Читать книгу: «Escândalo no quarto»

Editado por Harlequin Ibérica.
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28001 Madrid
© 2019 Caitlin Crews
© 2021 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.
Escândalo no quarto, n.º 110 - fevereiro 2021
Título original: Untamed Billionaire’s Innocent Bride
Publicado originalmente por Harlequin Enterprises, Ltd
Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.
Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.
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Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos estão reservados.
I.S.B.N.: 978-84-1375-252-5
Conversão ebook: MT Color & Diseño, S.L.
Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Se gostou deste livro…
Quero agradecer a Jane Porter porque os seus livros me inspiraram e porque a sua amizade e tutela incondicionais me mudaram a vida de um milhão de formas incríveis.
Quero agradecer a Megan Haslam e Flo Nicoll, as minhas duas editoras maravilhosas, porque, simplesmente, não conseguiria fazer nada sem elas. O que seria destas histórias sem a sua orientação, o seu estímulo, a sua edição fantástica e a sua ajuda inesgotável? Sinto calafrios só de pensar nisso!
Também quero agradecer à admirável Jo Grant porque sempre foi um exemplo a seguir para o romance de qualidade e para quem o escrevo.
No entanto, sobretudo, quero agradecer-vos, aos meus leitores, por me deixarem contar-vos as minhas histórias. Brindo a outras cinquenta!
Capítulo 1
Lauren Isadora Clarke era uma londrina pura.
O campo britânico bucólico não a entusiasmava, parecia-lhe uma série de pradarias intermináveis com sebes por todos os lados que a impediam de chegar a algum lado. Preferia a cidade e a sua infinidade de meios de transporte ao alcance de todos. Além disso, se todos falhassem, podia ir a pé a bom passo de um lado para o outro. Lauren valorizava a pontualidade e não precisava desse calçado rígido e incómodo com solas como se fossem pneus.
Não era uma caminhante ou excursionista ou como quer que se chamam esses indivíduos corados com bengalas, casacos polares e sapatos práticos. Não gostava de subir encostas a soprar para depois ter de as descer, coberta da lama das colinas verdes de Inglaterra, graças à chuva. Não a atraía e nunca o fizera, o prazer duvidoso de andar de um lado para o outro para respirar ar fresco.
Gostava do betão, dos tijolos, do metro incomparável e dos estabelecimentos com comida para levar em todas as esquinas. Sentia urticária só de pensar em bosques frondosos e escuros.
No entanto, ali estava, a avançar pelo que o estalajadeiro chamara uma estrada e que, no melhor dos casos, não passava de um caminho de terra, no meio de um bosque espesso da Hungria.
Ainda não tinha urticária e devia estar a dar saltos de alegria, mas estava mais concentrada nas queixas.
Para começar e acima de tudo, os sapatos não eram, nem nunca tinham sido, práticos. Não acreditava no culto dos sapatos práticos. Era muito prática na sua vida. Geria minuciosamente as contas, pagava-as pontualmente e conseguia fazer com que o seu trabalho como secretária pessoal do diretor-executivo das Indústrias Combe, um homem imensamente rico e poderoso, alcançasse tal nível de excelência que chegava a pensar que era indispensável.
Os seus sapatos eram extravagantes e nada práticos, mas recordavam-lhe que era uma mulher, algo de que precisava quando o seu chefe a tratava como se fosse um eletrodoméstico que gostava que funcionasse sozinho, sem supervisão ou ajuda.
Há algumas semanas, Matteo Combe, o patrão, contara-lhe que a mãe se livrara de um filho antes de se casar com o seu pai.
Ela, como qualquer pessoa que tivesse visto a primeira página de uma revista sensacionalista durante os passados quarenta anos, sabia tudo sobre os pais do patrão. Bom, como passara quase toda a sua vida profissional a trabalhar para Matteo, sabia mais do que a maioria. Alexandrina San Giacomo, bonita, adorada, aristocrata e mimada, desafiara a sensatez e a sua linhagem veneziana altiva quando se casara com Eddie Combe, muito rico e muito pouco refinado, cujos antepassados tinham aberto caminho na indústria do norte de Inglaterra, muitas vezes, com as próprias mãos. A sua história de amor fora um escândalo, o seu casamento tumultuoso fora motivo de conjeturas e as suas mortes, com algumas semanas de diferença, tinham causado ainda mais agitação.
No entanto, nunca se insinuara nada sobre um filho ilegítimo.
Não era preciso dizerem a Lauren que, quando isso se soubesse, e essas coisas acabavam sempre por se saber, não teriam de se preocupar com as insinuações.
– Quero que o encontres – dissera Matteo, como se estivesse a pedir-lhe para lhe trazer um café. – Não consigo imaginar qual é a sua situação, mas preciso que esteja pronto para a imprensa e que, se for possível, seja dócil.
– O seu irmão perdido, que não conhece e que, por princípio, poderia odiá-lo, à sua mãe e a tudo o que os San Giacomo representam… e acha que poderia acatar os seus desejos…
– Confio em ti – replicara Matteo.
Desculpara-se desse disparate quase no mesmo instante porque o patrão tinha de tratar de muitas coisas. Os seus pais tinham morrido um atrás do outro. A irmã mais nova, com a cabeça oca, engravidara e ele acabara por dar um murro ao pai do bebé. Uma reação que Lauren achava completamente natural, ainda que, infelizmente, Matteo lhe tivesse dado o murro no enterro do pai.
Os paparazzi e mais do que um convidado tinham fotografado ou filmado o murro dado ao príncipe Ares de Atilia e o conselho de administração da sua empresa vira-o como uma oportunidade de manobra contra ele. Matteo tivera de se submeter à avaliação de uma especialista que não era uma aliada e era muito possível que o destituíssem se o relatório não fosse favorável.
Lauren, naturalmente, desculpava-o.
– Houve alguma vez que não o tenhas desculpado? – perguntara Mary, a companheira de apartamento, sem parar de olhar para o telemóvel.
– É um homem muito ocupado, Mary – declarara ela, na manhã em que saía de Londres.
– Como te encarregas sempre de nos recordar.
Nesse momento, enquanto seguia por aquele caminho poeirento para Deus sabia onde, compreendeu que não se metera nessa disputa só porque era muito difícil encontrar uma boa companheira de apartamento e Mary, com a sua obsessão de se manter em contacto com os trinta mil amigos que tinha nas redes sociais, passava quase o tempo todo fechada no seu quarto e ocupada com filtros para fotografias e vozes absurdas, o que lhe deixava o apartamento para ela nas poucas oportunidades que tinha.
