Читать книгу: «Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres»

Шрифт:

Alfredo Campos

Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres


Publicado pela Editora Good Press, 2022

goodpress@okpublishing.info

EAN 4064066412852

Índice de conteúdo

OBRAS DO AUCTOR

DO AUCTOR

I Amanhã os negocios sérios

II Alexandre

1.º—Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.

2.º—Meu filho, nada póde resistir-te.

3.º—Reserva da Esperança.

4.º—Nó gordio.

5.º—O medico de Alexandre.

6.º—Este tambem é Alexandre

7.º—E eu tambem, se fosse Parmenion

8.º—Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!

9.º—Ao mais digno.

10.º—Os funeraes d'Alexandre.

11.º—Desmembramento do imperio d'Alexandre.

III Audacia, ainda audacia e sempre audacia

IV Delicias de Capua

V Disse eu alguma tolice?

VI Arca de Noé

VII Queimar não é responder!

VIII Caim, que fizeste de teu irmão?

IX Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo

X Catão

XI Cezar

1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.

2.º—Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em Roma.

3.º—Passar o Rubicão.

4.º—Levas Cezar e a sua fortuna.

5.º—Soldado, fere no rosto!

6.º—Cheguei, vi e venci.

7.º—Idos de Março.

8.º—E tu tambem, meu filho!

9.º—A tunica de Cezar.

XII Estava escripto

XIII Conhece-te a ti proprio

XIV As joias de Cornelia

XV Cresus

XVI Dôr, tu não és um mal

XVII Egéria

XVIII Mais uma victoria como esta e estamos perdidos

XIX Espada de Damocles

XX O prato de lentilhas

XXI E eu tambem sou pintor!

XXII Estrella dos Reis Magos

XXIII E, comtudo, ella gira!

XXIV Virtude, não és mais que um nome

XXV Festim de Balthazar

XXVI Forcas caudinas

XXVII Irmão, é preciso morrer

XXVIII Cahir com graça

XXIX Hippocrates diz sim, Galiano diz não

XXX É muito tarde!

XXXI Não ha grande homem para o seu creado de quarto

XXXII Cantam, elles pagarão

XXXIII Perdi o meu dia

XXXIV Amo Platão, mas amo mais a verdade

XXXV Achei!—Eureka!

XXXVI Eu desejaria não saber escrever

XXXVII Linguas d'Esopo

XXXVIII Lanterna de Diogenes

XXXIX O mestre o disse

XL O rei é morto, vive o rei!

XLI O estado sou eu!

XLII Alavanca d'Archimedes

XLIII Magdalena

XLIV Casa de Socrates

XLV Desgraça aos vencidos!

XLVI Manto de Joseph

XLVII Mario sobre as ruinas de Carthago

XLVIII Subir ao Capitolio

XLIX Onde não ha el-rei o perde

L Onde se vae aninhar a virtude?

LI Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem

LII Lavar as mãos como Pilatos

LIII O que não peccou, atire a primeira pedra

LIV Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu

LV Quem te fez conde? Quem te fez rei?

LVI A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus

LVII Salto de Leucade

LVIII Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará

LIX Terra promettida

LX Thebaida

LXI Desça o panno, acabou a comedia!

LXII Tudo é perdido, menos a honra!

LXIII Trombetas de Jericó

LXIV A tunica de Christo

LXV Um imperador deve morrer em pé

LXVI Vendilhões expulsos do templo

LXVII Gritar no deserto

LXVIII Zoilo

LXIX Aspasia

LXX Babylonia

LXXI Incendiar os seus navios

LXXII Os ultimos romanos

LXXIII Faça cabelleiras, mestre André

LXXIV Fé do carvoeiro

LXXV Ha juizes em Berlim

LXXVI Judas—Beijo de Judas

LXXVII Pragas do Egypto

LXXVIII Não toqueis na rainha

LXXIX O ovo de Colombo

LXXX Waterloo

LXXXI Templo de Jano

LXXXII Estatua de Nabuchodonosor

LXXXIII Sepulchros do Evangelho

LXXXIV Isso que prova?

