Читать книгу: «Resgatada pelo xeque»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
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© 2020 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Resgatada pelo xeque, n.º 1830 - agsoto 2020
Título original: Commanded by the Sheikh
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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I.S.B.N.: 978-84-1348-489-1
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Epílogo
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Capítulo 1
– Preciso de ti, Olivia.
Olivia Ellis reprimiu rapidamente a explosão de sentimentos causada pelas palavras do xeque Aziz al Bakir. É claro que precisava dela. Precisava dela para lhe mudar os lençóis, abrilhantar a prata e manter a sua moradia de Paris imaculada.
Contudo, isso não explicava o que fazia ali, no palácio real de Kadar.
Há menos de oito horas, um dos homens do Aziz ordenara-lhe que o acompanhasse no jato real a Siyad, a capital de Kadar, onde Aziz acabara de subir ao trono.
Olivia fora contra a sua vontade, já que gostava da vida tranquila que tinha em Paris: De manhã, bebia café com a porteira da casa da frente. De tarde, cuidava das rosas do jardim. Era uma vida sem sobressaltos ou paixões, mas era dela e fazia-a feliz. Bastava-lhe isso e não desejava que mudasse.
– Porque precisa de mim, Majestade? – perguntou. Passara todo o voo para Kadar a pensar em argumentos para continuar em Paris. Precisava da segurança e do conforto da sua vida lá.
– Tendo em conta as circunstâncias, acho que devias chamar-me Aziz – indicou ele, com um sorriso encantador. No entanto, Olivia esforçou-se para não se deixar impressionar. Sempre observara o encanto de Aziz à distância, ouvira as suas palavras doces dirigidas às mulheres, apanhara a roupa interior caída na escada e servira café às mulheres que saíam da sua cama antes de tomar o pequeno-almoço, despenteadas e com os lábios inchados.
Considerava-se imune ao «cavalheiro playboy», como o chamavam na imprensa amarela. Era um oximoro, pensou, mas admitia que Aziz possuía um certo carisma.
– Muito bem, Aziz, porque precisas de mim?
Era muito bonito. Reconhecia-o como reconhecia que o David de Miguel Ângelo era uma escultura magnífica: Tratava-se simplesmente de uma apreciação da beleza inegável. De todos os modos, não restava nada no seu interior para sentir mais. Nem por Aziz nem por ninguém.
Observou o cabelo preto que lhe caía descuidadamente por cima da testa, os olhos cinzentos e os lábios carnudos que podiam curvar-se num sorriso sedutor.
Quanto ao seu corpo… Era poderoso, sem gordura, puro músculo.
Aziz voltou-se para a janela, virando-lhe parcialmente as costas. Olivia esperou.
– Estás há seis anos ao meu serviço, não é?
– É verdade.
– E estou muito contente com a tua dedicação.
Ela ficou tensa porque pensou que ia despedi-la: «Mas receio que já não precise de ti.»
– Fico contente, Majestade.
– Aziz, lembra-te.
– Tendo em conta a sua posição, não me parece adequado tratá-lo por tu.
– E se to ordenar através de um decreto? – Aziz virou-se e arqueou as sobrancelhas. Era evidente que gozava com ela.
– Se me ordenar, obedecerei, certamente.
– Sei que o farás. E é precisamente isso que preciso que faças hoje.
Olivia esperou, dominada pela inquietação. Porque precisava dela em Kadar? Não gostava de surpresas nem de incertezas. Passara seis anos a construir algo seguro, pequeno e aceitável e aterrorizava-a perdê-lo. Perder-se.
– Em Paris, fizeste um trabalho admirável em minha casa. Aqui, o teu trabalho será distinto, embora curto, e espero que sejas capaz de o levar a cabo.
Não sabia a que se referia, mas, se era curto, esperava poder voltar para Paris.
– Espero que sim, Majes… Aziz.
– Vês como aprendes depressa? – Aziz sorriu.
– Continuo sem entender o que faço aqui – observou ela, com um sorriso frio e profissional.
– Tudo a seu tempo – respondeu Aziz, antes de se dirigir para uma secretária de nogueira. Carregou num botão que havia num dos lados e, ao fim de uns segundos, bateram à porta.
– Entre – convidou Aziz. E entrou o mesmo homem que escoltara Olivia à sala.
– Majestade?
– O que te parece, Malik? Servirá?
Malik olhou para Olivia.
– O cabelo…
– Pode arranjar-se facilmente – indicou Aziz.
– Os olhos?
– Não são necessários.
– Tem a altura adequada – afirmou Malik, assentindo lentamente. – É discreta?
– Totalmente.
– Então, acho que pode ser uma possibilidade.
– É mais do que uma possibilidade, Malik. É uma necessidade. Vou dar uma conferência de imprensa dentro de uma hora.
– Uma hora… Não há tempo.
– Tem de haver. Sabes que não posso arriscar-me a deixar que aumente a instabilidade. – Olivia observou que a expressão de Aziz endurecia e que se transformava em alguém completamente diferente do playboy risonho e despreocupado que conhecia. – Neste momento, um rumor seria como um fósforo aceso. Poderia arder tudo.
– É verdade, Majestade. Vou começar os preparativos.
– Obrigado.
Malik foi-se embora e Olivia olhou para Aziz.
– O que é tudo isto?
– Desculpa-me por falar assim com o Malik. Suponho que a tua confusão tenha aumentado.
– Acertaste – queixou-se ela, incomodada com a forma como os dois homens tinham falado dela, como se fosse um objeto. Embora fosse a governanta de Aziz, não era uma posse e não ia permitir que outra pessoa voltasse a controlar o que fazia.
– Calma, Olivia. Tu e eu não teríamos continuado a falar se o Malik não te tivesse dado a sua aprovação.
– Para quê?
– Suponho que não conheças os termos do testamento do meu pai.
– Não, é claro que desconheço essa informação.
– Podia ter-se filtrado – indicou, encolhendo os ombros. – Houve rumores do que o testamento exige.
– Não faço caso aos rumores. – Nem sequer lia revistas cor-de-rosa.
– Sabes que fiquei noivo da Elena, a rainha de Tália?
– Claro. – O noivado fora anunciado na semana anterior. Olivia sabia que o casamento se celebraria em Kadar dentro de poucos dias.
– Talvez te tenhas perguntado porque ficámos noivos com tanta rapidez.
Olivia encolheu os ombros. Aziz era um playboy. Verificara-o devido às mulheres que trouxera para casa em Paris.
– Suponho que tenhas considerado necessário casar-te, agora que és xeque – comentou ela. Aziz deixou escapar uma gargalhada.
– Podia explicar-se assim. – Aziz voltou a olhar pela janela, cerrando os dentes. – O meu pai nunca estava de acordo com as minhas decisões – explicou, ao fim de uns segundos. – Nem comigo como pessoa. Suspeito que tenha imposto determinadas condições no seu testamento para que ficasse em Kadar e seguisse as velhas tradições. Ou talvez só quisesse castigar-me.
Apesar de falar como se se tratasse de algo agradável ou corriqueiro, Olivia observou uma expressão fria, ou talvez magoada, nos seus olhos.
