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DUELO DE CORAÇÕES

Barbara Cartland

Barbara Cartland Ebooks Ltd

Esta Edição © 2016

Título Original: "A Duel of Hearts"

Direitos Reservados - Cartland Promotions 2016

Capa & Design Gráfico M-Y Books

m-ybooks.co.uk

CAPÍTULO I 1821

Caroline açoitou os cavalos para que o faetonte ganhasse maior velocidade.

—Que horas são?— perguntou.

Sir Montagu tirou do bolso do colete o relógio de ouro. Havia luar, mas as árvores que sombreavam a estrada e os balanços da carruagem impediram-no de ver os ponteiros imediatamente.

—Três minutos para as nove— informou alguns segundos depois—, estamos indo melhor do que eu esperava!

—Não seja tão otimista, sir. Você escolheu o trajeto mais longo, embora haja menos tráfego nesta estrada.

—Engana-se. Uso muito este caminho e asseguro-lhe que ganhamos algumas milhas seguindo por aqui. Lady Rohan deve ter ficado intrigada quando nos perdeu de vista.

—Acha que chegaremos à casa de sua irmã antes de lady e lorde Rohan?

—Não tenho a menor dúvida. Enquanto aqueles dois se julgam na dianteira, nós estamos quase chegando à casa de minha irmã.

—Vai ser divertido ver a expressão de espanto dos dois quando, ao chegarem à casa de sua irmã, nos encontrarem esperando por eles— disse Caroline, muito eufórica—, quantas milhas ainda faltam?

—Quatro, suponho. Logo adiante retomaremos a estrada principal— informou sir Montagu.

—E estaremos bem adiante da carruagem de lady Rohan!— Caroline acrescentou com entusiasmo.

Avistando uma curva ela refreou um pouco os cavalos. A viagem já durava quase duas horas e os alazães não se mostravam cansados. Vibrando de alegria, Caroline reconheceu que sir Montagu não havia exagerado ao afirmar que aqueles belos puros- sangues eram os mais velozes de Londres.

Após a curva uma vila surgiu à vista, banhada pelo luar. Ao redor de um terreno gramado viam-se algumas casinhas. Mais além estava uma estalagem toda iluminada. Sobre a porta da frente uma tabuleta balançava produzindo estalidos. Vendo que mais adiante se estendia a estrada principal, Caroline ergueu o chicote mas o cavalariço, sentado no banquinho traseiro do faetonte, gritou, alertando-a:

—Desculpe, milady, mas há alguma coisa errada com o eixo da roda esquerda.

—O que poderia ser?— Caroline indagou, consternada—, nada notei de errado.

—Ouvi um barulho esquisito, milady— o rapazinho insistiu.

—Se parar um pouco posso dar uma olhada nessa roda.

—Oh, isto é de acabar com a paciência de um santo!— Caroline desabafou, estacionando diante da estalagem—, depressa, garoto, veja o qual é o problema. Posso jurar que você está imaginando coisas.

O cavalariço saltou agilmente do banquinho, sir Montagu também desceu da carruagem e ambos foram examinar a roda em questão.

—Está tudo em ordem, não é mesmo?— Caroline perguntou, ansiosa.

—Lamento dizer, mas o rapaz tem razão. O eixo está rachado—, sir Montagu respondeu—, será perigoso continuarmos a viagem.

—Que falta de sorte!— Caroline reclamou.

—Acalme-se. Por que não esperamos na estalagem, enquanto alguém conserta a roda?— sir Montagu sugeriu.

—Logo agora que estamos quase chegando, tinha de acontecer uma coisa aborrecida como esta?— Caroline protestou ao descer.

—Pode ser que o conserto não demore mais que alguns minutos. Vamos, Caroline eu a acompanho ao interior da estalagem. Já estive aqui algumas vezes e afirmo que é um lugar agradável. Podemos tomar um pouco de vinho. Minha garganta está seca.

—Está bem— Caroline suspirou—, mas, por favor, exija que consertem a roda o mais rapidamente possível.

Sir Montagu voltou-se para cavalariço e ordenou-lhe:

—Vá depressa, rapaz, conduza o faetonte até as cavalariças, veja o que pode ser feito e volte para nos dizer quanto tempo devemos esperar.

O interior da estalagem era bem limpo. No salão, o fogo ardia na grande lareira, criando uma atmosfera de aconchego. Apenas um homem se achava sentado diante do fogo, com as pernas esticadas, tomando vinho.

Assim que viu o casal entrando empertigou-se na cadeira, e ergueu as sobrancelhas numa expressão de espanto.

Ao vê-lo, Caroline notou que era jovem, tinha olhos e cabelos negros, estes penteados no último estilo. Vestia-se no rigor da moda e no elegante casaco verde-oliva os botões dourados brilhavam. Era, sem dúvida, um dândi. As grossas sobrancelhas, quase se unindo sobre o nariz, comprometiam um pouco sua beleza, emprestando-lhe um ar de permanente carranca. Os lábios cheios, ligeiramente caídos nos cantos da boca, davam a quem o observasse a impressão de que ele encarava a vida de modo zombeteiro.

—Sente-se perto da lareira— sir Montagu sugeriu a Caroline—, vou pedir uma garrafa de vinho.

Nesse instante o jovem dândi levantou-se.

—Reversby!— exclamou—, o que faz aqui?

O tom de voz e sua expressão indicaram que a presença do recém-chegado não lhe era agradável.

—Não vejo razão para responder à sua pergunta— disse sir Montagu secamente— por acaso você comprou este lugar?

Caroline sentiu-se constrangida. Lembrando-se de que não ficava bem estar àquela hora numa estalagem, com um homem, abaixou a cabeça, esperando que o chapéu lhe esconde sse o rosto.

Ficou aliviada ao ouvir uma voz feminina às suas costas, perguntando-lhe:

—Vossa Senhoria não deseja subir e aguardar lá em cima?

—Sim, obrigada.

A proprietária, senhora de aparência agradável, pegou uma vela e conduziu Caroline ao primeiro andar.

—Aqui ficará à vontade, milady. E o melhor quarto que temos. Raramente é usado, mas quando recebemos a mensagem de sir Montagu, esta manhã, fizemos questão de deixar o quarto bem limpo, impecável, além de arejado. As plumas de ganso do colchão foram trocadas na última festa de São Miguel.

A mulher aproximou-se da enorme cama com dossel para exibir o colchão confortável e volumoso. Da porta, Caroline a observava com os olhos arregalados e cheios de espanto.

—A senhora disse que recebeu a mensagem de sir Montagu pela manhã?

—Sim, milady. Um cavalariço chegou por volta das onze dizendo que sir Montagu passaria a noite aqui com a esposa. Ele é um cliente antigo, mas não sabíamos que se havia casado. Oh, seu marido é um autêntico cavalheiro. Aceite minhas felicitações, milady.

—Obrigada…

O tom de voz quase inaudível de Caroline fez a mulher dizer depressa:

—Oh, está cansada, milady e eu aqui, tagarelando, quando afinal devia estar a providenciar-lhes o jantar. Por favor, descanse um pouco. Quando estiver pronta para descer, toque a campainha e virei buscá-la.

—Obrigada— Caroline repetiu.

Assim que a proprietária saiu, fechando a porta, Caroline ficou alguns segundos parada, trêmula, tentando refletir. Então, sir Montagu havia planejado tudo! A história do eixo quebrado não passara de uma encenação e ela, idiota, se deixara enganar.

De início, não deveria ter concordado com a aposta. Agora não duvidava que até a corrida fizera parte do plano de sir Montagu para trazê-la àquela estalagem.

Confusa e amedrontada, Caroline reconheceu sua culpa. Mal conhecera sir Montagu Reversby fora avisada de que ele não era pessoa confiável. Obstinada como era, decidira aceitar sua companhia e agora, premeditadamente, ele a trouxera àquele lugar.

Lady Caroline Faye estava sendo apresentada à sociedade pela madrinha, a Condessa de Bullingham, porque sua mãe, Marquesa de Vulcan, não se sentia bem. A honorável lady Edgmont aceitara ser a chaperon da prima debutante.

A magnífica mansão Vulcan, na Grosvenor Square, fora aberta para a temporada. Muito zelosa, a Condessa mantinha severa vigilância sobre Caroline.

Certa noite, ao voltar com a afilhada e lady Edgmont de um baile realizado na Devonshire House, dissera:

—Detesto sir Montagu Reversby e acho que você deve evitá-lo, Caroline.

—Sir Montagu é muito persistente— Caroline respondera, sorrindo—, ele já me propôs casamento três vezes, imagine!

—Propôs-lhe em casamento? Não me diga?— a voz da Condessa soara alta e aguda—, que ousadia! Imagine se ele merece uma esposa como você, a debutante mais bela da temporada e a maior herdeira do momento.

—Ele me diverte. Sir Montagu não é homem de desistir facilmente.

—Um homem como ele jamais será recebido em minha casa— replicara a Condessa— propôs-lhe casamento! Nem quero pensar no que seu pai irá dizer quando souber disso, minha querida.

Caroline achara graça. Podia imaginar a gélida indiferença do Marquês ao afastar do seu caminho o atrevido pretendente à mão da filha. Na verdade, ela não levava sir Montagu a sério e sua insistência a divertia. Também se admirava ao vê-lo em todos os bailes e festas da temporada.

De um modo ou de outro, sir Montagu obtinha convites e era recebido nas casas mais aristocráticas de Londres.

A falta de tato da madrinha em criticar sir Montagu e, ao mesmo tempo, em enaltecer o Conde de Glosford irritavam Caroline que considerava este último aborrecido ao extremo. O Conde, herdeiro do Duque de Melchester, sem dúvida um partido e tanto do ponto de vista matrimonial, também já lhe propusera casamento. Mas ela não suportava sua afetação e seus modos afeminados.

Dias atrás o Conde de Glosford a deixara irritada ao fazer críticas, a sir Montagu.

—Esse indivíduo insignificante não está à sua altura, Caroline— ele dissera—, Você devia ignorá-lo.

—Obrigada, milorde, mas sei julgar as pessoas bem melhor do que Vossa Senhoria julga cavalos— Caroline retrucara.

A resposta atingira o Conde em cheio. Nas últimas semanas toda a sociedade zombava de Glosford por ter pago quinhentos guinéus por um cavalo que fora dopado para a venda. Talvez para provocar a madrinha e o Conde, Caroline acabara concordando com a corrida de carruagem proposta por sir Montagu. Ele havia dito:

—Rohan se vangloria de possuir os cavalos mais velozes e assegura que sua esposa conduz uma carruagem melhor do ninguém. Fizemos então uma aposta nos seguinte termos, lady Rohan conduzirá sua carruagem puxada por uma parelha de cavalos cinzentos e a lady que eu escolher conduzirá meu faetonte puxado por meus alazães. A corrida será de Londres até a casa de minha irmã, em Sevenoaks. Caberá à vencedora o prêmio de mil guinéus.

—Você está sugerindo que eu conduza seu faetonte?— Caroline indagara com os olhos brilhando de entusiasmo.

Conhecia os incomparáveis alazães de sir Montagu e nada lhe agradaria mais do que derrotar lady Rohan, uma senhora insuportável que se vangloriava de tudo o que fazia e julgava-se perfeita.

—Não conheço outra pessoa capaz de vencer lady Rohan— sir Montagu dissera, lisonjeiro.