Além disso, recordou-lhe uma vozinha, tinha toda a razão, não é?
No entanto, estava ali para levar a cabo o que Matteo lhe pedira, não para duvidar da sua lealdade por ele.
Naquele momento, os seus sapatos de saltos com tachinhas, porque não tinha uns sapatos apropriados para a lama e para os bosques e nunca teria, estavam a fazer com que aquele passeio imprevisto por um bosque húngaro fosse ainda mais desagradável do que imaginara e tinha uma imaginação muito fértil. Olhou para os pés com o sobrolho franzido, cobriu-se melhor com o xaile vermelho e pensou algumas coisas sobre o patrão que nunca repetiria em voz alta.
Não fora fácil encontrar o Dominik James correto.
Quase não tinha informação, para além de alguns detalhes que a mãe de Matteo deixara no seu testamento. Começara por falar com o advogado que redigira o testamento de Alexandrina, um idoso ardiloso mais habituado a lidar com os assuntos dos aristocratas do que a responder às perguntas das empregadas. Olhara para ela por cima de uns óculos de que estava quase convencida que não precisava e garantira-lhe que, se houvesse mais informação pertinente, a teria incluído, algo em que ela não acreditou.
Enquanto Matteo estava concentrado nas sessões de avaliação e se enfurecia com as Indústrias Combe, começara uma investigação frenética. Os dados eram simples. Alexandrina, herdeira da fortuna imensa dos San Giacomo e conhecida em todo o mundo como outra pobre menina rica, engravidara quando tinha pouco mais de quinze anos graças a um rapaz mais velho, claramente inadequado e que, para começar, não devia ter conhecido. A família descobrira que estava grávida quando não pudera disfarçá-lo mais e mudara-a de escola.
O menino nascera quando Alexandrina tinha dezasseis anos. A igreja encarregara-se dele e ela voltara à vida social como se não tivesse acontecido nada. Que Lauren soubesse, não voltara a falar do primeiro filho até o mencionar no testamento.
«Ao Dominik James, o meu primeiro filho, que me arrebataram quando era apenas uma criança, deixo um terço da minha fortuna e bens materiais.»
O nome era uma pista. James era a versão inglesa de Giacomo. Lauren investigou todos os Dominik James que encontrou e acabou por ficar com duas possibilidades. Descartou o primeiro quando encontrou a sua árvore genealógica numa página de Internet, que não tinha nada a ver com os San Giacomo.
O outro Dominik James fora criado numa série de orfanatos católicos de Itália, antes de ter fugido para Espanha. Passara a adolescência lá, de vila em vila, de uma forma a que ela só podia chamar ambulante. Aos vinte e tal anos, alistara-se no exército italiano e desaparecera quando saíra. Reaparecera há pouco para fazer um curso na universidade e, depois, voltara a desaparecer.
Não fora fácil, mas, laboriosamente, localizara-o nesse bosque emaranhado e remoto da Hungria, algo que, depois de tanto trabalho, Matteo lhe dissera que estava escrito na versão em papel do testamento de Alexandrina que encontrara entre os pertences do pai de Matteo.
– Foi o que o meu pai escreveu na sua cópia do testamento da minha mãe – comentara Matteo, num tom jocoso.
Jocoso como se não lhe tivesse passado pela cabeça que ela poderia ter precisado de saber que o Dominik James que procurava estava na Hungria.
Naturalmente, não lho disse e agradeceu.
Era possível que o pai de Matteo tivesse feito notas no testamento de Alexandrina, mas, evidentemente, não tivera intenção de encontrar o filho ilegítimo que a esposa tivera muito antes de o conhecer. Por isso, não só tinha de localizar Dominik James, como, certamente, teria de lhe comunicar a sua ascendência ali, naqueles bosques imponentes que se abatiam sobre ela e que pareciam tirados de um conto de fadas.
Felizmente, não acreditava nos contos de fadas.
Voltou a embrulhar-se no xaile vermelho para se proteger do frio.
Era primavera, mas não havia forma de saber isso ali. As árvores eram altas e espessas e não deixavam passar a luz do sol e as sombras espalhavam-se por todos lados e faziam com que se sentisse… inquieta.
Embora também fosse possível que não se sentisse assim por causa das sombras dos ramos. Era possível que fosse, simplesmente, porque estava ali ou porque o estalajadeiro dessa vila remota se rira quando lhe dissera que estava à procura de Dominik James.
– Boa sorte – dissera o homem, embora lhe parecesse irónico. – Há homens que não querem que os encontrem, menina, e ignorar isso costuma causar problemas.
Uma vez lá, no bosque, onde só havia árvores e tinha a sensação inquietante de que estava completamente sozinha, mas não estava, esse comentário era especialmente ameaçador.
Saíra da vila há mais de meia hora e fora a última coisa parecida com a civilização que vira. Tentou convencer-se de que era uma sorte que o caminho não subisse para as montanhas imponentes, mas era complicado considerar-se sortuda quando estava rodeada de terra por todos os lados. A espessura do bosque, o barulho dos pássaros por cima da sua cabeça, os estalos que lhe indicavam que havia animais, embora não os visse…
Tremeu e pensou que estava a ser absurda. Então, o caminho fez uma curva e viu-o. Ao princípio, pensou que era como uma miragem do deserto, mas de madeira, embora nunca tivesse visto uma miragem e não houvesse desertos em Londres. No entanto, quanto mais se aproximava, mais claro era que os seus olhos não estavam a enganá-la. Havia uma espécie de construção rústica numa clareira entre as árvores.
Aproximou-se a pouco e pouco da beira da clareira. A única coisa que quisera durante toda a caminhada fora sair daquele bosque cansativo, mas uma vez na clareira, sentiu-se nervosa. No entanto, Lauren não acreditava nos nervos. Ignorou essa sensação e olhou para a construção com o sobrolho franzido. Era uma casa feita com troncos ordenadamente entrelaçados e saía fumo pela chaminé… e não havia o mínimo motivo para uma citadina convencida como ela sentir um aperto no coração ao vê-la, como se tivesse passado toda a vida perdida em bosques de madeira e betão e à procura de uma casinha acolhedora precisamente como aquela.