– Que condições?
– Para continuar a ser xeque, tenho de me casar no prazo das seis semanas posteriores à morte do meu pai – informou, com amargura.
– Já passou mais de um mês.
– Exatamente, Olivia: Cinco semanas e quatro dias, para ser exato. E o meu casamento com a Elena foi marcado para depois de amanhã.
– Então, vais casar-te dentro do prazo e não haverá problemas.
– Mas há um problema grande: A Elena desapareceu.
– Desapareceu?
– Um insurgente raptou-a há dois dias.
Olivia conteve um grito e tentou recuperar a compostura.
– Não sabia que essas coisas continuavam a acontecer num país civilizado.
– Ficarias surpreendida com o que pode acontecer em qualquer país, quando se trata de poder, com os segredos que se guardam e as mentiras que se contam.
Nos seis anos que Olivia passara a trabalhar para Aziz, só parecia o que deixava ver na superfície: Um playboy encantador e despreocupado. Mas, naquele momento, Olivia teve a impressão de que tinha segredos. Um lado escuro.
E ela sabia tudo sobre ambas as coisas.
– Sabes onde esse… esse insurgente a tem?
– Em algum lugar do deserto, é o mais provável.
– Está à procura dela?
– Claro, com todos os meios ao meu alcance. Há cinco anos que não vinha a Kadar e, quando era criança, passava aqui o mínimo de tempo possível. O povo não me conhece. E, se não me conhecem, não serão leais até lhes provar o que valho, se é que consigo.
– A que te referes?
– Refiro-me a ser muito difícil encontrar a rainha no deserto. As tribos beduínas são leais ao sequestrador, por isso vão ajudá-lo. Portanto, até encontrar a Elena ou chegar a um acordo com quem a retém, tenho de avaliar outras possibilidades.
– Quais? – perguntou Olivia, embora tivesse a sensação horrível de que fazia parte das mesmas.
Aziz esboçou um sorriso radiante. Olivia sentiu que o seu corpo reagia de forma involuntária e observou-o não como o patrão nem como uma pessoa atraente, mas como um homem. Um homem desejável.
Reprimiu a surpresa devido a semelhante reação inadequada. Era, evidentemente, uma reação biológica e instintiva que não conseguia controlar. Achava que superara esse tipo de coisas, mas talvez o seu corpo não pensasse o mesmo.
– A que outras possibilidades te referes?
– É importante que ninguém saiba que a Elena desapareceu, porque isso aumentaria ainda mais a instabilidade em Kadar.
– Ainda mais?
– Algumas das tribos do deserto apoiam esse rebelde, o Khalil.
Olivia questionou-se quem seria Khalil.
– Porque o apoiam? Tu és o herdeiro legal.
– Obrigado pelo teu voto de confiança, mas receio que o assunto seja um pouco mais complicado.
Aziz voltou a falar num tom leve, mas ela não se deixou enganar.
– Porque é mais complicado? E o que tenho a ver com tudo isto?
– Como não posso tornar público que a minha noiva desapareceu – disse ele, olhando fixamente para ela –, preciso de outra pessoa.
Olivia sentiu-se como se a agarrassem pelo pescoço e apertassem. Durante uns segundos, não conseguiu respirar.
– Outra pessoa – repetiu.
– Sim, Olivia. Outra pessoa para ser a minha noiva.
– Mas…
– E é aí que intervéns – interrompeu Aziz, com um brilho risonho nos olhos. Observou-o, incrédula e horrorizada. – Preciso que sejas a minha noiva.
Capítulo 2
A governanta competente, pensou Aziz, perturbado, parecia estar prestes a desmaiar. Cambaleava ligeiramente enquanto o observava com os olhos azuis esbugalhados e os lábios carnudos a formar um «O».
Era uma mulher bonita, Aziz pensara nisso muitas vezes, mas de uma beleza serena e contida. Tinha sempre o cabelo castanho apanhado. Tinha os olhos azuis-escuros, os lábios rosados e a pele suave. Não usava maquilhagem, pelo menos, ele nunca a vira maquilhada. Também não precisava, sobretudo, naquele momento, em que corara desde o pescoço até à testa. Ela abanou a cabeça e cerrou os dentes.
– Não sei se entendi, Majestade, mas, seja o que for, é impossível.
– Para começar, lembra-te de que deves chamar-me Aziz.
Um brilho de cólera apareceu nos olhos de Olivia. Aziz alegrou-se por conseguir zangar-se, já que, com frequência, se questionara quanta paixão escondia por trás da sua fachada contida.
Há seis anos que a conhecia, embora só a visse algumas vezes por ano. No entanto, só algumas vezes é que mostrara que tinha sentimentos profundos: Um lenço vermelho e arroxeado que usava um dia; uma gargalhada que ouvira procedente da cozinha; vê-la a tocar piano na sala e a sua expressão ao fazê-lo, como se estivesse a verter a sua alma na peça. Aziz pensara que era uma alma que conhecia a angústia e até a tortura.
Fora-se embora silenciosamente antes de o descobrir, já que sabia que ela se horrorizaria se soubesse que estivera a ouvi-la. Contudo, interrogou-se que segredos escondia por trás da sua fachada.
E, no entanto, fora essa impassibilidade que o induzira a escolher Olivia Ellis para o trabalho. Era inteligente, discreta e muito competente. Era o que precisava.
– Vou dizer-to de outro modo – indicou Aziz, enquanto observava como a indignação fazia com que o peito dela subisse e descesse com força. Usava uma blusa branca, com o cabelo apanhado, como sempre, e umas calças pretas e sapatos rasos. Sabia que tinha vinte e nove anos, mas vestia-se como uma mulher de meia-idade, embora com estilo. A roupa era de boa qualidade e bom corte.
– Diz-me, então. – Olivia dominara a cólera. Aziz voltou a ver a Olivia de sempre, serena e controlada.
– Quero que sejas a minha noiva de forma temporária. A substituta da rainha Elena até a encontrar.
– E para que precisas de uma substituta?
– Porque quero dissipar os rumores que possam correr sobre o seu desaparecimento. Dentro de uma hora vou dar uma conferência de imprensa e devemos aparecer juntos na varanda do palácio.
– E depois?
Aziz hesitou levemente.
– Será só isso.
– Só isso? – Observou-o com os olhos semicerrados. – Se só precisas de uma mulher para que apareça contigo na varanda, com certeza que poderias ter encontrado uma daqui.
– Queria alguém que conhecesse e em quem pudesse confiar. Já te disse que há muitos anos que não vinha a Kadar. Há poucas pessoas em quem possa confiar.
– Nem sequer me pareço com a rainha. Ela tem o cabelo escuro e não temos a mesma altura. Eu sou um pouco mais alta.
– Sabes quanto mede a rainha Elena? – perguntou ele, arqueando as sobrancelhas.
– Sei o que meço. Vi fotografias dela.
– Ninguém vai preocupar-se com uns centímetros a mais ou a menos.
– E o cabelo?
– Podemos pintá-lo.