Por um instante Caroline ficara refletindo. Sabia que não era de bom tom uma jovem lady aceitar uma corrida por dinheiro. Muito menos lady Caroline Faye, filha do importante Marquês de Vulcan. Também não poderia sair de carruagem com um cavalheiro sem uma dama de companhia, mas a tentação era grande.

—Sei realmente o que a preocupa— sir Montagu interrompera-lhe os pensamentos—, ninguém saberá quem escolhi para desafiar lady Rohan. Sua identidade só será revelada depois da corrida e esta será à noite.

—Impossível. Minha prima, lady Edgmont, é uma chaperon cuidadosa e não me deixará sair de casa à noite, sozinha— Caroline argumentara.

—Pensei nisso e me ocorreu que você pode deixar um bilhete dizendo que saiu para encontrar-se com algumas amigas e estará na companhia de lady Rohan— sir Montagu havia sugerido.

O entusiasmo de Caroline era grande. Não podia desprezar a oportunidade de vencer lady Rohan que se vangloriava de ser imbatível ao conduzir uma carruagem.

Sim, valia a pena correr o risco de deixar a madrinha e a prima zangadas. Por certo teria problemas depois da corrida, mas ela sempre fora destemida. Erguera a cabeça com altivez ao responder:

—Aceito, desde que essa corrida seja mantida em segredo.

—Juro não dizer uma palavra— havia sido a resposta pronta de sir Montagu.

Agora tudo estava claro, Caroline pensou. Não havia corrida nenhuma e provavelmente sir Montagu nem tinha irmã morando em Sevenoáks. Tudo fora um simples ardil para trazê-la àquele lugar, onde passariam a noite como marido e mulher. O preço do silêncio dele seria ambos anunciarem o noivado.

Um calafrio percorreu o corpo de Caroline. Só então passou a considerar que havia algo desagradável e untuoso em sir Montagu. Fora tola demais em dar-lhe atenção e aceitar seus galanteios. Achava divertido provocar os outros cavalheiros que a admiravam, em geral jovens ingênuos, incapazes de competir com um homem mais experiente, espirituoso e lisonjeiro.

Olhando ao redor do quarto com o grande leito, notou a lareira acesa, o vaso de flores sobre o toucador e reconheceu que sir Montagu havia escolhido um lugar atraente e bem decorado para sua infâmia. Só de pensar que ele poderia tentar beijá-la com seus lábios carnudos, querer abraçá-la ou tocá-la com suas mãos grandes, encolheu, cheia de repulsa e nojo. Precisava escapar. Mas como?

Se fizesse uma cena ou se chamasse a proprietária e exigisse que lhe arranjasse uma carruagem de aluguel para levá-la a Londres, provocaria um escândalo. Sir Montagu também podia invalidar seus protestos, dizendo que a reação dela era natural, própria de uma noiva assustada na noite de núpcias.

Chegando à janela, Caroline abriu as duas partes envidraçadas e olhou para o jardim banhado pelo luar. Além do jardim havia um bosque. Se fugisse pela janela poderia esconder-se entre as árvores.

O problema era a altura. A única possibilidade de sair dali seria alcançar o telhado mais baixo que julgou ser o da despensa ou da copa. Bem junto da parede ela viu sobre uma plataforma tosca um barril tampado que deduziu ser um depósito de água.

Sem perda de tempo atravessou o quarto, trancou a porta a chave, correu os trincos e voltou para a janela, decidida a fugir por ali. Olhou para o vestido de veludo de saia rodada e mangas compridas. Mas não seria o traje que a impediria de escapar.

Na verdade, essa não seria a primeira vez que saltaria de uma janela. Na infância costumava ser castigada pela governanta e pelos pais quando, em vez de dormir, pulava a janela do quarto e ia brincar no parque.

Caroline pendurou-se no parapeito e saltou para o telhado vizinho produzindo um barulho surdo. Reteve a respiração por um instante, receando que alguém a tivesse ouvido. Tudo estava em silêncio, exceto pelo distante burburinho de vozes e risos vindo da taberna.

Olhou para baixo. A altura era considerável, mas se conseguisse chegar até o barril, alcançaria o solo facilmente. Deitou-se na beira do telhado e foi escorregando o corpo até apoiar os dois pés no barril. Deste desceu até a plataforma e pulou para o chão, sã e salva, apenas muito suja e com um rasgão na saia do vestido que se enroscou em um prego.

Encostou-se na parede e espiou pela janela. De fato, ali era a despensa, mas estava às escuras. O cômodo seguinte, bem iluminado, era a grande cozinha da estalagem. Viu a proprietária, atarefada, e duas mocinhas de rosto corado, usando touca e avental. Um homem careca, também de avental, com certeza o garçom do estabelecimento, apareceu à porta carregando uma bandeja. Chegou até Caroline o cheiro agradável de carne assada.

Sem esperar nem mais um segundo ela saiu correndo, atravessou o jardim, procurando manter-se protegida pela sombra dos arbustos, e chegou ao bosque que, felizmente, não era muito cerrado. Continuando a correr seguiu por um caminho trilhado entre as árvores sem pensar aonde ele iria levá-la. Sua única preocupação era distanciar-se da estalagem.

Tinha uma vaga ideia de estar indo na direção da estrada principal para Sevenoaks. Uma vez ali, poderia chegar a alguma hospedaria e conseguir uma carruagem de aluguel que a levasse a Londres. Na corrida tropeçou algumas vezes em pedras e galhos. Também era obrigada a parar ocasionalmente para desprender o vestido enroscado em espinhos.

Cansada, Caroline passou a ir mais devagar. De repente, ouviu vozes e parou, certa de que já a procuravam. Logo achou que isso era impossível. Não havia dado tempo de alguém ter notado sua fuga. Além disso, só entrariam no quarto se arrombassem a porta que ela deixara trancada a chave e com os trincos.

Atenta, percebeu que as vozes eram masculinas e vinham de um ponto à sua frente, portanto, aqueles homens não eram seus perseguidores. Então um grito ecoou pelo bosque. Apenas um grito. Terrível. O silêncio voltou a reinar.

Por um segundo o coração de Caroline pareceu ter parado de bater. Voltou a pulsar tão violentamente como se quisesse saltar do peito. Ela encostou-se ao tronco de uma árvore e ficou por alguns minutos com as mãos sobre o peito, esperando passar o susto. O barulho de alguém andando depressa, quase correndo, vindo na sua direção, sobressaltou-a.

Aguardou mais um instante, trêmula, bem colada à árvore esperando não ser vista. Os passos tomaram-se mais audíveis e um homem passou a pouca distância do lugar onde ela se achava.

Mal se arriscando a respirar, Caroline continuou atenta. O homem afastou-se e pouco depois ela não ouviu mais nada. O bosque lhe pareceu assustadoramente quieto. Não se ouvia nem o barulho característico de animaizinhos em suas tocas, do agitar das asas de um pássaro, cujo sossego fora perturbado ou de folhas farfa- lhando com o vento.

Por fim, Caroline arriscou-se a sair de perto da árvore. Afastou alguns galhos que ajudavam a ocultá-la e continuou a caminhar. Chegou a uma clareira, parou e olhou ao redor. Várias árvores haviam sido cortadas formando um círculo. Ao luar ela viu uma casa quase em ruínas, com uma parte do telhado caído. Deu alguns passos e uma exclamação de horror saiu de seus lábios. Perto da casa havia o corpo de um homem estendido no chão. Sua cabeça pendia para trás, revelando à luz da lua o contorno do queixo proeminente.

Aterrorizada, ela ficou ali como se tudo fosse um pesadelo, seus olhos indo das fivelas dos sapatos lustrosos, aos botões do sobretudo preto até chegar ao cabo lustroso da faca enterrada no pescoço do homem que, a seu ver, estava morto.

O sangue escuro manchava a pureza da camisa branca com babados.

Por um momento Caroline julgou que ia perder os sentidos. Felizmente isso não aconteceu. Ficou paralisada olhando com horror para as mãos brancas e imóveis, caídas sobre a grama. Estava sem saber se devia seguir adiante ou voltar para o caminho do bosque quando o som de passos firmes, decididos e rápidos tirou-a de seu torpor.

Alguém se aproximava caminhando depressa. Ela ouviu também o ruído de gravetos sendo pisados e de galhos se movendo. Virando-se na direção dos passos, viu um homem chegando à clareira. Caroline só não saiu correndo porque sentiu que lhe faltavam forças para isso. Recuou alguns passos e encostou-se na parede da casa.

«Tenho de fugir quanto antes», pensou, mas não conseguiu mover-se.

O homem que se aproximava era alto, usava chapéu de feltro, de copa alta, casaco azul-marinho e botas pretas. Seu modo de andar e sua elegância revelavam uma pessoa de importância.

—Meu Deus! O que é isto?— ele falou em voz alta ao ver o corpo caído no chão. O som dessa voz fez Caroline recuperar um pouco de suas forças e tentar fugir. Mas o recém-chegado a viu movimentar-se, tirou uma pistola do bolso e gritou:

—Pare! Quem é você? Chegue mais perto!

Caroline obedeceu. Bem devagar saiu das sombras.

—Uma mulher!— exclamou o homem guardando a pistola e tirando o chapéu.

—Desculpe-me, milady. Eu não esperava encontrar uma lady por aqui, muito menos em tais circunstâncias.

A voz calma e segura afastou todos os temores de Caroline. Pôde ver à luz do luar que o estranho que lhe falava era o homem mais belo que já tivera ocasião de encontrar. Tinha os cabelos castanhos e penetrantes olhos cinzentos.

—Posso saber o que faz aqui, milady? E, por acaso tem conhecimento do que seja... isto?

Com o chapéu ele indicou o corpo caído no chão.

—Eu… estava no bosque, sir, quando ouvi vozes e em seguida… um grito e depois ouvi um barulho… como se alguém fosse correndo por ali.

Ela fez um gesto indicando a direção.

O cavalheiro colocou novamente o chapéu na sua cabeça, ajoelhou-se e debruçou-se sobre o corpo do homem caído para ouvir-lhe o coração.

—Está mesmo… morto?— Caroline perguntou com voz trêmula.

—Sem a menor dúvida! Foi um golpe mortal— respondeu o homem, levantando-se—. isto parece-me estranho... muito estranho. Ele marcou um encontro comigo neste local.

—Então… o senhor conhecia este homem?

—Sim. Este é Isaac Rosenberg, advogado. Muito velhaco, devo acrescentar. Porém, nunca imaginei que ele acabaria tendo uma morte horrível como esta.

—O senhor disse que veio até aqui... para encontrar-se com ele?

—Exatamente. Foi Rosenberg quem marcou este lugar. A propósito…

O cavalheiro interrompeu o que estava dizendo, ajoelhou-se de novo do lado do morto e procurou alguma coisa dentro do bolso do seu sobretudo.

—Ah, encontrei-as!— exclamou satisfeito, olhando para um maço de cartas amarradas com uma fita—, será que todas estão mesmo aqui?

«Ali devem haver cerca de seis envelopes», pensou Caroline.

O cavalheiro continuou de joelhos e revistou mais uma vez os bolsos do advogado. Encontrou uma folha de papel e ficou tenso.

Sempre observando-o, Caroline notou que sua expressão se transformara ao olhar o papel amassado que tinha na mão. De repente ele inclinou a cabeça para trás e deu uma risada destituída de humor.