Naturalmente, era ridículo e esfregou o peito sem querer, como se, assim, pudesse fazer alguma coisa para aliviar a pressão. Não acreditava nos contos de fadas, mas lera-os e as casinhas que pareciam perfeitas no meio de bosques perigosos… Não se lembrava da história, mas, normalmente, uma casa no bosque levava diretamente a bruxas, feitiços e lobos que mostravam os dentes…
Então, percebeu que o alpendre da casinha não estava vazio como pensara, que uma das sombras era um homem e que estava a olhar fixamente para ela. O coração acelerou e pareceu-lhe que podia deitá-la ao chão ali mesmo, onde o bosque lutava para vencer a clareira.
No entanto, não estava disposta a ceder, fosse quem fosse o homem.
– Dominik James?
Perguntou-o com decisão e clareza, como se não estivesse alterada… porque não devia estar. Embora estivesse completamente quieta, sentia que as pernas não estavam tão convencidas como ela de que tinham de a segurar, sobretudo, quando o coração continuava a acelerar.
O homem saiu da sombra do alpendre para a luz que iluminava a clareira, mas só conseguiu fazer com que o seu coração enlouquecesse ainda mais.
Era alto, muito alto, e com esse tipo de ombros muito largos que faziam com que as suas mãos quisessem… fazer coisas que se recusava a imaginar. Tinha o cabelo escuro e denso, descuidado e demasiado comprido para o seu gosto, mas realçava-lhe o queixo firme e proeminente. Os lábios estavam fechados, embora fossem suficientemente carnudos para que algo a embargasse por dentro. Usava uma camisa de manga comprida que se colava ao peito formidável, umas calças escuras que lhe realçavam as coxas poderosas e umas botas que devia ter escolhido mais por serem práticas do que por serem bonitas.
No entanto, foram os seus olhos que fizeram disparar os alarmes. Eram cinzentos como uma tempestade, como os de Matteo. O cinzento dos San Giacomo, como tinham sido os de Alexandrina. Não precisava de se identificar para que ela soubesse com toda a certeza que estava a olhar para o herdeiro perdido dos San Giacomo… e não pôde entender porque sentiu um arrepio como se fosse um pressentimento. Desejou aproximar-se lentamente.
– O meu nome é Lauren Clarke…
Tentou recordar que devia ser eficiente e não estava a sê-lo naquele momento por causa de todas essas sensações que a embargavam.
– Trabalho para o Matteo Combe, o presidente e diretor-executivo das Indústrias Combe. Se não o conhece, o senhor Combe é, entre outras coisas, o filho mais velho da falecida Alexandrina San Giacomo Combe… e tenho motivos para acreditar que a Alexandrina também era a sua mãe.
Praticara-o, repetira-o várias vezes na sua mente e até o ensaiara naquela manhã à frente do espelho do quarto da estalagem. Não fazia sentido andar com rodeios e o melhor era ir diretamente à questão.
Esperara diferentes reações por parte dele. Podia negar tudo, podia ser arrogante ou podia expulsá-la. Previra planos alternativos para todas as situações, mas o homem que tinha à sua frente não disse nada e dirigiu-se para ela, obrigando-a a reparar que se mexia com uma elegância letal para o tamanho que tinha. Teve de suster a respiração e, quanto mais se aproximava, melhor conseguia ver a expressão da sua cara e dos seus olhos, que lhe pareceu de um sarcasmo brincalhão.
Não tinha nenhum plano alternativo para isso.
– A senhora Combe, que faleceu recentemente, incluiu-o no seu testamento. – Lauren fez um esforço para continuar. – O meu empregador quer que se cumpra o desejo da sua mãe, senhor James, e mandou-me aqui para que comece o processo.
Esse homem continuou sem falar. Abrandou quando se aproximou, mas limitou-se a olhar para ela atentamente. Olhou para ela de cima a baixo de uma forma que lhe pareceu insuportavelmente íntima e ela sentiu o calor que se apropriava dela.
Era como se lhe percorresse todo o corpo com as mãos, como se estivesse a verificar como o cabelo que apanhara num rabo de cavalo era suave e como o xaile que usava para combater o frio dos bosques húngaros era grosso. Olhava para as pernas dela, até àqueles sapatos tão bonitos como pouco práticos, e voltava a subir.
– O senhor Combe é um homem rico e importante.
Lauren mal conseguia manter o tom firme e autoritário de que tanto gostava quando aquele homem estava tão… perto e quando olhava para ela como se fosse um festim, não uma emissária.
– Não o digo porque não queira cumprir os compromissos que tem consigo, porque quer, digo-o porque a sua importância exige que ajamos com uma certa… sensibilidade.
De repente, apercebeu-se de demasiadas coisas. Dominik, tinha a certeza de que tinha de ser ele, tomara banho há pouco tempo. Conseguia ver alguma humidade no cabelo que ia de um lado para o outro como se tivesse vontade própria e, pior ainda, conseguia cheirar a mistura de sabonete e limpeza de um homem incorrigivelmente saudável. Fazia com que sentisse vertigens e sentiu-se convencida de era que por isso que o coração acelerava no peito.
O bosque esperava à volta deles. Não estava em silêncio, mas também não se ouvia o barulho tranquilizador da cidade, as conversas, o trânsito e os sons de todos esses seres humanos que fingiam não estar sozinhos, para que a distraíssem do olhar curioso, penetrante e inequivocamente cinzento daquele homem.
Se sentisse os nervos, teria dito que os seus estavam… alterados.
– Desculpe – continuou ela, quando estava tão alterada que ou dizia alguma coisa ou fugia. – Fala inglês? Não pensei em perguntar.
Ele esboçou um sorriso leve e esticou uma mão enquanto ela o observava, petrificada, por algum motivo que não conseguia entender.
Achou que ia tocar nela, acariciar-lhe a cara, passar-lhe a mão pelo cabelo ou percorrer-lhe o pescoço com esses dedos compridos e elegantes como vira que faziam num filme romântico e desatinado que ela se recusava a reconhecer que vira, mas não o fez. Sentiu uma desilusão lacerante quando tocou na beira do xaile como se estivesse a verificar a qualidade da lã.
– O que… está a fazer? – perguntou Lauren, sem a mínima esperança de manter uma atitude profissional.
Perdeu a força nas pernas e a voz não parecia a sua, era entrecortada e quebradiça.
