

CAPÍTULO II

Chandra, desceu carregando ainda mais coisas para juntar às outras já empilhadas no vestíbulo. Sempre julgara ser mais fácil viajar com poucas malas, mas agora descobrira que seu pai precisava de tantas coisas, que chegara a arreliá-lo dizendo que necessitaria de um elefante especial para transportá-las.

Evidentemente, algumas eram essenciais para seu trabalho, e sem elas sentir-se-ia perdido. Da mesma forma, jamais pensaria em ausentar-se sem levar determinados livros que desejava ler. Decidira aprender bastante sobre o Nepal, antes de chegar lá.

Era uma das regiões do Oriente que ele não visitara no passado, e por isso ela e o pai se entusiasmavam pelo que poderiam aprender nos inúmeros livros que enchiam as prateleiras do estúdio. Era evidente que muitos estavam desatualizados, mas havia um grande número dos que se relacionavam com a história antiga da monarquia do Nepal.

Ficaram sabendo que, desde 1857, o poder permanecera nas mãos do Primeiro-Ministro, ao passo que o Rei era o Chefe simbólico do país.

Aquilo tudo era fascinante, mas Chandra tinha consciência do muito que ainda lhe restava fazer, e limitava-se a passar os olhos por aqueles livros e ouvir o que o pai lhe contava à noite, após terminar seu trabalho.

Ao aproximar-se a hora da partida, viu-se pensando continuamente na ansiedade de Ellen relativa a seu pai e, embora ela não fizesse comentários, sabia que a velha empregada não julgava provável que ele sobrevivesse àquela viagem.

Chandra sempre se dirigia à mãe mentalmente, pedindo-lhe um conselho:

«O que devo fazer? Sabe o quanto papai deseja encontrar o “Manuscrito Lótus”… e precisamos tanto de dinheiro! Foi realmente uma dádiva divina, Lord Frome ter aparecido no momento exato». Tinha a impressão de que a mãe a compreendia, mas continuava sentindo dúvida de estar agindo corretamente ao deixá-lo partir.

Não tinha ilusões de impedi-lo, pois sabia que a mãe fora a única, que tivera esse poder. Repetia incessantemente; «ele irá, mesmo que isso o mate!». Logo depois, pensava que se isso acontecesse, ele teria a morte que sempre desejara.

Tudo estava pronto para a grande viagem ao Nepal. O dia seguinte seria o último que passariam juntos, e ela queria aproveitar cada momento em companhia do pai, antes de partirem muito cedo para o porto de Southampton. Decidira acompanhá-lo a bordo para ver se estaria confortavelmente instalado. Colocaria algumas rosas na cabine, para que ele se sentisse em casa, na travessia da baía de Biscaia, onde o mar era sempre agitado.

Dirigiu-se ao escritório e, conforme esperava, encontrou o pai trabalhando.

–O que está fazendo?– perguntou-lhe.

–Estou aprimorando meus conhecimentos do idioma nepali.

–Por quê? É diferente do urdu?

–A língua newari está relacionada com a tibetana– respondeu o professor–, e conserva uma característica monossilábica. Não possui uma escrita individual, mas adotou o sânscrito, modificando-o de acordo com suas necessidades.

–Creio que já sabia isso… mas achará difícil compreender o newari?

–Espero que não. Como você sabe, falo tantos idiomas e dialetos diferentes, que conseguirei fazer-me entender.

Chandra inclinou-se por cima do ombro dele, para ver o que estava escrevendo. Verificou que estava traduzindo frase comum, que teria de empregar. Pediu-lhe para ensiná-la a pronunciar umas duas, repetindo-as em seguida.

–Não é difícil demais, porque podemos entender o sânscrito, mas julgo que uma pessoa que desconhecesse totalmente a língua e o país acharia extraordinariamente custoso.

Chandra suspirou e disse:

–Oh, papai, como gostaria de ir com o senhor! Poderíamos fazer tantas coisas, e seria tão divertido.

–Sei disso, querida, mas garanto-lhe que Lord Frome se horrorizaria com essa ideia! Certamente contrataria outra pessoa e pediria seu dinheiro de volta.