– Numa hora?
– Se for necessário.
Olhou para ele durante uns segundos e ele percebeu que a tensão crescia no seu interior. Sabia que estava a pedir-lhe algo fora do comum. Também que tinha de a convencer a aceder. Não queria ameaçá-la, mas precisava dela. Não conhecia outra mulher tão competente e discreta. E, nesse momento, a única coisa que o preocupava era obter o seu objetivo: Garantir a coroa do reino que lhe correspondia governar por herança, embora muitos não acreditassem.
– E se me recusar? – perguntou Olivia.
– Porque haverias de o fazer?
– Porque é uma loucura? – replicou, sem humor. – Porque qualquer paparazzi com uma teleobjetiva conseguiria perceber que não sou a Elena e publicá-lo? Acho que nem sequer usando todo o teu encanto conseguirias livrar-te de semelhante desastre.
– Se isso acontecer, eu serei o único responsável. Toda a culpa recairá sobre mim.
– E achas que não serei objeto de falatórios, que todos os aspetos da minha vida não serão dissecados na imprensa sensacionalista? – O rosto de Olivia irritou-se como se semelhante possibilidade lhe causasse dor.
– Se te descobrirem, coisa que não acontecerá, ninguém saberá quem és.
– Achas que não descobrirão?
– Possivelmente, mas estamos a falar por falar. Não há nenhum jornalista de fora daqui. O país está fechado para a imprensa estrangeira há anos. Tenho de mudar esse decreto.
– A imprensa de Kadar.
– Sempre esteve ao serviço da Coroa. Pedi que, desta vez, não se tirem fotografias e acederam. Não aprovo como as coisas estão aqui, mas era a forma de governar do meu pai, que continua.
– Vais fazer as coisas de outro modo agora que és xeque? – perguntou ela, num tom levemente incrédulo, o que Aziz entendeu, embora não achasse graça.
Só demonstrara que era um prodígio com os números e que gostava de ir a festas por toda a Europa. Olivia vira o seu estilo de vida hedonista e limpara os seus excessos. Não podia reprová-la por se sentir cética quanto à sua capacidade de governar bem.
– Vou tentar.
– E vais começar com esta farsa ridícula.
– Receio que seja necessário. – Voltou a sorrir, mas ela não se alterou. – É por uma boa causa, Olivia: A estabilidade do país e a segurança do povo.
– Porque é que o Khalil raptou a rainha Elena? Como o fez? Não tinha proteção?
Aziz sentiu que a raiva crescia no seu interior, mas não sabia para quem dirigi-la: Para Khalil ou para os seus próprios empregados por não se terem apercebido da ameaça até já ser demasiado tarde. No entanto, percebeu que estava zangado consigo próprio, embora soubesse que não teria conseguido evitar o sequestro. Enfurecia-o não o ter impedido, não conhecer o país ou o seu povo para poder exigir lealdade e obediência ou para que procurassem Elena no seu deserto interminável.
– O Khalil é o filho ilegítimo da primeira esposa do meu pai. Criou-o como seu filho durante sete anos, até se descobrir a verdade. Então, foi desterrado, juntamente com a mãe, mas Khalil insiste que tem direito ao trono.
– Que horror! – exclamou Olivia. – Banido.
– Acabou por viver rodeado de luxos com a tia, nos Estados Unidos. Não deves compadecer-te.
– É evidente que não o fazes.
Aziz limitou-se a encolher os ombros. O que sentia por Khalil era difícil de explicar, até a si próprio: Raiva e inveja; tristeza e amargura. Uma mistura de sentimentos potente e insana.
– Reconheço-o. Não o acho muito simpático, tendo em conta que tenta desestabilizar o país e que raptou a minha noiva.
– Porque achas que pensa que tem direito ao trono?
«Porque todos pensam que sim. Porque o meu pai o adorava, mesmo quando soube que não era o seu filho; mesmo contra a sua própria vontade», pensou Aziz.
– Não sei se acha que tem direito. Talvez se trate apenas de uma vingança contra o meu pai, que considerou o pai dele durante boa parte da sua infância. – «E uma vingança contra mim por ocupar o seu lugar», pensou. – O meu pai não era um homem justo. O seu testamento extraordinário prova-o de forma incontestável.
– Então, o Khalil raptou a Elena para evitar que se casem – concluiu Olivia, enquanto ele assentia.
Aziz odiava pensar que Elena estaria sozinha e assustada no deserto. Não a conhecia muito bem, mas imaginava que seria uma experiência terrível para qualquer pessoa e, sobretudo, para alguém cujos pais tinham morrido num atentado e que estivera muito sozinha.
– Se não te casares no prazo de seis semanas, o que acontecerá?
– Perderei o trono e o título.
– E a quem os dariam?
– O testamento não o especifica. Terei de convocar um referendo.
– Será o povo a decidir quem será o xeque?
– Sim.
– Parece-me muito democrático – afirmou ela, sorrindo.
– Kadar é uma monarquia constitucional. A sucessão sempre foi dinástica. O referendo é, simplesmente, a forma do meu pai de me tornar as coisas muito difíceis.
– E não queres obedecer.
– Não especialmente, mas reconheço que é necessário. – Passara mais de três semanas a tentar encontrar uma forma de fugir do testamento do pai. Não queria casar-se nem ser forçado a fazê-lo. O pai controlara as suas ações, pensamentos e desejos durante demasiado tempo.
Mas, mesmo morto, continuava a controlá-lo e a magoá-lo.
– Porque é que, então, não convocas o referendo? – perguntou Olivia.
– Porque perderia – afirmou ele, num tom leve que passara tanto tempo a usar que se transformara numa segunda pele: A personagem do playboy. Mas falar do pai e da possibilidade de Khalil ser xeque porque o povo não o queria começava a destruir a personagem e receava o que Olivia pudesse ver. – São os riscos de não ter passado muito tempo em Kadar – acrescentou, num tom brincalhão. – Mas espero remediá-lo em breve.
– Mas não a tempo para o referendo.
– Exatamente. É por isso que preciso de aparecer com a minha noiva e garantir ao meu povo que está tudo bem. O meu pai deixou o país num estado de agitação política, dividido pelas decisões que tomou há vinte e cinco anos. Estou a tentar por todos os meios reparar o mal e fazer com que reine a paz em Kadar.
– E se não encontrares a rainha?
– Vou encontrá-la, mas preciso de um pouco mais de tempo. Os meus homens estão à procura dela no deserto.
Khalil introduzira um homem leal a ele entre os empregados de Aziz, alguém que lhe dera a mensagem de que o avião de Elena se atrasara por causa do mau tempo. Khalil subornara o piloto do jato real para que desviasse o aparelho para uma zona remota do deserto, onde, juntamente com os seus homens, recebera Elena quando saíra do avião.
Era o que sabia, a partir do testemunho de duas testemunhas: O comissário de bordo, que vira, impotente, Elena a desaparecer num todo-o-terreno; e uma empregada que vira um dos homens de Aziz a rondar por sítios onde não deveria estar.