Ele estava mais perto do que devia ter estado, porque ela tinha a certeza de que não conseguira mexer-se. Além disso, tinha a cabeça inclinada de uma forma que fazia com que tudo se mexesse por dentro… até ficar perigosamente imóvel.
– Uma rapariga loira e linda entra no bosque com pouco mais do que uma capa vermelha e resplandecente…
A sua voz era insinuante, como um feitiço que fazia com que voltasse a pensar em contos de fadas e não tinha a sua incredulidade em consideração. Era grave, cheia de matizes e com um sotaque leve que fazia com que o sangue bulisse, assim como outros cantos mais recônditos.
– O que achas que poderia acontecer? – acrescentou ele.
Então, baixou essa cabeça espantosamente masculina e beijou-a.
Capítulo 2
Estava a beijá-la. Pelo amor de Deus, estava a beijá-la!
Entendia-o num aspeto racional, mas não fazia sentido. Sobretudo, porque o que estava a fazer com a boca não se parecia nada com os beijos que imaginara ou de que ouvira falar.
Passava-lhe a língua pelos lábios, tentava-a e seduzia-a ao mesmo tempo para que se abrisse… para ele.
Algo que, naturalmente, não tencionava fazer… até ceder e deixar fugir um som do mais profundo da garganta que a fez tremer.
Então, essa tentação perversa que era a sua língua entrou na boca dela, entrou nela e tudo se perturbou.
Talvez fosse o ângulo, o seu sabor suculento e desmedido, essa mestria indolente ao beijá-la, ao afundar-se, ao mexer-se…
Quando se afastou, continuava a esboçar um sorriso e fora ela que ficara a tremer, embora se garantisse que era de raiva e de indignação.
– Não pode… andar por aí a beijar as pessoas!
Ele sorriu mais abertamente.
– Vou ter isso em conta se alguma outra personagem de contos de fadas sair do bosque.
Lauren corou. Ardiam-lhe as faces, ardia por dentro e o corpo derretia-se. Os mamilos estavam inchados e um desejo húmido brotava entre as pernas… e envergonhava-a profundamente.
– Não sou uma personagem de um conto de fadas.
Lauren arrependeu-se assim que o disse. Porque haveria de participar nesse disparate, fosse o que fosse? No entanto, não conseguia evitá-lo.
– Os contos de fadas não são reais e também não quereria ter nada a ver com eles, mesmo que fossem.
– É uma pena. O que são os contos de fadas senão um compêndio de todas as tentações da humanidade? Fantasias, imaginações sombrias…
Lauren pensou que não havia nenhum motivo para que sentisse esse nó na garganta nem para que tivesse de engolir em seco…
– Tenho a certeza de que o trabalho de algumas pessoas, ou falta dele, lhes permite dedicar o tempo a pensar nos méritos dos contos infantis – replicou ela, num tom que ela própria sabia que era muito pedante –, mas receio que o meu trabalho seja mais adulto.
– Claro, não há nada tão adulto como fazer o que outros ordenam.
Lauren sentia-se deslocada e era algo que nunca lhe acontecia. Sentia os lábios inchados, mas não queria tocar-lhes para verificar. Não queria dar-lhe essa vantagem, visto que lhe indicaria que era vulnerável e isso era excessivo. Na verdade, era intolerável que tivesse alguma vulnerabilidade.
– Ninguém pode viver numa cabana num bosque e conservar a prudência.
Se esperara que olhasse para ela com fúria, teve de ficar com essa vontade, porque se limitou a continuar a olhar fixamente para ela com esse sorriso e esse brilho prateado nos olhos que a derretia por dentro.
– O teu estalajadeiro avisou-me de que estavas a caminho.
Recuou um pouco e ela sentiu-o tanto que ficou mais humilhada. Tinha alguma coisa na forma de se mexer que fazia com que quisesse aproximar-se, com que quisesse esticar as mãos e…
Naturalmente, não o fez. Cruzou os braços para o conter e conter-se ao mesmo tempo e tentou olhar para ele com o sobrolho franzido como se, assim, pudesse expulsar todas essas sensações tão incómodas.
– Poderias ter-te poupado o incómodo e o passeio – estava a dizer ele. – Não quero saber do teu patrão rico e, efetivamente, sei quem é. Podes ficar tranquila. Não estou interessado nele, na mãe ou no testamento de pessoas desmesuradamente ricas que, provavelmente, teria odiado se as tivesse conhecido.
Lauren sentiu-o como uma traição, quando não devia ter sentido nada. Não era pessoal. Ela não tinha nada a ver com as famílias Combe e San Giacomo, era apenas uma empregada e agradecera-o muitas vezes, porque bastava o contacto com os muito ricos e conhecidos para estar agradecida com o que tinha e com o facto de o ter conseguido sem ter tido de suportar a observação dos outros ou o peso do passado.
No entanto, irritava-a que aquele homem rejeitasse o que lhe correspondia… e sentia um formigueiro nos lábios. Conseguia recordar tão vividamente como a beijara que conseguia saborear outra vez a sua virilidade implacável. Tudo isso se misturava e formava um nó que a embargava.
– O meu patrão rico é o seu irmão – recordou-lhe ela, num tom mais cortante do que o necessário. – Não se trata de dinheiro, trata-se de família.
– Uma família muito rica – indicou Dominik, com um olhar duro –, e que, para começar, não me quis. Acho que vou poupar-me uma reunião cordial organizada devido ao capricho de uma mulher morta.
Lauren segurou-lhe o pulso quando lhe tocou no queixo com uma mão. Devia tê-la afastado com uma palmada, mas era tudo meloso, espesso e lento e ela só sentia como a agarrava, como lhe agarrava o queixo com uma espécie de certeza que fazia com que tudo vibrasse por dentro, em contraste com a firmeza da sua mão. Suavizou-se, derreteu-se…
– Gosto do sabor – murmurou ele, num tom sarcástico, letal e insuportável, embora ela não se afastasse. – Não sabia que uma loira tão cortante podia ter um sabor tão doce.
Quando as suas palavras chegaram por completo ao interior desconhecido e palpitante dela, ele já se virara e já se dirigia para a cabana.
Lauren achou que se odiaria para sempre pelo ardor que sentia nos olhos, porque não se lembrava de ter permitido que brotassem umas lágrimas de fúria.