—O que foi, sir?

Ele fitou-a como se tivesse esquecido de sua presença e respondeu com sarcasmo:

—Foi uma brincadeira de mau gosto. Uma brincadeira monstruosa. Alguém quis divertir-se e esse alguém não sou eu.

—Não estou entendendo, sir.

—Por que deveria entender, milady? Mas vou explicar-lhe. Alguém assassinou este pobre velhaco para pôr uma corda ao redor do meu pescoço. E sabe para quê? Para incriminar-me, compreende? Rosenberg marcou um encontro comigo, aqui. E esse foi um modo de eu ser atraído para este lugar. Agora ele está morto aos meus pés e eu posso ser preso por assassinato.

—Mas o senhor não matou este homem! Posso jurar que não foi o senhor!— Caroline exclamou.

—Ah, pode? Esta brincadeira começa a ficar interessante! Quem mais sabe que a senhorita está neste bosque?

—Na verdade… ninguém, sir! Eu não tinha a intenção de vir até aqui.

O cavalheiro riu outra vez.

—Além de a brincadeira começar a ter mais graça, a trama envolvendo este crime toma-se cada vez mais enredada. O homem que maquinou este assassinato ficará furioso ao saber que uma lady está disposta a jurar que sou inocente!

—Oh... eu não posso jurar, sir— Caroline gritou, alarmada—, quero dizer... se for mesmo preciso o meu testemunho para livrá-lo... da forca... mas... mas... ninguém deve saber que estive aqui… a esta hora da noite.

—Nesse caso, milady, devo sugerir que desapareça de aqui quanto antes, é melhor se não quer ser descoberta— opinou o cavalheiro, sorrindo—, e se não estou enganado, logo vai aparecer alguém nesta clareira, e estou certo de que encontrará o cadáver, e o assassino que, ele imaginará que seja eu. Portanto, corra o mais depressa que puder, milady, para não ser envolvida neste crime desagradável.

—Não posso fazer isso… pois eu sei que o senhor é inocente e...

—Não perca tempo, fuja, milady.

—E o senhor?

—Vou aguardar.

—Por quê?— Caroline indagou, ficou mesmo pasmada com a indiferença do cavalheiro—, você quer ser acusado de um crime que não cometeu? Por que essa tolice? Se fugir, ninguém poderá provar que o senhor esteve aqui, muito menos que matou este homem.

—Não tenho apego à vida— o cavalheiro deu de ombros—, vou morrer mesmo, em breve, de um modo ou de outro.

—O senhor deve estar louco ou então bebeu demais— Caroline concluiu, zangada—, há muitos modos decentes de morrer, sir. Mas é covardia deixar que o Conde nem por um crime que não cometeu. Venha comigo, sir, enquanto é tempo.

Caroline falou com veemência e o homem à ouviu com um sorriso nos lábios. Em seguida sacudiu mais uma vez os ombros largos.

—Está bem. Conseguiu convencer-me, milady. Posso acompanhá-la até sair do bosque?

Ele ia oferecer o braço a Caroline, mas ela ergueu a mão sussurrou:

—Ouça!

Ambos ficaram imóveis e atentos. Do bosque chegou até eles o som de vozes e de pessoas andando entre as árvores.

—Depressa— Caroline disse em voz baixa—, eles devem estar procurando pelo senhor... ou por mim.

O cavalheiro virou-se ligeiro.

—Por aqui. Meu cavalo está logo adiante.

Ele foi à frente e Caroline seguiu-o. Não havia caminho trilhado e os dois andaram pelo mato crescido, desviando-se como podiam dos ramos das árvores, dos espinhos e galhos secos. Depois do que pareceu a Caroline uma eternidade eles saíram do bosque.

Ela sentia o rosto ardendo devido aos arranhões e tinha as roupas rasgadas.

—Aqui estamos— disse o cavalheiro aproximando-se do seu cavalo, preso a uma árvore—, você não se importa de ir na garupa?

—Para mim está bem— Caroline respondeu.

Ele a colocou atrás da sela e montou em seguida. O som de vozes, embora distantes, chegou até eles.

—Está ouvindo? Eles encontraram o cadáver— disse o cavalheiro, fustigando o cavalo.

Agarrada à cintura dele Caroline não quis olhar para trás. Quanto mais depressa se afastassem dali, melhor.

CAPÍTULO II

O cavalheiro e Caroline galoparam durante alguns minutos.

—Para onde estamos indo, sir?— Caroline perguntou, ofegante.

Ele controlou as rédeas do cavalo, fazendo o animal ir a passo e respondeu:

—Moro aqui perto, no Castelo de Brecon. A propósito, meu nome é Brecon.

—Devo ter ouvido falar sobre seu Castelo— Caroline observou, pensativa.

—Provavelmente. O lugar é lindo e famoso. Muitas pessoas vêm conhecer o Castelo devido às duas torres normandas.

Caroline empertigou-se. Teve vontade de responder com altivez que não era dessas pessoas que passeavam pelas estradas a fim de admirar Castelos.

Lembrando-se a tempo de que estava suja e com as roupas rasgadas, controlou-se. Como era possível o estranho saber que ela era filha de um aristocrata importante? Disse então com suavidade:

—Nunca vi o Castelo de Brecon, milorde. Eu me lembraria disso se já o conhecesse. E o senhor é lorde Brecon, suponho.

—Sou. Terei imenso prazer em mostrar-lhe meu Castelo, milady.

—Não acha que será arriscado voltar para casa, milorde?

—Por que diz isso?

—Se alguém assassinou aquele homem para incriminá-lo, as pessoas que suspeitam do senhor por certo irão até seu Castelo à sua procura e farão perguntas para saber onde o senhor esteve esta noite, principalmente na hora do crime.

—Por Júpiter! Você é astuta como uma advogada ou é uma ávida leitora de romances policiais de alguma biblioteca circulante— brincou lorde Brecon.

Caroline riu. Era verdade que gostava muito de romances de mistério. Lorde Brecon acrescentou:

—Reconheço que o seu raciocínio é correto. Nesse caso, o que devemos fazer?

—O senhor tem amigos de inteira confiança? Lembro-me de um caso em que um fazendeiro de boa reputação foi acusado de envolvimento com uma quadrilha de contrabandistas. No tribunal três amigos juraram que o fazendeiro havia passado a noite com eles, jogando cartas…

—Mas não acha que é arriscado pensar numa situação que me possa ilibar mas que não é verdadeira?- interrompleu lord Brecon.

—Ouça o resto por favor… a respeito desse julgamento meu pai assim comentou: "É difícil reconhecer se um homem diz ou não a verdade. Mas no caso de quatro jurando a mesma coisa, ainda que falsa, convenceram o juiz e o júri".

—Realmente seu pai estava certo— concordou lorde Brecon conduzindo o cavalo na direção oposta—, é melhor eu ser prudente, e arranjar dois ou três amigos leais que testemunhem a meu favor.

Caroline não revelou que seu pai fora o juiz naquele julgamento. Dada a circunstância estranha em que lorde Brecon a encontrara, seria melhor não revelar sua identidade.

—Tenho sim dois grandes amigos que testemunharão a meu favor. Você aguentará cavalgar ainda mais duas milhas, estando nessa posição desconfortável?

—Estou bem, milorde— Caroline tranquilizou-o.

—Perdoe-me por não lhe perguntar aonde queria ir, milady—lorde Brecon desculpou-se—, os acontecimentos destes últimos trinta minutos deixaram-me confuso.

—Compreendo, milorde.

—Este caminho que leva a Sevenoaks lhe convém?

—Sim— Caroline respondeu brevemente, pensando em alugar em Sevenoaks uma carruagem que a levasse a Londres.

—Já me apresentei, mas ainda não sei o seu nome— lorde Brecon observou de repente.

—Caroline…— ela parou a tempo de não dizer o sobrenome verdadeiro. Mencionou o primeiro que lhe ocorreu—, Caroline Fry.

—Seu criado, Srta. Fry. E agora talvez possa matar a minha curiosidade me dizendo, o que fazia no bosque quando Rosenberg foi golpeado por alguma mão traiçoeira.

Caroline teve de pensar depressa. Havia estado ocupada com os problemas de lorde Brecon e não inventara uma história para justificar sua presença naquele lugar estranho em hora mais estranha ainda. Graças às suas leituras teve a ideia de recompor para si mesma a passagem que havia lido em um romance e que lhe pareceu plausível.

—Eu trabalhava como acompanhante de uma senhora da alta nobreza— ela começou—, não tardei a perceber que minha patroa tinha o hábito de beber demais, o que a deixava transtornada, até violenta.

—Não me diga que a machucou ?

—Não… mas esta noite, após o jantar, ela insistiu em fazer um passeio de carruagem, achando que o ar fresco da noite iria clarear-lhe a mente. Seu coche foi trazido e saímos para dar uma volta. A certa altura essa lady pediu-me o espelho de mão que eu trazia na bolsa. Quando lhe entreguei o espelho ela o deixou cair, devido ao tremor das mãos, ocasionado pelo excesso de brandy. Furiosa, ela acusou-me de trazer-lhe azar. Obrigou-me a descer do coche e atirou sobre mim o dinheiro correspondente ao meu salário.

—Uma atitude monstruosa!— lorde Brecon indignou-se—, mulheres assim não deviam existir!

—Quando me vi assim sozinha numa estrada sem movimento, achei mais conveniente atravessar o bosque, e sair na estrada principal, que com certeza me levaria a Sevenoaks.

—Sim… mas você teria de andar quase duas milhas. Agora posso deixá-la em Sevenoaks. Chegando lá, o que pretende fazer?

—Pensei em alugar uma carruagem e ir para Londres.

—Então você mora em Londres?

De repente Caroline teve um desejo imenso de estar em casa, no campo, sob a proteção dos pais. Se voltasse a Londres precisaria ter uma boa desculpa para apresentar à madrinha e à prima, lady Edgmont. Também não estava disposta a ver sir Montagu. O que ele seria capaz de inventar quando retomasse à cidade?

Tudo era assustador e Caroline, impetuosa como sempre, tomou a resolução de voltar para o campo. Contaria aos pais o que acontecera e pediria o perdão de ambos por sua imprudência. Toda vez que cometia uma falta ela assumia a responsabilidade e acabava sendo perdoada.

—Não, milorde— respondeu por fim—, moro perto de Dover, e pensando bem, será mais prudente eu voltar para casa. Depois arranjarei outro emprego.

—Nesse caso devemos ir até Dover e quanto antes chegarmos lá, melhor. Suportará a viagem se formos mais depressa? Neste passo levaremos metade da noite para chegar até meus amigos.

—Pode ir a pleno galope, milorde— consentiu Caroline, agarrando-se com mais força à cintura do cavaleiro.

A partir daí sua única preocupação foi manter-se na garupa e abaixar a cabeça para o chapéu não voar. Este, felizmente, estava amarrado ao queixo com uma fita.

Depois de algum tempo lorde Brecon exclamou:

—Veja ali adiante! Eles estão onde eu previa.

Olhando para a frente Caroline avistou luzes, os contornos de tetos recurvados e pequenas chaminés. Nada do que viu lembrava casas.

Só então compreendeu que em um terreno estavam estacionadas vários carroções fechados, desses que ciganos e artistas circenses usam como casa.

—Ciganos!— exclamou, surpresa.

