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Alberto Pimentel
Entre o caffé e o cognac

Publicado pela Editora Good Press, 2022
EAN 4064066411077
Índice de conteúdo
O GABINETE DE CAMILLO
O PRIMEIRO DE JANEIRO
A AGUIA D'OURO
O QUE FOI E O QUE É
PHYSIOLOGIA DO THEATRO DE S. JOÃO
(NO DOMINGO GORDO DE 1873)
PHYSIOLOGIA DO THEATRO BAQUET
TELHUDOS HISTORICOS
OS DOMINGOS
AS ITALIANAS
EMILIO CASTELAR
ANIMAES E VEGETAES
Á ACADEMIA DE COIMBRA
OS ANNUNCIOS
RUA TAL, NUMERO TANTOS
PROGRAMMA
VENDE-SE
ATTENÇÃO
INDUSTRIA DAS RUAS
A GIGANTA
(CARTA A JULIO CESAR MACHADO)
O ALBUM DO GYMNASIO
(POR OCCASIÃO DA ESTADA DA COMPANHIA DO THEATRO DO GYMNASIO, DE LISBOA, NO PORTO)
ESBOÇO DE COMEDIA
HISTORIA D'UM COLLAR
AS COLHEITAS
S. BARTHOLOMEU
O NATAL
OS BOHEMIOS
O RELOGIO...
ÁS SETE HORAS DA MANHÃ
Á MEZA DO CHÁ
(POR OCCASIÃO DA VISITA DO SHAH DA PERSIA Á EUROPA)
S. JOÃO
(NO DIA 21 DE JUNHO DE 1873)
JUDAS NO PLURAL
(PASCHOA DE 1873)
HISTORIA VELHA
THIERS
Á HESPANHA
(AGOSTO DE 1873)
FIM.
{VII}
Obrigado a dar folhetim original aos domingos no Primeiro de Janeiro, era ás sextas feiras, entre o caffé e o cognac, que eu, reclinado no espaldar da poltrona, procurava assumpto.
Este livro, em que se grupa a maior parte dos folhetins de sete mezes, foi pois meditado entre o caffé e o cognac.
Fica explicado o titulo.
{VIII}
{9}
O GABINETE DE CAMILLO
Índice de conteúdo
Eu já citei algures estas palavras de Alexandre Dumas pae: «Ha sempre nos moveis que vos cercam alguma cousa de vós mesmos».[1]
Tão profunda verdade, se carecesse de demonstração, encontral-a-ia no gabinete de Camillo Castello Branco.
É aquelle um templo consagrado unicamente á Arte. Alli tem altar a pintura, a archeologia, a historia natural, e a litteratura. Presente-se que se está no gabinete d'um grande romancista porque se adivinha a historia de cada quadro, a novella de cada movel, a epopêa do tinteiro de metal amarello d'onde ha pouco mais de vinte annos tem nascido para gloria das letras portuguezas{10} cerca de cem livros. Tudo alli falla. Ha idillios de saudade suavissima a murmurar ao de cima dos silenciosos companheiros da mocidade; ha marcos milliarios que rememoram successivas phases da vida do escriptor. Os verdadeiros amigos de Camillo são aquelles. Só elles guardam o segredo de intimas commoções, que parecem vibrar ainda em novellas escriptas ha doze annos, e que primeiro lhe arrancaram lagrimas a elle do que a nós. O talento de Camillo é nosso: estamos ha longo tempo familiarisados com elle; tanto o estimamos, que o vamos procurar mal que se annuncia um livro novo. Nós lemos o livro já enroupado em galas de estremada linguagem; mas o seu gabinete lê o esboço da novella tal como lhe sahiu do coração. Nós vemos a estatua; o seu gabinete vê Pigmalião. Quando as lagrimas nos chegam a nós já as sentimos dulcificadas pela amenidade da phrase. Não as vemos; conhecemos-lhes apenas os vestigios. Mas o seu gabinete viu-as. O mesmo é pelo que respeita a personagens. Nós conhecemos o retrato; o gabinete conheceu o modelo. Camillo tem feito a historia de muito homem; só o seu gabinete poderia fazer a historia de Camillo. Nós temos o romancista; o gabinete tem o homem. Ainda mais. Se os moveis quizessem fallar, revelariam o romance de muito escriptor portuguez, que elles têm conhecido e ouvido em intimas praticas, ora contando os seus desalentos, as suas maguas, os seus queixumes, ora arroubando-se em enganosos sonhos, em esperanças quasi sempre mentidas, em aspirações poucas vezes realisadas...{11}
Todavia o leitor denuncia-se impaciente de entrar ao gabinete de Camillo.