– Vamos ver se o entendi bem.
Disse-o atrás dele e, certamente, não reparou na sua musculatura nem imaginou que as mãos dele a percorriam de cima a baixo para se maravilhar com o seu corpo…
– O estalajadeiro avisou-o e isso significa que sabia que vinha. Também lhe disse como estava vestida para que pudesse contar essa história do Capuchinho Vermelho? Isso torna-o o Lobo Mau, não é?
Deu por si a segui-lo através da clareira como se não a tivesse alterado e isso não podia ser prudente. Como se não a tivesse beijado até quase perder os sentidos… Contudo, não estava a pensar nisso porque não podia fazê-lo. Se pensasse nisso, não pensaria em mais nada.
– Há todo o tipo de lobos nos bosques da Europa.
A sua voz pareceu mais sombria, sobretudo, quando se virou e voltou a olhar para ela de cima a baixo… e teve o mesmo efeito do que antes. Olhar para ela era como observar uma tempestade.
– Mau é uma descrição como outra qualquer – acrescentou ele.
Percebeu que ele não respondera à pergunta.
– Porquê?
Lauren parou a meio metro dele, mais ou menos, e pôs as mãos na cintura com o xaile aberto. Aborreceu-se com essa parte de si própria que se emocionou quando ele olhou para a corrente delicada de ouro que lhe pendia do pescoço e para a blusa de seda que tinha por baixo. Os seios e os mamilos endureceram, mas devia ser uma reação ao frio repentino, não a ele…
Passara anos a usar sapatos que lhe recordavam que era uma mulher e com a esperança de que esse dia fosse o dia em que Matteo a via como uma, para variar. Nunca o fizera nem o faria.
Aquele homem, pelo contrário, fazia com que se sentisse disparatadamente feminina sem se esforçar.
Tentou convencer-se de que o que sentia era uma indignação absoluta, mas essa vertigem impedia-a de acreditar.
– Porque te beijei? – Lauren viu o brilho dos seus dentes, como se ele quisesse sorrir e se arrependesse no último momento. – Porque queria, Capuchinho Vermelho. Por que outra razão seria?
– Talvez me tenha beijado porque é um porco – acusou ela, com frieza. – Algo que costuma acontecer aos homens que perdem o domínio sobre si próprios.
O rosto dele refletiu uma espécie de prazer sombrio.
– Parece-me que misturou as histórias. Além disso, em qualquer caso, quando há porcos, também há bufos e, se não me engano… sopros. – Ele inclinou a cabeça como se quisesse recordar-lhe como era indómito e como estava afastado das experiências dela. – Estás a insinuar-te?
Sentiu uma labareda por dentro, mas não se deixou levar, não se deixou dominar pelas imagens do que ele poderia chamar «sopros».
– Muito engraçado – troçou ela, antes de se envergonhar ainda mais. – Não é de estranhar que um homem que vive numa cabana no bosque tenha tempo suficiente para mudar os contos de fadas ao seu gosto, mas não estou aqui por si, senhor James.
– Chama-me Dominik. – Ele sorriu, mas ela não se deixou enganar por esse sorriso. – Imagino que o senhor James fosse o meu pai, mas nunca conheci esse homem.
– Gosto da sua estratégia. – Lauren tentou outra tática antes de pensar no beijo. – Pôs-me no meu lugar, obrigada, e adoraria ir-me embora e contar ao meu patrão que o melhor que poderia fazer é não reconhecer o ermitão bárbaro que vive no bosque como o seu irmão perdido, mas receio que não possa.
– Porquê?
– Porque tanto faz porque está aqui e se é um bárbaro, um ermitão ou um patife que não sabe lidar com as pessoas. – Abanou uma mão como se não soubesse com que adjetivo ficar. – Se consegui localizá-lo, isso quer dizer que os outros também conseguirão e não serão tão agradáveis como eu. Serão jornalistas e paparazzi e, quando começarem a vir, não vão parar de o fazer. Vão rodear a cabana e transformar a sua vida num inferno. – Lauren sorriu de orelha a orelha. – É apenas uma questão de tempo.
– Passei toda a infância à espera que alguém viesse – replicou ele, com delicadeza, depois de um silêncio que a deixou nervosa. – Nunca veio ninguém. Vais perdoar-me se não acreditar que, agora, de repente, interesso a alguém.
– Quando era pequeno, era um erro ilegítimo. Foi o que o pai da Alexandrina San Giacomo escreveu sobre si, não é uma descrição minha – apressou-se a esclarecer ela. – Agora, é o herdeiro San Giacomo que devia ter sido sempre. É um homem muito rico, senhor James. Mais ainda, faz parte de uma linhagem muito antiga e ilustre.
– Enganas-te por completo – contradisse, com uma amabilidade que não enganou Lauren, pois viu a expressão implacável do seu rosto. – Sou um órfão, um ex-soldado e um homem que prefere estar consigo próprio. Se fosse a ti, voltava a correr para o homem que segura a tua trela e contava-lhe. – Então, os olhos dele deixaram escapar um brilho ameaçador. – E fazia-o já, como um cão obediente, antes que me esqueça do teu sabor e dar rédea solta ao meu mau feitio.
Fá-lo-ia com muito prazer. Se ser o cão de Matteo a livrasse daquele homem, adoraria sê-lo, mas não fora a tarefa que lhe tinham pedido.
– Receio que não possa fazê-lo.
– Não há alternativa, Capuchinho Vermelho. Já te dei a minha resposta.
Lauren percebia que falava a sério, que estava disposto a voltar para a cabana ridícula no meio do nada, a esquecer as suas origens e a fingir que não a encontrara. Sentiu um arrebatamento de um sentimento diferente e que não dizia nada de bom dela.
Não desdenharia a fortuna dos San Giacomo e tudo o que a acompanhava. Não gozaria com a ideia de ser uma herdeira desaparecida durante todo esse tempo. Era muito melhor do que a realidade crua, que tanto o pai como a mãe se casaram outra vez e que tinham umas famílias maravilhosas e novas de que gostavam muito mais do que dela, a lembrança de todas as más decisões que tinham tomado juntos.
Tinham-na passado de mão em mão sem vontade e com muito pouco carinho até, finalmente, ser maior de idade e lhes comunicar que podiam parar de o fazer. A verdade triste era que ela esperara que algum deles objetasse ou, pelo menos, fingisse, mas nenhum dos dois se incomodara em fazê-lo… e não achava que isso tivesse importado muito se tivesse sangue azul e uma fortuna repentina para amortecer o golpe.