LXXXV Manná

LXXXVI Annel de Gyges

LXXXVII Honni soit qui mal y pense

LXXXVIII Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei

LXXXIX Bandeira da Misericordia


OBRAS DO AUCTOR

Índice de conteúdo


Luz e sombras, original 400 réis
Um como ha muitos, original 50 réis
Um livro intimo, original 200 réis
A felicidade pela familia, original 100 réis
O trabalho, original 100 réis
Nunca mais! original 400 réis
A Filha do cabinda, original 500 réis
A cruz de brilhantes, original 500 réis
A jurity, original 500 réis
Alma minha gentil, original 300 réis
Historia pittoresca—Palavras e phrases celebres, original 500 réis
Deveres do homem, original 50 réis
Magdalena, traducção 500 réis
Fior d'Aliza, traducção 400 réis
A mulher forte, traducção 600 réis
OBRAS ELEMENTARES
Noções de moral e religião, approvada 160 réis
Principios elementares de chorographia, approvada 200 réis
Grammatica franceza resumida, approvada 500 réis
NO PRÉLO
A missão da mulher, 1 vol.
Vida de Camões, 1 vol.

Alfredo Campos

HISTORIA PITTORESCA

PALAVRAS E PHRASES CELEBRES


PORTO

Livraria Portuense

—de—

LOPES & C.ª—EDITORES

123—Rua do Almada—123

1889


IMPRENSA CIVILISAÇÃO

73—LARGO DA POCINHA—77

—PORTO—

Ao Ill.mo e Ex.mo Sr.

Manoel José da Conceição Rocha

TRIBUTO DE RESPEITO,

CONSIDERAÇÃO, GRATIDÃO E ESTIMA

Offerece


Alfredo Campos.


DO AUCTOR

Índice de conteúdo


O PRESENTE livro—PALAVRAS E PHRASES CELEBRES—, é como que uma Corbeille aonde estão reunidos, explicados, e, por vezes commentados, muitos factos, muitas palavras, phrases e circumstancias curiosas e originaes, que se empregam e se encontram, a cada momento, já n'alguma obra escripta, já no meio da conversação.

Pareceu-nos que não seria desgracioso enfeixar todas essas flores n'um como que estudo de Historia Pittoresca, sem a aridez da Historia propriamente dita, e com o proporcionamento do interesse, da amenidade e do attractivo do romance.

As PALAVRAS E PHRASES CELEBRES são isto apenas.

O livro estava feito, e todo o trabalho consistiu, quasi, em procurarmos e reunirmos em volume as paginas que andavam dispersas, aqui e alli, um pouco por toda a parte.

Tem merecimento? Outros o dirão.

Em todo o caso póde servir para entretenimento de um serão, para desenfado n'uma hora de descanço, para suavisar um momento de tedio, com a vantagem de que allia o util, que é a historia, ao agradavel, que é o pittoresco.

De resto, parece-nos livro para toda a gente, porque crêmos que não perverte, não corrompe, não immoralisa.

Visou, pelo menos, a esse fim, e só desejamos que o attinja.

Se attingir, tanto melhor para os que nos honrarem lendo-o, e tanto melhor para nós, sobretudo, porque lograremos a gloria que aspiramos para o nosso modesto trabalho.



PALAVRAS

E

PHRASES CELEBRES

I
Amanhã os negocios sérios

Índice de conteúdo


Sparta tinha-se apoderado da cidadella de Thebas por traição, e impozera aos thebanos, como governador, o tyranno Archias. Este banira da cidade os principaes cidadãos, entre os quaes Pelopidas. Refugiados estes em Athenas, resolveram libertar a patria e concertaram-se com um dos seus compatriotas, inimigo secreto do tyranno, que lhes offereceu recebel-os em sua casa. No dia marcado para a execução da conspiração, os conjurados penetraram em Thebas, graças a um disfarce. N'esse mesmo dia, Archias foi convidado para ceiar em casa d'um rico cidadão thebano, que, egualmente, fazia parte dos conspiradores. Tudo estava prompto, e os conjurados esperavam apenas uma hora mais avançada, para a execução do seu projecto, quando um correio, enviado d'Athenas, veio trazer a Archias uma carta, contendo todas as particularidades da conspiração. Admittido junto ao tyranno, entregou-lhe a missiva, convidando-o a lêr sem demora, porque se tratava de negocios sérios. Archias, dominado já pela embriaguez, poz indolentemente a carta sob a sua almofada, exclamando:

—«Amanhã os negocios sérios!»

Alguns instantes depois, Pelopidas e os outros conjurados, invadiram a salla do festim e massacraram o tyranno.