–Não imagine tal coisa!– disse ela, juntando as mãos horrorizada–, toda a aldeia está em festa, porque pagamos nossas dívidas! Há anos que eles não se sentiam tão ricos!

–Foi uma sorte eu não precisar comprar um equipamento novo– observou o professor–, assim não terei que me preocupar com o dinheiro para você e Ellen, enquanto estiver ausente.

Passando um dos braços à volta de seus ombros, ela pediu:

–Papai, pare de trabalhar. Quero que a gente passe juntos, todos os momentos que nos restam até amanhã. Vamos ao jardim. O dia está agradável e o ar lhe fará bem.

–Está bem, meu amor. Vou apenas colocar estes livros na estante, para encontrá-los quando precisar.

–Vou ajudá-lo– prontificou-se Chandra.

Assim falando, apanhou alguns livros que seu pai deixara sobre a mesa.

Dirigiu-se para as estantes e tentou arrumá-los numa ordem que facilitasse encontrá-los quando precisasse. Ajeitou em seus devidos lugares os que havia carregado, e virando-se, viu o pai subindo na escada, a fim de colocar na parte superior da estante alguns livros que estivera lendo.

–Papai, deixe-me fazer isso.

Entretanto, o professor já atingira o degrau mais alto e estava enfileirando-os, mas ao colocar o último, murmurou algo que Chandra não conseguiu ouvir. Virando-se para interrogá-lo, viu que ele estava oscilando.

–Papai!– Chandra gritou vendo que ele estava caindo. O pai tentou agarrar-se a um lado da estante, mas seus pés foram resvalando pelos degraus, e seu corpo escorregou até o chão.

Na queda, puxou Chandra com ele, o que certamente diminuiu o impacto.

–Meu Deus!– exclamou ela, assustada, vendo que seu pai estava de olhos fechados e respirava ofegantemente levando a mão à altura do coração.

Compreendeu logo o que acontecera; seu pai sofrerá um ataque cardíaco.

Com dificuldade, conseguiu colocá-lo numa posição mais cômoda, com uma almofada por baixo da cabeça. Correu até a porta e gritou:

–Ellen! Ellen!– seus gritos repercutiram pela casa.

A velha veio correndo da cozinha.

–O que aconteceu, Chandra?

–É papai! Creio que teve um ataque cardíaco. Precisamos mandar chamar o médico.

–O menino da mercearia ainda está lá nos fundos. Vou mandá-lo imediatamente– saiu correndo e Chandra voltou para o lado do pai.

Compreendeu que pouco podia fazer. Desabotoou o colarinho e abriu a camisa, procurando ouvir as batidas do coração. Inexperiente, não percebeu que estavam irregulares, mas pelo menos sentiu que estava vivo. No momento era tudo o que importava.

Duas horas mais tarde o médico desceu a escada acompanhado por Chandra.

–Seu pai é um homem de sorte– observou ele–, o ataque não foi dos mais graves, mas apenas um aviso para ter mais cuidado no futuro.

Ao chegarem em baixo, ele viu a pilha de malas.

–Receio que seu pai ficará dececionado por não poder viajar. Sei que ele pretendia ir para o Nepal. É evidente que uma viagem desse tipo é impossível.

Chandra não respondeu e, após uma pausa, o médico acrescentou:

–A não ser que ele possa passar o inverno num clima mais quente, como, por exemplo, o do sul da França– sorrindo, pegou o braço da moça–, Chandra, sei que isso é impossível, mas acabei de prescrever esse tratamento para o nosso governador do condado.

–Lord Dorritt está doente?– perguntou Chandra.

–Ele sofre de uma mistura de opulência e ociosidade– respondeu o médico com um sorriso–, embora eu talvez esteja sendo indiscreto ao dizê-lo.

–Isso é uma coisa da qual não pode acusar papai.

–Não, e é uma pena que não possamos mudá-las. Se seu pai pudesse passar o inverno num lugar quente e ensolarado e Lord Dorritt tivesse tanto trabalho quanto o professor, talvez fossem homens mais saudáveis e vivessem mais tempo.