—Não é um grupo de ciganos— contrapôs lorde Brecon—, meu amigo é dono

de um pequeno circo de animais amestrados e os exibe em diversas cidades.

—Um circo itinerante de animais! Já vi apresentação de animais amestrados na feira de São Bartolomeu.

—Acredito que meu amigo Grimbaldi pretende terminar sua excursão nessa feira.

Eles se aproximaram do acampamento e um rapazinho de uns quinze anos de idade, moreno, de cabelos longos e negros, com aparência de cigano, saiu das sombras e os deteve.

—Ei, senhor! O espetáculo terminou. Vocês não podem entrar.

Uma mulher igualmente morena, carregando uma criança no colo apareceu logo atrás do rapazinho.

—Vim falar com o Sr. Grimbaldi— lorde Brecon explicou—, leve-me até ele.

—Quer falar com o patrão?— o adolescente assumiu uma expressão de dúvida—, o Sr. Grimbaldi não disse que esperava visitantes.

—Vejo que são pessoas de respeito, filho— disse à mulher ao rapazinho—, faça o que o cavalheiro está dizendo.

Lorde Brecon atirou uma moeda de prata no ar e o adolescente a apanhou com agilidade.

—Por aqui, senhor— ele disse em outro tom e saiu correndo adiante do cavalo.

Uma grande carroça estava um pouco separada das outras e era também a mais vistosa, pintada de vermelho e prata. Pelas janelas e pela porta, todas abertas, via-se parte do interior iluminado do carroção.

—Patrão! Sr. Grimbaldi!— gritou o rapazinho subindo os poucos degraus do carroção e detendo-se à porta—, um cavalheiro quer falar com o senhor.

Da garupa Caroline olhou ao redor e viu diversos carroções iluminados. As jaulas com os animais estavam cobertas. Várias pessoas, homens e mulheres, com certeza os treinadores e empregados que cuidavam dos animais, estavam sentados ao redor de uma fogueira.

Nesse instante um homem alto e musculoso atendeu ao chamado. Ele teve de se abaixar para não bater na trave da porta.

—Lorde Brecon! Que surpresa agradável!— exclamou ao ver o amigo.

—Podemos entrar, Adam?— lorde Brecon perguntou—, trouxe uma amiga comigo.

O rapazinho correu para segurar o cavalo. Lorde Brecon desmontou, tirou Caroline da garupa e ficou por um momento fi- tando-a, fazendo-a sentir o coração bater com mais força.

—Deixe-me ajudá-la— ele acrescentou, dando-lhe a mão para que ela subisse os degraus do carroção.

—Seja bem-vinda, milady— disse o Sr. Grimbaldi.

—Obrigada.

—Adam Grimbaldi é um grande e velho amigo, Srta. Fry. Apesar do

sobrenome estranho, ele tem sangue inglês— expôs lorde Brecon.

—É verdade. Mas não só o sangue. Meu coração também é inglês. É bom estar

de volta ao meu país.

—Sei que ama a Inglaterra, Adam, embora você tenha feito o maior sucesso na França.

No interior do carroção Caroline ficou atônita ao ver uma mulher, trajada de modo estranho, levantar-se de um divã onde estava repousando.

Era pequenina e delicada, bonita, os cabelos pareciam uma nuvem dourada e chegavam à altura dos joelhos. Suas roupas constavam de calças em estilo turco, de tecido muito fino, e um top bordado com pedras preciosas.

—Bonsoir, madame— a pequenina mulher cumprimentou Caroline. Então viu lorde Brecon e exclamou—, senhor Conde! Que bom revê-lo. Pensei que tivesse esquecido Zara.

Zara correu para lorde Brecon com os braços abertos. Ele abraçou-a e beijou-lhe o rosto. Os olhos de Caroline se arregalaram diante da cena.

—Está gostando da Inglaterra, Zara?— lorde Brecon perguntou, olhando para a pequenina mulher com surpreendente afeição.

—Estou detestando. Aqui faz muito frio e o público não é entusiasmado para aplaudir. Os ingleses não são calorosos como os franceses nem barulhentos e alegres como os alemães.

—Já disse a Zara que somos um povo reservado— esclareceu o Sr. Grimbaldi, sorrindo—, com o tempo ela se acostuma conosco.

—E seus tigres? O que eles acham dos ingleses?— lorde Brecon perguntou em tom brincalhão.

—Eles são como eu. Se não ouvem muitos aplausos ficam tristes, acham que não fazem sucesso e tomam-se indóceis, dando-me grande trabalho para controlá-los.

—Oh, minha pobre Zara—, lorde Brecon olhou para Caroline— Srta. Fry, quero apresentá-la a madame Zara, a maior e provavelmente a única domadora de tigres do mundo. Ela obteve um sucesso fenomenal no Continente e agora nos sentimos honrados em recebê-la na Inglaterra.

—Espero ter o grande prazer vê-la apresentar-se com seus tigres, madame Zara— disse Caroline delicadamente.

—Sente-se, Srta. Fry — convidou o Sr. Grimbaldi, oferecendo-lhe uma cadeira.

Quando se sentou, Caroline pôde avaliar seu cansaço.

—Tivemos uma jornada exaustiva— lorde Brecon estava dizendo—, podemos contar com a sua hospitalidade, Adam? Estamos com fome e sede.

—Naturalmente! Só receio não termos aqui os pratos aos quais está acostumado. Gostariam de bacon e ovos?

—Para mim está ótimo!— aprovou lorde Brecon—, e você, Srta. Fry?

—Aceito com prazer.

—E para beber orgulho-me de oferecer-lhes champanhe da melhor qualidade que eu trouxe da França.

Enquanto falava Adam Grimbaldi tirou uma garrafa de um armário aos fundos do carroção e colocou-a sobre a mesa. Caroline notou que aquela casa sobre rodas tinha, em móveis compactos, tudo o que era necessário. Havia ali armários, prateleiras, a mesa, cadeiras, quadros e enfeites. O divã com diversas almofadas era também um confortável leito e um fino tapete persa cobria o assoalho.

—Isto aqui é muito aconchegante!— Caroline disse a Zara.

—Este é o carroção de Adam. O meu não é tão grande, mas é muito mais bonito— Zara respondeu—, por favor, madame, tire o chapéu e fique à vontade.

—Oh, sim. Obrigada.

Desamarrando o laço sob o pescoço Caroline livrou-se do chapéu elegante e grande, no rigor da moda, deixando à mostra os cabelos longos, cácheados e loiros com reflexos ruivos. A luz das lanternas presas às paredes eles ganharam mais brilho. Pela primeira vez lorde Brecon pôde vê-la claramente.

Ficou encantado com a beleza daquele rosto oval, perfeito, pousado sobre o longo pescoço alvo. Admirou o nariz pequeno, bem feito, os lábios cheios e vermelhos. Mas eram os olhos intensamente azuis, grandes, vivos, alegres e travessos, o que havia de mais lindo em Caroline. A evidente surpresa de lorde Brecon e a admiração impressa em seu olhar fez com que ela abaixasse os olhós e sentisse no rosto um súbito rubor. Mentalmente ele a comparou à figura de uma ilustração de algum conto de fadas, com a diferença que nada em Caroline era estático.

Ao contrário, era cheia de vida e emanavam dela uma alegria e um entusiasmo contagiantes.

—Fale-me sobre seus animais— Caroline pediu ao Sr. Grimbaldi— são muitos?

—Temos um grande número deles, milady. Os três leões são o meu orgulho. César, o mais velho, é bem treinado e manso como um gato. Eu o criei desde filhote e atualmente posso fazer com ele o que quiser, sem correr o perigo de ser atacado.

Adam Grimbaldi continuaria falando com entusiasmo sobre seus animais, não fosse o rapazinho moreno ter aparecido com o prato de bacon e ovos. Os visitantes foram servidos e terminada a breve refeição, lorde Brecon passou a falar sobre o motivo de ter vindo procurar o amigo.

—Bem, Adam, você não me fez perguntas, mas acredito que esteja curioso para saber qual a razão desta visita em hora tão imprópria.

—Seja qual for o motivo, sabe que estou a seu inteiro dispor, milorde— disse Adam amavelmente—, basta expor o que deseja e o atenderei.

—O que lhe vou pedir é algo desagradável. Você estaria disposto a comparecer diante de um tribunal e testemunhar a meu favor?

O Sr. Grimbaldi deu de ombros.

—Enfrentar juizes e promotores nunca é agradável, mas farei isso, sem dúvida, milorde.

—Na França temos um termo rude para designar os juizes e promotores— Zara aparteou—, mas não vou repeti-lo para não ofender os ouvidos da lady aqui presente.

—Está bem, Zara. Conheço o termo— tomou lorde Brecon, rindo.

—Então? Não acha que o termo seja bem apropriado?

—Muito apropriado.

Foi a vez de Zara rir. Em seguida sua expressão tomou-se séria ao perguntar:

—Oh! O senhor matou um homem em um duelo? Está querendo fugir do país?

—Não, Zara. O caso é mais complicado. Vou explicar o que aconteceu. Por favor, Adam, acho melhor você fechar a porta.

O Sr. Grimbaldi atendeu ao pedido. Lorde Brecon começou sua história:

—Como os dois sabem, estive fora, viajando pela França e a Itália, durante dois anos. Retomei à Inglaterra cerca de três meses atrás e fui calorosamente recebido por mamãe e meus amigos. Dias depois de minha chegada fui informado de que um primo distante havia falecido e, antes de morrer, me nomeara tutor de sua filha de quinze anos, Melissa.

Lorde Brecon tomou mais um pouco do champanhe antes de prosseguir:

—Fui conhecer minha pupila, uma garota linda, porém, desajuizada. Melissa estava de partida para a França. Iria estudar em um excelente colégio para jovens ladies, em Paris, onde terminaria sua educação, mas… uma semana após a partida de Melissa, fiquei chocado ao saber que ela havia mantido um romance clandestino com um homem de má reputação e com idade suficiente para ser seu pai. Em seu enlevo de jovem apaixonada, minha pupila cometeu a imprudência de escrever ardentes cartas de amor ao namorado. Um advogado velhaco, de nome Isaac Rosenberg, procurou-me para me dizer que seu cliente, o ex-namorado de Melissa, exigia o pagamento de cinco mil guinéus para a entrega das tais cartas. Caso eu não lhe pagasse a quantia estabelecida, as cartas iriam ser usadas para difamar minha pupila. Propus-me a pagar apenas mil guinéus. Se o cliente em questão não aceitasse a minha oferta eu iria chicoteá-lo publicamente, em plena St. James Street, e seu nome iria figurar em todos os clubes aristocráticos de Londres como chantagista.

—O que esse homem respondeu?— indagou Adam Grimbaldi.

—Ontem pela manhã recebi uma carta de Rosenberg dizendo que desejava encontrar-se comigo na casa em ruínas que fica no bosque situado atrás da estalagem The Dog and Duck, na estrada para Sevenoaks— lorde Brecon continuou.

— O lugar me pareceu muito estranho, pois ali se realizam duelos e é também um ponto de encontro de amantes. Mesmo assim, fui até lá e encontrei Rosenberg morto, com uma faca enterrada no pescoço.

—Deus do céu!— exclamou Adam Grimbaldi.

—Quem o teria assassinado?— Zara indagou quase simultaneamente.