Este acontecimento, que produziu a liberdade da Beocia, obteve uma grande celebridade na Grecia, e a phrase—amanhã os negocios sérios—tornou-se um proverbio que os descuidados e os amigos da alegria pretendem tomar por divisa, e que melhor fôra tomassem como lição.

II
Alexandre

Índice de conteúdo

Alexandre, filho de Philippe, rei da Macedonia, foi um dos maiores capitães da antiguidade. Desde a mais tenra edade que foi sempre animado d'uma nobre ambição. Quando lhe perguntavam se concorria aos jogos olympicos, respondia:

—«Iria, se tivesse a certeza de encontrar reis como rivaes!»

Chorava de cólera, vendo os successos multiplicados de Philippe, lamentando-se, d'este modo:

—«Meu pai nada nos deixará que fazer!»

Alexandre ficou em todas as linguas como o typo do heroe e do conquistador. As differentes circumstancias da vida de Alexandre, que originaram locuções proverbiaes são as seguintes e por ordem chronologica:

1.º—Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.

Índice de conteúdo

Alexandre acabava de ser nomeado generalissimo dos gregos, e achava-se em Corintho, aonde os principaes cidadãos se apressavam em dirigir-lhe as suas felicitações. Admirado de não receber a visita de Diogenes, foi elle proprio procurar o celebre cynico, cuja conversação facil e picante o encheu de assombro. Alexandre tendo perguntado ao philosopho se desejava alguma coisa, elle respondeu:

—«Tira-te do meu sol.»

Foi então que o grande conquistador, assombrado com tanto desinteresse, exclamou:

—«Se eu não fosse Alexandre, desejaria ser Diogenes.»

2.º—Meu filho, nada póde resistir-te.

Índice de conteúdo

Antes de partir para a expedição que projectava na Asia, Alexandre quiz consultar o oraculo de Delphos. Como a pythia recusasse subir ao tripé, o moço heroe arrastou-a violentamente. Ella exclamou então:

—«Ah!, meu filho, nada te póde resistir.»

—«Esse oraculo me basta—respondeu Alexandre—não quero outro.»

3.º—Reserva da Esperança.

Índice de conteúdo

Na primavera do anno 334, Alexandre, tendo apenas vinte e dois annos d'edade, dispunha-se a invadir a Asia, á frente d'um exercito de trinta mil infantes e cinco mil cavallos. Como se já estivesse de posse dos thesouros do grande rei, distribuiu aos amigos tudo quanto tinha. Perdiccas perguntou-lhe então:

—«Que reservaes para vós?»

—«A Esperança»—respondeu Alexandre.

4.º—Nó gordio.

Índice de conteúdo

Gordio, simples lavrador phrygio, tornou-se rei, por ter cumprido um oraculo, que promettia a corôa ao que primeiro entrasse, n'um determinado dia, na capital. Midas, seu filho, consagrou, no templo de Jupiter o carro sobre o qual seu pai fôra transportado. O nó que ligava o jugo ao timão estava tão artisticamente dado, que não se lhe descobriam as pontas. Chamavam-no o nó gordio ou de Gordio, e um antigo oraculo promettia o imperio da Asia a quem conseguisse desatal-o.

Alexandre, tendo-se apoderado da cidade, resolveu cumprir o oraculo e actuar fortemente sobre a imaginação dos seus soldados. Depois de varias tentativas infructiferas, desembainhou a espada e cortou o nó mysterioso, illudindo mais, que realisando, d'este modo, o oraculo.

5.º—O medico de Alexandre.

Índice de conteúdo

Pouco tempo depois da passagem do Granico, Alexandre, tendo-se banhado, a suar, nas aguas geladas do Cydnus, foi subitamente atacado d'um tremor mortal, e os soldados levaram-n'o, sem movimento, para a tenda. Todo o exercito se consternou, porque o seu estado parecia desesperado. Ao mesmo tempo, Dario avançava com forças immensas para lhe barrar as sahidas do Taurus. Os medicos não ousavam experimentar remedio algum; um só, Philippe, Acarniano de nação, e amigo d'infancia d'Alexandre, compoz uma poção, cujo effeito poderoso e salutar devia ser immediato. Durante estes preparativos, Alexandre recebeu uma carta de Parmenion, que o advertia de que desconfiasse de Philippe, secretamente comprado por Dario, para attentar contra os dias de seu monarcha. O heroe tinha ainda a carta nas mãos, quando o medico lhe levou a poção. Alexandre, sem manifestar a menor emoção, tomou a taça com uma das mãos, apresentou com a outra a carta a Philippe, e bebeu tudo d'uma só vez. O medico indignado, mas dominando as suas impressões, exhortou o rei a seguir fielmente as suas prescripções: a cura estava n'aquelle premio. Em verdade, apoz uma crise terrivel que gelou d'espanto todo o exercito, e de que um só homem não sabia a sahida, o doente melhorou e restabeleceu-se.