Aziz suspirou. Sim, tivera um plano bem levado a cabo porque Khalil tinha muitos seguidores, apesar de ter abandonado o país com sete anos e de ter regressado há seis meses. O povo recordava o menino que fora o filho amado do xeque Hashem, o seu verdadeiro filho.
Aziz era o intruso, o pretendente.
Sempre fora, desde os quatro anos de idade, quando o tinham levado para o palácio. Recordava que o pessoal fingia não ouvir os pedidos humildes da sua mãe e que os serviam com desprezo. Ele estava perturbado e a mãe, desesperada. No fim, ela fechara-se nos aposentos femininos e raramente era vista em público.
Aziz tentara conquistar o pessoal do palácio, o povo e, sobretudo, o pai, sem nenhum resultado, sobretudo, no que dizia respeito ao seu pai. No fim, acabara por desistir.
Só faltavam quarenta minutos para a conferência de imprensa. Tinha de convencer Olivia a aceder.
– Se não encontrar a Elena, terei de me reunir com o Khalil. Talvez possamos negociar. – Embora não quisesse vê-lo nem negociar com ele. A lembrança da última vez que se tinham visto causava-lhe um nó no estômago. O rapaz que ele, com quatro anos, considerava o seu meio-irmão olhara para ele como se fosse algo peganhento e repugnante colado à sola do seu sapato. Depois, o seu pai levara-o para o quarto de jogos para ficar com o filho que sempre favorecera, o que preferia, mesmo depois de saber que não era sangue do seu sangue.
Apesar de o ter banido, o pai agarrara-se à lembrança de Khalil e desprezara o filho que tornara herdeiro por necessidade, não por vontade própria.
Aziz obrigou-se a parar de recordar e virou-se para Olivia.
– De todos os modos, não deves preocupar-te com nada disto. A única coisa que te peço é que venhas comigo à varanda durante dois minutos. As pessoas vão ver-te de longe e vão ficar satisfeitas.
– Como podes ter a certeza?
– Esperam a Elena e verão a Elena. Anunciei que chegou esta tarde.
– Quando eu cheguei.
– Exatamente. As pessoas esperam vê-la e já estarão no pátio. Dois minutos, Olivia, é a única coisa que te peço. Depois, poderás voltar para Paris.
– Durante quanto tempo?
– A que te referes?
– Vais mesmo precisar de uma casa em Paris e de uma governanta quando te casares e reinares em Kadar, no caso de encontrares a rainha Elena?
Observou-a durante uns segundos, perturbado ao perceber que se preocupava com o seu emprego.
– A minha intenção é manter a casa de Paris – disse, apesar de nem sequer ter pensado nisso. – Enquanto tiver a casa, terás trabalho nela.
Viu a expressão de alívio do rosto de Olivia.
– Então, estamos de acordo?
Ela abanou a cabeça.
– Não…
– Faltam quarenta minutos para enfrentar as câmaras e os jornalistas. – Aziz deu um passo para ela com as mãos estendidas em atitude de rogo e o sorriso que tantos corações conquistara, embora não o dela. – És a minha única esperança, Olivia, a minha salvação. Por favor.
– Não exagere, Majestade.
– Aziz.
Observou-o durante uns segundos e ele percebeu, nos seus olhos, o dilema com que se debatia. Depois, ela assentiu levemente.
– Muito bem – acedeu, em voz baixa. – Vou fazê-lo.
Capítulo 3
Numa questão de segundos, Malik voltou à sala e Aziz começou a falar com ele em árabe. Olivia teve a sensação de ter entrado num universo paralelo. Como ia fazer-se passar pela rainha Elena?
Apesar da sua relutância a aceder ao plano de Aziz, percebeu que lhe dava jeito fazê-lo, já que o seu emprego estava nas mãos dele. E, apesar de Aziz não a ter subornado ou chantageado de forma direta, Olivia entendera a mensagem subjacente: «Faz isto e terás trabalho durante o tempo que quiseres.»
E o seu trabalho e a sua vida em Paris eram tudo o que desejava e esperava ter.
Não agira unicamente de forma interesseira, pensou, enquanto seguia Malik pelos corredores do palácio. Entendia o dilema de Aziz e não desejava aumentar a instabilidade do país. Não sabia se fingir ser outra pessoa seria de ajuda, mas, pelo menos, proporcionaria mais tempo a Aziz.
E era de esperar que ninguém se apercebesse e que, no dia seguinte, estivesse de volta a Paris.
– Por aqui, menina Ellis.
Malik abriu a porta de um quarto. Olivia observou o quarto, onde tudo era sumptuoso: Desde a cama com dossel, aos sofás de brocado e ao toucador de madeira de teca.
– A Mada e a Abra vão ajudá-la a preparar-se – informou Malik, sorrindo. As duas mulheres cumprimentaram-na timidamente. – Receio que o inglês delas não seja muito bom, mas garanto-lhe que está em boas mãos. – Com um assentimento leve de cabeça, deixou Olivia a sós com as duas mulheres.
Levaram-na para a casa de banho, que era ainda mais luxuosa do que o quarto, com uma banheira de mármore, um duche para duas pessoas e dois lavatórios com torneiras que pareciam de ouro.
Uma das mulheres disse alguma coisa em árabe e Olivia abanou a cabeça.
– Lamento, mas não entendo.
Sorrindo, a mulher indicou a sua roupa e os botões da sua blusa. A outra mulher mostrou-lhe uma embalagem para pintar o cabelo e Olivia entendeu que devia despir-se.
Ficou em cuecas e sutiã, tremendo de frio. Sentiu vergonha. Tinha uma vida solitária e não recordava a última vez que alguém, exceto o médico, a vira em roupa interior.
Uma das mulheres pôs-lhe uma toalha aos ombros e a outra preparou a tinta.
– Como se chama? – perguntou à mulher que lhe pusera a toalha.
– Mada – respondeu ela, sorrindo.
– Obrigada, Mada – agradeceu, antes de a conduzir ao lavatório. Fechou os olhos enquanto Mada lhe pintava o cabelo e percebeu que não perguntara se seria temporário. Abra, a outra mulher, cobriu-lhe o cabelo com um gorro de plástico.
Olivia nem sequer tivera tempo para perguntar a Aziz se aquilo era legal. Fazer-se passar por alguém, sobretudo alguém da realeza, era um crime? E se a detivessem? E se alguém percebesse que não era Elena e vendesse a história à imprensa estrangeira?
Talvez descobrissem outros segredos. Não suportava a ideia de saberem do seu passado, de as pessoas a julgarem. Já o faziam com muita dureza.
E o pai, pensou, ver-se-ia desonrado. Depois de ela ter vendido a sua alma, há dez anos, para lhe evitar a vergonha, a ideia de, de todos os modos, acabar humilhado causou-lhe uma satisfação surpreendente e desmedida, seguida do conhecido sentimento de culpa.
Um aparecimento. Dois minutos. E tudo teria acabado.