—Não faço a menor ideia…— respondeu lorde Brecon—, ao chegar à clareira que existe no bosque já vi o corpo estendido, ainda quente. A Srta. Fry, que estava no bosque na hora do assassinato, ouviu o grito de Rosenberg.

—Você viu o assassino?— Zara perguntou, voltando-se para Caroline.

—Não. Só ouvi o grito e ouvi alguém correndo, saindo do bosque.

—Rosenberg não havia sido roubado — explicou lorde Brecon—, as cartas de Melissa estavam no bolso externo do sobretudo e as peguei. Para ter certeza de que não haveria mais nada de comprometedor nos outros bolsos, revistei-os todos e achei isto.

Lorde Brecon mostrou aos amigos folha de papel encontrado no bolso do morto.

—Vejam. Trata-se de uma carta supostamente escrita por mim.

—O que diz a carta?— Zara quis saber.

—Aqui está escrito que Rosenberg deve encontrar-se comigo na quarta-feira, na casa em ruínas, no bosque atrás da The Dog and Duck, na estrada para Sevenoaks. Diz também que ele deve levar todas as cartas de minha pupila, uma vez que aceitei as condições do seu cliente.

—E você não escreveu essa carta?— inquiriu o Sr. Grimbaldi.

—Nunca! Nem estava disposto a aceitar a chantagem do cliente de Rosenberg. Tanto a carta de Rosenberg enviada para mim, como a que ele tinha em seu poder eram falsas! Foi uma trama bem feita para que eu e Rosenberg comparecêssemos ao mesmo lugar. O infeliz acreditou na carta falsa, e foi ao seu encontro com o assassino. Entendem? Alguém planejou tudo para que esse crime fosse atribuído a mim.

—Sim, é o que se pode deduzir— concordou Adam Grimbaldi, balançando a grande cabeça—, você acha que o assassino tenha sido o ex-namorado de sua pupila?

—Creio que não. Se ele pretendia obter os cinco mil guinéus não iria querer a morte de Rosenberg nem desejaria ver as cartas desaparecerem. E a minha morte, quero dizer, se eu fosse preso e Conde nado à forca ele também nada lucraria. Só lhe interesso vivo.

—Sendo assim, quem poderia ter assassinado Rosenberg?— Zara questionou.

—Só posso deduzir que há alguém interessado em livrar-se de mim, mas nenhum nome me ocorre.

—De que modo podemos ajudá-lo? — Adam Grimbaldi perguntou.

—Ainda não adivinhou, Adam? Então seu cérebro não é tão rápido quanto o da Srta. Fry. Foi ela quem sugeriu que eu arranjasse dois ou mais amigos leais para jurar em um tribunal que eu estive com eles nas últimas duas horas. Preciso ter um álibi.

—Compreendo, claro. Que tolo fui em não ter pensado nisso antes! Bem, milorde, conte comigo e com Zara. Podemos jurar que esteve conosco a noite toda. Primeiro assistiu ao espetáculo e depois ficou aqui no carroção conversando, bebendo champanhe e só foi para casa bem tarde. Digo mais: meus homens e suas esposas também estarão dispostos a jurar a mesma coisa.

Lorde Brecon estendeu a mão para o amigo que a apertou. Sorrindo, ele agradeceu:

—Muito obrigado. Adam. Eu tinha certeza de poder contar com você.

—Está pedindo muito pouco de nós, senhor Conde— Zara manifestou-se, fazendo com as mãos um gesto para afastar dos ombros alvos os cabelos loiros.

—Você é sempre tão generosa— disse lorde Brecon tomando a pequenina mão de Zara e levando-a aos lábios.

—Se está tudo arranjado, milorde, acho melhor eu continuar minha viagem — observou Caroline com um suspiro.

—E verdade, Srta. Fry. Foi egoísmo de minha parte ter pensado só no meu problema, esquecendo o seu— Lorde Brecon voltou-se para o Sr. Grimbaldi e disse—, Adam, onde poderemos conseguir uma carruagem de aluguer?

—Há uma estalagem aqui perto. Mandarei um dos rapazes até lá. Aonde deseja ir, Srta. Fry?

—Minha intenção é chegar a Dover — Caroline respondeu —, mas como já é tarde posso ir apenas até Maidstone onde, talvez…

—Irá até Dover, Srta. Fry— lorde Brecon a interrompeu—, faço questão de providenciar para que o cocheiro a deixe em sua casa em segurança. Não se preocupe com mais nada.

Passou pela mente de Caroline que ele, com certeza, estaria imaginando que o problema dela era o custo da viagem. Assim, não quis argumentar e agradeceu-lhe com um sorriso.

Depois de ter mandado um rapaz ir a cavalo até a mencionada estalagem, Adam Grimbaldi abriu outra garrafa de champanhe. Enquanto bebia Caroline ficou por um instante olhando discretamente para lorde Brecon e dizendo a si mesma que ele era diferente de todos os homens que já conhecera.

Sem dúvida, tinha traços lindos, mas não era a beleza que o tomava tão atraente. Havia uma expressão misteriosa e reservada no olhar dele. Era como se estivesse sempre se controlando ou se reprimindo. Até em seu riso faltava espontaneidade. Quanto ao sorriso, apesar de encantador, revelava ceticismo, talvez tristeza.

«Ele esconde um segredo, tenho certeza», Caroline disse para si mesma, embora não pudesse explicar a razão de tal pensamento ter-lhe ocorrido.

Embora já fosse tarde, Caroline não quis deixar o acampamento sem ver os animais. Quando o rapaz voltou para dizer que a carruagem chegaria dentro de meia hora, ela pediu ao Sr. Grimbaldi que a deixasse ver os leões, tigres e o canguru, sendo este último o mais nova aquisição do circo.

Os quatro foram de jaula em jaula para ver os animais que es- tavam, em sua maioria, dormindo. Alguns piscaram com a luz das lanternas e os mais ferozes rugiram por estar sendo perturbados.

—Apareça para ver um de nossos espetáculos— o Sr. Grimbaldi convidou Caroline—, em breve nos apresentaremos na feira de São Bartolomeu.

—Pode contar com a minha presença — afirmou Caroline com entusiasmo.

Notando esse interesse lorde Brecon sugeriu:

—Se não conseguir novo emprego, Srta. Fry, procure Adam e ele lhe conseguirá trabalho.

—É uma ideia tentadora, milorde, mas receio que meus pais não a aprovem — respondeu Caroline.

—Acredito que não— lorde Brecon riu—, lembre-se, porém, que a senhora da alta nobreza com quem você trabalhava era mais feroz do que alguns animais selvagens.

—Era, realmente— respondeu Caroline, não contendo o riso.

O rapaz aproximou-se dos quatro para avisar que a carruagem já havia chegado. Caroline agradeceu ao Sr. Grimbaldi pela hospitalidade e despediu-se de madame Zara. Lorde Brecon acom- panhou-a até a carruagem ajudou-a a subir no veículo e cobriu-lhe os joelhos com a manta que encontrou sobre o banco. Foi em seguida falar com o cocheiro e fazer o pagamento pela viagem.

—O trajeto é bem longo— ele disse ao voltar para despedir-se.

—Talvez eu deva acompanhá-la Srta. Fry.

—Oh, não, milorde, não é preciso— Caroline disse depressa.

—Estarei em segurança e pela manhã chegarei a Dover. Nada tenho de valor que possa atrair a atenção dos salteadores de estradas. Pretendo dormir durante toda a viagem.

—Se é o que deseja, faça boa viagem, Srta. Fry. Muito obrigado por tudo que fez por mim.

—Não foi nada, milorde. Posso afirmar que vivi esta noite uma aventura emocionante.

Enquanto falava lorde Brecon tinha os olhos fixos em Caroline que estava adorável debruçada na janela da carruagem, tendo o rosto iluminado pelo luar.

—Adeus, doce Caroline… , não voltaremos a nos ver— ele disse—, mais uma vez, obrigado.

Ela estendeu a mão que lorde Brecon segurou, mas não a beijou. Inclinando-se, seus lábios pousaram nos dela. Sem poder fugir ou protestar, Caroline recebeu o beijo, a princípio atônita, depois com raiva. Quando lorde Brecon ergueu a cabeça e afastou-se da carruagem o cocheiro açoitou os cavalos que partiram depressa.

«Que ousadia! Como ele teve coragem de fazer isso?», Caroline se questionou, indignada.

Homem algum jamais a beijara antes. Mas ela não podia negar que aquele beijo provocara nela uma sensação maravilhosa. Com as pontas dos dedos tocou os lábios suavemente querendo sentir o calor que ainda havia neles.

Então um beijo era assim! Caroline sentiu novamente os lábios momos tocando os seus, com toda aquela veemência aliada a uma deliciosa suavidade que a deixara com o coração pulsando e a fizera sentir como se um fogo surgisse de sua garganta, quase a impedindo de respirar, para então espalhar-se pelo corpo todo.

Assim era um beijo!

Na escuridão da carruagem ela sorriu. De nada adiantava zangar-se. Uma noite de aventuras tão emocionantes merecia um grande final!

Recostando-se no banco acolchoado tentou dormir, mas o sono não veio. Apesar do cansaço, tinha a mente desperta, ocupada por uma infinidade de perguntas.

Por que, ficou se questionando, lorde Brecon dissera que ambos não se veriam novamente? Teria ele dito isso, achando que pertencendo ambos a círculos sociais tão diferentes seus caminhos não se cruzariam de novo? Ou haveria alguma outra razão menos simples do que essa?

Mentalmente Caroline visualizou o belo cavalheiro. Como ele era atraente! E que personalidade! Lorde Brecon era, sem dúvida, o homem mais encantador que já conhecera. E também tinha a vantagem de ser mais velho do que os rapazes que a cortejavam e com quem dançava. Devia ter vinte e seis ou vinte e sete anos. Perto dele o Conde de Glosford, com seu físico magro, mais parecia um doente.

Por fim, Caroline adormeceu. Acordou quando a carruagem parou em uma estação de muda para a troca dos cavalos. Ela aproveitou para entrar na estalagem, lavar as mãos e o rosto. Ao ver sua imagem no espelho, ficou horrorizada.

Não era de admirar que lorde Brecon havia acreditado na história que ela inventara sobre ser uma dama de companhia assalariada.

O vestido, antes lindo e luxuoso, de caríssimo veludo, estava sujo, rasgado, as rendas que o enfeitavam tomaram-se farrapos quando ela caminhara no bosque, por entre galhos e espinhos. E as mãos! Estavam imundas.

Levou algum tempo para ela lavar-se, pentear os cabelos e arrumar-se da melhor maneira possível. Caroline aproveitou também a parada para escrever uma cartinha à prima Debby, avisando-a que decidira voltar para casa. Endereçou-a a lady Edgmont, Vulcan House, Grosvenor Square, Londres e pediu à proprietária da estalagem que colocasse a carta na diligência postal, logo pela manhã. Assim que viu um guinéu na palma de sua mão a proprietária prometeu com a maior boa vontade fazer o que lhe era solicitado.

A viagem continuou e Caroline dormiu tranqüilamente até chegar a Dover. Sentia-se feliz por estar a caminho de casa onde teria o carinho dos pais e todos os seus problemas desapareceriam. Jovem como era e tendo sido sempre muito protegida, não aprendera a se preocupar. Sua vida, até o momento, fora agradável, cheia de amor e conforto.