– Esta notícia teria entusiasmado a maioria das pessoas – conseguiu dizer ela, sem ceder aos seus próprios sentimentos. – É quase como ganhar a lotaria, não é? Segue em frente com a sua vida, mas, de repente, descobre que é uma pessoa completamente diferente de quem pensava que era.
– Sou exatamente quem acho que sou. – Garantiu-o num tom tão ameaçador como o seu olhar. – Trabalhei muito para o ser e não tenciono desistir por causa dos remorsos de uma mulher morta.
– Mas eu não…
– Sei quem são os San Giacomo – interrompeu Dominik. – Acredita em mim, em Itália, senti a sombra deles e não quero ser um deles. Podes dizer isso ao teu patrão.
– Voltará a mandar-me cá e, se continuar a rejeitar-me, acabará por ser ele a vir. É o que quer? Quer ter a oportunidade de lhe dizer que não está interessado no presente que quer dar-lhe?
– É um presente ou é o que me correspondia por nascimento e não me permitiram reivindicar? – perguntou ele, olhando para ela com atenção.
– Seja o que for, não será nada se se fechar na sua cabana de madeira como se não estivesse a acontecer nada.
Riu-se. Não deitou a cabeça para trás nem deixou escapar uma gargalhada, só sorriu. Foi um sorriso fugaz que fez com que Lauren tivesse vontade de ouvir uma gargalhada real.
Podia saber-se o que estava a acontecer?
– O que não entendo é o teu empenho.
A sua voz foi como uma carícia nas costas e não ajudou imaginá-lo a fazer precisamente isso e a passar-lhe a língua pelo corpo enquanto lhe acariciava as ancas e… Teve de se sacudir levemente para franzir o sobrolho e voltar a concentrar-se nele.
– Sei que estiveste à minha procura. Demoraste semanas, mas perseveraste. Se, em algum momento, te passou pela cabeça que não queria que me encontrassem, isso não te parou… e aqui estás, sem que te tenha convidado.
– Se sabia que estava à sua procura – algo em que tinha de pensar bem porque parecia difícil sabê-lo quando estava naquela cabana rodeada de árvores –, porque não entrou em contacto comigo?
– Ninguém vive numa casinha no meio de um bosque da Hungria se quiser que o visitem e muito menos uns visitantes imprevistos. – O sorriso dele foi outra vez como uma faca afiada e perigosa. – Mas aqui estás…
– Faço muito bem o meu trabalho. – Lauren ergueu o queixo. – Na verdade, faço-o especialmente bem e, quando me dão uma tarefa, levo-a a cabo.
– Se te pedir para saltares, chegas à lua, não é?
Percebeu a brincadeira e sentiu vergonha, embora não entendesse. Não entendia nada daquilo.
– Sou a secretária pessoal dele, senhor James, e isso significa que o ajudo em tudo o que precisa. Vem com o posto, não é um defeito da minha personalidade.
– Posso dizer-te o que sei do teu empregador. – Dominik disse-o num tom indolente, como se fosse um jogo, mas ela sabia que não era. – É uma desonra, não é? É um homem que ama tanto essa família de que quer que faça parte que deu um murro ao amante da irmã no enterro do pai. Que rico exemplo! Não consigo entender porque não quero envolver-me com essas pessoas…
Fazia muito bem o seu trabalho. Teve de se recordar naquele momento, mas era verdade. Respirou fundo e expirou devagar enquanto tentava entender o que estava a acontecer.
Era evidente que aquele homem sentia rancor pelas pessoas que o tinham deixado num orfanato e até era compreensível. Supunha que era possível que não estivesse a desdenhar a oferta de Matteo, mas a oferta chegava demasiado tarde para ser importante. Também conseguia entender isso porque passara mais horas do que estava disposta a reconhecer a imaginar que os pais lhe suplicavam que lhes dedicasse o seu tempo e que ela os rejeitava.
Além disso, supunha que, se tivessem enviado um homem para o encontrar, Dominik teria encontrado uma forma de o incomodar, como faria com qualquer emissário enviado por quem o abandonara. Toda a história do beijo e dos contos de fadas era um jogo para a despistar, tal como as situações que ela imaginava com os seus pais.
Tinha de presumir que o facto de se recusar a envolver-se com os San Giacomo se devia a se sentir ferido nos sentimentos, mas, se havia alguma coisa que sabia sobre os homens, independentemente de serem ricos, poderosos ou impenetráveis, era que todos respondiam aos sentimentos feridos como se os próprios sentimentos fossem um ataque e como se qualquer pessoa que estivesse perto fosse um cúmplice.
– Entendo a sua posição – Lauren tentou parecer conciliadora –, digo-o sinceramente, mas, mesmo assim, quero que vá ver a sua família. O que tenho de fazer para o conseguir?
– Primeiro, passeias pelo bosque ameaçador com uma capa vermelha. Depois, deixas que o Lobo Mau te encontre e descubra o teu sabor. Agora, fazes uma oferta… aberta? Que olhos tão grandes que tens, Capuchinho Vermelho.
Não havia nenhum motivo para tremer por isso, como se ele estivesse a fazer uma previsão em vez de estar a jogar esse jogo a que já dedicara demasiado tempo e atenção.
No entanto, o bosque rodeava-os, o vento soprava entre as árvores e a vila estava longe dali… e ele já a beijara.
O que estava a oferecer-lhe, questionou-se, embora não respondesse.
Quando olhava para Dominik James, sentia-se como se não se conhecesse. Fazia com que se sentisse trémula e nervosa, como se o seu corpo fosse de outra pessoa. Fazia com que a língua não funcionasse como devia. Não gostava de nada disso, não gostava, mas também não se virou para se ir embora.
– Tem de haver alguma coisa que o convença a ir a Londres e a aceitar o lugar que lhe corresponde na família San Giacomo – insistiu ela, tentando parecer tranquila e racional. – Evidentemente, não é o dinheiro ou não teria desperdiçado a oportunidade de ter a sua própria fortuna.
– Não pode tentar-me com esse tipo de poder – indicou ele, encolhendo os ombros.
– Porque, naturalmente, prefere brincar. Finge que não se interessa pelo poder, mas usa todo o poder que tem para fazer o contrário do que se lhe pede.