O que ha de admiravel n'este traço da vida de Alexandre é a sua profunda fé na amizade.

6.º—Este tambem é Alexandre

Índice de conteúdo

Ephestion é menos citado na Historia pela parte que tomou nas conquistas d'Alexandre, que pela grande amizade que o unira áquelle heroe. Os dois amigos tinham sido educados juntos, e só a morte os separou. Depois da sangrenta batalha d'Issus, em que a mãe, a mulher e as duas filhas de Dario, cahiram em poder do vencedor, Alexandre, acompanhado d'Ephestion, foi visitar, á sua tenda, as infelizes princezas. Sysigambis, mãe de Dario, dirigiu a saudação a Ephestion, que tomou por Alexandre, pela superioridade da estatura e esplendor do traje. Advertida do engano, lançou-se aos pés do heroe, que a levantou bondosamente, dizendo-lhe:

—«Não vos enganasteis, aquelle tambem é Alexandre.»

7.º—E eu tambem, se fosse Parmenion

Índice de conteúdo

Depois da batalha d'Issus, que fizera cahir nas mãos d'Alexandre toda a familia de Dario, e alguns dias antes da batalha d'Arbelles, o grande rei fez offerecer ao vencedor dez mil talentos—cincoenta e quatro milhões—a cedencia de toda a Asia até ao Euphrates, e uma das suas filhas em casamento. Alexandre tendo communicado estas brilhantes propostas aos seus generaes, Parmenion exclamou:

—«Eu acceitaria, se fosse Alexandre.»

—«E eu tambem, se fosse Parmenion!»—respondeu Alexandre.

E recusou.

8.º—Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!

Índice de conteúdo

Alexandre tinha, do fundo da Asia, os olhos fixos na Grecia, e, sobretudo, em Athenas. Apesar do abaixamento em que esta cidade havia cahido, ficára sempre capital do mundo civilisado, pelas obras primas dos seus artistas, pelos immortaes discursos dos seus oradores e pela eloquente verdade dos seus historiadores, e Alexandre, tão apaixonado pela gloria, aspirava, acima de tudo, aos applausos d'esses athenienses frivolos, mas que egualmente distribuiam pela posteridade, a censura como o louvor. O conquistador acabava de penetrar nas vastas regiões da India, e preparava-se para atravessar o Hydaspe, de que Porus, á frente d'um formidavel exercito, ia disputar-lhe a passagem. O rio era largo e profundo, e as suas vagas quebrando estrepitosamente, deixavam a descoberto, aqui e alli, rochedos ameaçadores. Alexandre illude a attenção dos inimigos por um falso ataque, e aproveitando-se d'uma tempestade que lhe encobre os movimentos, affronta perigos inauditos para transpor o rio. Confessou depois que tinha, emfim, encontrado alli um perigo digno da sua coragem, e foi n'esta circumstancia, diz Racine, no prefacio da sua tragedia Alexandre, que o heroe exclamou:

—«Ó athenienses! quanto custa ser louvado por vós!»

9.º—Ao mais digno.

Índice de conteúdo

Estava conquistada a Asia; a terra, segundo a bella expressão da Escriptura, tinha-se callado deante de Alexandre; elle fizera a sua entrada na Babylonia, «não como um conquistador, mas como um deus» e o papel brilhante e terrivel que representára estava a terminar. Os festins e os desvarios de toda a especie tinham succedido ás batalhas. No meio d'uma ultima orgia, o conquistador foi atacado d'uma febre, que o levou em poucos dias. Só deixava herdeiros em curta idade, ou incapazes. Conta-se que, no leito da morte, perguntando-lhe os generaes a quem legava o imperio, elle respondera:

—«Ao mais digno!»