Entremos pois.
Corrido um reposteiro, estamos n'uma alegre e clara sala á-rez-de-chaussée. Logo nos fascina o pittoresco do ensemble. Não é o gabinete de Lucullo; é o escriptorio d'Horacio. Não ha iriados reflexos de crystaes e marmores. Encontramos apenas o atelier do artista.
Dizem para a rua duas largas janellas; transparentes amarellos modificam a claridade exterior.
No desvão da janella da direita casa-se com o angulo da parede uma pequena mesa triangular coberta de panno amarello; o desvão da janella da esquerda é occupado por uma gaiola, prisão d'um viuva, ave cujo nome procede de se vestir de negro duas vezes ao anno.
É a viuva o primeiro cuidado de Camillo quando entra ao seu escriptorio; vae vel-a, fallar-lhe, examinar se lhe faltam as regalias indispensaveis para tornar suave a carceragem.
Á parede interposta ás duas janellas fica encostado o fogão sempre chammejante de intenso brasido; sobranceiras ao fogão pendem uma gravura representando Lacordaire, e um quadro com o retrato de Vieira de Castro. Visinha do fogão está a priguiceira de palha, onde o romancista, ora com os pés no fender, ora resguardados no couvre-pied de feltro, procura repousar-se para o trabalho, intercortado de pequenas pausas, lendo os jornaes do dia e atiçando o fogo.
Entre a janella da direita e a porta, encimada por{12} um quadro a oleo que representa as armas da casa de Cadaval, ha uma banca com tinteiro de prata e uma cesta de palha cogullada de cartões de visita, que a meu vêr são o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza. O erudicto padre Cardoso, se tivesse conhecimento d'esta cesta, poderia augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos escriptores portuguezes desde Garrett a esta parte.
Este lanço de parede está adornado com os retratos da familia de Camillo e com um quadro a oleo reputado de Murillo por pessoas sobremodo competentes em assumptos de pintura.
Na continuação d'esta parede encontramos uma etagére de pau preto com romances francezes e inglezes; sobrepostos á etagére os retratos da familia Ouguella, uma paisagem ingleza a oleo, o collar da academia real das sciencias que pertencera a Vieira de Castro, e uma valiosa placa de prata que apresenta em relevo a imagem de Santo Antonio.
Segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros notaremos as obras de Filinto Elysio; sobre a estantesinha ha um relogio; superior um quadro anonymo a oleo, figurando o Eden; aos lados duas gravuras francezas, uma assignada por Desjardins—L'aprés dinée—, outra assignada por Paul Girardin—La Benediction paternelle, e a photographia de José Barbosa e Silva, deputado que foi da nação, e auctor do romance Viver para soffrer.{13}
Avultam no angulo duas etagéres com livros e bustos.
Cobrem a parede do fundo duas estantes envidraçadas, sobranceadas por quadros a oleo, bustos de escriptores estrangeiros, rumas de livros, e pela caixa que guarda o chapéo do uniforme de socio da academia pertencente a Vieira de Castro.
Encostada á parede fronteira á porta d'entrada ha uma estante, e pendentes varias gravuras, retratos, e pinturas.
Uma das gravuras assignada por Granville representa o lance do Medecin malgré lui em que Sganarelle diz a Géronte: Voilá justement ce qui fait que votre fille est muette; ha ainda duas gravuras, copias de Horacio Vernet, denominadas Le dernier morceau de pain e Le dernier ami, que o romancista possue desde os vinte annos.
Resaltam tambem d'este panno dois quadros a oleo, um relogio de parede, uma copia da Virgem da Cadeira, o espadim de Vieira de Castro, e os retratos de Thomaz Ribeiro, Vieira de Castro, José Julio d'Oliveira Pinto, Francisco Martins, e morgado de Pereira, actualmente em Africa, senhor da honra e solar de Esmeriz, antigo solar dos Pereira Forjazes, de Riba d'Ave.