Segundos depois, Mada indicou-lhe que voltasse ao lavatório e inclinasse a cabeça para passar o cabelo por água. Quando acabou, Olivia olhou-se ao espelho e ficou surpreendida. Parecia outra. A pele parecia mais pálida e os olhos, mais afundados, escuros e grandes. O seu cabelo castanho-claro tornara-se preto. Não se parecia com a rainha Elena, mas também não se parecia com ela própria. Talvez, de certa distância, conseguisse passar por ela.
Mada deu-lhe a mão e levou-a de volta ao quarto, onde lhe tinham deixado a roupa em cima da cama: Um fato cinzento e uma blusa de seda cor de marfim. Olivia vestiu-se depressa. Uns sapatos de salto pretos completavam o traje. Olivia hesitou, já que usava sempre sapatos rasos. Mas olhou para eles e pareceram-lhe um calçado muito sensual, que era uma palavra que não queria ver associada a ela e a Aziz.
Depois, pentearam-na com um coque e maquilharam-na muito mais do que ela costumava fazer. Sentia-se uma impostora.
Que era precisamente o que Aziz queria que fosse: Uma impostora convincente.
Bateram à porta e Malik entrou.
– Está pronta, menina Ellis?
– Sim.
Olhou para ela de cima a baixo e assentiu, dando a sua aprovação.
– Venha comigo, por favor.
Enquanto o seguia, com os sapatos a ecoar no chão de mármore, disse, num tom levemente mordaz:
– É evidente que a Mada e a Abra estão ao corrente do plano e que ambas se parecem mais com a rainha Elena do que eu. Pelo menos, ambas têm o cabelo da mesma cor do que ela. Porque não pediram a uma delas?
– Nenhuma das duas possui a segurança em si própria nem a capacidade suficientes para levar a substituição a cabo. Nem sequer se sentiriam confortáveis a vestir roupa ocidental.
– Mas o Aziz e o senhor confiam nelas?
– Claro. Muito poucas pessoas estão a par deste engano, menina Ellis. A menina, o xeque Aziz, a Mada, a Abra e eu.
– E a tripulação do avião real, para além do empregado que me escoltou até aqui.
– É verdade – confirmou Malik, com uma inclinação leve da cabeça. – Mas trata-se de um grupo reduzido cujos membros são leais ao xeque.
– O Aziz não está em Kadar há tempo suficiente para ganhar a lealdade do povo.
– É o que ele parece achar. Mas há mais gente que lhe é leal do que pensa.
Antes de Olivia conseguir responder, Malik abriu a porta de uma sala decorada que tinha uma varanda ampla. Do outro lado da divisão, Olivia avistou o pátio cheio de gente. Algumas pessoas esticavam o pescoço para tentar ver o novo xeque e a futura esposa.
Olivia sentiu um nó no estômago e levou a mão à boca.
– Por favor, não vomites – pediu Aziz, num tom seco, ao entrar na sala. – Ias estragar a roupa bonita que usas. – Parou à frente dela e estudou-a de cima a baixo com os seus olhos cinzentos, em que ela viu um brilho de aprovação masculina que lhe contraiu o estômago. Nunca olhara para ela assim. – O cabelo escuro favorece-te. Os saltos também. Muito. Quase lamento que essa cor seja temporária. – Aziz sorriu.
Ela ergueu o queixo e reprimiu os sentimentos que Aziz despertava tão facilmente no seu interior. Porque reagia assim quando não o fazia antes?
– Desde que pareça a rainha Elena…
– Creio que o farás muito bem. Sei que te peço muito, Olivia, mas estou profundamente agradecido pela tua ajuda.
– Só quero voltar para Paris.
– E vais fazê-lo. Mas, primeiro, a varanda. – Indicou as portas. Apesar de estarem fechadas, Olivia ouvia o clamor da multidão. Engoliu em seco.
– Já deste a conferência de imprensa?
– Há uns segundos.
– Perguntaram-te porque a rainha Elena não estava nela?
– Alguns jornalistas fizeram-no e disse-lhes que estavas cansada da viagem e a preparar-te para conhecer o teu novo povo. De todos os modos, neste país, não é habitual que uma mulher apareça à frente dos meios de comunicação social e faça declarações.
– Mas a Elena fê-lo muitas vezes. É a soberana do seu país.
– É verdade, mas, em Kadar, vai limitar-se a ser a esposa do xeque. Essa é a diferença.
Olivia percebeu um pouco de amargura na voz de Aziz e questionou-se a que se devia.
– Porque é que a rainha Elena acedeu a casar-se contigo se vai ter menos direitos aqui? Suponho que não tenha sido por amor.
– Claro que não. – Aziz esboçou um sorriso. – A aliança era boa para ambos por diferentes motivos.
– Falas no passado. Já não é boa?
– Será quando a encontrar. Mas, por enquanto… – Apontou para a varanda. – O nosso povo, que nos adora, espera por nós.
Olivia sentiu-se nervosa, mas assentiu.
– Muito bem.
– É importante que saibas – disse Aziz, em voz baixa, enquanto se dirigiam para a varanda – que, embora o meu casamento com a Elena fosse por conveniência, as pessoas pensam que é por amor. Querem que seja.
– Embora tenham ficado noivos há apenas algumas semanas?
– As pessoas acreditam no que querem acreditar – comentou Aziz, encolhendo os ombros.
– E o que é que isso tem a ver com o meu aparecimento?
Aziz sorriu, brincalhão, e acariciou-lhe a face. Para Olivia, foi como receber uma descarga elétrica. Recuou instintivamente.
– Devemos comportar-nos como se estivéssemos loucamente apaixonados. No entanto, tenta reprimir-te nas tuas demonstrações de afeto. Ao fim e ao cabo, este é um país conservador.
Ela abriu a boca, indignada, apesar de saber que Aziz brincava. Riu-se, deu-lhe o braço e saíram para a varanda.
A multidão aclamou-os assim que os viu. O ar quente atingiu o rosto de Olivia. Pestanejou, atónita com o clamor de aprovação que subia do pátio e que parecia não ter fim.
Aziz passou-lhe o braço pela cintura enquanto cumprimentava com a outra mão.
– Cumprimenta – murmurou. Olivia, obediente, levantou a mão. – Sorri. – Ela fê-lo.
– Tinhas-me dito – sussurrou ela –, que o povo de Kadar não te era leal.
– É um povo romântico, para além de tradicional. Gosta da ideia do meu casamento, a de um casamento de contos de fadas, mais do que eu gosto.
Ao fim de dois minutos intermináveis, Aziz baixou a mão e Olivia achou que tinham acabado. Mas ele continuou a agarrá-la pela cintura enquanto lhe punha a outra mão no queixo.
– O que estás a fazer? – sussurrou ela.
– A multidão quer que nos beijemos.
– O que se passou com as demonstrações de afeto? – perguntou ela, cerrando os dentes. – Não era um país conservador?
– Siyad é um pouco mais moderna. E não te preocupes, porque será um beijo casto, sem língua. – Ela abriu a boca por causa do susto e ele aproveitou para a beijar.