Olhou para ela com os olhos semicerrados e ela tremeu por dentro e, sentindo um certo pânico, interrogou-se se não devia ter dito isso. No entanto, não gritou nem a ameaçou, limitou-se a olhar para ela durante um instante, até sorrir com indolência. Foi um sorriso afiado que a deixou com falta de ar, embora não pressagiasse nada de bom para ela, para o coração que acelerara e para todas as coisas que queria fingir que não sentia, como esse calor que a consumia por dentro.
– Claro que sim, Capuchinho Vermelho – reconheceu ele, em voz baixa. – Entra, senta-te junto da lareira e convence-me, se conseguires.
Capítulo 3
Dominik James passara toda a vida à procura do seu lugar no mundo. Tinham-lhe dito que os seus pais tinham morrido, que era órfão, e ele acreditara. Ao princípio. Isso explicava as suas circunstâncias na vida e, quando era criança, gostara das explicações que davam sentido ao orfanato a que ele chamava casa.
No entanto, quando tinha dez anos, a pior das freiras dissera-lhe outra coisa quando o surpreendera a fazer uma travessura. Dissera-lhe que a mãe não o queria e que ninguém podia reprová-la, porque era um menino desagradável e trapaceiro e ninguém o amaria.
Dominik passara os dez anos seguintes a demonstrar a todos que a mãe, fosse quem fosse, tivera motivos de sobra para se livrar dele. Fugira do orfanato e acabara em Espanha, indo onde lhe apetecia e roubando o que precisava. Isso parecera-lhe a felicidade em comparação com os castigos corporais das freiras misturados com uma devoção depravada.
Depois, voltara para Itália e alistara-se no exército, mais para se castigar do que por patriotismo. Esperara que o mandassem para alguma guerra horrível onde poderia morrer em serviço por Itália e não pelo seu próprio niilismo. Não esperara encontrar disciplina e respeito, um lugar no mundo e as ferramentas para se tornar o homem que aquele lugar merecia.
Saíra com vinte e tal anos. Depois, passara anos a fazer, no setor privado, o que aprendera no exército, até vender a empresa de segurança por uma boa fortuna.
Já adulto e com recursos, superara-se consideravelmente. Tirara um curso universitário para ampliar os seus conhecimentos e para se certificar de que conseguia gerir a sua fortuna como queria.
Não precisava da fortuna da sua família perdida há tanto tempo. Tinha uma própria. A empresa de segurança informática que criara quase por acaso transformara-o num homem muito rico e vendê-la tornara-o multimilionário. Desfrutara de construir a partir desses alicerces e de ampliar os seus horizontes económicos à sua vontade.
No entanto, gostava de fingir que era um ermitão num bosque da Hungria porque podia e porque, na verdade, gostava de ter um muro, um bosque, melhor dizendo, entre ele e tudo o que havia lá fora. Gostava de manter uma certa distância do mundo que o tratara com tanta indiferença, do mundo que o tornara amargo por causa da raiva e da fúria.
Naquele tempo, preferia as sombras frescas, as árvores silenciosas e a tranquilidade da sua própria companhia. Não havia nada mais brilhante do que a luz do sol que se filtrava entre os ramos das árvores e não havia fúria.
As loiras incisivas com olhos como o caramelo que tinham um sabor mágico… avivavam-no com avidez, faziam com que se sentisse como uma versão muito antiga de si próprio, uma que não quisera ressuscitar.
Devia tê-la expulsado assim que a vira e, pelo contrário, convidara-a.
Foi à frente dele com esses sapatos ridículos e barulhentos, deixando muito claro que não era o tipo de mulher que conseguiria aproximar-se silenciosamente de alguém e muito menos quando chegaram ao chão de madeira do alpendre. Arrependeu-se quase imediatamente de ter deixado que o precedesse porque, embora o xaile cobrisse quase todo o corpo esbelto e vistoso, não conseguia esconder o movimento compassado das suas ancas. Nunca quisera tanto manter o ritmo, mas não conseguia desviar o olhar.
Quando chegou à porta, uma porta pesada de madeira com aplicações de ferro que ele próprio fizera porque talvez sempre se tivesse considerado um lobo mau, adiantou-se, empurrou-a com uma mão e convidou-a a entrar.
No entanto, também foi um erro, porque já conhecia o seu sabor e tê-la tão perto… Queria lamber-lhe a nuca, queria segurar aqueles seios arredondados que vislumbrara por baixo da blusa simples que usava, queria pôr a cara entre as suas coxas e deixar-se embriagar pelo seu calor doce.
No entanto, limitou-se a segurar-lhe a porta como se fosse outro homem, um dócil e civilizado, não um ermitão numa cabana, o que fingia ser.
Observou-a enquanto entrava e viu como estava rígida, como se receasse que alguma coisa pudesse precipitar-se sobre ela. No entanto, a cabana fora feita segundo as suas instruções para que fosse acolhedora e caseira. Era o retiro que não tivera quando era criança e não sabia porque deixara que aquela mulher entrasse, quando mais ninguém o fizera. Embora preferisse não o analisar muito atentamente.
– Bela surpresa… – murmurou ela, enquanto olhava para os tapetes macios e para as poltronas de couro que havia à frente da lareira. – Para ser sincera, esperava algo mais parecido com uma… barraca.
– Uma barraca.
– Não quero ofender – continuou ela, embora fosse mentira. – Ninguém espera que um ermitão viva com tanto esplendor, pois não?
– Já estou a arrepender-me da minha hospitalidade…
Olhou à volta e tentou ver a cabana com os olhos de alguém como Lauren, uma citadina refinada com o ar de superioridade das londrinas. Naturalmente, conhecia o modelo, embora tivesse feito o possível para se afastar dessas pessoas. Os sapatos eram um sinal muito revelador. Eram caros e não serviam para nada, eram apenas uma declaração de princípios. Queria que todos os que os vissem se questionassem como conseguia andar com eles ou quanto lhe tinham custado… ou que se perdessem no mar da inveja.
Só se interrogou o que o facto de os sapatos serem a sua principal forma de expressão indicava dela.
Também se questionou que conclusão estaria a tirar daquela cabana que era o seu único lar. Não sabia o que via, só sabia o que quisera que fosse.