Por estes sinceros amigos d'outros tempos, Vieira de Castro, José Barbosa e Silva, José Julio d'Oliveira Pinto, hoje cadaveres, sente ainda o coração de Camillo pungentissima saudade. Não ha ahi encontrar memoria mais tenaz em recordar desgraças alheias, e alma{14} mais devotada a carpir as angustias d'esses notaveis homens que pereceram deixando immoredouro nome á historia portugueza mais deslembrada do que elles valiam do que o amigo que os prantea ainda no remanço meditativo do seu gabinete.
Em seguida á estante deparamos uma jardineira com candeeiro, albuns, e uma urna de prata offerecida pelos portuguezes de Hongkong, como consta da inscripção gravada na mesma urna:
AO ILL.mo E EX.mo SNR. CAMILLO CASTELLO BRANCO O. OS SOCIOS DA BIBLIOTHECA PORTUGUEZA DE HONGKONG 1869.
Immediatamente á jardineira ficam o sophá e as poltronas d'estofo vermelho com ramagens cinzentas. As demais cadeiras são de pau preto com molduras douradas.
Entre o sophá e a janella da esquerda está collocado um contador sobre o qual assentam rumas de livros e outro candeeiro.
Resta-nos fallar d'uma estante de musica, que serve de banca a Camillo, quando por incommodo de saude não póde lêr sentado, para chegarmos á mesa onde habitualmente escreve, posta á esquerda da porta d'entrada.{15}
São unicos adornos da sua banca um tinteiro circular de metal amarello, um cinzeiro de loiça, uma cabeça de metal onde archiva as cartas recentemente recebidas, livros depositados a um e outro lado, e tiras de papel que Camillo Castello Branco infatigavelmente enche todos os dias.
Da banca para o fogão facilmente se deslisa ao longo do tapete que cobre todo o pavimento.
Sigamos este breve trajecto para nos repotrearmos na priguiceira de palha em que provavelmente se reclinou o imperador do Brasil, que Camillo Castello Branco presenteou com um quadro dos reis de Portugal até D. João IV.
Relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas que o romancista estima como partes integrantes de sua familia. Parece-nos porém ouvir passos no corredor. É decerto Camillo que vem retomar o seu posto de todos os dias. Soou a hora de trabalhar. Antes de sentar-se, festejará a ave da gaiola, aquecerá ao fogão as mãos enregeladas, e abancará depois para escrever um dos ultimos capitulos do romance Herança de Londres ou para traduzir primorosamente algumas paginas do Diccionario de educação, de Campagne.
Antes que o artista entre ao seu atelier e retome a penna que descança sobre o tinteiro desde o alvorecer da manhã, saiamos nós, os que não temos direito a surprehender o escriptor na doce quietação da sua vida intima.{16}
Entre o romancista que está escrevendo a novella cujo entrecho será amanhã conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e das mais remotas provincias, interpõe-se hoje o reposteiro que separa o escriptor do homem.{17}
O PRIMEIRO DE JANEIRO
Índice de conteúdo
O Primeiro de Janeiro é como os viajantes que teem de partir ao romper da manhã: passa a noite a fazer a mala.
Quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades: mette ao sacco seis lenços supranumerarios para uma constipação; a casaca para uma soirée inesperada; um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia; dois livros para uma hora d'aborrecimento; os sapatos de borracha para um dia de chuva. Ainda como o touriste, o Primeiro de Janeiro dispõe-se a poder satisfazer todas as reclamações que o assaltem no caminho: para os impacientes leva na mala os telegrammas, para os negociantes as cotações, para os politicos o artigo, para os ociosos o folhetim, para os alviçareiros as noticias, para os interessados os annuncios, e para as senhoras as modas.{18}
Os passageiros vão sentados no vehiculo; elle vae a correr pelo caminho. Quando o comboyo parte, apparece-lhes nas Devesas; quando chega a Aveiro, encontram-no na estação; quando passa em Coimbra, o Primeiro de Janeiro salta aos vagões e diz aos viajantes engalfinhando-se na portinhola: Aqui estou!
Que prodigio de ubiquidade é este? Como é que o jornal chega primeiro que o homem! Ah! é porque o homem é o barro, e pesa, e o jornal o pensamento, e vôa. Nasceu da faisca electrica e do vapor; é irmão gemeo da locomotiva. O comboyo leva o homem; o jornal o pensamento. O motor d'um é a machina; o do outro o espirito humano. São os passaros da civilisação, as aguias do progresso. Por isso Arsenio Houssaye disse: «O jornal é a ave errante que atravessa o mundo: prendei-lhe a vossa ideia á asa, e a vossa ideia florirá nos mais remotos desertos.»
Nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle: é a sociedade, a raça, a civilisação e o seculo. É o thermometro que mostra o grau da vitalidade popular, a lente que reproduz a lucta das gerações, o melhor historiador e a melhor historia.
Poderemos chamar ao Genesis o jornal da creação do mundo, o que nos leva a crêr que esta manifestação do pensamento publico não data unicamente dos tempos de Guttemberg, mas vae pelas idades a dentro procurar origem no fiat creador que deu fórma e movimento ao nada. Á medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de bellezas infinitas{19} que o verbo creador espraiou entre as balisas do universo, e se foram arando os mares, e desbravando as florestas, e povoando cidades e consolidando imperios, a vida das nações tomou um incremento que se não poderia registar em longas chronicas, como os commettimentos da antiguidade, senão que dia a dia, hora a hora, momento a momento. A personalidade moral do homem dilatou-se e, na impossibilidade material de estar em toda a parte, diffundiu o seu pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela gravitação que regula a harmonia das sociedades. Então o jornal renasceu de si mesmo, multiplicou-se, e começou a collaboração universal dos povos á beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu. É o correio do mundo, o postilhão dos seculos; anda sempre e não cança. Cada geração tem o seu temperamento collectivo, as suas paixões, as suas luctas, os seus revezes e os seus triumphos. O jornal, que é tudo isso, irá resuscitando amanhã do tumulo que se fechou hontem, e acompanhará o movimento febril das gerações que se succedem. O que viajar mais depressa, será sempre o mais querido. Espera-o a officina e o albergue com a impaciencia de quem sabe a hora a que deve chegar um mensageiro. A velocidade é indispensavel, mas ainda não é tudo. É preciso que o jornal não seja egoista, não roube ao operario o pão do corpo para lhe dar o pão do espirito, que não esbulhe as creanças do patrimonio que o salario do pae vae dilatando cada dia. Urge{20} pois que o jornal tenha azas para chegar depressa, e que reuna á velocidade a modicidade para sustentar equilibrio entre a receita intellectual, que o jornal representa, e a receita economica, que o trabalho produz.
O Primeiro de Janeiro reune estas duas condições maximas, que se completam pela sanidade da doutrina, e mais d'uma vez tem nas primeiras horas do dia entrado ao albergue e á fabrica firmado pelos primeiros escriptores do paiz. Realisa o desideratum que em 1848 intensamente preoccupava o espirito de Alphonse Karr: «Eu publicava então em Paris—diz o author das Tresentas paginas—um jornal a 10 reis, no qual collaboravam os nomes mais celebres e mais festejados. Queriamos vêr se as classes populares preferiam—como pensam alguns—o vinho tinto das barreiras ao Château-Laffitte e ao Rheno;—queriamos fazer a experiencia e dar-lhes o Château-Laffitte e o vinho do Rheno pelo preço do vinho d'Argenteuil. Por dez reis—o preço das mais grotescas e das mais odiosas especulações—fazer vender um jornal bem impresso, em bom papel, com artigos dos mestres da litteratura.»
O Primeiro de Janeiro entrou abroquellado no certamen. Quiz vêr se o povo preferia o vinho da Bairrada ao vinho do Porto, e conheceu que era essa uma calumnia de pessimistas aristocratas. O povo lia a Formosa Mangalona e o Vicente marujo porque lhe não facultavam um jornal que simultaneamente lhe ensinasse as evoluções do mundo physico e do mundo moral, não porque o jornal tivesse a pretenção de resumir em si a{21} sciencia universal, mas porque da natureza mesma dos assumptos do dia derivavam os conhecimentos que o jornal espalhava. Trabalhou para lhe dar o vinho do Porto pelo vinho da Bairrada, e provou que a inanidade das classes baixas provinha do abuso da zorrapa com que dessedentavam o espirito diante da litteratura de cordel e cego andante. Luctou, batalhou, e conseguiu dar ao povo, por dez reis, um almoço de politica e litteratura,—o romance das nações e o romance dos homens.