Olivia ficou paralisada com o contacto dos seus lábios. Há tanto tempo que não a beijavam que se esquecera de como se sentia. Os lábios de Aziz eram suaves e frescos e segurava-lhe o rosto com firmeza e ternura. Ela fechou os olhos instintivamente enquanto tentava reprimir a onda de desejo que a invadira de forma inesperada.
– Já está. – Aziz afastou-se dela a sorrir. – Conseguiste conter-te.
– Foi fácil – respondeu ela. E ele desatou a rir-se.
– É maravilhosamente fácil zangar-te, Olivia. Cintilam-te os olhos.
– É uma alegria sabê-lo – contra-atacou ela. E ele voltou a rir-se.
Regressaram à sala, mas Olivia mal se apercebeu do que a rodeava. Os lábios formigavam como se o beijo breve a tivesse eletrocutado. Fora um beijo casto, pouco mais do que um toque dos lábios, mas sentia-se trémula e fraca. Porque é que um simples beijo a afetara tanto?
Porque não fora simples para ela. Quando há uma década que não a beijavam, um beijo breve podia ser explosivo e inesquecível.
Assim que as portas da varanda se fecharam, Olivia soltou-se da mão de Aziz. E teve de se conter para não esfregar a boca, como se, com essa ação infantil, pudesse afastar a lembrança do beijo e dos sentimentos que lhe causara.
– Acabámos. Posso voltar para Paris.
– Vais voltar amanhã de manhã.
– Porque não esta noite?
– É uma viagem longa, Olivia. O piloto deve descansar e temos de atestar o avião. Além disso, tenho de jantar com a minha noiva e sei que é algo que não queres perder.
Ela ignorou a brincadeira, embora quase sorrisse. Aziz era incorrigível.
– Não disseste nada sobre um jantar.
– Devo ter-me esquecido.
– Não seja mentiroso.
– Como xeque, é verdade que determino quanta informação devo dar num dado momento.
Ela sorriu enquanto percebia que, como todas as mulheres, estava a cativá-la com o seu encanto.
– E devo ser a rainha Elena ao jantar?
– É um jantar privado, por isso só deves fingir para mim.
– E para o pessoal que nos vir juntos. Aziz, isto é ridículo. É possível que possa passar pela rainha Elena de uma varanda, mas não cara a cara. Bastará um membro do pessoal olhar para mim para que saiba.
– Presumes que suspeitam de alguma coisa. Porque haveriam de o fazer? Sabia-se que a rainha chegaria esta tarde de avião. E fê-lo. Depois, foi à varanda comigo, como estava previsto. Está tudo a correr segundo os planos, Olivia. Ninguém tem razões para suspeitar.
– A não ser o facto de não me parecer com ela.
– Achas que alguém do palácio conhece a rainha Elena pessoalmente?
– Há fotografias nos jornais. Além disso, não veio cá para falar do vosso casamento?
– Sim, mas foi uma reunião privada e muito discreta. Não queríamos que a negociação fosse descoberta.
– De todos os modos.
Ele sorriu e pôs uma mão na sua. Olivia teve de se conter para não a afastar.
– É apenas um jantar, Olivia. E vais-te embora de manhã.
Ela abanou a cabeça. Sentia-se arrastada por uma corrente que a afastava de tudo o que conhecia e desejava, de tudo o que lhe proporcionava segurança. E não conseguia lutar contra ela.
No entanto, era suficientemente sincera consigo própria para reconhecer que a tentava desfrutar desse tempo curto com Aziz, deixar-se cair sob o seu feitiço. Só durante uma noite. Depois, voltaria à sua vida anódina.
– Tens de comer, Olivia – murmurou ele.
– Posso comer uma sandes no meu quarto.
– Muito bem, posso encontrar-me contigo lá. Claro que, assim, o pessoal vai mexericar muito mais.
– És impossível – acusou, afastando a mão.
– Obrigado – troçou, sorrindo.
– Não é um elogio – avisou, com aspereza.
– Eu sei. – O sorriso de Aziz alargou-se.
Tinha algum sentido resistir? Aziz acabaria por a convencer com o seu encanto, que escondia uma determinação de ferro. Não percebera antes como era decidido, mas os desejos de ambos nunca antes tinham sido opostos. E eram nesse momento?
«Tenta-te», pensou Olivia.
Tentava-a passar a noite com um homem tão bonito, aceder a essas zonas esquecidas de si própria e sentir-se bela e desejada, mesmo que fosse fingido.
– Muito bem, jantarei contigo. Mas vou-me embora amanhã bem cedo.
Olhou para ele, desafiante, e ele limitou-se a sorrir.
Capítulo 4
A sala de jantar privada, uma das mais pequenas do palácio, foi preparada para um jantar romântico para dois. Aziz arqueou uma sobrancelha ao ver a toalha branca de linho e as velas que criavam sombras nos painéis de madeira da divisão. Sabia que Olivia não gostaria. Nunca conhecera uma mulher que resistisse tanto aos seus encantos.
Embora não tivesse resistido ao beijá-la. Sentira a sua surpresa inicial e como o corpo ficara tenso. Contudo, depois, transformara-se em aceitação e até em desejo e o seu corpo relaxara e pusera-lhe a mão no ombro. Questionou-se se Olivia se apercebera da sua reação, de como o puxara para ela e separara os lábios.
E devido à sua resposta, ele sentira a necessidade ou o desejo repentino, de tornar o beijo mais profundo, de lhe deslizar a língua na boca e provar a sua doçura.
Por sorte, não o fizera. O povo de Siyad queria vê-los a beijar-se castamente e teria ficado espantado com tal visão de desejo sexual.
Porque o que sentira por Olivia nesse momento fora profundamente sexual, uma complicação de que não precisava.
– Majestade. – Um empregado abriu as portas da sala de jantar. – Sua Majestade, a rainha Elena.
Portanto, enganara pelo menos uma pessoa, pensou Aziz, satisfeito. Olivia entrou. Usava um vestido de noite prateado e o cabelo apanhado, com algumas madeixas soltas. Estava magnífica, radiante, mais bonita do que nunca. O desejo deixou-o momentaneamente com falta de ar.
As portas fecharam-se atrás dela, que parou e olhou para ele, desafiante.
– Não fui eu que escolhi o vestido, mas a Mada e a Abra. Nem sequer sei de onde procede.
– Encomendei algumas roupas.
– Para a impostora ou para a rainha verdadeira?
– Importa?
– Não sei. – Durante uns segundos, Olivia pareceu perdida. – É tudo muito estranho.
– Estou de acordo. Mas podemos desfrutar do estranho. – Aziz aproximou-se. Desejava acariciá-la. Sentia a reação instintiva e primitiva de um homem a sós com uma mulher bonita.
Desejava sentir prazer com ela, não falar de como era estranho ou perigoso.
– Agora, certamente, interpretas o papel – disse, apontando para o vestido. – Estás linda, Olivia.
– Creio que consegues fazer elogios melhores – afirmou ela, ficando corada.
– Ah, sim? – perguntou ele, esboçando um sorriso.
– Ouvi-te a comparar uma mulher com a pétala de uma rosa.
– Ena, não devia estar muito inspirado.