Os tetos altos, porque se cansara há muito tempo de ter de se encurvar para entrar nos sítios; os tapetes quentes, porque estava cansado de ter frio; a sensação de amplitude que fazia com que a casa parecesse muito maior do que era, porque não ia voltar a viver em barracas.
A sala tinha uma lareira de pedra num extremo e a cozinha funcional no outro. Além disso, o quarto, quase tão grande, tinha uma cama onde cabiam duas pessoas como ele porque não se esquecia daquelas camas minúsculas do orfanato que tivera de fingir que agradecia.
– É linda… – comentou ela, ao fim de um instante e com uma certa surpresa refletida na voz. – Muito… confortável, mas masculina.
Dominik apontou com o queixo para um dos cadeirões que havia à frente da lareira. Não sabia porque havia dois se não tinha convidados, mas sempre imaginara a cabana perfeita com uma lareira na sala principal e duas poltronas confortáveis de couro como aquelas… e ali estavam.
Teve uma sensação muito estranha quando Lauren se sentou numa, como se já tivesse antecipado esse momento, como se a poltrona tivesse passado todo aquele tempo à espera dela.
Abanou a cabeça como se quisesse apagar essa imagem. Não sabia de onde saíra uma ideia tão desatinada, mas sabia que não gostava dela.
Sentou-se à frente dela com as pernas esticadas entre os dois. Viu que ela engolia em seco como se tivesse a garganta seca e poderia ter-lhe oferecido uma bebida, mas não o fez.
– Achava que querias convencer-me a fazer o que queres. É possível que as coisas se façam de forma diferente no teu país, mas eu não começaria por insultar a pessoa que quero convencer.
Ela pestanejou e foi quase como se se tivesse esquecido da razão por que estavam ali. Finalmente, tirou o xaile e pôs as mãos no colo. Dominik olhou para ela com avidez, como se nunca tivesse visto uma mulher na sua vida. Era delicada e tinha as curvas que tinha de ter onde tinha de as ter. O cabelo brilhava como o ouro à luz do fogo e o rabo de cavalo caía por um ombro. Tinha uma corrente de ouro ao pescoço, exatamente onde ele queria passar os dentes até ela tremer. Os seus seios pediam que os acariciassem e não lhe custaria nada, só teria de se ajoelhar e acariciá-la.
Imaginou-se a fazer precisamente isso e ela complicou um pouco mais as coisas quando mordeu o lábio inferior carnudo, como ele queria fazer.
No entanto, Dominik afundou-se mais na poltrona, apoiou a cabeça num punho e não fez caso ao que a parte mais dura e ávida da sua anatomia lhe exigia.
– Seria um prazer convencê-lo. – Pareceu-lhe ouvir um certo tom rouco na sua voz. – Achava que viveria com uma cama no chão, mas, evidentemente, gosta dos confortos. Isso indica-me que, embora goste da solidão, não se esconde do mundo ou não completamente. Então, o que é preciso para o convencer a voltar a esse mundo?
– Ainda tens de me explicar porque é algo que devia querer fazer ou sequer pensar nisso.
– Por exemplo, poderia comprar cem cabanas e espalhá-las por todos os bosques da Europa.
– Já tenho uma – replicou ele, encolhendo os ombros.
E propriedades por todo o mundo, mas não lhe disse.
– Poderia equipar esta cabana com… estilo – propôs ela, num tom desenvolto. – Torná-la moderna e acessível. Imagine as possibilidades!
– Nunca disse que vivia desamparado, pois não? Acho que és tu que pensas que esta cabana é da idade de pedra. Garanto-te que tenho todo o acesso de que preciso ao mundo moderno.
Já para não falar da sua outra cabana, que não era apenas uma cabana e que era na montanha e contava com a tecnologia por satélite mais moderna, mas isso também podia continuar a ser um pequeno segredo.
– Podia comprar tudo o que quisesse.
– Só me ofereces dinheiro – replicou ele, ao fim de um instante. – Já te disse que tenho dinheiro, mas o facto de insistires em concentrar-te nesse assunto diz-me muito sobre ti. Esse irmão que tenho não te paga bem?
Ela ficou rígida e franziu ligeiramente o sobrolho.
– O senhor Combe sempre foi consideravelmente generoso comigo.
Pareceu-lhe que o rubor das suas faces era… interessante.
– Isso não me indica se te paga o que mereces ou não. Qual é o preço a pagar pela lealdade de uma mulher que, evidentemente, não gosta da natureza, mas que entra num bosque pré-histórico e na guarida de um desconhecido perigoso?
Lauren ergueu o queixo, algo que não lhe pareceu tão fascinante como a ele.
– Não sei porque o meu salário haveria de ser da sua incumbência.
– Fizeste com que tudo seja da minha incumbência quando apareceste à porta da minha casa. Porque não me dizes o que realmente fazes aqui?
Lauren corou ainda mais e franziu ainda mais o sobrolho. Além disso, parecia impossível endireitar-se mais na poltrona, mas ela conseguiu.
– Já lhe disse porque estou aqui, senhor James.
– Tenho a certeza de que, na vila, te contaram que vou lá uma vez por semana, no mínimo, para me abastecer. Podias ter esperado lá, entre confortos e com um serviço de quartos. Não tinhas de atravessar o bosque para me encontrar e muito menos com esses sapatos.
Ela pareceu quase orgulhosa, como se ele tivesse chumbado num exame ou uma coisa dessas.
– Não tem de se preocupar com os meus sapatos. – Cruzou as pernas para que toda a atenção se dirigisse para os sapatos. – Na verdade, sinto-me muito confortável.
– O facto de os achar confortáveis ou de querer que acredite nisso não significa que o sejam. Além disso, também não faz com que sejam práticos para uma caminhada por um caminho de terra.
O olhar dela era como uma sobremesa doce e peganhenta e queria comer até ao fim. Sobretudo, quando esses olhos o observavam com um brilho que lhe indicava que se achava superior a ele. Embora, claro, o que não sabia era que isso lhe parecia divertido… e que o endurecia mais ainda.
– Segundo a minha experiência, quem se preocupa com os meus sapatos tenta desesperadamente encontrar uma forma de desprezar o que tenho para dizer. Se nos concentrarmos nos meus sapatos, podemos permitir-nos todo o tipo de generalidades sobre como sou, não é? Vou contar-lhe um pequeno segredo, gosto de sapatos bonitos… E é a única coisa que indicam sobre mim.
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