Chandra respirou fundo, dizendo em seguida:

–Tenho algo a sugerir-lhe…

Foi só depois que o médico se retirou que Chandra subiu ao quarto do pai, parecendo um pouco apreensiva. O professor estava recostado nos travesseiros, e ela já sabia o que seu pai começava a dizer-lhe:

–Se esteve ouvindo aquele velho tagarela– começou ele num tom ameaçador–, e pretendem impedir minha viagem, podem poupar suas palavras!

Chandra puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.

–Papai, o senhor não vai para o Nepal, mas sim para Cannes.

–Cannes?!... O que está querendo dizer?

–Estive conversando com o Dr. Baldwin. Ele conhece uma pensão modesta, mas encantadora, na qual o senhor e Ellen ficarão felizes e bem instalados. Conhece também um médico, que poderá tratá-lo.

–Creio que você enlouqueceu! Vou para o Nepal, e ninguém, nem você ou Baldwin, poderá impedir-me!

Vendo que Chandra não respondia, continuou:

–Não só porque aguardo essa viagem com ansiedade, para encontrar o “Manuscrito Lótus”, mas principalmente porque vocês precisam de dinheiro.

–Mas já temos o dinheiro.

–Dificilmente poderão conservá-lo, se eu não cumprir minhas obrigações– observou o professor.

–Ouça, papai– replicou Chandra inclinando-se e pegando a mão dele–, eu o amo, e não pretendo deixá-lo morrer em alguma montanha nepalesa. Sabe perfeitamente que no momento não poderia fazer a cavalo, uma viagem tão penosa, com o seu coração, nesse estado.

–Mas tenho que fazer esta viagem, Chandra!

–Não– contestou ela–, e já decidi tudo. Não vou permitir que arrisque sua vida pelo “Manuscrito Lótus”!

Forçando um sorriso acrescentou:

–Ele já existia há centenas de anos, e quer o encontre ou não, continuará existindo por mais dois mil!

–O que está tentando me dizer?– perguntou-lhe o pai, num tom mais fraco, como se esgotado, já não mais a desafiasse.

–O que decidi– respondeu Chandra calmamente–, ou seja, o senhor e Ellen irão para o sul da França, e eu para o Nepal.

–Vo… cê?!

–Por que não? Sabe tão bem quanto eu que posso reconhecer a época de um manuscrito tão bem quanto o senhor.

–Imagina, realmente, que Frome concordará em levá-la?

–Talvez possa recusar no último momento, mas se isso acontecer, eu já estarei na fronteira do Nepal. A não ser que ele vá sozinho, o que eu duvido, levará algum tempo para encontrar alguém tão experiente como o senhor… ou eu nesse assunto, e que possa acompanhá-lo.

Seu pai a olhava perplexo, e surpreendeu-a ao dizer-lhe reprimindo o riso:

–Não posso crer que algum dia Frome, tenha se encontrado numa situação tão complicada. Ao mesmo tempo, trata-se de algo que não podemos fazer.

–E por que não?

–Porque ele me pagou pelo meu serviço.

–Seja o que for que ele tenha pago, o senhor não está em condições de acompanhá-lo. Ora, papai, falando francamente, é impossível devolver-lhe o dinheiro, já gastamos tudo pagando nossas dívidas.

O professor fechou os olhos por um momento, e Chandra sentiu que a mão dele, entre as suas, tornara-se flácida.

–Está errado, não podemos fazer isso…– murmurou o pai.

–Mas é algo que temos que fazer, e não permitirei que o senhor se aflija com tudo isso. Deixe tudo por minha conta, papai.

Enquanto falava, sentiu que ele afastava deliberadamente seus pensamentos do problema a ser enfrentado. Este era um antigo hábito, sempre que se encontrava numa situação embaraçosa, ou tendo que tomar uma decisão desagradável. Fora sempre uma fuga mental para encarar a verdade, agora, porém, era também uma evasão física.