– Ela acreditou. Ambos foram para o andar de cima antes de se servir a sobremesa.
– Hum… – Aziz estava estranhamente perturbado. Não se envergonhava das suas façanhas sexuais. Aos quinze anos, descobrira que as mulheres gostavam dele e, depois de uma infância isolada e desgraçada, a descoberta transformara-se num afrodisíaco poderoso. E, embora só gostassem do seu corpo e do seu encanto, era suficiente para ele.
Não queria oferecer-lhes o coração porque sabia o que acontecia quando o fazia. Durante boa parte da sua infância, oferecera-o e tinham-no partido.
Naquele momento, percebeu que Olivia sabia muito sobre ele. A governanta fechara os olhos às suas aventuras em Paris e não se deixara impressionar por elas. Então, porque as recordava? Não gostara que o fizesse.
– Terei de encontrar uma comparação adequada – declarou, enquanto a agarrava pela mão. – Talvez um pedaço de gelo: Brilhante, perfeito e frio?
– Parece mais uma crítica.
– Os pedaços de gelo derretem.
Olivia fê-lo um pouco nesse momento: Apertou-lhe a mão e desviou o olhar enquanto corava. Aziz pensou que era uma reação deliciosa.
– Vamos, o jantar espera.
– Isto é tudo muito romântico – murmurou ela, enquanto a conduzia à mesa. Uma vez lá, Aziz soltou-lhe a mão, contrariado.
Sabia que satisfazer o desejo que sentia por Olivia era impossível. Complicaria o que devia ser muito simples, em benefício da monarquia e, é claro, do seu casamento.
Ela voltaria para Paris no dia seguinte e ele acabaria por encontrar Elena.
No entanto, queria divertir-se naquela noite.
Como se lhe tivesse lido o pensamento, Olivia perguntou:
– Sabe-se alguma coisa da Elena?
– Infelizmente, não.
– Esse tipo, o Khalil, não vai magoá-la, pois não?
– Não me parece. Não tem motivos e, como disseste antes, é uma rainha que governa. Já é bastante mau tê-la raptado. Magoá-la teria consequências internacionais.
– É verdade. Mas o Khalil não sabe que pode acabar num tribunal internacional?
– Kadar não participa nisso – disse Aziz, com uma expressão sombria. – Pelo menos, por enquanto. O meu pai governou com mão de ferro. De todos os modos, o povo amava-o porque era forte e deu estabilidade ao país. Mas fazia as coisas ao seu modo, o que significa que a repercussão do que fazia dentro das fronteiras de Kadar era mínima.
– Mas alguém do governo de Tália vai protestar.
– Se descobrirem.
– Também não lhes contastes?
– Não contei a ninguém, Olivia. Não tive outro remédio. Mas vou encontrá-la. – Pôs-lhe o guardanapo no colo, uma desculpa para tocar nela. Ela tremeu. – Entendo que tenhas perguntas – acrescentou. – Mas preferia falar de outra coisa, de algo agradável.
– Algo agradável – repetiu ela, enquanto os seus dedos compridos brincavam com o copo. Levantou o olhar e observou-a. – Não consigo pensar em nada.
– Que dilema. – Aziz sorriu. – De certeza que encontramos alguma coisa.
– Achas?
– De certeza que, entre os dois, pensamos em algo verdadeiramente agradável – murmurou ele. Estava tenso de desejo. Não tencionara fazer uma insinuação sexual, mas fizera-a. Pela forma como ela passou a língua pelos lábios, soube que percebera. Questionou-se como reagiria.
– Tenho a certeza de que consegues sempre pensar em algo agradável. Embora nunca tivesse ouvido esse eufemismo.
– Bastante inócuo, na verdade.
– Não me seduzas, Aziz. Sei que és um playboy e que não consegues evitá-lo, mas, até agora, não o tinhas feito.
– Dizes isso como se fosse uma doença – queixou-se, com um sorriso irónico.
– Uma doença que espero que consigas controlar. Não vou ser outra das tuas conquistas.
Aziz pensou que ela atacava porque esse início de sedução a perturbara.
– Independentemente da minha doença, gosto de te ver sorrir, Olivia, e de te ouvir rir. Só te tinha ouvido a fazê-lo uma vez e nem sequer estávamos na mesma divisão.
– Não sei do que falas.
– Estavas na cozinha e eu tinha entrado em casa sem que te apercebesses. Ouvi-te a rir. – Aziz observou que ela ficara pálida. – Era uma gargalhada deliciosa. Questionei-me do que te rias.
– Não me lembro.
– Porque não te ris assim comigo?
– Talvez porque não és muito engraçado.
– Ah, isso é um desafio. Agora, tenho uma missão.
– Vais fracassar, Aziz. Sou a governanta. Não precisas que me ria. Nem sequer me conheces.
– E há muito para conhecer?
Ela agarrou no copo com força.
– Não muito. Tenho uma vida muito tranquila em Paris.
– Porquê?
– Porque prefiro assim.
– Sim, mas porquê? – Aziz percebeu que queria saber a resposta, entender porque uma mulher como Olivia Ellis, bonita, competente e inteligente, se fechara durante seis longos anos numa casa vazia como governanta.
– Porque não? Nem todos querem viver como tu.
Recostou-se na cadeira, divertido e intrigado com a sua falta de resposta.
– E como vivo?
– Sabes tão bem como eu: Festas até ao amanhecer e uma mulher diferente na cama todas as noites.
– E não aprovas.
– Não sou ninguém para te julgar, mas, certamente, não quero viver assim.
– Sem dúvida, pode haver um equilíbrio. Somos extremos opostos na hora de procurar prazer, mas não achas que poderíamos encontrar um ponto intermédio?
– Onde seria? – perguntou ela, com os olhos brilhantes.
«Na cama», pensou ele. Teve uma imagem repentina de Olivia deitada nos lençóis de seda com o cabelo glorioso espalhado sobre a almofada e os lábios inchados por causa dos beijos dele. O desejo tornava-se cada vez mais urgente. Sabia que não devia pensar nessas coisas nem sentir-se assim.
Mas fazia-o.
– Teríamos de falar disso – redarguiu ele. Ela abanou a cabeça.
Entrou um empregado com o primeiro prato e ambos ficaram em silêncio enquanto deixava os pratos de salada à frente deles. Olivia manteve a cabeça encurvada, sem olhar para ele, embora lhe agradecesse quando o homem se foi embora.
– Não acho que suspeite de nada – murmurou Aziz, quando a porta se fechou.
– Como me disseste, as pessoas acreditam no que querem acreditar – comentou ela, observando-o.
– Falas por experiência?
– Mais ou menos.
Quis perguntar-lhe a que se referia, mas não lhe deu a oportunidade.
– Sentirás a falta da tua antiga vida? Das festas, da tua rotina de playboy? Suponho que as coisas sejam muito diferentes quando te casares e viveres em Kadar.
– Sem, suponho que sim. – Aziz pegou num pedaço de alface. – Mas, respondendo à tua pergunta, não sentirei a falta da minha antiga vida. – Levantou o olhar, surpreendido com a sua própria sinceridade. – Suponho que isso demonstre como sou superficial.