Vulcan Park, a casa de campo onde Caroline nascera, uma das mâis lindas e mais imponentes do país, fora construída por sir Justin Faye que viera para a Inglaterra com Guilherme da Normandia. A partir daí, cada sucessor de sir Justin cuidou não só de reformar ou ampliar a casa, mas também de aumentar a riqueza da família, de modo que atualmente os grandes telhados da mansão abrigavam tesouros incalculáveis. No decorrer dos séculos, cada vez mais, a família Faye acumulou, além de riqueza, títulos, honrarias e privilégios.

Não era de admirar que o décimo quinto Marquês de Vulcan tivesse tanto orgulho de sua linhagem, de sua herança e amasse cada metro quadrado de Vulcan Park. A grande mansão estendia-se desde a Fortaleza Normanda, antiga prisão, e que ainda se achava erguida como sentinela no ponto mais distante dos rochedos brancos, até os luxuosos salões construídos havia apenas quarenta anos pela mãe do atual Marquês , de acordo com um projeto feito por Robert Adam.

A décima quarta Marquesa , avó de Caroline, fora banida da corte devido à sua paixão pelo jogo. Passando a viver no campo, ela decidira criar em Vulcan Park sua própria corte, onde reinou até sua morte, em meio a muito luxo e extravagâncias.

Para Caroline, Vulcan Park significava paz, beleza e um lugar de serena felicidade. Seus pais se amavam tanto que emprestavam à mansão uma atmosfera de encantamento, compartilhada por todos que ali viviam.

Nas veias de Caroline corria o sangue dos Faye, de quem ela herdara, além da dignidade, da altivez, da lealdade e da integridade, a paixão, a determinação, a força de vontade e a teimosia. Da avó ela havia herdado a beleza. A décima quarta Marquesa de Vulcan fora uma das mais belas mulheres do seu tempo.

Da mãe, Caroline possuía a graça, a bondade de coração e uma pureza de sentimentos que transparecia nos seus lindos olhos azuis. Parecia haver ao seu redor uma aura de espiritualidade.

A personalidade e o temperamento de Caroline podiam ser comparados às ondas do mar, por vezes bravias e tempestuosas, arremetendo-se contra os rochedos íngremes, ora serenas, indo beijar a areia dourada da praia.

Desde pequenina que ela amava o mar.

Muitas vezes permanecia longamente à janela a admirá-lo, e a ouvir sua música que sempre fizera parte da sua vida e de seus sonhos.

As reações inesperadas da filha preocupavam a Marquesa que vivia suspirando, com receio de que uma jovem tão linda e tão emotiva pudesse sofrer no futuro.

Lealdade e profundo sentimento de justiça eram virtudes marcantes em Caroline. Certa vez, contando ela apenas dez anos, ficara sabendo que o jovem cavalariço, que cuidava de seu pônei, fora levado diante do juiz sob a acusação de ter invadido a propriedade vizinha para caçar.

Sem pedir permissão aos pais ela foi a galope até Dover, entrou no tribunal e testemunhou que o rapaz era inocente, conseguindo sua libertação.

Apesar da grande preocupação com Caroline, lady Vulcan tinha o maior orgulho da filha. Reconhecia que nenhuma outra jovem possuía tanta beleza, tampouco um cérebro tão privilegiado. Ela podia ser impulsiva, impetuosa, por vezes travessa, mas jamais fora cruel, insensível ou mesquinha.

Os criados adoravam-na e seus amigos eram inúmeros. Quando Caroline apareceu em Londres para sua primeira temporada, sua vivacidade, seu encanto natural, sua simpatia e sua exuberância conquistaram a admiração de pessoas de ambos os sexos.

Nesses quatro meses freqüentando as mais alta sociedade, Caroline tomara-se a "Incomparável" e recebera vários pedidos de casamento, tendo recusado todos eles.

—O que está acontecendo, Caroline? Mas o que é que você está fazendo? Você não encontrará melhor partido!— dissera a Condessa de Bullingham, zangada, ao saber que a afilhada havia rejeitado o Conde de Glosford.

—Encontrarei. Sei disso— respondera Caroline, risonha.

—Quem? Duvido que você encontre no Registro de Debrett um aristocrata, à altura do Conde de Glosford!

—Posso encontrar um homem cujo nome não conste no livro de Debrett.

—Como?! Se não consta nesse registro, não se trata de um nobre. Oh, Senhor! Não me diga que você teria coragem de aceitar uma mésalliancel Eu não suportaria uma loucura dessas.

—Ora, madrinha, só estou querendo dizer que pretendo me casar por amor e até o momento não me apaixonei por homem algum— Caroline explicara, tranquilizando a Condessa.

O sol da manhã, entrando pela janela da carruagem, despertou Caroline.

Pela primeira vez na vida ela pensou no nome de um homem com o coração cantando de felicidade. Abriu a janela para respirar o ar fresco, com gosto de sal e viu ao longe o mar azul e brilhante.

Ela orientou o cocheiro quanto ao caminho a seguir para chegar a Vulcan Park e, para manter sua identidade incógnita, teve o cuidado de pedir-lhe que a deixasse nos fundos da casa.

Mal a carruagem estacionou no pátio das cocheiras Caroline saltou do veículo e foi ao encontro do velho cavalariço para recomendar-lhe:

—Gratifique o cocheiro, Harry, sirva-lhe um bom desjejum e não lhe diga quem eu sou. Caso ele faça perguntas, responda que sou uma hóspede ou que trabalho para a Marquesa.

—Está bem, milady— Harry assentiu. Com a familiaridade de um velho serviçal acrescentou—, vejo que andou fazendo uma de suas travessuras, milady.

Caroline não se dignou a responder. Caminhou para a porta dos fundos e assim que chegou à estreita escada secundária, subiu-a apressada, correu pelo corredor até seu quarto, obviamente não querendo ser vista. Só encontrou uma arrumadeira e pediu-lhe que fosse chamar Maria, sua criada pessoal.

Maria, uma mocinha do campo, cuidava de Caroline havia dois anos. Em pouco mais de um minuto ela apareceu.

—Está de volta, milady!— a criada exclamou—, imaginei que estivesse em Londres.

—Decidi voltar, Maria, e preciso da sua ajuda.

—Oh, milady! Em que estado ficou seu lindo vestido! O que lhe aconteceu, milady?

—Psiu!— Caroline pôs o dedo indicador sobre os lábios—, não faça perguntas. Jogue fora este vestido que não tem mais conserto. Enquanto me lavo tire do guarda-roupa o vestido branco de musselina. Depois penteie meus cabelos.

Meia hora mais tarde o Marquês estava saindo da sala de des- jejum quando se surpreendeu ao ver a filha.

—Caroline!— exclamou, perplexo—, de onde você surgiu? Eu não fazia ideia de que estava de volta, minha filha.

—Bom dia, papai. Espero que esteja tão contente com a minha presença como estou feliz de revê-lo.

Lorde Vulcan abraçou a filha.

—Você devia ter-nos avisado de sua chegada. Por que veio para casa? Sua mãe e eu recebemos notícias de que você estava adorando toda a agitação da alta sociedade.

—Vim para ver mamãe e o senhor também, claro, papai.

—Por coincidência escrevi uma carta para você e ia remetê-la a Londres justamente hoje. Vamos à biblioteca.

Na biblioteca Caroline sentou-se no sofá perto da janela que olhava para o mar. Esse era seu lugar favorito.

—E tão bom estar em casa, papai— murmurou—, mas que notícia tem para me dar?

—Trata-se de sua mãe— lorde Vulcan respondeu, com expressão grave.

—Mamãe está doente?

—Não exatamente, mas continua com aquela tosse importuna. Sir Henry Halford, médico do Rei, veio vê-la na semana passada e achou que uma mudança de ares lhe faria bem. Decidi passar um ou dois meses com sua mãe na Itália, na região do lago de Como. Partiremos na próxima semana, minha filha.

—Oh, papai, se mamãe não está bem, devo acompanhá-la.

—Sir Henry nos aconselhou a viajar sozinhos e despreocupados. Para ser sincero, faz tempo que desejo ficar a sós com Serena. Nós adoramos você e seus dois irmãos, mas os três são irrequietos demais.

—Ora, papai, francamente!— Caroline exclamou e riu em seguida—, já sei que o senhor pretende ter uma segunda lua de mel. Mas não está um pouco tarde para isso? Afinal, o senhor e mamãe têm uma filha de dezessete anos e dois filhos grandes em Eton.

—Sua mãe e eu não achamos que seja tarde nem nos sentimos velhos— o Marquês protestou—, na verdade, estamos ansiosos para fugir por algum tempo de nossas responsabilidades. Além disso, até agora não me foi possível levar Serena para fora do país. A guerra durou longos anos e quando terminou os filhos sempre interferiram em nossos planos.

—Realmente… nós devemos ser mesmo uma amolação constante para vocês, não?— retrucou Caroline fazendo uma pequena careta.

—Pelo contrário! Vocês são a nossa alegria! Mas admito que os três nos têm deixado apreensivos. A propósito, Caroline, você vai me prometer que não dará o menor aborrecimento à sua mãe.

—Por que eu iria aborrecer mamãe?

—Minha querida, Serena se preocupa demais com você devido a esse seu temperamento irrequieto e impulsivo. Para ser franco, sua mãe acha que se não estivermos por perto você certamente fará suas travessuras.

—Papai! O senhor está sendo muito injusto!

Lorde Vulcan ergueu a mão e seus olhos brilharam.

—Não, filha. Se pensar bem há de reconhecer que nestes anos todos você tem-nos causado grande ansiedade. Agora que está sendo apresentada à sociedade esperamos que não nos dê mais motivos para preocupação.

—Não darei— tomou Caroline com altivez.

—Antes de partir, quero saber se você está com algum problema. Se estiver, confie em mim e não aborreça sua mãe. Fui claro?

—Sim, papai.

—Agora você vai me explicar qual o motivo de ter voltado para casa inesperadamente.

Caroline hesitou. Olhou para o mar enquanto se questionava se devia ou não contar ao pai tudo o que acontecera. Decidiu, por fim, que se o Marquês ficasse sabendo da trama de sir Montagu iria ficar tão zangado que poderia até desafiar o patife para um duelo. Lorde Vulcan presava acima de tudo sua honra e a honra da família. Quanto ao crime cometido para incriminar lorde Brecon, ela não se envolvera e ninguém ficara sabendo de sua verdadeira identidade.

Diante dessas considerações Caroline achou mais prudente esconder a verdade para não preocupar o pai nem deixá-lo furioso. Voltou-se para ele e respondeu com meia-verdade:

—Só vim para casa por que algo me dizia que mamãe não se achava bem. Eu também estava com saudades...

—Sua prima Debby veio também?

—Não, papai.

Lorde Vulcan franziu a testa.

—Então você veio sozinha?

—Sim, papai. Foi uma decisão repentina.

—Caroline, você sabe que não tem permissão de viajar sozinha— lorde Vulcan zangou-se.

Antes que o pai pudesse dizer mais alguma coisa Caroline levantou-se do sofá, correu para ele e o abraçou.

—Por favor, papai, não se zangue comigo. Sei que fui imprudente, mas eu queria vir para casa e Debby é muito complicada. Ela iria querer alguns dias só para fazer a bagagem e organizar seus compromissos. Assim, saí de Londres ontem à noite e aqui estou. Perdoe-me, papai, mas eu estava ansiosa para ver mamãe e o senhor. Como vê, nada me aconteceu e está tudo bem.