Alphonse Karr, quando estava empenhado em tão santa crusada, devotou-se inteiramente a ella; não visitava o seu jardim de Sainte Adresse; esqueceu as flores e o mar. O Primeiro de Janeiro vive igualmente para o povo. Emquanto o povo dorme, vae o prelo imprimindo a ideia que pela manhã ha de saltar na rua.
Enxameiam á porta os gavroches como soldadesca impaciente de dar batalha. Esperam o almejado momento de transpôr o limiar. E no phrenesi do desespero saracoteam e gritam:
—Abram!
—São horas!
—Já é tarde!
Sentem ranger os gonzos. Apinha-se a multidão em vaga encapellada, e entra de tropel. Os empregados da machina dobram os jornaes. O distribuidor está de pé.
C'o a mão no junco, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo.{22}
—Que leva hoje?
—A novidade?
—Diga, diga!
É o côro dos gavroches que pedem anciosamente o pregão. O distribuidor tem lido previamente o jornal. Faz signal de silencio e vota falla:
—Foi o raio que matou um homem.
Calam-se, conticuere omnes, a fixar na memoria o pregão. O receio de se esquecerem faz com que realmente se esqueçam. Lá pergunta um:
—É o homem que matou o raio?
—Toleirão! Foi o raio que matou o homem.
São-lhes distribuidos os jornaes; os gavroches rugem de impaciencia. Para que não haja rivalidades, saem todos ao mesmo tempo. É um furacão que passa.
Que sejam mancos ou não, pouco importa. N'aquelle momento todos teem azas... nos pés, como Mercurio. Estala a multidão na rua similhante a bombarda. É a noticia, o telegramma, o romance, a politica que sapatea no solo. Começa a vida no exterior. Saíu o sol. E o operario antes de trabalhar para o patrão trabalha para si,—vae lêr.
O que é feito do Moienes, do Morte-scaloia, do Pintasilgo, do Pau-preto, do Cacaracá? Desappareceram. Demoram-se apenas um segundo para entregar o jornal e receber o dinheiro. Resta unicamente o José Custodio, o melhor typo da collecção, sentado no passeio, repousando a perna manca, a lêr o jornal atravez da sua famosa luneta. É um grande egoista o José Custodio.{23} Antes de dar aos outros, quer para si. E depois fia-se no seu talento comico, e sabe, dando ouvidos ao orgulho, que os outros não vão mais depressa por ir primeiro. Basta-lhe apregoar para vender. Estão agrupados os pedreiros a almoçar. O José Custodio vae mancando e gritando:
—Licença que veio do governo para os côdeas usar bigode!
O sapateiro, quando elle passa gritando, berra de dentro. O José Custodio esbofa-se a apregoar:
—É a morte d'um sapateiro que morreu entalado com um pino!
O José Custodio é o epigramma, a satyra, a mordacidade vibrante. Por onde elle passa, incendeia o rastilho da curiosidade. Até certo ponto, encontrou um rival no Jeronymo, que tinha d'engenhoso quanto o José Custodio tem de mordaz. Eram os pimpões do rancho; reinadios como nenhum! O Jeronymo affeiçoou-se a um cão, ou o cão se lhe affeiçoou a elle. Comprou um carro de pau, que o fiel mollosso tirava, e onde levava o jornal; a ideia do vehiculo suscitou-lhe a tentação de negociar em larga escala. Começou a vender por sua conta folhetos e repertorios. Era um andar que luzia! Um dia aborreceu-se de ser feliz e desertou: o cão desertou com elle. Mas que imaginoso homem o Jeronymo! No tempo da guerra franco-allemã arranjou tres canas com encaixes de folha. A ultima tinha no topo uma campainha, um gancho e um saquitel que se moviam por correia. Sahia de noite o supplemento. Batia{24} com a cana na vidraça, a campainha tocava, no gancho ia o supplemento, o freguez abria a janella, e o Jeronymo descia o saquitel que trazia dentro dez reis.
Vejam que talento este! Ó prodigio!
Um cego muito conhecido, que ainda não encontrou cão fiel e precisa de ganhar a vida, assalariou um rapasinho que o conduz. O cego apregoa, e o rapasinho recebe o dinheiro para vêr se é falso.
E é assim que o jornal, que espalha a ideia, ampara a cegueira d'uns, a vida d'outros, e a pobresa de todos.
Olá! São elles, os gavroches, que pedem o jornal d'hoje. Espera-se unicamente pelo folhetim. Pois bem, o folhetim ahi vae.{25}