E expirou «cheio das tristes imagens da confusão que devia seguir-se á sua morte.»

10.º—Os funeraes d'Alexandre.

Índice de conteúdo

«Alexandre—diz Bossuet—deixava, morrendo, capitães a quem tinha ensinado a respirar sómente ambição e guerra. Previu a que excessos se dariam, quando expirasse, e para os conter, e com receio de ser desrespeitado, não ousou nomear nem successor, nem tutor para seus filhos. Predisse sómente que os seus amigos celebrariam os seus funeraes com sanguinolentas batalhas.»

11.º—Desmembramento do imperio d'Alexandre.

Índice de conteúdo

Apenas Alexandre exhalou o ultimo suspiro, os generaes reuniram-se para dividirem a sua immensa herança. Perdiccas, a quem Alexandre moribundo deixára o seu annel, fez-se nomear regente; e os outros generaes distribuiram entre si as provincias. Lysimaco teve a Thracia, Antipater a Macedonia e a Grecia, Ptolomeu o Egypto, Antigono e Cassandro repartiram a Asia Menor. Vinte annos depois encontravam-se nas planicies da Phrygia, e a batalha de Ipsus era o ultimo acto d'essa sangrenta tragedia.

III
Audacia, ainda audacia e sempre audacia

Índice de conteúdo

Danton, um dos vultos mais notaveis da revolução franceza, nascera para tribuno popular. Alto, forte, face de bull-dog, muito picado das bexigas, a expressão do olhar cheia d'audacia, alma em harmonia com a estatura, com o ardor dos olhos, o rosto terrivel, a voz sonora, não podia ser senão o que foi, um revolucionario enthusiasta, arrastando o povo, já pela sua palavra como pelos seus actos, já pela sua elocução muito cheia de figuras gigantescas, d'apostrophes inflammadas, assombrando mesmo os que não seduzia. «Mirabeau serviu-se d'elle—diz um escriptor contemporaneo—como de um folle de forja, para accender o povo.» Apoz a fuga de Varennes, Danton provocou atrevidamente a queda do rei, fez-se eleger substituto do procurador da communa, preparou a revolução de 10 d'Agosto e entrou no ministerio da justiça.

Esse famoso dia levantou toda a Europa contra a França revolucionaria. Brunswick, acaba de lançar o seu insolente manifesto; os exercitos francezes tinham experimentado revezes na Lorena; Longwy estava tomado, Verdun cercado, e o alarme reinava em Pariz. Para reanimar as coragens, Danton resolveu vibrar um grande golpe. Era no 1.º de Setembro. No dia seguinte, 2, em quanto o sino tocava a rebate e o estampido do canhão se fazia ouvir, elle correu á Assembleia legislativa, e, n'um discurso rapido, fez ouvir estas terriveis palavras aos deputados, trémulos nas suas cadeiras: «É n'este momento, senhores, que podem decretar que a capital bem mereceu da França inteira. O canhão que se ouve não é o canhão do alarme, é o passo de carga sobre os nossos inimigos!... Para os vencermos, para os anniquilarmos, que é preciso? Audacia, ainda audacia e sempre audacia!»

Algumas horas depois os massacres de Setembro espantavam Pariz.

Se Danton não organisou, como é accusado, aquellas horrorosas carnificinas, está averiguado que nada fez para as prevenir e reprimir, e talvez que elle visse n'ellas uma execução terrivel, mas necessaria.

N'esta repetição energica, hoje proverbial, Danton fôra precedido pelo velho marechal de Trioulce. Quando se perguntava a este o que era necessario para bem fazer a guerra, respondia:

—«Tres coisas: dinheiro, ainda dinheiro e sempre dinheiro!»

Demosthenes tambem já dissera na antiguidade, que tres coisas fazem o orador:—«primeiro, a acção; segundo, a acção; e terceiro, a acção.»

IV
Delicias de Capua

Índice de conteúdo

A antiga Capua, capital da Campania, era uma das mais formosas cidades da Italia. Construida no centro de magnificas planicies, ensombradas pelo pinheiro, pelo platano, pelo myrto e a oliveira, circundada de imensos passeios orlados das mais perfumosas plantas, das mais brilhantes e suaves flores, Capua offerecia a mais adoravel residencia de toda a Italia.