– Alguém superficial não estaria a lutar pelo trono – observou ela, olhando para ele, pensativa.
– Talvez só deseje o poder.
– Porque queres ser xeque? Antes, nem sequer parecias interessar-te por Kadar.
– Não é uma questão de querer. É o meu dever.
– Um dever que não te preocupava antes.
– Não andas com rodeios, pois não, Olivia?
– Porque haveria de o fazer?
– Suponho que não haja nenhum motivo para que o faças – concedeu, rindo-se. – De todos os modos, é uma pergunta justa. – A que ele não queria responder. No entanto, sentia a necessidade de ser sincero. Boa parte da sua vida consistia em fingir e recorrer a evasivas. Olivia, com o seu olhar franco e a sua atitude sensata, era digna de confiança. – O meu pai não queria que eu fosse xeque. Fui uma desilusão para ele.
– Porquê?
«Porque preferia o Khalil», pensou Aziz. Mesmo quando soubera que não era o seu filho e o rejeitara, Hashem desejara que Khalil fosse o seu sucessor, não ele. No entanto, não ia ser tão sincero com Olivia, pois não suportaria que se compadecesse.
– Não estávamos de acordo em muitas coisas. – O que mal servia para o descrever.
Recordou que o pai desprezara todas as suas tentativas de o agradar. Ainda sentia a vergonha que experimentara quando, à frente dos assessores, o pai lhe pedira para recitar a Constituição de Kadar. Parara uma vez, uma só vez, mas Hashem gozara com ele sem piedade antes de lhe dar uma bofetada e de o expulsar da divisão.
Era apenas uma lembrança entre milhares. Até ter quinze anos e perder a virgindade, com uma das amantes do seu pai, não percebera que podia viver de outra maneira: Sem se importar com nada.
– Foi por isso que te mantiveste afastado de Kadar? Por causa do teu pai?
– Em boa medida.
– Mas continuas sem me ter contado porque decidiste voltar e ser xeque.
– Suponho que tenha sido por uma certa perversidade que há dentro de mim. Queria demonstrar que o meu pai se enganou, que posso ser xeque e fazê-lo muito bem – declarou, com uma intensidade de que se envergonhou.
– Então, a tua decisão continua a ter a ver com o teu pai. Continuas a deixá-lo controlar a tua vida.
Ele espantou-se, magoado, mas tinha razão. Era o pai que continuava a ditar as suas decisões. Continuava a procurar a aprovação do pai. O seu amor.
– Não tinha pensado nisso – disse ele, no tom mais despreocupado que pôde. – Mas suponho que tenhas razão.
– É difícil desprender-se de alguém quando tem tanto poder e influência na tua vida. Mesmo que decidas não lhe fazer caso, de certo modo, continua a ser o centro da tua vida. Dedicas toda a tua energia e o teu tempo a tentar não pensar nele.
– Falas por experiência – afirmou Aziz e ela encolheu os ombros.
– Também não me dou bem com o meu pai. Está vivo, certamente, mas há anos que não nos falamos.
– Não sabia. – Aziz pensou no pai de Olivia, um homem simpático e afável que chegara muito alto no corpo diplomático. – Recomendou-te para o emprego de governanta.
– Creio que pensava que, pelo menos, me devia isso.
– Devia?
Ela abanou a cabeça e ele percebeu que se arrependia do que dissera.
– Não importa. Está no passado.
No entanto, ele reparou que apertava as mãos no colo, que o rosto ficava tenso e os olhos se toldavam, por isso soube que não estava no passado. Ela olhou para o prato e mudou de expressão. Aziz pensou que por pura força de vontade.
– De todos os modos, devíamos falar do futuro, não do passado. No caso de encontrares a rainha Elena a tempo, achas que chegarás a amá-la?
«Nunca», pensou ele. Não queria amar nem ser amado, não desejava ter sentimentos que só proporcionavam complicações desnecessárias. Amava alguém e essa pessoa defraudava-o: Não o amava ou, pior ainda, odiava-o.
Mas, por sorte, ele já não era um menino estúpido e necessitado, mas um homem que sabia o que queria e o que devia fazer. E o amor não entrava nos seus planos.
– A rainha e eu falámos da natureza do nosso casamento. E ambos estamos satisfeitos com o acordo a que chegámos.
– Isso não é uma resposta.
– Mal nos conhecemos, Olivia. Vi-a uma vez. Não sei se posso amá-la ou não. De todos os modos, prefiro falar de ti. Tenho a certeza de que és muito mais interessante do que eu.
– Eu estou convencida de que não é assim.
– És filha de um diplomata. Deves ter sido criada em lugares muito diferentes. – Ela assentiu. – Qual deles consideras o teu lar?
– Paris.
Aziz percebeu que se referia à sua casa. Não era de estranhar que o seu emprego significasse tanto para ela. Provavelmente, era o lugar em que vivera durante mais tempo.
– Não só por causa destes últimos anos – explicou ela. – Vivi lá quando era criança, quando ia à escola primária. Sempre adorei.
– E onde passaste a adolescência?
– Na América Latina.
– Deve ter sido interessante.
– Era uma comunidade muito pequena de expatriados – comentou ela, encolhendo levemente os ombros.
Era uma resposta estranha. Tinha segredos, pensou Aziz. Escondia as suas emoções, as suas alegrias e as suas mágoas. Mas porquê?
Porque é que ele escondia as dele?
Porque o tinham magoado. Sofria ao mostrar o seu verdadeiro «eu», ao sentir emoções profundas. Percebeu que tanto Olivia como ele se mexiam na superfície da vida, embora de forma muito diferente.
– Se bem me lembro do que dizias no teu currículo, só estiveste um ano na universidade.
– Um trimestre – corrigiu ela, sem que a sua voz ou a sua expressão revelassem a menor emoção. – Decidi que não era para mim.
Mas o seu corpo estava em tensão. E embora Aziz quisesse pressioná-la e saber mais, decidiu dar-lhe uma pausa temporária.
– Também não era para mim. Estava demasiado ocupado nas festas.
Viu que ela relaxava.
– Já eras um playboy?
– Devo tê-lo nos genes. – E talvez fosse verdade, tendo em conta a quantidade de amantes que o pai tivera. Mas sabia que, independentemente da genética, tomara a decisão de ter uma vida de playboy de forma deliberada, apesar de ser uma vida vazia. Sobretudo, porque era vazia.
– No entanto, és inteligente. Criaste uma empresa de assessoria.
– Tenho a sorte de ter jeito para os números – disse ele, sem lhe dar importância, ao mesmo tempo que encolhia os ombros.
Na verdade, estava muito orgulhoso da empresa. Não pedira um cêntimo ao seu pai para a criar, embora as pessoas pensassem que o fizera. A verdade era que não pedira dinheiro ao pai desde que acabara a universidade. Não o contava por aí, como também não falava da percentagem que doava a ONG que ajudavam a mulheres e crianças de Kadar em situação vulnerável. Não estava disposto a gabar-se disso nem a tentar conquistar os outros.
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