—Minha filha, você é mesmo uma garota traquinas— disse lorde Vulcan com um suspiro—, de nada adianta me afirmar que tudo está bem. Sei que algo está errado. Sinto isso no ar, mas não a forçarei a me fazer confidências, minha querida.

—Prometo ser comportada. Não se preocupe comigo. E saiba que estou começando a perceber que meu querido papai é um enganador.

—Enganador?— lorde Vulcan arqueou as sobrancelhas.

—Exatamente. Enquanto vivi nesta casa eu o considerei o melhor pai do mundo, o mais belo e marido exemplar. Em Londres descobri que no passado o senhor foi um grande atirador, um jogador inveterado, incomparável condutor de carruagens e um conquistador que encantava todas as ladies do beau monde, jovens ou velhas. E verdade, não é?

Lorde Vulcan não conteve o riso.

—Quem lhe contou tais histórias, Caroline?

—Diversas pessoas. Sempre que eu faço algo um pouco fora dos padrões normais há sempre alguém que diz: "O que se poderia esperar da filha de Justin?"

—Caroline, meu diabrete, você está inventando tudo isto— o Marquês protestou, porém estava rindo.

—Posso jurar que é verdade. O senhor nem imagina como sua reputação é extraordinária.

—Não vou mentir para você, minha filha. Cometi alguns excessos na mocidade, mas isso foi antes de conhecer sua mãe. Depois que me apaixonei minha vida mudou por completo e tenho sido imensamente feliz com Serena.

—Diga-me, papai, como alguém pode saber que está apaixonado?— Caroline indagou, pensativa.

O Marquês olhou para a filha com muito carinho.

—Minha querida, uma pessoa sabe que está apaixonada quando sente que é capaz de se sacrificar pela pessoa amada, quando não hesita em correr por essa pessoa qualquer risco e sente-se até disposto a morrer por ela.

Caroline beijou o pai e deixou a biblioteca dizendo a si mesma:

«Então o amor é assim!».

CAPÍTULO III

Após ter lido, pela segunda vez, a carta que tinha nas mãos, lady Edgmont dobrou-a, abaixou o lomhão e foi à procura de Caroline. Encontrou-a tocando espineta no salão prata.

—Você recebeu uma carta da Condessa de Bullingham, não Debby?— Caroline perguntou ao ver a ver a prima e chaperon—, quando a correspondência chegou vi o envelope e reconheci a letra da madrinha. O que ela manda dizer?

—Vim até aqui exatamente para falar-lhe sobre a carta— respondeu lady Edgmont em tom grave.

Caroline suspirou.

—Quando você me fala nesse tom sei que algo não vai bem. Diga logo do que se trata— pediu Caroline.

Lady Edgmont, prima do Marquês de Vulcan em segundo grau, mulher de meia-idade, pequenina, de cabelos grisalhos, viúva, estivera casada durante alguns meses com um aristocrata bem mais velho do que ela, mas era a personificação de uma solteirona.

Por ser extremamente honesta, amável, calada, discreta, precisa, meticulosa e conhecedora de todas as regras de etiqueta, o Marquês a escolhera para ser a dama de companhia de Caroline. Para lady Edgmont, que se achava em má situação financeira, a generosa quantia que o primo lhe pagava permitia-lhe ter uma vida confortável novamente. Sua maior preocupação como chaperon da imprevisível e travessa Caroline era não cumprir à risca seu dever e desapontar o Marquês .

—Sua madrinha está zangada, minha querida— disse lady Edgmont.

—Ela se zangou porque voltei para casa inesperadamente?

—Você sabe que não devia ter deixado Londres sem dar explicações nem se despedir.

—Sei. Mas escrevi à madrinha uma longa carta pedindo desculpas. Expliquei que meus pais iam viajar e quis despedir-me deles. Tanto a Condessa como você sabem que mamãe não está bem.

—A verdade não é exatamente essa— disse lady Edgmont em tom reprovador.

—Ora, vamos, Debby. Foi esse o único modo de abrandar a raiva da madrinha.

—Mas há um motivo muito mais sério para a Condessa estar zangada. Francamente, não entendi a que ela se refere.

—Outro motivo? Mas qual? Diga-me o que ela escreveu— Caroline pediu, impaciente.

—Sua madrinha escreveu, "... esses rumores comprometem uma jovem lady na posição de Caroline. Eu bem que a adverti do perigo que corria dando atenção a alguém cujo nome prefiro não mencionar..."

—Rumores? Mas que rumores?— perguntou Caroline, aflita—, continue. O que mais a madrinha escreveu?

—A Condessa acrescentou que infelizmente o Marquês e a Marquesa estão de partida para a Itália. Não fosse isso ela viria conversar com eles sobre esse assunto tão desagradável.

—Era isso que eu temia. Graças a Deus meus pais partirão amanhã cedo e a madrinha não terá chance de visitá-los. Só espero que ela não tenha tido a ideia de escrever para papai também.

—Enfim… você me coloca em cada situação, Caroline— lady Edgmont queixou-se—, não sei ao certo a que a Condessa se refere, mas posso imaginar que você tenha cometido alguma imprudência. Minha obrigação, agora, seria conversar com sua mãe sobre esta carta.

—Nem pense nisso!— Caroline volveu, agitada— mamãe não pode ter aborrecimentos! Se você falar com meu pai ele ficará furioso e mamãe irá perceber que algo errado está acontecendo.

—Só me resta admitir que você tem razão— lady Edgmont cedeu com um suspiro—, por favor, Caroline, a que sua madrinha se refere?

—Não sei nem estou interessada em saber— Caroline encolheu os ombros e disse—, você conhece bem a Condessa. Vamos, Debby, esqueça o assunto. Não pretendo voltar mais a Londres.

—Não?!— repetiu lady Edgmont, perplexa—, ora, Caroline você não pode estar falando sério. Você é a beldade da temporada e aceitou convites para inúmeros bailes.

—Não importa. Já me decidi e não vou mudar de ideia. Os comentários a meu respeito terminarão e ninguém mais se lembrará de mim.

—Mas afinal… que comentários são esses? Por que não é franca comigo, Caroline?

—Eu sei muito bem o que irei fazer…

Debby insistiu, confusa:

—Mas diga-me então… o que aconteceu naquela noite em que você saiu deixando um bilhete mencionando apenas que iria sair em companhia de lady Rohan? Por que razão, voltou para esta casa de noite, sozinha?

—Esqueça o assunto, prima Debby. E uma longa história e não quero aborrecê-la falando sobre ela. Esqueça também que a madrinha lhe enviou essa carta boba. Depois da partida de meus pais vamos fazer nossos planos para o futuro.

—Caroline! Oh, Caroline! Não consigo entendê-la. Volte para Londres. O que irá acontecer com todos os belos cavalheiros que a admiram e cortejam? Eles irão sentir saudades suas, Caroline… ou… pior ainda… eles podem esquecê-la.

—Nenhum deles me interessa!— Caroline rebateu.

—Que tolice está dizendo! Pense no encantador Conde…

—Se você mencionar o nome do Conde de Glosford, sou capaz de gritar! Já chega a insistência da madrinha que o admira só porque aquele tolo presunçoso vai ser um Duque. Nunca encontrei homem tão enfadonho. Cinco minutos em sua companhia me faz bocejar.

O som de uma carruagem chegando interrompeu a conversa das primas. Caroline correu até a janela. Viu um coche azul e prata puxado por quatro magníficos cavalos cinzentos e conduzido por um cocheiro trajando elegante libré nas mesmas cores do coche.

—Oh, que ótimo! Meu querido lorde Milbome veio nos visitar!— Caroline exclamou, afastando-se da janela—, ah, se ele me pedisse em casamento eu o aceitaria cheia de felicidade.

—O que está dizendo? Lorde Milbome é velho demais para você!— disse lady Edgmont, escandalizada.

—Sim, mas é um homem encantador, não um paspalhão como Glosford— retrucou Caroline, desaparecendo do salão.

Quando lorde Milbome desceu do coche, ela já estava do lado dele e atirou-se em seus braços.

—Tio Francis!

—Caroline! Eu não esperava encontrá-la aqui nem ser recebido tão calorosamente. Já fiquei sabendo que você é a debutante mais bela da temporada.

—Lorde Milbome riu antes de perguntar:

—E verdade que os dândis se batem em duelo por sua causa?

—Deixe de brincadeira, tio Francis. Nenhum daqueles jovens cavalheiros é tão atraente quanto o senhor.

—Aduladora!— lorde Milbome acusou-a mas fitava-a com profunda afeição.

Lorde Milbome era o melhor amigo do Marquês de Vulcan e conhecia Caroline desde bebê. Ela o chamava de tio, embora não houve parentesco algum entre ambos. Alto, distinto e elegante, com cinqüenta e dois anos, lorde Milbome era considerado pela. maioria das mulheres um belo cavalheiro. Morava sozinho em Sale Park, belíssima mansão, no campo, cercada de jardins bem cuidados, e administrava com sucesso todas as outras vastas propriedades.

Quando Caroline e lorde Milbome, de braços dados, chegaram ao hall, o Marquês já se achava ali para receber o amigo.

—Bem-vindo a Vulcan Park, Francis! Vamos à sala matinal onde o champanhe nos será servido. Serena está sabendo dè sua chegada e descerá em minutos.

A sala matinal, um cômodo aconchegante e decorado com luxo discreto, abria-se para o jardim de rosas.

—Vai mesmo partir amanhã, Justin?— lorde Milbome indagou.

—Pretendemos partir logo cedo. Atravessaremos o canal até Calais nesse novo vapor que está fazendo a rota há apenas dois meses— elucidou lorde Vulcan.

—Deve ser uma viagem muito confortável e bem mais rápida.

—Serena e eu gostamos de novidade, embora nossa filha considere seus pais velhos e antiquados.

—É verdade, Caroline? A propósito, Justin, estou sabendo que sua filha tem sido aclamada em Londres como a "Incomparável" da temporada. Nos clubes todos falam sobre sua beleza e ela está partindo corações. As mães com filhas solteiras estão mortificadas.

—Tio Francis! O senhor está zombando de mim!— Caroline reclamou.

—Caroline prometeu-me ficar muito comportada enquanto estivermos fora e sua promessa me faz viajar despreocupado— lorde Vulcan dirigiu à filha um olhar significativo. Voltou-se então para o amigo—, quais são as novidades, Francis? Serena e eu esperamos por você, dois dias atrás. O que aconteceu?

—Eu teria, mas cometeram um assassinato no meu distrito.

Ao ouvir isso Caroline ficou rígida.

—Essa é uma das desvantagens de ser juiz supremo — o Marquês observou. —Quem morreu? Algum conhecido?

—Oh, não. Um advogado de nome Isaac Rosenberg foi assassinado no bosque que fica cerca de quatro milhas distante de Sevenoaks. Passei dois dias interrogando as testemunhas.

—O assassino não foi encontrado?

—Ainda não. O mais estranho nesse caso foi que tentaram incriminar o jovem Brecon. Lembra-se do pai desse rapaz, Justin? Homem difícil. Há uns vinte anos tivemos uma desavença. Logo depois disso ele morreu. Hoiive muitos comentários sobre sua morte, mas no momento não me recordo do que diziam.