Foi lá que Annibal, depois da batalha de Cannes, e quando já tocava o extremo da sua audaciosa empreza, foi assentar os seus quarteis d'inverno, á frente do seu exercito vitorioso. Os historiadores antigos attribuem á permanencia de Annibal no seio das delicias de Capua, a causa unica da salvação de Roma. Assim, o seu exercito ter-se-ia amollecido e ter-se-hia corrompido alli pelos famosos vinhos e pelos gosos faceis.

No entretanto, se considerarmos que o capitão carthaginez e os seus temiveis bandos guerrearam ainda, durante treze annos, na Italia, de que só foram arrancados pela habil diversão de Scipião na Africa, as delicias de Capua não passam de uma amplificação de rhetorico.

Segundo a opinião de historiadores modernos e homens de guerra dos mais celebres, um exercito de soldados feitos e experimentados não se perde n'um quartel de inverno. O que melhor explica a inutilidade dos exforços do maior capitão d'antiguidade, e esta foi a opinião de Napoleão 1.º, depois da batalha de Cannes, é o abandono a que entregou a patria, onde dominava uma facção invejosa; além de que, rodeado de povos hostis e alliados incertos, recrutando difficilmente o seu exercito, composto de mercenarios de toda a especie, Annibal já não estava em estado de tentar qualquer coisa grande e decisiva. Comtudo, não se sustenta menos contra as melhores tropas e os mais habeis generais da republica, enchendo a Italia com o terror do seu nome, e agitando o mundo com as suas negociações, para levantar, em toda a parte, inimisades aos romanos.

As delicias de Capua ficaram em todas as linguas modernas para designarem uma calmaria moral, temperada de divertimentos e prazeres, em que as molas do corpo e do espirito se distendem e enfraquecem.

O padre Lacordaire aprecia a phrase do modo seguinte:

«A historia de todos os successos é a historia d'Annibal em Capua. Esquece-se, embriaga-se, adormece-se; o lento veneno da molleza distende todas as molas da actividade, e o ser que nada é senão pela actividade, dissolve-se, pouco e pouco, na ignominia d'um somno cobarde.»

V
Disse eu alguma tolice?

Índice de conteúdo

As lições de Platão e de Xenocrato tinham desenvolvido em Phocion um coração virtuoso e uma alma elevada. Na tribuna, como no campo de batalha, elle lembrava Aristides. Nunca um orador foi mais inflexivel nos seus conselhos, nem contou menos com o successo da sua perseverança. A eloquencia de Phocion era a expressão natural do seu caracter e dos seus costumes; elle fallava aos athenienses com a serenidade de um philosopho e o laconismo d'um spartiaco. Sabe-se que Demosthenes o chamava—o machado dos seus discursos. Superior aos applausos, tanto como aos clamores da multidão, elle abalroava de frente a potencia popular, e as suas virtudes impunham-se a todas as paixões. Tinha a palavra austera, e a sua eloquencia vigorosa e concisa desdenhava dos artificios oratorios, que agradam á multidão e fazem estrondear applausos. Estando um dia na tribuna e vendo-se ruidosamente victoriado por todo o povo, volveu-se admirado para os seus amigos e perguntou-lhes:

—«Disse eu alguma tolice?»

VI
Arca de Noé

Índice de conteúdo

Era um immenso navio que Deus, depois de haver resolvido punir os homens pelo diluvio, ordenou a Noé construisse para ahi se refugiar.

O Patriarcha empregou cem annos na construcção d'essa arca, que tinha trezentos covados de comprimento, cincoenta de largo e trinta de altura, e que continha, além de Noé e sua familia, dois casaes d'animaes impuros, assim chamados os que não era permittido offerecer em sacrificio, e sete casaes d'animaes puros.

Por causa da quantidade de seres que esse navio encerrava, o nome de Arca de Noé passou a servir para designar a agglomeração de numerosos e disparatados objectos.

VII
Queimar não é responder!