Compreendendo que aquela crise cardíaca deixara-o exausto e portanto sem forças para discutir, nem mesmo argumentar, ela repetiu:

–Deixe tudo por minha conta–, sentindo que ele ia adormecer, beijou-o levemente na testa e puxou a cortina para escurecer o quarto.

Ao descer, encontrou por parte de Ellen uma objeção ainda mais forte aos seus planos.

–Se acredita que pode ir sozinha para essas terras pagãs e exóticas, que motivaram a doença de seu pai, está muito enganada!

–Claro que posso ir e vou! Você e ele passarão otimamente no sul de França. O Dr. Baldwin me garantiu que papai será uma outra criatura no fim do inverno.

–E o que você estará fazendo? Gostaria de saber.

–Estarei fazendo jus às seiscentas libras que Lord Frome entregou a papai, e que não estamos em situação de devolver.

–Nenhuma moça decente sai por aí sem a companhia de uma senhora para protegê-la!– disse Ellen, irritada.

–Não pode imaginar que eu contrate uma governanta para cavalgar pelas montanhas! Mesmo se quisesse, onde iria encontrar uma bastante corajosa para acompanhar-me?

Ellen resmungou alguma coisa suspirando, e Chandra, que sabia como manejá-la, abraçou-a dizendo:

–Não se preocupe, posso tomar conta de mim, fique sabendo! Além do mais, Lord Frome vai mandar um de seus criados para receber papai em Bombaim. Ele se encarregará da bagagem.

–Isso é uma suposição!– concordou Ellen, conhecendo a eficiência dos empregados indianos de certa categoria–, mas você é demasiadamente jovem, para ficar sozinha com Lord Frome.

–Não precisa preocupar-se a respeito de “Sua Excelência”…– observou Chandra, com um sorriso–, papai me contou que ele é um inimigo das mulheres, e espero que tenha um ataque ao ver-me!

–Pois pareceu-me um cavalheiro bastante distinto, quando fui recebê-lo na tarde que esteve aqui, mas nunca se sabe…

–Se ele me atacar, o que é completamente improvável, poderei matá-lo com o revólver de papai. Sei que o colocou na mala.

–Ora, Chandra, não permito que fale desse jeito. Não é decente e nem adequado, e sabe que tenho razão. Telegrafe para Lord Frome, avisando que seu pai adoeceu. Afinal, é a única coisa que pode ser feita.

–E se o fizer– revidou Chandra–, deverei adicionar um pós-escrito, dizendo:

“Desculpe. Não podemos devolver o dinheiro. Gastamos quase tudo pagando nossos credores.”

Ellen não respondeu a essa provocação e Chandra prosseguiu:

–E o que acha de papai ir para o sul da França? O Dr. Baldwin afirmou que é disso que ele está precisando. Você sabe tão bem quanto eu que a tosse que ele teve no último inverno será péssima para o coração.

Atirando o pano que estava segurando sobre a mesa, Ellen disse:

–Não sei onde este mundo vai chegar! Não sei mesmo!– falou isso asperamente, e Chandra compreendeu que havia vencido.

Todavia, uma coisa era convencer o pai e Ellen de que deveria ir para o Nepal, mas outra coisa muito diferente era partir sozinha. A ideia era estimulante, mas a deixava nervosa. A viagem, propriamente, não a alarmava. Fizera muitas durante a infância, e a última há cinco anos, quando então sua mãe morrera. Visitara todas as partes do mundo, e as mais estranhas nações e diferentes lugares.

O que a deixava nervosa era pensar que ao chegar àquela terra emocionante, que tanto desejava rever, Lord Frome não se convencesse de que deveria deixá-la substituir seu pai.

Ao tornar a conversar com o Dr. Baldwin no dia seguinte, ficou sabendo que, para seu pai recuperar a saúde, necessitava não só de um bom clima, mas de uma alimentação melhor do que aquela que lhe fora ministrada nos últimos meses. Ellen era uma boa cozinheira, mas não podia cozinhar o que não podiam dar-se ao luxo de comprar.