—Sim, lembro-me do falecido Conde de Brecon. Por que o filho foi acusado de assassinato?

—Bem, não o acusaram, propriamente. Foi tudo muito estranho. Dois homens me disseram que Rosenberg havia marcado um encontro com Brecon na noite do crime. Acredito que ambos foram pagos para acusar o jovem Conde. O acusado, claro, tinha um álibi excelente.

—Por que esse tal Rosenberg marcou um encontro com Brecon?

—Ainda não sei. Nada havia nos bolsos do morto. Um funcionário do escritório de advocacia nos informou que Rosenberg recebera uma carta pela manhã e ficara muito contente. No fim da tarde ele deixou o escritório em uma carruagem de aluguel mas não disse aonde ia.

—Ao que tudo indica você está com um caso difícil nas mãos. Mas aí está nosso champanhe—, alegrou-se o Marquês ao ver o mordomo e dois lacaios entrando na sala com bandejas onde havia, além do champanhe e das taças, vários tipos de frios.

—Quem encontrou o corpo, tio Francis?— indagou Caroline.

—Ah, está interessada no crime? Bem, o assunto não é apropriado para garotas. Mas há uma jovem lady envolvida nesse misterioso assassinato. O corpo

de Rosenberg foi encontrado por sir Montagu Reversby, de quem jamais ouvi falar. Ele disse que nada teve a ver com o crime e que só estava no bosque com dois cavalariços à procura de uma lady.

—Uma lady!— admirou-se o Marquês—, o que estaria uma lady fazendo num bosque, à noite?

—Não faço ideia. Também não sei de quem se trata. Essa mulher deve significar muito para Reversby porque ele ofereceu a cada cavalariço um guinéu, caso a encontrassem.

—Mas o que eles encontraram foi um cadáver— comentou Caroline com um breve riso.

—Sim soa engraçado, não é mesmo? Mas afirmo que há muita coisa envolvendo esse crime— a expressão de lorde Milbome tomou-se bem séria.

—Realmente esse caso é um verdadeiro mistério…

—Acredito que Reversby e seus cavalariços disseram a verdade, eles estavam mesmo querendo encontrar a tal lady. Os outros dois homens, no entanto, me pareceram sinistros. Ficaram sempre repetindo a mesma história, e afirmando que lorde Brecon havia assassinado Rosenberg.

—Mas o senhor disse que lorde Brecon tinha um álibi— lembrou Caroline.

—Sim. Um álibi muito bom, apesar de estranho.

—Estranho? Por quê?— Caroline quis saber.

—Ele declarou ter passado a noite em um acampamento, com o dono de um circo de animais ou coisa parecida. Várias pessoas confirmaram o que ele disse. Pela manhã Brecon foi a Londres, interessado em comprar um cavalo no leilão de Tattersall. Só ontem ouvi seu depoimento e houve concordância com o relato de outras testemunhas.

A resposta fez Caroline respirar aliviada. Escapara por um triz de um escândalo terrível. Sir Montagu não fora implicado no crime, e como lorde Brecon prestara depoimento no dia seguinte àquele em que as outras testemunhas haviam sido ouvidas, certamente não ficara sabendo que sir Montagu estivera procurando por uma lady no bosque.

—Bem, Francis, se Brecon apresentou um bom álibi, por que você parece preocupado com as mentiras ditas contra ele?— inquiriu o Marquês.

—Várias vezes já me questionei sobre isso. Sinceramente, Justin, gostei muito do rapaz. E bem diferente do pai. Tem ótima aparência, é distinto, olha dentro dos olhos da pessoa com quem fala e tem um ar grave, o que falta a esses almofadinhas irresponsáveis que vemos por aí. Posso afirmar que os dois homens que insistem em atribuir o crime a Brecon estão mentindo. Alguém os pagou e os ensaiou para que eles representassem aquela farsa.

—Em outras palavras, você está achando que Brecon tem um inimigo bastante perigoso— deduziu o Marquês.

—Exatamente. O estranho nisso tudo é que o jovem Conde, declarou não suspeitar de ninguém. A seu ver nenhum parente ou conhecido seria capaz de assassinar Rosenberg visando incriminá-lo.

—A que veredicto você chegou?

—Por enquanto, só posso dizer que desconheço o verdadeiro assassino de Rosenberg— lorde Milbome respondeu—, infelizmente, muitos criminosos escapam da justiça e fazem novas vítimas. Mas as investigações continuam.

—Tio Francis, o senhor acredita que o verdadeiro assassino tentará incriminar o Conde de Brecon novamente?— Caroline indagou.

Impaciente demais para ficar sentada ela foi até a janela.

—Acredito e me preocupo com isso, pois gostei do rapaz.

—O senhor pelo menos suspeita de quem possa ser esse perigoso inimigo do Conde de Brecon?

—Sim, claro, mas não tenho provas. Um homem na minha posição deve ter o maior cuidado com o que diz.

—Diga-nos, tio Francis, de quem suspeita?— Caroline pediu.

Pode dizer, Francis. Sabe que está entre amigos— lorde Vulcan encorajou-o.

—Não tenho segredos para você, Justin, mas Caroline vai me prometer guardar segredo. Conheço o perigo da tagarelice feminina.

—Prometo, tio Francis— Caroline disse depressa.

—Pois bem. Vocês sabem que é meu dever ouvir muitas pessoas. No ano passado cansei-me de ouvir queixas sobre um rapaz de nome Gervase Warlingham. Ele parecia estar sempre atrás de irregularidades e trapaças que aconteciam no setor de esportes. Warlingham dopou um cavalo no qual havia apostado, subornou um pugilista para deixar o oponente vencer a luta e andou apostando alto nas mesas de jogo. Suspeito desse rapaz justamente por saber que, além de grande velhaco, é primo de Brecon. No caso da morte deste último, Warlingham herdará o título de Conde e a grande fortuna da família Brecon.

—E como é esse rapaz… Gervase Warlingham?— indagou Caroline.

—Não o conheço pessoalmente. Lembro-me do pai, homem violento e de péssimo gênio.

—Então o senhor acredita mesmo… que Gervase Warlingham, tenha assassinado o Sr. Rosenberg só para conseguir que o primo fosse preso e condenado à forca?— perguntou Caroline cheia de ansiedade.

—Veja bem, Caroline, não ponha palavras em minha boca— lorde Milbome protestou—, eu só disse que suspeitava de Warlingham.

—Ora, minha filha, deixe lá de aborrecer Sua Senhoria— o Marquês interveio—, agora, por favor, vá depressa ver o que aconteceu com sua mãe que ainda não desceu.

Obediente, Caroline deixou a sala. Como encontrou a mãe já descendo a escada, foi para seu quarto. A Marquesa se atrasara por estar supervisionando a arrumação da bagagem. De pé, junto à janela Caroline ficou olhando distraidamente para o mar, pensando no perigo que lorde Brecon estava correndo.

Ela o salvara uma vez e sentia-se na obrigação de adverti-lo, sobre o perigo que ainda corria. Mas como fazer isso?

Pensou em escrever-lhe uma carta. No mesmo instante refletiu que não era tão simples assim. Como explicar que estava a par de tantos detalhes sem trair a confiança que lorde Milbome depositara nela?

Deu um profundo suspiro. Não conseguia esquecer lorde Brecon. Ele era tão diferente dos outros homens. Como era lindo e forte! Porém, de que adiantava sua força contra atos traiçoeiros? Mesmo os homens mais fortes sucumbiram, vítimas de traições.

«Preciso fazer alguma coisa», pensou, determinada.

Nessa noite Caroline ficou acordada durante horas, inquieta, desejando poder falar sobre seus problemas e aconselhar-se com alguém. Reconhecia que cometera uma loucura quando aceitara sair de carruagem sozinha com sir Montagu. Ao mesmo tempo, não se arrependia inteiramente do que fizera.

Se não tivesse ido à estalagem The Dog and Ducky não teria conhecido lorde Brecon nem teria sido beijada por ele. Ao lembrar que ele também beijara com entusiasmo a exótica domadora de tigres, Caroline sentiu uma pontada no peito.

Com sua bela aparência, tendo tanta importância e possuindo valiosas propriedades, lorde Brecon devia ter dezenas, senão centenas de admiradoras.

Pela primeira vez na vida a alegre e despreocupada Caroline Faye, conheceu o ciúme e a amargura, responsáveis pelas olheiras que lhe marcavam o rosto na manhã seguinte. O Marquês e a Marquesa notaram aquele abatimento e atribuíram-no à tristeza que a filha sentia por separar-se deles.

Lady Serena, ao contrário, estava radiante. Aos trinta e seis anos era tão jovem que nem parecia ter uma filha de dezessete anos.

—Façam boa viagem e divirtam-se— Caroline desejou aos pais—, esqueçam tudo o que deixaram para trás e não pensem em mim. Nada me acontecerá.

—Gostaria de ter certeza disso— disse lady Vulcan—, você é uma doçura, filha, mas é também como seu pai.

—E isso não é bom?— indagou a filha com ar brincalhão.

—Há qualidades que ficam bem em um homem, mas não numa mulher. Você herdou a determinação, a coragem e a ousadia de seu pai, quando devia ser dócil e mansa. Devo acrescentar que também é impetuosa e impulsiva. Se quer me ver partir tranqüila, filhinha, prometa-me ser, na minha ausência, inteiramente feminina e suave.

Caroline riu.

—Prometo esforçar-me para ser assim.

O coche partiu e depois de desaparecer de vista, lady Edgmont comentou:

—Espero que nada aconteça aos primos. Eu não me arriscaria a viajar num desses vapores fumegantes nem por cem guinéus.

—Eu adoraria viajar num navio a vapor. Você precisa aceitar o progresso, Debby. Estamos em 1821, não na Idade Média!— achando que poderia ter magoado a prima, Caroline acrescentou em outro tom—, venha comigo. Vou pedir que nos sirvam chocolate e conversaremos sobre o que fazer nos próximos dias.

As duas foram para a sala de desjejum. Logo depois de terem sido servidas, Caroline perguntou distraidamente:

—Você já ouviu falar no Conde de Brecon, Debby?

Foi tão grande a surpresa de lady Edgmont que ela colocou a xícara sobre a mesa com barulho.

—Que pergunta mais estranha! Sabe que ontem pela manhã, juntamente com a carta de sua madrinha, recebi também uma carta vinda do Castelo de Brecon?

—Do Castelo de Brecon?!— Caroline endireitou-se na cadeira—, você conhece alguém desse Castelo?

—Um momento. Tenho a carta comigo— Debby abriu a bolsa de veludo azul e encontrou o envelope que procurava—, deixe-me ver. Sim, é esta a carta. Castelo de Brecon, Cuckhurst, Kent.

—Cuckhurst! E esse o nome da aldeia onde fica o Castelo?

—Creio que sim.

—O que diz a carta e quem a enviou?

—Fanny Hall, uma velha amiga. Na verdade, meu marido era seu parente distante. Fanny é uma pessoa adorável e de família aristocrática. Ela nunca se casou e depois da morte do pai, achando-se em má situação financeira, precisou arranjar um emprego. Faz um ano que ela trabalha no Castelo de Brecon como dama de companhia da viúva Condessa.

—Sim, mas o que sua amiga diz nessa carta?— Caroline perguntou, impaciente.

—Fanny vai deixar o emprego para morar com o irmão que voltou recentemente da Índia, muito rico.

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