Índice de conteúdo

No principio do anno de 1794, estava em toda a sua violencia o regimen do Terror, dirigido por Robespierre, no seio do comité de salvação publica. Os proprios dantonistas, tornaram-se, em vista d'isto, indulgentes, moderados; e agora que a republica estava senhora do campo de batalha, elles queriam fazel-a entrar no reino das leis, e no caminho da justiça para todos. Danton era o chefe d'esta opposição nova, e o joven e fogoso Camillo Desmoulins era a sua penna, e, no Vieux Cordelier, farpeava o governo com censuras e sarcasmos. O jornal era lido com avidez, e venderam-se, n'alguns dias, cincoenta mil exemplares. Afinal, Camillo ousou promover um comité de clemence, como o unico meio de pacificar os partidos e de acabar com a revolução. Não era isto o que queria Robespierre, que, n'uma sessão dos jacobinos, onde o impetuoso pamphletario tinha sido intimado a comparecer, propoz perfidamente dar-lhe uma correcção paterna, queimando os numeros do jornal.

—«Queimar não é responder!»—exclamou Desmoulins.

Esta replica imprudente causou a sua perda. Robespierre não se conteve e disse:

—«Pois bem, não se queimem e responda-se; leiam immediatamente os artigos de Camillo, visto que assim o quer, e que elle seja coberto d'ignominia!»

Alguns dias depois o intrepido moço subia ao cadafalso.

VIII
Caim, que fizeste de teu irmão?

Índice de conteúdo

Caim, filho primogenito de Adão e Eva, cioso de seu irmão Abel, cujas offerendas eram mais agradaveis ao Senhor, propoz-lhe um dia um passeio ao campo e matou-o. O sangue do justo subiu até Deus, e a voz do Eterno fez-se ouvir:

—«Caim, Caim, que fizeste de teu irmão?»

Deus amaldiçoou o fratricida, expulsou-o da sua face, e marcou-o na fronte com um signal de reprovação.

Caim é o nome que se dá ao irmão que maltrata o irmão, abjurando o amor fraterno.

IX
Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo

Índice de conteúdo

A rocha Tarpeia, chamada assim, de Tarpeia, joven romana que alli foi estrangulada e sepultada, depois do acto de traição que commetteu, entregando a cidadella aos sabinos, era um rochedo situado no proprio recinto de Roma. Os romanos que se prendiam em perpetuar as recordações, deliberaram, depois do supplicio de Tarpeia, que se precipitassem do alto d'essa colina os criminosos accusados de traição. D'aqui a locução:—Ser precipitado da rocha Tarpeia—para exprimir, figuradamente, a quéda rapida d'uma posição elevada, e, particularmente, a perda d'uma grande popularidade.

E como este logar era situado junto do Capitolio, em que se coroavam os triumphadores, as palavras—A rocha Tarpeia está perto do Capitolio, ou—Do Capitolio á rocha Tarpeia só ha um passo, significam que a quéda segue, muitas vezes, de perto o triumpho, e que a ignominia, como extremo, toca a gloria.

Esta phrase está, sobretudo, em uso desde o eloquente emprego que d'ella fez Mirabeau, n'uma circumstancia celebre: Tratava-se de saber se a iniciativa da guerra devia ser devolvida ao rei ou á assembleia; Mirabeau pronunciou-se pela assembleia, e como ouvisse a palavra traidor soar aos seus ouvidos, o fogoso orador subiu á tribuna, e tomando para texto do seu exordio a instabilidade do favor popular, fez ouvir essas palavras, que ficaram celebres:—«E eu tambem, a mim tambem queriam, ha poucos dias, levar-me em triumpho; e gritam agora nas ruas:—A grande traição do conde de Mirabeau! ... Eu não precisava d'esta lição para saber que só ha um passo do Capitolio á rocha Tarpeia! ...»

X
Catão

Índice de conteúdo

Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:—a restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios, contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha. Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este censor inexoravel que mordia toda a gente. O sobrenome de Censor ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:—A Catão, que corrigiu os costumes.

A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as farças e as danças licenciosas.

—Dizer que um homem é um Catão é dizer que é severo e rigido no cumprimento do seu dever e nos seus costumes.

XI
Cezar

Índice de conteúdo

Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle varios Marios. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e—«julgava não ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»

O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande guerreiro, de conquistador civilisador.

Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.

1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.

Índice de conteúdo

Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por uma escrava, que não era confidente.—«No dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»

Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle respondeu:

—É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.

Бесплатный фрагмент закончился.

179,58 ₽
Возрастное ограничение:
0+
Дата выхода на Литрес:
15 января 2025
Объем:
95 стр. 10 иллюстраций
ISBN:
4064066412852
Издатель:
Правообладатель:
Bookwire
Формат скачивания:

Похожие книги