Todavia, fizera verdadeiros milagres com ovos e verduras. O médico, porém, insistia em alimentos demasiadamente caros para serem comprados regularmente.

Chandra viu-se pensando nas seiscentas libras prometidas por Lord Frome, como remuneração ao trabalho de seu pai, caso encontrassem o antigo manuscrito. Com esse dinheiro no banco, poderiam comprar tantas coisas!

Ela era, porém, bastante sensata, para compreender que as primeiras seiscentas libras terminariam no fim do inverno.

Repetia, intimamente…«Lord Frome tem que me levar!».

Sentia uma sensação desagradável ao lembrar-se de sua voz dura e autoritária. Tinha a certeza de que ele era um homem que só pensava em si mesmo, sem muitos escrúpulos, e se assim lhe conviesse, ele a mandaria de volta imediatamente!

A questão toda era ele a achar tão indispensável quanto seu pai.

«Terei que convencê-lo», pensava Chandra. Contudo, desesperava-se ao sentir que seria incapaz de fazê-lo acreditar em sua habilidade como especialista em sânscrito.

Afinal, partir fora bem mais fácil do que imaginara, porque seu pai desistira de discutir o caso com ela. Sabia que isso ocorrera por ele se sentir mais enfermo do que desejava admitir. Portanto, era mesmo completamente impossível ao professor fazer uma viagem tão árdua no momento.

Talvez houvesse tentado protestar mais uma vez, mas Chandra dissera-lhe calmamente:

–Só existem três coisas que podemos fazer, papai, telegrafar para Lord Frome, avisando-o de sua doença e portanto, da sua impossibilidade de ir ao seu encontro. Neste caso, seriamos obrigados a devolver-lhe o dinheiro… ou posso ir em seu lugar, e caso ele se recuse a levar-me para o Nepal, a culpa será só dele, e não sentirei remorso por não lhe devolver o dinheiro que já nos deu.

–E qual é a terceira alternativa?– perguntou-lhe o pai.

–Nenhuma, a não ser que o senhor tenha uma ideia brilhante.

Um sorriso apagado pairou nos lábios do professor.

–Por uma vez, você me apresenta um enigma para o qual não tenho resposta. Talvez a sua segunda ideia seja a melhor.

–É justamente isso que estive dizendo a mim mesma. Caso “Sua Excelência” se mostre desagradável, só poderei dizer-lhe humildemente, que tentamos ajudá-lo, e se fracassamos não é nossa culpa.

Entretanto, pela expressão do pai, compreendeu que ele não supunha que Lord Frome aceitasse aquele argumento.

Quando o navio partiu do porto de Southampton, Chandra teve a impressão de que a cada milha marítima ela se aproximava mais de um homem sinistro e assustador, que acabara por dominar seus pensamentos.

Antes de sair do lar paterno, estivera tão ocupada que não encontrara tempo para pensar senão em seu pai, e nela mesma. Ellen também só se preocupara em separar algumas coisas que pertenciam ao equipamento de viagem do professor, que guardara com tanto cuidado. Mostrara-lhe também alguns vestidos que tinham pertencido à sua mãe, mas como Chandra crescera nos últimos cinco anos, não lhe serviam perfeitamente.

As roupas de montaria e botas pareciam feitas para ela. Eram de um tecido ótimo, e deveriam ter custado muito mais do que seu pai atualmente teria condições de pagar.

–O resto de seus vestidos está num estado lastimável!– dissera-lhe Ellen desesperada.

–Julgo que não será provável ter que usar qualquer coisa atraente– respondera-lhe Chandra–, é evidente que os vestidos de mamãe estão completamente fora de moda.

Sorriu e acrescentou:

–Não que isso seja importante no Nepal…

Tinha para si mesma a ideia de que Lord Frome não gostaria que ela parecesse feminina ou agisse com feminilidade. Julgou que as botas e as saias até os tornozelos, adequadas para caminhar pelas montanhas, seriam muito mais do gosto dele do que os vestidos cheios de rendas e babados.

Lembrava-se ainda de tê-los visto nas Mem-sahibs, título dado pelos indianos, às esposas dos cavalheiros ingleses e europeus em geral, quando elas os vestiam à noite.

Durante o dia, usavam os de musselina, mais alegres e vaporosos.

Ellen não se cansava de repetir as mesmas palavras, relativas às coisas horrorosas que poderiam acontecer com Chandra.

Não eram apenas os perigos nas altitudes das montanhas e as feras, o que mais a preocupava, era a existência de certos homens atraídos por uma moça indefesa e à mercê deles, sem a companhia de uma pessoa mais velha.

–Eu já lhe disse, Ellen, que os afastarei com o revólver de papai.

Sua fiel empregada não se resignava, a pensar em sua menina, inocente como uma criança recém-nascida, partindo sozinha e encontrando só Deus sabia que espécie de homens naqueles países exóticos!

–Ellen, no Nepal não existem europeus, porque lhes é proibida a entrada. Só haverá o oficial britânico da colônia, que certamente será um velho de barba branca, e Lord Frome, o inimigo das mulheres. Em vez de preocupar-se com eles, deveria esperar que eu possa encontrar o príncipe encantado cavalgando pelas montanhas!

–Sempre esperei que algum dia encontrasse um jovem cavalheiro honesto, com um pouquinho de dinheiro para proporcionar-lhe uma vida feliz. Mas, provavelmente, não o achará no Nepal.

Rindo, Chandra replicou:

–Deve pedir a papai para lhe mostrar um mapa. Será então capaz de me imaginar cercada por uns homenzinhos escuros, aos quais parecerei tão esquisita quanto eles a nós?

–Não sei o que sua mãe diria!– exclamou Ellen, conforme já fizera milhares de vezes, mas Chandra sabia que a conversa estava terminada.

Ao chegar a hora da despedida, admirou-se por chorar. Teria sido tão emocionante se partisse com o pai, contudo, era bem diferente deixá-lo para trás, sabendo que ficaria sozinha durante a longa viagem por mar. O pior seria cavalgar por caminhos empoeirados desde Bombaim, até a fronteira nepalesa!

A única coisa que não preocupara seu pai era o fato de ela viajar sozinha. Achava natural a ideia de ela cavalgar no Himalaia, tanto quanto a de andar pelas ruas da aldeia. Ao contrário de Ellen, não lhe passava pela cabeça, o pensamento de que ela pudesse ser vítima da exótica sensualidade dos homens orientais.

Chandra, sabia que isso era porque para seu pai ela continuava sendo uma criança, por cuja inteligência ele se interessava, mas não pela sua aparência.

Na noite anterior à sua partida, Chandra sentara-se em frente ao espelho para olhar-se com espírito crítico. Concluíra que caso se comportasse serenamente, e “se fizesse respeitar”, como diria Ellen, não haveria probabilidade de ser importunada por homens que dela se aproximassem por estar viajando sozinha.

Compreendia também, que as mulheres a olhariam sondando-a, sem se decidirem a conhecê-la. Foi então que teve uma ideia repentina.

Desceu para perguntar a Ellen:

–Ficaria mais feliz se eu viajasse como viúva?

–Viúva, Chandra?! O que quer dizer com isso?!

–É que está tão aflita porque não tenho uma companhia. Se fosse viúva, não precisaria de ninguém.

–Mas não é viúva, por isso essa hipótese é falha.

–O que me proíbe de fingir e usar a aliança de mamãe?... eu a encontrei na caixinha de joias, entre suas coisas.

–É a ideia mais ridícula que já escutei em toda a minha vida!– parou de repente–, mas… sabe que ela não é muito errada?

–Julgo-a até muito sensata– retrucou Chandra–, se alguém for bastante indelicado para perguntar minha idade, direi que tenho vinte e três. Com esta idade posso muito bem ter perdido meu marido num acidente.

Assim falando, sentou-se à mesa da cozinha com o queixo entre as mãos.

–Já sei!– exclamou–, serei a Sra. Wardell, e enquanto estiver a bordo, para todos os efeitos, fui casada com um filho de papai.

Бесплатный фрагмент закончился.

134,46 ₽